sábado, 14 de dezembro de 2013

Ai, ai, ai, Romeu Jr. — CartaCapital

Ai, ai, ai, Romeu Jr. — CartaCapital

Ai, ai, ai, Romeu Jr.

Ao longo de dois anos, o ex-secretário nacional do Ministério da Justiça agiu como entrevistado–duplo
por Mino Carta publicado 13/12/2013 05:40, última modificação 13/12/2013 11:14

Instado a se demitir de secretário nacional do Ministério da Justiça, Romeu Tuma Jr. resistiu de início, mesmo porque o próprio presidente da República recomendara: “Por ora, aguenta”. A mídia nativa trombeteava as relações do secretário, desde seus tempos de delegado, com um cidadão chinês acusado de contrabando. A artilharia não arrefeceu, pelo contrário. Depois de algum tempo, o alvejado capitulou.
Romeu Jr. caiu em depressão profunda, via na sua saída do governo o golpe fatal que apressara a morte do pai, o senador. E enxergava mais, além e acima do chinês: uma clara ligação entre o bloqueio dos bens de Daniel Dantas no exterior, por ele determinado, a Operação Satiagraha e o Caso Battisti. Elo do entrecho, um petista eminente, Luiz Eduardo Greenhalgh, advogado do banqueiro e do terrorista assassino.
Romeu Jr. repetia a intenção de botar as suas razões por escrito e Paulo Henrique Amorim e eu sugerimos um livro-entrevista. Ele gostou da ideia e outro jornalista aderiu à operação, Sergio Lirio, redator-chefe de CartaCapital, enquanto Paulo Henrique limitava-se a formular algumas perguntas sobre as atividades dantescas. Dias e dias de entrevista conduzida por Sergio e eu seguiram-se ao longo de um larguíssimo período. Na véspera do ponto final, entre perplexos e espantados, somos surpreendidos pelas declarações do nosso entrevistado à revista Veja, a mesma que a bem de sua demissão o perseguiu com empenho feroz. E pelo anúncio da publicação do livro, Assassinato de Reputações – Um crime de Estado, resultado de dois anos de entrevistas ao jornalista Claudio Tognolli.
Diz o entrevistador a Veja: “É um livro baseado apenas em fatos”. A julgar pelos textos estampados na revista da Editora Abril, os fatos sofreram modificações em relação aos propósitos manifestados há dois anos por um deprimidíssimo Romeu Jr. Tome-se Daniel Dantas, aquele que forneceu a Veja um dossiê para denunciar contas em Cayman de personagens graudíssimos, a começar pelo presidente Lula, e sem omitir o próprio senador Tuma. Pois de vilão parece tornar-se vítima, metamorfose que talvez agrade a Tognolli. Gilmar Mendes? Sim, sim, ele foi grampeado, embora já tenha sido fartamente provado que a Abin, então comandada pelo delegado Paulo Lacerda, grande e leal amigo dos Tuma, não tinha condições de grampear quem quer que seja. E por aí afora, alterações de rota, esquecimentos abissais, acréscimos que seria impossível endossar.
No depoimento a Veja, Lula vira informante do Dops. A respeito sei apenas que Tuma pai e o líder sindical Luiz Inácio da Silva foram bons amigos e que o futuro senador foi suave carcereiro do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, preso no Dops em meio à greve de 1980. A história é bem conhecida. Outra, relacionada com aquele tempo de detenção, menos conhecida, diz respeito às visitas ao preso de uns senhores engravatados, que se diziam enviados pelo “cacique”. Não se pareciam com inquisidores, eram afáveis ao formularem perguntas sobre as ideias de Lula e sua fé política.
Logo que saiu da prisão, Lula me falou dos misteriosos visitadores e então, anos a fio, perguntei a Romeu pai quem seriam os enviados do “cacique”. Respondia ignorar. Uns anos atrás voltei à carga, ele revelou: “Era o Golbery”. Golbery do Couto e Silva, chefe da Casa Civil de Castello Branco, Geisel e, por pouco mais de dois anos, de Figueiredo. Estava interessado em entender os rumos de um sindicalista tão diferente dos tradicionais pelegos. De caso pensado, não confiava às cegas nos meus textos a favor, preferia o relatório dos seus amáveis pesquisadores. E de Tuma pai, é imaginável.
Na noite do velório do senador, um dos irmãos de Romeu Jr., Rogério, notável neurologista e colaborador de CartaCapital, declarou em entrevista gravada: “Meu pai protegeu Lula porque os agentes da ditadura pretendiam matá-lo”. Vale a pena matar um informante do Dops? O que pergunto aos meus estupefatos botões é qual teria sido o motivo de Romeu Jr. ao recorrer a Veja e a Tognolli. Aventam pacatamente a hipótese de que optou por quem se disporia a compactuar com incontroláveis saraivadas, frequentemente desferidas sem prova. Mais espanta, de todo modo, é que Romeu Jr. tenha funcionado como entrevistado duplo. Pelo menos ao se encararem os fatos do lado de cá.
Consta que, na página dos agradecimentos que introduz o livro, Romeu Jr. agradece “em particular a Mino Carta, por emprestar sua amizade, companhia e valiosíssimas tardes de inúmeras segundas-feiras neste projeto”. Sem deixar de sublinhar que amizade não se empresta, dá-se íntegra e leal, apresso-me a dispensar este obrigado. O livro-entrevista que eu imaginava nada tem a ver com tudo aquilo prometido pela incrível entrevista a Veja. Quanto ao livro que vem aí, não o lerei.


Dirceu: um mês preso; Jefferson: um mês solto | Brasil 24/7

Dirceu: um mês preso; Jefferson: um mês solto | Brasil 24/7
247 – De capacete preto e bigodinho, Roberto Jefferson parou por instantes sua moto em frente ao seu sítio Jardim Ana Lúcia, na aprazível Levi Gasparian, interior do Rio de Janeiro próximo à divisa de Minas Gerais, e concedeu à tevê uma de suas muitas entrevistas dos últimos dias.
Tranquilo e, vez e outra, com a camisa do Botafogo, bem à vontade, Jefferson completa neste sábado 14 um mês de liberdade desde que, na mesma ação penal em que foi condenado a 7 anos e 14 dias em regime semiaberto, seu colega José Dirceu foi encarcerado em regime fechado, indo parar no Complexo da Papuda, na calorenta Brasília. Ali, o ex-presidente do PT é mais um preso comum, com água fria no chuveiro, banho de sol restrito e isolado do mundo exterior.
O ministro Marco Aurélio Mello explicou, questionado sobre a disparidade no tratamento dado à Justiça, por meio da caneta do presidente do STF, Joaquim Barbosa, aos dois condenados, que as penas são distribuídas "homeopaticamente". Feita sob medida para o bem estar de Jefferson até aqui e o mau estar de Dirceu desde o primeiro autógrafo nos decretos de prisão, a homeopatia de Barbosa gera efeitos diretos e colaterais.
Consolidam-se as interpretações de que estão sendo usados pelo menos dois pesos e duas medidas para punir os condenados e seu delator. O benefício evidente é todo de Jefferson.
De seu sítio, ele vem narrando todos os passos de sua defesa, mas não apenas. Chegou a recomendar aos juízes do Supremo o voto contrário à Adin da OAB que visa acabar com o financiamento de campanhas eleitorais com o dinheiro de empresas e doadores privados. Antes, alegou que não poderia cumprir pena no presídio da Papuda porque não pertenceria ao mesmo meio dos outros presos. "O ambiente seria muito hostil para mim", ironizou.
Em seus desafios nada sutis ao cumprimento da Justiça, ou alegrando-se com a falta do decreto contra si próprio, Jefferson, é certo, quer prosseguir nessa situação. Primeiro ele alegou fragilidade de saúde, mas uma junta médica garantiu que o ex-presidente do PTB não enfrenta problemas graves. Agora, seus advogados registram oficialmente que o condenado não pode cumprir pena em prisão – mas apenas em casa – em razão de sua dieta alimentar: Salmão defumado, geleia real, suco batido com água de coco, leite com baixa lactose.
Joaquim Barbosa deverá decidir se Jefferson tem direito ao que pede, isto é, ficar em casa para manter sua alimentação saudável. É bem capaz que Barbosa queira começar a melhorar a qualidade do regime domilicar exatamente pelo caso exemplar de Roberto Jefferson, premiando-o pela iniciativa. Façam suas apostas

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Colapso americano é colapso keynesiano - | Observatório da Imprensa | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito

Colapso americano é colapso keynesiano - | Observatório da Imprensa | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito

ISTOÉ Independente - Privilegiados e perseguidos

ISTOÉ Independente - Privilegiados e perseguidos

Paulo Moreira Leite
Diretor da Sucursal da ISTOÉ em Brasília, é autor de "A Outra História do Mensalão". Foi correspondente em Paris e Washington e ocupou postos de direção na VEJA e na Época. Também escreveu "A Mulher que Era o General da Casa".

