sábado, 14 de julho de 2012

O que quebrará o País? | Carta Capital

O que quebrará o País? | Carta Capital

Vladimir Safatle

Educação

09.07.2012 10:50

O que quebrará o País?

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou nos últimos dias que a elevação dos gastos com a educação ao patamar de 10% do Orçamento nacional poderia quebrar o País. Sua colocação vem em má hora. Ele deveria dizer, ao contrário, que a perpetuação dos gastos em educação no nível atual quebrará a Nação.
Alunos de universidades públicas de todo país se reúnem em frente ao Museu Nacional da República para reivindicar uma audiência o ministro da Educação, Aloizio Mercadante. Foto: Agência Brasil
Neste exato momento, o Brasil assiste a praticamente todas as universidades federais em greve. Uma greve que não pede apenas melhores salários para o quadro de professores e funcionários, mas investimentos mais rápidos em infraestrutura. Com a expansão do ensino universitário federal, as demandas de recurso serão cada vez mais crescentes e necessárias. Isto se quisermos ficar apenas no âmbito das universidades públicas.
Por trás de declarações como as do ministro, esconde-se a incompreensão do que é o próximo desafio do desenvolvimento nacional. Se o Brasil quiser oferecer educação pública e de qualidade para todos precisará investir mais do que até agora foi feito. Precisamos resolver, ao mesmo tempo, problemas do século XIX (como o analfabetismo e o subletrismo) e problemas do século XXI (como subvenção para laboratórios universitários de pesquisa e internacionalização de sua produção acadêmica). Por isto, nada adianta querer comparar o nível de gasto do Brasil com o de países com sistema educacional consolidado como Alemanha, França e outros. Os desafios brasileiros são mais complexos e onerosos.
O investimento em educação é, além de socialmente importante, economicamente decisivo. O governo ainda não compreendeu que o gasto das famílias com educação privada é um dos maiores freios para o desenvolvimento econômico. Vivemos em um momento no qual fica cada vez mais clara a necessidade de repactuação salarial brasileira. A maioria brutal dos empregos gerados nesses últimos anos oferece até um salário mínimo e meio. A proliferação de greves neste ano apenas indica a consciência de que tais salários não podem garantir uma vida digna com possibilidade de ascensão social.
Leia também:
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A cultura como campo de combate

Há duas maneiras de aumentar a capacidade de compra dos salários: aumento direto de renda ou eliminação de custos. Nesse último quesito, os custos familiares com educação privada são decisivos. A criação de um verdadeiro sistema público de educação seria o maior aumento direto de salário que teríamos.
O governo teima, no entanto, em não perceber que o modelo de desenvolvimento conhecido como “lulismo” está se esgotando. Lula notou que havia margem de distribuição de renda no Brasil sem a necessidade de acirrar, de maneira profunda, conflitos de classe. De fato, sua intuição demonstrou-se correta. Mas o sucesso momentâneo tende a cegar o governo para os limites do modelo.
Com a ascensão social da nova classe média, as exigências das famílias aumentaram. Elas querem agora fornecer aos filhos condições para continuar o processo de ascensão, o que atualmente passa por gastos em escola privada. Esses gastos corroem os salários, além de pagar serviços de baixa qualidade. A escola brasileira, além de cara comparada a qualquer padrão mundial, é ruim.
É fato que o aumento exponencial dos gastos em educação coloca em questão o problema do financiamento do Estado. Ele poderia ser resolvido se o governo tivesse condição política para impor uma reforma tributária capaz de taxar grandes fortunas, transações financeiras, heranças e o consumo conspícuo para financiar a educação. Lembremos que, com o fim da CPMF, o sistema de saúde brasileiro viu postergado para sempre seus sonhos de melhora.
Tais condições exigiriam um tipo de política que está fora do espectro do lulismo, com suas alianças políticas imobilizadoras e sua tendência em não acirrar conflitos de classe. O Brasil paulatinamente compreende a necessidade de passar a outra etapa e, infelizmente, poucos são os atores políticos dispostos a isto.

