domingo, 22 de junho de 2014

Antonio Machado:

Antonio Machado: Doutor não enxerga veneno no jornal que lhe paga salário - Viomundo - O que você não vê na mídia

Antonio Machado: Doutor não enxerga veneno no jornal que lhe paga salário

publicado em 21 de junho de 2014 às 23:14






O discreto ódio de Elio Gaspari


por Antonio Machado*


O discurso da direita é obtuso, sinuoso, embiocado. Ora mais, ora
menos, mas inevitável e necessariamente. Afinal, de que outra forma
defender uma injustiça, justificar o indefensável?


Em sua coluna de quarta-feira na Folha de S.Paulo, o
jornalista Elio Gaspari resguarda os xingadores da presidente da
República – a doutora Dilma, como ele a chama –, já tão repreendidos
pela mídia independente. “Argumente-se que o grito foi típico da
descortesia dos estádios”, pondera.


A intenção já se define pelo título: “O ódio ao PT e o ódio do PT”
(http://naofo.de/g0r). Gaspari, experimentado, não endossa o coro dos
desaforados.


Se os protege, é com cautela – e sem apologia, é claro. Põe-se de
fora, pretensamente alheio ao ódio manifestado de parte a parte.


Cita comentários de internet e conclui: “Se a rede for usada como
posto de observação, os dois ódios equivalem-se e pouco há a fazer”.


Alto lá! Não é o anonimato da rede que deve ser tomado como posto de observação, mas a própria imprensa, a própria Folha.


A imprensa e as declarações de gente pública como Paulinho da Força,
Aécio Neves, na linha do “colheu o que plantou”, “mandou para onde tinha
que mandar”.


À bem da verdade, o mal não seria propriamente o ódio, mas como ele se manifesta, de quem vem, a quem se dirige e por quê.


Ou o doutor, do alto de sua imparcialidade, acha que odiar o pobre
que anda de avião – para usar um exemplo batido, que é também o dele –
equivale a odiar o rico que se queixa do aeroporto que virou rodoviária?


Não digo que pertença à elite todo aquele que não gosta do PT. Há até
ricos que gostam e outros que, não sendo, dele não gostam justamente
por julgarem-no elitista. Mas o leitor da Folha sabe porque ela não gosta do PT.


Na quinta-feira, outra vez no estádio do Corinthians, o jornalista
José Trajano, da ESPN, homem de 68 anos, se preparava para entrar ao
vivo quando foi chamado de “petista filho da p*” e ameaçado de morte.


A exclamação veio de um torcedor de 30 anos, um e noventa de altura, que avançava sobre as grades que o apartavam da imprensa.


Parêntese. Coisa de um mês atrás, o amigo que presenciou e relatou a
referida cena é quem foi a vítima. Repreendeu um desconhecido que
atirava um folheto no chão e ouviu de volta: “Vai se f*, seu comunista!
Comunista! Você é um petista, seu petista!” (http://bit.ly/TfCGil)


Voltando ao caso do Trajano, seria só uma ocorrência avulsa, embora
corriqueira; um desvario como o daquele que hostilizou Joaquim Barbosa.
Novo parêntese.


O mesmo sujeito que ultrajou Barbosa foi atacado pelo senador Aloysio
Nunes no Congresso Nacional, num episódio que chamou bem menos atenção
(http://bit.ly/1lTtyqc).


A’O Globo, o senador ainda avisou: “Só não dei um pescoção porque ele correu mais do que eu!” (http://naofo.de/g0v)


Pois seria só mais uma, não fosse a campanha de ódio contra Trajano
promovida por Reinaldo Azevedo, blogueiro e colunista da mesma Folha – aliás, escalado pelo jornal para comentar as “palavras não muito gentis à presidente” – e levada às últimas por sua claque.


Desnecessário reproduzir os impropérios de Azevedo a Trajano,
mencionado em nada menos que seis postagens do autor. Quem o conhece
pode imaginar.


Não se sabe ao certo o que despertou a ira do blogueiro: se o fato de
Trajano reprovar a grosseria contra Dilma, de “pagar pau aos
esquerdistas” ou de dizer que Azevedo é semeador de ódio
(http://bit.ly/1uMfu7q).


Pelo tamanho da reação, bastava ter se referido a Dilma como presidenta para merecer uma alusão injuriosa.


A verdade é que Gaspari está mais perto do que gostaria de Azevedo; ambos do mesmo lado, em papeis complementares.


Se o doutor ainda não sabe, já é tempo de saber, na origem, conteúdo e
forma, o que difere o ódio antipetista da revolta contra a elite e
contra quem a representa.


 * É jornalista


PS do Viomundo: A Folha é aquela que, em plena campanha eleitoral de 2010, publicou na capa uma ficha falsa da candidata Dilma
e, em seguida, entrou em crise existencial por não descobrir se era
verdadeira a falsidade; antes, foi o jornal que publicou na primeira
página artigo de um psicanalista aeronauta acusando o governo Lula do homicídio de 200 pessoas num acidente aéreo cuja causa foi erro dos pilotos; deu espaço à tese de Lula estuprador na cadeia; espalhou o pânico com uma falsa epidemia de febre amarela e, mais tarde, dizimou milhares que ainda vivem com a gripe suína; depois de tudo isso, adotou a tese de que os blogueiros “espalham ódio”. É pra rir, né?

Como o Wikileaks abriu nossos olhos para a ilusão da liberdade

Dois anos da prisão de Assange em Londres: como o Wikileaks abriu nossos olhos para a ilusão da liberdade

Dois anos da prisão de Assange em Londres: como o Wikileaks abriu nossos olhos para a ilusão da liberdade




Assange na embaixada do Equador em Londres
Assange na embaixada do Equador em Londres
Publicado originalmente no Guardian.


POR SLAVOJ ŽIŽEK





Nós nos lembramos dos aniversários de eventos importantes de nossa
época: 11 de setembro (não apenas o ataque às Torres Gêmeas em 2001, mas
o golpe contra Salvador Allende, no Chile, em 1973), o Dia D etc.
Talvez outra data deva ser adicionada a esta lista: 19 de junho.


A maioria de nós gostaria de dar um passeio durante o dia para tomar
uma lufada de ar fresco. Deve haver uma boa razão para aqueles que não
podem fazê-lo – talvez eles tenham um trabalho que os impede (mineiros,
mergulhadores), ou uma estranha doença que faz com que a exposição à luz
solar seja um perigo mortal. Mesmo prisioneiros têm a sua hora diária
de caminhada ao ar fresco.


Faz dois anos desde que Julian Assange foi privado deste direito: ele
está confinado permanentemente ao apartamento que abriga a embaixada
equatoriana em Londres. Se sair, seria preso imediatamente. O que
Assange fez para merecer isso? De certa forma, pode-se entender as
autoridades: Assange e seus colegas whistleblowers são frequentemente
acusados de serem traidores, mas são algo muito pior (aos olhos das
autoridades).


