domingo, 14 de outubro de 2012

Fogos de artifício - | Observatório da Imprensa | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito

Fogos de artifício - | Observatório da Imprensa | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Por Mauro Malin em 14/10/2012 na edição 715
A Veja tem o direito de fazer uma capa ginasianamente comemorativa do andamento da Ação Penal do Mensalão. Isso é opção editorial. Dá à revista feição de órgão partidário, ou melhor, de sucedâneo de partido. Pode ser um problema para os donos da revista. Não um problema legal. A liberdade de expressão, garantida no famoso artigo 5º da Constituição, é cláusula pétrea. Pode ser um problema mercadológico, associado ao desgaste de credibilidade que tais opções tendem a provocar.
Para a qualidade do jornalismo brasileiro, é problema. Não a comemoração da condenação dos réus do mensalão, que valida, na mais alta instância do Judiciário, as denúncias de que a mídia foi veículo, contra ventos e marés dos poderosos de plantão desde 2005 (Dilma Rousseff, registre-se, não externou publicamente críticas à imprensa ou ao Judiciário desde que, em 31 de outubro de 2010, foi proclamada eleita para a presidência da República).
Horizonte limitado
O que se questiona é uma certa limitação de horizontes. Uma capa assim não deveria ser reservada para acontecimentos historicamente mais relevantes? Muito concretamente, por exemplo, uma melhora sensível da qualidade da educação pública, batalha em que o país é derrotado há três décadas.
“Arquive suas ilusões, escrevinhador “ – dirá o leitor com os pés bem plantados no chão e a cabeça firme em cima do pescoço.
Está certo. O sensacionalismo, embora seja fenômeno universal (mas não onipresente) da mídia jornalística, agora mais pressionada do que nunca na disputa pela atenção pública, não dispensa a visão de curto prazo. Ao contrário: é instrumento dela.
Pode-se até sonhar que a melhora da qualidade da educação tornará o público-alvo de Veja – camadas conservadoras da classe média – menos receptivo a manifestações de espalhafato. O que tornaria dispensável uma tão colorida capa. Mas isso é pura especulação.
Omissões
Em tempo: registre-se que as reportagens a que remete a capa não adotam o tom de réveilon fora de hora, embora omitam muita coisa relevante, antes de tudo a trajetória que levou Marcos Valério à desastrada associação com o PT.
Sim, leitor atento, trata-se do que impropriamente se anda denominando “mensalão do PSDB”, que teve entre seus supostos agenciadores, é bom não esquecer, Walfrido dos Mares Guia, vice-governador de Minas Gerais eleito com Eduardo Azeredo em 1994 e duas vezes ministro (Turismo e Relações Internacionais) do presidente Lula.

Fotografo, logo existo - Reproduzido do Valor Econômico, 5/10/2012; intertítulos do OI | Observatório da Imprensa | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito

Fotografo, logo existo - Reproduzido do Valor Econômico, 5/10/2012; intertítulos do OI | Observatório da Imprensa | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Por Adriana Abujamra em 09/10/2012 na edição 715
Reproduzido do Valor Econômico, 5/10/2012; intertítulos do OI
Venina Furlan Zoppe, a dona Nena, já viveu muitas histórias em seus 82 anos, mas tem poucas fotografias. Esquecidos no fundo do armário, dois saquinhos plásticos dão conta de guardar as recordações em papel dessa senhora. Sua neta Gabriela Freitas tem 16 anos e centenas de imagens digitais espalhadas pelas redes sociais – ela acredita que fotos são feitas para compartilhar. Já dona Nena acredita que fotos são feitas para lembrar o passado. Quando jovem, conheceu um roceiro em Boa Esperança do Sul, no interior de São Paulo. Seu pai desaprovou o romance. Em vão. “Ali a gente se gostou, se conheceu, se namorou, se fugiu e se casou”, diz. É com essa frase sucinta que descreve uma parte de sua vida que, apesar de não ter sido fotografada, ainda resiste em vívidas imagens na memória.
“Câmera era cara. Nós, lá no interior, não tínhamos. Apenas com meus filhos mais mocinhos é que apareceram essas coisas diferentes”, diz dona Nena. “Momentos de fotografia dá para contar nos dedos. Era sempre em ocasiões especiais, quando os parentes se reuniam nas férias ou para comemorar batizados, aniversários e Natal.” É um mundo inimaginável para Gabriela. Com o celular, ela fotografa todos os dias e posta as imagens nas redes de relacionamentos. É um diário visual, mas público. “Tiro foto já pensando em compartilhar. Não é só para mim, senão seria sem graça”, afirma Gabriela. “Ela adora tirar fotos na frente do espelho fazendo biquinho”, conta sua mãe, Rosângela.
A produção fotográfica atual é quantitativamente alucinante e sua circulação é garantida pelas novas plataformas tecnológicas. Só o Instagram – aplicativo que permite tirar e compartilhar fotos com filtros especiais entre amigos em redes sociais – tem 30 milhões de usuários.
A dependência do olhar alheio
“Curtiram, logo existo.” A frase, uma distorção de “penso, logo existo”, máxima do filósofo francês René Descartes (1596-1650), é um retrato da nossa era, segundo Jorge Forbes, psicanalista lacaniano e médico psiquiatra que estuda as novas formas de viver na pós-modernidade. “Palavras não são necessárias. Posto uma foto, mesmo sem legenda, e o outro curte. Basta”, afirma. Forbes garante que somos passageiros de uma mudança de paradigma estratosférica. Na faculdade, o psicanalista aprendeu a diagnosticar como autista as pessoas que não falavam com outras. Caso ainda se pautasse por esse critério, Forbes teria que enquadrar todo mundo, como em O Alienista (1882), de Machado de Assis (1839-1908).
Foi essa observação que levou Forbes a pesquisar os jovens. “Há um curto-circuito da palavra. O que existe, hoje, são monólogos articulados”, afirma. “Uma coisa é falar sozinho e estar isolado; outra é falar sozinho e estar agrupado. Todas as pessoas que conseguirem inventar a articulação de monólogos terão um grande sucesso. O Facebook e o Instagram são maneiras de articular monólogos.” Compartilhar fotos compulsivamente e querer que os amigos virtuais “curtam” é um fenômeno novo.
No entanto, depender do olhar do outro para assegurar a própria identidade é um fenômeno que remete aos primórdios da constituição do indivíduo. O bebê quando nasce, já dizia o psicanalista francês Jacques Lacan (1901-1981), precisa do olhar dos pais para começar a existir. Isso funciona como um espelho – a imagem devolvida pelo olhar do outro é um alimento psíquico imprescindível – que lhe dará aos poucos uma identidade. Uma rápida passeada pelas redes sociais mostra que as pessoas costumam usar os posts para falar e colocar fotos de si mesmas. A dependência do olhar alheio persiste nos adultos.
“Quem tinha uma loja passou a ter duas, três”
Quando foi criada, em 1839, e ainda durante muitas décadas, a fotografia dependia de um aparato complicado que demandava o comando de um profissional. No Brasil imperial (1822-1889), por exemplo, os fotógrafos instalavam-se em hotéis onde recebiam a clientela. Os serviços mais comuns eram os retratos para enviar como lembrança e compor álbuns a serem expostos nas mesas das salas de estar. Entre 1910 e 1950 os lambe-lambes estavam em vários jardins públicos mundo afora. Eram profissionais que tiravam fotos comercialmente, em uma época em que uma máquina fotográfica era algo de difícil acesso por seu alto valor comercial. Os clientes usavam suas melhores roupas de fim de semana para o retrato.
Foi somente quando as câmeras ficaram mais portáteis e fáceis de manusear é que as pessoas sem nenhuma especialização na área passaram a fazer as próprias fotos. Por volta dos anos 1980, com a difusão das câmeras de plástico, a fotografia realmente se popularizou. “Você aperta o botão e nós fazemos o resto”, dizia o slogan da Kodak que correu o mundo, dando oportunidade para a fotografia estar ao alcance de milhões de pessoas. Os amadores tornavam a atividade corriqueira em festas de família, aniversários e férias.
Quem faz parte dessa geração é a filha de dona Nena, Rosângela Freitas, de 52 anos. Ela tem, por exemplo, um bolo de fotos bem maior que o da mãe. São seis caixas grandes, além de vários álbuns, fotos avulsas, polaroides e minimonóculos. “Gosto de pegar os álbuns e passar o domingo relembrando”, diz Rosângela. Ela recorda como era emocionante levar os filmes para revelar. “A gente ficava ansioso. Quando eu ia buscar as fotos reveladas, nem esperava para chegar em casa e já ia olhando.”
Até por volta de 1990 era preciso esperar entre quatro dias e uma semana para revelar as fotos, diz Ilse Martins, que administra com um primo uma loja de revelação e produtos fotográficos em um shopping de São Paulo. A década de 1990 trouxe a grande novidade: era possível revelar as fotos em apenas uma hora. “Era uma festa. Quem tinha uma loja passou a ter duas, três”, relembra Ilse. Foi nessa febre que ela e o primo decidiram entrar no ramo e abrir a loja, apesar da forte concorrência. “O mercado de revelação de fotos estava aquecido. Segunda-feira era o dia de maior movimento, no mínimo uns 150 rolos de filmes.” A situação era melhor ainda em períodos de férias. Mas a festa logo foi perdendo o embalo.
Os prisioneiros iraquianos torturados
“As câmeras digitais foram uma novidade que se inseriu aos poucos. No início [começo dos anos 2000], muita gente ainda usava só a máquina tradicional. Até 2004 era híbrido. Em 2008 terminou de vez”, diz Ilse. Duas das lojas de revelação do shopping fecharam e a tradicional rede Fotoptica perdeu o “p” e mudou de ramo em 2008, deixando de trabalhar com fotografias e passando a vender óculos. A revelação de fotos analógicas, que respondia por 95% do faturamento de Ilse, hoje mal beira os 2%. A trilha sonora para a mudança de cenário poderia ser “Desafinado” (Tom Jobim/Newton Mendonça): “Fotografei você na minha Rolleiflex/ Revelou-se a sua enorme ingratidão”.
Ronaldo Entler, professor e coordenador de pós-graduação da Faculdade de Comunicação e Marketing da Faap, reconhece que a fotografia digital causou impacto profundo na nossa relação com as imagens. No entanto, ressalta que a mudança no sistema de codificação – na forma de inscrição da imagem num suporte – não é o mais importante. “Profissionais e amadores passaram dos equipamentos analógicos para os digitais sem grandes sobressaltos”, afirma Entler. “Nesse processo, o mais importante é a possibilidade de difusão da fotografia pelas redes e a presença da câmera nos celulares. Isso sim transformou a prática dos profissionais e amadores, o mercado, as formas de circulação e recepção de fotografia.”
Atualmente, o fotógrafo que se desloca para cobrir um grande acontecimento, seja no outro lado do mundo seja no bairro ao lado, é facilmente antecedido por inúmeros amadores munidos de câmeras digitais e celulares que já terão colocado suas fotos na internet. Há uma produção excessiva de imagens, muitas descartáveis, mas, se não fossem as facilidades técnicas, as cenas de prisioneiros iraquianos sendo torturados na prisão de Abu Ghraib não seriam conhecidas pelo grande público, por exemplo. Aquilo só foi possível porque soldados americanos munidos de câmeras digitais colocaram as imagens na internet, em 2004. Do mesmo modo, flagrantes reveladores da Primavera Árabe em 2010 foram feitos por amadores. A democratização que permite a qualquer pessoa se tornar um repórter é tão forte que celulares também foram adotados por profissionais, criando um novo padrão para a fotografia.
“Hoje, todo mundo faz igual aos japoneses”
Qualquer pessoa munida de um celular com câmera é um paparazzo em potencial. Rosângela, a filha de dona Nena, almoçava com amigas em um restaurante quando entrou o ex-jogador de futebol Ronaldo. Ela quis tirar uma foto com o grupo, mas teve o pedido negado. Uma das colegas de Rosângela, ignorando o desejo do astro de não ser importunado no meio da refeição, sacou seu celular e disparou um clique. Logo em seguida, postou a imagem no Facebook. Alguns minutos depois, a filha de Rosângela, que estava em casa, telefonou. “Mãe, não acredito. Você está com o Fenômeno?”, perguntava a garota.
Hoje a fotografia é uma arte, presença constante em museus conceituados. Quando surgiu, no entanto, teve esse status negado. Críticos argumentavam que a arte deveria ser única, enquanto a fotografia podia ser reproduzida em série. Superada a questão, grandes nomes, como Henri Cartier-Bresson (1908-2004), surgiram e fizeram da fotografia uma das mais celebradas manifestações artísticas da humanidade. Atualmente em São Paulo 60% das galerias são híbridas – vendem fotografias e obras em outros suportes. Muitos artistas plásticos incorporam a fotografia em seu trabalho.
Diante do excesso de imagens no mundo, Rosângela Rennó é uma fotógrafa que praticamente não fotografa. Ela opta por debruçar-se sobre álbuns e arquivos esquecidos ou rejeitados que garimpa em feiras de antiguidade. “É um princípio de economia. Se não é necessário fotografar, por que fazê-lo?”, afirma. A artista mineira já produziu trabalhos a partir de arquivos de famílias, de negativos do Museu Penitenciário Paulista ou retratos 3x4 adquiridos em estúdios populares e lambe-lambes. “Já fizemos muitas piadas com os turistas japoneses que tiravam fotos de tudo”, diz Rosângela. “É porque eles tinham dinheiro e acesso à tecnologia. Hoje todo mundo faz igual aos japoneses e ninguém diz nada. Todos têm um celular.”
“É uma ilusão patológica”
“Fotografia tinha a ver com raridade. Hoje, com banalidade”, afirma Rubens Fernandes Junior, curador, professor e diretor da Faap, que há três décadas se dedica ao tema. Para ele, as fotografias nas redes sociais são o grande espelho contemporâneo e funcionam como um certificado de presença. Do prato de comida ao rótulo de vinho, tudo é motivo para registrar e compartilhar. “É como se dissessem: ‘Eu estou comendo’, ‘Eu estou me divertindo’.”
Os turistas, em sua maioria, sentem-se compelidos a colocar a câmera entre eles e tudo que encontram pelo caminho. A experiência é convertida em uma imagem, um suvenir. Um dos jovens alunos do professor fez um vídeo com turistas italianos em visita ao Rio. No último dia, o rapaz perguntou a um deles do que tinha mais gostado na cidade. “Vou olhar as minhas fotos e depois te digo”, respondeu o italiano. “Esse turista não teve uma experiência com a paisagem porque estava fotografando para mostrar aos amigos – que provavelmente não vão ver a imagem”, diz Fernandes Junior. “Ele deveria ter contemplado a paisagem, mas não contemplou.” Em suas aulas, o professor ensina um truque para seus alunos não caírem nesse vício da fotografia compulsiva. Quando viaja, ele compra dez cartões-postais da cidade onde está e de seus pontos turísticos. Isso o desobriga a ter essa espécie de certificado de presença (“Estive na Torre Eiffel”, “Vi a Estátua da Liberdade”).
Na mesma lógica compulsiva, é comum encontrar pessoas que, durante um show de música, passam a maior parte do tempo fotografando o evento, em vez de assistir à apresentação. A primeira explicação para o fato, segundo o antropólogo Roberto DaMatta, é básica: falta de educação. A outra, mais profunda, é que essas pessoas estão fotografando na tentativa de capturar e segurar o instante. “É uma ilusão patológica, onipotente, que crê que aquele momento não será perdido, não acabará. Uma arma contra a consciência de finitude. É inútil”, afirma o antropólogo.
“As imagens produzem uma interlocução entre tempos”
“Perde-se a emoção de se deixar penetrar pelo artista. Grava-se, fotografa-se, para nunca mais se ver. Fotografia, como é feita agora, é uma dessas revoluções absurdas, enormes, que a gente nem percebe.” DaMatta, de 76 anos, é do tempo em que compartilhar uma foto tinha um significado muito especial. “Ganhar uma foto 3x4 de uma moça era sinal de interesse, motivo para sair dando saltos para trás.” O antropólogo diz, no entanto, que a fotografia nos dá o retrato dos nossos mortos – uma maneira, ainda que ilusória, de guardar os entes queridos por perto.
Em tempos antigos era costume fotografar os mortos. No Nordeste, fotógrafos especializados eram chamados quando alguém que não tinha um retrato morria. Nessas ocasiões, eles eram tão importantes quanto o padre que fazia a reza. Com a foto, estava garantida ao menos uma imagem eterna. O profissional clicava o morto e depois fazia os retoques necessários. Com um pincel abria-lhe os olhos para lhe dar um aspecto de vida.
“Todas as imagens são potencialmente memoráveis”, diz o professor Ronaldo Entler. “Uma ou duas dessas imagens perdidas na rede de vez em quando encontram um olhar carregado de curiosidade e de afeto”, afirma Entler. “É fácil olhar para uma imagem do passado e explicar por que ela sobreviveu. Elas produzem uma interlocução entre tempos. Mas é impossível traduzir isso numa fórmula que permita prever quais fotografias de hoje alcançarão essa condição no futuro. Não imagino que estejamos em condição de sugerir o que as pessoas devam ou não fotografar ou o que não deveriam compartilhar. O presente nunca está em plena condição de dizer para que servem suas imagens.”
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[Adriana Abujamra, do Valor Econômico]