Mauro Santayana: O CRIME ORGANIZADO PELOS BANQUEIROS

Mauro Santayana: O CRIME ORGANIZADO PELOS BANQUEIROS

A invenção da moeda, contemporânea à do Estado, foi um dos maiores lampejos da inteligência humana. A primeira raiz indoeuropéia de moeda é “men”, associada aos movimentos da alma na mente, que chegou às línguas modernas pelo verbo sânscrito mányate (ele pensa). Sem essa invenção, que permite a troca de bens de natureza e valores diferentes, não teria havido a civilização que conhecemos.
A construção das sociedades e sua organização em estados se fizeram sobre essa convenção, que se funda estritamente na boa fé de todos que dela se servem. Os estados, sempre foram os principais emissores de moeda. A moeda, em si mesma, é neutra, mas, desde que surgiu, passou a ser também servidora dos maiores vícios humanos. Com a moeda, vale repetir o lugar comum, cresceram a cobiça, a luxúria, a avareza – e os banqueiros.
A moeda, ou os valores monetários, mal ou bem, estavam sob o controle dos Estados emitentes, que se responsabilizavam pelo seu valor de face, mediante metais nobres ou estoques de grãos. Nos tempos modernos, no entanto, a sua garantia é apenas virtual. Os convênios internacionais se amarram a um pacto já desfeito, o Acordo de Bretton Woods, de 1944. A ruptura do contrato foi ato unilateral dos Estados Unidos, sob a presidência Nixon, ao negar a conversibilidade em ouro do dólar, moeda de referência internacional pelo Acordo.
Essa decisão marca o surgimento de uma nova era, em que o valor da moeda não se relaciona com nada de sólido. Os bancos, ao administrá-la, deveriam conduzir-se de forma a merecer a confiança absoluta dos depositantes e dos acionistas, e assegurar essa mesma confiabilidade às suas operações de crédito. O papel social dos bancos é o de afastar os usurários e agiotas do mercado do dinheiro. Mas não é desta forma que têm agido, sobretudo nestes nossos tempos de desmantelamento dos estados.Hoje, não há diferença entre um Shylock shakespereano e qualquer dirigente dos grandes bancos.
Na Inglaterra, o escândalo do Barclays, que se confessou o primeiro banco responsável pela manipulação da taxa Libor, provocou o espanto da opinião pública, mas não dos meios financeiros que não só conheciam o deslize, como dele se beneficiavam.
Segundo noticiou ontem El Pais, os dois grandes executivos da Novagalícia, surgida da incorporação de duas instituições oficiais da província galega – a NovaCaixa e a Caixa Galícia – e colocada sob o controle de Madri em setembro do ano passado, pediram desculpas aos seus clientes, por ter a instituição agido mal. Entre outros de seus malfeitos, esteve o de enganar pequenos investidores mal informados, entre eles alguns analfabetos, com aplicações de alto risco, ou seja, ancoradas em débitos podres, as famosas subprimes, adquiridas dos bancos maiores que operam no mercado imobiliário do mundo inteiro.
Além disso, os antigos responsáveis por esses desvios, deixaram seus cargos percebendo indenizações altíssimas. E os novos administradores tiveram sua remuneração reduzida, por serem as antigas absolutamente irracionais. Com todas essas desculpas, a Novagalícia quer uma injeção de seis bilhões de euros, a fim de regularizar a sua situação.
Este jornal reproduziu, ontem, artigo de The Economist, a propósito da manipulação da taxa Libor, por parte do Barclays, e disse, com a autoridade de uma revista que sempre esteve associada à City, que não há mais confiança nos maiores bancos, do mundo, como o Citigroup, o J.P.Morgan, a União de Bancos Suíços, o Deutschebank e o HSBC. Executivos desses bancos, de Wall Street a Tóquio, estão envolvidos na grande manipulação sobre uma movimentação financeira total de 800 trilhões de dólares.
Para entender a extensão da falcatrua, o PIB mundial do ano passado foi calculado em cerca de 70 trilhões de dólares, menos de dez por cento do dinheiro que circulou escorado na taxa manipulada pelos grandes bancos. A Libor, sendo a taxa usada nas operações interbancárias, serve de referência para todas as operações do mercado financeiro.
O mundo se tornou propriedade dos banqueiros. Os trabalhadores produzem para os banqueiros, que controlam os governos. E quando, no desvario de sua carência de ética, e falta de inteligência, os bancos investem na ganância dos derivativos e outras operações de saqueio, são os que trabalham, como empregados ou empreendedores honrados, que pagam. É assim que estão pagando os povos da Grécia, da Espanha, de Portugal, da Grã Bretanha, e do mundo inteiro, mediante o arrocho e o corte das despesas sociais, pelos governos vassalos, alem do desemprego, dos despejos inesperados, das doenças e do desespero, a fim de que os bancos e os banqueiros se safem.
Se os governantes do mundo inteiro fossem realmente honrados, seria a hora de decidirem, sumariamente, pela estatização dos bancos e o indiciamento dos principais executivos da banca mundial. Eles são os grandes terroristas de nosso tempo. É de se esperar que venham a conhecer a cadeia, como a está conhecendo Bernard Madoff. Entre o criador do índice Nasdaq e os dirigentes do Goldman Sachs e seus pares, não há qualquer diferença moral.
Os terroristas comuns matam dezenas ou centenas de cada vez. Os banqueiros são responsáveis pela morte de milhões de seres humanos, todos os anos, sem correr qualquer risco pessoal. E ainda recebem bônus milionários.

>>Missão cumprida>>O próximo escândalo | OI no Rádio | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito

