segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Jonathan Cook: A tentativa de Murdoch de comprar a Casa Branca « Viomundo – O que você não vê na mídia

Jonathan Cook: A tentativa de Murdoch de comprar a Casa Branca « Viomundo – O que você não vê na mídia
Murdoch, Petraeus e a Matrix da Mídia dos Estados Unidos
por Jonathan Cook*, em 21.12.2012, no Common Dreams
Carl Bernstein, famoso por conta do Todos os Homens do Presidente, faz comentários reveladores no [diário britânico] Guardian de hoje, embora não reveladores inteiramente da forma como ele parece acreditar. Bernstein destaca uma notícia divulgada no início deste mês pelo seu colega Bob Woodward, de que o barão da mídia Rupert Murdoch tinha tentado “comprar a presidência dos Estados Unidos”.
[NdoV: Bernstein e Woodward, atuando juntos como repórteres no Washington Post, ajudaram a provocar o impeachment do presidente Richard Nixon, nos Estados Unidos, nos anos 70]
Uma conversa gravada mostra que no início de 2011 Murdoch mandou Roger Ailes, chefe de sua empresa de mídia mais importante nos Estados Unidos, a Fox News, ao Afeganistão para persuadir o general David Petraeus, ex-comandante das forças dos Estados Unidos, a concorrer contra Barack Obama nas eleições presidenciais de 2012. Murdoch prometeu bancar a campanha de Petraeus e assumiu o compromisso de colocar a Fox News para apoiar completamente o general.
As tentativas de Murdoch de colocar seu próprio homem na Casa Branca fracassaram porque Petraeus decidiu que não queria disputar a Casa Branca. “Diga [ao Ailes] que se um dia eu concorrer…”, diz Petraeus na gravação, “não vou… mas se um dia concorrer eu aceito a proposta”.
Bernstein se mostra horrorizado não apenas pelo ataque frontal à democracia mas também pelo fato de que o Washington Post se negou a dar em manchete o furo jornalístico mundial. Em vez disso, enterrou a nota na seção de estilo de vida, apresentando-a como — disse o editor do caderno — “uma notícia espalhafatosa… que não tinha importância mais ampla” que justificasse um maior destaque.
No mesmo padrão do Washington Post, as empresas de mídia dos Estados Unidos ou ignoraram a notícia ou diminuiram sua importância.
Podemos provavelmente assumir que Bernstein escreveu seu comentário a pedido de Woodward, como forma encoberta de expressar o ultraje de Woodward com o fracasso completo de seu jornal em usar a notícia para gerar um merecido escândalo político. A dupla provavelmente esperava que a notícia provocasse audiências no Congresso sobre uso indevido de poder por Murdoch, em paralelo com as investigações que revelaram no Reino Unido o controle de Murdoch sobre políticos e a polícia de lá.
Como Bernstein observou: “A notícia do Murdoch — sua corrupção de instituições essencialmente democráticas dos dois lados do Atlântico — é um dos casos políticos/culturais mais importantes dos últimos 30 anos, um conto em andamento e sem igual”.
O que Bernstein não consegue entender é o porquê dos barões da mídia não enxergarem as coisas como ele. Bernstein reserva seu maior desprezo à “resposta hã-hã da imprensa e do establishment político norte-americanos, seja por medo de Murdoch, de Ailes e da Fox — ou, talvez, pela falta de surpresa com o desprezo revelados por Murdoch, Ailes e a Fox em relação aos valores do jornalismo decente ou ao processo eleitoral transparente”.
Na verdade nenhuma das explicações de Bernstein para o comportamento da mídia é convincente.
Uma razão muito mais provável para a aversão da mídia pela notícia de Petraeus é que coloca em risco a parede de interferência estática, no estilo da Matrix, gerada precisamente pela mesma mídia, parede esta que esconde de forma bem sucedida o relacionamento confortável entre as corporações (donas da mídia) e os políticos do país.
Esta notícia sobre Petraeus causa distúrbio na mídia precisamente porque destroi a fachada da política democrática dos Estados Unidos, uma imagem cuidadosamente criada para persuadir o eleitorado norte-americano de que ele escolhe o presidente e decide o futuro político do país.
Em vez disso, a notícia revela a charada do jogo eleitoral, no qual poderosas elites corporativas manipulam o sistema através do dinheiro e da mídia que controlam, restringindo as escolhas dos eleitores a candidatos quase idênticos. Estes candidatos têm a mesma opinião em 80% das questões. Mesmo quando as políticas deles diferem, a maior parte das diferenças é desfeita nos bastidores pelas elites através da pressão que exercem na Casa Branca via grupos lobistas, a mídia e Wall Street.
A importância da notícia de Woodward não é que ela prova que Rupert Murdoch é um perigo para a democracia, mas sim que revela o domínio absoluto do sistema político dos Estados Unidos por corporações globais que controlam o que ouvimos e vemos. Essas corporações incluem, naturalmente, os donos do Washington Post.
A ironia mais triste é que os jornalistas que trabalham na mídia corporativa são incapazes de enxergar fora dos parâmetros definidos para eles pelos barões da mídia. E isso inclui mesmo os mais talentosos profissionais do ramo: Woodward e Bernstein.
*Jonathan Cook won the 2011 Martha Gellhorn Special Prize for Journalism. His latest books are Israel and the Clash of Civilisations: Iraq, Iran and the Plan to Remake the Middle East (Pluto Press) and Disappearing Palestine: Israel’s Experiments in Human Despair (Zed Books). His new website is http://www.jonathan-cook.net/.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Carta Maior - Política - Quem é dono do conhecimento e da cultura?

Carta Maior - Política - Quem é dono do conhecimento e da cultura?

"Onde está tudo aquilo agora? - Minha vida na política", de Fernando Gabeira

"Onde está tudo aquilo agora? - Minha vida na política", de Fernando Gabeira
"Onde está tudo aquilo agora? - Minha vida na política", de Fernando Gabeira
“Onde está tudo aquilo agora? – Minha vida na política”, de Fernando Gabeira

1.

Goste-se ou não do sujeito, é indiscutível que Fernando Gabeira é uma das pessoas mais biografáveis do Brasil. Pessoalmente, gosto do cara. Depois do Lula, Gabeira é a pessoa por quem eu mais fiz campanha na vida, e, se tanto um como o outro me irritam e me desesperam com grande frequência, são os dois marmanjos em quem, até agora, pelo menos, fiz minha aposta. Pois é, eu sei. Enfim.
E a primeira coisa que devo dizer sobre a autobiografia do Gabeira é que ela não foi feita pra mim: ela não foi escrita para os antigos admiradores. Não é um “As sessões de gravação perdidas de Gabeira”, é mais um “Gabeira: Greatest Hits”, uma “Apresentação a Gabeira”. Felizmente, não chega a ser um “Gabeira for Dummies”, de jeito nenhum: é um livro muito bom, em um estilo que não se joga o tempo todo na frente do interessantíssimo conteúdo. Mas não traz grandes revelações para quem acompanha a trajetória do cabra há mais tempo.
O sinal mais claro disso é que o livro é inacreditavelmente pequeno. Tem duzentas páginas, e, se você descontar as quinze páginas obrigatórias de “desde pequeno já era claro que eu seria…” e as cinco obrigatórias de “grandes são os desafios, mas grande também é a esperança” no final, já ficam só cento e oitenta. Isso para contar a vida de um cara que escrevia em um jornal do Brizola na época do golpe de 64, morou com o Paulo César Pereio (é sério), trabalhou no JB durante as grandes passeatas contra a ditadura, entrou para a luta armada, sequestrou o embaixador dos Estados Unidos, fez um manifesto (que não escreveu) contra a ditadura ser lido no Jornal Nacional, foi preso, foi torturado, conheceu Frei Tito na cadeia, conheceu Lúcio Flávio na Ilha Grande, foi solto por causa de outro sequestro, foi exilado, morou em Cuba (onde era amigo do Glauber Rocha), estava no Chile durante o golpe contra Allende, foi para a Berlim da época do muro, foi morar na Suécia, se converteu à causa ambiental e à defesa de estilos de vida alternativos (leiam esse livro para ver como ele foi fundo nesse negócio), voltou do exílio, foi à praia com a tanga da Leda Nagle, organizou o PV, disputou o governo do Estado do Rio pelo PT, foi estigmatizado com o slogan “quem senta, fuma e cheira, vota no Gabeira” (como ele sempre diz, se fosse verdade, tinha ganho), disputou a primeira eleição presidencial pós-64 (ia ser vice do Lula, acabou concorrendo como nanico), foi correspondente em Berlim logo depois da queda do muro, estava na Iugoslávia quando ela acabou, virou “aquele cara que defende a descriminalização da maconha” (como a Marta Suplicy durante um tempo foi “a maluca que defende que bicha se case”), trabalhou para eleger o Lula, rompeu com o Lula por causa dos transgênicos (foi antes dos escândalos de 2005), denunciou o governo por corrupção (acertadamente), derrubou o Severino (de quem muita gente se recusava a falar mal), foi capa da Veja, fez uma campanha histórica para prefeito do Rio em 2008 (perdeu por 50 mil votos, diferença menor até que a votação que o Rodrigo Maia teve em 2012), foi denunciado no escândalo de corrupção mais besta de todos os tempos (por dar uma passagem aérea do Congresso para sua filha, que é a maior surfista em ondas grandes do mundo), e concorreu de novo ao governo em 2010 (sem chance de vitória). Só de eu listar essas coisas todas já deve ter dado quase 180 páginas.
De qualquer maneira, ao recontar episódios conhecidos, Gabeira introduz novas nuances em algumas antigas narrativas; e o livro é, também, uma tentativa de responder à pergunta do título: afinal, adiantou alguma coisa essa luta toda? Se você acreditou nas causas que o Gabeira defendeu, a essa altura do campeonato, deve fazer o quê?

2.

Na excelente entrevista recente a Geneton de Moraes, Gabeira já havia manifestado seu incômodo com o fato de que o sequestro do embaixador Charles Elbrick parece cancelar o resto de sua biografia. O capítulo sobre o sequestro em Onde está tudo aquilo agora? começa já lembrando que a história foi contada em detalhe em O que é isso, companheiro?. Só o esqueleto básico dos eventos é reproduzido em Onde está…. Como se viu na entrevista para Geneton, hoje em dia Gabeira é ainda mais crítico do sequestro do que era quando escreveu O que é isso…, mas não há muito dessa discussão aqui.
Em pelo menos um aspecto isso é um mérito: na autobiografia há menos de algo que sempre me pareceu irritante no filme com o Pedro Cardoso (que, sob outros aspectos, é bom): a ideia de que Gabeira foi uma espécie de guerrilheiro irônico, de que sempre teve uma noção pelo menos razoável de que havia algo de errado com a proposta da guerrilha brasileira. Isso não me soa convincente. Gabeira diz que os militantes não entendiam muito de marxismo, que sua motivação filosófica era mais Sartre do que Marx, e acredito que isso fosse verdade. Mas naquele socialismo voluntarista do Sartre ele devia acreditar com entusiasmo; afinal, por aquilo ele declarou guerra às forças armadas brasileiras, sequestrou o embaixador da maior força militar da história, foi para Cuba já como exilado fazer treinamento de guerrilha. É claro que ele devia ter dúvidas, e, talvez, por temperamento, as tivesse mais que os outros militantes, mas, se elas não perdiam de dez a zero para as esperanças, a entrada de Gabeira na guerrilha urbana permanece um mistério.
Acho bacana que Gabeira tenha criticado suas piores ideias, mas suspeito que haja projeção de suas autocríticas posteriores na construção de seu personagem guerrilheiro. Se isso o tiver ajudado a se livrar da esquerda ortodoxa, ótimo; mas, para quem lê seus livros, às vezes soa esquisito.