Privilegiados e perseguidos

No país da novilíngua, direito assegurado em lei é tratado como privilégio

 
Há muito tempo nós sabemos que o uso de palavras inadequadas é uma das formas menos inocentes e mais eficazes de manipulação política.

Permite esconder a realidade, confundir o cidadão comum e estimular reações que não têm apoio nos fatos.  

Estudioso aplicado dos regimes stalinistas, a quem acusava de manipular uma ideologia igualitária criada pelo pensamento comunista para construir uma  ditadura opressiva, George Orwell criou o termo novilíngua para explicar o fenômeno.
Com isso, explicava, era possível fazer uma coisa – e fingir que se praticava seu oposto.  
Cinco décadas depois da morte de Josef Stalin, velhas técnicas stalinistas de propaganda foram despidas de sua origem primeira e servem a qualquer causa, a qualquer ideologia, mesmo a mais conservadora: esconder  fatos desagradáveis, falhas humanas, gestos incoerentes, contradições e mesmo mentiras.
 É tudo retórica. Seu método, no entanto, é o mesmo. Consiste em usar uma questão real para deformá-la ao sabor de propósitos  e conveniências de momento.  
 No Brasil de 2013 a novilíngua está na primeira página dos jornais.
Empregar o termo “privilegiados” para se referir aos condenados na ação penal 470 e usar a expressão “privilégios” para se referir às condições no presídio da Papuda é prestar um favor desnecessário às autoridades comandadas por Joaquim Barbosa.

Um exame criterioso dos fatos mostra que, pelo contrário, desde o início o STF tomou  um conjunto de medidas jurídicas que é adequado classificar como perseguição em vez de prestação de favor ou benefício indevido.

Já era absurdo falar em privilégio para cidadãos condenados num julgamento “exemplar” onde foram aceitas várias medidas excepcionais e nada exemplares. Para quem ainda fica surpreso quando lê isso, vamos recordar rapidamente. Quem já está cansado de ouvir os argumentos, pode pular para o final do ítem “F”.  
 A) Negou-se o direito a um duplo grau de jurisdição, garantia constitucional reservada a todo brasileiro que não tem foro privilegiado e assegurado aos mensaleiros PSDB-MG  e também no DEM do Distrito Federal.
 B) Na falta de provas capazes de demonstrar a culpa dos réus além de qualquer dúvida razoável, aceitou-se uma teoria exótica, do domínio do fato, que não tem a mais remota ligação com o caso em questão.
 C) As penas foram agravadas artificialmente, em debates onde se disse, explicitamente, que a prioridade era garantir que os réus fossem encarcerados – e não que a justiça deveria ser feita.
 D) Os réus foram acusados de desviar R$ 73,8 milhões do Banco do Brasil mas a própria instituição nega, oito anos depois da denúncia, que qualquer centavo tenha sido extraído indevidamente de seus cofres.
 E) Os petistas foram acusados de encobrir o esquema através de contratos fictícios com o Banco Rural mas a Polícia Federal garante que foram verdadeiros e envolviam empréstimos reais.  
 F) investigações que poderiam ajudar na inocência de determinados réus até hoje se encontram sob segredo de justiça. O julgamento já acabou e o segredo continua.
 Também é errado falar em privilégio na fase de execução das penas. Presos num feriado de 15 de novembro, até hoje réus com direito a cumprir pena em regime semiaberto são mantidos em regime fechado – a última novidade é avisar que mesmo quem tiver conseguido trabalho fora da prisão deverá, em nome da” igualdade,” aguardar no fim da fila pelo exame de seus pedidos. Sabemos o que isso significa, certo? Também sabemos que o fatiamento dos mandatos de prisão foi anunciado como uma medida que iria beneficiar os réus. Na prática, o que se vê é uma forma de garantir que fiquem em regime fechado – de qualquer maneira.
 Os presos foram deslocados para a Papuda em dia de feriado nacional, num esforço obvio para usar seu infortúnio – a perda de liberdade é sempre um infortúnio para cidadãos convencidos de seu valor,  certo? -- como ilustração para um evento de propaganda.
 Um preso como José Genoíno está proibido de dar entrevistas, o  que   atenta contra a liberdade de expressão.
 Que privilégios são estes?  
 Na realidade, o que se quer é negar o direito de uma pessoa pelo fato de que nem sempre ele se encontra ao alcance de todos.
 Equivale a obrigar um cidadão a pagar,  como indivíduo, pelas irresponsabilidades e omissões acumuladas por gerações e gerações que estiveram a frente do Estado.
 Qualquer calouro de ciência política sabe que, num país onde a distribuição de renda e a desigualdade seguem uma tragédia, a luta pela igualdade é necessária e positiva.
 Mas, na situação atual, basta que os meios de comunicação, que definem o que é a opinião publicada, que muitos confundem com a opinião pública, tenham disposição de dar crédito a novilíngua quando ela convém. Pela falta de um componente indispensável a seu trabalho, o espírito críticos, eles  referendam a manipulação do “privilégio” e do “privilegiado.”
 Na ficção de Orwell, a função do ministério da Verdade era divulgar mentiras, não é mesmo?
 Só quem nunca abriu um gibi de sociologia acredita que a vida real é um simples decalque das planilhas de renda do IBGE.
 A experiência demonstra que uma pessoa pode ser privilegiada, do ponto de vista econômico e social, mas perseguida – até com violência -- do ponto de vista político.  
 Milionário, o empresário Rubens Paiva foi preso, torturado e massacrado num ritual animalesco sob o regime militar.
 Mortos com um tiro na nunca, na guerrilha do Araguaia, quando estavam desarmados e dominados, dezenas de militantes do PC do B haviam saído de famílias de classe média, tinham diplomas universitários e seriam, em comparação aos demais brasileiros, cidadãos privilegiados.
 E até hoje o Estado brasileiro não foi capaz de dar qualquer notícia sobre o paradeiro de Rubens Paiva nem desses estudantes do Araguaia,  situação que transforma a dor de seus familiares num sofrimento idêntico ao dos parentes de Amarildo, o humilde pedreiro torturado e morto pela PM numa favela do Rio de Janeiro em 2013.
 Nenhum torturador de Rubens Paiva foi preso, nem julgado nem condenado. Idem para os estudantes do PC do B. Idem, possivelmente, para os carrascos de Amarildo.

Centenas de milhares de brasileiros são vítimas, todos os dias, da incompetência da policia para prender e controlar a violência de criminosos comuns. Milhões de mandados de prisão destinados a prender ladrões de automóvel, assaltantes de resistência, quadrilhas de sequestradores, não são cumpridos.
Vítimas de assalto e de roubo muitas vezes sequer se animam a fazer qualquer denúncia porque tem certeza de que será inútil – ou mesmo arriscado, caso tenham de identificar suspeitos.
 Estrutura de classe? Privilégio?
 Do playboy Doca Street ao doutor Osmany Ramos, sem falar em vários casos de médicos-monstro de nossos consultórios, e até banqueiros especialmente inescrupulosos, o inferno de nosso sistema prisional possui exemplos de habitantes dos degraus superiores que foram colocados atrás das grades.  Embora a impunidade seja grande, vez por outra até figurões do judiciário são apanhados e denunciados.
 O discurso contra o privilégio dos prisioneiros da ação penal 470 também alimenta  uma operação de marketing político. É uma arma eleitoral, na realidade.
Procura associar a condição de riqueza e privilégio econômico a lideranças de um governo que tem um histórico reconhecido de combate a desigualdade na renda e na ampliação das oportunidades para os mais pobres. A tentativa é mostrar que todos os governos são iguais e que nenhum político tem valor.
 É aquilo que os estudiosos chamam de desconstrução.
 E assim voltamos ao período em que nasceu a novilíngua. Foi o tempo dos Grandes Expurgos, quando, através da violência e da ditadura, Josef Stalin eliminou uma geração inteira de combatentes e lideranças  da vida política da antiga União Soviética e consolidou um poder absoluto que manteve até a morte, quase vinte anos depois. 

“Morte aos cães!” gritava o procurador geral, Andrey Vichinsky. Aos condenados, punidos com a pena de morte, exigia-se que aceitassem suas penas, admitissem suas falhas, confessassem erros e, em especial, traições. Sim, esta palavra, traição, era essencial. O importante, de qualquer modo, era que morressem depois de confessar.  Não podia haver ilusão quanto a seu destino na história. Estavam condenados e precisavam admitir sua culpa, sua falha, sua fraqueza.

É assim que, 80 anos depois, em outro país, em outro contexto, sob outro regime, se fala em privilégios e privilegiados. É uma parte importante dos combatentes da ditadura, onde se encontram, e eu duvido que seja pura coincidência, os mais decididos, mais resolutos, mais corajosos, aqueles que mais estiveram comprometidos com mudanças reais e com a construção de uma democracia de conteúdo social, aliada dos mais pobres, dos excluídos, dos negros, que devem ser silenciados.