>>Missão cumprida>>O próximo escândalo | OI no Rádio | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Por Luciano Martins Costa em 13/07/2012 no programa nº 1848 | 0 comentários
Missão cumprida
Agora é oficial: os jornais desta sexta-feira, dia 13, consideram encerrado o caso Demóstenes-Cachoeira.
Para quem está habituado a ler nas entrelinhas, o contexto é relativamente fácil de entender. Após a notícia da cassação do senador, o assunto literalmente desaparece das primeiras páginas ou passa a segundo plano.
Em seu lugar, escândalos de reserva, como a denúncia contra empreiteiros que atuaram em obras do ex-prefeito Paulo Maluf, em São Paulo, no começo dos anos 1990, ou a requentada história das propinas pagas aos ex-dirigentes da Fifa e da CBF João Havelange e Ricardo Teixeira.
Para que não se diga que a imprensa abandonou rapidamente o caso assim que saiu de cena o incômodo ex-aliado, restam ainda algumas reportagens confirmando que Demóstenes Torres reassumiu o cargo de procurador da Justiça em Goiás e que seu sucessor, Wilder Morais, suplente indicado pelo bicheiro Carlos Cachoeira, será chamado a dar explicações ao seu partido, o Democratas.
Outro envolvido no esquema montado pelo bicheiro, o deputado Carlos Alberto Leréia, cuja cassação foi recomendada pela Corregedoria da Câmara, será julgado pela comissão de ética de seu partido, o PSDB.
Em editorial, o Estado de S. Paulo alerta para o fato de Carlos Cachoeira manter alguma influência no Senado, embora considere improvável que Morais venha a assumir o papel de “despachante de luxo” do bicheiro em lugar de Demóstenes.
Mas tudo indica que o fogo vai ser reduzido e o suplente vai virar senador.
A Folha de S. Paulo assume, em editorial e em reportagem, que a CPI Demóstenes-Cachoeira está em refluxo.
Citando o episódio que virou anedota na internet, quando o site do Senado  noticiou a cassação de Demóstenes Torres ainda antes da votação, o jornal sugere que o portal da Câmara já pode preparar a manchete: “CPI do caso Cachoeira dá em nada”.
Na reportagem, a Folha reafirma que, com a cassação de Demóstenes, o recesso parlamentar e a proximidade das eleições municipais, a tendência é o arrefecimento do ímpeto investigatório.
Outra razão é o fato de que não têm aparecido novas gravações de conversas comprometedoras de Carlos Cachoeira com outros políticos.
Como se sabe, o poder de investigação da imprensa se limita quase exclusivamente à reprodução de gravações.
O próximo escândalo
Claro que ainda falta muito a esclarecer nas relações do bicheiro com a empreiteira Delta, principalmente para explicar o fenomenal desempenho da empresa em obras públicas pelo Brasil afora, tanto por meio de contratos com o governo federal quanto em iniciativas de estados e prefeituras.
Mas não parece haver força política interessada em levar adiante tal investigação.
Assim, consolida-se como fato corriqueiro o misterioso processo pelo qual a corrupção só acontece no lado dos representantes do poder público, mas nunca aparece o dono do dinheiro que corrompe.
No caso Demóstenes-Cachoeira, ficou claro que os recursos do jogo clandestino e de outras origens ainda não reveladas eram lavados em doações para campanhas eleitorais, com o compromisso de retribuição sob a forma de obras e serviços superfaturados.
Mas ainda que as evidências dessa triangulação Demóstenes-Cachoeira-Delta sejam explícitas até mesmo para um distraído leitor de jornais, não parece haver muita curiosidade entre os parlamentares e na própria imprensa em ver esclarecido esse enredo.
Mesmo porque a proximidade de novas eleições deveria estar estimulando os jornalistas a tentar identificar nas campanhas em curso o vírus do financiamento irregular, que pode vir a gerar novos escândalos amanhã ou depois.
Sem essa vontade de investigar, não há como conter o incessante ingresso de bandidos na vida pública – por causa das restrições impostas pela lei da Ficha Limpa, pode estar acontecendo até mesmo uma renovação nas quadrilhas já estabelecidas, com o lançamento de futuros Demóstenes na carreira parlamentar.
Assim, esta sexta-feira, 13, tem todos os ingredientes para prenunciar dias ainda mais obscuros para a política.
Registre-se que, com todas as evidências de que os esquemas seguem atuantes nas campanhas eleitorais, não há como fugir à constatação de que os jornais não estão realmente interessados em denunciar o sistema.
As redações parecem aliviadas por ver fora de cena o ex-senador que um dia foi sua principal fonte de informações, especulações, suspeitas e denúncias contra desafetos políticos da própria imprensa.
Agora é esperar o próximo escândalo.