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O discurso do senador

Por Cesar Vanucci em 09/10/2012 na edição 715
“Usa-se uma entrevista que não houve para, mais uma vez, tentar indigitar o ex-presidente.” [Senador Roberto Requião (PMDB-PR)]
O pronunciamento do senador Roberto Requião, solidarizando-se com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva diante da avalancha de insultos pesados com que vem sendo alvejado por parte de alguns oposicionistas e de grupos midiáticos poderosos, faz por merecer uma boa reflexão. O ex-governador do Paraná é veemente nas afirmações. Colocando pingos nos iis, assegura que os ataques são ditados por oportunismo, irresponsabilidade, ciumeira e ressentimento. Acrescenta que os responsáveis pela desabrida campanha são pessoas que jamais “desculparão” a chegada “do retirante nordestino à Presidência da República”. “A ascensão do metalúrgico talvez fosse aceita, mas não a do pau-de-arara! Este, não!”, exclama.
Contundência não falta, é de se ver, no discurso. Mas contundência também não tem faltado, verdade seja dita, em manifestações da mídia anotadas, como exemplos, por Requião, por ele classificadas de desrespeitosas e grosseiras ao ex-presidente e à atual chefe da nação. Um lance específico, da mais pura baixaria, é mencionado. “Por vários dias, a nossa gloriosa grande mídia deu enorme destaque às peripécias de uma pobre mulher, certamente drogada, certamente alcoolizada, certamente deficiente mental, que teria tentado invadir o Palácio do Planalto, dizendo-se ‘marido’ da presidente.” Requião conta que “sem qualquer pudor, sem o menor traço de respeito humano”, jornal de grande circulação nacional transformou “a infeliz em personagem, em celebridade”, chegando mesmo ao absurdo de “destacar repórter para ‘entrevistar’ a mãe da tal mulher, meu Deus!”
Não foi pouco
Na avaliação do ex-governador do Paraná, o que parece menos contar hoje, na oposição, são os partidos, bastante fragilizados. “O que mais conta, o que pesa mesmo, o que é significante, é a mídia”. Ou seja, segundo suas palavras, um seleto grupo de jornais, televisões e rádios “que consome mais de 80% cento das verbas estatais de propaganda”. Acentua, a esse respeito, que um “conjunto de articulistas e blogueiros desfrutáveis” responde na atualidade pela “posição oposicionista nos meios de comunicação”. Usa “uma entrevista que não houve para, mais uma vez, tentar indigitar o ex-presidente”. Recorda o senador que, anteriormente, “tivemos o famosíssimo grampo sem áudio”, que levou a uma situação bastante hilária: “A transcrição do áudio inexistente mostrava-se extremamente favorável aos grampeados.” Acrescenta: “Um grampo a favor. E sem áudio. Lembram? Houve até quem quisesse o impeachment de Lula pelo grampo sem áudio e a favor dos grampeados. Houve até quem ameaçasse bater no presidente.”
Às tantas de sua fala, reportando-se à circunstância de que seu mandato como governador coincidiu com o período dos oito anos da gestão Lula, Roberto Requião faz questão de sublinhar que, “por diversas vezes, inúmeras vezes, manifestei discordância com sua forma de governar, com suas decisões ou indecisões, especialmente em relação à política econômica, à submissão do país ao capitalismo financeiro, aos rentistas.” Mas isso, garante, não o impede, agora, de reconhecer que “não foi pouco o que Lula fez para os pobres”. “Apenas corações empedrados por privilégios de classe, apenas almas endurecidas pelos séculos e séculos de mandonismo, de autoritarismo, de prepotência e de desprezo pelos trabalhadores podem explicar esse combate contínuo aos programas de inclusão das camadas mais pobres dos brasileiros ao maravilhoso mundo do consumo de três refeições ao dia”, assevera, na complementação dessa parte das considerações.
Reflexão aprofundada
A crítica do senador ao comportamento escancaradamente hostil de boa parte da mídia a Lula e Dilma – mídia essa que finge não saber da simpatia e gratidão que a grande maioria da sociedade brasileira comprovadamente devota a ambos – volta-se para dois aspectos bem sugestivos. Um deles: revelam-se assustadores os “pontos de contato entre o jornalismo e o colunismo de antes de 64 e o jornalismo e o colunismo político dos dias de hoje”. O outro aspecto reportado diz respeito a comparações entre o que se tenta fazer agora com Lula, por conta das políticas sociais, com o que se tentou fazer, no passado, com Vargas, “quando criou a CLT, o salário mínimo, as férias e descanso remunerados, a previdência social”, ou com Juscelino, “quando ele decidiu afrontar o FMI e suas infamantes condições para liberação de financiamento”. Todos esses governantes foram falsa e impiedosamente acusados pela mídia de ações de improbidade.
Arremata o parlamentar: “Qualquer coisa que beneficie os trabalhadores, que dê um sopro de vida e de esperança aos mais pobres, que compense minimamente os deserdados e humilhados, qualquer coisa, por modesta que seja, que cutuque os privilégios da casa grande, é imediatamente classificada como populismo.”
As palavras de Requião são de molde a fomentar discussões acaloradas. Mas também chamam todos os militantes da nobre atividade da comunicação social a uma reflexão aprofundada sobre o sentido da missão institucional que lhes toca no contexto político do país.
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[Cesar Vanucci é jornalista, Belo Horizonte, MG]

