domingo, 21 de julho de 2013

Ser doutor é mais fácil do que se tornar médico - ÉPOCA | Eliane Brum

Ser doutor é mais fácil do que se tornar médico - ÉPOCA | Eliane Brum
O programa “Mais Médicos”, lançado pela presidente Dilma Rousseff, não vai resolver o problema do Sistema Único de Saúde (SUS). Mas pode, sim, ser parte da solução. Ou alguém realmente acredita que colocar mais médicos nos lugares carentes do Brasil pode fazer mal para a população? Sério que, de boa fé, alguém acredita nisso? A veemência dos protestos contra o projeto de ampliar o curso de medicina de seis para oito anos e tornar esses dois últimos anos um trabalho remunerado para o SUS revela muito. Especialmente o quanto é abissal a fratura social no Brasil. E o quanto a parte mais rica é cega para a possibilidade de fazer a sua parte para diminuir uma desigualdade que deveria nos envergonhar todos os dias – e que, no caso da saúde, mata os mais frágeis e os mais pobres.
Leia também: Rodrigo Constantino: Os médicos não são nossos escravos
Para resolver o problema do SUS é preciso assumir, de fato, o compromisso com a saúde pública gratuita e universal. O que significa investir muito mais recursos. Em 2011, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil gastou US$ 477 per capita em saúde. Menos do que vizinhos como Uruguai (US$ 817,8) e Argentina (US$ 869,4), por exemplo. E quase seis vezes menos do que o Reino Unido (US$ 2.747), cujo sistema de saúde tem sido apresentado como referência do projeto do governo. Hoje, falta dinheiro e falta gestão eficiente. Sem dinheiro e sem eficiência, duas obviedades, não se constrói um sistema decente. Mas, para investir mais dinheiro no SUS, é preciso tocar também em questões sensíveis, como o financiamento da saúde privada. Falta dinheiro no SUS também – mas não só – porque o Estado tem subsidiado a saúde dos mais ricos via renúncia fiscal.
Um recente estudo do IPEA (leia aqui) mostrou que, em 2011, último ano avaliado, quase R$ 16 bilhões de reais deixaram de ser arrecadados pelo governo, por dedução no imposto de renda de pessoas físicas e jurídicas e desoneração fiscal da indústria farmacêutica e de hospitais filantrópicos. O que é, de fato, renúncia fiscal? Um pagamento feito pelo Estado: ele não desembolsa, mas paga, ao deixar de receber. Assim, quase R$ 16 bilhões, o equivalente a 22,5% do gasto público federal em saúde, deixaram de ser investidos no SUS para serem transferidos para o setor privado, numa espécie de distribuição de renda para o topo da pirâmide. Para ter uma ideia do impacto, é mais do que os R$ 13 bilhões que o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirma que o governo está investindo em unidades básicas de saúde, pronto-atendimento e hospitais. Não é a toa que, entre 2003 e 2011, o faturamento do mercado dos planos de saúde quase dobrou e o lucro líquido cresceu mais de duas vezes e meia acima da inflação.
O governo tem estimulado a população – e também os empregadores – a investir em saúde privada. Um plano de saúde privado tornou-se uma marca de ascensão social. A “classe C” ou “nova classe média” tem sido vítima de planos de saúde mequetrefes que, na hora de maior necessidade, deixam as pessoas desprotegidas. Como muitos já sentiram na pele, quando a coisa realmente aperta, quando a doença é séria e requer recursos  e intervenções de ponta, quem vai resolver não é a rede privada, mas o SUS, porque uma parte significativa dos planos não cobre os exames e tratamentos mais caros.
Para que a solução seja estrutural – e não cosmética – é preciso acabar com as distorções e fortalecer o SUS. Sem dinheiro, o SUS vai sendo sucateado e se torna o destino apenas dos mais pobres e com menos instrumentos para reivindicar seus direitos. Assustada com a precarização do SUS, a classe média se sacrifica para pagar um plano privado, que tem sempre muitas letras miúdas. Os trabalhadores organizados incluem saúde privada na pauta sindical, afastando-se da luta do SUS. Quem tem mais poder de pressão para pressionar o Estado por saúde pública de qualidade, portanto, encontra saídas individuais – que muitas vezes vão se mostrar pífias na hora da urgência – ou saídas coletivas, mas para grupos específicos, no caso dos empregados com planos empresariais.
Enquanto sobrar distorções e faltar dinheiro, o SUS não vai melhorar. Não vai mesmo. Neste sentido, tem razão quem afirma que o programa “Mais Médicos” é demagogia. Mas apenas em parte.
Acrescentar dois anos ao curso de medicina e tornar esses dois últimos anos um trabalho remunerado no SUS, uma das mudanças previstas para iniciar em 2015, pode ser um aprendizado. E rico. Não só da prática médica como da realidade do país e da sua população, o que não pode fazer mal a alguém que pretenda ser um bom médico. Para que isso funcione, tanto como formação quanto como atendimento de qualidade à população, é preciso que exista de fato a supervisão dos professores e das faculdades. E essa é uma boa causa para as entidades corporativas e para as escolas de medicina.
Hoje, um dos problemas do SUS é a fragilidade da atenção básica: o que poderia ser resolvido nos postos de saúde ou pelo médico de família e que consiste em cerca de 90% dos casos acaba indo sobrecarregar os hospitais, que deveriam ser acionados apenas para os casos mais graves. A distorção provoca problemas de atendimento de uma ponta a outra do sistema. Por outro lado, entre os avanços mais significativos do SUS está o Programa Saúde da Família (PSF), um dos principais responsáveis, junto com o Bolsa Família, pela redução da mortalidade infantil no país. Mas faltam médicos para esse programa. A atuação dos estudantes de medicina poderá fazer uma enorme diferença. E isso não é pouco num país em que os filhos dos pobres ainda morrem de diarreia e de doenças já erradicadas nos países desenvolvidos.
A obrigatoriedade de trabalhar dois anos no SUS tem sido considerada por alguns setores, como as entidades corporativas, uma violação dos direitos individuais do estudante de medicina. Será que não poderia ser vista, além de um aprendizado, também como uma contrapartida, especialmente para quem estudou em universidades públicas ou foi beneficiado com bolsas do Prouni? O Estado, o que equivale a dizer toda a população brasileira, incluindo os que hoje não têm acesso à saúde pela precariedade do SUS, financia os estudos desses estudantes. Não seria lógico e mesmo ético que, ao final do curso, os estudantes devolvessem uma mínima parte desse investimento à sociedade? Para os estudantes das escolas privadas, o projeto prevê a liberação do pagamento das mensalidades nestes dois últimos anos. Mas sempre vale a pena lembrar que também há financiamento público das particulares, na forma de uma série de mecanismos, como renúncia fiscal para as filantrópicas e para as que aderiram ao Prouni.
Os estudantes de medicina serão remunerados pelo trabalho e pelo aprendizado. O valor mensal da bolsa ainda não está definido, mas a imprensa divulgou que será algo entre R$ 3 mil e R$ 8 mil. Ainda que seja o menor valor, que outra categoria no Brasil pode sonhar em ganhar isso antes mesmo de se formar? E mesmo depois de formado? Por que, então, uma resistência tão grande?
Por causa do abismo. A maioria dos estudantes de medicina vem das classes mais abastadas, como mostrou a Folha de S. Paulo de 13/7: na Unesp (Universidade Estadual Paulista), apenas 2% cursaram colégio público, contra 40% no geral; na USP (Universidade de São Paulo), 20% dos estudantes têm renda familiar superior a R$ 20 mil, não há negros na turma que ingressou em 2013. Historicamente, a elite brasileira não se vê como parte da construção de um país mais igualitário. Pelos motivos óbvios – e porque está acostumada a receber, não a dar. Assim, ter seus estudos financiados pelo conjunto da população brasileira é interpretado como parte dos seus direitos – não como algo que pressupõe também um dever ou uma contrapartida. Dever e contrapartida, como se sabe, são para os outros.
Não fosse esse olhar sobre si e sobre seu lugar no país, seria plausível que trabalhar os dois últimos anos do curso no SUS pudesse ser uma boa notícia para quem escolheu ser médico. Fosse até desejável. Primeiro, porque está ajudando a levar saúde a uma população que não tem. E, neste sentido, pode fazer a diferença, algumas vezes entre viver e morrer. Segundo, por participar da construção de um país mais justo, o que implica deveres ainda maiores a quem recebeu mais. Receber mais – melhores escolas, melhor saúde, melhores oportunidades – não significa que tenha de continuar recebendo mais, mas que precisa dar mais, já que a responsabilidade com quem recebeu menos se torna ainda maior. Terceiro, porque é inestimável a oportunidade de conhecer as dores, as necessidades e as aspirações das porções mais carentes do Brasil, não só pelo aprendizado médico em si, mas pelo que essa população pode ensinar sobre um outro viver.
Tornar-se médico – e não apenas um técnico em medicina – não passa pela capacidade de escutar o outro como alguém que tem algo a dizer não apenas sobre seus sintomas, mas sobre uma visão de mundo singular e uma interpretação complexa da vida?
Ao ler a maioria das críticas sobre o programa, o que chama a atenção é a impossibilidade de seus autores se verem como parte da construção de um SUS mais forte e eficiente, o que significa ser parte da construção de um Brasil melhor para todos – e não só para uma minoria. No geral, o que se revela nitidamente é um olhar de fora, como se tudo tivesse que estar pronto, em perfeitas condições, para que só então o médico atuasse. Mas é no embate cotidiano, no reconhecimento das carências e na pressão por mudanças que o SUS será fortalecido, como tem mostrado em sua prática uma parcela dos médicos tachada – às vezes pejorativamente – como idealista. Nesse sentido, também os estudantes de medicina e seus professores farão uma enorme diferença ao estar no palco onde esse embate é travado. Ao estar presentes – promovendo saúde, denunciando distorções e pressionando por qualidade – mais do que hoje.
Acredito que a vida da maioria só muda quando os Brasis se aproximam e se misturam. Tenho esperança de que esse programa – se bem executado, o que só pode acontecer com a adesão e o compromisso de todos os envolvidos – possa ser inscrito nesse gesto. O conjunto de medidas do “Mais médicos”, que inclui também a atuação de profissionais estrangeiros em áreas carentes, já promoveu pelo menos um impacto positivo: colocou o SUS no centro da pauta nacional. Seria tão importante que os protagonistas desse debate superassem a polarização inicial entre governo e entidades médicas para fazer uma discussão séria, com a participação da população, que pudesse resultar no acesso real da maioria a um sistema de saúde com qualidade. E seria uma pena que essa oportunidade fosse perdida por interesses imediatos e menos nobres, tanto de um lado quanto de outro.
É grande o debate sobre se faltam profissionais ou se eles estão mal distribuídos. O que me parece é que não faltam doutores no Brasil – o que falta são médicos. São muitos os doutores que ainda nem sequer se formaram, mas já assumiram o título e o encarnam num sentido profundo. O SUS terá mais chance quando existirem menos doutores e mais médicos trilhando o mapa do Brasil.
(Eliane Brum escreve às segundas-feiras.)

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Folha de S.Paulo - Deutsche Welle - Facebook viola os direitos fundamentais na Europa, diz ativista - 10/07/2013

Folha de S.Paulo - Deutsche Welle - Facebook viola os direitos fundamentais na Europa, diz ativista - 10/07/2013