A imbecilização do mundo | Carta Capital

A imbecilização do mundo | Carta Capital

Mino Carta

Editorial

13.07.2012 10:44

A imbecilização do mundo

Os mais celebrados mestres da culinária vanguardista, ou seja, aqueles que empregam produtos da Nestlé e figuram em uma classificação anual divulgada pela revista Restaurants (20 mil exemplares de tiragem, destinada aos refinados do mundo), acabam de encerrar em Copenhague um simpósio exaltante. Festa entre amigos, corrente da felicidade, rea­lizada à sombra do Noma, primeiro da lista da Restaurants, do chef René Redzepi. Entre as novidades apresentadas, formigas vivas nutridas com citronela e coentro, de sorte a assumir um gosto suavemente acidulado, para o agrado de todos os paladares, segundo os participantes do evento. Cuja contribuição à imbecilização global é de evidência solar.
Há atenuantes. A quem interessa ler a Restaurants qual fosse o Novíssimo Testamento ou comer formigas vivas, ou até espuminhas de camarão, a preços estratosféricos, está claro? A minoria de imbecilizados, é a conclusão inescapável, em um mundo onde a pobreza fermenta e muitos morrem de fome. Mundo capaz de grandes progressos científicos, presa, ao mesmo tempo, de uma crise econômica monstruosa, provocada pela sanha de poucos em detrimento dos demais semelhantes. Bilhões.
As atenuantes, como se vê, são medíocres, embora não exija esforços mentais brutais perceber que imbecil é quem come formigas vivas em lugar de um mero trivial. Somos o que comemos, dizem os sábios, donde a inevitabilidade das ilações quando se multiplicam as provas da cretinização global. Neste mar a vanguarda da gastronomia ao alcance dos bolsos recheados é um lambari.
O Brasil não escapa, e nem poderia. Somos uma nação vincada pela ignorância e pela prepotência da minoria reacionária, a preferir que as coisas fiquem como estão para ver como ficam e a reputar sagrada a classificação da Restaurants. Aqui manda a moda, mas, neste mar, a dita cultura de massa é o próprio vento a enfunar as velas. Sem contar a desorientação diante do mistério da vida e o medo da morte. Deixarei de falar de esperanças impossíveis. Vou para miudezas, de certa forma, para falar de situações recentes. E então, digamos, Anderson Silva.
É brasileiro o número 1 do MMA, o vale-tudo do octógono, a luta que assinala o retorno aos gladiadores. Li, pasmem, na primeira página do Estadão. Só falta o Coliseu. Também faltam os leões, mas não nos surpreenderemos se, de uma hora para outra, irromperem na arena. Os índices de audiência são altíssimos, obviamente, e haverá quem se ufane de ser brasileiro ao se deparar com a ferocidade de Anderson, nosso Hércules. E fique feliz porque a transmissão do MMA iguala o Brasil aos Estados Unidos e ao Japão. No resto dos países tidos como civilizados, a luta é proibida.
Vale recordar que a tevê nativa ostenta tradições valiosas. Por exemplo: o nosso Big Brother, ao repetir experiências globais, bate recordes de grosseria. Acrescentem-se os programas populares do fim de semana, os seguidores do Homem do Sapato Branco e os tempos da celebração da dança da garrafinha em horário nobre. Aproveito para sublinhar que a pensata “nobre” me deslumbra.
A aposta na parvoíce da plateia é constante. Inesgotável. Praticada pela mídia nativa com singular esmero, produziu o efeito de comprometer a saúde intelectual dos seus autores. Não fogem do destino inúmeros políticos, vitimados por sua própria incompetência. Permito-me escalar nestas linhas o presidente do PT, Rui Falcão, e o novo presidente da CUT, Vagner Freitas. Em perfeita sintonia, ambos anunciam sua inconformidade em relação ao possível “julgamento político do mensalão”. Peculiar visão, a dos cavalheiros acima. O processo tem e terá inevitáveis implicações políticas, e não cabe a eles exercer qualquer gênero de pressão sobre o Supremo.
Enquanto evita-se discutir com toda legitimidade uma questão premente, isto é, a inegável suspeição quanto à participação do julgamento do ministro Gilmar Mendes, Falcão e Freitas oferecem munição de graça à mídia nativa, ela mesma tão interessada em politizar o processo. Os meus melancólicos botões garantem que os políticos de antanho, vários bem mais à esquerda dos senhores citados, eram também mais espertos.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