Assange se autodesignou um “espião do povo”. “Espionagem para o povo”
não é uma traição simples (o que significa que ele ele atuaria como um
agente duplo, vendendo nossos segredos para o inimigo); é algo muito
mais radical. Ela mina o próprio princípio da espionagem, o princípio de
sigilo, uma vez que seu objetivo é fazer com que os segredos se tornem
públicos. Pessoas que ajudam o WikiLeaks não são mais denunciantes
anônimos que denunciam as práticas ilegais de empresas privadas (bancos e
empresas de tabaco e petróleo) para as autoridades públicas; eles
denunciam ao público em geral essas próprias autoridades públicas.


Nós realmente não soubemos de nada através do WikiLeaks que não
suspeitássemos — mas uma coisa é suspeitar de modo geral e outra ter
dados concretos. É um pouco como saber que um parceiro sexual está nos
traindo. Pode-se aceitar o conhecimento abstrato disso, mas a dor surge
quando se conhecem os detalhes picantes, quando se tem fotos do que eles
estavam fazendo.


Quando confrontado com tais fatos, cada cidadão decente dos EUA não
deveria se sentir profundamente envergonhado? Até agora, a atitude do
cidadão médio foi um desmentido hipócrita: preferimos ignorar o trabalho
sujo feito por agências secretas. A partir de agora, não podemos fingir
que não sabemos.


Não é o suficiente ver o WikiLeaks como um fenômeno anti-americano.
Estados como China e Rússia são muito mais opressivos do que os EUA.
Basta imaginar o que teria acontecido com alguém como Chelsea Manning em
um tribunal chinês. Com toda a probabilidade, não haveria julgamento
público; ela iria simplesmente desaparecer.


Os EUA não tratam os prisioneiros da mesma maneira brutal – por causa
de sua prioridade tecnológica, eles simplesmente não precisam da
abordagem abertamente brutal (e estão mais do que prontos a aplicá-la
quando necessário). Mas é por isso que os EUA são uma ameaça ainda mais
perigosa para a nossa liberdade do que a China: as medidas de controle
não são percebidas como tal, enquanto a brutalidade chinesa é exibida
abertamente.


Em um país como a China, as limitações da liberdade são claras para
todos, sem ilusões. Nos Estados Unidos, no entanto, as liberdades
formais são garantidas, de modo que a maioria das pessoas vive sem nem
sequer estar conscientes do quanto são controladas por mecanismos
estatais.


Em maio de 2002, foi noticiado que cientistas da Universidade de Nova
York tinham anexado um chip de computador capaz de transmitir sinais
elementares diretamente no cérebro de um rato – o que permite aos
cientistas controlar os movimentos do rato por meio de um mecanismo
parecido com um controle remoto de um carro de brinquedo. Pela primeira
vez, o livre-arbítrio de um animal vivo foi tomado por uma máquina
externa.


Talvez aí resida a diferença entre os cidadãos chineses e nós,
cidadãos livres em países liberais ocidentais: os ratos humanos chineses
são pelo menos conscientes de que são controlados, enquanto nós somos
os ratos estúpidos passeando em torno do conhecimento de como nossos
movimentos são monitorados.


O WikiLeaks está perseguindo um sonho impossível? Definitivamente não, e a prova é que o mundo já mudou desde suas revelações.


Não ficamos apenas cientes de muita coisa das atividades ilegais dos
EUA e de outras grandes potências. O WikiLeaks tem conseguido muito
mais: milhões de pessoas comuns se tornaram conscientes da sociedade em
que vivem. Algo que até agora nós tolerávamos silenciosamente tornou-se
problemático.


É por isso que Assange foi acusado de causar tanto mal. No entanto,
não há violência no que o WikiLeaks está fazendo. Nós todos já vimos a
cena clássica dos desenhos animados: o personagem chega a um precipício,
mas continua correndo, ignorando o fato de que não há chão sob seus
pés; ele começa a cair apenas quando olha para baixo e percebe o abismo.
O WikiLeaks está lembrando aqueles que estão no poder de que devem
olhar para baixo.


A reação de muitas pessoas que sofreram lavagem cerebral da mídia
sobre as revelações do WikiLeaks pode ser resumido nos versos memoráveis
da música final do filme de Altman “Nashville”: “Você pode dizer que eu
não sou livre, mas isso não me preocupa”. O WikiLeaks faz com que nos
preocupemos. E, infelizmente, muitas pessoas não gostam disso.

“Sucesso incrível” da Copa

“Sucesso incrível” da Copa (by The New York Times) melhora aprovação de Dilma | Blog da Cidadania

“Sucesso incrível” da Copa (by The New York Times) melhora aprovação de Dilma





No primeiro caderno da última edição dominical da Folha de São Paulo (22/6), uma matéria surpreendente: “Prenúncio de que a Copa seria o fim do mundo não aguentou 3 dias”.
Assinada pelo colunista Nelson de Sá, a matéria surpreende qualquer um
que lê a imprensa brasileira por ter “empurrado” para a imprensa
estrangeira um pecado da imprensa brasileira. O colunista atribui à
imprensa estrangeira as previsões negativas sobre a Copa no Brasil.


O caradurismo não é só desse jornalista, mas do próprio jornal – um
mea-culpa sobre a cobertura da organização da Copa de 2014 seria
imperativo diante daquela que, de fato, está sendo a “Copa das Copas”. E
não só pela boa organização do evento, mas pelo que se vê em campo.


A infraestrutura tem funcionado tão bem quanto a que seria esperável
em qualquer país do dito “Primeiro Mundo”, os jogos são emocionantes, o
nível técnico tem sido altíssimo, o futebol latino-americano vai se
impondo sobre o do resto do mundo, levando incontáveis nações das
Américas a um verdadeiro orgasmo desportivo.


Eis o que ninguém previu. Ou melhor, eis o que aqueles que previram
não puderam dizer devido a uma literal censura da grande imprensa a
qualquer ponderação sobre os exageros que estavam sendo cometidos pela
imprensa e por partidos de oposição de direita e de esquerda, os quais
enganaram os brasileiros com afirmações falsas sobre o financiamento da
Copa e sobre problemas corriqueiros em qualquer grande evento.


Como foi previsto neste blog por incontáveis vezes, os profetas do
apocalipse deram com os burros n’água. Aqui sempre foi dito que a Copa
começaria, tudo estaria pronto e funcionando e que os que previam o
contrário ficariam com a brocha na mão.


Não é por outra razão que na mesma Folha de São Paulo, escondida na coluna “Painel”,
uma notinha de apenas uma frase, mas que tem um potencial político
imenso, revela que chegou a hora de Dilma capitalizar seu bom trabalho.
Abaixo, o texto da Folha


De virada
Assessores do Planalto estão
exultantes com pesquisa interna que afirma que 60% dos brasileiros
consideram a Copa boa ou ótima até agora
 
Mesquinharia da Folha. A pesquisa interna do Planalto mostra muito
mais. Informações obtidas pelo Blog via contatos telefônicos dão conta
de que esses 60% dos brasileiros não dizem que “a Copa é que tem sido
boa ou ótima até agora”. Essa maioria diz que a ORGANIZAÇÃO da Copa e a
qualidade dos jogos é que têm sido “boas ou ótimas”.