O estudante austríaco de direito Max Schrems, de 25 anos, ficou famoso há dois anos, quando processou --com sucesso-- o Facebook, que teve de reestruturar sua política de privacidade e desativar algumas funções. As queixas foram apresentadas pela organização Europe versus Facebook (Europa contra o Facebook), fundada por Schrems em 2011.
No contexto do escândalo de vigilância de dados Prism, Schrems entrou agora com queixas contra Facebook, Apple, Microsoft, Skype e Yahoo na Alemanha, na Irlanda e em Luxemburgo --países onde estão localizadas as sedes europeias dessas empresas. As companhias são acusadas de repassar dados dos usuários à Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA, na sigla em inglês).
Em entrevista à Deutsche Welle, Schrems falou que os próprios europeus têm uma grande parcela de culpa nesse caso, já que possuem leis fundamentais que garantem o direito à privacidade de dados, mas não fazem com que elas sejam devidamente aplicadas. Schrems disse ainda que as companhias estão obtendo cada vez mais informações sobre as pessoas através dos dados dos amigos.
*
Nos últimos dois anos, você vem dirigindo a iniciativa Europa versus Facebook. Que queixas foram apresentadas contra o Facebook até agora?
Fizemos 22 queixas contra o Facebook por diferentes violações de leis de privacidade europeias. O principal problema é que a maioria das companhias americanas é da opinião de que podem ignorar as leis na União Europeia (UE) e nada [acontecerá].
Há relatos de que o Facebook e outras redes sociais, como também companhias como a Apple, repassaram informações à Agência de Segurança Nacional (NSA) como parte do programa de vigilância de dados Prism. Qual foi a queixa nesse caso?
São duas coisas distintas. Existe a ideia de pedir informação sobre uma pessoa específica. Tanto na UE como nos EUA, isso é perfeitamente em ordem. A grande questão é o amplo repasse de dados pertencentes a uma multidão de pessoas. Nós fizemos queixas relativas a cinco companhias que estão repassando dados europeus. Trata-se de sucursais europeias --por exemplo do Facebook-- que repassam os dados a uma subsidiária americana, que encaminha para a NSA.
De acordo com a legislação europeia, as filiais na Europa não são autorizadas a repassar dados para países estrangeiros, a não ser que possam garantir a privacidade dos dados. Isso [garantir a privacidade] é algo que elas não podem fazer, segundo os relatos que escutamos até agora. O principal objetivo dessas queixas é fazer com que as autoridades europeias olhem para o que é legal ou ilegal.
Quando estamos online, fica cada vez mais claro que há muitas empresas coletando cada bit de informação sobre nós. Foi isso que o motivou a iniciar a organização Europe versus Facebook?
Para mim, o maior problema era o total desrespeito dos direitos fundamentais europeus pelas companhias americanas. Mas a culpa não é só delas, a UE também é culpada. Eles não fazem nada para que a lei seja aplicada. Quase não existem punições. Na Áustria, por exemplo, a pena máxima é de 20 mil euros. A Comissão Europeia propôs agora uma mudança, mas houve um grande lobby de companhias e do governo americano para impedir leis de proteção de dados mais duras na Europa.
Também fiquei muito assustado quando recebi meu dossiê de 1.200 páginas de dados armazenados pelo Facebook [Schrems exigiu que o Facebook lhe entregasse todas as informações que dispunha sobre ele, o que é garantido por lei na União Europeia]. Havia muita informação ali que eu, pessoalmente, não coloquei no computador. Muitas pessoas pensam que, se você não digitar algumas coisas, elas não estarão online. Mas o que as companhias fazem cada vez mais é obter informações sobre você através de seus amigos. Ou elas tentam adicionar dados sobre seus hábitos que você não informou diretamente.
No meu dossiê do Facebook havia 300 páginas de mensagens deletadas. Trata-se de um material que eles não deveriam mais ter. Lobistas tentam dizer que você tem o controle [da situação] e pode ver quais dados seus estão online, mas a realidade é bem diferente. Isso é muito amedrontador, considerando que a NSA pode acessar esses dados extras que não foram compartilhados por você.
Você ainda usa o Facebook?
Sim, uso. A questão é: nós não estamos fazendo nada de errado. São as empresas que não estão seguindo as regras e estão abusando de sua posição, especialmente o Facebook, que praticamente detém um monopólio nas redes sociais. Eu não acho que, numa sociedade democrática, a solução seja não mais se comunicar uns com os outros.
Devemos ser capazes de usar essas tecnologias bacanas e que nos dão poder sem a necessidade de constante preocupação --esse deveria ser o objetivo. Pode ser um pouco infantil, mas a minha abordagem é: não sou quem está fazendo algo de errado por aqui --é o Facebook. Eu não acredito que a solução seja desabilitar e criptografar todas as mensagens e tentar se isolar, em vez de viver livremente.
Qual seria seu conselho para os usuários do Facebook? Como eles podem proteger melhor sua privacidade?
Não há muita coisa que se pode fazer no Facebook, além de não postar coisas estúpidas. A única coisa que pode proteger um pouco é desativar todos os aplicativos. Essa é a grande falha: qualquer um de seus amigos pode instalar um aplicativo que pode acessar os seus dados. Você só pode impedir isso se desabilitar todas os aplicativos da plataforma. No Facebook há uma configuração para isso. Fora isso, cabe às autoridades obrigar o Facebook a realizar mudanças de sistema, para estar de acordo com as leis europeias de privacidade.
Em cada uma de nossas queixas, sugerimos o que o Facebook deve fazer para estar em conformidade com as leis europeias de privacidade, sem ter que deixar de trabalhar da forma que o faz atualmente. Nesse ponto, o usuário individual não pode fazer muita coisa. Você não sabe o que os servidores, em algum lugar dos Estados Unidos, estão fazendo, e seria muito difícil acessá-los e descobrir tudo isso.
Então se pode dizer que coisas estão sendo feitas ilegalmente e informação em massa está sendo repassada para os EUA. Quem é o culpado por tudo isso? As estruturas de segurança dos EUA estão indo longe demais ou são as companhias e as redes sociais que estão colaborando sem resistir?
São as duas coisas. Mas também é a União Europeia, apenas observando e escrevendo algumas cartas e não reagindo além disso. Esse é o maior problema que temos na Europa. No papel, temos direitos fundamentais, mas fazemos muito pouco para que sejam aplicados. Se eu tenho uma empresa e o governo americano está me pedindo algo, e eu sei que os europeus não vão reagir, então eu já sei o que vou fazer.
Nós asseguramos direitos fundamentais e constitucionais aos nossos cidadãos, mas eles não estão funcionando realmente. A culpa maior é dos europeus. Também é uma questão de democracia. Temos as leis e as aplicamos ou elas existem só no papel?

terça-feira, 9 de julho de 2013

Folha de S.Paulo - Mundo - Análise: Empresas que ajudaram EUA começam a surgir - 09/07/2013

Folha de S.Paulo - Mundo - Análise: Empresas que ajudaram EUA começam a surgir - 09/07/2013
Um mês atrás, quando o "Guardian" revelou o primeiro slide da NSA mostrando que o programa Fairview também espionava o Brasil, o único membro do governo Dilma que veio a público foi Paulo Bernardo (Comunicações).
Dizendo que "está se realizando aqui o 1984" de George Orwell, ele defendeu então "que a gente peça explicações" ao governo americano e às empresas envolvidas, mas não convenceu o restante do governo brasileiro.
Antonio Patriota (Relações Exteriores) havia fechado dias antes, em Washington, uma visita "de Estado" da presidente Dilma Rousseff à Casa Branca, para outubro.
Com a publicação no último domingo de outros slides do Fairview pelo jornal "O Globo", Bernardo voltou à carga, dizendo agora ser "um absurdo, se tiver empresa brasileira mancomunada com estrangeira para quebrar sigilo telefônico e de dados".
Desta vez, até Patriota pediu explicações. Ao mesmo tempo, elogiou a "disposição dos EUA ao diálogo" e lembrou, sobre o asilo à fonte das notícias, Edward Snowden, que não tem "intenção de receber esse cidadão aqui".
O foco da reação dos ministros está nas empresas de telecomunicações, que podem ter desrespeitado não só a legislação, mas a Constituição, como Bernardo vem dizendo desde o mês passado. O problema é que elas não são identificadas nos slides.
Mas começam a aparecer, por outros caminhos. Também no domingo, o "Washington Post", que desde o início divide com o "Guardian" as revelações do caso, nomeou a empresa de telecomunicações Global Crossing.
Ela teria sido a primeira a fechar acordo para acesso rápido e seguro do governo americano à sua rede. O acerto com a Global Crossing, cujos cabos ligam quatro continentes e 27 países, teria servido de modelo para acordos posteriores, com outras.
Em sua cobertura, o "WP" só questiona que os acordos permitem acesso a dados de americanos, via redes no exterior. Mas aos poucos crescem as críticas ao fato de os programas vigiarem também alemães ou brasileiros.
No "Guardian", o repórter Glenn Greenwald diz que as revelações do Brasil --junto com outras, da Alemanha, na "Der Spiegel"-- ajudam a compreender que "não é só a privacidade dos americanos que importa, ao contrário do que alguns querem sugerir".
Para ele, "as pessoas ao redor do mundo não têm ideia de que todas as suas comunicações de telefonia e internet são coletadas por um governo distante", daí a importância dos casos alemão e brasileiro, que resume assim:
"Toda essa vigilância é parte do programa Fairview: a NSA vira parceira de uma grande empresa de telecomunicações dos EUA, que por sua vez vira parceira de empresas de outros países, permitindo acesso a seus sistemas de telecomunicações."

Folha de S.Paulo - Poder - Espiados e indignados - 09/07/2013

Folha de S.Paulo - Poder - Espiados e indignados - 09/07/2013
Janio de Freitas
Espiados e indignados
Cumpramos o ritual de fingir-nos surpresos e indignados com a espio-nagem agora revelada
Vamos fingir que nos sentimos surpresos e indignados. Vamos à ONU com um protesto contra a espionagem com que o governo dos Estados Unidos invadiu mensagens eletrônicas no Brasil. Vamos cobrar do governo americano explicações sobre a central de espionagem instalada em Brasília pelo combinado CIA-NSA.
Faz parte da boa educação cívica mostrar-se surpreso e indignado. Tal como os franceses do presidente François Hollande, pouco antes de ele se sujeitar aos EUA e proibir o sobrevoo da França pelo avião em que supunham estar Edward Snowden, o revelador das espionagens americanas naquele, no nosso e em numerosos outros países.
Cumprido o ritual da surpresa e da indignação, podemos reconhecer que estamos entre os países de maior hospitalidade, senão a maior de todas, a agentes de informação, de subversão antidemocrática e de espionagem dos EUA. Qualidade nacional de que há provas sem conta. Mas, para ficar só em exemplos poucos e notórios, lembremos que o golpe de 1964 foi articulado em três frentes --a militar, a empresarial e a política.
A primeira foi montada pelo adido militar da embaixada dos EUA, general Vernon Walters, especialista em golpes mandado ao Brasil para mais um.
A segunda foi executada pelo próprio embaixador Lincoln Gordon, junto ao grande empresariado e a meios de comunicação. E a terceira ficou a cargo de uma entidade da CIA chamada Ibad, montada e dirigida por um tal Ivan Hasslocher, deslocado para a Suíça logo depois do golpe.
Antes disso, outro embaixador americano, Adolf Berle Jr., orientou, com sua equipe, uma conspiração militar para derrubada de Getúlio.
Repórteres americanos como John Gerassi e ex-agentes da CIA como Phillip Agee, entre muitos outros, publicaram artigos, reportagens e livros sobre a atividade de agentes na América Latina e, em particular, no Brasil. Foram muito pouco publicados aqui.
Não se esperariam atitudes, contra essa liberdade de invasão da CIA, por parte dos seus aliados-beneficiários brasileiros, fossem ainda conspiradores ou já governo. Mesmo os alvos da ação, porém, jamais usaram dos seus poderes legais para contê-la. Todo o governo Jango sabia das atividades de Gordon e de Walters. Em Pernambuco e em Goiás foram identificados agentes insuflando lavradores. O governo nada fez. Desde sempre consta da legislação brasileira que os militares são responsáveis pela soberania nacional. Nenhum dos seus chefes se moveu contra as violações praticadas pelos americanos.
Mais recentemente, a criação do Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia) foi entregue à Raytheon, empresa que presta serviços ao Departamento de Defesa (nome do departamento que superintende o planejamento e a execução dos ataques militares e invasões de países pelos EUA). A concorrência foi tão limpa, que a precedeu até a invasão dos escritórios da então Thomson no Rio, multinacional francesa que era a mais provável vencedora e teve todos os seus estudos e projetos roubados.
Declarada "vencedora" a Raytheon, Fernando Henrique telefonou ao presidente Bill Clinton para informá-lo a respeito. Depois explicaria o resultado e o telefonema: "O Clinton pediu pela Raytheon...".
Desde então, todos os dados sobre espaço aéreo, solo e subsolo da Amazônia são transmitidos, em rede e equipamentos criados pela Raytheon, para a central do Sivam. Se você quiser, pode acreditar que a transmissão termina aí.
Os espiões e agentes de americanos são íntimos nossos. Mas cumpramos o ritual de fingir-nos surpresos e indignados com a espionagem agora revelada.

domingo, 7 de julho de 2013

Na saúde e na doença | Congresso em Foco

Na saúde e na doença | Congresso em Foco

Na saúde e na doença

A arapuca dos planos de saúde, a “retrógrada” posição do CFM contra a importação de médicos e os números de um sistema de saúde feito para enriquecer do lado de lá à custa dos que morrem do lado de cá
por Márcia Denser | 05/07/2013 07:00

‘O povo não vai se cansar de protestar’ - Reproduzido do Globo.com, 29/6/2013 | Observatório da Imprensa | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito

‘O povo não vai se cansar de protestar’ - Reproduzido do Globo.com, 29/6/2013 | Observatório da Imprensa |
Por Maurício Meireles em 02/07/2013 na edição 753
Reproduzido do Globo.com, 29/6/2013
Para o sociólogo catalão Manuel Castells, boa parte dos políticos é de “burocratas preguiçosos”. Ele é um dos pensadores mais influentes do mundo, com suas análises sobre os efeitos da tecnologia na economia, na cultura e, principalmente, no ativismo. Conhecido por sua língua afiada, o espanhol falou ao Globo por e-mail sobre os protestos.
Os protestos no Brasil não tinham líderes. Isso é uma qualidade ou um defeito?
Manuel Castells– Claro que é uma qualidade. Não há cabeças para serem cortadas. Assim, as redes se espalham e alcançam novos espaços na internet e nas ruas. Não se trata, apenas, de redes na internet, mas redes presenciais.
Como conseguir interlocução com as instituições sem líderes?
M.C. – Eles apresentam suas demandas no espaço público, e cabe às instituições estabelecer o diálogo. Uma comissão pode até ser eleita para encontrar o presidente, mas não líderes.
Como explicar os protestos?
M.C. – É um movimento contra a corrupção e a arrogância dos políticos, em defesa da dignidade e dos direitos humanos — aí incluído o transporte. Os movimentos recentes colocam a dignidade e a democracia como meta, mais do que o combate à pobreza. É um protesto democrático e moral, como a maioria dos outros recentes.
Por que o senhor disse que os protestos brasileiros são um “ponto de inflexão”?
M.C. – É a primeira vez que os brasileiros se manifestam fora dos canais tradicionais, como partidos e sindicatos. As pessoas cobram soberania política. É um movimento contra o monopólio do poder por parte de partidos altamente burocratizados. É, ainda, uma manifestação contra o crescimento econômico que não cuida da qualidade de vida nas cidades. No caso, o tema foi o transporte. Eles são contra a ideia do crescimento pelo crescimento, o mantra do neodesenvolvimentismo da América Latina, seja de direita, seja de esquerda. Como o Brasil costuma criar tendências, estamos em um ponto de inflexão não só para ele e o continente. A ideologia do crescimento, como solução para os problemas sociais, foi desmistificada.
O que costuma mover esses protestos?
M.C. – O ultraje, causado pela desatenção dos políticos e burocratas do governo pelos problemas e desejos de seus cidadãos, que os elegem e pagam seus salários. O principal é que milhares de cidadãos se sentem fortalecidos agora.
O senhor acha que eles podem ter sucesso sem uma pauta bem definida de pedidos?
M.C. – Acho inacreditável. Além de passarem por uma série de problemas urbanos, ainda se exige que eles façam o trabalho de profissional que deveria ser dos burocratas preguiçosos responsáveis pela bagunça nos serviços. Os cidadãos só apontam os problemas. Resolvê-los é trabalho para os políticos e técnicos pagos por eles para fazê-lo.
Com organização horizontal, esse movimento pode durar?
M.C. – Vai durar para sempre na internet e na mente da população. E continuará nas ruas até que exigências sejam satisfeitas, enquanto os políticos tentarem ignorar o movimento, na esperança que o povo se canse. Ele não vai se cansar. No máximo, vai mudar a forma de protestar.
Outra característica dos protestos eram bandeiras à esquerda e à direita do espectro político. Como isso é possível?
M.C. – O espaço público reúne a sociedade em sua diversidade. A direita, a esquerda, os malucos, os sonhadores, os realistas, os ativistas, os piadistas, os revoltados — todo mundo. Anormal seriam legiões em ordem, organizadas por uma única bandeira e lideradas por burocratas partidários. É o caos criativo, não a ordem preestabelecida.
Há uma crise da democracia representativa?
M.C. – Claro que há. A maior parte dos cidadãos do mundo não se sente representada por seu governo e parlamento. Partidos são universalmente desprezados pela maioria das pessoas. A culpa é dos políticos. Eles acreditam que seus cargos lhes pertencem, esquecendo que são pagos pelo povo. Boa parte, ainda que não a maioria, é corrupta, e as campanhas costumam ser financiadas ilegalmente no mundo inteiro. Democracia não é só votar de quatro em quatro anos nas bases de uma lei eleitoral trapaceira. As eleições viraram um mercado político, e o espaço público só é usado para debate nelas. O desejo de participação não é bem-vindo, e as redes sociais são vistas com desconfiança pelo establishment político.
O senhor vê algo em comum entre os protestos no Brasil e na Turquia?
M.C. – Sim, a deterioração da qualidade de vida urbana sob o crescimento econômico irrestrito, que não dá atenção à vida dos cidadãos. Especuladores imobiliários e burocratas, normalmente corruptos, são os inimigos nos dois casos.
Protestos convocados pela internet nunca tinham reunido tantas pessoas no Brasil. Qual a diferença entre a convocação que funciona e a que não tem sucesso?
M.C. – O meio não é a mensagem. Tudo depende do impacto que uma mensagem tem na consciência de muitas pessoas. As mídias sociais só permitem a distribuição viral de qualquer mensagem e o acompanhamento da ação coletiva.
***
Maurício Meireles, do Globo