3.

As duas melhores partes do livro são o exílio e a política brasileira dos anos oitenta. Nelas fica claro que Gabeira não é, antes de mais nada, o cara que sequestrou o embaixador: ele não era o principal sequestrador, e o sequestro não foi tão importante assim.
A coisa importante que Gabeira fez na vida foi chamar atenção, dentro da esquerda brasileira, para o que Ronald Inglehart chamou de valores pós-materiais: causas ligadas à qualidade de vida, como o meio ambiente, e causas ligadas à liberdade individual, como o feminismo e os direitos dos homossexuais. É uma discussão semelhante à da turma da “crítica da sociedade do trabalho”, o Habermas, o Gorz, esse pessoal. É em reação a essa proposta do Gabeira que até hoje boa parte da esquerda ainda pergunta, O que é isso, companheiro?
No exílio, o personagem Gabeira irônico soa bem mais plausível. Sua descrição da vida na Suécia socialdemocrata, onde, trabalhando como porteiro de hotel e jardineiro de cemitério, tinha uma vida digna e podia, inclusive, viajar para a praia durante o inverno, é ótima, porque oferece o pano de fundo para a revolução dos valores pós-materiais. Lendo o Inglehart, fica claro que seu raciocínio sobre a crescente importância dos valores pós-materiais evidentemente supunha que os problemas materiais básicos estivessem resolvidos; na Suécia em que Gabeira viveu, eles claramente estavam, tanto quanto é possível que estejam. Isso deveria ser mais enfatizado: leia os autores da “crise da sociedade do trabalho”, como Habermas e Gorz, sempre supondo que, no pano de fundo do que eles dizem, há um welfare state generoso (que eles, inclusive, constantemente criticam, às vezes com razão). Se você fizer isso, eles vão parecer menos idealistas e abstratos do que alguns comentaristas sugerem.
Gabeira sabia disso, como mostra sua oscilação posterior entre o PT e o PV, dois partidos que ele sempre imaginou atuando juntos, na chamada coligação “verde-vermelha”, o PT entrando como a socialdemocracia alemã entrou em aliança semelhante. Mas no livro A vida alternativa, ele chamava atenção para um problema inevitável para os ambientalistas brasileiros: no Brasil havia problemas de país riquíssimo (já havia, por exemplo, usinas nucleares) e problemas de país paupérrimo. Se você quiser ir lá dizer para os pobres brasileiros que justo na hora deles não vai ter mais crescimento econômico, não espere entusiasmo.
Além disso, o problema ecológico no Brasil envolve apostas muito mais altas do que na Europa. Quando os partidos verdes surgiram na Europa, o continente já era intensamente industrializado, e a vegetação estava reduzida a uma samambaia na casa de uma velhinha no interior da Suíça. Aqui ainda há imensas áreas não exploradas; os interesses econômicos serão muito mais fortes, o potencial de exploração econômica (no bom e no mau sentido) será muito maior, e a perda de qualidade de vida global caso optemos pelo desmatamento desenfreado também será muito maior. Ao mesmo tempo que o surgimento de um ambientalismo forte é mais difícil, os problemas são maiores.
É uma pena que Gabeira não tenha desenvolvido mais esse tema, porque aí podem estar muitas das respostas para as lutas dentro da esquerda que, inclusive, o levaram a romper com o PT. O PT é um partido socialdemocrata (a propósito, quantos aliados bons não teria mantido se tivesse reconhecido isso logo de cara?). Seu problema é a desigualdade. E só uma mula completa pode ignorar que os governos do PT enfrentaram esse problema com energia e com sucesso: a desigualdade brasileira caiu ao nível em que estava nos anos 60, quando inicia sua disparada. Mas o PT não deu aos problemas ambientais, por exemplo, a mesma ênfase que teria dado se o PV fosse um parceiro importante na aliança com que governou.
-- Cartum de Spacca mostrando o momento em que se discutia se o vice de Lula em 1989 seria Gabeira ou Houaiss (foi o Bisol) --
— Cartum de Spacca mostrando o momento em que se discutia se o vice de Lula em 1989 seria Gabeira ou Houaiss (foi o Bisol) –
E aqui há a grande lacuna do livro de Gabeira: a falta de uma história do PV. Como foi a tentativa de formação de um partido ambientalista no Brasil, um país com as características citadas acima? Quais foram os conflitos, como Gabeira se posicionou em cada um deles? Ninguém esperava que o PV conquistasse maioria no Congresso, mas, levando em conta as votações que, em certos momentos, conseguiram tanto Gabeira quanto Marina Silva, não poderíamos esperar que fosse um pouco maior? Não é só a dificuldade de formar partidos novos: nos anos oitenta, o PT era muito pequeno, e outros partidos de esquerda, como o PSB, também conquistaram bancadas razoáveis.
E vejam a situação do PV hoje. O Sirkis tem seus méritos, mas não tem a estatura nem do Gabeira nem de outros fundadores do PV, como o Minc, que se destacou no PT. O presidente do PV até outro dia (não sei se ainda é) era o Penna, e suspeito que, pelo Gabeira ter tido que conviver forçadamente com ele esses anos todos, Charles Elbrick já esteja vingado. A grande contribuição do Penna ao PV até hoje foi se recusar a dar espaço para Marina Silva continuar no partido depois de ter obtido 20% dos votos para presidente. Craque é craque.

4.

Os capítulos sobre o governo Lula também são bons. Gabeira denunciou a corrupção do governo petista com competência, e ele estava certo. Errou quem achou que as vitórias eleitorais e os bons resultados dos governos nos absolviam. Nas eleições, a população tinha que decidir se o PT era mais corrupto do que a oposição, e decidiu que não. Mas esse padrão de comparação é muito pouco exigente. Quando o Supremo teve que decidir, não em termos comparativos, mas em termos absolutos, se o PT tinha praticado corrupção, decidiu que sim. E, embora se possa criticar alguns aspectos do julgamento, acho que ninguém duvida que, quando o PT fez negócio com Marcos Valério, era o mesmo negócio que o Marcos Valério sempre fazia.
O problema é que uma análise equilibrada do governo Lula não pode ser feita apenas limpando a baba dos argumentos da Veja e discutindo só corrupção. Gabeira não é o PPS: faz oposição entusiasmada ao governo, mas reconhece as qualidades de Lula, reconhece as realizações do governo. Mas as referências a isso são passageiras, e, embora se possa argumentar que a função de Gabeira é chamar atenção para outros valores que não os da esquerda tradicional, devemos lembrar que a esquerda tradicional tinha uns bons valores: o bolchevismo era um lixo, mas combate à pobreza é uma boa ideia.
Gabeira morou na Suécia, onde viveu dignamente sendo porteiro de hotel e jardineiro de cemitério. Não havia nada para aprender ali? Se Gabeira diz que “eu não via o crescimento material como único valor, nem as melhorias materiais como causa única” (p. 165), às vezes dá a impressão de que o crescimento material não é nem valor, nem causa, nem primeira, nem última. Se o fracasso da aliança verde-vermelho gerou um PT sem discurso ambiental, Gabeira parece ter ficado sem discurso para o problema da pobreza. E isso torna sua análise do governo Lula meio desequilibrada, como aquelas análises sobre o governo FHC que dizem que, certo, acabou com a inflação, mas [seguem duzentas páginas falando mal sobre a privatização da Vale].
De forma que o capítulo sobre o governo Lula é um bem vindo “O que é isso, companheiro?” para a esquerda que ainda não aceita que os governos do PT praticaram corrupção, em especial em seu relacionamento com o congresso. Mas a apresentação dos fatos é mais factual do que analítica, e essa era uma hora em que uma boa análise, vinda de um quadro como o Gabeira, nos faria bem.

5.

A partir do sucesso de sua investida contra Severino, Gabeira recebeu novo fôlego eleitoral, e quase virou prefeito do Rio de Janeiro em 2008. A campanha foi muito singular. Parte importante dos votos de Gabeira foi de eleitores petistas (como eu; e na campanha conheci vários outros), mas um dos principais impulsos da campanha veio do apoio de Armínio Fraga, que fez o apoio do PSDB (fraco no Rio, como o PT) se transformar em apoio efetivo de grande parte do eleitorado tucano. Durante a campanha, Gabeira manteve uma posição moderada sobre o governo Lula. Em 2010, na campanha pelo governo, trouxe o DEM do César Maia para a aliança, e colocou-se mais claramente como candidato da oposição; se tivesse sido só oposição marinista, talvez mantivesse os votos petistas, mas houve um momento em que até se cogitou que virasse vice do Serra. Perdeu votos, inclusive o meu, e teve um desempenho decepcionante.
Não há dúvida de que a campanha de 2008 foi muito estimulante, e lembrou mesmo as grandes campanhas petistas dos anos oitenta (que também quase sempre perdiam, mas foram importantes). Mas aqui cabe se desvencilhar da maior besteira no livro: a ideia de que Gabeira se distanciou da política nos últimos anos porque se desiludiu com as possibilidades de mudar as coisas por dentro. Gabeira não saiu da política por desânimo: foi derrotado.
Nas duas últimas eleições que disputou, Gabeira forjou alianças bastante amplas (que incluíam o sensacional Zito e uma turma do DEM – o César Maia é o menor dos problemas – de que ele provavelmente não se orgulha), moderou seu discurso (por exemplo, com relação à descriminalização das drogas), mas não conseguiu vencer, em parte por azar (quase venceu em 2008) e em parte porque Sérgio Cabral soube se posicionar como aliado de Lula em um ambiente que, tal como na Suécia ou na Alemanha, mais ou menos se polarizou entre um bloco de esquerda e um bloco de direita. Se Gabeira tivesse ganho, hoje já teria tido que fazer acordos com os vereadores, teria que lidar com a ineficiência da máquina burocrática, teria que conviver com aliados corruptos, e suspeito que não estaria desiludido: pois acredito que seu governo teria boas realizações, que lhe dariam o sentimento de que, ao fim da guerra, valeu a pena.
Não estou criticando Gabeira por ter jogado o jogo e tentado ganhar. Na verdade, eu o apoiei com muito mais entusiasmo quando resolveu fazê-lo, porque acho que teria sido um ótimo prefeito. Também acho que as eleições de 2008 e 2010 fizeram de Gabeira um político muito melhor do que jamais foi. Sua tentativa de trazer o saneamento básico para o centro das lutas ambientais era uma boa ideia. Lendo Onde está tudo aquilo agora?, temos a impressão de um autor desperto, lúcido. Não venceu as últimas eleições, mas isso é parte da vida do político. Como a Maya pode explicar para o pai, você pode ser o surfista que for, mas, às vezes, a onda certa precisa passar pela sua frente, e às vezes não passa.