Um quarto de século depois da democratização do país, os brasileiros convivem, pela primeira vez, com um sistema plítico onde a polarização política reflete, menos remotamente do que gostariam nossos sociólogos da aristocracia, uma certa divisão de interesses de classe na sociedade. Não vamos criar fantasias nem caricaturas. Todos sabemos dos limites e falhas inesquecíveis do governo Lula-Dilma desde 2003.
Mas eu acho difícil negar que, apesar disso, os brasileiros  vivem uma situação nova na sociedade, onde as camadas inferiores obtiveram  direitos e conquistas.
 Deixo para os historiadores e os eruditos verdadeiros e independentes, que não estão na folha de pagamentos da novilingua industrial, nem usam uma bola de cristal de uma cigana sobrancelhuda que só faz profecias para anunciar desastres, a tarefa de encontrar um outro governo, em nossa história, que tenha demonstrado um empenho tão profundo com a preservação do emprego, a melhoria do consumo e a distribuição de renda. Num período de capitalismo de abismo, este é o grande diferencial, a primeira fronteira, o ponto de partida, a luta inicial. É a resistência, num universo onde economistas do Estado mínimo dizem que comer bife todo dia é extravagância.  
 É por causa disso que palavras fora do lugar, como “privilégio” e “privilegiados” têm tanta importância. É ali que está o alvo a ser atingido pela novilíngua.
Não são os prisioneiros, alguns competentes, outros trapalhões, outros as duas coisas. Talvez até haja corruptos entre eles, vamos admitir, até porque sabemos que podemos encontrar essas pessoas em todos os cantos de nosso universo político, em casos até mais cínicos e escancarados. Mas nós sabemos que, sem provas, isso é igual a nada.
 O que se quer, muito simplesmente, é impedir o debate sereno de fatos e provas que podem mostrar o que houve – e não aquilo que se quer fazer acreditar que aconteceu no julgamento da AP 470.

 


 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

O Brasil invisível à elite branca

O Brasil invisível à elite branca

O Brasil invisível à elite branca

 

Em uma viagem pelo interior mais pobrezinho do Nordeste, este jornalista deu com uma cena que então parecia meio exótica. Crianças alimentadas, numa barulheira alegre, lotavam um ônibus escolar amarelo como aqueles de filme americano, mas estalando de novo.
De onde saíra aquilo? Na lataria, estava escrito: "Programa Caminho da Escola - Governo Federal". O jornalista confessa com vergonha que até este ano jamais ouvira falar do "Caminho da Escola". Além do mais, tende a desconfiar de que alguns desses programas com nomes marqueteiros sejam ficções, que existam apenas naquelas cerimônias cafonas de anúncios oficiais.
O "Caminho da Escola", porém, financiou quase 26 mil ônibus desde 2009, em mais de 4.700 cidades. Digamos que os ônibus carreguem 40 crianças cada um (deve ser mais). Dá mais de 1 milhão de crianças. Conhecendo a falta de dinheiro e as distâncias das escolas nos fundões do país, isso faz uma diferença enorme.
Daqui do centro rico de São Paulo, o Brasil, esse país longínquo, e muitas ações do governo parecem invisíveis. Quase ninguém "daqui" dá muita bola para programas populares dos governos do PT até que o povo miúdo apareça satisfeito em pesquisas eleitorais.
Juntos, tais programas afetam a vida de dezenas de milhões de pessoas, tanto faz a qualidade dessas políticas, umas melhores, outras nem tanto, embora nenhuma delas seja nem de longe tão ruim quanto a política econômica.
Quem "daqui" conhece o Programa Crescer (Programa Nacional de Microcrédito)? Existia desde 2005, foi reformado por Dilma Rousseff em 2011, quando passou a contar com crédito direcionado e juro baixo, ora negativo (5%, abaixo da inflação).
O Crescer já financiou o negociozinho de 3,5 milhões de pessoas, um terço delas recipientes de Bolsa Família. Tem uma versão rural, mais antiga, mas vitaminada nos governos do PT, o Pronaf, que ofereceu crédito a juro real ainda mais baixo a 2,2 milhões de agricultores pequenos na safra 2012/13.
O Pronatec já é mais falado, mas pouco conhecido (até mesmo pelo governo, que só agora começou a fazer uma avaliação de resultados). Irmão mais novo e em geral grátis do universitário Prouni, trata-se de um conjunto variadíssimo de ações que procura oferecer cursos profissionalizantes e técnicos (ensino médio).
Desde sua criação, foram mais de 5 milhões de matrículas (há evidências esparsas de grande evasão, de uns 20%, mas ainda falta estatística séria). A maioria das vagas é reservada para os mais deserdados dos brasileiros.
Reportagem desta Folha mostrou que os 13 mil médicos do Mais Médicos devem estar ao alcance de cerca de 46 milhões de pessoas no ano que vem. Não é uma política ampla de saúde, está claro. Mas, outra vez, vai resolver muito problema de muita gente deserdada desta terra.
O Minha Casa, Minha Vida já entregou 1,32 milhão de casas; tem mais 1,6 milhão contratadas. Beneficia 4,6 milhões de pessoas.
Junte-se a isso tudo as já manjadas transferências sociais, em dinheiro, crescentes em valor e cobertura. É muita gente "de lá" beneficiada. Goste-se ou não do conjunto da obra, o efeito social e político é enorme.
A gente "daqui" precisa visitar mais o Brasil.
Vinicius Torres Freire está na Folha desde 1991. Foi secretário de Redação, editor de 'Dinheiro', 'Opinião', 'Ciência', 'Educação' e correspondente em Paris. Em sua coluna, aborda temas políticos e econômicos. Escreve de terça a sexta e aos domingos

Livros bombas, notícias traques

SQN

Livros bombas, notícias traques

Leandro Fortes 

Dos muitos tipos de ração oferecidos pela direita nacional a seus súditos hidrófobos, a mais comum é essa baseada na deturpação histórica de fatos, de modo a criar um ambiente, ainda que artificial, de satisfação ideológica.
A hipótese de que Lula foi informante do DOPS, durante a ditadura militar, é esdrúxula por si, mas não se trata de um movimento original. Longe disso.
Em 2009, um colunista da Folha de S.Paulo, César Benjamim, acusou Lula de ter estuprado um menino do Movimento de Emancipação do Proletariado (MEP), enquanto esteve preso, no início da década de 1980.
Benjamin é um ressentido clássico. Participou da luta armada durante a ditadura militar, ajudou a fundar o PT e, na meia idade, foi vítima de um surto conservador não muito raro entre oportunistas.
Deu-se, então, ao desfrute da calúnia pura e simples em troca do beneplácito da mídia e da direita que sempre o odiou. Não ganhou uma coisa nem outra. Apenas se tornou, primeiro, patético, para, logo depois, ser esquecido.
Em 2010, não satisfeita com o vexame de Benjamin, a Folha fez publicar, na primeira página, uma ficha do DOPS falsa da então candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff. A ideia (na verdade, pretensão) era a de colar em Dilma a pecha de guerrilheira e fria assassina, um bicho-papão da classe média ressuscitado da Guerra Fria. Era contra Dilma, mas o alvo era Lula.
O alvo sempre foi – e sempre será – Lula.
Agora, nos vem outro peralta ressentido, o delegado Romeu Tuma Jr., com outro menino do MEP na manga. Desta vez, Lula é acusado de ter sido informante do DOPS. Provas? A possibilidade de haver um informe interno, reservado e sigiloso, com as inconfidências de um certo “Barba”. Isso em uma época em que possivelmente todos os informantes, inclusive os que adiantavam os números do bicho para a polícia, usavam barba.
Tuminha foi demitido do Ministério da Justiça quando lá ocupava o cargo de Secretário Nacional de Justiça, em 2010. Foi flagrado pela Polícia Federal trocando telefonemas com Li Kwong Kwen, o Paulo Li, chefe da máfia chinesa trazia celulares falsificados procedentes da China para o Brasil. A quadrilha também intermediava vistos de permanência no Brasil para imigrantes chineses em situação irregular, uma área sob responsabilidade de Tuma Jr.
Esperou o momento certo para se vingar com este livro de revelações tão bombásticas quanto vazias. Veio, claro, pela Veja, o esgoto certo para essas coisas.
Leia aqui o que a Veja achava dele, Tuminha, em 2010:
Então, se ainda hoje um intrépido repórter do Jornal Nacional aparecer com um exclusivíssimo documento do DOPS com notícias de um informante chamado “Barba”, por favor, não me acordem.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Ateus religiosos


Ateus religiosos, saiam do armário!