Imprensa perdida em picuinhas e fofocas - | Observatório da Imprensa | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito

Imprensa perdida em picuinhas e fofocas - | Observatório da Imprensa | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Por Cristiano Moura Gonzaga em 02/07/2013 na edição 753
Não é de hoje que a imprensa é objeto de acalorados debates e das mais diversas acusações. Por exemplo, de defender interesses estritamente privados como se fossem públicos, de promover pessoas ou instituições sem méritos para tanto, de denegrir, difamar, destruir para sempre outras sem comprovações e, às vezes, sem antes de uma simples averiguação.
Embora, desde Johannes Gutenberg, a imprensa tenha gerado grandes polêmicas, é na efervescência das revoluções burguesas, no Iluminismo, ideários liberais dos séculos 18 e 19, que isso chega ao seu ápice. Uma boa ilustração disso pode ser encontrada no grande clássico da literatura universal de Honoré de Balzac As ilusões perdidas, onde o autor demonstra de modo bem ácido como a imprensa pode ser nefasta para uma pessoa, grupo ou mesmo para toda uma sociedade. Ernst Fischer, em seu livro A necessidade da arte, afirma que o romantismo, não obstante importante, no que tange à crítica social foi profundamente ingênuo, pueril e em certa medida irresponsável. Já o realismo, não. Suas críticas eram muito mais fundamentadas, pertinentes e com os pés no chão. Balzac – um dos principais representantes do realismo no sentido que Fischer o conceitua, a meu ver corretamente –, já naquela época, apontava como a compreensão e possíveis superações dos males de uma dada sociedade passavam inelutavelmente pela imprensa.
No Brasil isto também ocorre desde o Império. Diversos autores, como escritores, jornalistas e acadêmicos, também se debruçaram sobre o tema.
Veículos transformados em claques
A edição do programa 677 do Observatório da Imprensa na TV dedicou-se a um tema ainda caro entre nós: a regulação da imprensa. Tanto que o programa tratou das recentes polêmicas na Inglaterra e no México, não aqui. Os motivos foram muito bem elucidados num excelente artigo de Venício A. de Lima – jornalista, sociólogo e professor titular (aposentado) de Ciência Política e Comunicação da UnB (16/04/2013, edição 742). O professor chamou a atenção e com muita propriedade para o tipo liberalismo que adotamos:
“Chegou a hora de estudar a construção histórica da hegemonia do conceito liberal de liberdade em busca de suas peculiaridades no Brasil. Liberdade de expressão é um conceito em disputa. Apesar disso, uma de suas versões – a liberal – tem sido empunhada como bandeira de luta exatamente pelos representantes do sistema privado oligopolizado de comunicações. Paradoxalmente, em nome da liberdade de expressão, interdita-se o debate democrático sobre ela própria” (grifo do autor).
E, mais importante, sua advertência de como o debate está colocado aqui:
“Que o governo da presidenta Dilma Rousseff anunciou publicamente que não enfrentará essa questão (regulação), é fato.”
Recentemente nas redes sociais apareceram frases do tipo “mexeu com o Lula, mexeu comigo”. Era uma espécie de reação a uma série de “denúncias” que a grande imprensa vinha fazendo em relação ao ex-presidente. Como favorecimento às empreiteiras brasileiras no exterior e o fato do Lula ter que figurar como réu no escândalo do chamado mensalão. Particularmente, acho exagerado este tipo de reação. Mas o problema é que ele se justifica, pois nem sempre há uma investigação profunda, e às vezes nem superficial, e o que deveria ser informação torna-se torcida. Mesmo achando exagerada a reação dos “lulistas” nas redes sociais, não vejo isso como algo grave, comprometedor, embora discorde, o que acredito que seja salutar. A questão preocupante é quando misturamos as estações. Ou seja, uma coisa são pessoas, cidadãos e cidadãs manifestando-se sobre o que julgam certo ou errado, justo ou injusto. Outra, bem diferente, são veículos de informação, grandes jornais, sejam eles impressos, televisivos, rádios, portais de internet, formadores de opinião etc., abdicarem de seus compromissos éticos e constitucionais e transformarem-se em claques.
A cena e a prática
E aqui chego à grande questão de que me ocuparei neste artigo: como nossa imprensa inverte e distorce os valores e não vai ao essencial. Em outras palavras, ao interesse público. Perdem-se em picuinhas, intrigas, fofocas, interesses escusos e nada republicanos.
Para tanto, farei uma breve análise comparativa dos governos FHC/Lula/Dilma. O meu intento será o de demonstrar que o crucial escapou e ainda escapa à grande imprensa. A inspiração teórica e metodológica para fundamentar meus argumentos, busquei em Nicos Poulantzas,filósofo e sociólogo grego que a partir dos anos 60 fez carreira acadêmica na França. O conceito que utilizarei é o de blocos no poder, desenvolvido, sobretudo na sua obra Poder político e classes sociais, São Paulo: Martins Fontes, 1977.
Por não se tratar de um artigo acadêmico, vou procurar ser simples sem ser simplista (grande desafio!). O Estado não é algo monolítico, homogêneo e de fácil compreensão. O que não significa também que seja incompreensível, ou acessível apenas aos especialistas. Segundo Poulantzas, seu controle não decorre apenas de uma vitória eleitoral, mas também, e às vezes até mais, de frações de classe que estão incrustadas em seu seio, o bloco no poder. Outra contribuição importante é quando ele trata da “cena” e da “prática” políticas. Ou seja, a “cena”, os discursos, e a “prática”, os atos efetivos, as decisões e, sobretudo, os beneficiários destas. Não é impossível que cena e prática se confundam, entretanto, no caso que analiso, há, sim, um imenso divórcio entre ambas. E no que diz respeito à nossa imprensa, é notório e muito a se lamentar, o fato de que grande parte de suas interpretações que viram “informações” têm como base a cena, e não as práticas.
Criticar sem ler
No caso brasileiro, o bloco no poder inclui grandes proprietários de terras (e latifúndios), o agronegócio, empresas nacionais como indústrias, redes de varejo, empreiteiras, enormes conglomerados transnacionais que controlam os mais variados setores no caso específico, automóveis e comunicação e, por fim, o setor bancário-financeiro. Há, evidentemente, os que representam interesses dos trabalhadores, como sindicatos, federações e confederações etc. A grande questão é: quem será hegemônico? Em outros termos, qual ou quais frações terão seus interesses atendidos? Isso não se dá de maneira tranquila. Há disputas, lutas no interior do bloco, para exercer tal hegemonia. Se observarmos desde o governo FHC até os dias atuais, todos estes setores foram e são atendidos. De acordo com a conjuntura, variando em maior ou menor grau. Entretanto, um setor, ou melhor, uma fração do bloco no poder, destacou-se imensamente nos governos FHC e Lula, teve uma considerável recuada no início do governo Dilma, mas recentemente parece que voltou a dominar a cena, o pedaço, tudo! Refiro-me à fração bancária-financeira. E os episódios recentes que me levam a afirmar isso foram as seguidas elevações nas taxas já exorbitantes dos juros.
Com a dissolução do socialismo real, simbolizada na destruição do muro de Berlim e efetivada no fim melancólico da União Soviética, os defensores do capitalismo comemoravam. Tanto que o filósofo e economista político nipo-estadunidense Francis Fukuyama proferiu a famosa frase: “É o fim da história.” Dali em diante, o capitalismo estaria livre para dominar o mundo sem incômodos. Claro que o tempo demonstrou quão eram imprecisas e apaixonadas as teses destes mesmos defensores. A pobreza, a questão ambiental e o Islã comprovaram isto. Contudo, naquele contexto havia motivos para tanto entusiasmo.
Fernando Henrique Cardoso governou o Brasil durante oito anos. Privatizações, arrochos salariais, instabilidade macroeconômica constante, crescimento pífio do PIB, denúncias de compra de votos pela aprovação da emenda da reeleição, aprofundamento da crise social. E, lamentavelmente, todos estes casos nunca foram investigados e publicados pela grande imprensa. Mas, no entanto, acredito que FHC foi injustiçado em determinados momentos. Muita gente o acusa de demagogia na questão da regulação do uso da maconha e demonstraram má vontade com o filme em que trata disso. Discordo. Acredito que o ex-presidente vem desempenhado um bom e corajoso trabalho, inclusive em cortes internacionais. Poderia ter aprofundado o tema quando estava no poder? Sim, mas isso não invalida sua atuação. A maior injustiça que ele sofreu foi quando governava o país e foi acusado de ter esquecido tudo o que escreveu quando era proeminente sociólogo. Isso ocorreu por dois motivos. O primeiro é a falta de clareza das pessoas em geral do que seja um sociólogo, sendo constantemente confundido com assistente social. A segunda, e principal, é a mania que alguns intelectuais, professores e jornalistas têm de criticar sem ler, sem conhecimento do que está se criticando. Digo isso, pois seu governo foi, sim, coerente com tudo o que ele escreveu.
Hegemonia bancária-financeira
Entre os dias 18 e 24 de abril de 1955, ocorreu a Conferência de Bandung, na Indonésia. Era uma espécie de reação dos países pobres à dominação imperialista das superpotências que dominavam o mundo naquele momento: EUA e URSS. Vale lembrar que nessa época grande parte da Ásia e da África ainda era constituída por colônias. Desta conferência resultou um movimento denominado terceiro-mundismo. Este consistia na negação de quaisquer formas de dominação por parte dos países ricos econômica e principalmente militarmente. A América Latina em geral e o Brasil em particular não ficaram imunes a isso. Diversos intelectuais e ativistas abraçaram a causa.
É exatamente contra isso que o sociólogo Fernando Henrique Cardoso irá assentar boa parte de sua produção acadêmica. Em síntese, não era possível, para ele, que países como o Brasil abrissem mão da “ajuda” dos países ricos. Em suma, na obra Dependência e desenvolvimento na América Latina: ensaio de interpretação sociológica,que escreve junto com o sociólogo chileno Enzo Faletto, o esforço teórico e metodológico consiste em eliminar a oposição dependência e desenvolvimento. Ou seja, não é o fato de o país ser submisso e subserviente que o manterá pobre, mas o contrário! Chega inclusive a criar o conceito de “desenvolvimento dependente associado”. As razões para essa imagem do país permitem as mais variadas interpretações. Em minha opinião, alinha-se à tradição de parte majoritária de nossas elites que não acreditam na capacidade de seu povo. E isso vem de longe. Talvez a mentalidade colonial de que aqui é para ganhar o que der e sumir para o “mundo civilizado”.
Seguindo as receitas letais do tal Consenso de Washington,privatizações em massa, inclusive de setores estratégicos, corte de gastos públicos (eufemismo para transferência de renda dos pobres para meia dúzia de especuladores) e aquilo que a grande imprensa consagrou como reinvenção da roda: a estabilização monetária e, aproveitando-se do trauma da inflação surreal dos anos 1980, esta se torna o grande demônio a ser exorcizado, custe o que custar. No nosso caso: juros estratosféricos, desemprego e miséria! O que a grande imprensa nunca esclareceu foi que esta estabilização monetária aconteceu em diversos países, não só no Brasil. E a questão estava no contexto de acumulação capitalista de então: a especulação financeira. O que mais interessa para os objetivos deste artigo é que foi neste período que a fração bancária-financeira se tornou hegemônica no bloco no poder e se manteve praticamente intacta no governo Lula.
A lei da oferta e da procura
Comparativamente, os dois mandatos do ex-presidente Lula foram consideravelmente mais positivos do que seu antecessor FHC. Do ponto de vista macroeconômico (setor externo, nível de atividade, inflação, emprego e renda e finanças públicas), houve melhorias significativas. Diminuiu a instabilidade estrutural da economia brasileira, a política externa mostrou-se mais dinâmica e muito menos subserviente, a dívida externa zerou e as taxas médias de crescimento do PIB nos dois governos Lula (3,5% entre 2003 e 2006; 4,6% entre 2007 e 2010) foram maiores do que as dos dois governos FHC (2,4% entre 1995 e 1998; 2,1% entre 1999 e 2002). Não faltaram vozes na grande imprensa, inconformadas com este cenário, por incrível que pareça, a tagarelar sofismas de que o sucesso macroeconômico do governo Lula não tinha nada a ver com o mesmo, mas, segundo esses jornalistas e formadores de opinião em geral, Lula não enfrentara a turbulência econômica mundial que FHC enfrentou. Aí veio a grande e devastadora crise de 2008 e o Brasil ficou praticamente imune.
O mérito foi do trabalho comandado pelo então ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, de tirar o Brasil da estrita dependência do eixo União Europeia/EUA/Japão, abrindo a economia do país para mercados até então em segundo plano ou mesmo ignorados, como China, Rússia, África, Oriente Médio. Como a crise de 2008 ocorreu exatamente no eixo que mencionei acima, o país não sentiu tanto, já que não dependia mais única e exclusivamente dele. Havia novas e promissoras alternativas. Outro fator que também contribuiu muito para o Brasil não sucumbir à crise foi a expansão do mercado interno. E isso graças a outro mérito dos governos Lula: aumento real do salário mínimo e a consolidação de políticas sociais, principalmente o Bolsa-Família.
No primeiro governo Lula, as linhas gerais da política macroeconômica de FHC (sistemas de metas de inflação, superávits primários e câmbio flutuante) mantiveram-se. Sistemas de metas de inflação, como o próprio nome diz, significa manter a inflação, os preços de produtos e serviços públicos e privados sob estrito controle. Superávits primários estão relacionados às contas do governo, ou seja, o governo não pode gastar mais do que arrecadou, caso contrário ocorre déficit o oposto de superávit, que significa resultado positivo. Câmbio flutuante são as variações da moeda que ocorrem sem o controle sistemático do governo. Destarte, é a famosa lei da oferta e da procura que deverá “regular” o valor da moeda.
Sete grandes empresas
Sublinhei o controle sistemático do governo pelo fato de residir nisso o x da questão. Por detrás destas linhas mestra de macroeconomia, estão teorias que dão suporte acadêmico, político e científico para suas execuções. O grande problema reside no caráter “científico”. Em determinadas ocasiões, a ciência acaba transformando-se num poderoso instrumento de manipulação das classes detentoras do poder no sentido de que se foi estudo e pesquisado a exaustão, determinado fenômeno não cabe discussão. O fato de essas teorias macroeconômicas serem dominantes, não significa que sejam as únicas. Porém, como atendem interesses poderosos, a imprensa em geral as apresenta como tal.
No segundo governo Lula houve uma flexibilização desta ortodoxia econômica que mencionei acima. É deste período a ampliação do crédito, o fortalecimento do mercado interno, diminuição considerável nas taxas de desemprego e, por conseguinte, significativa melhoria nas condições de vida dos mais pobres. Esta melhoria tem sido objeto de todo tipo de controversas. E sempre vem à tona o Bolsa Família. Há exageros. De um lado, os favoráveis afirmam que foi a maior revolução social do mundo. Já por outro, os críticos, que o programa não passa de assistencialismo, e toda aquela conversa enfadonha de que se deve ensinar a pescar e não dar o peixe. Todavia, muita gente, milhões deixaram a condição de miseráveis. Não obstante o número de miseráveis ter diminuído bastante, uma questão se impõe: as políticas sociais dos governos Lula foram um esforço no sentido de uma política de Estado para acabar com a miséria, ou a legitimação do bloco no poder?
Farei agora uma breve apreciação nos dados sobre os lucros que os bancos tiveram neste período, que me levaram a afirmar que durante a era Lula foram de longe mais abençoados pelo governo brasileiro:
“(...) Na última década, o lucro líquido dos maiores bancos que atuam no Brasil passou de R$ 8,09 bilhões em 2001 para R$ 48,41 bilhões em 2010, um salto de 498% em termos reais. É bom lembrar que em 2001 eram onze grandes instituições financeiras atuando no país: Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Bradesco, Itaú, Unibanco, Banespa, Banco Real, Santander, Safra, Nossa Caixa e HSBC. Em 2010, após as privatizações e fusões, os bancos concentraram ainda mais capital e hoje somam sete grandes empresas: BB, que adquiriu a Nossa Caixa; Santander, com a compra do Real e Banespa; Itaú que adquiriu o Unibanco; Caixa Econômica Federal, HSBC e Safra. Fonte: Terceirização e Desenvolvimento Uma conta que não fecha Dossiê sobre o impacto da terceirização sobre os trabalhadores e propostas para garantir a igualdade de direitos”(documento elaborado pela CUT e Dieese, setembro de 2011). Grifos meu.