O dia em que o jornalão virou tabloide - | Observatório da Imprensa | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito

O dia em que o jornalão virou tabloide - | Observatório da Imprensa | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Por Alberto Dines em 11/10/2012 na edição 715

Uma capa histórica na edição de quarta-feira (10/10) da Folha de S.Paulo (ver aqui). Numa única edição, aquele que pretende ser “um jornal a serviço do Brasil” despencou no abismo da paranoia, da irresponsabilidade e prestou um enorme desserviço à formação cívica do leitor.
A condenação pelo Supremo Tribunal Federal de José Dirceu e da antiga cúpula do PT levou os responsáveis pela edição a perderem o senso de medida e os compromissos dos jornalistas em preservar sua dignidade e a dos personagens que circulam em suas páginas.
Puro hooliganismo: o jornal vilipendiou uma tragédia política, acirrou rancores, transformou um julgamento exemplar num rififi futebolístico, pisoteou os padrões de decência do nosso jornalismo, inclusive a célebre entrevista de Roberto Jefferson à repórter Renata Lo Prette – hoje na GloboNews – que marcou o início do escândalo do mensalão.
Tarefa contínua
Quando Richard Nixon e Fernando Collor foram obrigados a renunciar para não serem escorraçados da Presidência, os jornais que os derrubaram comportaram-se com mais compostura e respeito. Não se bate no adversário caído, isso sabem até os palhaços das artes marciais que a Folha tanto incentiva.
O rosto de José Dirceu deformado pela luz sobre um fundo escuro, tétrico, esticado para ocupar toda a largura da primeira página, acrescido de um título em letras garrafais (“Culpados”), é o escracho em estado puro, sensacionalismo, versão tupiniquim do tabloidismo murdoquiano e do canibalismo político.
A foto havia sido feita três dias antes, já fora publicada, não acrescentava qualquer informação, não escondia o desejo de avacalhar.
A exibição de perversidade da Folha contrasta vivamente com a capa sutil e inteligente do Globo sugerindo o início efetivo da primavera brasiliense: enorme arco-íris sobre a Praça dos Três Poderes, com a estátua da Justiça em primeiro plano.
O Estado de S.Paulo foi fleumático, solene, como convém a essas circunstâncias: título breve (“Supremo condena Dirceu”), foto também de arquivo, mas sem deformações.
Jornalismo é um exercício contínuo de decência – a Folha deveria debruçar-se sobre este tópico na próxima edição do seu Manual de Redação.

A direita que ri | Revista Fórum

A direita que ri | Revista Fórum

A direita que ri
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Ao invés de ficar cacarejando ódio e ressentimento nas redes sociais, a direita nacional deveria projetar minimamente para o futuro as consequências dessas jurisprudências de ocasião
Por Leandro Fortes, publicado no Facebook
Tenho acompanhado nas redes sociais, desde cedo, e sem surpresa alguma, o êxtase subliterário de toda essa gente de direita que comemora a condenação de José Dirceu como um grande passo civilizatório da sociedade e do Judiciário brasileiro. Em muitos casos, essa exaltação beira a histeria ideológica, em outros, nada mais é do que uma possibilidade pessoal, física e moral, de se vingar desses tantos anos de ostracismo político imposto pelas sucessivas administrações do PT em nível federal. Não ganharam nada, não têm nada a comemorar, na verdade, mas se satisfazem com a desgraça do inimigo, tanto e de tal forma que nem percebem que todas essas graças vieram – só podiam vir – do mesmo sistema político que abominam, rejeitam e, por extensão, pretendem extinguir.
José Dirceu, como os demais condenados, foi tragado por uma circunstância criada exclusivamente pelo PT, a partir da posse de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, data de reinauguração do Brasil como nação e república, propriamente dita. Uma das primeiras decisões de Lula foi a de dar caráter republicano à Polícia Federal, depois de anos nos quais a corporação, sobretudo durante o governo Fernando Henrique Cardoso, esteve reduzida ao papel de milícia de governo. Foi esta Polícia Federal, prestigiada e profissionalizada, que investigou o dito mensalão do PT.
(Felipe Sampaio SCO/STF)
Responsável pela denúncia na Procuradoria Geral da República, o ex-procurador-geral Antonio Fernando de Souza jamais teria chegado ao cargo no governo FHC. Foi Lula, do PT, que decidiu respeitar a vontade da maioria dos integrantes do Ministério Público Federal – cada vez mais uma tropa da elite branca e conservadora do País – e nomear o primeiro da lista montada pelos pares, em eleições internas. Na vez dos tucanos, por oito anos, FHC manteve na PGR o procurador Geraldo Brindeiro, de triste memória, eternizado pela alcunha de “engavetador-geral” por ter se submetido à missão humilhante e subalterna de arquivar toda e qualquer investigação que tocasse nas franjas do Executivo, a seu tempo. Aí incluída a compra de votos no Congresso Nacional, em 1998, para a reeleição de Fernando Henrique. Se hoje o procurador-geral Roberto Gurgel passeia em pesada desenvoltura pela mídia, a esbanjar trejeitos e opiniões temerárias, o faz por causa da mesma circunstância de Antonio Fernando. Gurgel, assim como seu antecessor, foi tutelado por uma política republicana do PT.
Dos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal, seis foram indicados por Lula, dois por Dilma Rousseff. A condenação de José Dirceu e demais acusados emanou da maioria destes ministros. Lula poderia, mas não quis, ter feito do STF um aparelho petista de alto nível, imensamente manipulável e pronto para absolver qualquer um ligado à máquina do partido. Podia, como FHC, ter deixado ao País uma triste herança como a da nomeação de Gilmar Mendes. Mas não fez. Indicou, por um misto de retidão e ingenuidade, os algozes de seus companheiros. Joaquim Barbosa, o irascível relator do mensalão, o “menino pobre que mudou o Brasil”, não teria chegado a lugar nenhum, muito menos, alegremente, à capa de um panfleto de subjornalismo de extrema-direita, se não fosse Lula, o único e verdadeiro menino pobre que mudou a realidade brasileira.
O fato é que José Dirceu foi condenado sem provas. Por isso, ao invés de ficar cacarejando ódio e ressentimento nas redes sociais, a direita nacional deveria projetar minimamente para o futuro as consequências dessas jurisprudências de ocasião. Jurisprudências nascidas neste Supremo visivelmente refém da opinião publicada por uma mídia tão velha quanto ultrapassada. Toda essa ladainha sobre a teoria do domínio do fato e de sentenças baseadas em impressões pessoais tende a se voltar, inexoravelmente, contra o Estado de Direito e as garantias individuais de todos os brasileiros. É esperar para ver.
As comemorações pela desgraça de Dirceu podem elevar umas tantas alminhas caricatas ao paraíso provisório da mesquinharia política. Mas vem aí o mensalão mineiro, do PSDB, origem de todo o mal, embora, assim como o mensalão do PT, não tenha sido mensalão algum, mas um esquema bandido de financiamento de campanha e distribuição de sobras.
Eu quero só ver se esse clima de festim diabólico vai ser mantido quando for a vez do inefável Eduardo Azeredo, ex-governador de Minas Gerais e ex-presidente do PSDB, subir a esse patíbulo de novas jurisprudências montado apenas para agradar a audiência.

Dois veteranos do jornalismo analisam as particularidades do julgamento do mensalão pelo STF

Dois veteranos do jornalismo analisam as particularidades do julgamento do mensalão pelo STF

Dois veteranos do jornalismo analisam as particularidades do julgamento do mensalão pelo STF