A ideia fundamental de Ronald Dworkin é que a religiosidade é um fenômeno mais profundo do que o teísmo.
Filosofia
"Religion without God", de Ronald Dworkin
“Religion without God”, de Ronald Dworkin
O filósofo Ronald Dworkin é bastante conhecido pelo seu trabalho em filosofia do direito, sendo mesmo o segundo acadêmico estadunidense mais citado na área do direito ao longo do século 20. Nesta obra, Dworkin se aventura em terras além desta área de conforto, mas com pleno sucesso.
Em dezembro de 2011, Dworkin proferiu uma série de conferências sobre religião na Universidade de Bern. Seu plano era ampliar sua abordagem do tema ao longo de vários anos. No entanto, em meados de 2012 o autor veio a adoecer, e só pode completar umas poucas revisões antes da sua morte em fevereiro de 2013. Ainda assim, o resultado é surpreendente pela pertinência da proposta.
A ideia fundamental de Dworkin é que a religiosidade é um fenômeno mais profundo do que o teísmo, pois o teísmo se funda na crença de que deus assina embaixo de uma série de valores, o que abre caminho para que se assine embaixo dos mesmos valores sem crer em deus. Dado que o teísmo se apresenta como importante pela aceitação de um conjunto de valores, não há problema algum no ateísmo se mostrar do mesmo modo pela mesma razão. A religiosidade está na corroboração dos valores, não na crença em deus. Assim, há algo mais fundamental que une teístas e ateus, ainda que a crença em deus os separe.
A atitude de Albert Einstein ante a religião exemplifica bem a posição de Dworkin. Einstein se via como um homem profundamente religioso, embora não acreditasse em nenhum deus pessoal. Sua religiosidade emana de duas avaliações. Primeiro, da consideração do ser humano como algo digno de respeito e cuidado. Segundo, da consideração da natureza como algo sublime. “Sublime” não é um predicado da física, assim como “respeito” e “cuidado” não são predicados das ciências duras. Se quisermos dizer que as ciências duras lidam com tudo o que há de natural, a posição de Einstein exemplifica o compromisso com algo que é bem descrito como sobrenatural. Mas esse compromisso com algo além do assunto das ciências duras não é, por si só, teísmo. Eis o ponto de Dworkin.
Assim, “ateu religioso” não é um oximoro. O território da religiosidade pode ser ampliado a ponto de abranger o território do ateísmo, e com isso ganhamos um terreno comum que poderia aliviar a verdadeira guerra cultural entre ateus e beatos. Enquanto os fanáticos religiosos têm amplo espaço nas estruturas de poder, ateus profissionais têm amplo sucesso editorial. O cenário se apresenta como de grande divisão, mas poderia ser diferente, se o terreno comum da religiosidade fosse devidamente reconhecido.
“A guerra religiosa, tal como o câncer, é uma maldição da nossa espécie.” Ao escrever isso no capítulo 1 do livro, Dworkin toma para si uma tarefa da qual os filósofos políticos têm se ocupado ao menos desde o século 17. O horror da guerra civil de inspiração religiosa levou Hobbes a buscar uma base comum, independente da fé, para a sociedade. Ante as atrocidades cometidas pelos fieis, Spinoza se viu obrigado a detalhar o quanto as igrejas se manifestam falsamente religiosas, antecipando assim o trabalho de um filósofo contemporâneo que merece (e já recebeu) uma resenha própria, Mark Johnston. Ante os assassinatos cometidos em nome de deus, Locke falou em nome da tolerância. Assim, ante o horror e o genocídio de origem religiosa, Dworkin simplesmente está fazendo o que um filósofo tem que fazer: buscar a paz.
O caminho de Dworkin para a paz é o reconhecimento de que dois valores têm uma realidade plena e independente de qualquer um, incluindo deus. Primeiro, o reconhecimento da importância e significado da vida humana. Segundo, o reconhecimento de que a natureza é sublime, além de ser tudo o que a biologia, a química e a física diz que ela é. Em suma, o compromisso com tais valores é o reconhecimento da importância da biografia de cada ser humano, e do vínculo do ser biológico de cada um com o universo como um todo. Ele chama isso de religiosidade, e não vejo porque tal religiosidade deva ser considerada alienígena ao ateísmo.
::: Religion without God :::
::: Ronald Dworkin :::
::: Harvard University Press, 2013, 193 páginas :::

Folha de S.Paulo - Cotidiano - Mínimo possível - 07/12/2013

Folha de S.Paulo - Cotidiano - Mínimo possível - 07/12/2013
Luís Francisco Carvalho Filho
Mínimo possível
Gente pobre que poderia estar solta está presa porque direito de defesa, aqui, é para inglês ver
"Quebrar o prestígio dos facínoras". A frase de Joaquim Nabuco sintetiza a política de combate à impunidade que seu pai, ministro da Justiça, empreendeu no Segundo Reinado. Importante o resultado: não era para ter "escrúpulo" de algum excesso que se pudesse cometer.
Duarte Coelho, donatário de Pernambuco, reclamava em 1546 das Capitanias que davam acolhimento aos fugitivos, livres do castigo por ele imposto. Regente Feijó, no discurso depois de eleito, prometia: "o governo será infatigável em promover a execução das leis penais".
O tempo passou, o país se transformou e o sentimento de impunidade permanece intenso, constrangedor.
Gente rica e influente não se sentava no banco dos réus. Era assim. O mandonismo persiste, mas a imprensa é mais vigorosa. Hoje, ricos e pobres frequentam o fórum criminal, ainda que a solução dos processos seja seletiva, racista, preguiçosa, temerária.
Um ministro do STF falou recentemente da desigualdade entre pobres e ricos, como se o problema estivesse na porta de entrada das prisões.
Ainda há segmentos intangíveis, mas a lista dos que, na expressão de Elio Gaspari, habitavam o andar de cima e conheceram o sistema penitenciário poderia preencher o espaço desta coluna. Médicos como Hosmany Ramos e Eugênio Chipkevitch, magistrados como Rocha Mattos e Nicolau dos Santos Neto, playboys como Doca Street ou meninos estúpidos, anônimos, que incendiaram sem teto ou assaltaram padarias, procuradores disso ou daquilo, empresários como PC Farias e Salvatore Cacciola, matadores de todos os gêneros.
Há algo errado no projeto punitivo brasileiro. O tratamento dos presos lembra a época da escravidão. A culpa é presumida. Os processos não se aproximam da verdade. Como ainda não há "escrúpulo" pelos abusos cometidos, a lei de execuções penais é solenemente ignorada.
A lista dos que não precisariam estar encarcerados (porque não são perigosos e poderiam ser punidos de outra maneira eficaz) ocuparia páginas deste jornal. E não falo de ricos.
Em dezembro de 2012, o Brasil tinha mais de 540 mil presos, cerca de 143 mil entre 18 e 24 anos de idade, estigmatizados para sempre. Cresceu vertiginosamente a quantidade de detentos por tráfico de entorpecentes: mais de 131 mil, muitos surpreendidos com pequenas porções de droga. Esforço inútil e caro.
Em contrapartida, o crime nas ruas corre solto. Só 5% dos casos registrados de roubo (crime praticado com violência ou grave ameaça) na capital paulista são investigados. Em julho de 2013, foram 11.382 Boletins de Ocorrência e apenas 564 inquéritos instaurados. O resto sumiu.
A insatisfação generalizada pode arrefecer um pouco com a prisão de alguém famoso. Mas tratar os ricos como são tratados os pobres resolve? Sinal de prosperidade? A diferença entre pobres e ricos está na inexistência de um serviço básico. Gente pobre que poderia estar solta está presa, a vida destruída, porque direito de defesa, aqui, é para inglês ver.
Para Nabuco, o "grande pensamento" era a repressão a todo custo. Hoje deveria ser um jeito de encarcerar o mínimo possível.
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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Laranja do Saint Peter comprou TVA da Abril | Brasil 24/7

Laranja do Saint Peter comprou TVA da Abril | Brasil 24/7

aranja do Saint Peter comprou TVA da Abril

: EXCLUSIVO _ Documentos oficiais obtidos pelo 247 mostram que Grupo Abril vendeu operação da TVA em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba para o mesmo grupo estrangeiro que comprou, em Brasília, o hotel Saint Peter; a Compor, que arrematou as concessões de tevê de Giancarlo Civita, é controlada pela Truston, panamenha; a Truston tem como auxiliar José Euguenio Silva Ritter (à esq.), que vem a ser o 'proprietário' do hotel que ofereceu emprego para José Dirceu, ex-presidente do PT; conexão Panamá tem mesmo coloração ideológica ou é apenas um atalho comercial legalizado?; politização da normalidade; fac-similes
4 de Dezembro de 2013 às 18:51