Agronegócio e empreiteiras
Nicos Poulantzas era marxista, participou de diversas correntes. Em suas obras está presente um conceito fundamental para compreensão do pensamento de Karl Marx: a ideologia. No sentido que nos interessa aqui, trata-se de interesses estritamente particulares apresentados como públicos. Como já apontei, a permanência de uma fração do bloco no poder de forma hegemônica não se dá de modo tranquilo. E mais, é preciso também criar uma espécie de consenso entre os governados para tal.
Do ponto de vista ideológico, a fração bancária-financeira fez-se valer de inúmeras e sofisticadas estratégias de persuasão para justificar os imensos lucros. O já citado controle da inflação e também o esvaziamento do conteúdo político de suas ações. Este esvaziamento decorre quando as questões econômicas passam a ser tratadas como um assunto estritamente “técnico”. Isso ficou evidente quando os defensores desta política macroeconômica exigiram e conseguiram a independência do Banco Central. Em outras palavras, não cabia ao poder executivo interferir no BC, pois lá não é lugar para política nem políticos, mas sim para especialistas, técnicos. A grande imprensa apresentava isso como evolução e profissionalização do BC. É neste sentido que evoco o conceito de ideologia de Marx. A independência e despolitização do Banco Central induz a impressão de que esta é uma entidade neutra. Isso é uma falácia. Primeiro, a decisão da autonomia do BC já é em si um ato político. Segundo, quando mantém a taxa de juros elevadas, alguém ganhou e muitos perderam.
E nisso a inflação tornou-se a grande vilã, o demônio a ser exorcizado. Espero ter deixado claro que não sou a favor da inflação. O que questiono é a maneira de combate a ela, com juros altos, apresentada como a única. Na época de FHC tinha até uma anedota que indagava se a pessoa preferia uma inflação de 1% ao mês desempregada ou de 10% empregada. Na transição do governo Lula para a atual presidente Dilma, houve uma ligeira queda na hegemonia da fração bancária financeira e ascensão de outras frações no bloco no poder. Em especial duas: a do agronegócio, isso devido mais à conjuntura internacional e à elevação no preço das commodities e das empreiteiras e indústrias ligadas à construção civil em decorrência de megas e polêmicas obras: a usina de Belo Monte, transposição do Rio São Francisco e as obras para a Copa e Olimpíadas. No primeiro caso, ficou ainda mais evidente com a entrada da senadora Kátia Abreu do PSD na base aliada. Como resultado, notamos aumento significativo de devastação ambiental e os conflitos agrários e com os índios que resultaram, inclusive, em mortes.
Aarmadilha da inflação
No filme Ao Sul da Fronteira o diretor Oliver Stone fez um passeio pela América do Sul e se mostrou entusiasmado com a efervescência política que levou ao poder a partir do final dos anos 90 governos que não se alinhavam automaticamente com Washington – muito pelo contrário, tornaram-se grandes obstáculos e ameaçaram e ainda ameaçam a hegemonia norte-americana na região desde a Doutrina Monroe. Entretanto, uma coisa ficou patente: a sua decepção com o Lula. Visível na forma e no pouco tempo que se dedicou ao país mais importante da região no filme e nesta frase: “No Brasil, as mudanças foram muito mais políticas do que estruturais.” Implicância? Acredito que não. Lembro-me também de um artigo do pensador brasileiro Boris Fausto completamente indignado com o historiador inglês Perry Anderson que, em outro artigo, é só elogios ao ex-presidente Lula. E ele ficou bem bravo. Chegou, inclusive, a sugerir que Anderson vê em Lula uma espécie de monarca absolutista iluminado. Depois de criticar duramente o tratamento que o governo Lula dispensou ao setor financeiro, outra observação dele em particular nos interessa aqui: “E curioso que o autor tome a interrupção das privatizações como marco de uma ruptura. Ruptura haveria se Lula reestatizasse empresas privatizadas, atendendo a pressões de um setor radical de seu partido e de vozes situadas na extrema-esquerda.”
A análise proposta por Nicos Poulantzas é de grande validade para compreendermos mais e melhor as relações sociais e políticas em nossa sociedade. Ou seja, devemos sempre considerar os atores econômicos, as grandes empresas dos mais variados setores que atuam e muitas vezes determinam os rumos políticos do nosso país. E em todas as esferas. Está mais claro para o grande público agora como as empresas de ônibus têm poder em quase todas as prefeituras do país, felizmente. E como o Estado cria condições para que seus interesses sejam consolidados em detrimento do bem-estar comum. Seja de maneira direta, como a falaciosa independência do Banco Central e a receita única de combate à inflação com juros extorsivos, seja na fragilidade das agências reguladoras, como Anatel, ANS etc., seja na debilidade do próprio Estado em conter, controlar e punir os abusos destas empresas com um Poder Judiciário moroso e arcaico. Aliás, digna de nota, é a triste falência dos Tribunais de Pequenas Causas. Criados inicialmente para dar celeridade aos conflitos cotidianos, muitos envolvendo empresas (e bancos!), atualmente encontram-se superlotados. Acrescente-se a isso o próprio Conselho Nacional de Justiça que, se excetuando casos de grande repercussão midiática, não passa de uma sofisticação do odioso e nefasto corporativismo. O cidadão comum continua à mercê não da Lei, mas da boa vontade dos juízes de primeira instância. Tudo isso deve nos fazer repensar se o Poder Judiciário é lento e extremamente burocrático por ineficiência ou por atender interesses.
É curioso o tom emotivo e por vezes passional que assumem aqueles que se ocupam do ex-presidente Lula. No caso de seus defensores chega a parecer algo religioso. Exemplo é o debate em torno da volta da inflação. Muitos petistas, inclusive os que se autointitulam de esquerda, rebatem a crítica da inflação presos na armadilha ideológica que os setores beneficiários criaram. Não questionam o alicerce a base: limitam-se a dizer que “a inflação está, sim, sob controle”.
Enfiando a cabeça na areia
Do mesmo modo, os críticos de Lula raramente se pautam pela razão. Há um caldo cultural nisso. Ainda estamos inseridos numa sociedade preconceituosa e cínica. Evidente que para os herdeiros da casa grande ter um ex-operário, que já foi pobre na presidência do país é na melhor das hipóteses um insulto. Porém, este ranço com a origem do Lula é muito forte na classe média e até nos estratos mais pobres. Aqueles que por diversos motivos se acostumaram com um “doutor” independente das suas práticas. Exemplos são abundantes. Luiz Inácio Lula da Silva tem seu lugar reservado na história. E, quando conseguimos um pouco de distanciamento das nossas convicções pessoais e analisamos seus dois governos, notamos ganhos significativos não só para os mais pobres com para grupos denominados “minorias” como negros, homossexuais, mulheres, portadores de necessidades especiais, etc. Quanto à indagação que fiz sobre se o Bolsa Família foi mais estratégico para a manutenção no poder, responderia que sim. Entretanto, para quem não comia e passou a fazer pelo menos três refeições regulares por dia, isso pouco importa. O lado negativo é quando colocam Lula acima do bem e do mal. O PT precisa aprender a discordar do Lula sem ter que romper com o partido. Quando comecei as pesquisas para este artigo não estava ocorrendo esta onda de protestos. Nestes períodos turbulentos, é comum a passionalidade, sobreposição das emoções, análises completamente irracionais.
O governo da presidenta Dilma mostrou-se no começo disposto a romper com a hegemonia da fração bancária financeira. Mas as últimas decisões do Banco Central demonstraram que ou não conseguiu ou mudou de ideia. Tenho absoluta certeza que num eventual governo José Serra estas manifestações iriam ocorrer e seriam bem mais intensas e violentas. Pela sua completa indiferença às demandas sociais, por seu temperamento egoísta e autoritário etc. Basta uma simples analisada em como ele tratou os conflitos quando era prefeito e quando foi governador, ou como o seu partido, o PSDB, trata as questões sociais. É só termos em mente o lamentável episódio conhecido como “massacre do Pinheirinho” ou as chacinas quase que regulares da PM paulista nas periferias.
Mas, não obstante, percebo novamente que a torcida segue dando lugar à análise. Chega a ser patética a postura de quem defende este governo. Estão falando até em golpe orquestrado pela direita. Agora, o que é a “direita”? O grupo político liderado por FHC? E Maluf, Renan Calheiros, Sarney, Kassab, Collor, Kátia Abreu, que estão no governo do PT, por acaso se converteram ao comunismo?
Pouco antes das eleições municipais de 2012, foi publicado um artigo meu neste Observatório (“O complexo de avestruz da imprensa paulista“) no qual chamava atenção para o fato da imprensa não enxergar, ou melhor, não querer enxergar o quadro político-partidário desalentador da cidade de São Paulo. E neste ano dois episódios envolvendo o atual prefeito Fernando Haddad me irritaram profundamente. A greve dos professores municipais e a demora covarde dele em revogar o aumento na tarifa de ônibus. Em ambos os casos não faltaram pessoas se manifestando surpresas com as atitudes (ou a falta delas). Chegaram, inclusive, a dizer que foram traídas! Como assim? Ninguém sabia quem ele era? Não se deram ao trabalho de observar o que foi a sua atuação como ministro da Educação num ano em que as universidades federais pararam por mais de quatro meses e o Brasil figurava em penúltimo lugar num ranking sobre educação no mundo? Não atentaram para as alianças e os termos em que ele se elegeu? Neste mesmo artigo, lamentava a postura de colegas petistas, em insistirem na conversa fiada que a aliança com Paulo Maluf era justificada. Ou seja, como a imprensa e o avestruz, enfiaram a cabeça na areia.
O ministro sumiu
E pelo que estou vendo, ouvindo e lendo, a empáfia continua a mesma. Agora com aquele viés elitista. Está todo mundo na rua por que estão sendo manipulado, quando não é para apoiar os governos petistas, as manifestações são feitas por autômatos, gente incapaz de pensar, vítimas da Veja e da Globo. Ainda é imprevisível o rumo que estas manifestações irão tomar. Contudo, o principal problema são os referenciais que estão utilizando para analisar e compreender o fenômeno. Muitos ainda do século 19. Falta a esses analistas referenciais do século 21, de uma sociedade líquida, para usar um conceito de Bauman. “Mas o que eles estão reivindicando?” “Quem são os líderes?”, indagam. E o descontentamento com partidos alcunham de fascismo. Mas o principal, não estão fazendo: a autocrítica!
Juca Kfouri vem constantemente publicando artigos, reportagens e vídeos sobre os absurdos e violações dos direitos humanos decorrentes destes mega eventos esportivos. Assisti a dois documentários assustadores, com práticas de remoção nas palavras do blogueiro, “manu militari” e “nazistas”. E para quem assistiu e está acompanhando isso as definições não são nem um pouco exageradas. Isto posto, podemos concluir que embora setores ligados ao PSDB, DEM, PPS (o PCdoB “deles”) que nunca, repito, nunca fizeram absolutamente nada pelos mais pobres, vão tirar proveito disso. Ou seja, há, sim, motivos de sobra para tanto descontentamento.
O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) publicou recentemente no auge dos conflitos em que assassinaram indígenas, a excelente relação que a ministra Gleisi Hoffmann tem com grandes fazendeiros. O ministro dos Esportes Aldo Rabelo, além de nunca demonstrar coragem com relação ao presidente da CBF e do COL, José Maria Marin, entulho da ditadura, no começo das manifestações disse em tom de ameaça que “ninguém nem nada iria impedir a realização dos jogos”. “Governo representa 40% da renda de maior grupo educacional do mundo“ Esta foi a manchete do portal iG de meados do mês de maio. Estava se referindo ao mais no foco de preocupação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) à fusão entre o grupo Anhanguera com a norte-americana Kroton. A Anhanguera é objeto de diversas ações judiciais. No ano passado, das faculdades que comprou demitiu mais de 1.400 mestres e doutores e contratou profissionais sem estas titulações para pagar menos. E um dos principais sócios, Gabriel Mário Rodrigues, é só elogios ao atual ministro da Educação, Aloízio Mercadante. Também, quase metade de lucro fácil e sem risco! Numa rápida e simples consulta aos alunos das instituições compradas por essa rede, qualquer pessoa constatará o quanto foram e estão sendo prejudicados. Não sei por que não vejo na grande imprensa isso. O que vejo é que são grandes anunciantes. E esta boa vontade do ministro é no mínimo suspeita. Sem contar que no ano passado, em plena greve Mercadante sumiu. Foi viajar para o exterior e não recebeu os professores. E neste ano, quando surgiu mais um escândalo na correção das provas do Enem, estava com a presidenta Dilma, em visita ao papa.
Assuntos que a escola não discute
Educação é a base de tudo. Frase de efeito? Clichê? Se sim, não deveria. Quem já leu outros artigos que escrevi sabe que grande parte das minhas preocupações está relacionada à Educação. Área em que atuo e milito. No atual contexto quero salientar dois aspectos. As sandices estúpidas de Marco Feliciano e os “fascistas” que não querem participação dos partidos. No primeiro caso, chama atenção que Gabriel Chalita, que no começo deste ano foi acusado de recebimento de propina, tráfico de influência, desvio de verbas, entre outras indicam que o político teria movimentado irregularmente cerca de R$ 68 milhões do patrimônio público. Atualmente ele preside a Comissão de Educação da Câmara dos Deputados. A própria gestão dele quando foi Secretário da Educação de São Paulo já deveria ser motivo de descontentamento dele presidindo a Comissão. Curioso é que não vi ninguém do movimento feminista nem dos representantes dos homossexuais protestando. Isso é incoerência e grave erro estratégico. Pois é exatamente nisso que Marco Feliciano centra seus argumentos para continuar com suas maluquices. Por que nas outras comissões importantes pode e ele não pode? Quero ver este homem longe não só dos Diretos Humanos como também da vida pública. Mas suas reclamações acabam legitimadas por descuido daqueles que estão na linha de frente contra sua permanência. A incoerência é que no longo prazo, só com uma educação de qualidade, universal e laica é que vamos superar preconceitos e mistificações. A mesma coisa com os “fascistas”. Estive em algumas passeatas. Em Santo André tinha um grupo de adolescentes xingando a presidenta Dilma com palavrões e pedindo a ditadura. Ao meu lado um colega professor e militante de esquerda não demorou em defender o governo e a democracia chamando eles exatamente de fascistas. Fiquei assustado, pois eram apenas adolescentes e algumas crianças. A questão é, estão ensinando para esta garotada como se constrói uma sociedade justa, sustentável e democrática? Evidente que estas manifestações de cunho ultraconservador são preocupantes, mas é preciso ir além da superfície. Uma sociedade que tolera um Aloízio Mercadante no Ministério da Educação, Gabriel Chalita na Comissão de Educação, com uma imprensa que com raríssimas exceções não acompanha, investiga, com uma cobertura amadora da educação esperava o que?
Já a pergunta que faço se estamos ensinando a garotada corretamente, deixo para a atriz Irene Ravache responder, que também nos leva à constatação de que nosso sistema de ensino é precário em todos os níveis, não só o público, infelizmente. A entrevista foi concedida ao portal iG no dia 13/06/2013 por ocasião da estreia do filme A Memória que Me Contam, da diretora Lúcia Murat:
“(O assunto) não é comentado nas escolas. O lugar onde se ensina a história do Brasil não fala sobre isso. Digo pela escola dos meus filhos e netos. Fala-se apenas que houve o Ato Institucional nº 5, o Brasil passou por uma ditadura, mas não entram nos detalhes.” “Acho tão leve a punição para um crime como estupro no nosso país, como se alguma coisa justificasse o estupro. Se não abrirmos os olhos, daqui a pouco vão dizer que a atitude da mulher é que causou. O estupro também não é discutido na escola.”
***
Cristiano Moura Gonzaga é sociólogo e professor, Santo André, SP