6.

O mérito de Fernando Gabeira na renovação da esquerda brasileira nos anos oitenta e noventa (quando, inclusive, ele votou pela privatização das teles) foi imenso. Gabeira é um grande jogador da esfera pública, e sabe como chamar atenção para os problemas: escreve muito bem, fala bem na TV, sabe discutir com intelectuais e com a cultura pop, tem uma presença na internet muito melhor do que qualquer político brasileiro. Por mais que isso incomode Gabeira, sua participação no sequestro de Elbrick (e sua prisão, e sua tortura, e seu exílio) tornam muito difícil para os radicais de esquerda questionarem suas credenciais políticas; mas ele é suficientemente distante da esquerda tradicional para que a direita de vez em quando tenha que engoli-lo como aliado, para alegria da pequena franja do liberalismo brasileiro que leva a sério as liberdades individuais fora da economia (e da franja menor ainda que leva a sério problemas ambientais; isto é, a Miriam Leitão). Longe de ser o profeta desarmado que alguns retratos fazem dele, Gabeira é um hábil estrategista, que sabe jogar política.
Pois bem, onde está tudo aquilo agora? Em parte, aquilo tudo aconteceu, está na história. Gabeira reconhece que os ganhos na luta contra a pobreza e a desigualdade são grandes. Eles certamente honram os que morreram lutando por isso nos anos 60, ainda que o remédio que defendiam enquanto lutavam, o socialismo, fosse a resposta errada. O PT cumpriu, até agora, seu papel de partido socialdemocrata. As lutas pela liberdade de orientação sexual têm obtido vitórias importantíssimas.
O fato mesmo de o PSDB ter tantos ex-esquerdistas em seu comando (um dos autores do Plano Real, Pérsio Arida, foi preso e torturado como militante secundarista; imaginem se um Fleury ou um Bolsonaro da vida o tivesse matado; pensem sempre no Bolsonaro como o cara que teria abortado o Plano Real) provavelmente dificulta o crescimento de uma direita raivosa no Brasil. É verdade que Serra foi malafaísta quando isso interessou, mas parte de seu fracasso em sê-lo foi a evidente falta de vocação para o papel (alguém lembra do Índio da Costa tentando ser o guardião da família? Era pior ainda). No geral, a contribuição da geração de Gabeira (e dele mesmo, individualmente) ao Brasil foi bastante positiva.
É claro que ainda há problemas sérios a serem enfrentados (mas grande é a esperança, etc.). Ficando só naqueles aos quais o Gabeira já se dedicou, ainda não temos alianças políticas consistentes para combater nem a corrupção, nem a degradação do meio-ambiente. Eu não sei como formar essa aliança. Mas talvez valha a pena comparar a aliança que eu gostaria que o Gabeira tivesse formado com a que ele tentou formar nos últimos anos.
Minha esperança para o Gabeira nos últimos tempos era que ele fosse um polo de atração para a esquerda moderada alienada pelo PT, seja pela corrupção (como o Ruy Fausto), seja pelas besteiras que dissemos sobre economia nos anos noventa (como os socialdemocratas restantes no PSDB), seja porque, enfim, seja lá porque o PPS rompeu. Seria uma espécie de arrumação na confusão ideológica que restou no espectro político brasileiro pelo fato do PSDB ter feito o presidente em um governo de centro-direita (essa é a única confusão ideológica no Brasil; o resto é presidencialismo de coalizão). Para isso acontecer, o Gabeira precisava ter ganhado as eleições que disputou. Não deu.
Uma vez que não deu, o PV (tanto com Gabeira como quanto com Marina) tem tentado driblar o PT pela direita. Digo isso sem qualquer intenção de ofender ou criticar, faz parte do jogo, e pode ser ótimo: quando ficou claro que Marina seria uma candidata moderada (e, portanto, eleitoralmente viável), o governo Lula efetivamente melhorou muito o combate ao desmatamento na Amazônia. Mas não está claro que essa estratégia seja muito promissora. Afinal de contas, Gabeira e Marina perderam suas eleições. E o quanto essa aliança, digamos, azul-verde, teria conseguido fazer avançar o combate à corrupção e a defesa do meio-ambiente? É difícil saber.
Gabeira já vez muito na vida, e eu não vou me meter a dizer o que ele deve fazer agora. Se ele preferir voltar a ser jornalista, ou quiser produzir documentários, eu vou ler os artigos e assistir os documentários. Mas a ideia de que a única solução possível para os dilemas que sua trajetória coloca seja sair da política formal é falsa. Precisamos exatamente de quem se proponha a levar essas causas adiante enfrentando a famosa “longa marcha pelas instituições”. Para quem se interessar por fazê-lo, entretanto, sempre será necessário estratégia e paciência, mas também inspiração. E isso suspeito que Gabeira continuará oferecendo por muito tempo.
::: Onde está tudo aquilo agora? :::
::: Fernando Gabeira :::
::: Companhia das Letras, 2012, 200 páginas :::
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Rogério Correia: “Valério operou ao mesmo tempo para o Aécio em Minas e o PT em Brasília”

publicado em 21 de dezembro de 2012 às 7:58
Rogério Correia: "Os tucanos tentam sempre colocar o Nílton Monteiro na conta do PT, mas o Nílton é cria deles"
por Conceição Lemes
Desde a semana passada, quando a Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência do Congresso aprovou convite para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso  dar explicações sobre a Lista de Furnas, os tucanos estão em polvorosa.
Em discurso no plenário, o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) atacou:
– Esta Lista de Furnas é um documento produzido em oficinas criminosas que operam sob o comando do PT com objetivo de atacar a reputação dos adversários, com uma série de nomes de políticos que teriam recebido contribuição ilegal da estatal. Submetida à investigação, a perícia já constatou ser uma fraude. As assinaturas foram falsificadas.
No início de novembro, o PSDB e aliados foram surpreendidos com outra notícia embaraçosa. Dino Miraglia, advogado do lobista Nílton Monteiro, entrou com petição no Supremo Tribunal Federal (STF), solicitando ao ministro Joaquim Barbosa que junte no mesmo inquérito a Lista de Furnas e o mensalão tucano. Alega haver conexão entre os processos, pois envolve as mesmas partes e a mesma forma de fazer caixa 2. Nílton, velho conhecido dos mineiros, denunciou os dois esquemas.
“Os tucanos tentam colocar o Nílton Monteiro na conta do PT, mas o Nílton é cria deles”, diz o deputado estadual Rogério Correia (PT-MG). “O Nílton foi usado pelo Cláudio Mourão para pressionar o Azeredo [Eduardo Azeredo], de quem cobrava uma dívida da campanha eleitoral de 1998. Só que o Cláudio acabou perdendo o controle sobre o Nílton, e o seu relatório com os financiadores da campanha daquele ano e os candidatos beneficiados acabou vazando.”
“O próprio Nílton apresentou também a Lista de Furnas, elaborada por Dimas Toledo, que, em 2002, fez uma operação monstro para levantar recursos para as campanhas de tucanos e aliados”, prossegue Correia. “Dimas lista nomes e quantias recebidas por candidatos que se se beneficiaram do esquema. Seu objetivo era pressionar Aécio Neves, eleito governador, e  outros tucanos, para que pressionassem Lula a mantê-lo à frente de Furnas, como, de fato, aconteceu por um tempo.”
Ou seja, duas listas tiram o sono dos tucanos.  A do mensalão, que a mídia insiste em chamar de mensalão mineiro, diz respeito à eleição de 1998. Eduardo Azeredo era candidato à reeleição pelo governo de Minas Gerais pelo PSDB. Perdeu para Itamar Franco, na época no PMDB.  Já a Lista de Furnas refere-se à campanha eleitoral de 2002. Como ambas têm origem em Minas, no mesmo grupo político, muita gente confunde os dois esquemas.
“A mídia geralmente omite que Aécio estava na lista do mensalão tucano, como tendo recebido R$ 110 mil reais e que o esquema extrapolou Minas, irrigando até a campanha de reeleição de Fernando Henrique à presidência”, afirma Correia. “Assim como passa por cima da história da Lista de Furnas, feita toda no esquema político do Aécio e que se espalhou pelo Brasil inteiro. Foi o esquema da Lista de Furnas que sustentou os tucanos na campanha de 2002.”
Tucanos e aliados odeiam Rogério Correia. Em 2005, ao tomar conhecimento da Lista de Furnas, o deputado levou-a à Polícia Federal (PF) e ao Ministério Público Federal e Estadual para que fosse investigada.  Em 2011, após reportagem publicada por Veja, tentaram lhe cassar o mandato, dizendo que havia participado do processo de falsificação dos nomes da lista. “Falsa era a reportagem da Veja”, ressalta. “A verdade acabou aparecendo.”
Daí esta nossa entrevista com o deputado, que é líder da bancada do PT na Assembleia Legislativa e do Movimento Minas Sem Censura. Aqui, ele  faz um raio X  das duas denúncias que, desde que se tornaram públicas, têm contado com a blindagem da mídia corporativa.
Viomundo — Na semana passada, o senador  Aloysio Nunes disse que a “perícia já constatou ser uma fraude” a Lista Furnas e que “as assinaturas foram falsificadas”.  O que acha?
Rogério Correia – Foi perícia da Polícia Federal que atestou a autenticidade de Furnas. Assim como a lista do Cláudio Mourão, contendo nomes de parlamentares que receberam do mensalão tucano, na eleição de 1998. Esse documento foi periciado. Depois, o próprio Cláudio Mourão confessou na Polícia Federal que o documento era dele.
Viomundo – É impressão ou as pessoas confundem a Lista de Furnas com a do mensalão tucano?
Rogério Correia – Não é impressão, não. Muita gente confunde. Primeiro, porque ambas têm origem em Minas, envolvem os mesmos partidos políticos e os mesmos esquemas de caixa 2. Segundo, porque cita nomes de candidatos que teriam recebido dinheiro do esquema para as respectivas campanhas. Terceiro, porque a mídia não tem interesse em divulgá-las, muito menos em diferenciá-las. Isso é proposital. Fica parecendo então que só havia uma denúncia, quando, na verdade, são duas, de eleições diferentes.
Viomundo – Esses esquemas vieram a público quando?
Rogério Correia – Em 2005, após a denúncia sobre o mensalão do PT, é que eles ganharam  notoriedade. Só que a lista do Cláudio Mourão, a do mensalão tucano, é de 1998. A Lista de Furnas é da eleição de 2002.
Viomundo – Vamos começar pela lista do Cláudio Mourão.
Rogério Correia – O Cláudio Mourão foi secretário de Administração de Azeredo na Prefeitura de Belo Horizonte [1990-1992] e no governo de Minas Gerais [1995 a 1º de janeiro de 1999]. Depois, foi o coordenador financeiro da  malsucedida campanha pela reeleição de Azeredo ao governo do Estado. Consequentemente, dominava toda a operação envolvendo dinheiro para a campanha: dos financiadores aos beneficiários.
Pois bem, o Cláudio Mourão fez um documento onde relata minuciosamente essa operação, que custou mais de R$ 100 milhões. O documento atinge o próprio Azeredo, vários parlamentares e políticos, entre os quais o hoje senador Aécio Neves (PSDB-MG).
Nesse documento (íntegra, no final desta entrevista), ele diz, por exemplo, que:  arrecadou mais de R$ 100 milhões na gestão final de Eduardo Azeredo; valores não declarados ao TRE-MG acima de R$ 90 milhões (caixa 2); só a SMP&B e a DNA Propaganda, do Marcos Valério, movimentaram quase R$ 54 milhões dos recursos levantados. Aécio Neves está na lista do Mourão como tendo recebido R$ 110 mil para sua campanha à Câmara dos Deputados.
Esse documento foi periciado e a sua autenticidade comprovada. Na Polícia Federal, o Cláudio Mourão confessou que o documento era dele.
Viomundo – O que levou Cláudio Mourão a fazer e vazar esse documento? Como o Nílton Monteiro entrou no esquema?
Rogério Correia – O filho do Cláudio tinha uma empresa de locação de veículos, que prestou serviços à campanha do Azeredo. A fatura era de R$ 6 milhões. O Azeredo não tinha dinheiro para pagar e o Cláudio queria receber.
A intenção era chantagear o Azeredo. Para isso, usou o Nílton Monteiro, de quem era muito amigo. A revista Época chegou a publicar uma foto dos dois numa lancha…
Só que o Nílton e o Cláudio se desentenderam. E o Nílton, que também havia participado da campanha do Azeredo, começou a denunciar o esquema. Foi pelas mãos do Nílton que a lista do Cláudio vazou. Os tucanos perderam o controle sobre o Nílton. Eles querem colocar o Nílton Monteiro na conta do PT, só que é da conta deles. O Nílton é cria deles.
Viomundo – E a história do cheque do Marcos Valério para o Cláudio Mourão?
Rogério Correia – O Cláudio entrou na Justiça para cobrar a dívida do Azeredo. Quando chegou a campanha a senador, em 2002, ele apertou o cerco, ameaçando denunciar tudo. Aí, entra o Marcos Valério, pagando o Cláudio Mourão. Pagou na Justiça, com um cheque dele, a dívida do Azeredo. O Cláudio Mourão retira então o processo. A publicização da lista e do cheque do Marcos Valério derrubou o Azeredo da presidência do PSDB. Tudo isso, lembre-se, apareceu pelas mãos do Nílton Monteiro. Naquela época, estava-se discutindo o mensalão do PT.
Cheque de Marcos Valério a Cláudio Mourão e o recibo de quitação da dívida da campanha de 1998; em primeira mão, em reportagem de Amaury Ribeiro Jr e Rodrigo Rangel para a IstoÉ, em 2005
Viomundo – Em Minas, vocês  já conheciam essa denúncia?
Rogério Correia – Ela já tinha sido feita aqui. Era mais ou menos público. Em 1999, portanto no ano seguinte à campanha de Azeredo pela reeleição ao governo de Minas, o Durval Ângelo, que é deputado do PT, lançou o livro O voo dos tucanos, onde contava como o dinheiro dos tucanos tinha sido obtido.
Na época, o Itamar Franco, que disputava o governo de Minas Gerais pelo PMDB, entrou com uma ação, pedindo a impugnação da candidatura de Azeredo devido ao Enduro da Independência. Para levantar recursos para a campanha, a SMP&B, do Marcos Valério, promoveu o Enduro e obteve recurso, a título de patrocínio, da administração direta e empresas públicas de Minas Gerais, como Copasa, Bemge, Loteria Mineira, Comig.
Apenas uma pequena parte foi gasta com o Enduro. O grosso foi repassado, segundo o próprio Mourão, à campanha do Azeredo e aliados.