Busca da Globo por laranjas deveria incluir o filho de FHC | Brasil 24/7

Busca da Globo por laranjas deveria incluir o filho de FHC | Brasil 24/7

Ao final da minuciosa reportagem do Jornal Nacional da última terça-feira (3/12) sobre a composição societária do hotel Saint Peter, de Brasília – uma escancarada tentativa da Globo de “melar” a contratação do ex-ministro José Dirceu pelo hotel, que lhe permitiria se beneficiar do regime semiaberto –, a esposa me olha e pergunta: “E aí?”.
Fiz um teste. Perguntei a ela: “Qual é a denúncia?”.
A resposta que me deu poderia ter sido dada por um advogado de renome ou por qualquer outra pessoa com maior ou menor qualificação para entender o que acabara de ser “denunciado” pelo telejornal da Globo. A patroa disse que, pelo que entendeu, a composição societária do hotel é “suspeita”.
Insisto na pergunta. Suspeita por que? “Ora, porque o presidente da empresa que administra o tal hotel Saint Peter é auxiliar de escritório”, respondeu.
A cara metade tem certa razão. O sujeito reside em uma casa comum e não em uma mansão na qual o senso comum sugere que deveria residir o alto executivo de uma empresa como essa “Truston International Inc.”
O panamenho José Eugenio Silva Ritter reside na periferia de Panamá City. Ao Jornal Nacional, ele reconheceu que aparece mesmo como sócio de muitas empresas mundo afora. É mais do que provável, pois, que a Truston use “laranjas” – ou, ao menos, um “laranja”. Que outra razão essa empresa transnacional teria para concentrar estruturas societárias nesse sujeito?
O mensalão abriu mesmo as portas do setor do inferno que abriga os hipócritas empedernidos. Deve haver, só no Brasil, centenas de milhares de empresas que se valem do mesmo tipo de estrutura societária do Saint Peter e ninguém – muito menos a Globo – cisma de montar grandes esquemas de reportagem, enviando repórteres ao exterior, para mostrar que os donos de um empreendimento preferem não constar em um contrato social.
Tanto é que, como mostrou furo de reportagem do Brasil 247 divulgado ontem, o Grupo Abril vendeu operação da TVA em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba para o mesmo grupo estrangeiro que comprou, em Brasília, o hotel Saint Peter.
Se o grupo que edita a congênere de antipetismo da Globo (a revista Veja) associou-se ao grupo estrangeiro que controla o hotel em que Dirceu vai (?) trabalhar, daí se pode entender como o uso de “laranjas” é quase uma regra em grandes aquisições e investimentos estrangeiros aqui e em muitas outras partes do mundo.
Mas se a Globo está mesmo preocupada com o uso de “laranjas”, deveria usar toda essa estrutura multimilionária de seu jornalismo para investigar um caso escandaloso envolvendo Paulo Henrique Cardoso, filho de Fernando Henrique Cardoso, que integra – ou integrou – sociedade junto com o mega grupo empresarial Disney.
Em 2011, o Ministério das Comunicações abriu investigação sobre o grupo Disney para saber se controlava ilegalmente a rádio Itapema FM, de São Paulo, que usava o nome fantasia de “Rádio Disney”.
A emissora, porém, pertencia legalmente a Paulo Henrique Cardoso e à Disney. Oficialmente, à época, PHC tinha 71% da emissora e a Disney menos de 30%, de acordo com o que é permitido pela Constituição para que empresas estrangeiras sejam proprietárias de meios de comunicação no Brasil.
Executivos da Disney no país – o diretor financeiro e o diretor-geral – tinham procuração de PHC para autorizar empréstimos, emitir cheques e vender bens da emissora, o que mostra que interferiam na gestão da empresa.
Até 2007, a Rádio Itapema foi de Orestes Quércia (morto em 2010), que ganhou a concessão no governo Sarney. Ele negociou a emissora com o grupo RBS, que revendeu 71% à Rádio Holding e 29% à Walt Disney Company (Brasil). Paulo Henrique, em 2011, tinha 99% da Rádio Holding. O 1% restante era do grupo Disney.
Os gráficos abaixo, divulgados à época pela revista IstoÉ, resumem melhor o imbróglio.

Diante de evidência tão escandalosa de que o filho de um ex-presidente é o evidente “laranja” da mega corporação norte-americana – não se imagina que a Disney entraria em uma sociedade em que tivesse 1% de participação e o seu sócio brasileiro 99% –, o Ministério das Comunicações abriu investigação que até hoje não teve o resultado divulgado.
Aliás, o assunto “sumiu”.
Seja como for, é evidente que, tal qual a Panamenha Truston, o Grupo Disney se valeu de um “laranja” (filho de um ex-presidente da República) para burlar a lei brasileira, que limita a 30% a participação de capital estrangeiro em empresas de comunicação.
Esse caso envolvendo PHC e a Disney, aliás, é bem mais grave e suspeito do que o do hotel em que Dirceu irá trabalhar – se é que irá, após a “escandalização” do nada levada a cabo pelo Jornal Nacional. Afinal de contas, o caso envolvendo a Truston não diz respeito ao Brasil, até onde se sabe. Já o caso envolvendo a Disney burla a legislação brasileira.
Tudo bem se a Globo quiser acabar com estruturas societárias como as da Truston e as da Disney, ao menos no Brasil. Seremos o único país do mundo em que não ocorrerão associações de conveniência em que o controlador oficial de uma empresa não seja seu verdadeiro dono. Mas, se assim for, tem que ser para todo mundo.
Espera-se, por exemplo, que se a Truston for considerada inidônea no Brasil o mesmo ocorra com a Disney. Mas não só. Você, aí, que está acusando Dirceu e que controla uma empresa com um contrato social desse tipo – e há muita, mas muita empresa assim no país – deveria se preparar.
De repente, se esse caso for levado em frente, o governo brasileiro poderia desencadear uma onda de fiscalização de todo e qualquer contrato social cujo sócio majoritário não tenha patrimônio que comprove que tem condições de controlar aquela empresa. Garanto que vai ter muito antipetista de cabelos em pé, se isso ocorrer.
O que, aliás, seria muito bom, pois essas composições societárias esquisitas são uma praga que acoberta toda sorte de ilícitos.
Será que o ministro Joaquim Barbosa, mais uma vez, inventará leis e regras que só valem para petistas? Talvez não autorize a Truston a empregar Dirceu, mas a autorize fazer negócios com o Grupo Abril. Assim, a empresa poderá ou não fazer associações esquisitas dependendo de com quem faça. Com filho de tucano, por exemplo, pode.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Bomba! Globo vai contratar o Dirceu ! | Conversa Afiada

Bomba! Globo vai contratar o Dirceu ! | Conversa Afiada

Bomba! Globo vai
contratar o Dirceu !

O que o Gilmar e o Vaidoso teriam contra ?
Sensacional: o Renato, leitor do Tijolaço, teve a ideia do Seculo:

Solução para moralizar o Brasil: a Globo dar um emprego a José Dirceu!



O leitor Renato deu a mais sensacional sugestão para resolver os problemas de moralidade no Brasil.

É só a Globo oferecer um emprego a José Dirceu.

Aí vão esquadrinhar toda a teia de negócios do empregador do “mensaleiro”.

Vão descobrir que tem negócios obscuros em paraísos fiscais.

Vão descobrir que pressiona – há décadas – os governantes para obter concessões de radiodifusão ou para legalizar as que adquirem.

Mais: vão verificar que tomou empréstimos mais que beneficiados em dinheiro público para construir gráficas ou estúdios de televisão, como o parque gráfico de Caxias (BNDES) e o Projac – Banerj e Caixa Econômica.

Ou que pegou uma bolada lá no BNDES no apagar das luzes do Governo FHC.

Depois, podem descobrir até o que aconteceu com seu misterioso processo por sonegação de Imposto de Renda, que desapareceu porque um humilde funcionária – condenada à prisão por isso – espontaneamente resolveu colocá-lo numa bolsa e faze-lo desaparecer.

E poderiam empregar Dirceu por gratidão política, como gratidão à defesa que  o então ministro fez de empréstimos à Globo, no tempo em que o império estava pendurado em dividas enormes.

Não sabia?
Pois leia o que a Exame, do insuspeito Grupo Abril, dizia em setembro de 2003:

“No mercado financeiro, especula-se que uma das saídas possíveis seria a injeção de recursos por parte do governo. A hipótese ganhou força no final do ano passado, quando o ministro da Casa Civil, José Dirceu, e o presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha, defenderam a ajuda governamental à Globo alegando “razões de Estado”. “Sou absolutamente a favor de que o BNDES dê uma ajuda financeira ao grupo caso isso se mostre necessário”, disse a EXAME o ministro das Comunicações, Miro Teixeira, dois dias após a morte de Roberto Marinho. “Estou falando em emprestar dinheiro para que a empresa possa alongar sua dívida com os credores. Isso não significa nenhum favorecimento, já que a dívida com o BNDES teria de ser paga.”

Miro Teixeira está aí, à disposição, para ser ouvido sobre a defesa que Dirceu fez da ajuda à Globo. Tanto que quando Lula levou-o para o Ministério das Comunicações – depois ocupado pelo global Hélio Costa – as relações de Brizola com o governo azedaram.

Não vale um emprego de gerente de um departamentozinho da Globo lá em Brasilia?

Agradeço ao Renato a brilhante sugestão para fazer nossa mídia, finalmente, vasculhar os negócios da Globo.