A classe médica brasileira tem medo de quê? — CartaCapital

A classe médica brasileira tem medo de quê? — CartaCapital

A classe médica brasileira tem medo de quê?

Em artigo, médico colombiano escreve sobre as dificuldades para atuar no Brasil e critica a postura reativa da categoria à vinda de profissionais cubanos
por Ricardo Palacios — publicado 07/07/2013 10:49, última modificação 07/07/2013 13:06
Valter Campanato/Agência Brasil
Protesto de médicos
Cerca de 200 médicos se concentraram em frente ao Ministério da Saúde e ao Palácio do Planalto para protestar contra a "importação" de profissionais estrangeiros sem prova de revalidação
A exploração por parte do capital é uma novidade para o grêmio médico no Brasil. Recentemente um dos setores mais conservadores da sociedade viu sua condição de profissão liberal ser extinta pelos operadores dos planos de saúde que exploram a mais-valia obtida através da prestação dos serviços. Assim, aqueles que foram selecionados através de provas excludentes nas escolas de medicina e que sonham algum dia virar burgueses estão hoje na rua para lutar por reivindicações trabalhistas. Sim, os médicos agora fazem parte da classe trabalhadora, mesmo que não tenham consciência dessa nova relação com os meios sociais da produção.
No site dos Conselhos Regionais e do Conselho Federal de Medicina aparecem destacados apelos mais apropriados para sindicatos que para órgãos fiscalizadores de uma profissão, hipertrofiando sua função secundária de zelar “pela valorização do profissional médico”.
Mobilizações para exigir aumento dos honorários pagos pelos planos de saúde e campanhas para promover carreira de Estado são pautas frequentes nesses órgãos durante os últimos meses. Isso demonstra que os temas trabalhistas ganharam uma notoriedade insuspeita dentre os médicos.
Mas a última dessas batalhas do grêmio médico é, de longe, a mais complexa: o convite a médicos estrangeiros para trabalhar no território nacional. Esse assunto é particularmente sensível porque atinge ao mesmo tempo o status outorgado pelo ingresso às escolas médicas, posturas políticas, questionamento da liderança e o temor de concorrentes novos no mercado de trabalho.
O ingresso às escolas médicas no Brasil acontece através de um penoso processo que visa excluir aqueles provenientes de camadas com menores recursos e oportunidades. Na visão oposta, trata-se da seleção dos “melhores”, como se nessa lógica inversa a qualidade de um médico fosse garantida pela seleção que teve para entrar, e não pela formação adquirida dentro da escola médica.
Os médicos estrangeiros representam um desafio a esse paradigma: muitos países têm processos de seleção muito mais acessíveis para o ingresso. A seleção real acontece dentro da escola de medicina. Os alunos são constantemente avaliados, reprovados e jubilados, se necessário, durante o processo de formação médica. Diferentemente do que acontece no Brasil, entrar na escola de medicina não significa que o aluno será médico seis ou sete anos mais tarde.
A ênfase em outras latitudes é dada ao resultado final da educação; mais que o exame de ingresso, a avaliação crucial está na saída. Aqui, só o Conselho Regional de Medicina de São Paulo, CREMESP, avaliou os formandos de forma obrigatória em 2012. Menos da metade dos médicos foi aprovada nesse exame.
Mas não há consequências. O exame documentou a falsidade do mito de seleção dos “melhores”, inclusive com um terço dos egressos de faculdades públicas reprovados, mas o mito permanece intacto. As paixões exacerbadas contra médicos brasileiros formados no exterior, particularmente em Cuba, estão relacionadas ao fato de eles encontrarem um atalho para ultrapassar a barreira de entrada nas faculdades de medicina.
A seleção de candidatos brasileiros para ingressar nas escolas de medicina para estrangeiros em Cuba foi canalizada no Brasil por movimentos sociais e partidos políticos ligados à esquerda. A ascensão do governo comandado por Luiz Inácio Lula da Silva foi a esperança dos egressos de Cuba que queriam regularizar sua situação no país.
A resposta dos médicos não se fez esperar: as portas desses que não foram submetidos à seleção das faculdades brasileiras foram fechadas pelas próprias faculdades via revalidação.
Com algumas exceções, as universidades públicas, obrigadas por lei a atender essas revalidações, se omitiram, não respondiam ou criavam penosas vias sacras para quem ousasse seguir em frente com o processo.
Os médicos formados no exterior formaram um curioso bando de peregrinos que se encontravam em cada estado que finalmente voltava a receber a documentação ou realizava uma prova. A pressão dentro dos próprios aliados de esquerda do governo fez com que os ministérios da Saúde e da Educação criassem uma alternativa à qual podiam se adequar às universidades públicas para padronizar a revalidação.
O viés da primeira edição do exame, em 2010, foi vergonhoso. Chamado de Revalida, o exame acontece em duas etapas, uma teórica e outra prática. O nível de dificuldade foi tão grande que só dois, entre mais de 600 inscritos, formados em diferentes escolas médicas do mundo, foram chamados para a segunda fase. Os organizadores reconheceram que o nível de exigência foi além do necessário e prometeram reformular o exame.
Não existe nenhum critério para estabelecer algum grau de isonomia, como testar previamente o nível de dificuldade das perguntas em formandos de escolas brasileiras ou fazer um exame de igual teor ao realizado pelo CREMESP em 2012.
Cabe anotar que a peregrinação para os que queiram fazer o Revalida continua: por exemplo, o exame não é oferecido no estado de São Paulo porque nenhuma universidade pública paulista aderiu a ele, mas o CREMESP obriga ao formado no exterior a ter seu diploma revalidado por esse exame numa norma prescrita para atender o clamor de seus fiscalizados nas ruas.
Nesse panorama, aparece um novo elemento: a distribuição desigual dos médicos na geografia nacional atinge níveis insustentáveis e se transforma em elemento político. Os médicos do Brasil, assim como os dos Estados Unidos ou outros países, se desinteressam pelo serviço nas cidades do interior e nas periferias das grandes cidades.
Há muitas razões para esse desinteresse: a formação médica acontece em ambientes tecnologicamente complexos muito diferentes da realidade desses locais carentes de recursos; as possibilidades de retorno financeiro parecem ligadas a especialidades que demandam mais recursos técnicos; e o atrativo natural que exercem as grandes cidades em sociedades individualistas em detrimento da vida bucólica do interior pode ser contada entre outras causas.
Mas a realidade da falta de atendimento médico fala mais alto. Os prefeitos se organizaram para pressionar por uma solução que trouxesse dividendos eleitorais e finalmente o governo comprou a causa.
Houve várias tentativas. Inicialmente o governo ofereceu aos médicos recém-formados dinheiro e pontos a mais para os disputados exames de acesso à residência médica no programa Provab.
O estamento médico criticou a iniciativa, colocando argumentos como o de que o uso de pontos no exame seria uma chantagem para deixar um médico recém-formado abandonado à sorte no interior e sem nenhum tipo de supervisão.
Talvez estejam certos.
O problema pode ser deixar os pacientes abandonados a um médico recém-formado que não tem capacitação adequada para esses locais de atenção básica de baixa tecnologia. Locais em que a medicina cubana é especialista.
A medicina em Cuba usa um modelo diferente ao brasileiro. Está fundamentado em atenção básica e prevenção, com médicos acessíveis morando nas mesmas comunidades e um avanço tecnológico quase congelado após a queda da Cortina de Ferro.
Combinação contrastante que consegue atender a maioria de pacientes e obter excelentes estatísticas de saúde, comparáveis a qualquer país desenvolvido, a custo muito mais baixo. Mas, para a minoria dos pacientes, aqueles casos que requerem maior tecnologia, a receita pode ser insuficiente. A formação em grande escala de médicos permitiu que o país criasse as chamadas “Missiones” internacionais, que levaram atendimento médico a regiões carentes e remotas em dezenas de países.
Nos últimos anos, a exportação de serviços médicos se tornou a primeira fonte de divisas da ilha, principalmente pelas ações na vizinha Venezuela. A solução parece conveniente para todas as partes, médicos cubanos que estão dispostos a trabalhar no interior do Brasil e nas periferias para ajudar seu país e a população, que veria fim em sua espera por atendimento médico e estaria disposta a votar por quem fez isso acontecer. Mas há um obstáculo a vencer: a resistência do grêmio médico brasileiro.
Como vimos antes, os médicos brasileiros estavam ocupados em questões trabalhistas com seus principais empregadores, os planos de saúde e o governo. Em sua nova condição de classe trabalhadora, relativamente bem paga, mas trabalhadora, sua condição de fonte de ideias e de liderança dos tempos de classe média se extinguiram sob sua nova classe.
Em papel reativo, os médicos não conseguem elaborar contrapropostas para solucionar os problemas de falta de atendimento de saúde que sofre a maior parte da população.
A sua única resposta é que não trabalham no interior porque não tem plano de carreira nem condições de trabalhar. Uma continuação do repertório trabalhista anterior. Nenhuma proposta real para contrastar com as ideias do governo, que continua na liderança através de uma organizada campanha de mídia para angariar apoios e anunciando que estenderá os convites também a médicos espanhóis, portugueses e argentinos.
A própria presidenta empenha sua palavra de trazer os médios como parte de sua estratégia para melhorar a saúde e acalmar as manifestações que tomaram conta do país.
O ministro da Saúde promete que as vagas só serão oferecidas a estrangeiros após serem recusadas por médicos brasileiros, promessa de quem tem certeza da recusa. As vagas, há tempos, aguardam por médicos brasileiros que as ocupem. Nesse cenário saem os médicos às ruas para protestar.
Os médicos estrangeiros a serem importados são o principal alvo em um protesto com pesado caráter trabalhista, de proteção de mercado. Porque a pior ameaça que os cubanos representam é que podem dar certo. Porque os cubanos podem demonstrar que a população não necessita de grandes hospitais de alta tecnologia, mas de médicos acessíveis que estejam ao seu lado.