Postado por Juremir em 14 de outubro de 2012 - Política
É preciso render homenagem aos grandes.
Carlos Heitor Cony e Janio de Freitas têm muita bala na agulha.
Janio tem sido o melhor analista do julgamento do mensalão pelo STF desde o primeiro dia.
Não cai no ideologismo nem na análise folhetinesca de heróis e vilões ao estilo Veja.
Cony destila a sua leve ironia.
Ambos cravam o olho nas cantradições.
Note-se a sutileza e o equilíbrio de tom, marcados por um suave ceticismo, no melhor estilo machadiano, e uma boa dose de sabedoria de quem já viu de tudo e de todos os lados,  quando comparados com a truculência dogmática de lacerdinhas como Reinaldo Azevedo ou de antas babando ideologia como o quilométrico global Merval Pereira.
*
Janio de Freitas
A mesada e o mensalão
Passados sete anos, ainda não se sabe quanto houve de mentira na denúncia inicial de Roberto Jefferson
A mentira foi a geradora de todas as verdades, meias verdades, indícios desprezados e indícios manipulados que deram a dimensão do escândalo e o espírito do julgamento do “mensalão”.
Por ora, o paradoxo irônico está soterrado no clima odiento que, das manifestações antidemocráticas de jornalistas e leitores às agressões verbais no Supremo, restringe a busca de elucidação de todo o episódio. Pode ser que mais tarde contribua para compreenderem o nosso tempo de brasileiros.
Estava lá, na primeira página de celebração das condenações de José Dirceu e José Genoino, a reprodução da primeira página da Folha em 6 de junho de 2005. Primeiro passo para a recente manchete editorializada -CULPADOS-, a estonteante denúncia colhida pela jornalista Renata Lo Prete: “PT dava mesada de R$ 30 mil a parlamentares, diz Jefferson”. O leitor não tinha ideia de que Jefferson era esse.
Era mentira a mesada de R$ 30 mil. Nem indício apareceu desse pagamento de montante regular e mensal, apesar da minúcia com que as investigações o procuraram. Passados sete anos, ainda não se sabe quanto houve de mentira, além da mensalidade, na denúncia inicial de Roberto Jefferson. A tão citada conversa com Lula a respeito de mesada é um exemplo da ficção continuada.
A mentira central deu origem ao nome -mensalão- que não se adapta à trama hoje conhecida. Torna-se, por isso, ele também uma mentira. E, como apropriado, o deputado Miro Teixeira diz ser mentira a sua autoria do batismo, cujo jeito lembra mesmo o do próprio Jefferson.
Nada leva, porém, à velha ideia de alguém que atirou no que viu e acertou no que não viu. A mentira da denúncia de Roberto Jefferson era de quem sabia haver dinheiro, mas dinheiro grosso: ele o recebera. E não há sinal de que o tenha repassado ao PTB, em nome do qual colheu mais de R$ 4 milhões e, admitiria mais tarde, esperava ainda R$ 15 milhões. A mentira de modestos R$ 30 mil era prudente e útil.
Prudente por acobertar, eventualmente até para companheiros petebistas, a correnteza dos milhões que também o inundava. E útil por bastar para a vingança ou chantagem pela falta dos R$ 15 milhões, paralela à demissão de gente sua por corrupção no Correio. Como diria mais tarde, Jefferson supôs que o flagrante de corrupção, exibido nas TVs, fosse coisa de José Dirceu para atingi-lo. O que soa como outra mentira, porque presidia o PTB e o governo não hostilizaria um partido necessário à sua base na Câmara.
Da mentira vieram as verdades, as meias verdades e nem isso. Mas a condenação de Roberto Jefferson, por corrupção passiva, ainda não é a verdade que aparenta. Nem é provável que venha a sê-lo.
MAIS DEDUÇÃO
Em sua mais recente dedução para voto condenatório, o presidente do Supremo, Ayres Britto, deu como certo que as ações em julgamento visaram a “continuísmo governamental. Golpe, portanto, nesse conteúdo da democracia que é o republicanismo, que postula renovação dos quadros de dirigentes”.
Desde sua criação e no mundo todo, alcançar o poder, e, se alcançado, nele permanecer o máximo possível, é a razão de ser dos partidos políticos. Os que não se organizem por tal razão, são contrafações, fraudes admitidas, não são partidos políticos.
Sergio Motta, que esteve politicamente para Fernando Henrique como José Dirceu para Lula, informou ao país que o projeto do PSDB era continuar no poder por 20 anos.
Não há por que supor que, nesse caso, o ministro Ayres Britto tenha deduzido haver golpe ou plano golpista. Nem mesmo depois que o projeto se iniciou com a compra de deputados para aprovar a reeleição.
*
Carlos Heitor Cony
Projeto de poder
RIO DE JANEIRO – Depois do golpe de 1964, os generais eram candidatos compulsórios a ocupar a Presidência da República, que passou a ser o cargo máximo da carreira. Na hora da sucessão, a briga era decidida pelo maior número de tropas, tanques, canhões e demais apetrechos da caserna.
Um general tinha a 4ª Região a favor, mas a Escola Superior de Guerra tinha outro pretendente. A Vila Militar preferia outro nome. Da contabilidade bélica, surgia o escolhido.
A ditadura caiu -custou, mas caiu. Tanques e canhões foram recolhidos aos quartéis -e que lá fiquem. Em substituição, voltamos a buscar aquilo que santo Agostinho chamou de “excremento do demônio”, aquele “metal” que costumam chamar de “vil”: o dinheiro.
No atual julgamento do mensalão, gostei da intervenção do presidente do STF, ministro Ayres Britto, que não culpou o governo em si, mas referiu-se ao “projeto de poder” do PT. Projeto formulado, timidamente, a partir do primeiro governo de Lula e revitalizado pela atual cúpula partidária. O mensalão seria uma espécie de laboratório para a conquista do fim.
Contudo tenho de lembrar que o PT não é o primeiro a pretender um projeto de poder. Lá atrás, o finado ex-ministro Sergio Motta, no primeiro governo de FHC, falou também na necessidade desse laboratório, que garantiria 20 anos de poder ao PSDB. E fez por onde: obteve a emenda da reeleição – que garantiu novo mandato ao presidente de então. Por sinal, um presidente que a perspectiva histórica começa a fazer justiça, com méritos maiores do que inevitáveis defeitos.
A emenda que possibilitou a reeleição teve o preço em dólares. Alguns congressistas mais ligados com o esquema tucano chegaram a renunciar ao mandato para não passarem pelo vexame da cassação.

sábado, 13 de outubro de 2012

Quem controla a notícia? | Blogs OI | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito

Quem controla a notícia? | Blogs OI | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
r Carlos Castilho em 01/10/2012
Os jornalistas perderam o controle da notícia na internet e agora estão ameaçados de perdê-lo também nos jornais impressos, rádios e emissoras de TV convencionais. É que cresce o número de políticos, governantes, empresários e até artistas que condicionam a concessão de entrevistas ou informações à obediência dos repórteres e editores a determinadas normas fixadas pelos entrevistados.
O fenômeno, que está ganhou dimensões mundiais, inclui desde entrevistas completas até meras citações de uma frase.  No período eleitoral , esta prática se torna quase um padrão entre os candidatos, embora os jornalistas raramente mencionem o fato por temerem perder acesso à fonte ou ficarem sem a informação, que acaba sendo publicada pelo concorrente.
A regra está sendo quebrada na campanha eleitoral norte-americana, onde jornais como o The New York Times e The Washington Post resolveram quebrar romper o pacto de silêncio e colocar na agenda de notícias o debate sobre o direito de os entrevistados condicionarem ou não o tipo de declaração e o contexto em que serão publicadas. Aqui no Brasil, essa questão só é levantada quando afeta  interesses políticos da imprensa, o que acaba transformando o problema numa polêmica particular.
A discussão sobre quem tem o controle sobre a noticia é interessante porque torna pública uma questão complexa e que provavelmente ainda vai exigir muito trabalho dos neurônios jornalísticos.
Os entrevistados passaram a impor condições para falar à imprensa por conta de sua crescente preocupação com o contexto informativo em que  suas declarações serão inseridas. O fenômeno se torna mais intenso nos períodos pré-eleitorais, quando a preocupação dos candidatos com sua imagem pública chega às raias da paranoia. Mas a prática de impor condições — e até revisar textos, fotos e vídeos antes da publicação — já está se tornando cada vez mais comum fora da política.
A preocupação com o contexto é uma reação das personalidades e instituições diante da dependência cada vez maior da imagem pública de ambos, como precondição para alcançar objetivos políticos ou comerciais. Marca também o reconhecimento da possibilidade de a imprensa manipular o contexto para induzir percepções favoráveis ou desfavoráveis entre os consumidores de informações.
Não é segredo que a imprensa usou esse recurso de manipular contextos com frequência preocupante, criando uma situação em que ambos os lados têm culpa em cartório. Se as tentativas de influenciar a publicação constituem uma interferência indevida no livre fluxo de informações, por outro lado a manipulação de contextos é igualmente condenável,  porque priva o leitor de uma percepção mais objetiva da questão abordada.
Também é publico e notório que políticos, governantes, empresários e personalidades tentam influenciar a imprensa antes mesmo do contato direto com repórteres e editores. Os comunicados de imprensa (press releases) são uma forma aceita de tentar condicionar a informação dada ao jornalista.
Nos casos mais grosseiros, o profissional consegue identificar os interesses embutidos no comunicado, mas a sofisticação crescente nas técnicas de relações públicas torna cada vez mais difícil distinguir a informação do marketing. Caso o jornalista resolva não ser um “inocente útil” no marketing alheio, ele acabará gastando um bom tempo para separar o joio do trigo e provavelmente será ultrapassado pela concorrência, ficando exposto à censura de seus superiores.
A internet já acabou com a exclusividade da imprensa na coleta, edição e distribuição de noticias porque hoje qualquer pessoa com um computador e acesso à rede pode desempenhar uma atividade informativa.  Mas a web também criou mecanismos que possibilitam uma relação menos invasiva entre jornalistas e fontes.
Como as fontes também têm acesso à internet , um entrevistado pode publicar a íntegra de suas declarações ou de um documento deixando ao leitor a liberdade de escolher entre a versão da imprensa e a da fonte da informação. A possibilidade de ser checado na veracidade e fidedignidade de seu trabalho pode funcionar como um poderoso desestimulador de manipulações jornalísticas de contextos noticiosos.  É o que já fazem muitas instituições e governantes, mas  infelizmente ainda são minoria.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

aula prática de direito.

aula prática de direito.

aula prática de direito.

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Uma manhã, quando nosso novo professor de “Introdução ao Direito” entrou na sala, a primeira coisa que fez foi perguntar o nome a um aluno que estava sentado na primeira fila:
- Como te chamas?
- Chamo-me Juan, senhor.
- Saia de minha aula e não quero que voltes nunca mais! - gritou o desagradável professor.
Juan estava desconcertado. Quando voltou a si, levantou-se rapidamente, recolheu suas coisas e saiu da sala. Todos estávamos assustados e indignados, porém ninguém disse nada.
- Agora sim! - e perguntou o professor - para que servem as leis?...
Seguíamos assustados porém, pouco a pouco, começamos a responder à sua pergunta:
- Para que haja uma ordem na sociedade.
- Não! - respondia o professor.
- Para cumpri-las.
- Não!
- Para que as pessoas erradas paguem pelos seus atos.
- Não!!
- Será que ninguém sabe responder a esta pergunta?!
- Para que haja justiça - falou timidamente uma garota.
- Até que enfim! É isso... para que haja justiça. E agora, para que serve a justiça?
Todos começávamos a ficar incomodados pela atitude tão grosseira do professor. Porém, seguíamos respondendo:
- Para salvaguardar os direitos humanos...
- Bem, que mais? - perguntava o professor.
- Para diferenciar o certo do errado... Para premiar a quem faz o bem...
- Ok, não está mal, porém... respondam a esta pergunta: agi corretamente ao expulsar Juan da sala de aula?...
Todos ficamos calados, ninguém respondia.
- Quero uma resposta decidida e unânime!
- Não!! - respondemos todos a uma só voz.
- Poderia dizer-se que cometi uma injustiça?
- Sim!!!
- E por que ninguém fez nada a respeito? Para que queremos leis e regras se não dispomos da vontade necessária para praticá-las? Cada um de vocês tem a obrigação de reclamar quando presenciar uma injustiça. Todos. Não voltem a ficar calados, nunca mais! Vá buscar o Juan - disse, olhando-me fixamente.