Qual o efeito eleitoral disso? Na avaliação do Planalto, é
expressivo. Tão expressivo que a Folha detectou e, visando se distanciar
do alarmismo que promoveu ao lado de outros grandes meios de
comunicação, publicou essa reportagem de Nelson de Sá, na tentativa vã
de fazer seus leitores de besta ao empurrar-lhes a versão de que o
catastrofismo desportivo-organizacional partiu do exterior e não daqui
mesmo, do Brasil.


A matéria em questão foi econômica ao relatar as análises que estão
sendo feitas em toda parte do mundo sobre a capacidade do país de
organizar um evento desse calibre. Uma das matérias da imprensa
estrangeira citadas pela Folha é de autoria de Sam Borden,
correspondente esportivo do diário norte-americano The New York Times na
Europa. No último dia 17, Borden qualificou a Copa no Brasil como
“sucesso incrível” em artigo que ironiza o noticiário sobre o evento,
chamando-o de “previsão do dia do juízo final”.








O Blog traduziu alguns trechos do artigo de Borden. Confira, abaixo.


The New York Times
San Borden
17 de junho de 2014 
Um estádio não ficaria pronto a
tempo. Outro não ficaria pronto nunca. Protestos violentos iriam ameaçar
os fãs e estragar tudo. Greve no aeroporto e no metrô deixariam
milhares de visitantes sem transporte.
Essas e outras previsões do dia
do juízo final foram preocupações perpétuas nos dias que antecederam a
Copa do Mundo no Brasil, mas, após quase uma semana inteira de jogos, a
situação no maior país da América do Sul dificilmente pode ser
considerada sombria.
Para os fãs que gostam de gols
que enchem os olhos, resultados surpreendentes e futebol elegante, este
campeonato, até agora, tem sido um sucesso incrível. Os jogos são
apaixonantes, e o drama dos jogos tem sido perfeito para a televisão.
[...]
Há que dizer que ninguém pode
realizar um grande evento esportivo como a Copa do Mundo ou as
Olimpíadas sem alguns problemas. Este ano, em Sochi, na Rússia, os jogos
de inverno tiveram invasão de cães vira-latas, hotéis incompletos, ou
inexistentes. Em 2004, os jogos de verão em Atenas tiveram greves de
trabalhadores, contratempos com a infraestrutura, e histeria em uma
infinidade de lugares. O parque olímpico onde ocorreram os jogos de
Londres em 2012, uma semana antes ainda estava em obras.
Diante dessa realidade, certamente o Brasil merece mais indulgência.
[...]
A gama de problemas tem sido
grande. Alguns tiveram que ver com acabamento da construção, como fios
elétricos visíveis no estádio do São Paulo ou a instalação de aparelhos
de ar-condicionado e carpete horas antes do apito inicial, em Cuiabá, ou
30% dos porteiros do estádio de Brasília, que não apareceram para
trabalhar, criando impasse do lado de fora das catracas. Alguns foram
cosméticos, como a grama queimada no estádio de Manaus, que obrigaram a
organização do estádio a pintar o gramado com tinta verde.
Nada disso foi definitivamente
prejudicial para o evento. Os jogos puderam ocorrer dentro das
previsões. Mas a cada dia ocorreram problemas cujo potencial não pôde
ser previsto. No domingo, em Porto Alegre, por exemplo, o sistema de som
do Estádio falhou com as equipes já em campo, deixando os jogadores de
França e Honduras, que esperavam pelos hinos nacionais de seus países,
enfurecidos.
[...]
Para ser justo, a sorte é sempre
um fator nesses espetáculos. Qualquer grande evento pode ter um deslize
imperceptível, como o NFL aprendeu em 2013, quando o Super Bowl foi
adiado por quase uma hora depois de um apagão que mergulhou o Superdome,
em Nova Orleans, na escuridão. Em comparação, o problema com as luzes
no estádio de São Paulo durante o jogo de abertura da Copa do Mundo foi
um problema menor.
[...]
Como sempre ocorre, a preocupação
com a logística foi discutível. Em geral, as condições para realização
dos jogos têm sido excelentes. Em cidades como Natal e Salvador – onde
os campos sofreram chuva excepcionalmente pesada -, ficou comprovada a
qualidade dos sistemas de drenagem. Em última análise, esta é a
prioridade mais importante, pois as condições para realização dos jogos
são o que geralmente definem o legado histórico de um evento.
[...]
A pesquisa interna do Palácio do Planalto citada (de forma incompleta
e tímida) pela Folha faz todo sentido. Basta um mínimo de reflexão para
entender. A menos que a maioria dos brasileiros seja composta de
lunáticos, todos estão fazendo o “link” entre o que foi previsto e o que
está acontecendo.


Ora, se foi previsto “juízo final” e, muito pelo contrário, o que se
vê é uma festa linda que está encantando não só o Brasil, mas o mundo,
no mínimo o mau-humor de parte dos brasileiros com Dilma Rousseff será
repensado. Os mais inteligentes perceberão que ela foi alvo de tremenda
injustiça, encetada, obviamente, por uma politicagem rasteira e de viés
eleitoreiro. Os brasileiros não são injustos. Ao menos a maioria de nós,
não é.


A sagração dos idiotas

A sagração dos idiotas | TIJOLAÇO | 


A sagração dos idiotas

20 de junho de 2014 | 11:55 Autor: Fernando Brito






Algumas vezes, desanimo.


O tempo pesa e nos faz procurar o que é mais confortável para o corpo e a mente doídos pelos anos.


Não vivo para lutar, porque não sou um selvagem.


A civilização tem, entre suas virtudes, permitir a contemplação, o encantamento, a tolerância.


Com os outros, sobretudo, porque  se não sou um selvagem, sou capaz
de amar além do que amam os animais: a si,  a seu par,  a sua prole, seu
grupo, todos projeções de si mesmos.


Quando nos civilizamos, deixamos de competir para colaborar e é por
isso que compreendo o capitalismo como a negação do processo
civilizatório.


Também não vivo para ser dono, porque – ah, que bom o  sic transit gloria mundi - não sou um selvagem que depende da defesa de seu território vital, a Lebensraum maldita do nazismo.


Mas sou um ser humano real, que convive com contas, supermercado,
prestações, amores, desencontros e cinco malditos comprimidos cardíacos e
correlatos, que todo dia faço força para lembrar e mais ainda para
esquecer.


Sei que o mundo ideal – e olhe lá – só pode existir dentro de mim e de meus sonhos, assim mesmo corrompido pelo egoísmo.