*Ricardo Palacios é médico, formado no exterior com o diploma devidamente revalidado no Brasil, foi consultor temporário para projetos de pesquisa da Organização Mundial da Saúde e agora estuda Ciências Sociais na Universidade de São Paulo". As opiniões expressadas neste artigo não representam a posição de instituição alguma

O processo contra a Globo sumiu? E os bastidores da negociação que poderia ter levado à “estatização” da emissora – Escrevinhador

O processo contra a Globo sumiu? E os bastidores da negociação que poderia ter levado à “estatização” da emissora – Escrevinhador
publicada domingo, 07/07/2013 às 18:33 e atualizada domingo, 07/07/2013 às 18:58
por Rodrigo Vianna
Conversei com duas fontes importantes, que trouxeram esclarecimentos sobre o episódio da sonegação de impostos da Globo, denunciada pelo blog “O Cafezinho” de Miguel do Rosário.
Uma das fontes é um ex-funcionário público (que conhece bem instituições como a Receita Federal e o Ministério Público no estado do Rio). Esse homem é o mesmo que Miguel do Rosário tem chamado de “garganta profunda”. Por isso, também o chamaremos assim nesse texto. A segunda fonte (será chamada aqui de “fonte 2″) é uma pessoa que esteve no governo federal (funcionário de carreira), nunca exerceu cargos eletivos, mas sabe muito sobre os bastidores do poder – e suas intercessões com o mundo das finanças e da mídia. Seguem abaixo as informações que recebi dos dois. O texto é longo, mas peço atenção porque trata de assunto gravíssimo.
1 - O blog “O Cafezinho” publicou apenas 12 páginas de uma imensa investigação contra a Globo. Onde está o processo original? Onde estão as centenas de páginas até agora não reveladas? Um mistério. O “garganta profunda” garante que funcionários da Receita Federal no Rio estariam “em pânico” (são palavras dele) porque o processo contra a Globo simplesmente sumiu! Sim. O processo não foi digitalizado, só existe em papel. O deputado Protógenes Queiroz  (que pretende abrir uma CPI para investigar a Globo) também considera “estranho” que não haja “back-up” da investigação.
“Mas como um processo some desse jeito?” pergunto incrédulo. E o “garganta profunda” responde com um sorriso: “há advogados especializados nisso, e às vezes o sumiço físico de um processo é a única forma de evitar danos maiores quando se enfrenta uma investigação como essa contra a Globo”. Insisto: “mas quem teria pago pro processo desaparecer?”. E o “garganta profunda” responde com um sorriso apenas.
2 – Importante compreender que, na verdade, há uma investigação contra a Globo que se desdobra em dois processos. Tudo começa com o ”Processo Administrativo Fiscal” de número 18471.000858/2006-97 , conduzido pelo auditor fiscal Alberto Sodré Zile; era a investigação propriamente tributária, no decorrer da qual descobriu-se a (suposta) conta da Globo em paraíso fiscal e a sonegação milionária. Ao terminar a investigação, no segundo semestre de 2006, Zile constatou “Crime contra a Ordem Tributária” e por isso pediu a abertura de uma “Representação Fiscal para Fins Penais” (ou seja: investigação criminal contra os donos da Globo) que recebeu o número 18471.001126/2006-14.
3 - Um dos indícios de que há algo errado com os dois processos contra a Globo surge quando realizamos a consulta ao site ”COMPROT” (qualquer cidadão pode entrar no site “COMPROT” do Ministério da Fazenda e fazer a consulta – digitando os números que reproduzi no item acima). Ao fazê-lo, aparecem na tela as seguintes informações:
“MOVIMENTADO EM: 29/12/2006″
“SITUAÇÃO: EM TRÂNSITO”.
4 – Um processo (ou dois!!!) pode ficar ”em trânsito” durante seis anos e meio? Isso não existe.  Onde foi parar o processo? Entrou em licença médica? Repousa em algum escaninho? Viajou para as Ilhas Virgens Britânicas? Ou desapareceu no buraco negro que parece unir o Jardim Botânico ao Planalto Central?
A “fonte 2″ esclarece que a investigação deveria ter seguido dois caminhos:
- a Globo poderia continuar discutindo o imposto devido nas instâncias administrativas da Receita (para isso, teria que pagar o valor original e discutir a multa);
- o Ministério Público Federal no Rio deveria ter iniciado uma investigação dos aspectos criminais (esse era  o caminho depois da “Representação Fiscal para Fins Penais” apresentada pelo auditor Zile).
5 - Se a Globo tivesse feito recursos administrativos na Receita, isso deveria constar no site “COMPROT”. Mas a última movimentação é de 29/12/2006 – como qualquer cidadão pode confirmar realizando a consulta. O que se passou? Onde está o processo? O “garganta profunda” garante: “o processo teria sido sido retirado do escritório da Receita do Rio, desviado de forma subterrânea”. Essa informação, evidentemente, ainda precisa ser confirmada.
6 – Se  o processo original sumiu, como se explica que Miguel do Rosário tenha obtido as 12 páginas já publicadas em “O Cafezinho”? Aí está outra parte do segredo e que vamos esclarecer agora: um homem – não identificado - teria conseguido preservar o processo original (e feito pelo menos mais uma cópia, na íntegra, para se proteger). As 12 páginas seriam, portanto, “só um aperitivo do que pode vir por aí”, garante o “garganta profunda”.
7 – O que mais há no processo? Detalhes sobre contas em paraísos fiscais,  e os nomes dos donos da Globo associados a essas contas, além de muitos outros detalhes – diz o “garganta profunda”, único a manter contato permanente com o homem que hoje possuiria o processo na íntegra. Seriam provas avassaladoras, “com nome, endereço e tudo o mais”. Em suma: uma bomba atômica contra a Globo.
8 – Abrimos aqui um parêntesis. A “fonte 2″ garante-me que em 2003 a família Marinho procurou o governo Lula para pedir ajuda. A Globo estava a ponto de quebrar (graças às barbeiragens com a GloboCabo, que contraiu dívidas em dólar e viu essa dívida se multiplicar por quatro depois da desvalorização do Real em 98/99, no governo FHC). Algumas pessoas no entorno de Lula chegaram a sugerir que o governo emitisse “debêntures” para salvar a Globo. Na prática, isso poderia dar ao governo o controle da Globo. “Seria uma forma suave de, na prática, estatizar a Globo”, garante-me a “fonte 2″. Por que não foi feito? “Eram todos marinheiros de primeira viagem no governo, faltou confiança e convicção para adotar essa medida, que teria sido a mais adequada para o país“, diz a “fonte 2″ – que acompanhou toda a negociação de perto. Ele conta que a família Marinho ficou contrariada com essa idéia, que chegou a ser levada à mesa por integrantes do governo Lula, mas a Globo estava tão desesperada que cogitou até aceitar essa saída pra não quebrar. Lula, no entanto, optou pela saída convencional: a Globo conseguiu empréstimos (inclusive no BNDES), e alongou a dívida. A família Marinho manteve seu império intacto.
9 – Ainda pressionada por essa dívida principal, a família Marinho recebeu notícia da investigação fiscal, promovida pelo auditor Zile. A Globo pediu socorro ao governo. Isso deve ter ocorrido entre 2003 e 2004, diz a “fonte 2″. A ordem de Lula teria sido: “não vamos intervir, os auditores têm autonomia funcional e devem fazer o trabalho deles”.
10 – A partir de então (e apesar da “ajuda” do governo para equacionar a dívida principal originada pelas barbeiragens na Globocabo), a família Marinho teria declarado guerra. Isso explicaria a cobertura global na CPI do Mensalão, sob a batuta de Ali Kamel, em 2005. Essa é a tese da “fonte 2″, embasada nesses fatos só agora revelados.
11 – O processo por sonegação (conduzido pelo auditor Alberto Sodré Zile) foi concluído às vésperas da eleição de 2006, quando a Globo de novo apontou as baterias contra Lula. Acompanhei tudo isso de perto, eu estava na Globo na época. Claramente, a temperatura contra o governo subiu no último mês antes do primeiro turno (ocorrido em outubro de 2006).  O auditor Zile concluiu a investigação em setembro de 2006. A família Marinho queria que a investigação sobre sonegação fosse interrompida de qualquer forma. Não tanto pelos valores, mas porque a revelação de contas em paraísos fiscais seria devastadora.
12 – Entre o primeiro e o segundo turnos da eleição de 2006, houve algum acordo entre a Globo e o governo Lula? A cobertura global da eleição mudou completamente no segundo turno, tornando-se mais “suave”. Em novembro de 2006, um colega que também era repórter da Globo e que mantinha bons contatos com Marcio Thomaz Bastos (então Ministro da Justiça de Lula) disse-me: “Rodrigo, agora eles sentaram pra conversar, o governo e os Marinho“.  Não se sabe ao certo o que foi colocado na mesa para a tal conversa. O que se sabe é que, coincidentemente, desde dezembro de 2006 a investigação por sonegação segue “em trânsito.”
13 – A divulgação das doze páginas pelo  Cafezinho” pegou a Globo de surpresa. Reparem como a nota oficial da emissora é confusa e contraditória. A Globo fala que não há imposto a pagar, mas reconhece que discute algumas cobranças, sim. E não faz qualquer menção à conta nas Ilhas Virgens. É um ziguezague. Procedimento típico de quem não sabe o que o “outro lado” possui de munição. A Globo torce para que o resto do processo não apareça. Sobram várias perguntas…
14 – O homem que está com o processo na mão estaria disposto a revelar todo o conteúdo? Por que não o fez até agora?
15 – O MPF (Ministério Público Federal) vai esclarecer por que não seguiu a investigar a Globo, conforme sugeriu o auditor Alberto Sodré Zile em sua “Representação Fiscal para Fins Penais”? Cabe aos blogueiros e ao Centro Barão de Itararé fazer essa pergunta diretamente ao MPF. Aliás, nessa quarta-feira, dia 10, às 11h, o Barão e outras entidades irão para a porta do MPF no Rio (rua Nilo Peçanha, 31 – centro), levando a singela pergunta: “MPF, por que você não investiga a fraude da Rede Globo?”. Gurgel pode dar a resposta…
16 – A Receita Federal alega que não pode dar mais detalhes sobre a investigação, já que esta estaria protegida por sigilo fiscal. Ok. Mas a Receita pode – e deve – esclarecer o que foi feito dos processos. E por que eles constam como “em trânsito” na página “COMPROT” do Ministério da Fazenda.
17 - Por último, seria bom esclarecer se houve, de fato, algum acordo entre Lula e Globo em 2006. E por que ele teria sido rompido depois – com a evidente tomada de posição da emissora carioca em favor de Serra na eleição de 2010?

Carta Maior - Política - Uma nova classe trabalhadora

Carta Maior - Política - Uma nova classe trabalhadora

Uma nova classe trabalhadora

Em artigo para livro '10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma' (Boitempo, 2013), a filósofa Marilena Chauí afirma que uma nova classe trabalhadora se constituiu no país num momento em que políticas econômicas e sociais avançaram em direção à democracia, mas as condições impostas pela economia neoliberal determinaram a difusão da ideologia da competência e da racionalidade do mercado. Com isso, ela se tornou propensa a aderir ao individualismo competitivo e agressivo difundido pela classe média.

1. Surpresas

Alguém que, nos anos 1950 e 1960, conhecesse as terríveis condições de vida e de trabalho das classes populares brasileiras e, naquela época, tivesse viajado por uns tempos pela Europa, seria duplamente surpreendido. Primeira surpresa: veria operários dirigindo pequenos carros (na França, o famoso “dois cavalos” da Renault; na Inglaterra, o “biriba” da Morris; na Itália, o Cinquecento da Fiat), passando as férias com a família (em geral em alguma praia), fazendo compras em lojas de departamento populares (na França, o Prixunic; na Inglaterra, o Woolworths e a C&A), enviando os filhos a creches públicas e, quando maiores, à escola pública de primeiro e segundo graus, às escolas técnicas e mesmo às universidades. Também veria que os trabalhadores tinham direito, assim como suas famílias, a hospitais públicos e medicamentos gratuitos e, evidentemente, possuíam casa própria. Era a Europa do período fordista do capitalismo industrial, portanto da linha de montagem e fabricação em série de produtos cujo custo barateado permitia o consumo de massa. Mas era, sobretudo, a Europa da economia keynesiana, quando as lutas anteriores dos trabalhadores organizados haviam levado à eleição de governantes de centro ou de esquerda e ao surgimento do Estado do Bem-Estar Social, no qual uma parte considerável do fundo público era destinada, sob a forma de salário indireto, aos direitos sociais, reivindicados e, agora, conquistados pelas lutas dos trabalhadores. Segunda surpresa: a diferença profunda entre, por exemplo, a situação dos trabalhadores suecos – desde os salários e direitos sociais até os direitos culturais – e a dos espanhóis, portugueses e gregos, ainda submetidos a ditaduras fascistas e forçados a emigrar para o restante da Europa em busca de melhores condições de vida e de trabalho.

Entretanto, não passaria pela cabeça de ninguém dizer que os trabalhadores europeus haviam ascendido à classe média. Curiosamente, é o que se diz hoje dos trabalhadores brasileiros, após dez anos de políticas contrárias ao neoliberalismo.

2. A catástrofe neoliberal

Diante da classe trabalhadora que descrevemos acima, não foi por acaso, em meados dos anos 1970, quando o déficit fiscal do Estado e a estagflação abriram uma crise no capitalismo, que os ideólogos conservadores ofereceram uma suposta explicação para ela: a crise, disseram eles, foi causada pelo poder excessivo dos sindicatos e dos movimentos operários, que pressionaram por aumentos salariais e exigiram o aumento dos encargos sociais do Estado. Teriam, dessa maneira, destruído os níveis de lucro requeridos pelas empresas, desencadeado processos inflacionários incontroláveis e provocado o aumento colossal da dívida pública.

Feito o diagnóstico, também ofereceram o remédio: um Estado forte para quebrar o poder dos sindicatos e movimentos populares, controlar o dinheiro público e cortar drasticamente os encargos sociais e os investimentos na economia, tendo como meta principal a estabilidade monetária por meio da contenção dos gastos sociais e do aumento da taxa de desemprego para formar um exército industrial de reserva que acabasse com o poderio das organizações trabalhadoras. Tratava-se, portanto, de um Estado que realizasse uma reforma fiscal para incentivar os investimentos privados, reduzindo os impostos sobre o capital e as fortunas e aumentando os impostos sobre a renda individual e, assim, sobre o trabalho, o consumo e o comércio. Finalmente, um Estado que se afastasse da regulação da economia, privatizando as empresas públicas e deixando que o próprio mercado operasse a desregulação, ou, traduzindo em miúdos, a abolição dos investimentos estatais na produção e do controle estatal sobre o fluxo financeiro, a drástica legislação antigreve e o vasto programa de privatização. Pinochet, no Chile, Thatcher, na Grã-Bretanha, e Reagan, nos Estados unidos, tornaram-se a ponta de lança política desse programa.