(História pescada no Facebook, na página de Lininha Cbo, que diz não ser a autora, mas também não ser capaz de indicar a quem pagar os direitos.)

Folha de S.Paulo - Poder - Questões de Ordem: Falar e receber - 12/10/2012

Folha de S.Paulo - Poder - Questões de Ordem: Falar e receber - 12/10/2012
A discussão de ontem no Supremo foi viva e interessante, incidindo sobre réus nem tão interessantes assim. Tratava-se de julgar, apenas pelo crime de lavagem de dinheiro, os deputados petistas Paulo Rocha, João Magno e Professor Luizinho, além do ex-ministro dos Transportes Anderson Adauto (do PL, na época).
Luizinho foi absolvido até mesmo por Joaquim Barbosa, uma vez que não há prova de que nem sequer tenha visto a cor do dinheiro. Quanto a Paulo Rocha, João Magno e Anderson Adauto, comprovou-se que receberam pelo esquema já conhecido --os cheques de Marcos Valério, descontados no Banco Rural por meio de interposta pessoa.
Maioria do Supremo absolve ex-deputado do PT e ex-assessores
Advogados comemoram absolvição de réus do mensalão
Marco Aurélio Mello voltou a perguntar se esse procedimento pode ser considerado lavagem de dinheiro ou se é parte integrante do próprio ato de corrupção.
Todo ato de corrupção envolve algum tipo de ocultamento. É coisa que se faz às escondidas. Algo além disso teria de ser feito para configurar a lavagem de dinheiro.
Mas a lei de lavagem de dinheiro inclui, na descrição do crime, o verbo "ocultar", quando se refere ao uso que se faz de recursos originados de delito anterior.
Para Luiz Fux, a lei de lavagem é propositalmente vaga, falando de "ocultar", entre outras coisas, para cercar o criminoso de todos os modos possíveis. A distinção entre simples corrupção e lavagem dependeria da análise de cada caso concreto.
Quem se exaltou no meio do voto de Fux foi Dias Toffoli. Ele já tinha condenado o deputado pepista José Borba por corrupção e em seguida por lavagem. Mas como imaginar que um réu absolvido do crime de corrupção, como Anderson Adauto, possa ser condenado por lavagem? Como se lava o dinheiro se o crime antecedente não foi praticado?
Havia, é claro, os desvios do Banco do Brasil que engordaram o caixa de Marcos Valério. Os réus poderiam saber disso?
Sim, deviam saber. Não, poderiam não saber. Não sabiam, mas poderiam imaginar. Seria o caso do "dolo eventual". Admitir "dolo eventual" no crime de lavagem seria alarmante, advertiu Marco Aurélio.
Ele citou uma hipótese extrema. Imagine-se o advogado de um criminoso. Poderia ser acusado de lavagem de dinheiro ao receber seus honorários? Seria perfeitamente possível supor que esse advogado imaginasse que o dinheiro veio de algum crime.
Pior ainda: nesse caso, com o advogado recebendo seu pagamento por vias oficiais, numa conta em banco, haveria uma lavagem até mais bem-feita do que os saques em dinheiro vivo. Cadeia para ele?
O debate ainda teve uma rápida troca de argumentos entre Cármen Lúcia e Joaquim Barbosa.
Os deputados petistas, disse Cármen Lúcia, pediram dinheiro a Delúbio Soares. Falaram, afinal, com quem deveriam falar. Onde estaria a lavagem?
Falaram com quem deveriam falar, respondeu Barbosa. Mas receberam de quem não deveriam receber. E só procuraram dinheiro com Delúbio, acrescentou em outro momento, porque sabiam do esquema criminoso.
Não. Não há certeza de que soubessem. Não se condena por suposição, insistiu Toffoli, ao lado de Lewandowski, Marco Aurélio, Rosa Weber e Cármen Lúcia. Para empatar, ou não, faltam três votos na segunda-feira.

Folha de S.Paulo - Elio Gaspari: E se Mares Guia fosse um sindicalista? - 26/09/2007

Folha de S.Paulo - Elio Gaspari: E se Mares Guia fosse um sindicalista? - 26/09/2007
ELIO GASPARI

E se Mares Guia fosse um sindicalista?
O silêncio dos tucanos diante do seu mensalão mostra o oportunismo com que manipulam a moralidade alheia
SE O MINISTRO da Articulação Política do governo fosse um petista saído do movimento sindical, o céu já teria desabado sobre Brasília.
Imagine-se um companheiro metido numa reunião para definir a arrecadação da caixinha eleitoral de um candidato que acabou derrotado na eleição de 1998. Some-se um empréstimo pessoal feito por esse mesmo petista ao candidato, depois de sua derrota. Walfrido Mares Guia fez tudo isso, mas o tucanato trata o assunto com um silêncio retumbante, indicador do oportunismo com que manipula a moralidade alheia.
Mares Guia não é um sindicalista, mas próspero empresário; não está no ABC, mas na plutocracia mineira; não se meteu na campanha dos companheiros, mas na do então governador Eduardo Azeredo, que viria a ser presidente do PSDB. Sua praia é outra, a do tucanato que considera falta de educação tratar das maracutaias do andar de cima.
A principal gracinha propagada pelos defensores de Eduardo Azeredo é a teoria do "não sabia". Se ele não sabia que sua campanha era azeitada por recursos tungados à Viúva e entregues a Marcos Valério, qualquer tentativa de associá-lo à roubalheira é injusta. Afinal, Lula diz que não sabia das mesmas trambicagens, praticadas quatro anos depois pela direção do PT com o mesmo Marcos Valério. Nas palavras da assessoria do tucano: "As questões financeiras da campanha não foram de [sua] responsabilidade".
Seria um caso clássico de dois pesos e duas medidas. Todavia, o argumento é falso. Para que fosse verdadeiro, precisaria aparecer um empréstimo pessoal de R$ 511 mil, feito por Lula junto a um petista amigo que participou da coordenação de sua campanha. (Em 2003, Paulo Okamotto, atual presidente do Sebrae, pagou uma conta de R$ 29 mil de Lula, mas não esteve na banca petista de 2002.) Isso não permite sugerir que Lula não sabia dos malfeitos de Delúbio Soares, ou que não sabe de onde veio o dinheiro de Okamotto. Indica apenas que não se acharam as suas impressões digitais. No caso de Azeredo, elas estão lá, no empréstimo de Mares Guia.
Quando um petista é confrontado com as mutretas de seus companheiros, se enraivece e atribui a referência a algum tipo de conspiração elitista. Quando um tucano fica na mesma situação, ofende-se e corre para a blindagem do silêncio. Assim desconversou-se em 2000, quando apareceram as planilhas da segunda campanha de FFHH. Elas indicavam um caixa clandestino de pelo menos R$ 8 milhões. Uma parte desse dinheiro passara pela destilaria de Marcos Valério, cuja tecnologia financeira foi adquirida pelo PT na eleição seguinte.
Vice-governador de Eduardo Azeredo, ministro de Lula, Mares Guia é uma encruzilhada de gentilezas. Foi na sua vizinhança (e de Lula) que se disparou a demissão do engenheiro Dimas Toledo de uma diretoria de Furnas. Essa foi a faísca que incendiou os sentimentos do deputado Roberto Jefferson e a crise do mensalão.
O PT já buscou a indulgência de seus crentes com a teoria do "fizemos-o-que-todo-mundo-faz". A novidade no desdobramento das investigações do mensalão tucano está na paralisia mental do PSDB.
O comando tucano diz que vai discutir a situação de Azeredo. Vai nada. Se falasse sério, teria feito isso há dois anos. Correm atrás do prejuízo que poderá advir de uma denúncia do procurador-geral da República contra o ex-governador.

Folha de S.Paulo - Procurador diz não considerar "opiniões" da PF na denúncia - 26/09/2007

Folha de S.Paulo - Procurador diz não considerar "opiniões" da PF na denúncia - 26/09/2007
Segundo Antonio Fernando, polícia deve "descrever fatos"

SILVANA DE FREITAS
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, disse ontem que irá desconsiderar as conclusões da Polícia Federal no inquérito do valerioduto mineiro para decidir sobre o oferecimento da denúncia criminal ao STF.
Antonio Fernando disse que ainda não sabe se incluirá o ministro Walfrido Mares Guia (Relações Institucionais) entre os denunciados. Disse que só no último momento da análise do inquérito formará sua convicção sobre o envolvimento dele e de outros investigados.
"Não vou me basear no relatório [da PF]", disse. Ele criticou o destaque dado pelos jornais às conclusões da polícia e afirmou que ela não deveria ter emitido "opiniões" no relatório produzido em julho. "Ele tem de descrever os fatos. Se tem opinião, deixa de ser relatório."
Segundo o procurador-geral, esse é apenas um dos inúmeros documentos contidos no inquérito, que apurou desvio de dinheiro público para financiamento, em 1998, de campanhas de políticos, como a do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG). Ele acrescentou que irá se ater aos fatos que indiquem a ocorrência de crime, não às conclusões da PF sobre eles.
As declarações dele expõem a disputa entre PF e Ministério Público Federal em torno do papel de cada instituição nas investigações contra autoridades, em que atuam um ministro do STF (relator), o procurador-geral e um ou mais delegados.
O diretor-geral da PF, Luiz Fernando Corrêa, disse por meio de sua assessoria que não vai comentar as afirmações.
O procurador-geral descartou a possibilidade de requisitar ao STF o retorno à PF do inquérito do valerioduto mineiro para apurações complementares antes do oferecimento da denúncia. No relatório, o delegado Luís Flávio Zampronha de Oliveira recomendou que Antonio Fernando peça novas investigações, particularmente a tomada de depoimento dos beneficiários dos recursos transferidos por empresas de Marcos Valério para campanhas de Minas em 1998

Folha de S.Paulo - Azeredo afirma que ajudou na campanha de FHC em 98 - 26/09/2007

Folha de S.Paulo - Azeredo afirma que ajudou na campanha de FHC em 98 - 26/09/2007
Azeredo afirma que ajudou na campanha de FHC em 98
Segundo senador, dinheiro arrecadado foi usado por comitês do ex-presidente
Sobre Walfrido, o tucano diz que o ministro não tinha o papel de coordenador, mas que "participou da campanha ativamente"
ANDREZA MATAIS
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Pivô do escândalo que colocou o PSDB sob suspeita de ter se beneficiado do valerioduto, o senador Eduardo Azeredo (MG) afirmou que prestações de contas de campanhas políticas, no passado, eram mera "formalidade", que não "existia rigor". Azeredo disse que teve "problemas" ao prestar contas, mas que a campanha envolvia outros cargos e partidos.
Disse que contou na eleição para o governo de Minas, em 1998, com o apoio do ministro Walfrido dos Mares Guia (Relações Institucionais), inclusive na captação de recursos. Segundo o senador, Walfrido não tinha o papel de coordenador, mas participava de tudo.
Azeredo afirmou ainda que o dinheiro arrecadado para sua campanha -oficialmente foram gastos R$ 8,5 milhões- foi usado para campanhas de deputados e senadores da sua coligação e, até mesmo, do então candidato à Presidência Fernando Henrique. "Ele não foi a Minas, mas tinha comitês bancados pela minha campanha."