A taxa de juros e a doença holandesa — Portal ClippingMP

A taxa de juros e a doença holandesa — Portal ClippingMP

A taxa de juros e a doença holandesa

Autor(es): Adalberto Cardoso
Valor Econômico - 12/07/2012
 

Na segunda metade da década de 2000 foi intensa a discussão entre economistas e jornalistas especializados sobre estarmos ou não sofrendo da chamada "doença holandesa". O termo não faz justiça aos holandeses, mas generalizou-se como conceito aplicável a situações de desindustrialização resultante da apreciação cambial provocada pela exportação de commodities. O caso holandês é tomado como expressão típica disso. Nos anos 1960 o país descobriu grandes jazidas de gás natural, que rapidamente se tornou seu principal produto de exportação, provocando longeva entrada de dólares, o que levou à valorização do florim e à perda de competitividade de sua indústria, e consequente desindustrialização.
Autores como Luiz Carlos Bresser-Pereira e Antônio Delfim Netto não têm dúvidas de que o Brasil vive sua doença holandesa. O aumento acentuado do preço das commodities (soja, carnes de todo tipo, minérios, celulose, madeira, açúcar...) exportadas pelo Brasil ao longo da década de 2000, responsável pelo boom exportador que sustentou o crescimento econômico e a redução de nossa estrutural fragilidade externa até pelo menos 2010, teria provocado excessiva e duradoura valorização cambial, gerando aqui o mesmo efeito do gás natural na Holanda: desestruturação da malha industrial, com perda importante de elos da cadeia produtiva; aumento da dependência de importações para suprimento da indústria sobrevivente, com impactos negativos sobre a balança comercial setorial; perda de competitividade internacional dos produtos; enfim, desindustrialização.
Entrou mais dólar no país pela aplicação em títulos da dívida pública do que pela exportação de commodities
A controvérsia em torno do tema é grande, já que outros autores (como Maílson da Nóbrega, por exemplo) argumentam na direção contrária. Para eles, as cadeias de produção de commodities têm efeitos positivos sobre diversos segmentos da malha industrial e de serviços, além de gerar as divisas de que o país precisou para honrar seus compromissos nos últimos anos.
Seja como for, parece fora de dúvidas que a indústria brasileira vive momento complicado. Em maio de 2012, segundo dados do IBGE, o setor industrial como um todo havia acumulado perda de 1,76% em 12 meses. A queda fora maior em setores como têxtil (13,1%) vestuário (10,4%) calçados e artigos de couro (9,3%), máquinas e equipamentos de informática para escritório e máquinas e aparelhos de material elétrico (mais de 7% cada), mais sensíveis à competição externa, principalmente da China. Malgrado a crise internacional, que contribui para o fraco desempenho dos segmentos exportadores da indústria nacional, talvez seja mesmo o caso de que a taxa de câmbio tenha ficado por tempo demais abaixo do que os especialistas consideram "taxa de equilíbrio", isto é, algo em torno de R$ 2,00 por dólar, com isso provocando por aqui os sintomas da doença holandesa.
Nos debates sobre nossa possível doença, contudo, costuma-se mencionar apenas a crescente especialização da pauta exportadora e o preço das commodities como causas da apreciação do câmbio. Quase nunca se menciona a taxa de juros como fator de atração de capital, o que não deixa de ser espantoso, já que o país praticou as maiores taxas de juros do mundo por uma década e meia. E os números são portentosos.
Segundo dados do Banco Central, entre janeiro de 1996 a maio de 2012 investidores estrangeiros, aplicaram a bagatela de US$ 420 bilhões (em valores de maio de 2012, atualizados pelo INPC) em títulos da dívida pública brasileira (sobretudo em renda fixa), títulos lastreados, portanto, nas taxas de juros oficiais. A exportação de produtos básicos no mesmo período atingiu a cifra de US$ 850 bilhões, também em valores atualizados. Logo, entraram no país, pela porta da dívida pública interna, metade de tudo o que país exportou em commodities em 15 anos. A taxa de juros atraiu, sozinha, mais dólares do que cada commodity em particular. E vale notar que o investimento dos brasileiros em renda fixa limitou-se a US$ 46 bilhões, ou pouco mais de 10% do que os estrangeiros aplicaram.
Outro dado relevante: no mesmo período o Brasil pagou a esses investidores (repita-se, em sua imensa maioria estrangeiros), na forma de juros sobre a dívida interna, nada mais nada menos que US$ 1,4 trilhão, o que equivalia a duas vezes o PIB da Holanda de 2010, e a 65% do PIB brasileiro de maio de 2012, ainda segundo dados do Banco Central. A taxa de juros funcionou, portanto, como uma draga de duas bocas, que injetou recursos por uma porta e sugou riqueza nacional pela outra.
Sugou, sobretudo, recursos que poderiam ter sido canalizados para o investimento em infraestrutura por exemplo, reconhecido gargalo que aumenta os custos e reduz competitividade da indústria. Portos, estradas, ferrovias, aeroportos, refinarias de petróleo, metrôs e também pessoal qualificado de nível superior, jovens e adolescentes formados em escolas públicas de qualidade, hospitais mais bem equipados, médicos e professores melhor remunerados, tudo isso virou fumaça na draga reversa dos juros altos. Juros, aliás, que consumiram o equivalente a três vezes o orçamento do Ministério da Saúde entre 1996 e 2011, e a cinco vezes o orçamento do Ministério da Educação no mesmo período.
A analogia com a doença holandesa, portanto, escamoteia um elemento central de nossa própria "doença", mesmo que seu efeito desindustrializante ainda precise ser provado: por aqui, a pressão sobre o câmbio decorreu tanto da sobrevalorização das commodities (que em 2011 representaram 50% da renda proveniente de exportações) quanto das altas taxas de juros, praticadas por período longo demais. Estas últimas ainda tiveram o custo adicional de sugar a riqueza gerada localmente, o que limitou a capacidade de investimento do Estado visando o bem estar da população e maior eficiência do investimento produtivo.
Adalberto Cardoso é doutor em sociologia, professor e pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ).