Com o encolhimento do espaço público dos direitos e a ampliação do espaço privado dos interesses de mercado, nascia o neoliberalismo, cujos traços principais podem ser assim resumidos:

1. A desativação do modelo industrial de tipo fordista, baseado no planejamento, na funcionalidade e no longo prazo do trabalho industrial, com a centralização e verticalização das plantas industriais, grandes linhas de montagens concentradas num único espaço, formação de grandes estoques orientados pelas ideias de qualidade e durabilidade dos produtos, e numa política salarial articulada ao Estado (o salário direto articulado ao salário indireto, isto é, aos benefícios sociais assegurados pelo Estado). Em contrapartida, no neoliberalismo, a produção opera por fragmentação e dispersão de todas as esferas e etapas do trabalho produtivo, com a compra e venda de serviços no mundo inteiro, isto é, com a terceirização e precarização do trabalho. Desarticulam-se as formas consolidadas de negociação salarial e se desfazem os referenciais que permitiam à classe trabalhadora perceber-se como classe e lutar como classe social, enfraquecendo-se ao se dispersar nas pequenas unidades terceirizadas, de prestação de serviços, no trabalho precarizado e na informalidade, que se espalharam pelo planeta. Desponta uma nova classe trabalhadora cuja composição e definição ainda estão longe de ser compreendidas.

2. O desemprego torna-se estrutural, deixando de ser acidental ou expressão de uma crise conjuntural, porque a forma contemporânea do capitalismo, ao contrário de sua forma clássica, não opera por inclusão de toda a sociedade no mercado de trabalho e de consumo, mas por exclusão, que se realiza não só pela introdução ilimitada de tecnologias de automação, mas também pela velocidade da rotatividade da mão de obra, que se torna desqualificada e obsoleta muito rapidamente em decorrência da velocidade das mudanças tecnológicas. Como consequência, tem-se a perda de poder dos sindicatos, das organizações e movimentos populares e o aumento da pobreza absoluta.

3. O deslocamento do poder de decisão do capital industrial para o capital financeiro, que se torna o coração e o centro nervoso do capitalismo, ampliando a desvalorização do trabalho produtivo e privilegiando a mais abstrata e fetichizada das mercadorias, o dinheiro, porém não como mercadoria equivalente para todas as mercadorias, mas como moeda ou expressão monetária da relação entre credores e devedores, provocando, assim, a passagem da economia ao monetarismo. Essa abstração transforma a economia no movimento fantasmagórico das bolsas de valores, dos bancos e financeiras – fantasmagórico porque não operam com a materialidade produtiva e sim com signos, sinais e imagens do movimento vertiginoso das moedas.

4. No Estado do Bem-Estar Social, a presença do fundo público sob a forma do salário indireto (os direitos econômicos e sociais) desatou o laço que prendia o capital à força de trabalho (ou ao salário direto). Esse laço era o que, tradicionalmente, forçava a inovação técnica pelo capital a ser uma reação ao aumento real de salário1 e, ao ser desatado, três consequências se impuseram: a) o impulso à inovação tecnológica tornou-se praticamente ilimitado, provocando expansão dos investimentos e agigantamento das forças produtivas cuja liquidez é impressionante, mas cujo lucro não é suficiente para concretizar todas as possibilidades tecnológicas, exigindo o financiamento estatal; b) o desemprego passou a ser estrutural não só pela introdução ilimitada de tecnologias de automação, mas também pela velocidade da rotatividade da mão de obra, que se torna desqualificada e obsoleta muito rapidamente em decorrência da velocidade das mudanças tecnológicas, ampliando a fragmentação da classe trabalhadora e diminuindo o poder de suas organizações; c) o aumento do setor de serviços também se torna estrutural, deixando de ser um suplemento à produção, visto que, agora, sob a designação de tecnociência, a ciência e a tecnologia tornaram-se forças produtivas, deixando de ser mero suporte do capital para se converter em agentes de sua acumulação; com isso, mudou o modo de inserção social do conhecimento científico e técnico, de maneira que cientistas e técnicos se tornaram agentes econômicos diretos. A força e o poder capitalistas encontram-se no monopólio dos conhecimentos e da informação.

5. A transnacionalização da economia reduz a importância da figura do Estado nacional como enclave territorial para o capital e dispensa as formas clássicas do imperialismo – colonialismo político-militar, geopolítica de áreas de influência etc. –, de sorte que o centro econômico, jurídico e político planetário encontra-se no Fundo Monetário Internacional (FMI) e no Banco Mundial, que operam com um único dogma: estabilidade monetária e corte do déficit público.

6. A distinção entre países de Primeiro e terceiro Mundo tende a ser acrescida com a existência, em cada país, de uma divisão entre bolsões de riqueza absoluta e de miséria absoluta, isto é, a polarização de classes surge como polarização entre a opulência absoluta e a indigência absoluta.

3. A mudança a caminho

Em política, há ações e acontecimentos com força para se tornar simbólicos. é assim que podemos contrapor dois momentos simbólicos que marcaram a política brasileira entre 1990 e 2002: o primeiro nos leva de volta ao “bolo de noiva”, que inaugurou a era Collor; o segundo, à pergunta singela feita pelo recém-eleito presidente da república aos âncoras do Jornal nacional da Rede Globo, na noite de 28 de outubro de 2002.
No final da campanha presidencial de 1989 e na fase de transição entre novembro de 1989 e janeiro de 1990, um fato novo marcou a política brasileira: em primeiro plano, tanto nos discursos como nos debates e na prática, veio a economista Zélia Cardoso de Melo com sua equipe técnica. As decisões fundamentais partiam desse grupo, que se reunia em Brasília num edifício apelidado “bolo de noiva” e de lá vieram medidas econômicas que definiram o governo de Fernando Collor, no qual o discurso político foi suplantado pelo técnico-econômico. Neste, surgia, imperial, uma nova figura: o mercado, cuja fantasmagoria só entraria em pleno funcionamento no período de 1994 a 2002, quando a população brasileira passou a ouvir curiosas expressões, tais como “os mercados estão nervosos”, “os mercados estão agitados”, “os mercados se acalmaram”, “os mercados não aprovaram”, como se “os mercados” fossem alguém!

Na noite de 28 de outubro de 2002, no final do Jornal nacional da Rede Globo de televisão, quando os âncoras falavam sobre as cotações das bolsas de valores, do dólar e do real, e sobre a agitação e calmaria dos “mercados”, o presidente da República eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, que estava sendo entrevistado, perguntou com um sorriso levemente irônico: “Vocês não têm outros assuntos? Cadê a fome, o desemprego, a miséria, a desigualdade social?”. Essa indagação singela, unida ao pronunciamento feito algumas horas antes, anunciando a criação da Secretaria de Emergência Social, cuja prioridade era o combate à fome, demarcou simbolicamente o novo campo da política no Brasil: os direitos civis, econômicos e sociais são prioritários e comandam as ações técnico-econômicas, pois a democracia é a única forma política em cujo núcleo está a ideia de direitos, tanto de sua criação pela sociedade, como de sua garantia e conservação pelo Estado.

O “bolo de noiva” simbolizou a entrada do país no modelo neoliberal. O pronunciamento e a pergunta do novo presidente da república simbolizaram a decisão de sair desse modelo.

Entre esses dois momentos, intercalam-se os governos de Fernando Henrique Cardoso, que tornaram esse modelo hegemônico ao realizar a chamada reforma e modernização do Estado, isto é, a adoção do neoliberalismo como princípio definidor da ação estatal (privatização dos direitos sociais, convertidos em serviços vendidos e comprados no mercado, privatização das empresas públicas, direcionamento do fundo público para o capital financeiro etc.). Para legitimar essa decisão política, foram mobilizadas as duas grandes ideologias contemporâneas: a da competência e a da racionalidade do mercado.

A ideologia da competência afirma que aqueles que possuem determinados conhecimentos têm o direito natural de mandar e comandar os que supostamente são ignorantes, de tal maneira que a divisão social das classes aparece como divisão entre dirigentes competentes e executantes que apenas cumprem ordens. Essa ideologia, dando enorme destaque à figura do “técnico competente”, tem a peculiaridade de esquecer a essência mesma da democracia, qual seja, a ideia de que os cidadãos têm direito a todas as informações que lhes permitam tomar decisões políticas porque são todos politicamente competentes para opinar e deliberar, e que somente após a tomada de decisão política há de se recorrer aos técnicos, cuja função não é deliberar nem decidir, mas implementar da melhor maneira as decisões políticas tomadas pelos cidadãos e por seus representantes.

Por sua vez, a ideologia neoliberal afirma que o espaço público deve ser encolhido ao mínimo enquanto o espaço privado dos interesses de mercado deve ser alargado, pois considera o mercado portador de racionalidade para o funcionamento da sociedade. Ela se consolidou no Brasil com o discurso da modernização, no qual modernidade significava apenas três coisas: enxugar o Estado (entenda-se: redução dos gastos públicos com os direitos sociais), importar tecnologias de ponta e gerir os interesses da finança nacional e internacional.

Essa ideologia propagou-se pela vida cotidiana brasileira, bastando observar o que acontecia nos noticiários dos meios de comunicação. As cotações das bolsas de valores do mundo inteiro, assim como as das moedas, o comportamento do FMI, do Banco Mundial e dos bancos privados passaram para as primeiras páginas dos jornais, para o momento “nobre” dos noticiários de rádio e televisão, alguns canais chegando mesmo a manter na tela faixas com a variação das cotações das bolsas de valores e das moedas minuto por minuto. A subida ou descida do valor do dólar, do euro e do real, o “risco Brasil”, as falas dos dirigentes do FMI, do Banco Central norte-americano, dos economistas ingleses, franceses e alemães passaram a ocupar o lugar de honra e, nos noticiários matinais, a exibição cotidiana da abertura do pregão da bolsa de valores em Wall Street assumiu a aparência de uma oração ou de uma missa, rivalizando com o que, no mesmo horário, se passava nas rádios e canais de televisão propriamente religiosos.

Ora, o neoliberalismo não é, de maneira nenhuma, a crença na racionalidade do mercado e o enxugamento do Estado, e sim a decisão de cortar o fundo público no polo de financiamento dos bens e serviços públicos (isto é, dos direitos sociais) e maximizar o uso da riqueza pública nos investimentos exigidos pelo capital. A compreensão dessa verdade veio expressar-se na decisão dos eleitores de fazer valer a reivindicação por uma nova forma de gestão do fundo público, na qual a bússola é a defesa dos direitos sociais.

4. Uma nova classe trabalhadora brasileira

Estudos, pesquisas e análises mostram que houve uma mudança profunda na composição da sociedade brasileira, graças aos programas governamentais de transferência da renda, inclusão social e erradicação da pobreza, à política econômica de garantia do emprego e elevação do salário mínimo, à recuperação de parte dos direitos sociais das classes populares (sobretudo alimentação, saúde, educação e moradia), à articulação entre esses programas e o princípio do desenvolvimento sustentável e aos primeiros passos de uma reforma agrária que permita às populações do campo não recorrer à migração forçada em direção aos centros urbanos.

De modo geral, utilizando a classificação dos institutos de pesquisa de mercado e da sociologia, costuma-se organizar a sociedade numa pirâmide seccionada em classes designadas como A, B, C, D e E, tomando como critério a renda, a propriedade de bens imóveis e móveis, a escolaridade e a ocupação ou profissão. Por esse critério, chegou-se à conclusão de que, entre 2003 e 2011, as classes D e E diminuíram consideravelmente, passando de 96,2 milhões de pessoas a 63,5 milhões; já no topo da pirâmide houve crescimento das classes A e B, que passaram de 13,3 milhões de pessoas a 22,5 milhões. A expansão verdadeiramente espetacular, contudo, ocorreu na classe C, que passou de 65,8 milhões de pessoas a 105,4 milhões. Essa expansão tem levado à afirmação de que cresceu a classe média brasileira, ou melhor, de que teria surgido uma nova classe média no país.

Sabemos, entretanto, que há outra maneira de analisar a divisão social das classes, tomando como critério a forma da propriedade. No modo de produção capitalista, a classe dominante é proprietária privada dos meios sociais de produção (capital produtivo e capital financeiro); a classe trabalhadora, excluída desses meios de produção e neles incluída como força produtiva, é proprietária da força de trabalho, vendida e comprada sob a forma de salário. Marx falava em pequena burguesia para indicar uma classe social que não se situava nos dois polos da divisão social constituinte do modo de produção capitalista. A escolha dessa designação decorria de dois motivos principais em primeiro lugar, para afastar-se da noção inglesa de middle class, que indicava exatamente a burguesia, situada entre a nobreza e a massa trabalhadora; em segundo, para indicar, por um lado, sua proximidade social e ideológica com a burguesia, e não com os trabalhadores, e, por outro, indicar que, embora não fosse proprietária privada dos meios sociais de produção, poderia ser proprietária privada de bens móveis e imóveis. Numa palavra, encontrava-se fora do núcleo central do capitalismo: não era detentora do capital e dos meios sociais de produção e não era a força de trabalho que produz capital; situava-se nas chamadas profissões liberais, na burocracia estatal (ou nos serviços públicos) e empresarial (ou na administração e gerência), na pequena propriedade fundiária e no pequeno comércio.

É a sociologia, sobretudo a de inspiração estadunidense, que introduz a noção de classe média para designar esse setor socioeconômico, empregando, como dissemos acima, os critérios de renda, escolaridade, profissão e consumo, a pirâmide das classes A, B, C, D e E, e a célebre ideia de mobilidade social para descrever a passagem de um indivíduo de uma classe para outra.

Se abandonarmos a descrição sociológica, se ficarmos com a constituição das classes sociais no modo de produção capitalista (ainda que adotemos a expressão “classe média”), se considerarmos as pesquisas que mencionamos ao iniciar este texto e os números que elas apresentam relativos à diminuição e ao aumento do contingente nas três classes sociais, poderemos chegar a algumas conclusões:

1. Os projetos e programas de transferência de renda e garantia de direitos sociais (educação, saúde, moradia, alimentação) e econômicos (aumento do salário mínimo, políticas de garantia do emprego, salário-desemprego, reforma agrária, cooperativas da economia solidária etc.) indicam que o que cresceu no Brasil foi a classe trabalhadora, cuja composição é complexa, heterogênea e não se limita aos operários industriais e agrícolas.