Quando a gente envelhece, tende a se atribuir um excelência que não
se tem, uma perfeição que não se alcançou, uma lucidez que é apenas um
autoelogio.


Devo estar errado sobre muita coisa, portanto. O que é, aliás,  uma das poucas certezas que tenho.


Das outras, apenas algumas, bem esquisitas nesse mundo de hoje.


Uma delas fui descobrir que aprendi ainda criança, lendo Monteiro
Lobato – que pena que todos os meninos não o leiam mais – quando a
boneca Emília “ensina” Hércules a vencer o gigante Anteu, rei da Líbia, a
quem ninguém jamais batera em luta, mandando que o  levantasse sobre
sua hercúlea cabeça.


É que Anteu era filho de Gea, a Terra, e era pelos seus pés no chão que lhe vinham as energias invencíveis.


É por isso que nunca cri em arrogantes, em tecnocratas, em falsos
sábios que não amavam e sentiam seu povo, porque ser um povo é o chão
humano.


Manter-se ligado a ele não é, necessariamente, algo físico.


Mas são raros os privilegiados que conseguem fazê-lo vivendo nos círculos de poder e dinheiro.


Lula, Brizola, quem mais?


Creio, sim, que a esquerda vencerá esta eleição.


Mas pela regra irônica de Millôr Fernandes de que mais importante do que ser genial é estar cercado por medíocres.


Passado o necessário pragmatismo da batalha eleitoral – porque é no
voto popular que está a via da mudança – creio que será necessário que
Lula – que é a referência que restou deste processo de canibalização de
ideias que sempre acompanha os períodos de poder – seja o líder um
movimento de oxigenação da esquerda que se tornou vital para sua
sobrevivência.


Curiosamente, uma renovação pelo que sobrou daqueles que não perderam
ao contato de seus pés com o chão e, por isso, mantém suas cabeças na
altura dos sonhos.


E que negue, com toda a força e delicadeza de que é feita a
civilização humana,  a lógica infame que se construiu neste país onde os
idiotas são consagrados como modelos.

TIJOLAÇO

Globo defende abertamente criminalização de blogueiros | TIJOLAÇO | 









Globo defende abertamente criminalização de blogueiros

22 de junho de 2014 | 11:38 Autor: Miguel do Rosário
bloggers
Entrevista de Obama para blogueiros progressistas. Matéria do Huffington Post. Clique na imagem para acessar a matéria.
Desde 2010, no mínimo, que o presidente Barack Obama, recebe “blogueiros progressistas” na Casa Branca.


Aqui no Brasil, onde nenhum blogueiro – com exceção de Jorge Bastos
Moreno, do Globo – jamais falou com Dilma, a Globo, que detêm uma
hegemonia da comunicação social consolidada durante o regime militar,
agora defende, em editorial, uma teoria curiosa.


Segundo o jornal, Gilberto Carvalho não poderia ter recebido blogueiros e ativistas sociais num espaço público.


Na véspera, Merval Pereira também já havia atacado
os blogueiros. Chega a ser honroso, para a blogosfera, que a Globo
pretenda se polarizar, de maneira tão radical, com aqueles que pensam de
outra forma e atuam pela internet.


Entretanto, o jornal perdeu a linha. Num arroubo tirânico, ele agiu
como se ainda estivéssemos na ditadura. Para os Marinho, Carvalho não
deveria ter recebido blogueiros e ativistas por causa de sua ideologia.


Esta é o espírito de liberdade da nossa mídia: uma campanha
sistemática para criminalizar tudo que cheire a política e a ideologia.


É a mesma mídia que faz campanha contra os partidos dizendo que eles
“não tem mais ideologia’, que virou tudo uma “geléia geral”.


Aí quando aparece a ideologia, a mesma mídia tem ataque de pânico e grita: “bandidos! bandidos!”


A imprensa corporativa não esconde mais sua estratégia suja de criminalizar a política. Está lá, com todas as letras:


Mas costumam ser tantas as transgressões à legislação eleitoral, e
não apenas nesta eleição, que os transgressores parecem vencer pelo
cansaço. No caso desse ilustrativo encontro, o mais importante terminou
sendo as próprias características da reunião e a agenda discutida.



Talvez pela crescente preocupação com a tendência das pesquisas
eleitorais, lulopetistas começam a se descuidar. Escancaram conversas
sugestivas entre uma autoridade, blogueiros e jornalistas ligados ao PT,
muitos dos quais atuam apoiados financeiramente por meio de anúncios de
estatais. Recebem dinheiro público.



Na reunião, de um total de 20, talvez um blogueiro ali recebesse um
anúncio público, e não do governo federal. Nada que se compare aos
bilhões recebidos pela Globo. Ou seja, a emissora mente, manipula e
criminaliza.


Repare na expressão: “jornalistas ligados ao PT”. Como é que é?
Ligados? Se fossem ligado ao PSDB, ao PCdoB, ao PSB, também não poderiam
frequentar o Planalto? Ou só não podem ser “ligados” ao PCC, quer
dizer, ao PT?


O Globo decretou que partidos políticos são ilegais e inconstitucionais?


O Globo preferia que Carvalho mantivesse reuniões secretas, como
Dilma fez com João Roberto Marinho, que, repito, este sim recebe e
sempre recebeu dezenas ou mesmo centenas de bilhões de verba pública?


Olha só que curioso. Carvalho, mero secretário da presidência da
república, faz uma reunião aberta, transparente, transmitida ao vivo
online, com dezenas de pessoas, para explicar um decreto presidencial. Isso, para o Globo, não pode.


Agora, um dos proprietários da Globo, faz reunião absolutamente secreta com a própria presidenta da república, na sala de reunião mais importante do Palácio do Planalto, e isso é perfeitamente legal.


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Claro, os Marinho são pessoas do bem, democráticos, interessados no
bem estar nacional. Jamais foram chapa-brancas. Jamais apoiaram nenhum
governo. Jamais abafaram escândalos.


Blogueiros e ativistas, por sua vez, são bandidos que não poderiam jamais ser recebidos num ambiente público.


Se Carvalho quisesse encontrá-los, que o fizesse em algum covil escuro de Brasília, não é?

Globo inicia nova campanha contra Abreu Lima

Globo inicia nova campanha contra Abreu Lima | TIJOLAÇO | 


Globo inicia nova campanha contra Abreu Lima

22 de junho de 2014 | 10:41 Autor: Miguel do Rosário
Brasil quer saber como afundou a P-36


O Globo de hoje inicia uma nova campanha contra a Petrobrás, através de manipulações de dados sobre a refinaria Abreu e Lima.


O centro da mentira consiste em afirmar, com ênfase sensacionalista,
que o custo inicial do projeto da refinaria era de US$ 2,3 bilhões.


A estatal já respondeu, inúmeras vezes, e o jornal se recusa sequer a
publicar, nem que seja apenas para constar, a resposta da Petrobrás. A
teoria de “dar o outro lado” só vale quando o investigado é tucano.
Quando se trata de estatal federal, esquece.