 

FOLHA - A Polícia Federal diz que houve caixa dois na sua campanha...
EDUARDO AZEREDO -
Tivemos problemas na prestação de contas da campanha, que não era minha só, mas de partidos coligados, que envolvia outros cargos, até mesmo de presidente da República. FOLHA - Que "problemas"?
AZEREDO -
Essas prestações de contas no passado eram mais uma formalidade, é hipocrisia negar isso, não existia rigor. O que se conclui é que no caso de Minas, a minha [prestação] foi a mais alta naquele ano, foi ela que se aproximou mais da realidade. E se concluiu que houve recursos a mais que não chegaram a ser formalizados.
FOLHA - O sr. acha que sua campanha custou quanto na verdade?
AZEREDO -
Os R$ 8,5 milhões que informamos e alguma coisa a mais que teve do empréstimo que eu não autorizei. Mas nunca perto dos R$ 100 milhões que estão falando.
FOLHA - Qual foi a participação do Walfrido na campanha do sr.?
AZEREDO -
Ele não foi coordenador [da campanha], o coordenador foi o ex-deputado Carlos Eloy, mas é evidente que o Walfrido participou da campanha ao meu lado ativamente.
FOLHA - De que forma? Na parte política ou na captação de recursos?
AZEREDO -
Participou da campanha como um todo.
FOLHA - A PF achou papéis em que o ministro fez anotações de valores arrecadados. Ele tem conhecimento dos valores não contabilizados?
AZEREDO -
Acho que ele é quem deve explicar. Cabe a mim dizer que ele participou da campanha, mas não era coordenador.
FOLHA - Mas o senhor disse que ele participou de toda a campanha, o que me faz concluir que também da parte de arrecadação de dinheiro.
AZEREDO -
É evidente que ele tinha relações com pessoas que podiam apoiar a campanha.
FOLHA - Com relação ao empréstimo que o ministro Walfrido disse que pagou em seu nome por dívidas de campanha. O sr. pediu para ele?
AZEREDO -
Como não tinha e não tenho até hoje posses que me garantam tirar empréstimo bancário maior, o Walfrido é que tirou o empréstimo, com meu aval para quitar a dívida.
FOLHA - O sr. vai pagar o ministro?
AZEREDO -
Não. É uma dívida que foi quitada porque ele é meu amigo, continua sendo e tem condições de poder arcar com uma dívida dessas.
FOLHA - Com relação ao PSDB, o governador José Serra não quis comentar sobre o senhor.
AZEREDO -
Sempre tive apoio do partido e tenho total confiança de que terei o apoio necessário no momento necessário. Serra me deu não só solidariedade, mas apoio também.
FOLHA - O dinheiro da sua campanha financiou a de FHC em Minas?
AZEREDO -
Sim, parte dos custos foram bancados pela minha campanha. Fernando Henrique não foi a Minas na campanha por causa do Itamar Franco, que era meu adversário, mas tinha comitês bancados pela minha campanha.
FOLHA - Por que o senhor acha que esse assunto voltou à tona agora?
AZEREDO -
O PT colocou esse assunto no seu congresso porque não está satisfeito com a presença de um ministro [Walfrido] que não seja do seu partido e como compensação para o desgaste que o partido sofreu pela aceitação do STF de abertura do processo do mensalão.

Com Texto Livre

Com Texto Livre

Bem x Mal

Seria uma lição de democracia se do julgamento do STF constassem não só PT, mas Democratas, PSDB etc.
VEJA 2291Está tudo muito bom, está tudo muito bem. E o "New York Times", o "Financial Times" e o "Times" de Londres po­dem estar certos de que o julga­mento do mensalão representa um avanço brutal para a democracia tapuia, como bem notou o nosso monumental Clóvis Rossi em sua coluna de ontem, mas esta "bastian contraria" (a expressão é piemon­tesa) que vos fala veio posar na sua sopa para discordar.
É claro que quem tem culpa que pague o que deve. E eu também, co­mo todo o resto do Ocidente (excluindo talvez o Suriname, Cuba e a Cristina Kirchner - que deve sentir coisas por ele), não vou com os cornos do Zé Dirceu. O homem escondeu a pró­pria identidade da mulher, vive de amassos com os Castro, não é exatamente exemplo de democrata e blá-blá-blá-blá-blá.
Acontece que não consigo disso­ciar a imagem de Joaquim Barbosa de Torquemada e o julgamento do mensalão da Inquisição. Estamos assistindo a um massacre e há mui­to ainda a considerar.
Diziam que o julgamento seria parcial porque Lula havia escolhi­do os juízes. Não aconteceu. Aliás, essa desconfiança preconceituosa me faz lembrar o terceiro mandato de Lula, que não houve.
Enunciavam também que o men­salão ia dar a vitória a Russomanno em primeiro turno. Não aconteceu. Por sinal, a economia nem vai tão bem e Haddad lidera as pesquisas.
E Lula, ora, Lula foi o grande ven­cedor do primeiro turno (tadinha da Martoca) e vai levar São Paulo de enxurrada, né não? Fica claro tam­bém que a classe média alta que se diz informada, mas que raramente acaba obtendo colocação profissio­nal fora do âmbito familiar, quer ver o PT ser varrido do mapa. Essa é a turma que torce como nunca no Fla-Flu do julgamento do STF.
Nos últimos tempos, até a Dilma eles têm tratado com um desdém que antes não havia ali. Já para o zé povinho, tanto faz. Para a perifa, obviamente não só despida de pre­conceito contra o Lula como iden­tificada com ele até a alma e beneficiada pelas mudanças sociais, escândalo de compra de votos da reeleição, anões do Con­gresso, Sivam, Zé Dirceu, Collor... é tudo a mesma lasanha.
Eu até concordo que a gente quei­ra ver canalhas ricos o bastante pa­ra contratar advogados top na ca­deia. Mas, vem cá: o Genoino, gen­te? Todo mundo conhece o Genoi­no, sabe que ele não vive no luxo. E não merece o que está acontecen­do.
Nesta semana vi gente com san­gue nos olhos dizendo que queria vê-lo atrás das grades. Isso não po­de ser sede de justiça. É outra coisa. É preconceito puro. E olha que o Muro de Berlim já caiu há mais de 20 anos!
É uma deturpação das mais dano­sas ao país colocar na capa da maior revista semanal tapuia uma crian­ça negra e pobre que subiu na vida pelo próprio esforço como se ela fosse o novo Pelé.
É como se a classe dominante dissesse: "Os nossos pretos pobres são melhores do que os deles". Os negros pobres do Lula precisam do Bolsa Família e de cotas para chegar lá. Joaquim Barbosa (que, note, se declara eleitor do PT) venceu sozinho, não precisou de "política assistencialista", não é mesmo? Pessoal ainda não enten­deu que não é muleta, mas repara­ção por séculos de apartheid social.
Seria lição de democracia se do julgamento do STF constassem não só PT, mas PSDB, DEM etc. Julgar ignorando garantias, sem direito a recurso e partindo da cer­teza de que quanto menos provas, maior o poder do réu e, portanto, hipoteticamente, maior sua culpa, é inver­ter a lógica. Isso não pode ser coisa boa, viu, "Times" de Londres?
Barbara Gancia
No Falha