Outra fonte de recurso público  foi a Cemig, que repassou à SPMP&B R$ 1,6 milhão para a campanha publicitária A energia do bem. Só que, na verdade, o recurso foi para o caixa 2 da campanha dos tucanos, como comprova documento que obtive da própria direção da Cemig.
No mensalão tucano, portanto, o dinheiro público é na veia. Não há nenhuma dúvida sobre isso. O que o Nílton Monteiro trouxe de novo, em 2005, foram a lista do Mourão e os DOCs bancários de repasse de recursos da SMP&B para os candidatos.
Viomundo – Mas a mídia insiste em chamar de mineiro o mensalão tucano…
Rogério Tucano – Teve origem em Minas mas extrapolou o Estado.  O próprio Azeredo, num dos momentos de pressão, já falou que, em 1998, foi recurso para a campanha de reeleição de Fernando Henrique à presidência.
Reportagem da CartaCapital dessa semana mostra que o ex-presidente Fernando Henrique usou mesmo R$ 3,5 milhões do mensalão tucano, através das empresas de Marcos Valério. Na época, elas mantinham contrato com a Fundacentro, do Ministério do Trabalho.
Viomundo – O Marcos Valério continuou a operar para os tucanos depois?
Rogério Correia – Sim. Em 1998, houve a eleição, Itamar Franco ganhou aqui, o Fernando Henrique lá no Planalto. Em 1999, ao tomar posse, Itamar cortou todos os contratos do governo de Minas com a SMP&B. O Marcos Valério foi operar em Brasília. Sumiu daqui. Passou a trabalhar para os Correios, levado pelo tucano Pimenta da Veiga, então ministro das Comunicações do governo Fernando Henrique Cardoso.
Na eleição seguinte, em 2002, o Aécio ganhou aqui para governador e Lula foi eleito presidente.  Em 2003, o Marcos Valério voltou para cá. Começou a atuar na propaganda do governo de Minas, da Assembleia Legislativa…
Infelizmente, o PT, em vez de romper os contratos com o Valério em Brasília, deixou que ele se aproximasse… Ele conheceu o Delúbio e, aí, vem toda a história com o PT.
Lembro-me de que, em 2005, a CPI dos Correios veio a Minas, porque havia denúncias de que policiais civis estavam queimando notas fiscais e outros documentos aqui em Belo Horizonte. Colocou-se isso na conta do mensalão do PT. Só que, na verdade, estavam queimando arquivos e documentos referentes às operações da SMP&B, de Marcos Valério para o governo Aécio, em Minas.
Como o pessoal do PT estava totalmente atordoado naquela CPI, os tucanos aproveitaram para queimar toda a parte de Minas. E a CPI dos Correios não conseguiu ou não quis apurar o que aconteceu. Por isso, nada das operações de Marcos Valério para o governo Aécio vieram à tona.
Viomundo – O Marcos Valério operou então, simultaneamente, para os dois lados?
Rogério Correia – Exatamente, ao mesmo tempo. Ele operou em Brasília para o PT e aqui em Minas para o PSDB. Foi o auge do Marcos Valério.
Viomundo – E a Lista de Furnas?
Rogério Correia — Esse esquema não é do Valério, é do Dimas Toledo, para a eleição de 2002.  O Dimas Toledo era diretor de Furnas, onde durante muitos anos operou para os tucanos.
Em 2002, o Dimas fez uma operação monstro para os tucanos, PFL (hoje DEM) e demais aliados com vistas às eleições daquele ano. Lula disputava a presidência com o Serra. Alckmin era candidato a governador de São Paulo e Aécio, a governador de Minas. Se você examinar a Lista de Furnas vai ver que eles operaram no Brasil inteiro, a partir de Minas. Operaram pro Serra, Alckmin, Aécio…
Dimas é extremamente ligado a Aécio e a Danilo de Castro, que já foi deputado federal e presidente da Caixa Econômica Federal no governo Fernando Henrique Cardoso. É o homem forte do Aécio. Foi secretário de Governo na gestão Aécio e  hoje secretário de Governo do Anastasia [Antonio Anastasia, governador de MG pelo PSDB].
Pois bem, o Dimas, com conhecimento de Danilo de Castro,  captou recursos de empresas que trabalhavam com Furnas e formou o caixa 2, o mensalão de Furnas. Foi quem fez a lista com os nomes e valores recebidos pelos candidatos.
Viomundo – Por que o Dimas fez a lista incriminadora se era operador dos tucanos?
Rogério Correia – Para pressionar Aécio e demais tucanos, para permanecer em Furnas. Dimas queria que o tucanato fizesse  pressão sobre o Lula, para mantê-lo na direção da empresa,  como, de fato, aconteceu por um tempo.
Aqui, o pessoal do PT ficou furioso, porque o Dimas é inimigo nosso e continuou em Furnas a pedido do Aécio, que fez muita pressão para isso ocorrer.
Quem apresentou a Lista de Furnas foi o Nílton Monteiro.  Daí o ódio que os tucanos e aliados têm do Nílton. Chamam-no de estelionatário, vagabundo, etc, etc. Insisto. O Nílton Monteiro é alguém que veio lá de dentro deles, é cria deles.
Viomundo – E como essa lista se tornou pública?
Rogério Correia – O Nílton Monteiro mostrou essa lista para um monte de gente, inclusive para mim. Muitos não acreditaram… Todo mundo ficou desconfiado, com medo de mexer, já que envolvia as principais figuras do tucanato. Mas, como antes ele havia me dado uma cópia da lista do Cláudio Mourão e doss DOCs bancários,  que eram verdadeiros, eu resolvi dar atenção e verificar o que era.
Pedi-lhe então uma cópia, pois observei que a lista tinha lógica política. Só poderia fazê-la quem conhecesse bem a política mineira. Era impossível que fosse inventada de tão certinha que estava. Estão nela tucanos, peemedebistas, que naquele momento estavam divididos aqui…  O Itamar Franco, por exemplo, apoiou o Aécio e o Lula.
O que eu fiz? Entreguei o xérox da lista para a Polícia Federal examinar. Quem passou a investigá-la foi o delegado Luís Flávio Zampronha. O Nílton ficou enrolando para não entregar os originais. Depois de muito tempo, o Zampronha conseguiu com que o Nílton os entregasse.  Se eu não me engano, isso aconteceu já em 2006… O Zampronha veio de Brasília e o Nílton entregou os originais nas mãos dele. Nessa altura, a Polícia Federal já havia grampeado e  tinha dicas de que o documento era verdadeiro.
Viomundo – Foi o senhor que tornou pública a Lista de Furnas?  
Rogério Correia – Não, eu passei para a Polícia Federal. Mas como o Nílton entregou-a para um monte de gente em 2005, não se sabe quem a colocou na internet. Os tucanos trataram logo de desmoralizá-la, porque não havia o original. Diziam que o documento era falso.
Mas a Polícia Federal ficou atrás do Nílton, até que um dia ele resolveu entregá-la. O Zampronha veio a BH para receber receber pessoalmente, das próprias mãos de Nílton, a Lista de Furnas.
O Zampronha mandou periciar. Passados uns dois meses, veio o resultado da perícia: o documento era verdadeiro. Não havia sido montado, não era falsificado e a assinatura era do Dimas Toledo. Não se tem mais dúvidas disso.
Viomundo – Mas os tucanos insistem que a lista é falsa.
Rogério Correia — Os tucanos mandaram fazer perícia em outro documento que não o original. Fizeram perícia em cima de algum xerox. O único original existente é o que foi periciado pela Polícia Federal, ele está na mãos da Polícia Federal até hoje.
Mais recentemente os tucanos contrataram um especialista norte-americano para fazer perícia numa lista xerocada. Pagaram R$ 200 mil para esse perito, que é desmoralizado nos EUA, já foi até processado lá.
Viomundo – O Dimas Toledo disse que não assinou a Lista de Furnas e que a Polícia Federal havia sido induzida a erro.
Rogério Correia — Perguntaram isso ao Zampronha. Ele acha que não existe a possibilidade de a Polícia Federal ter errado. Para a Polícia Federal, a Lista de Furnas é autêntica, verdadeira. Não tem como os tucanos continuarem negando.  A única assinatura da lista é a assinatura do Dimas Toledo, que é comprovadamente verdadeira.
Viomundo – E o conteúdo?
Rogério Correia – De público, há três confissões que atestam a veracidade do conteúdo. A primeira foi a do Roberto Jefferson, que disse que recebeu exatamente o valor que consta lá: R$ 75 mil. Ele disse: “não posso dizer dos outros, mas eu posso dizer que eu recebi o que está aí”.
Em matéria postada no seu blog, o Noblat contou que havia conversado com um deputado que disse que o valor que constava da lista era realmente o que ele havia recebido. O Noblat não quis dar o nome do deputado.
Mais recentemente, quando os tucanos tentaram cassar o meu mandato aqui, o  deputado estadual Antonio Júlio, do PMDB, foi para cima deles. “Cassar o quê, se o que ele diz é verdade?!”, reagiu Antonio Júlio na época.
Antonio Júlio pediu a Dimas uma verba não para ele, mas para um hospital da sua base eleitoral. O Dimas mandou para lá exatamente o valor que está na Lista de Furnas.  O hospital recebeu e o Antonio Júlio tem o recibo disso (imagem abaixo). Foi a pá de cal  nos tucanos, que murcharam, e na matéria da Veja.