A resposta da estatal sobre a questão do valor é esta:


(…) a Petrobras repudia a informação repercutida pela imprensa de que
o projeto da refinaria teria sido aprovado com base em “conta de
padaria”. O orçamento de US$ 2,4 bilhões se referia a concepção
preliminar e incipiente, feita pelo corpo técnico da empresa, como já
esclarecido inúmeras vezes. O valor inicial do projeto que deve ser considerado e que começou a ser construído era de US$ 13,4 bilhões. A previsão atualizada é de US$ 18,5 bilhões.


É a terceira vez seguida que a Petrobrás responde esse item ao Globo e ele não publica no jornal.


O jornal também está manipulando informações do Tribunal de Contas da
União, que ainda não chegou a nenhuma conclusão de sobrepreço. Mas o
Globo trata a mera investigação do TCU como prova de superfaturamento, o
que é absurdo.


Vale notar que o TCU tem atuação fortemente política, porque o
ministro do tribunal responsável pela análise dos contratos da Petrobrás
é José Jorge, um ex-senador do DEM. Que foi – pasmem! – ministro de
Minas e Energia do governo Fernando Henrique!


Ou seja, o ministro do TCU que hoje abastece a imprensa com
escândalos sensacionalistas sobre a estatal é o mesmo que respondeu pelo
afundamento da plataforma P-36 durante a gestão tucana.


Para o Globo e o PSDB, afundar plataforma, pode. Construir plataformas e refinarias, não pode.


Ao final da matéria, anuncia-se que amanhã tem mais. Título da
matéria de amanhã: “Petrobrás sabia que projeto de Abreu e Lima era
economicamente inviável”.


Inviável?


A Petrobrás deveria informar ao Globo qual o prejuízo total do afundamento da plataforma P-36.


Interessante fazer a comparação: a gestão petista está entregando uma
Petrobrás com várias refinarias de primeira linha, as maiores reservas
de petróleo do mundo, além de uma série de novas plataformas de extração.


Quantas refinarias foram construídas na gestão tucana? Quantas
plataformas foram feitas? Quanto petróleo foi descoberto? Essas
comparações precisam ser examinadas, porque a imprensa está confundindo,
como sempre, investigação com sensacionalismo. Se há problemas em
alguma obra na Abreu Lima, isso não invalida a sua importância
estratégica para elevar a capacidade de refino no país.


Pela primeira vez, em sua história, o Brasil caminha para se tornar
independente em seu próprio abastecimento de gasolina, o que levará a
uma economia de dezenas, ou mesmo centenas de bilhões de dólares, ao
longo dos próximos anos, porque não precisaremos mais importar gasolina
ou diesel, e, ao contrário, seremos exportadores de petróleo refinado.


Essas contas precisam ser divulgadas. Quanto o Brasil ganhará, em dez
anos, quando a Abreu Lima estiver pronta? Qual a importância
geopolítica, para um país, de possuir uma refinaria como a Abreu Lima,
que usará tecnologia de ponta, e será uma das unidades mais modernas do
mundo em seu campo de atuação?

Espumando de raiva e ódio

A rapaziada do PSDB anda espumando de raiva e ódio com o sucesso da Copa das Copas 

A rapaziada do PSDB  anda espumando de raiva e ódio com o sucesso da Copa das Copas construída pelo PT e PCdoB....
Da revista Veja costumo ler somente a capa dos exemplares que encalham
nas gôndolas dos supermercados; a dessa semana, pelo que me lembro, cede
ao irresistível apelo que vem marcando a Copa do Mundo do Brasil e
exalta a alegria geral mas, para não perder a viagem, ameaça o povo
brasileiro com a sentença: curta a festa, porque não haverá legado de
longo prazo. Claro, assim que a Copa do Mundo acabar e o último torcedor
estrangeiro for embora, nossos aeroportos voltarão a ser o que eram; as
obras de mobilidade urbana se desmancharão no ar como hologramas, e
todo o volume de dinheiro deixado por aqui pelos turistas se
transformará em moedas de chocolate ou dinheiro de mentirinha, daqueles
de banco imobiliário. Para a Veja, somos trouxas de acreditar mais no
que vemos do que no que ela diz. Afinal, ela avisou que, no ritmo em que
iam as obras para a Copa do Mundo, os estádios ficariam prontos em...
2038! E eu fico imaginando – meu Deus! – onde a Veja acha que o Chile
despachou a Espanha e a Costa Rica derrotou a poderosa Itália, senão em
estádios modernos, novos em folha e que... ficaram prontos a tempo?!
Aliás, bem em cima da hora, como nas Olimpíadas de Londres ou na Copa do
Mundo da África do Sul.
É inacreditável, mas a Copa do Mundo está servindo justamente para
desfazer o trabalho duro que Veja e a mal chamada “grande imprensa”
tiveram nesses anos todos para cravar a imagem internacional do Brasil
como uma terra arrasada pela corrupção e incompetência – que teriam sido
inventadas em 2003, claro! Essa turma não viu nada de bom no Brasil
esses anos todos; seu entusiasmo com as perspectivas do país é
inversamente proporcional ao tempo em que a taxa de desemprego por aqui
batia na casa dos 20%, e que a renda do trabalhador perdia seguidamente
para uma inflação que se media em dois dígitos. Aquilo é que era um
tempo glorioso, segundo eles. E, para eles, devia ser mesmo. Patrimônio
público vendido na bacia das almas, migalhas em forma de “vale-isso” e
“vale-aquilo” distribuídas de acordo com os interesses políticos de
caudilhos paroquiais, ministro de estado que tirava o sapato para ser
revistado ao entrar nos EUA, o país insolvente por três vezes em sete
anos. Naquele momento histórico de triste lembrança, O Brasil
candidatou-se a sediar a Copa do Mundo de 2006 – episódio resgatado pelo
incansável Eduardo Guimarães em seu Blog da Cidadania. Fez um papelão.
De fato, aquele país sem importância geopolítica alguma não tinha
condições de se propor a sediar um evento como esse. Mas aquele governo
tentou. Alguém tem dúvidas de que se a sede do Brasil tivesse sido
aprovada ainda sob um governo tucano, essa mídia não daria um jeito de
atribuir o sucesso da Copa a FHC? Eu não. A lógica da
mídia-partido-de-oposição-ao-PT é a seguinte: todos os acertos de Lula e
Dilma são méritos de FHC; todos os erros de FHC são culpa do “frango da
Malásia” – crises externas para as quais não estávamos preparados.
Eu, como sou latino, pobre e piegas – tudo de que a Veja se
envergonharia de ser –, tenho me comovido muito nessa Copa do Mundo –
com a recuperação heroica de Luiz Soares, do Uruguai; com a raça da
seleção chilena; com a épica classificação da Costa Rica; com a
dignidade das seleções africanas, com jogadores de seleções modestas e
sem chance na disputa pela taça mas que agradecem pela oportunidade de
estar em um mundial. Gente sendo o que pode ser sempre me comove. Mas,
sobretudo, tenho me comovido com o povo brasileiro. O povo que rechaçou
inequivocamente as ofensas a Dilma, que não se confunde com gente mal
criada e mal intencionada. Não somos preguiçosos, nem corruptos, nem
incompetentes; mas temos uma das elites mais antinacionais do planeta.
Os meios de comunicação tradicionais pertencem a essa elite e servem aos
interesses dela, que não são os do Brasil.
O maior legado dessa Copa, em minha opinião, é imaterial: o resgate da
imagem internacional do país, tão vilipendiada pela nossa direita
midiática, e o encontro de seu povo com a própria – e boa – imagem. Não
me admira que Veja já o ameace; a parcela venal da imprensa brasileira
só não está falando mal do país durante a Copa porque está tendo de
dividir espaço com a cobertura internacional. Quando os correspondentes
forem embora, aí sim, começa a tarefa de desconstruir o maior legado do
evento – a nova imagem do Brasil no mundo. Tudo farão para tirar o
sorriso da boca e o orgulho do peito dos brasileiros; para que tenham o
sucesso eleitoral que almejam precisam semear desesperança e ódio.
Tentarão transformar o legado da Copa, o material e o imaterial, em
fatos negativos. Dirão que a Copa não resolveu os problemas sociais que
persistem, como se dela fosse esse o papel. Esquecerão que o caos que
previram não veio e preverão as mesmas catástrofes outra vez.
É uma pena ter uma mídia assim porque ela interdita o debate real sobre
nossas possibilidades e perspectivas; há, é certo, correções de rumo a
fazer e mudanças que devemos ter a coragem de propor a nós mesmos. Mas é
fundamental também um debate honesto sobre o quanto já avançamos. É
preciso discutir o modelo de desenvolvimento do país e os valores que
vão orientar os processos futuros. É preciso, sobretudo, discutir sobre
quais valores queremos assentar a sociedade que pretendemos ser. Mas
como fazer isso se os meios de comunicação tem uma pauta própria,
inegociável, e vinculada aos interesses econômicos de grandes
corporações e que nada tem a ver com mais igualdade, com mais direitos, e
com mais bem estar social? Como fazer se esses meios, de propriedade da
elite nacional, detestam com fervor o povo brasileiro?
Convencido do acerto que foi fazermos a Copa do Mundo no Brasil nesse
momento e do sucesso estrondoso que temos demonstrado na organização do
mundial, vou aceitar meio conselho da Veja e curtir a festa; mas depois,
como creio devem fazer todos os brasileiros decentes, pretendo defender
o legado que ela nos deixa: o reencontro com a ideia de sermos um povo,
de sermos capazes e de merecermos o respeito do mundo.