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

ÉPOCA – Paulo Moreira Leite » O golpe imaginário de Ayres Britto » Arquivo

ÉPOCA – Paulo Moreira Leite » O golpe imaginário de Ayres Britto » Arquivo
Paulo Moreira Leite
Justiça, Política, eleições Tags: ,
Confesso que ainda estou chocado com o voto de Ayres Britto, ao condenar oito réus do mensalão, ontem.
O ministro disse:
“[O objetivo do esquema era] um projeto de poder quadrienalmente quadruplicado. Projeto de poder de continuísmo seco, raso. Golpe, portanto”
Denunciar golpes de Estado em curso é um dever de quem tem compromissos com a democracia.
Denunciar golpes de Estado imaginários é um recurso frequente quando se pretende promover uma ruptura institucional.
O caso mais recente envolveu Manoel Zelaya, o presidente de Honduras. Em 2009 ele foi arrancado da cama e, ainda de pijama, conduzido de avião para um país vizinho.
Acusava-se Zelaya de querer dar um golpe para mudar a Constituição e permanecer no poder. Uma denúncia tão fajuta que – graças ao Wikileaks – ficamos sabendo que até a embaixada dos EUA definiu a queda de Zelaya como golpe. Mais tarde, ao reavaliar o que mais convinha a seus interesses de potência,  a Casa Branca mudou de lado e encontrou argumentos para justificar a nova postura, fazendo a clássica conta de chegar para arrumar  fatos e os argumentos.
Em 31 de março de 64, tivemos um golpe de Estado de verdade, que jogou o país em 21 anos de ditadura.
O golpe foi preparado pela denúncia permanente de um golpe imaginário, que seria preparado por João Goulart para transformar o país numa “república sindicalista.” Basta reconstituir os passos da conspiração civil-militar para reconhecer: o toque de prontidão do golpismo consistia em denunciar  projetos anti democráticos de Jango.
Considerando antecedentes conhecidos, o voto de Ayres Britto é preocupante porque fora da realidade.
Vamos afirmar: não há e nunca houve um projeto de golpe no governo Lula. Nem de revolução. Nem de continuísmo chavista. Nem de alteração institucional que pudesse ampliar seus poderes de alguma maneira.
Lula poderia ter ido as ruas pedir o terceiro mandato. Não foi e não deixou que fossem. Voltou para São Bernardo mas, com uma história maior do que qualquer outro político brasileiro, não o deixam em paz. Essa é a verdade. Temos um ex grande demais para o papel.
Ouvido pelo site Consultor Jurídico, o professor Celso Bandeira de Mello, um dos principais advogados brasileiros, deu uma entrevista sobre o mensalão, ainda no começo do processo:
ConJur — Como o senhor vê o processo do mensalão?
Celso Antônio Bandeira de Mello − Para ser bem sincero, eu nem sei se o mensalão existe. Porque houve evidentemente um conluio da imprensa para tentar derrubar o presidente Lula na época. Portanto, é possível que o mensalão seja em parte uma criação da imprensa. Eu não estou dizendo que é, mas não posso excluir que não seja.
Bandeira de Mello é amigo e conselheiro de Lula. Foi ele quem indicou Ayres Britto para o Supremo. A nomeação de Brito – e de Joaquim Barbosa, de Cesar Pelluzzo – ocorreu na mesma época em que Marcos Valério e Delúbio Soares andavam pelo Brasil para, segundo o presidente do Supremo, arrumar dinheiro para o “continuísmo seco, raso.”
Os partidos políticos podem ter, legitimamente, projetos duradouros de poder. É inevitável, porque poucas ideias boas podem ser feitas em quatro anos.
Os tucanos de Sérgio Motta queriam ficar 25 anos. Ficaram oito. Lula e Dilma, somados, já garantiram uma permanência de 12.
Tanto num caso, como em outro, tivemos eleições livres, sob o mais amplo regime de liberdades de nossa história.
Para quem gosta de exemplos de fora, convém lembrar que até há pouco o padrão, na França, eram governos de 14 anos – em dois mandatos de sete. Nos Estados Unidos, Franklin Roosevelt foi eleito para quatro mandatos consecutivos, iniciando um período em que os democratas passaram 20 anos seguidos na Casa Branca. Os democratas de Bill Clinton poderiam ter ficado 12 anos. Mas a Suprema Corte, com maioria republicana, aproveitou uma denúncia de fraude na Flórida para dar posse a  George W. Bush,  decisão ruinosa que daria origem a uma tragédia de impacto internacional, como todos sabemos.
O ministro me desculpe mas eu acho que, para  falar do mensalão como parte de  projeto de “continuísmo seco, raso,” é preciso considerar o Brasil  uma grande aldeia de Gabriel Garcia Márquez. Em vez da quinta ou sexta economia do mundo,  jornais, emissoras de TV, bancos poderosos, um empresariado dinâmico, trabalhadores organizados e  100 milhões de eleitores, teríamos de coronéis bigodudos com panças imensas, latifúndios a perder de vista, cidadãos dependentes, morenas lindas e apaixonadas,  capangas de cartucheira.
No mundo de Garcia Marquez, não há democracia, nem conflito de ideias.  Não há desenvolvimento, apenas estagnação, tédio e miséria. Naquelas aldeias do interior remoto da Colômbia,  homens e mulheres famintos vivem às voltas de um poder único e autoritário. Esmolam favores, promoções, presentes, pois ninguém tem força, autonomia e muito menos coragem para resolver a própria vida.  Desde a infância, todos os cidadãos são ensinados a cortejar o poder, bajular. É seu modo de vida. Como recompensa, recebem esmolas.
No mensalão de Macondo, seria assim.
Será esta uma visão adequada do Brasil?
Em 1954, no processo que levou ao suicídio de Getúlio Vargas, também se falou em golpe.
Com apoio de uma imprensa radicalizada, em campanhas moralistas e denuncias – muitas vezes sem prova – contra o governo, dizia-se que Vargas pretendia permanecer no posto, num golpe continuísta, com apoio do ”movimento de massas.”
Era por isso, dizia-se, que queria aumentar o salario mínimo em 100%. Embora o mínimo tivesse sido congelado desde 1946, por pressão conservadora sobre o governo Eurico Dutra, a proposta de reajuste era exibida como parte de um plano continuísta para agradar aos pobres – numa versão que parece ter lançado os fundamentos para as campanhas sistemáticas contra o Bolsa-Família, 50 anos depois.
Embora falasse em mercado interno, desenvolvimento industrial e até tivesse criado a Petrobrás, é claro que Vargas queria apenas, em  aliança com o argentino Juan Domingo Perón (o Hugo Chávez da época?), estabelecer uma comunhão sindicalista na América do Sul e transformar todo mundo em escravo do peleguismo, não é assim? E agora você, leitor, vai ficar surpreso. Um dos grandes conspiradores contra Getúlio Vargas, especialista em denunciar golpes imaginários, foi parar no Supremo. Chegou a presidente, teve direito a um livro luxuoso com uma antologia de suas sentenças.
Estou falando de Aliomar Baleeiro, jurista que entrou no tribunal em 1965, indicado por Castelo Branco, o primeiro presidente do ciclo militar, e aposentou-se em 1975, o ano em que o jornalista Vladimir Herzog foi morto sob tortura pelo porão da ditadura.
Baleeiro deixou bons momentos em sua passagem pelo Supremo. Defendeu várias vezes o retorno ao Estado de Direito.
Chegou a dar um voto a favor de frades dominicanos que faziam parte do círculo de Carlos Marighella, principal líder da luta armada no Brasil.
A ditadura queria condenar os frades. Baleeiro votou a favor deles.
Tudo isso é muito digno mas não vamos perder a o fio da história que nos ajuda a ter noção das coisas e aprender com elas.
Em várias oportunidades, o ministro que faria a defesa do Estado de Direito contribuiu para derrotá-lo.
O ministro chegou ao STF com uma longa folha de serviços anti democráticos.
Em 1954, ele era deputado da UDN, aquele partido que reunia a fina flor de um  conservadorismo bom de patrimônio e ruim de votos.
Um dos oradores mais empenhados no combate a  Getúlio Vargas , Baleeiro foi a tribuna da Câmara para pedir um “golpe preventivo”. ( Pode-se  conferir em “Era Vargas — Desenvolvimentismo, Economia e Sociedade,” página 411, UNESP editora.)
Os adversários de Vargas tentaram a via legal, o impeachment. Tiveram uma derrota clamorosa, como diziam os locutores esportivos de vinte anos atrás:  136 a 35.
Armou-se, então, uma conspiração militar. Alimentada pelo atentado contra Carlos Lacerda, que envolvia pessoas do círculo de Vargas, abriu-se uma pressão que acabaria emparedando o presidente, levado ao suicídio.
Baleeiro permaneceu na UDN e conspirou contra a campanha de JK, contra a posse de JK e  contra o governo JK.  Sempre com apoio nos jornais, foi um campeão de denúncias. Era aquilo que, mais uma vez com ajuda da mídia, muitos brasileiros pensavam que era o Demóstenes Torres – antes que a verdade do amigo Cachoeira viesse a tona.
Baleeiro estava lá, firme, no golpe que derrubou Jango para combater a subversão e a …corrupção.
Foi logo aproveitado pelo amigo Castelo Branco para integrar o STF. Já havia denuncia de tortura e de assassinatos naqueles anos. Mortos que não foram registrados, feridos que ficaram sem nome. Não foram apurados, apesar do caráter supremo das togas negras.
Entre 1971 e 1973, Baleeiro ocupava a presidência do STF. Nestes dois anos, o porão do regime militar matou 70 pessoas.
Nenhum caso foi investigado nem punido, como se sabe. Nem na época, quando as circunstâncias eram mais difíceis. Nem quarenta anos depois, quando pareciam mais fáceis.
Em 1973, José Dirceu, que pertenceu a mesma organização que Marighella, vivia clandestinamente no Brasil. Morou em Cuba mas retornou para seguir na luta contra o regime militar. Infiltrado no grupo, o inimigo atirou primeiro e todos morreram. Menos Dirceu. Os ossos de muitos levaram anos para serem identificados. Nunca soubemos quem deu a ordem.
Não se apontou, como no mensalão, para quem tinha o domínio do fato para a tortura, as execuções.
Um dos principais líderes do Congresso da UNE, entidade que o regime considerava ilegal, Dirceu foi preso em 1968 e saiu da prisão no ano seguinte. Não foi obra da Justiça, infelizmente, embora estivesse detido pela  tentativa de reorganizar uma entidade que desde os anos 30  era reconhecida pelos universitários como sua voz política.
(Figurões da ditadura, como o pernambucano Marco Maciel, que depois seria vice presidente de FHC, Paulo Egydio Martins, governador de São Paulo no tempo de Geisel, tinham sido dirigentes da UNE, antes de Dirceu).
A Justiça era tão fraca , naquele período, que Dirceu só foi solto  como resultado do sequestro do embaixador Charles Elbrick, trocado por um grupo de presos políticos.  Mas imagine.
Foi preciso que um bando de militantes armados, em sua maioria garotos enlouquecidos com Che Guevara,  cometesse uma ação desse tipo para que  pessoas presas arbitrariamente, sem julgamento, pudessem recuperar a liberdade. Que país era aquele, não? Que Justiça, hein?
Preso no Congresso da UNE, também, Genoíno foi solto e ingressou na guerrilha do Araguaia.
Apanhado e torturado em 1972, Genoíno conseguiu esconder a verdadeira identidade durante dois meses. Estava em Brasília quando a polícia descobriu quem ele era. Foi levado de volta a região da guerrilha e torturado em praça pública, como exemplo.
Ontem a noite, José Dirceu e José Genoíno foram condenados por 8 votos a 2 e 9 votos a 1.
Foi no final da sessão que Ayres Britto falou em “projeto de poder de continuísmo seco, raso. Golpe, portanto”