2. O critério dos serviços como definidor da classe média não se mantém na forma atual do capitalismo porque a ciência e as técnicas (a chamada tecnociência) se tornaram forças produtivas e os serviços por elas realizados ou delas dependentes estão diretamente articulados à acumulação e reprodução do capital. Em outras palavras, o crescimento de assalariados no setor de serviços não é crescimento da classe média, e sim de uma nova classe trabalhadora heterogênea, definida pelas diferenças de escolaridade e pelas habilidades e competências determinadas pela tecnociência. De fato, no capitalismo industrial, as ciências, ainda que algumas delas fossem financiadas pelo capital, se realizavam, em sua maioria, em pesquisas autônomas cujos resultados poderiam levar a tecnologias aplicadas pelo capital na produção econômica. Essa situação significava que cientistas e técnicos pertenciam à classe média. Hoje, porém, as ciências e as técnicas tornaram-se parte essencial das forças produtivas e por isso cientistas e técnicos passaram da classe média à classe trabalhadora como produtores de bens e serviços articulados à relação entre capital e tecnociência. Dessa maneira, renda, propriedade e escolaridade não são critérios para distinguir entre os membros da classe trabalhadora e os da classe média.

3. O critério da profissão liberal também se tornou problemático para definir a classe média, uma vez que a nova forma do capital levou à formação de empresas de saúde, advocacia, educação, comunicação, alimentação etc., de maneira que seus componentes se dividem entre proprietários privados e assalariados, e estes devem ser colocados (mesmo que vociferem contra isso) na classe trabalhadora.

4. A figura da pequena propriedade familiar também não é critério para definir a classe média porque a economia neoliberal, ao desmontar o modelo fordista, fragmentar e terceirizar o trabalho produtivo em milhares de microempresas (grande parte delas, familiares) dependentes do capital transnacional, transformou esses pequenos empresários em força produtiva que, juntamente com os prestadores individuais de serviços (seja na condição de trabalhadores precários, seja na condição de trabalhadores informais), é dirigida e dominada pelos oligopólios multinacionais, em suma, os transformou numa parte da nova classe trabalhadora mundial.

Restaram, portanto, as burocracias estatal e empresarial, o serviço público, a pequena propriedade fundiária e o pequeno comércio não filiado às grandes redes de oligopólios transnacionais como espaços para alocar a classe média. No Brasil, esta se beneficiou com as políticas econômicas dos últimos dez anos, também cresceu e prosperou.

Assim, se retornarmos ao exemplo do viajante brasileiro na Europa dos anos 1950 e 1960, diremos que a nova classe trabalhadora brasileira começa, finalmente, a ter acesso aos direitos sociais e a se tornar participante ativa do consumo de massa. Como a tradição autoritária da sociedade brasileira não pode admitir a existência de uma classe trabalhadora que não seja constituída pelos miseráveis deserdados da terra, os pobres desnutridos, analfabetos e incompetentes, imediatamente passou-se a afirmar que surgiu uma nova classe média, pois isso é menos perigoso para a ordem estabelecida do que uma classe trabalhadora protagonista social e política.

Ao mesmo tempo, entretanto, quando dizemos que se trata de uma nova classe trabalhadora consideramos que a novidade não se encontra apenas nos efeitos das políticas sociais e econômicas, mas também nos dois elementos trazidos pelo neoliberalismo, quais sejam, de um lado, a fragmentação, terceirização e precarização do trabalho e, de outro, a incorporação à classe trabalhadora de segmentos sociais que, nas formas anteriores do capitalismo, teriam pertencido à classe média. Dessa nova classe trabalhadora pouco se sabe até o momento.

5. Classe média: como desatar o nó?

Uma classe social não é um dado fixo, definido apenas pelas determinações econômicas, mas um sujeito social, político, moral e cultural que age, se constitui, interpreta a si mesmo e se transforma por meio da luta de classes. Ela é uma práxis, ou como escreveu E. P. Thompson, um fazer-se histórico. Ora, se é nisso que reside a possibilidade transformadora da classe trabalhadora, é nisso também que reside a possibilidade de ocultamento de seu ser e o risco de sua absorção ideológica pela classe dominante, sendo

O primeiro sinal desse risco justamente a difusão de que há uma nova classe média no Brasil. E é também por isso que a classe média coloca uma questão política de enorme relevância.

Estando fora do núcleo econômico definidor do capitalismo, a classe média encontra-se também fora do núcleo do poder político: ela não detém o poder do Estado nem o poder social da classe trabalhadora organizada. Isso a coloca numa posição que a define menos por sua posição econômica e muito mais por seu lugar ideológico, e este tende a ser contraditório.

Por sua posição no sistema social, a classe média tende a ser fragmentada, raramente encontrando um interesse comum que a unifique. Todavia, certos setores, como é o caso dos estudantes, dos funcionários públicos, dos intelectuais e de lideranças religiosas, tendem a se organizar e a se opor à classe dominante em nome da justiça social, colocando-se na defesa dos interesses e direitos dos excluídos, dos espoliados, dos oprimidos; numa palavra, tendem para a esquerda e, via de regra, para a extrema esquerda e o voluntarismo. No entanto, essa configuração é contrabalançada por outra exatamente oposta. Fragmentada, perpassada pelo individualismo competitivo, desprovida de um referencial social e econômico sólido e claro, a classe média tende a alimentar o imaginário da ordem e da segurança porque, em decorrência de sua fragmentação e de sua instabilidade, seu imaginário é povoado por um sonho e por um pesadelo: seu sonho é tornar-se parte da classe dominante; seu pesadelo é tornar-se proletária. Para que o sonho se realize e o pesadelo não se concretize, é preciso ordem e segurança. Isso torna a classe média ideologicamente conservadora e reacionária, e seu papel social e político é o de assegurar a hegemonia ideológica da classe dominante, fazendo com que essa ideologia, por intermédio da escola, da religião, dos meios de comunicação, se naturalize e se espalhe pelo todo da sociedade. é sob essa perspectiva que se pode dizer que a classe média é a formadora da opinião social e política conservadora e reacionária.

Cabe ainda particularizar a classe média brasileira, que, além dos traços anteriores, é também determinada pela estrutura autoritária da sociedade brasileira. De fato, conservando as marcas da sociedade colonial escravista, a sociedade brasileira é marcada pelo predomínio do espaço privado sobre o público e, tendo o centro na hierarquia familiar, é fortemente hierarquizada em todos os seus aspectos: nela, as relações sociais e intersubjetivas são sempre realizadas como relação entre um superior, que manda, e um inferior, que obedece. As diferenças e assimetrias são sempre transformadas em desigualdades que reforçam a relação mando-obediência, e as desigualdades são naturalizadas. As relações entre os que se julgam iguais são de “parentesco”, isto é, de cumplicidade; e, entre aqueles que são vistos como desiguais, o relacionamento toma a forma do favor, da clientela, da tutela ou da cooptação, e, quando a desigualdade é muito marcada, assume a forma da opressão. A divisão social das classes é sobredeterminada pela polarização entre a carência (das classes populares) e o privilégio (da classe dominante), que é acentuada e reforçada pela adoção da economia neoliberal. Visto que uma carência é sempre particular, ela se distingue do interesse, que pode ser comum, e do direito, que é sempre universal. Visto que o privilégio é sempre particular, não pode unificar-se num interesse comum e jamais pode transformar-se num direito, pois, nesse caso, deixaria de ser privilégio. Compreende-se, portanto, a dificuldade para instituir no Brasil a democracia, que se define pela criação de novos direitos pela sociedade e sua garantia pelo Estado.

Parte constitutiva da sociedade brasileira, a classe média não só incorpora e propaga ideologicamente as formas autoritárias das relações sociais, como também incorpora e propaga a naturalização e valorização positiva da fragmentação e dispersão socioeconômica, trazidas pela economia neoliberal e defendidas ideologicamente pelo estímulo ao individualismo competitivo agressivo e ao sucesso a qualquer preço pela astúcia para operar com os procedimentos do mercado.

Ora, por mais que, no Brasil, as políticas econômicas e sociais tenham avançado em direção à democracia, as condições impostas pela economia neoliberal determinaram, como vimos, a difusão por toda a sociedade da ideologia da competência e da racionalidade do mercado como competição e promessa de sucesso. Uma vez que a nova classe trabalhadora brasileira se constituiu no interior desse momento do capitalismo, marcado pela fragmentação e dispersão do trabalho produtivo, de terceirização, precariedade e informalidade do trabalho, percebido como prestação de serviço de indivíduos independentes que se relacionam com outros indivíduos independentes na esfera do mercado de bens e serviços, ela se torna propensa a aderir ao individualismo competitivo e agressivo difundido pela classe média. Em outras palavras, o ser do social permanece oculto e por isso ela tende a aderir ao modo de aparecer do social como conjunto heterogêneo de indivíduos e interesses particulares em competição. E ela própria tende a acreditar que faz parte de uma nova classe média brasileira.

Essa crença é reforçada por sua entrada no consumo de massa.

De fato, do ponto de vista simbólico, a classe média substitui a falta de poder econômico e de poder político, que a definem, seja pela guinada ao voluntarismo de esquerda, seja voltando-se para a direita pela busca do prestígio e dos signos de prestígio, como os diplomas e os títulos vindos das profissões liberais, e pelo consumo de serviços e objetos indicadores de autoridade, riqueza, abundância, ascensão social – a casa no “bairro nobre” com quatro suítes, o carro importado, a roupa de marca etc. Em outras palavras, o consumo lhe aparece como ascensão social em direção à classe dominante e como distância intransponível entre ela e a classe trabalhadora. Esta, por sua vez, ao ter acesso ao consumo de massa tende a tomar esse imaginário por realidade e a aderir a ele.

Se, pelas condições atuais de sua formação, a nova classe trabalhadora brasileira está cercada por todos os lados pelos valores e símbolos neoliberais difundidos pela classe média, como desatar esse nó?

6. Para finalizar

Se a política democrática corresponde a uma sociedade democrática e se no Brasil a sociedade é autoritária, hierárquica, vertical, oligárquica, polarizada entre a carência e o privilégio, só será possível dar continuidade a uma política democrática enfrentando essa estrutura social. A ideia de inclusão social não é suficiente para derrubar essa polarização. Esta só pode ser enfrentada se o privilégio for enfrentado e este só será enfrentado por meio de quatro grandes ações políticas: uma reforma tributária que opere sobre a vergonhosa concentração da renda e faça o Estado passar da política de transferência de renda para a da distribuição e redistribuição da renda; uma reforma política, que dê uma dimensão republicana às instituições públicas; uma reforma social, que consolide o Estado do bem-estar social como política do Estado e não apenas como programa de governo; e uma política de cidadania cultural capaz de desmontar o imaginário autoritário, quebrando o monopólio da classe dominante sobre a esfera dos bens simbólicos e sua difusão e conservação por meio da classe média.

Mas a ação do Estado só pode ir até esse ponto. A continuidade da construção de uma sociedade democrática só pode ser a práxis da classe trabalhadora e por isso é fundamental que ela própria, como já o fez tantas outras vezes na história e tão claramente no Brasil, nos anos 1980 e 1990, encontre, em meio às adversidades impostas pelo modo de produção capitalista, caminhos novos de organização, crie suas formas de luta e de expressão autônoma, seja o sujeito de seu fazer.

Crônicas paulistanas

Era a manhã de uma quinta-feira, no “bairro nobre” de Higienópolis, em São Paulo. Pelas ruas, uma passeata, alguns folhetos e cartazes: os moradores de classe média “alta” do bairro puseram-se em movimento para impedir a construção de uma estação de metrô em sua vizinhança, alegando que a presença cotidiana de trabalhadores em trânsito traria violência, perigo, sujeira e crime, ameaçando a ordem e a segurança da região.

Era um sábado à noite. Nos aeroportos de Congonhas e Guarulhos, centenas de passageiros enfrentavam uma situação caótica: voos atrasados, alguns cancelados, outros transferidos de um setor para outro dos aeroportos, sem aviso prévio. Muita confusão. Uma parcela dos passageiros, com valises estampando griffes famosas para marcar sua posição de “alta” classe média, manifestou coletivamente seu profundo desagrado e, aqui e acolá, ouvia-se o mesmo refrão: “é isto o presente de grego deste governo. Entupiu os aeroportos com a gentalha que deveria estar nas estações rodoviárias, onde é o seu lugar!”.

Era um domingo à tarde. Precisei ir ao banco para fazer uma retirada de dinheiro

Para as despesas da semana. Meu genro me deu uma carona, mas ao chegar à agência bancária não lhe foi possível estacionar porque as três entradas para carros estavam obstruídas por um enorme automóvel prateado, cujos vidros escuros impediam-nos de saber se havia alguém ali. Desci no meio da rua e ao me dirigir ao banco voltei-me para o veículo prateado e indaguei em voz bem alta, pois não sabia se, além de escuros, impedindo a visão, os vidros também seriam blindados, impedindo a entrada de algum som:

– Há alguém aí? Vocês vão ao banco? Estão impedindo o estacionamento de outros carros!

Nenhuma resposta.

Entrei na agência bancária e ia começar uma operação quando uma moça, toda faceira, vestida, calçada e maquiada com todas as marcas grã-finas, se aproximou e gritou:

– Não tem educação, não? Vai gritando assim pela rua? Retruquei:

– Você ocupou todo o espaço disponível para o estacionamento dos carros e eu não sabia sequer se havia alguém no seu carro.

Nesse exato momento, entrou um homem (não tão moço quanto ela, mas também coberto de griffes da alta moda) e gritou:

– Você pensa que eu vou estacionar o meu Mercedes em qualquer lugar? Foi a conta. Do fundo das minhas entranhas veio o brado:

– Você é o típico representante da classe média paulistana! Fascista! Você é uma abominação política!

Por alguns segundos ele ficou sem ação, mas a moça não teve dúvidas: me bateu. Voltei-me para ela:

– Você vai passar da violência verbal para a violência física? Você é uma abominação ética!

Os dois se entreolharam perplexos e ele retomou a iniciativa:

– Você é uma velha feia!

Foi a sopa no mel. Repliquei:

– A minha idade é um fato da natureza, é um dado objetivo. Você não pode transformar um dado da natureza num xingamento. Você é uma abominação cognitiva!

Os dois ficaram imóveis por um momento e partiram sem dizer mais nada.

Na verdade, foram derrotados naquilo em que, certamente, são sempre vitoriosos: seu intento, típico de classe média, de fazer valer o “sabe com quem está falando?”. De fato, suas falas procuraram automática e imediatamente estabelecer uma relação de hierarquia, em que eles eram a parte superior e eu, a parte inferior do pedaço: não tenho educação, não sei o valor de um Mercedes, devo mesmo apanhar e sou uma velha feia diante de dois jovens (ele, nem tanto) elegantes e bonitos. O intento era me inferiorizar e me humilhar, isto é, me pôr no meu lugar. Afinal, o que é que estou pensando que sou?