Mas será que o Dr. Joaquim Barbosa ia deixar ele assumir um emprego lá?



Clique aqui para ler “Azenha e Dirceu: a Globo quer é vingança”.

E aqui para ler “400 podem, mas Dirceu não pode trabalhar no hotel …”. 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

De FHC a Dilma, medo da inflação e uso da selic caracteriza a política econômica - Carta Maior

De FHC a Dilma, medo da inflação e uso da selic caracteriza a política econômica - Carta Maior

A única diferença que se esboçou foi a tentativa de Dilma de baixar a Selic real para 2% ao ano, que perdurou por alguns meses. Por Amir Khair


Amir Khair Arquivo
O que caracteriza a política econômica, sem distinção de partido no poder, não é o tripé como normalmente é difundido, mas o medo da inflação e o remédio para combatê-la que é a taxa básica de juros Selic.


Foi assim com FHC, Lula e está sendo com Dilma. A única diferença que se esboçou foi a tentativa dessa presidente de baixar a Selic real (excluída a inflação) para 2% ao ano, que perdurou por alguns meses. Com a volta da Selic aos dois dígitos a partir desta 4ª feira, a Selic real passa a ficar no nível de 4% ao ano, enquanto o nível internacional desde a crise de 2008 está praticamente em zero.. Mais uma frustração na política econômica deste governo.

O consolo é que já foi pior. Muito pior! Os sucessivos presidentes do Banco Central (BC) desde o início do Copom praticaram taxas básicas de juros elevadas que contribuíram para elevar a dívida do governo federal e satisfazer o rentismo que domina o País.

Com FHC a média superou a 20%, caindo para 15% no governo Lula e caminha para 10% no governo Dilma.

Esses valores superaram largamente a inflação média do período de gestão de cada presidente do BC, constituindo ganhos extraordinários aos aplicadores do País e do capital especulativo internacional.

A contrapartida desses ganhos são os rombos crescentes nas contas públicas e a forte elevação da dívida líquida interna do governo federal e BC, que passou de R$ 32,2 bilhões (6,16% do PIB) no início do governo FHC para R$ 1.800,0 bilhões (38,49% do PIB) ao final de setembro deste ano, apesar da amortização feita nesse período pelo governo federal, que pagou R$ 1.761,9 bilhões. O estrago causado por essa política suicida não tem paralelo na história econômica do País.

Inflação - Vale entender o que se passou com a inflação desde maio do ano passado até agora para avaliar se foi necessário ou não elevar a Selic.

Para isso é considerada a inflação ocorrida nos últimos doze meses, considerando seus três componentes: serviços, alimentos e bebidas e preços monitorados.

Os alimentos foram o vilão da inflação com a subida de preços que ocorreu desde maio do ano passado, quando passou de 6,3% para 14% em abril, puxando o IPCA para cima. Quando esses preços passaram a cair a partir de abril deste ano, puxaram o IPCA para baixo.

Os serviços apresentaram razoável estabilidade no entorno de 8,3%, pouco influenciando na variação da inflação. Os preços monitorados registraram forte redução no período apresentando inflação de 1,0% nos últimos doze meses. A Petrobras tem servido aos propósitos do governo federal para segurar a inflação ao ser obrigada a subsidiar a gasolina e diesel com sérios prejuízos à estatal.

Fica claro que o que influiu na inflação nesse período foram os alimentos e os preços monitorados. Como a Selic não influi no comportamento dos alimentos, que respondem a choques climáticos ou entressafras, e não influi também nos serviços e nos preços monitorados, o governo federal usou indevidamente a Selic para controlar a inflação.


O mercado financeiro, no entanto, e o governo vão atribuir à Selic o recuo ocorrido na inflação a partir de abril deste ano, escondendo os determinantes da variação da inflação. Mais uma vitória do rentismo que impregna a economia do País.

Por que é melhor rir que chorar da miséria humana, segundo os filósofos

Por que é melhor rir que chorar da miséria humana, segundo os filósofos

Por que é melhor rir que chorar da miséria humana, segundo os filósofos



Postado em 02 Dec 2013
schopenhauer-
Acordei meio filosófico. E quando isso acontece pareço um livro de citações ou um manual vulgar de auto-ajuda. Recomendo aos mentalmente sãos que parem a leitura por aqui. Aos demais, aos loucos o suficiente para ignorar a advertência, segue desde já um sincero pedido de desculpa.
Meu ponto de partida é a atitude oposta de dois grandes filósofos gregos, Heráclito e Demócrito, diante da miséria humana. Heráclito chorava, Demócrito ria.
No correr dos dias nós vemos uma série infinita de absurdos e de patifarias. Alguém a quem você fez bem retribui com ódio. A inveja parece onipresente. A mesquinharia, também. Você tropeça e percebe a alegria maldisfarçada dos inimigos e até de amigos. (Palavras do frasista francês Rochefoucauld: sempre encontramos uma razão de alegria na desgraça de nossos inimigos.)
As pessoas que têm poder são quase sempre sensíveis à adulação. A frivolidade triunfa. A hipocrisia é dominante. As decepções se acumulam. Até seu cachorro se mostrou bem menos confiável do que você imaginava. Se não bastasse tudo, sua sogra não sai de sua casa.
Em suma, a vida como ela é. Você pode chorar. E dedicar o resto de seus dias a movimentos que alternam gemidos de autopiedade e consumo de antidepressivos de última geração. Ou então você pode rir.
A alternativa dois é a melhor.
A oposição entre Heráclito e Demócrito foi objeto de estudo de dois filósofos distantes séculos um do outro: Sêneca e Montaigne. Cada um a seu estilo, ambos optaram por Demócrito e sugeriram o mesmo a quem acaso os lesse. Uma só situação provoca riso ou choro de acordo com a disposição de espirito de quem a enfrenta.
Mesmo Schopenhauer, o grande filósofo do pessimismo, o gênio soturno que disse que a pior coisa do mundo é nascer, reconhece sabedoria na jovialidade. “Acima de tudo, o que nos torna mais imediatamente felizes é a jovialidade do ânimo, pois essa boa qualidade recompensa a si mesma de modo instantâneo” escreveu ele. “Quem é alegre tem sempre razão para ser alegre. E a razão é exatamente esta, a de ser alegre. Nada pode substituir tão perfeitamente qualquer outro bem quanto essa qualidade, enquanto ela mesma não é substituível por nada.”
Um passo essencial para a “jovialidade” é dar menos importância à opinião dos outros sobre nós. Somos escravos da opinião alheia. E isso nos faz inimigos de nós mesmos. Um dia seu chefe está feliz e o cumprimenta no elevador. Você ganha o dia. Mas se alguma coisa aborreceu seu chefe e ele parece não enxergá-lo quando vocês se cruzam, isso talvez seja o suficiente para estragar sua semana. Mais relevante do que os outros pensam sobre nós é o que nós pensamos sobre nós mesmos. Não adiante o mundo inteiro reverenciá-lo se ao olhar para o espelho você não respeita o que vê.
Os sábios recomendam unanimemente a busca da indiferença perante a opinião dos outros. Schopenhauer cita como exemplo o líder romano Mário. Um chefe bárbaro mandou desafiar Mário para um duelo. Sem ligar para o que os outros achariam de sua resposta, e muito menos para o que o próprio bárbaro pensaria, Mário mandou o seguinte recado: “Se você está entediado com a vida, que se enforque”.