Prenúncio de que Copa seria o 'fim do mundo' não aguentou 3 dias

Folha de S.Paulo - Poder - Prenúncio de que Copa seria o 'fim do mundo' não aguentou 3 dias - 22/06/2014







A Copa Como Ela É
Prenúncio de que Copa seria o 'fim do mundo' não aguentou 3 dias
Início do Mundial no Brasil reverteu expectativa da mídia internacional de
que o evento seria desastroso para o país



Estádios que 'Nunca' ficariam prontos já receberam jogos --e sem grandes
problemas



NELSON DE SÁ DE SÃO PAULO
Do início do ano até a abertura da Copa do Mundo, a imagem do Brasil foi
alvo de um ataque de histeria na mídia ocidental.



Na capa da revista alemã "Der Spiegel", com o enunciado
"Morte e jogos - O Brasil antes da Copa do Mundo", uma bola em chamas
caía como meteoro sobre o país.



Os tabloides ingleses avisavam que torcedores arriscariam suas vidas se
viajassem ao Brasil, e que Londres já havia sido consultada para sediar os
Jogos Olímpicos de 2016 no lugar do Rio.



O correspondente do "New York Times", Simon Romero, anunciava na
primeira página que as obras atrasadas e mortais dos estádios simbolizavam o
fim das "grandes ambições" do Brasil.



Iniciada a Copa, porém, o fim do mundo que fora anunciado por quase seis
meses não aguentou três dias.



No sábado (14), a maior e mais independente agência de notícias, Reuters,
informou que os torcedores estrangeiros estavam felizes de encontrar tudo de pé
e que os protestos eram pequenos.



Desde antes, na verdade, celebridades e jornalistas vinham tuitando a
estranheza por não encontrar o caos imaginado ao chegar ao país.



A qualidade crescente dos jogos pesou na mudança de humor, assim como os
xingamentos à presidente.



A inglesa "Economist" creditou a grosseria aos "paulistanos
endinheirados" e afirmou que eles não representavam ameaça à reeleição.
Análises posteriores disseram que podiam até ajudar.



A mistura de gols com infraestrutura abafou o pouco que havia de protesto,
que passou a ter dificuldade para ser ouvido --como observavam os próprios
veículos que não os ouviam.



As manifestações que ocorreram no início resultaram em breves críticas à
repressão policial, por ter ferido jornalistas estrangeiros.



Ao fim da primeira semana de jogos, vieram os balanços e o veredicto do
correspondente de "NYT", Sam Borden, de que as "previsões de dia
do juízo final dão lugar a soluços menores".



Estádios que não ficariam prontos "nunca" já tinham recebido jogos
--e seus problemas não passavam de fios visíveis ou grama pintada.



Os tabloides londrinos, que antes alertavam para a violência no Brasil,
destacavam que um comentarista de TV deixou a Copa às pressas, depois de um
violento assalto a sua casa na Inglaterra.



Questionavam ainda uma integrante do governo que havia recomendado evitar
viagem à sede da Copa --e que, agora, aparecia em fotos no Brasil, festejando.



Antes do torneio, um especialista do King's College havia previsto que a
cobertura exageradamente negativa reduziria as expectativas --e acabaria
revertendo, no final, em avaliação positiva.



A reversão aconteceu não só antes do esperado, mas em grau bem maior.

 


sábado, 21 de junho de 2014

Abutres, coveiros e goiabas

Abutres, coveiros e goiabas - Carta Maior

Abutres, coveiros e goiabas

A campanha nacional e internacional contra o Brasil e os
brasileiros disseminou três tipos de detratores do nosso país: abutres,
coveiros e goiabas.




Flávio Aguiar



Arquivo



A campanha nacional e
internacional contra o Brasil e os brasileiros disseminou três tipos de
detratores do nosso país: abutres, coveiros e goiabas.