Viomundo – Como foi essa tentativa de cassá-lo?
Rogério Correia – Antes, vou explicar a armação montada pelo pessoal do Aécio & Cia.
Danilo de Castro nomeou Márcio Nabak como delegado do Departamento de Operações Especiais de Minas, o Deoesp, antigo  DOPS. O Nakak é nitidamente tucano, um capacho do Danilo. Tem péssima reputação aqui, há vários procedimentos contra ele, não poderia nunca ser nomeado delegado tal a ficha dele. Inclusive, já foi retirado do cargo.
Bem, o Danilo foi colocado no Deoesp para fazer basicamente esta operação. Prendeu Nílton Monteiro por crimes que ele  teria cometido no passado, nada a ver com Furnas. Mas o objetivo real era que  falasse sobre a Lista de Furnas. Segundo o Nílton, três deputados federais do PSDB de Minas estiveram com ele e o Nabak, oferecendo liberdade em troca de delação premiada: Domingos Sávio, vice-presidente do PSDB, Marcos Pestana e o Rodigo de Castro, que é filho do Danilo de Castro, o homem forte do Aécio.
Segundo o Nílton, o Nabak, na frente dos deputados federais, fez-lhe a proposta de delação premiada. Propôs que ele renunciasse à lista de Furnas, dissesse que era falsa e que tinha sido armação minha. De dentro da prisão, o Nílton mandou uma carta à  Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais contando tudo isso.
Estava na cara que prenderam o Nílton para poder me acusar depois. Aí, começaram a plantar notas na imprensa.
Ao mesmo tempo, o Nabak solicitou no Rio de Janeiro o inquérito sobre a Lista de Furnas. Lá existem conversas grampeadas do Nílton Monteiro. E, segundo a Veja, teria conversas grampeadas do Nílton Monteiro com um assessor meu e comigo mesmo.
Dentro do contexto, as conversas não são nada comprometedoras. Mas a Veja pinçou trechos, para dar a entender que um assessor meu falsificava com o Nílton Monteiro nomes para a lista. E com essas “informações” Veja publicou a matéria contra mim. Eles queriam me desmoralizar e depois me cassar. Mas como eu tinha todos os documentos mostrando que aquilo era mentira, a história não pegou.
Entrou em cena o esquema de sempre: PSDB vazou a história para a Veja, Estado de Minas repercutiu, PSDB viu e pediu a minha cassação. E como eles são maioria, iriam me cassar mesmo. Só que nós reagimos, fomos para cima deles e ainda provamos que falsa era a matéria da Veja.
Viomundo — Que deputados pediram a sua cassação?
Rogério Correia – O Domingos Sávio, vice-presidente do PSDB.
Viomundo – No final de 2011, a procuradora criminal Andréia Baião, do Ministério Público do Rio de Janeiro, concluiu o seu trabalho  sobre a Lista de Furnas, comprovando a existência do esquema de caixa 2.  
 Rogério Correia – Exatamente. A conclusão dela é que a Polícia Federal, com base nos grampos, ficou ainda mais convencida de que a Lista de Furnas era verídica. Segundo relato da Polícia Federal, até para a mulher dele, o Nílton falava que a lista é verdadeira. Os grampos demonstraram também que ele procurava ganhar tempo com os dados que tinha em mãos, já que é um lobista.  A dra. Andréia Baião denunciou o Dimas Toledo por corrupção ativa e o Roberto Jefferson por corrupção passiva.
Outra ação que demonstra a veracidade da lista foi a derrota do então deputado federal José Carlos Aleluia (DEM-BA). Ele entrou com uma ação aqui em Belo Horizonte contra o Nílton Monteiro, alegando que ele teria falsificado a lista. Tanto a juíza Maria Luíza de Marilac Alvarenga Peixoto, que examinou o caso inicialmente, quanto o Tribunal de Justiça de MG deram ganho de causa ao Nílton Monteiro. A juíza baseou-se no depoimento do delegado Praxedes, que trabalhou junto com o Zampronha, que levou ao conhecimento dela que o documento era verdadeiro e o Nílton não o havia falsificado.
Viomundo — O que aconteceu com esta lista?
Rogério Correia — A procuradora mandou o inquérito para o juiz federal no Rio de Janeiro, que  se  julgou incompetente para analisar o assunto. Disse que não era caso de Justiça Federal, e sim, estadual, porque, segundo ele, Furnas é uma empresa de economia mista. Se fosse empresa pública, a competência seria federal. Então todo procedimento voltou para a promotoria no Rio de Janeiro, onde está sob análise.
O advogado do Nílton Monteiro, que também trabalha para família daquela modelo mineira que circulava nos meios políticos e  foi assassinada, pediu  ao ministro Joaquim Barbosa, no Supremo,  que junte a lista de Furnas e o mensalão tucano no mesmo processo, alegando que as pessoas envolvidas são as mesmas, a forma de fazer caixa 2 é a mesma. O ministro Joaquim Barbosa está estudando.
Viomundo – E agora?  
Rogério Correia – O Roberto Gurgel, procurador-geral da República, e o ministro Joaquim Barbosa, atualmente presidente do STF, têm conhecimento de tudo isso. Dizem que é muito mais fácil um saci cruzar as pernas do que o Gurgel investigar o tucano. Esperamos que, diante de tantas provas, o ministro Barbosa acolha a solicitação de juntar  a investigação da Lista de Furnas com o mensalão tucano.
Agora, o que pretendo mesmo é ampliar a campanha pela reforma política, em especial o financiamento público. Isso que aconteceu, no fundo,  tem relação com o modelo eleitoral. O crime de caixa 2 é inerente a esse modelo. A solução é fortalecer os partidos políticos de caráter ideológico definido, permitindo governabilidade a partir do resultado eleitoral e não do toma lá dá cá entre o Executivo e o Parlamento.
Mensalão tucano:  a lista do Cláudio Mourão






Lista de Furnas: Laudo da PF autenticando o documento após sua apreensão
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domingo, 16 de dezembro de 2012

Morta de vergonha - suplementos - geral - Estadão

Morta de vergonha - suplementos - geral - Estadão

Filósofo analisa por que uma enfermeira, sem ter feito nada moralmente errado, não resistiu à humilhação


LÚCIA GUIMARÃES
Em outubro de 1995, o telefone tocou no Palácio de Buckingham e um comediante franco-canadense se apresentou a assessores da rainha Elizabeth como o então premiê do Canadá, Jean Chrétien. O plebiscito sobre a separação de Quebec se aproximava e o ator Pierre Brassard conseguiu enganar a rainha durante 17 minutos, numa conversa em que ela cometeu pelo menos uma gafe, ao prometer apoio para manter o Canadá unido. Afinal, a soberana da Comunidade Britânica não podia tomar partido em disputas eleitorais nas ex-colônias. O clima da conversa foi tão informal que Brassard perguntou à Rainha se ela já tinha fantasia para o Halloween. Elizabeth riu e respondeu que era festa para crianças. O palácio reclamou, o comediante pediu desculpas, canadenses e britânicos se divertiram a rodo com o incidente.