Os mitos populares sobre o bolsa-família

Os mitos populares sobre o bolsa-família

Os mitos populares sobre o bolsa-família


Postado em 03 Dec 2013

Ao ouvir duas ou mais pessoas discutindo sobre o bolsa-família, é normal ouvir frases do tipo “Agora com esse bolsa família ninguém mais quer trabalhar”, ou “o governo tira dinheiro do trabalhador para sustentar vagabundo”, ou “isso é uma bolsa-esmola”. Muitas dessas frases são simplesmente repetidas pelas pessoas sem que elas reflitam ao menos um pouco sobre o que estão dizendo.
A maioria das pessoas sequer tem noção de quanto é o valor do bolsa família. É um valor baixíssimo que depende da renda da família, da quantidade de filhos e de outros fatores. Para você ter uma ideia do quanto esse valor é baixo, uma família que ganhe menos de 70 reais por pessoa e que tenha 2 filhos receberá apenas 134 reais por mês. Você acha que alguém vai deixar de trabalhar porque vai receber 134 reais do governo?
Muitos pensam que as famílias que têm muitos filhos recebem muito dinheiro. Não poderiam estar mais enganados. Para receber 268 reais, é necessário que a família tenha renda de menos de 70 reais por pessoa e tenha 5 filhos. O valor máximo do bolsa família chega a 306 reais, atendendo a outras condições adicionais.
Essa história em que os beneficiários do bolsa família não querem mais trabalhar entra em total conflito com o fato de que estamos hoje com as menores taxas de desemprego da história brasileira. Fechamos outubro com uma taxa de 5,2% de desemprego. Só para efeito de comparação, o desemprego na Alemanha hoje é de 6,5%, nos EUA é de 7,3% e na França 10,9%. Portanto esse argumento é muito falho e não há nada que o justifique.
Outra fala comum que se ouve é que aqueles que recebem o bolsa-família ficam dependentes desse dinheiro e jamais vão se esforçar para melhorar de vida. Esse é mais um engano de quem se informa muito pouco sobre o assunto. Entre outubro de 2003 e fevereiro de 2013, cerca de 1,69 milhão de famílias abriram mão voluntariamente do bolsa família após terem sua renda aumentada e não precisarem mais do benefício.
O bolsa família é um programa emergencial que visa garantir uma renda mínima que ao menos permita que uma família muito pobre tenha sua condição de pobreza aliviada, até que os membros dessa família consigam empregos que permitam que ela caminhe com as próprias pernas. O bolsa família é imprescindível enquanto a família está na miséria. O valor recebido é bem baixo, mas faz uma diferença muito grande para os que se encontram nessas condições.
Para ter o benefício do bolsa-família também é necessário manter os filhos na escola com frequência entre 75% e 85%, os menores de 7 anos vacinados, além de outras condições. A permanência dos filhos na escola é fundamental para possibilitar que eles tenham um futuro melhor que os seus pais. Esse é mais um ponto positivo para o bolsa família, mas ainda precisamos que os governos invistam muito mais na educação pública básica, pois estamos longe de termos uma escola de qualidade para essas crianças e adolescentes.
Por outro lado, também existem os mitos criados pelos governos Lula e Dilma sobre a eficácia do bolsa família na eliminação da miséria. Recentemente houve a cerimônia de comemoração pelos 10 anos do bolsa família, em 30 de outubro. Nesse evento o governo afirmou que o programa teria retirado 36 milhões de pessoas da miséria. Isso é um grande absurdo.
Hoje o índice utilizado pelo governo para classificar uma família como “miserável” é o da renda equivalente a 70 reais por pessoa, um índice baixíssimo. Com base nisso, se uma família de 5 pessoas alcançar uma renda total igual a 351 reais, essa família é considerada pelo governo como retirada da miséria. O pior é que esse índice está defasado, pois não foi alterado desde junho de 2011.
O bolsa família é um programa emergencial que retira as pessoas da miséria apenas tecnicamente. Faz com que uma família que ganhava 50 reais por cabeça passe a ganhar, por exemplo, 75 por pessoa, excluindo essa família das estatísticas de miséria, mas na prática essa família continua vivendo na miséria.
Durante os governos Lula e Dilma foram gerados mais de 10 milhões de empregos. Esses empregos é que conseguiram retirar muita gente da miséria e não o bolsa família. A partir de quando a família consegue sustentar-se por conta própria, sem a ajuda do bolsa família, aí sim pode-se afirmar que aquela família foi retirada da miséria.
É terrível que Dilma e Lula usem os números da redução técnica da miséria como se fossem indicadores de redução real dela. Isso cria uma ilusão. A miséria continua existindo, mas como está fora dos indicadores estatísticos, muitos não têm conhecimento da sua real dimensão, dificultando a solução do problema. Como vamos pensar na solução de um problema que não existe?
Em maio deste ano, o jornal Folha de São Paulo requisitou ao Ministério do Desenvolvimento Social a informação de quantas famílias no país ganhavam menos que 77,5 reais, ou seja, os 70 reais corrigidos pela inflação do período. O impressionante nos dados revelados é que a quantidade de pessoas abaixo da linha da pobreza passaria de 0 para 22 milhões de pessoas se o índice fosse corrigido. Com isso, está explicado o motivo de o governo não reajustar o índice.
O episódio do boato sobre o fim do bolsa família ocorrido neste ano nos mostrou o quanto o programa é imprescindível e quantos dependem dele. Torcer pelo fim do bolsa-família é o mesmo que torcer para que as pessoas que vivem hoje na miséria passem a viver muito pior. O bolsa família deve ser mantido pelo tempo que for necessário, mas é importante que continuemos cobrando do governo que invista numa educação pública de qualidade, num bom tratamento de saúde nos hospitais públicos, num transporte mais barato ou gratuito para os mais pobres, que aumente a geração de empregos com carteira assinada, dentre outras coisas, para que a vida de todas essas pessoas que ganham tão pouco possa melhorar e que caminhemos rumo ao fim da miséria real e não apenas estatística.
Sobre o Autor
Fabiano Amorim é nascido em Palmeiras dos Índios, e atualmente mora em Maceió, Alagoas. Ele escreve no blog http://fabiano-amorim.blogspot.com.br. É autor do aclamado documentário “Derrubaram o Pinheirinho”, sobre a reintegração de posse do acampamento Pinheirinho em São Jose dos Campos.

Ciência Livre: vale a pena um professor criar o seu blog - Carta Maior

Ciência Livre: vale a pena um professor criar o seu blog - Carta Maior

Ciência Livre: vale a pena um professor criar o seu blog

É incrível sermos inundados por bobagens nos meios de comunicação sem que o peçamos, e que dificultemos o acesso a trabalhos científicos essenciais.


Ladislau Dowbor

Na virada do milênio, decidi repensar os meus arquivos e as minhas publicações. Hoje posso fazer um balanço.  Como professor e pesquisador, na área de desenvolvimento econômico, social e ambiental, tenho naturalmente que trabalhar com inúmeras publicações dos mais diversos tipos, textos, estatísticas, relatórios internacionais, artigos pontuais, além da minha própria produção. Fortemente pressionado pelo meu filho Alexandre, que achava pré-históricas (já naquela época) as minhas pilhas de papéis, pastas e clips, dei uma guinada, passei para o digital. Agradeço hoje ao meu filho, que me ajudou a montar o meu primeiro site. Alguns já chamam este tipo de ajuda de filhoware.

Decidi fazer este pequeno balanço porque deve ajudar muita gente que se debate com a transição. Deixem-me dizer desde já que o resultado não foi uma migração simples para o digital, e sim uma articulação equilibrada do impresso e do digital, bem como de publicação tradicional com publicação online. Chamemos isto de arquitetura do trabalho intelectual.

O ponto de partida foi o meu blog, http://dowbor.org, hoje de ampla utilização nacional e internacional, se é que esta distinção ainda existe. O sucesso não se deve apenas ao interesse do que eu escrevo e à facilidade de acesso que o blog permite, mas ao fato que do lado do usuário – leitor, aluno ou colega professor – houve uma drástica mudança de comportamento: a cultura digital do livre acesso está se tornando dominante. De certa forma, estamos adequando a oferta à nova demanda e ao novo formato de uso que emerge.

Deixem-me lembrar a força da dinâmica: o MIT, principal centro de pesquisa dos EUA, criou o OpenCourseWare (OCW), gerando em poucos anos mais de 50 milhões de textos científicos baixados gratuitamente pelo mundo afora. Harvard aderiu ao movimento com o EdX, a China trabalha com o CORE (China Open Resources for Education), a Universidade da Califórnia entrou na corrente em 2013, a Inglaterra contratou Jimmy Wales, criador da Wikipedia, para gerar um sistema de acesso gratuito online a toda pesquisa e publicação que tenha participação de dinheiro público. E quando áreas de excelência do mundo científico abrem o caminho, é provável que se trate do futuro mainstream. No Brasil estamos dando os primeiros passos, com Recursos Educacionais Abertos (REA), de maneira ainda muito tímida.

Isto dito, eu que não sou nenhum MIT, constatei nestes anos de experiência prática do meu blog o seguinte, esperando que as informações sejam úteis:

1) A criação de um blog individual de professor representa um investimento extremamente pequeno, comparando com o benefício obtido, sobre tudo porque hoje temos estagiários blogueiros da nova geração que tiram isto de letra. Não custará muito mais do que uma bicicleta. A alimentação do blog, por sua vez, é igualmente simples, basta escrever alguns passos no papel e seguir. E se tiver filho é mais simples ainda.

2) Ter um blog não é um ônus em termos de tempo, pelo contrário. As pessoas imaginam ter de “alimentar” um blog, ou seja, comunicar o tempo todo. Um blog científico, na realidade, como o meu, é muito mais uma biblioteca de fácil acesso universal, do que uma “newsletter” que eu tenha de acompanhar e administrar.
Não faz muita diferença com uma estante na minha biblioteca, com a diferença que é muito mais fácil encontrar o meu texto com uma palavra chave no computador, do que localizá-lo na estante ou nas pilhas. E quem precisa de um texto pode pegá-lo no meu blog, não precisa me pedir o livro emprestado nem perder tempo dele e meu. Pegam o que precisam, e eu não deixo de ter o que pegam.