O Mercosul na pauta da velha imprensa | Carta Capital

O Mercosul na pauta da velha imprensa | Carta Capital

De par com a uniformidade ideológica de direita – ou seja, a inexistência do contraditório requerido pela democracia –, salta à vista a desconexão entre o interesse nacional e a mesquinhez editorial da grande imprensa brasileira.
Quando escrevo, nas linhas acima, “interesse nacional”, refiro-me, inclusive, aos interesses mais imediatos do empresariado. Do descompasso entre a chamada mídia e a nação, exemplo irretorquível é a campanha contra o ingresso da Venezuela no Mercosul, acesso o qual, sabem até os contínuos das redações, é do maior interesse para a economia brasileira e atende a necessidades geopolíticas nossas. É isso mesmo: o Brasil, mercê de sua extensão territorial, dos seus recursos naturais e da sua população, tem interesses geopolíticos legítimos; ademais, é a principal economia do continente. Gostem ou não os órfãos da política da subalternidade e as viúvas do alinhamento automático do Brasil aos interesses das grandes potências. Essa realidade, da qual evidentemente decorrem novas exigências, é incompatível com o “complexo de vira-lata” que domina a visão de mundo de nossas elites alienadas. A visão que elas têm de nosso povo e de nosso projeto de nação, uma nação que não poderia dar certo porque colonizada por portugueses de cabelos pretos e olhos escuros e não por franceses e holandeses. Povo que não poderia ansiar pela grandeza porque formado por europeus de segunda classe, índios preguiçosos e negros nostálgicos.
Por que, contrariando nossos interesses econômicos e políticos, essa “grande imprensa”, reflexa, combate o ingresso no Mercosul da terceira economia continental, uma das maiores reservas petrolíferas do mundo e o terceiro mercado consumidor da região? Na Venezuela, país ao qual me refiro, aliás, já operam inumeráveis empresas brasileiras, e para suas importações se voltam as esperanças da indústria manufatureira nacional, como alternativa às crises europeia e norte-americana – sim, por incrível que pareça, a crise é deles, do “pessoal de olhos azuis” como muito bem grafou o presidente Lula. Em resumo, é do interesse da economia brasileira, mais do que de todas as demais economias da região e do bloco, a expansão do Mercosul e nele o ingresso da Venezuela, já aprovado, antes da reunião de Mendonza, pelos parlamentos de Brasil, Argentina e Uruguai. Mas esse interesse não é só das empresas estritamente brasileiras (indústrias, construtores, bancos), pois é do interesse óbvio das multinacionais aqui instaladas, vez que elas atuam no Mercosul e em alguns casos com maior desenvoltura do que nossos empresários.
Mas os jornalões são contra.
Por quê?
No caso da incorporação venezuelana, simplesmente alegam que não gostam do sr. Hugo Chávez Frías, que amanhã, tragado pela tragédia biológica ou pela derrota eleitoral, pode não ser mais presidente da República Bolivariana da Venezuela. E, em qualquer hipótese, não mais o será daqui a seis anos, o que é um nada na vida das nações e do próprio Mercosul. E, afinal, para nossa direita caolha, o sr. Chávez é tão relevante que se torna mais importante do que seu próprio país?
Nossa velha imprensa se volta contra os interesses da economia brasileira porque as quatro famílias que controlam a opinião publicada não toleram Chávez, seja porque é criolo, seja porque é anti-americanista, seja porque é nacionalista, seja porque é falastrão, seja porque é “ditador”, seja porque ganha muitas eleições, seja por isso ou por aquilo. Não gostam e pronto. O motivo aparente é irrelevante, porque não passa de pretexto para a postura reacionária que, no extremo ideológico, não tem dúvidas de postar-se contra o interesse nacional quando este, ainda que de leve, de raspão mesmo, parece não coincidir com os interesses do mercado dos EUA.
Por isso mesmo são contra a política externa brasileira e para criticá-la têm sempre à mão meia dúzia de diplomatas de pijama, magoados, ressentidos, frustrados entre a pequenez pessoal e a grandeza de uma política que, na profissão, não souberam honrar. E essa gente pequena, loquaz, escrevente, está sempre nas páginas gráficas e na tevê, para dizer docilmente o que a pauta da mídia lhes encomenda. São os “especialistas” de que a grande imprensa carece para abonar sua pauta reacionária. Exemplar desse desserviço é um ex-embaixador fernandohenriquenho em Washington, em boa hora afastado da sinecura pelo presidente Lula, e agora aboletado pelo sr. Skaf na Fiesp para deitar regras contra o interesse nacional e perorar que a indústria paulista, em crise auto-anunciada, não precisa do mercado venezuelano.
Leia também:
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Foram os mesmos “especialistas” a serviço da mesma imprensa que decretaram o fracasso da Rio+20 antes de sua realização, fracasso simples de vaticinar: ora ela seria organizada pelos diplomatas tupiniquins, no governo Dilma, no Brasil e no Rio de Janeiro…
Não poderia dar certo. Mas deu. Que se há-de fazer? Continuar dizendo que não deu certo, ora bolas. Se a versão ideológica se choca com a realidade, às favas com esta.
Mas nossa imprensa tampouco gosta de Evo Morales, nem de Rafael Correa, nem de Cristina Fernandez, como não gostavam de Lugo, embora fosse simpática a Uribe, como chegou a ser de Fujimori quando o larápio, antes de ser pego com a mão na botija, era o implacável carrasco da esquerda peruana. Que haverá de comum entre esses governantes (Morales, Correa e o defenestrado Lugo) para atrair a má-vontade das quatro famílias? O fato de serem todos homens do povo, isto é, estranhos aos estratos dominantes, incrustados no poder há 500 anos? O fato de haverem chegado aos respectivos governos no cume de processos sociais caracterizados pela emergência das grandes massas? Ou porque todos estão comprometidos com a defesa da soberania de seus países?
Nos primeiros minutos, para logo corrigir-se, a imprensa nativa ecoou a correta postura do governo brasileiro de condenação do golpe de Estado parlamentar que destituiu a soberania do povo paraguaio e cassou – na 24ª tentativa! – o mandato de Fernando Lugo, golpe levado a bom termo pela aliança entre os Colorados (60 anos de poder) e os Liberais de seu vice, unificados, no esforço por restabelecer o modelo de país atrasado e de povo pobre. A partir do momento em que Brasil, Uruguai e Argentina consolidaram o ingresso da Venezuela, os humores mudaram. O golpe contra o Paraguai, um repeteco do golpe da “Justiça” hondurenha (em cujo episódio a diplomacia brasileira teve desempenho igualmente correto), traz para nosso continente a instabilidade com a qual, há tantos anos, os interesses forâneos o vinham alimentando, com golpes e contra-golpes e ditaduras, como a ditadura paraguaia de Stroessner, tão bem compreendida pela “imprensa livre”.
Seja qual for a opinião de cada um de nós sobre Chávez, o fundamental é que o ingresso da Venezuela no MERCOSUL é do nosso maior interesse político e econômico: em 2010, enquanto exportamos para a Venezuela U$ 4.592 milhões, importamos apenas U$ 1.266 milhões. Do total de nossas exportações (alô, sr. Skaf!), 65% foram manufaturados, 32% produtos básicos e 3% semi-manufaturados (dados: Secex/MDIC). Esta é a realidade: as relações comerciais se dão entre Estados e não entre governos O resto é mesmo cretinice ou picaretagem.