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Paulo Moreira Leite
Justiça, Política, eleições Tags:
Talvez seja a idade, quem sabe as lembranças ainda vivas de quem atravessou a adolescência e o início da idade adulta em plena ditadura. Mas não consigo conviver com a ideia de que cidadãos como José Genoíno e José Dirceu possam  ser condenados por corrupção ativa sem que sejam oferecidas provas consistentes e claras. A Justiça é um direito de todos. Mas não estamos falando de personagens banais.
Sei que os mandantes de atos considerados criminosos  não assinam papéis, não falam ao telefone nem deixam impressão digital. Isso não me leva a acreditar que toda pessoa que não assina papel, não fala ao telefone nem deixa impressão digital seja chefe de uma quadrilha.
Sei que existe a teoria do domínio do fato. Mas ela não é assim, um absoluto. Tanto que, recentemente, o célebre Taradão, apontado, por essa visão, como mandante do assassinato de irmá Dorothy, conseguiu sentença para sair da prisão. Contra Taradão havia confissões, testemunhas variadas, uma soma impressionante de indícios que não vi no mensalão.  Mesmo assim, ele foi solto.
Não estamos no universo do crime comum. Estamos no mundo cinzento da política brasileira, como disse o professor José Arthur Gianotti, pensador do país e, para efeitos de raciocínio, tucano dos tempos em que a geração dele e de Fernando Henrique lia O Capital.
O país político funciona neste universo cinzento para todos os partidos. Eu  acho, de saída, que é inacreditável que dois esquemas tão parecidos, que movimentaram quantias igualmente espantosas, tenham recebido tratamentos diferentes – no mesmo tempo e lugar.
O centro desse universo é uma grande falsidade. O mensalão dos petistas, que condenou Dirceu e Genoíno, foi julgado pelo Supremo em clima de maior escândalo da história, definição que, por si só, já pedia, proporcionalmente, a maior condenação da história.
Já o mensalão do PSDB-MG escapou pela porta dos fundos. Ninguém sabe quando será julgado, ninguém saberá quando algum nome mais importante for absolvido em instancias inferiores, ninguém terá ideia do destino de todos. Bobagem ficar de plantão a espera do resultado final. Esse barco não vai chegar.
O caminho foi diferente, a defesa terá mais chances e oportunidades. Não dá para corrigir.
O PSDB-MG passará, no mínimo, por duas instâncias. Quem sabe, algum condenado ainda poderá bater às portas do STF – daqui a alguns anos. Bons advogados conseguem tanta coisa, nós sabemos…
Não há reparação possível. São rios que seguiram cursos diferentes, para nunca mais se encontrar.
Partindo desse julgamento desigual, eu fico espantado que Dirceu tenha sido condenado quando os dois principais casos concretos – ou provas – contra ele se mostraram muito fracas.
Ponto alto da denúncia de Roberto Jefferson contra Dirceu, a acusação de que Marcos Valério fez uma viagem a Portugal para arrumar dinheiro para o PTB e o PT se mostrou uma história  errada. Lobista de múltiplas atividades, Valério viajou a serviço de outro cliente, aquele banqueiro da privatização tucana  que ficou de fora do julgamento. Ricardo Lewandoswski explicou isso e não foi contestado.
Outra grande acusação, destinada a sustentar que Dirceu operava o esquema como se fosse o dono de uma rede de fantoches, revelou-se muito mais complicada do que parecia. Estou falando da denúncia de que, num jantar em Belo Horizonte, Dirceu  teria se aliado a Katia Rebelo,  a dona do Banco Rural, para lhe dar a “vantagem indevida” pelos serviços prestados no mensalão.
A tese é que Dirceu entrou em ação para ajudar a banqueira a ganhar uma bolada – no início falava-se em bilhões – com o levantamento da intervenção do Banco Central no Banco Mercantil de Pernambuco. O primeiro problema é que nenhuma testemunha presente ao encontro diz que eles sequer tocaram no assunto.
Mas é claro que você não precisa acreditar nisso. Pode achar que eles combinaram tudo para mentir junto. Por que não?
Mas a sequencia da história não ajuda. Valério foi 17 vezes ao BC e ouviu 17 recusas.  A intervenção no Banco Mercantil  só foi  levantada dez anos depois, quando todos estavam longe do governo. Rendeu uma ninharia em comparação com o que foi anunciado.
De duas uma: ou a denuncia de que Dirceu trabalhava para ajudar o Banco Rural a recuperar o Mercantil era falsa. Ou a denuncia é verdadeira e ele não tinha o controle total sobre as coisas.
Ou não havia domínio. Ou não havia fato.
Aonde estão os super poderes de Dirceu?
Estão na “conversa”, dizem. Estão no “eu sabia”, no “só pode ser”, no “não é crível” e assim por diante. Dirceu conversava e encontrava todo mundo, asseguram os juízes. Mas como seria possível coordenar um governo sem falar nem conversar? Sem sentar-se com cada um daqueles personagens, articular, sugerir, dirigir. Conversar seria prova de alguma coisa?
Posso até imaginar coisas. Posso “ter certeza.” Posso até rir de quem sustenta o contrário e achar que está zombando da minha inteligência.
Mas para condenar, diz  a professora Margarida Lacombe, na GloboNews, é preciso de provas robustas, consistentes. Ainda vivemos no tempo em que a acusação deve apresentar provas de culpa.
Estamos privando a liberdade das pessoas, o seu direito de andar na rua, ver os amigos, e, acima de tudo, dizer o que pensa e lutar pelas próprias ideias.
Estamos sob um regime democrático, onde a liberdade – convém não esquecer – é um valor supremo. Podemos dispor dela, assim, a partir do razoável?
Genoíno também foi condenado pelo que não é crível, pelo não pode ser, pelo nós não somos bobos. Ainda ouviu uma espécie de sermão. Disseram que foi um grande cara na luta contra a ditadura mas agora teve um problema no meio da estrada, um desvio, logo isso passa.
Julgaram a pessoa, seu comportamento. E ouviu a sentença de que seu caráter apresentou falhas.
Na falta de provas, as garantias individuais, a presunção da inocência, foram diminuídas, em favor da teoria que permite condenar com base no que é “plausível”, no que é “crível” e outras palavras carregadas de subjetividade, de visão
Não custa lembrar – só para não fazer o papel de bobo — que se deixou de lado o empresário das privatizações tucanas que foi um dos primeiros a contribuir para o esquema, um dos últimos a aparecer e, mais uma vez, um dos primeiros a sair.
Já perdemos a conta de casos arquivados no Supremo por falta de provas, ou por violação de direitos individuais, ou lá o que for, numa sequência de impunidades que – involuntariamente — ajudou a formar o clima do “vai ou racha” que levou muitos cidadãos honestos e indignados a aprovar o que se passou no julgamento, de olhos fechados.
Juizes do STF  emparedaram o governo Lula, ainda no exercício do cargo, em função de uma denuncia – absurdamente falsa – de que um de seus ministros fora grampeado, em conversa com o notável senador Demóstenes Torres, aquele campeão da moralidade que tinha o celular do bicheiro, presentes do bicheiro, avião do bicheiro…o mesmo bicheiro que ajudou a fazer várias denuncias contra o governo Lula, inclusive o vídeo dos Correios que é visto como o começo do mensalão.
Prova de humildade: os ministros do STF também pode se enganar.  Apontado como suspeito pelo caso, o delegado Paulo Lacerda perdeu o posto. Dois anos depois, a Polícia Federal divulgou que, conforme seu inquérito, não havia grampo algum.  Nada.
A condenação contra José Genoíno e José Dirceu sustenta-se, na verdade, pelo julgamento de caráter dos envolvidos. Achamos que eles erraram. Não há fatos, não há provas. Mas cometeram “desvios”.
Aí, nesse terreno de alta subjetividade, é que a condenação passa a fazer sentido. Os poucos fatos se juntam a uma concepção anterior e formam uma culpa.
A base deste raciocínio é a visão criminalizada de determinada política e determinados políticos.
(Sim. De uma vez por todas: não são todos os políticos. O mensalão PSDB-MG lembra, mais uma vez, que se fez uma distinção entre uns e outros.)
Os ministros se convenceram de que “sabem” que o governo “comprava apoio” no Congresso. Não contestam sequer a visão do procurador geral, que chega a falar em sistema de “suborno”, palavra tão forte, tão crua, que se evita empregar por revelar o absurdo de toda teoria.
Suborno, mesmo, sabemos de poucos e não envolvem o mensalão. Foram cometidos em 1998, na compra de votos para a reeleição. Mas pode ter havido, sim, casos de suborno.
Mas é preciso demonstrar, mesmo que não seja preciso uma conversa grampeada, como Fernando Rodrigues revelou em 1998.
Nesta visão,  confunde-se compensações naturais da política universal  com atitudes criminosas, como crimes comuns. Quer-se mostrar aos políticos como fazer politica – adequadamente.
Chega-se ao absurdo. Deputados do PT, que nada fariam para prejudicar um governo que só conseguiu chegar ao Planalto na quarta tentativa, são acusados de terem vendido seu apoio em troca de dinheiro. Não há debate, não há convencimento, não há avaliação de conjuntura. Não há política. Não há democracia – onde as pessoas fazem alianças, mudam de ideia, modificam prioridades. Como certas decisões de governo, como a reforma da Previdência, não pudessem ser modificadas, por motivos corretos ou errados, em nome do esforço para atravessar aquele ano terrível de 2003, sem crescimento, desemprego alto, pressão de todo lado.
A formula é tudo por dinheiro é nome de programa de TV, não de partido político.
Imagino se, por hipótese, a Carta ao Povo Brasileiro, que contrariou todos os programas que o PT já possuiu desde o encontro de fundação, no Colégio Sion, tivesse de ser aprovada pelo Congresso.
Tenho outra dúvida. Se este é um esquema criminoso, sem relação com a política, alguém poderia nos apresentar – entre os deputados, senadores, assessores incriminados – um caso de enriquecimento. Pelo menos um, por favor. Porque a diferença, elementar, para mim, é essa.
Dinheiro da política vai para a eleição, para a campanha, para pagar dívidas. Coisas, aliás, que a denuncia de Antônio Fernando de Souza, o primeiro procurador do caso, reconhece.
Decepção. Não há este caso. Nenhum político ficou rico com o mensalão. Se ficou, o que é possível, não se provou.
Claro que o Delúbio, deslumbrado, fumava charutos cubanos. Claro que Silvinho Pereira ganhou um Land Rover. A ex-mulher de Zé Dirceu, separada há anos, levou um apartamento e conseguiu um emprego.
Mas é disso que estamos falando? É este o “maior escândalo da história”?
Os desvios de dinheiro público, comprovados, são uma denúncia séria e grave. Deve ser apurada e os responsáveis, punidos.
Mas  não sabemos sequer quanto o mensalão movimentou. Dois ministros conversaram sobre isso, ontem, e um deles concluiu que era coisa de R$ 150 milhões. Queria entender por que se chegou a este número.
Conforme a CPMI dos Correios, é muito mais. Só a Telemig – daquele empresário que ficou esquecido – compareceu com maravilhosos R$ 122 milhões, sendo razoável imaginar que, pelo estado de origem, seu destino tenha sido o modelo PSDB-MG. Mas o Visanet entregou R$ 92,1 milhões, diz a CPMI.  A Usiminas – olha como é grande o braço mineiro – mandou R$ 32 milhões para as agências de Marcos Valério. Mas é bom advertir: isso está na CPMI, não é prova, não é condenação.
A principal testemunha, Roberto Jefferson, acusou, voltou atrás, acusou de novo… Fez o jogo que podia e que lhe convinha a cada momento. Disse até que o mensalão era uma criação mental. (Está lá, no depoimento à Polícia Federal).
Eu posso pinçar a frase que quiser e construir uma teoria. Você pode pinçar outra frase e construir outra teoria. Jefferson foi uma grande “obra aberta” do caso.
O nome disso é falta de provas.