O trote passado por radialistas em figuras públicas, especialmente na mídia de língua inglesa, é comum. Em novembro de 2008, dias antes da eleição de Barack Obama, Sarah Palin, candidata a vice do republicano John McCain, conversou com um comediante de Montreal certa de que tinha Nicholas Sarkozy na linha. Deu um show de ignorância e deslumbramento com o poder que, tinha certeza, conquistaria nas urnas. Disse ao "Nicholas" que achava sua mulher, Carla Bruni, o máximo e combinou ir caçar com ele, apesar do evidente tom de zombaria do comediante.
Trotes já produziram momentos de hilaridade e embaraço, mas até hoje não se sabe de um desfecho trágico como o suicídio de Jacintha Saldanha. Ela foi a enfermeira que, no dia 4 de dezembro, passou a chamada de dois radialistas australianos para outra enfermeira encarregada de atender Kate, a duquesa de Cambridge, internada no Hospital King Edward VII, em Londres, com enjoos de gravidez. Os radialistas se fizeram passar pela rainha Elizabeth e o príncipe Charles, Saldanha acreditou e a colega que cuidava de Kate aparece numa gravação dando detalhes sobre o estado da princesa, grávida do herdeiro do trono britânico.
Sarah Palin saiu do vexame da rádio e da derrota eleitoral para uma lucrativa carreira na TV. Jacintha Saldanha, arrancada violentamente do anonimato, se enforcou três dias depois, nas dependências do hospital. Casada e mãe de dois filhos, ela deixou três cartas para a família, cujo conteúdo não foi revelado. O hospital e a família de Saldanha não fizeram nada para dispersar a impressão de que seu suicídio está ligado à humilhação pública que passou por ter servido de instrumento da violação da privacidade real. Numa era em que se humilhar em público pela mídia é profissão em horário integral, cortesia da reality TV, a ideia de um suicídio motivado pela honra parece pertencer à literatura do século 19.
A honra é o tema do último livro do filósofo Kwame Anthony Appiah, lançado recentemente no Brasil. Em O Código de Honra: Como Ocorrem as Revoluções Morais (Companhia das Letras), o descendente da nobreza axânti, de Gana, por parte do pai, e da nobreza britânica por parte da mãe, trata de um assunto que marcou sua juventude, mas encontrou resistência entre filósofos contemporâneos.
Appiah é professor de filosofia na Universidade Princeton e construiu uma reputação de intelectual público ao se debruçar sobre temas como identidade étnica e sexual. Ele argumenta, em O Código de Honra, que o progresso resultante da abolição de práticas odiosas como a escravidão e os chamados "assassinatos por honra" de mulheres paquistanesas não são necessariamente obtidos pela vitória da certeza moral e da razão. O livro de Appiah cita outros casos, como os duelos por honra na Grã-Bretanha ou a amarração de pés femininos na China, e todos têm em comum o fato de que costumes foram extintos quando entraram em conflito com a honra numa cultura. A honra de um cidadão, diz ele, requer respeito coletivo e controle da própria imagem. Vergonha e orgulho são emoções centrais da honra. Quando a honra corre paralela à moralidade, diz o filósofo, o bem comum sai ganhando. Appiah conversou com o Aliás do seu escritório em Princeton.
O sr. faz alguma associação entre o suicídio de Jacintha Saldanha e a mídia?
Se podemos, de fato, partir de um reconhecimento de que a enfermeira se suicidou porque sentiu vergonha, é preciso levar em conta o seguinte: o objetivo desses trotes de rádios é desonrar pessoas com sua exposição ao ridículo. Muita gente tem prazer em assistir aos outros perdendo a dignidade, esse é também o motor da reality TV. E isso mostra que carecemos de sensibilidade sobre a importância de respeitar a honra e a dignidade alheia. A enorme relutância em regular o comportamento da mídia é um sinal disso. Eu não defendo, de forma alguma, criminalizar o comportamento dos radialistas. Mas é preciso que haja uma conversa pública sobre o assunto. Se lutamos pela liberdade de expressão, devemos também lutar pela responsabilidade da mídia, que tem enorme poder, para exercer essa liberdade. Afinal, que chance tinha a enfermeira, diante dos poderes que enfrentou?
O sr. acredita que haja uma falsa contrição, provocada não pelo reconhecimento do erro, mas pela exposição pública dos radialistas?
Sim, há esse aspecto. E questionamos se o arrependimento não passa de estratégia. Você contrata o relações públicas e ele aconselha: vá ao programa tal e tal pedir desculpas. Mas esse caso não é simples. Embora possamos condenar o fato de a enfermeira ter sido submetida a um vexame, não podemos afirmar que os radialistas tivessem como prever o desfecho trágico. Nem podemos imputar o desfecho aos radialistas. Dizer que eles não deveriam tratar pessoas dessa maneira é muito diferente de dizer que eles provocaram a morte, e a estridência da reação parece sugerir que eles são culpados. Acho que a mídia na Austrália, onde esse tipo de trote é comum, pode usar o caso para examinar o que faz.
Esse caso ilustra a tese de seu livro, sobre a diferença entre honra e moralidade?
Sim, com certeza. A enfermeira foi envergonhada pelo trote. Ela não fez nada moralmente errado porque estava convencida de que era a rainha do outro lado da linha, e sua obrigação era passar a chamada. Então, sua vergonha teve origem no engano. Ser enganado não é uma ofensa moral. Honra e vergonha são mecanismos usados para reforçar normas sociais. Há duas conexões importantes entre honra e moralidade. Primeiro, desonrar pessoas causa prejuízo moral; e quando a honra corre paralela à moralidade, as pessoas tendem a agir pelo bem comum.
Um exemplo dessa dissociação entre moral e honra pode ser o caso de Jerry Sandusky, técnico de futebol da Pensilvânia, acusado de estupro de garotos sob sua proteção?
Ele só foi preso e condenado anos depois de ter sido flagrado no estupro de um menino de 11 anos. O caso de Jerry Sandusky ilustra isso bem. No começo, o senso de honra coletiva, a negação da verdade sobre uma figura pública querida, conspira para abafar os crimes. Em seguida, o mesmo senso de honra se alia à indignação moral e é mobilizado para corrigir o erro trágico.
Como o fenômeno do que se torna viral na internet pesa sobre nossas prioridades?
Um exemplo foi o Kony 2012, o vídeo viral denunciando o líder fanático de um culto e uma milícia em Uganda. O problema com o fenômeno do viral é que concentra o foco em algo de forma arbitrária. A morte da enfermeira é terrível, mas, comparada à carnificina na Síria... Se apurarmos o espaço dedicado a uma coisa e outra veremos a falta de proporção. Muito antes da internet, sempre soubemos que o valor jornalístico não é a mesma coisa que importância moral. Mas, quando a mídia era fruto do trabalho de editores, havia algum critério. O que temos agora é muito mais irresponsável do que o jornalismo sensacionalista tradicional. Lembre que o que chamamos de padrões éticos do jornalismo é um fenômeno do século 20, a profissão demorou séculos para se autorregular. Os blogs existem há menos de 20 anos. Quem sabe se vai haver um ponto de virada, em que a sociedade queira colocar limites nos excessos? Sinto falta de um diálogo importante, relacionado à questão da honra, num mundo em que houve tanta erosão da privacidade.
O sr. acredita que os jovens, crescendo online e frequentando tantas mídias sociais, como o Facebook, de fato tenham menor expectativa de privacidade?
Não, e uma prova disso é que a preocupação com a honra se confirma quando os jovens se sentem humilhados online, às vezes com consequências trágicas. A privacidade é um elemento protetor da sua honra. Os adolescentes estão se expondo de uma forma que vai lhes custar mais tarde. Eu penso duas vezes antes de colocar qualquer coisa na web porque sei que, uma vez lá, escapa a meu controle. E não adianta apenas criar leis de proteção como as que se discutem na França, sobre o direito de apagar o passado. Quando os pais ensinam um jovem a dirigir com prudência, estão fazendo mais do que impedir que ele use o carro como uma arma destrutiva. Acho que os adultos deveriam proteger os adolescentes na internet da mesma forma. Pensando na honra e na vergonha, ensinar limites e reforçar uma cultura de responsabilidade. A fofoca maliciosa, antes da tecnologia digital, sempre foi dolorosa para adolescentes. E não se deve esquecer que o alcance da internet é transnacional.
Com a erosão de figuras de autoridade, tanto na vida privada como nas instituições, a mídia social cumpre um papel de árbitro moral?
Pode ser o caso, especialmente nos Estados Unidos. Há uma grande hostilidade à consideração pelo que pensam os mais experientes, os que foram investidos de alguma função social. E, infelizmente, a mídia é parte disso. Um exemplo é como a mídia americana trata a vida privada de figuras no serviço público. Deveria ser algo positivo, você se dedicar ao serviço público. Agora é uma garantia de ter sua vida privada invadida. O prefeito de Nova York, Mike Bloomberg, é um bom exemplo de político que não cede a essa pressão: ele se recusa a responder a perguntas sobre a vida pessoal e não dá satisfações sobre o que faz quando não está trabalhando para a cidade. Mas o problema vai continuar enquanto vivermos num mundo sem editores. Mesmo o mais vulgar tabloide tem um editor tomando decisões. Na internet, o filtro se foi.
* Kwame Anthony Appiah é filósofo e professor de Princeton, autor de O Código de Honra

Operação 2014 | Carta Capital

Operação 2014 | Carta Capital

Mino Carta

Editorial


Operação 2014

E reaparece meu pai, Giannino, e não diz “profetica anima mea”, alma minha profética. Confirma apenas “mala tempora currunt” e comenta como é elementar a tarefa do analista político nas nossas latitudes. Refere-se, está claro, ao jornalista honesto, habilitado a perceber a previsibilidade dos movimentos dos senhores da casa-grande.
Até o mundo mineral recorda os tempos precedentes ao golpe de 1964 e reencontra aquele tom de fúria nos jornalões dos últimos dias. Desfraldam manchetes dignas da eclosão da guerra atômica. Está em curso, de fato, uma operação na mira de 2014, articulada em duas frentes com o mesmo objetivo: a debacle final de quem ousasse preocupar-se com o destino do País todo, senzala incluída.