“O socialismo é uma doutrina triunfante” | Brasil de Fato

“O socialismo é uma doutrina triunfante” | Brasil de Fato

sábado, 7 de julho de 2012

Os mensalões, um comparativo | Carta Capital

Os mensalões, um comparativo | Carta Capital

Os mensalões, um comparativo

Por coincidência, justamente quando o julgamento do mais famoso “mensalão”, que alguns chamam “do PT”, foi marcado, a Procuradoria-Geral da República encaminhou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) sua denúncia contra os acusados de outro, o “mensalão do DEM” do Distrito Federal.
Processos contra os 40 réus do chamado mensalão. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr
Trata-se mesmo de um acaso, pois a única coisa que os dois compartilham é o nome. Equivocado por completo para caracterizar o primeiro e inadequado para o segundo.
Naquele “do PT”, nada foi provado que sugerisse haver “mensalão”, na acepção que a palavra adquiriu em nosso vocabulário político: o pagamento de (gordas, como indica o aumentativo) propinas mensais regulares a parlamentares para votar com o governo. No outro, essa é uma das partes menos importante da história.
Alguns acham legítimo – e até bonito – empregar a expressão como sinônimo genérico de “escândalo” ou “corrupção”, mas isso só distorce o entendimento. O que se ganha ao usar mal o português? No máximo, contundência na guerra ideológica. Chamar alguma coisa de “mensalão” (ou adotar neologismos como “mensaleiro”) tornou-se uma forma de ofender.
Fora o nome errado igual, os dois são diferentes.
Ninguém olha o “mensalão” de Brasília como se tivesse significado especial. É somente, o que não quer dizer que seja pouco, um caso de agentes políticos e funcionários públicos, associados a representantes de empresas privadas, suspeitos de irregularidades.
Por isso, se o STJ acolher a denúncia, o processo terá tramitação normal. Sem cobranças para que ande celeremente. Sem que seja pintado com cores mais fortes que aquelas que já possui. Sem que se crie em seu torno um clima de “julgamento do século” ou sequer do ano.
É provável que aconteça com ele o mesmo que com outro mais antigo, o “mensalão do PSDB”. Esse, que alguns dizem ser o “pai de todos”, veio a público no mesmo período daquele “do PT”, mas avança em câmera lenta. Está ainda na fase de instrução, sem qualquer perspectiva de julgamento.
Por que o que afeta o PT é mais importante?
A resposta é óbvia: porque atinge o PT. Se os “mensalões” da oposição são tratados como secundários e se outros são irrelevantes (como os que a toda hora são noticiados em estados e municípios), deveria existir no do PT algo que justifique tratamento diferente.
Há quem responda com uma frase feita, tão difundida, quanto vaga: seria o “maior escândalo da história política brasileira”. Repetida como um mantra pelos adversários do PT, não é substanciada por nenhuma evidência, mas circula como se fosse verdade comprovada.
“Maior” em que sentido? Os recursos públicos movimentados seriam maiores? Mais gente estaria envolvida?
É difícil para quem lê as alegações finais do Ministério Público Federal (MPF) compreender o montante que em sua opinião teria sido desviado e como. O documento é vago e impreciso em algo tão fundamental.
Essa indefinição pode ser, no entanto, positiva: deixa a imaginação livre. Qualquer um pode inventar o valor que quiser.
O “mensalão do DEM”, ao contrário, tem tamanho especificado: 110 milhões de reais. Nele, o MPF não se confundiu com as contas.
Se o critério para considerar maior o petista for a quantidade de envolvidos, temos um curioso empate: dos 40 acusados originais, número buscado pelo MPF apenas por seu simbolismo, restam 37, tantos quanto os denunciados no escândalo de Brasília.
E há diferenças notáveis. No “mensalão do DEM”, os agentes públicos foram citados por desviar dinheiro para enriquecimento pessoal, o que, em linguagem popular, significa roubar. No “do PT”, nenhum.
De um lado, valores certos, acusados em número real, motivações inaceitáveis. Do outro, o oposto.
Quando o procurador-geral declarou que “a instrução comprovou que foi engendrado um plano criminoso para a compra de votos dentro do Congresso Nacional”, esqueceu que nem sequer uma linha de suas alegações o demonstrou. Arrolou 12 deputados (quatro do PT), que equivalem a 2% da Câmara, número insuficiente para sequer presumir que houvesse “um esquema de cooptação de apoio político”, a menos que inteiramente inepto.
No caso de Brasília, nada está fantasiado, é tudo visível, o que não significa que tenha sido provado de forma juridicamente correta.
No fundo, essa é a questão e a grande diferença entre os dois. Quando a hora chegar, o “mensalão do DEM” deverá, ao que tudo indica, ser analisado de maneira técnica. Se o “do PT” o fosse, pouco da acusação se sustentaria.
Tomara que os ministros do STF consigam independência para julgá-lo de maneira isenta, livres das pressões dos que exigem veredictos condenatórios.