3) A produção científica e a divulgação deixam de constituir processos separados. O artigo ou o livro que o professor escreve, ou que recebeu e quer divulgar, é colocado no blog, e está no ar. Quem se interessar pode pegar. Recebi um e-mail de Timor Leste, onde falam português, pedindo para utilizar na formação de professores o meu texto Tecnologias do Conhecimento: os desafios da educação, editado pela Vozes. Autorizei e agradeci. Não precisei ir lá oferecer, nem empacotar livros. E eles encontraram simplesmente porque colocaram palavras chave na busca por internet. Cria-se um mundo científico colaborativo. Não me pagam nada, mas é útil, e tenho meu salário na PUC. Ponto importante, o livro vai para a 6ª edição pela editora, uma coisa não atrapalha a outra, a editora encontra o seu interesse também.

4) O essencial não está na gratuidade, mas na facilidade de acesso e na pesquisa inteligente. Procurar um artigo que saiu em alguma revista, e buscá-lo numa biblioteca, nesta era em que o tempo é o recurso escasso, francamente já não funciona. Mais importante ainda é a possibilidade de folhear em pouco tempo dezenas de estudos diferentes sobre um tema, através da pesquisa temática, cruzando enfoques de diversas disciplinas, autores e visões. Conhecer o estado da arte de um problema determinado, de maneira prática, ajuda muito na construção colaborativa do saber e na inovação em geral.

5) O blog torna-se também uma biblioteca de terceiros. Coloco no blog, em Artigos Recebidos, textos que me enviam e que me parecem particularmente bons, tanto para o meu uso futuro como para repassar a outras pessoas. Por exemplo, quando me fazem uma pergunta sobre energia, recomendo que peguem no meu site o artigo de Ignacy Sachs, disponível na íntegra, sobre A Revolução Energética do Século XXI. Forma-se assim uma biblioteca personalizada que irá facilitar imensamente consultas posteriores, ou recomendações de leitura para alunos.

6) Como professor, recebo frequentemente textos excelentes dos meus alunos. Conheço suficientemente a minha área para saber que se trata de um ótimo trabalho. Normalmente, ninguém leria o trabalho, pois o aluno não é conhecido. Eu coloco no blog, e envio um mailing para colegas e colaboradores, alertando para um bom texto que surgiu. Costumo receber agradecimentos do aluno, que viu o seu estudo solicitado por várias pessoas. Enterrar um bom trabalho numa biblioteca é uma coisa triste. De certa forma, utilizo assim o meu blog para “puxar” para a luz bons trabalhos de pessoas menos conhecidas.

7) Tudo isto está baseado no marco legal chamado Creative Commons, internacionalmente reconhecido, que me assegura proteção: as pessoas podem usar e divulgar, mas não utilizar para fins comerciais. Trata-se da plataforma jurídica da ciência colaborativa, instrumento que me protege ao impedir a apropriação comercial, a deturpação do texto ou o uso sem fonte, ao mesmo tempo que permite que o texto seja imediatamente acessível para fins didático-científicos ou recreativos. O Google-Scholar me permite inclusive acompanhar as citações que fazem dos meus trabalhos.

8) Um enriquecimento muito importante do processo, é que me permite utilizar texto, imagens e sons sem nenhum constrangimento em cada produção, associando ilustrações artísticas, fragmentos de um discurso ou animação gráfica sem nenhum constrangimento, pois do lado de quem lê haverá a mesma facilidade. A experiência criativa fica particularmente valorizada, considerando as dificuldades de tentar se reproduzir determinados gráficos, que podem ser simplesmente copiados para o texto em elaboração, ao mesmo tempo que se inclui o link do texto de origem, ajudando a divulgá-lo e facilitando verificações. A multimídia bem utilizada é muito útil.

9) Trata-se de uma ferramenta em que o universo educacional, em particular, tem muito a ganhar. Em vez do professor procurar em revistas das bancas de jornais artigos para discussão com alunos, pode pesquisar os textos online, e repassar para os alunos os links. Os alunos inclusive encontrarão diversos textos online sobre o tema, desenvolverão a sua capacidade de pesquisar no imenso acervo digital, trarão para a discussão enfoques diversificados. Cabe a nós assegurar que haja um rico acervo de textos científicos disponíveis online, alimentando de certa forma o conjunto do universo educacional. O professor será aqui um pouco menos um transmissor de conhecimento, e bastante mais um organizador que ajuda a entender o que é relevante e ensina a trabalhar com conhecimento organizado.

10) O processo não conflita com o sistema atual de avaliação de professores. Para quem não é da área acadêmica, informo que o fato de milhares de pessoas lerem os meus textos online não me dá créditos acadêmicos. A minha solução, é que publico sim em periódicos formalmente avaliados como “acadêmicos”, para ter os créditos que a CAPES me pede. Mas para ser lido, publico online. Uma coisa não impede a outra. Aliás, um artigo meu publicado pela universidade da Califórnia, por exemplo, e que não me pagaram, só pode ser acessado mediante pagamento de 25 dólares a cada 24 horas. Chamam isto de direitos autorais. Esperar ser lido nestas condições, francamente não é muito realista. A Elsevier cobra entre 35 e 50 dólares por artigo e por acesso. Já são mais de 15 mil cientistas americanos que boicotam as revistas ditas “indexadas”, e publicam em sites abertos, inclusive com open peer-review. Mas enquanto a CAPES não atualizar os seus critérios, precisamos utilizar o papel e o digital, um para pontos, outro para leitores.

11) Com pequenos conselhos de alunos e colegas, fui acrescentando ao blog os instrumentos mais evidentes de comunicação. No blog abri a possibilidade de qualquer pessoa se inscrever para receber meus e-mails sobre materiais científicos que me parecem relevantes. Tenho atualmente mais de três mil “colegas virtuais”, a quem envio de forma não invasiva uma notinha sobre novos textos que surgem e que estão disponíveis no meu site. Uma aluna me colocou no twitter, são cerca de 3,5 mil seguidores que recebem os textos meus ou os que recomendo. O Facebook é outro instrumento, permite fazer circular o material. Por tanto, a minha biblioteca virtual não só organiza os textos que utilizo, como se comunica facilmente com todos os interessados, mesmo que não me conheçam.

12) Uma virtude básica do processo que precisa ser entendida, é que os textos circulam não só porque alguém os coloca online, mas porque são interessantes. Não porque os donos da mídia os divulgam e recomendam, mas porque os usuários os acham bons. Quando me chega um bom texto, a primeira coisa que faço é repassar com comentários. Ou seja, o que passa a circular, é o que é realmente bom, o que corresponde ao que as pessoas necessitam como informação científica organizada. Ao olhar as estatísticas de acesso aos meus trabalhos, posso identificar o que realmente está sendo lido, e pelos comentários posso avaliar insuficiências ou correções necessárias. O texto passa a constituir um processo interativo de construção científica.

13) Finalmente, eu acho que da mesma forma que temos pela frente a democratização da mídia – e surgiram excelentes alternativas de informação inteligente como Carta Maior, Envolverde, Mercado Ético, IHU, Outras Palavras, Monde Diplomatique e tantos outros – precisamos também criar um movimento do tipo “ciência livre”, que tire os nossos textos do esquecimento das bibliotecas. O Instituto Paulo Freire, por exemplo, ao constatar que com a lei atual de Copyright só teremos acesso aberto aos textos do pedagogo a partir de 2050, colocou grande parte dos seus escritos online, com exceção de alguns trancados por contratos de direitos muito restritivos. É uma imensa contribuição. Mas acho que temos de fazer isto com todos os nossos grandes gurus, com os transformadores atuais da ciência, e com textos da nova geração que estão inovando. É incrível sermos inundados por bobagens nos meios de comunicação sem que o peçamos, e que dificultemos o acesso aos trabalhos científicos essenciais para o progresso educacional do país. Enterrar dissertações de mestrado e teses de doutorado em bibliotecas, elas que custaram anos de trabalho do professor e do pesquisador, é absurdo.

Permito-me aqui fazer uma recomendação para todos os professores. Organizem o seu blog, hoje um Wordpress é gratuito e muito jovem lhe ensinará o caminho. Temos de dar este passo, e criar um ambiente rico e colaborativo no nosso mundo científico-acadêmico. Francamente, acho que faz parte da vocação do professor e do pesquisador não só ensinar e inovar, com organizar de forma moderna a comunicação das ideias que possam enriquecer a nova geração e enriquecer-nos uns aos outros. E se quiserem se inspirar do meu blog como estrutura e divisões (apanhei um pouco no começo até montar um blog adequado para professor), fiquem à vontade, eventualmente posso até recomendar pessoas que possam ajudá-los. Vamos encher este país de ciência, de boa ciência, progressista, transformadora.

Quanto ao medo das pessoas de nos vermos invadidos por ciência irresponsável, descontrolada, francamente, são os mesmos medos que surgiram com o open access, com a Wikipédia, e outros. Os textos ruins ou irrelevantes simplesmente não circulam, e não serão lidos. Um professor comentando o sistema de peer-review publicou online a seguinte nota a respeito: “Eu conheço a minha área, não preciso que alguém me diga se um artigo é relevante ou não”.