1. Os abutres

São
os mais ideológicos de todos. No plano internacional têm sido puxados
por The Economist e Financial Times. Para eles o Brasil se assemelha a
uma valiosa cariniça a ser saqueada. O valor da carniça aumentou muito
desde as descobertas na camada atlântica do pré-sal. Muitos deles mantém
uma pretensa elegância, muito própria para quem gosta de usar ternos de
grife no trabalho. Seu estilo preferido é o prosaico analítico, com
direito, vez por outra, a certos sarcasmos pesados, que eles vêem como
mera ironia, como a de comparar a nossa presidenta a Groucho Marx.
Adoram elogiar o México e a Aliança do Pacífico, como “respostas” ao
Brasil e o Mercosul. No fundo, no fundo, o que queremé garantir o máximo
possível de renda para o capital rentista e a parte do leão das
riquezas brasileiras, passadas, presentes e futuras para ele. Às vezes
animam gente mais grosseira, como no caso das vaias VIP, no Itaquerão.
Mas aí começamos a entrar
 no segundo grupo.

2. Os coveiros

De
um modo geral, são aqueles detratores que, no fundo, bem no fundo,
acham que nasceram no país, na latitude e na longitude erradas, além do
fuso horário trocado. Latitude errada: nasceram no hemisfério sul.
Longitude errada e fuso horário trocado: a hora da nossa capital não é a
mesma de Washington, nem de Londres, nem de Paris. Grosso modo,
dividem-se em dois grupos. O primeiro simplesmente detesta o país em que
nasceu. Não suporta olhar pela janela e ver bananeiras ao invés de pine
trees. Detesta até ver palmeiras ao invés de palm trees. São os
detratores de sempre, os que se ufanam da Europa e dos Estados Unidos e
que pensam que o nosso povo é desqualificado para ser um povo. Sua
abrangência é nacional, mas também aparecem alguns no plano
internacional. Ouvi durante seminário recente aqui em Berlim que o
Brasil é um país que não tem cultura, só tem música e samba. Não sei
exatamente o que a pessoa em questão, que não era brasileira, entendia
por “cultura”, “música” e “samba”, mas sei muito bem o que ela entendia
por ”Brasil”: um bando de gente nu por fora e por dentro, mais ou menos
como os primeiros europeus viam os índios quando chegaram para
conquistá-los e dizimá-los. São e serão os coveiros de sempre. O segundo
grupo pegou carona na campanha dos abutres. Gosta de falar mal do
Brasil de agora, este que aí está, com pleno emprego e melhora na
repartição de renda. Quer dar a volta no relógio e no calendário, nos
ajustar de novo ao tempo em que pobre era miserável e miserável não era
nada. Acha que pode garantir de novo os aeroportos só para si. Mas é um
grupo que gosta de falar também em generalidades. Se dentro do Brasil,
usa o pronome nós (“nós somos corruptos”, “nós somos violentos”, “nós
somos ineficientes”, etc.), mas é um “nós” que tem o valor de “eles”,
pois só vale da boca para fora.
É uma verdadeira proeza gramatical.
Pois o distinto coveiro deste grupo se apresenta, explícita ou
implicitamente, como uma exceção. Os estilos preferidos variam: vão do
insulto grosseiro à lamentação sutil. Os coveiros deste grupo costumam
ter um alvo preciso, que copiam dos abutres: no momento atual, a eleição
de outubro. Já os coveiros do primeiro grupo não têm alvo preciso, a
não ser o de fazer compras em Miami (alguns) ou passear de bonde ou
ônibus nas capitais europeias enquanto faz campanha contra corredores de
ônibus nas cidades brasileiras.

3. Os goiabas

Este
é um grupo mais variegado. Seu estilo varia entre a euforia e a
lamentação. Mas são plagiadores profissionais. Copiam sem restrição tudo
o que lhes é servido pelos abutres e os coveiros. Repetem
entusiasticamente: “o gigante acordou em junho do ano passado”. Ou
chorosamente: “a Copa do Mundo no Brasil tirou dinheiro das escolas e
dos hospitais”. E repetem firmes outras condenações peremptórias, como
“a de que os estádios ficarão necessariamente ociosos depois da Copa”.
São muito numerosos, barulhentos, tanto dentro como fora do país. Também
repetem-se muito entre si mesmos, achando que estão sendo originais.
Gostam de dizer que estão “mostrando o verdadeiro Brasil” ao nos
detratar como um país imóvel, que não tem entrada nem saída.

Os
grupos ficaram martelando – mais os coveiros, os goiabas e, mas com a
reza em voz baixa a seu favor vinda dos abutres internacionais e também
com as vezes a reza em voz alta dos abutres nacionais – que a Copa não
ia dar certo, que seria um fracasso, que os aeroportos iam entrar em
colapso, que as cidades (e o metrô de S. Paulo no dia da abertura) iriam
parar, etc.

Deram com os burros n’água. Cavaram a própria cova e
esqueceram de levar uma escada de saída. Ainda esperam que “algo”,
alguma catástrofe, qualquer coisa, aconteça até o final da Copa. Depois
deste final, vão tentar uma de duas: se o Brasil ganhar a Copa, vão
dizer que o nosso povo é um bando de babacas que só sabem correr atrás
da bola quando vêem uma. Se o Brasil perder, vão insistir na ideia de
que o governo jogou dinheiro fora. Vamos ver o que vai acontecer.

Antes
de encerrar, quero esclarecer que “abutres”, “coveiros”, “goiabas” e
até “burros n’água” são apenas metáforas literárias, que não deve ser
lidas literalmente. Nada tenho contra os abutres que, como os urubus,
ajudam a manter a limpeza no seus espaços; nem contra a operosa classe
dos coveiros, tão socialmente valiosos como qualquer outra profissão
laboriosa; muito menos contra as goiabas, frutas deliciosas como tantas
outras; e certamente na da contra os pacientes burros da vida real, que
nada têm de burros. Burros, neste último sentido, apesar de alguns se
acharem espertalhões, são os “abutres”, os “coveiros”, e os “goiabas”.

Por que a raiva ?

Por que a direita anda mais raivosa do que nunca? - Carta Maior

Por que a  raiva?

Os barões das grandes corporações midiáticas perceberam que,
para haver uma oposição de direita forte, é preciso uma ampla opinião
pública direitista.





Antonio Lassance (*)



Charge de Vitor Teixeira




Faz tempo que as
campanhas eleitorais são espetáculos dantescos, movidos por baixarias
sem limites. Enquanto o Tribunal Superior Eleitoral fica muitas vezes
cuidando da perfumaria, os dinossauros reinam.

Mas há algo de novo nesta campanha.

A
começar do fato de que boa parte da perversidade de campanha seguia,
antes, o seguinte roteiro: denúncias na imprensa, primeiro em jornais e
revistas, que depois se propagavam na tevê e no rádio e, finalmente,
ganhavam a rua pela ação dos cabos eleitorais.

Agora, o roteiro
é: denúncias pela imprensa, mas divulgadas primeiro via internet;
propagação pelas redes sociais; repetição pela tevê e pelo rádio e, por
último, sua consolidação  pelo colunismo e editorialismo da imprensa
tradicional.