Periodista acusa a Lino de pedir soborno por ingreso de Venezuela

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Amigos de golpe paraguaio não desistem

Amigos de golpe paraguaio não desistem

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É tão difícil defender o golpe de Assunção que seus aliados procuram dizer que o ingresso da Venezuela no Mercosul representa a mesma coisa.
É duro de acreditar.
Ocorreu em Assunção um clássico golpe parlamentar, estratégia que sempre fez parte dos movimentos contra a democracia no Continente mas nem sempre foi fácil de realizar.
Em 1973, a CIA despejou milhões de dólares no Chile – a confissão é de William Colby, diretor da agência na época – para ajudar a oposição parlamentar a derrubar Salvador Allende. Num país onde a constituição exigia uma votação de dois terços para o impeachment, a ideia era reunir votos para destituir o presidente depois das eleições ocorridas no fim de 1972. Mas Allende cresceu e a oposição mudou de estratégia. Foi bater à porta dos quartéis.
Em 1962, quando a Casa Branca decidiu apoiar o golpe que derrubou João Goulart, a primeira iniciativa foi assinar um cheque de 5 milhões de dólares para os parlamentares e senadores de oposição. Era tanto dinheiro que se transformou num escândalo, que terminou em CPI, sobre a direção do deputado Rubens Paiva.
Em 64, quando os tanques derrubaram Goulart, um Congresso amolecido e comprado declarou que a “presidência estava vaga” e assim deu posse a Ranieri Mazzili, laranja que antecedeu a posse de Castelo Branco.
A entrada da Venezuela tem, obviamente, outra origem. Não envolve a soberania de um país. O Mercosul é um acordo comercial.
A Venezuela vinha negociando legitimamente seu ingresso no Mercosul. Todos os países haviam cumprido o ritual para permitir sua entrada. Isso aconteceu porque há um interesse comum entre as partes.
Com uma economia de US$ 350 bilhões, ou dez vezes o Paraguai, a Venezuela é um parceiro que interessa aos vizinhos – e vice-versa. O petróleo venezuelano é e será cada vez mais essencial para o desenvolvimento da região.
O mercado interno daquele país é um destino privilegiado para as exportações brasileiras, que ali garantem um importante superávit comercial.
Se você pensa que alianças regionais são um estratégia adequada para enfrentar o mundo globalizado, deve concluir que o único problema do ingresso da Venezuela no Mercosul é que ele deveria ter acontecido muito antes.
Quem era contra o ingresso da Venezuela?
Apenas o senado do Paraguai, o mesmo que derrubou um presidente eleito soberanamente pela população e não tem compromissos maiores com o desenvolvimento regional. O país tem uma imensa dependência dos vizinhos, mas a parceria estratégica de suas oligarquias se encontra em Washington.
E era por essa aliança que o senado paraguaio barrava a entrada da Venzuela no Mercosul.
De olho nas reservas de petróleo, a Casa Branca não tem o menor interesse em assistir o ingresso da Venezuela numa aliança regional da qual não faz parte.
E por essa razão pressiona os aliados preferenciais para manter a Venezuela à distância de seus vizinhos, usando para isso o fantasma de Hugo Chávez, a quem pretende isolar de todas as formas depois que fracassou no golpe militar-televisivo de 2002.
Ao derrubar Lugo, os golpistas paraguaios se excluíram do Mercosul e suas cláusulas democráticas. Na véspera da encenação parlamentar, a oposição foi informada pelos governos vizinhos do vexame a que estava se submetendo – e tinha ciência do que poderia acontecer.
Mas foi em frente, imaginando que poderia derrubar um presidente e correr para o abraço. Calculava, certamente, que era apenas blefe e, mais tarde, tudo terminaria em pizza.
Mas não. Sem retaliações econômicas, os vizinhos resolveram punir o governo politicamente.
O ingresso da Venezuela no Mercosul foi a única consequência prática que os golpistas receberam por seu gesto. É uma lição para quem não respeita a democracia.
Como é que alguém pode achar ruim?