Em uma frente visa-se Lula, sua popularidade e seu peso em relação ao futuro da presidenta Dilma. Ocorre assim que venham à tona detalhes do depoimento prestado há três meses por Marcos Valério à Procuradoria-Geral da República. Vazados por quem? Pelo próprio Roberto Gurgel em busca de desforra? Há figuras ilustres engajadas na campanha, imponente entre elas o novo presidente do STF, Joaquim Barbosa, o qual se apressa a declarar que o ex-presidente pode ser investigado pelo Ministério Público. Ao lado do nosso Catão postam-se prontamente (e quem mais?) os ministros Gilmar Mendes e Marco Aurélio Mello. Mendes é aquele, para quem esqueceu, que chamou às falas o então presidente Lula, pediu e ganhou a cabeça do delegado Paulo Lacerda, acusou a Abin de um grampo inexistente e trabalhou com êxito para o enterro da Operação Satiagraha e a felicidade de Daniel Dantas. Quanto a Mello, dispensa apresentação no seu inesgotável papel de homem-show.
Não falta um colaborador de elevada qualificação, o feliz contraventor Carlinhos Cachoeira, parceiro de Policarpo Jr., impagável representante da Veja em várias operações criminosas. Quem sabe a dupla se consolide no momento em que Cachoeira realizar sua ameaça: “Sou o garganta profunda do PT”. O que espanta, nisso tudo, é a falta de reação à altura por parte do partido. Parece estabelecida uma corrente de pusilanimidade entre Odair Cunha e a presidência do PT, dotada de uma vocação cristã alçada à enésima potência: não lhe basta oferecer a outra face, imola-se por inteiro.
E que dizer do desempenho do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo? Imerso em perfeito silêncio diante de acontecimentos que dizem respeito à sua pasta. Quando fala manifesta, não sem altaneira timidez, sua impressão (ou seria sensação?) de que Lula é inocente. Consta que este ministro tem amigos graúdos e costas quentes. Outro, digníssima figura merecedora do apoio de CartaCapital, é o alvejado Guido Mantega, em boa parte executor da política econômica do governo. Se atiram nele, sejamos claros, é porque querem atirar na presidenta.
Eis aí a segunda frente da Operação 2014. A política econômica do governo enfrenta e desafia interesses poderosos. É antídoto salutar à religião do deus mercado que infelicitou e infelicita o mundo, mexe mais ou menos profundamente com o setor elétrico, reduz os juros e o spread. Atinge bancos e indústria, fecha a porta para os ganhos extraordinários na renda, até ontem tão compensadores dos resultados medíocres na produção. Além fronteiras, cria alvoroço entre os fundos acostumados ao ganho abundante na terra brasilis.
Há quem diga que teria sido da conveniência do governo coordenar sua ação entre os envolvidos, negociar com o empresariado, cativá-lo. A quais empresários alude? Aos que financiam o Instituto Millenium, ou, pelo menos aprovam sua presença? Aos que devoram as páginas dos jornalões e se deslumbram com seus candentes editoriais? Missão complexa, se não impossível, para o coordenador. Explica-se desta maneira a estulta, penosa tentativa de ver fritado o ministro Mantega para, ao cabo, criar dificuldades para a presidenta, quem sabe insanáveis, na expectativa malposta.
Avulta, nisso tudo, a diferença dos tempos. Entre aquele das diatribes golpistas de quase 50 anos atrás e as de hoje. -CartaCapital permite-se um aprazível momento de otimismo. O que mudou é o povo brasileiro, a maioria da nação. Esta não está nem aí, como se diz. Talvez nunca tenha sido capaz de dar ouvido às ordens da casa-grande, executou-as, porém, passiva e automaticamente, negada à compreensão do seu significado. Agora não lhe ouve os apelos porque fez a sua escolha, e não é a favor dos senhores e dos seus capatazes.
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O Cafezinho » Blog Archive » A Murdochização definitiva da mídia brasileira

O Cafezinho » Blog Archive » A Murdochização definitiva da mídia brasileira
A reportagem de capa da Época desta semana revela a murdochização inexorável, definitiva e… cara de pau da mídia brasileira… Trata-se de uma matéria feita inteiramente com vazamentos seletivos fornecidos pela Polícia Federal.
O esquema de Murdoch na Inglaterra era parecido. Seus jornais subornavam policiais para obterem dados sigilosos dos desafetos ou vítimas da vez. A maioria das vítimas eram celebridades, cujas intimidades eram expostas na mídia. A coisa aqui, porém, é bem mais pesada. O mau caratismo murdochiano visava, na maioria das vezes, apenas o lucro. Na mídia brasileira, o esquema de vazamentos de dados sigilosos para órgãos de comunicação faz parte de uma estratégia de luta pelo poder.
A matéria da Época força a barra ao vender simples conversas entre Rose e os irmãos Paulo, ou dos irmãos entre si, sobre a Ação Penal 470, como “tentativa de influenciar o julgamento do mensalão”.
O envolvimento de Dirceu na história, entra, mais uma vez, de maneira nebulosa, sem qualquer prova de crimes. A matéria, assinada por Diego Escoteguy, que trabalhou na Veja, incorpora sem nenhum critério, do início ao fim, ilações desencontradas, baixa intriga e insinuações levianas.
O problema de alguns segmentos do jornalismo de escândalos assemelha-se ao da oposição politica: falta de objetividade e consistência. Uns não conseguem provas para embasar suas denúncias, outros não conseguem votos.
Ganhar a confiança da mídia é fácil, basta demonstrar ausência de escrúpulos quando se trata de chutar o “lulo-petismo”. Difícil é ganhar a confiança do povo.
Entretanto, temos aqui uma situação realmente grave: a luta política está se deteriorando para uma guerra suja e antidemocrática, onde já se pode vislumbrar a criação de uma frente golpista, que inclui os seguintes pontos:
  • Esquema de vazamentos seletivos de operações deflagradas pela Polícia Federal.
  • Rede de apoios entre procuradores, figuras corruptas da PF, empresários de mídia ligados à oposição.
  • Grupo de ministros do STF dispostos a violar princípios constitucionais básicos, interpretando a Constituição de maneira distorcida, ou contra legem.
A ação do STF é essencial ao esquema. Juízes tem procurado consolidar a tese, que é eminentemente golpista, de que tem o poder quase ilimitado para “interpretar a Constituição”. Existe interpretação da Constituição sim, mas voltada para o aprofundamento de seus princípios, e não contra eles. A Constituição, por exemplo, volta-se sempre em favor da democracia, em favor da presunção da inocência, em favor da preeminência do povo, só para citar alguns exemplos.
A reportagem da Época, porém, é traída justamente por seu tom exagerado e alarmista. Falta conteúdo. Pra piorar, ao final, reproduz uma conversa privada entre Adams, advogado-geral da União, e Weber, advogado-adjunto da mesma instituição, com ilações sobre quem seria “Paulo”.  O máximo que a revista conseguiu, após fuçar horas de conversas  convencionais entre dois funcionários da AGU foi uma frase de Adams perguntando se ele teria “ido no Paulo”. Adams diz que se referia a Paulo Kuhn, procurador geral da União, e ao jantar em sua homenagem. A reportagem, ao invés de ligar para o tal Paulo Kuhn, e perguntar se houve, de fato, tal jantar, prefere o suspense. Ou seja, o único momento em que a revista poderia acrescentar uma informação nova ao “dossiê” que recebeu do esquema golpista de vazamentos seletivos, não faz o serviço.
Não estou dizendo que Adams seja inocente, apenas ressaltando a criação de um ambiente onde todos são culpados. As mais inocentes conversas ao telefone são manipuladas com objetivo de se encaixarem em determinadas teorias. Cria-se, assim, um clima de chantagem perpétua contra qualquer autoridade e mesmo contra qualquer cidadão comum. Haveria, dentro da  Polícia Federal, um balcão de negócios para vender informações sigilosas? Murdoch vendeu muito jornal comprando sigilos da até então incorruptível Scotland Yard. Quando estourou o escândalo em Londres, um membro do esquema Murdoch revelou que pelo menos dez funcionários da respeitada polícia britânica estavam no bolso do magnata.
Se Murdoch conseguiu subornar membros da Scotland Yard, não é absurdo suspeitar que nossos barões midiáticos compraram agentes da PF, com objetivo de obter, com exclusividade, vazamentos das conversas captadas na Operação Porto Seguro, entre outros favores.
Pior que o vazamento, porém, é a sua seletividade, tanto dos trechos que interessam quanto do veículo a receber o material.  No mesmo momento em que vemos setores da mídia radicalizarem o discurso de oposição, e usarem seu poder de influência sobre o STF para obterem as vitórias políticas que não conseguem nas urnas, cria-se, dentro da Polícia Federal, núcleos de vazamentos seletivos de operações justamente para esses mesmos jornais?
Embora seja saudável vermos que a Polícia Federal tem autonomia para investigar a fundo membros do próprio governo, não me parece que o seja tanto a criação, dentro da PF, de um braço do grande esquema golpista. A coisa está ficando feia.  Condena-se sem provas, cassa-se mandatos ao arrepio da Constituição, e agora se promove vazamentos seletivos de informações sob segredo de justiça. A seletividade, claro, se dá em função dos interesses políticos do grupo que patrocina o esquema. É assim que operações enormes, que gravam uma quantidade colossal de conversas, a maioria das quais apenas conversas privadas, ou mesmo articulações de caráter político, se tornam fontes de material de chantagem. Esse é um poder eminentemente murdochiano. Se eu tenho em meu poder gravações que, mesmo que não oferençam nada de claramente comprometedor, podem ser facilmente manipuladas para causar grande dano político ou moral a uma autoridade, seja membro do executivo, parlamentar ou juiz, eis-me dotado de condições para chantageá-lo se não agir conforme a minha vontade. E assim se conseguem direcionar votações, remover nomes de relatórios finais de CPI, e impedir a abertura de outras comissões.

Hora de agir

Hora de agir

Hora de agir


As últimas manchetes do Estadão são mais que suficientes para esclarecer qualquer dúvida que ainda houvesse sobre o papel da imprensa na história contemporânea do Brasil.
O antigo jornal da família Mesquita foi um dos principais incentivadores do golpe militar de 64. Antes, já havia defendido com unhas e dentes e oligarquia paulista. Hoje, continua na linha de frente montada pela oligarquia, acompanhado pelas Organizações Globo, Folha e Veja - entre os mais destacados -, para resistir ao estabelecimento de uma verdadeira democracia no país.
Não foi nenhum representante do PT ou da esquerda ou da base governista que afirmou, numa ocasião solene, que à imprensa brasileira cabia o papel de oposição ao governo, já que os partidos políticos se encontravam extremamente  debilitados. Quem disse isso foi a própria presidente da associação empresarial dos jornais - e, como se vê, os feitos recentes dos associados dão inteira razão à sua afirmação.
A imprensa brasileira, tecnicamente muito pobre, não tem feito outra coisa nos últimos anos a não ser produzir, ininterruptamente, "escândalos" com o objetivo de enlamear o governo trabalhista.
O trabalho ficou mais fácil depois que a Justiça jogou no lixo a Lei de Imprensa, que dava alguma proteção aos pobres coitados que eram atirados nessa imensa máquina de moer reputações que se transformaram os meios de comunicação do país.
É tudo muito simples e sem riscos. Basta esperar que algum inimigo de alguma autoridade vaze um documento, ou dê alguma declaração, qualquer bobagem, que no dia seguinte ela estará lá no alto da primeira página.
Isso é jornalismo?
Claro que não, embora essa prática odiosa tenha seus defensores, muitos dos quais "jornalistas" que, por interesses pessoais óbvios, classificam o produto dessas aberrações como exemplo de uma estranha "imprensa independente".
Aos partidos governistas, se eles tiverem algum interesse em continuar a desenvolver o projeto de transformação do Brasil num país moderno, resta apenas uma alternativa: enfrentar com todas as armas que tiverem à sua disposição esse oligopólio.
A presidenta Dilma, o ex-presidente Lula, todos os atingidos por essa trama sórdida, se quiserem sobreviver a ela, não podem mais, nem por um segundo, continuar inertes aos constantes ataques que têm sofrido.
É preciso reagir, antes que seja tarde.

Carta Maior - Blog das Frases - O agendamento conservador

Carta Maior - Blog das Frases - O agendamento conservador

O agendamento conservador

O dispositivo midiático conservador exercita há quatro meses o poder de pautar a agenda política do país. É um massacre.

A novela do chamado 'mensalão' revelou-se um cavalo de Tróia dos interesses contrariados pela ampliação do espaço progressista na sociedade brasileira.

Como fica a cada dia mais explícito, a reação conservadora cozinha nesse julgamento um cardápio inteiro para 2014.

Um dos pratos principais é a tentativa de dissolver Lula num caldeirão fervente de suspeição.

A meta é transformá-lo num frango desossado incapaz de equilibrar-se de novo, sobretudo num palanque.

Vivemos um ensaio desse banquete pantagruélico que atrai todas as bocas famintas de 2002, 2006 e 2010.

Avança-se em fatias, comendo o mingau pelas berbas na arguta percepção de que é preciso aleijar o corpo antes de atacar o coração.

Coisa de profissionais do ramo. O ramo do neogolpismo; aquele que arremete por dentro das regras institucionais, aliás invocando o papel de guardião daquilo que golpeia.

O novo ferramental não se dispensa dos artefatos do velho repertório.
Em certa medida, vive-se um revival do clima de 2002, quando a falta de respeito e o preconceito de classe ilustraram a que ponto pode chegar a polidez das elites quando o céu que as protege ameaça cair em mãos alheias.

Diariamente uma ração de manchetes, colunas e escaladas televisivas, ademais de sobrancelhas em pinça, esgares e olhares insinuantes destilam o mesmo e incontido ódio "à la 2002".

Em qualquer guerra o bombardeio intenso não transforma a saturação em apoio ao agressor.

As três vitórias sucessivas do PT, nenhuma delas com apoio deles, evidenciam um limite a partir do qual o peso da realidade pulsa na formação da consciência social.

A brecha tende a se alargar à medida em que cresce o saldo positivo das gestões petistas -- a palavra saldo não condensa uma evolução linear, nem isenta o percurso das contradições inerentes a governos policlassistas de centro esquerda.

Marmorizado no cotidiano da população o legado da década petista forma um repertório que adensa a percepção de um país distinto do ecoado pelo bumbo conservador.

O atrito obriga o agendamento a radicalizar a narrativa.

Analistas de maior consistência são vencidos pelo alarido grosseiro do segundo escalão. A fotografia cede ao photoshop, literalmente e eticamente.

Tome-se o exemplo a página 2 da Folha.Ali escreveram progressistas como Antonio Calado e conservadores como Otto Lara Resende, entre outros. Ambas as cepas com expressões de alto nível.

Tornou-se um rodapé intelectual.

Excetuadas honrosas exceções, respinga ali o suor inglório dos que brigam com as palavras para compensar a irrelevância com decibéis.

Isso para não falar de casos clínicos.

'Veja', que um dia foi dirigida por Mino Carta, é cada vez mais um desengonçado encadernamento de rascunhos do Tea Party.

O efeito bumerangue é inevitável.

A forma como o panfleto da Abril rejeita a regulação da mídia é um testemunho da pertinência da regulação da mídia.

O conjunto expõe a armadilha que enredou o conservadorismo em uma contradição nos seus próprios termos.

Quanto mais espaço abre ao escalão beligerante , maior o fosso entre a percepção sensorial do país e o que as manchetes martelam.

Parece uma boa notícia. E uma parte do governo acha que resolve o embate dessa forma.

Engana-se. O outro lado também sabe que corre contra os ponteiros da história.

A radicalização observada neste momento não deve ser encarada como um hiato.

É um ciclo de tudo ou nada. E reserva pouco espaço à acomodação

O blog Grupo Beatrice (http://grupobeatrice.blogspot.com.br/) qualifica de forma interessante essa natureza ambígua do poder de agendamento conservador nesse momento.

Uma pesquisa feita por estudantes de jornalismo da Universidade Anhembi Morumbi São Paulo discute a tese de que o dispositivo midiático já não tem mais o poder de eleger presidentes ou forçar impeachments.

Mas ainda é eficiente em estabelecer pautas e agendas como a do julgamento da AP 470.

No dizer do 'Beatrice', o aparelho de difusão conservador já não determina como pensar, mas retém o poder de prescrever 'sobre o que' pensar.
Metaforicamente, a condição de pautar a sociedade remete à modelagem totalitária de um mundo administrado no qual a ficção é a realidade, como no filme Matrix.

A diferença sutil entre 'o que' e 'sobre o que' tem implicações políticas nada desprezíveis.

A primeira é demonstrar que o poder antagônico não é absoluto. O que parece animador.

Mas envolve essa contrapartida virulenta de quem, repita-se, sabe que corre contra o tempo. E avança para o tudo ou nada, antes que seja tarde.

O lado oposto, o das forças progressistas --e o do governo-- deve socorrer-se nas lições práticas que os momentos de intensa polarização histórica como esse deixaram.

A gravidade da hora impõe o dever de repetir incansavelmente : se o dispositivo midiático conservador mantém uma escala de difusão capaz de determinar sobre o que o país deve ou não pensar, não adianta ater-se ao manejo eficiente da economia para contrastá-lo.

Isso é indispensável, mas não é suficiente. E até para que ocorra é imprescindível afrontar o poder de alcance do monopólio difusor.

De duas formas.

Com um novo marco regulatório das comunicações, que resguarde o equilíbrio de pontos de vista requerido pela democracia; e, antes disso até, como pede o tique-taque do relógio político: propiciando à mídia progressista condições legítimas para expressar um ponto de vista que hoje, objetivamente, reflete os interesses históricos dos novos atores majoritários do país.
Postado por Saul Leblon às 06:01

A economia vai mal, mas o povo vai bem | Blog da Cidadania

A economia vai mal, mas o povo vai bem | Blog da Cidadania

A economia vai mal, mas o povo vai bem

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É hora de analisar o noticiário sombrio, quase apavorante, que vem sendo produzido em relação à economia brasileira, pois tal noticiário contrasta com o que mostram sucessivas pesquisas de opinião, o que seja, que, para o povo brasileiro, o país vai muito bem, obrigado.
Houve época em que se costumava dizer que a economia ia bem, mas o povo ia mal. Era uma época em que o noticiário exaltava políticas públicas e a gestão macroeconômica do governo federal. Como o leitor mais atinado com os fatos já pode imaginar, essa foi a época em que o PSDB governou o país.
Entre 1995 e 2002, a maioria da grande imprensa, Globo à frente, desmanchava-se em elogios ao modelo econômico e atribuía qualquer dificuldade à oposição petista, mesmo que desastres econômicos tenham decorrido de escolhas do governo de então, como a de manter o real sobrevalorizado.
O que exasperava o brasileiro, àquela época, era ver, o tempo todo, uma exaltação da privataria tucana que atribuía a posse de celulares e a maior oferta de linhas telefônicas fixas à venda indiscriminada de patrimônio público por preços que auditorias independentes e insuspeitas garantiram ser vis.
Sem fugir da questão atual, só lembro que a maior mineradora do país – e uma das maiores do mundo – foi vendida por um valor que não daria para construir meia dúzia de estádios de futebol ou uma grande rodovia. E o pior: com o tesouro brasileiro financiando a compra por grupos estrangeiros.
No ano em que o candidato de Fernando Henrique à própria sucessão foi derrotado por Lula, a tal frase de que a economia ia bem, mas o povo ia mal, resumia o que estava levando os brasileiros a ignorarem a preferência escancarada da grande imprensa por José Serra.
Naquele momento, a maioria eleitoral – que, dali em diante, reelegeria e re-reelegeria o PT para governar o país – mandava um recado às elites: finalmente o brasileiro descobrira que não podia seguir cegamente o que lhe ditavam jornais, revistas, rádios e televisões.
Essa percepção se acentuou nos anos seguintes, pois desde o primeiro dia do governo Lula os prognósticos e as análises da direita midiática sobre a gestão da economia construíram uma tese maluca: tudo que corria bem era feito do governo anterior e tudo que corria mal, do atual.
O PT e o próprio Lula contra-atacaram com a tese da herança maldita que FHC deixara. Que herança? O país não tinha nem um centavo de reservas próprias em dólares – o que tinha fora emprestado pelo FMI, pelos EUA e pelo Clube de Paris –, tinha uma dívida externa que duplicara durante os oito anos anteriores, uma dívida interna que mais do que decuplicara, não tinha crédito no exterior ou, quando tinha, qualquer empresário ou o governo do Brasil pagavam taxas de juro agravadas pelo risco que representava nossa economia, e, finalmente, o desemprego estava em dois dígitos e a inflação, idem.
A economia até que crescia após a crise cambial de 1999, quando ficou claro para o país o preço da reeleição de FHC. Em 2002, o PIB aumentou 2,7%, o que, comparado à previsão de cerca de 1% de crescimento neste ano, pode ser considerado um crescimento bem melhor.
O povo estava satisfeito com a economia que a mídia dizia que “ia bem”? Não, não estava.
Apesar de o país ter retomado o crescimento, os salários perdiam o valor porque eram corroídos pela inflação ascendente, que, naquele mesmo 2002, alcançara a marca de 12,53%, enquanto que o desemprego fora de 12,6%.
Como é, então, que, com crescimento baixo este ano e a despeito do noticiário insistente que comunica ao país como a economia “vai mal”, o povo responde, em pesquisas de opinião feitas pela própria oposição midiática, que acha que sua vida está indo muito bem?
O conjunto de fatores que blindou a qualidade de vida do povo brasileiro contra uma crise internacional que a mesma oposição midiática reconhece que é a maior que a humanidade viu em quase cem anos, é muito complexo.
Vale repisar que, enquanto o mundo rico afunda a cada dia, com famílias sendo despejadas no outrora Olimpo da estratificação social do planeta, a Europa, com seu desemprego desenfreado, suicídios e tudo mais que crises econômicas geravam aqui, estamos passando por tal crise com custo social praticamente zero, ou melhor, com evolução da condição de vida do brasileiro, com aumento de massa salarial, forte geração de empregos, queda da inflação e, acima de tudo, da concentração de renda.
Sim, o PIB crescerá pouco este ano, até por conta de que o setor bancário, que tem forte peso na conta da riqueza que a nação gera, em 2012, graças a políticas do governo Dilma que contrariam o que era feito na era FHC – quando a taxa de juros oficial chegou a cerca de 50% –, perderam forte receita com juros, o que puxou o crescimento para baixo.
A oposição controlada pelos donos da mídia (PSDB, DEM e PPS), bem como a própria mídia, insistem em ignorar que o objetivo de qualquer governo é fazer a vida do povo melhorar. Ao longo dos oito anos do governo tucano, o Brasil piorou. Os indicadores sociais de 2002 mostram o fim melancólico do governo FHC.
Ao longo dos dez anos em que o PT governa o Brasil, aconteceu o oposto. Desemprego, valor dos salários, inflação, concentração de renda e até o PIB, tudo melhorou. Em relação ao crescimento, o da era petista é quase o dobro do da era demo-tucana. Com mega crise internacional e tudo.
Os dados do social eram ignorados pela mídia e pelos tucanos e demos na era FHC e continuam sendo ignorados hoje. Eles não entendem que o povo quer um governo que melhore sua vida e não a de ricos empresários. Por isso não param de perder eleições.
*
Veja, abaixo, a evolução do desemprego no Brasil entre março de 2002 e outubro de 2012.