Embora essa imprensa ainda seja, normalmente, a dona
da informação, seu impacto é cada vez menos medido pela audiência do
próprio meio - que anda em declínio em praticamente todos os veículos
tradicionais - e mais pela sua capacidade de propagação pela internet -
blogs, redes sociais e canais de vídeo, principalmente pelo Youtube. E a
versão que se propaga da notícia acaba sendo tão ou mais importante do
que a notícia em si.

Antes, as pesquisas de opinião calibravam os
rumos das campanhas. Nesta eleição, a internet é quem tende a ditar o
ritmo. As pesquisas vão servir para aferir, tardiamente, o impacto de
alguns assuntos que ganharam peso na guerrilha virtual.

Antes, o
trabalho de amaldiçoar pra valer os adversários políticos era feito
pelos cabos eleitorais que batiam de porta em porta. Agora, os cabos
eleitorais que caçam votos perambulam pelos portais de internet, pelos
canais de vídeo e entram nos endereços dos eleitores pelas redes
sociais.

Uma outra diferença, talvez tão decisiva quanto essa, é
que a direita resolveu aparecer. Antes, o discurso da direita era de que
não existia mais esse negócio de "direita x esquerda".

A
direita, finalmente, saiu do armário e anda mais raivosa do que nunca.
Em parte, a raiva vem do medo de que, talvez, ela tenha perdido o jeito
de ganhar eleições e de influenciar os partidos.

Por outro lado, a
direita imagina que a atual campanha petista está mais vulnerável que
em outras épocas. A raiva é explicada, nesse aspecto, pelo espírito de
"é agora ou nunca".

Os bombardeios midiáticos raivosos têm assumido feições mais pronunciadamente ideológicas.

Ao
contrário de outras eleições, os ataques têm não só mentiras,
xingamentos e destemperos verbais de todos os tipos. Têm uma cara de
pensamento de direita.

Querem não apenas desbancar adversários. Querem demarcar um campo.

Não
é só raiva contra um partido. É ódio de classe contra tudo e contra
todos os que se beneficiam (e nem tanto quanto deveriam) de algumas das
políticas governamentais.

É ódio contra sindicatos de
trabalhadores, organizações comunitárias, movimentos de excluídos (Sem
Terra, Sem Teto), grupos em defesa de minorias e de direitos humanos que
priorizam a crítica a privilégios sociais e aos desníveis
socioeconômicos mais profundos.

A mídia direitista tem
desempenhado um papel central. Sua principal missão é orientar os
ataques para que eles tenham consequência política e ideológica no seio
da sociedade brasileira.

Como sempre, a mídia é diretamente
responsável por articular atores dispersos e colocá-los em evidência,
conforme uma pauta predeterminada.

Embora seja uma característica
recorrente, no Brasil, a mídia tradicional comportar-se como partido de
oposição, nos últimos anos ela parece seguir uma nova estratégia.

Os
barões das grandes corporações midiáticas brasileiras, com a ajuda de
seus ideólogos, perceberam que, para haver uma oposição de direita
forte, é preciso formar uma ampla opinião pública direitista.

Antes
mesmo de cobrar que os partidos se comportem e assumam o viés de
direita, é preciso haver uma base social que os obrigue a agir enquanto
tal.
A mídia tradicional entendeu que os partidos oposicionistas são
erráticos em seus programas e na sua linha política não por falta de
conservadorismo de suas principais lideranças, mas pela ausência de
apelo social em sua pregação.

Em função disso, coisas como o
Instituto Millenium se tornaram de grande importância. O Millenium tem,
entre seus mantenedores e parceiros, a Abert (controlada pelas
organizações Globo) e os grupos Abril, RBS e Estadão. O instituto é
também sustentado por outras grandes empresas, como a Gerdau, a Suzano e
o Bank of America.

O Millenium tenta fazer o amálgama entre
mídia, partidos e especialistas conservadores para gerar um programa
direitista consistente, politicamente atraente e socialmente aderente.

O
colunismo midiático, em todas as suas frentes, é outro espaço feito sob
medida para juntar jornalistas, especialistas e lideranças partidárias
dedicadas a reforçar alguns interesses contrariados por algumas
políticas públicas criadas nos últimos 12 anos.

A estratégia
midiática de reinvenção da direita brasileira representa, no fundo, uma
tentativa desesperada e consciente dessa mesma mídia de reposicionar-se
nas relações de poder, diante da ameaça de novos canais de comunicação e
de novos atores que ganharam grande repercussão na opinião pública.

Com
seu declínio econômico e o fim da aura de fonte primordial da
informação, o veneno em seus anéis tornou-se talvez seu último trunfo no
jogo político.


(*) Antonio Lassance é cientista político.

Cinco derrotas e um lance decisivo - Carta Maior

Cinco derrotas e um lance decisivo - Carta Maior

Cinco derrotas e um lance decisivo

Da
ampliação da democracia depende a sorte das famílias assalariadas, a
repartição da renda e a cota de sacrifícios em um novo ciclo de
crescimento.

por: Saul Leblon




Arquivo





Muitas vezes,  a janela  mais
panorâmica de uma época não se  materializa no indispensável esforço
conceitual para descortinar  a sua essência,  mas em um evento simbólico
catalisador.

O passo seguinte da história brasileira carece 
ainda dessa síntese que contenha as linhas de passagem para um novo
ciclo de desenvolvimento.

A  simplificação analítica,  o
simplismo  ideológico  são incompatíveis com essa sinapse entre o velho e
o novo, projetando-se mais por aquilo que dissipam do que pelo que
agregam.

Nenhum polo do espectro político está imune a essas
armadilhas. Mas até pela supremacia do seu poder emissor é o
conservadorismo que tem liderado o atropelo da tentativa e erro nesse
embate.

Durante meses,  por exemplo, o imperativo ‘não vai ter
Copa’ –e tudo aquilo que ele encerra de denuncismo derrotista--  reinou
soberano  na mídia como uma metáfora esperta  do ‘não vai ter
Dilma’.   

Quando os fatos desmentiram a pretensa equiparação do
Brasil a um Titanic  -- a Copa ,independente da seleção, é um sucesso
de público, de infraestrutura e de qualidade esportiva--   partiu-se
para algo mais  explícito.

O camarote vip do Itaú  –o banco
central do conservadorismo – entrou em cena para mostrar os sentimentos
profundos da elite em  relação ao país.

Repercutiu,  mas não pegou.

Embora
o martelete midiático tenha disseminado a bandeira do antipetismo
bélico, a ponto de hoje contagiar setores populares, como admite  --e 
sobretudo adverte--   o ministro Gilberto Carvalho (leia nesta pág.),   o
fato é que esse trunfo conservador  não reúne a energia necessária
para  inaugurar  uma nova época.

A grosseria dos finos  exala, antes,  seu despreparo  para as tarefas do futuro.

Não quaisquer tarefas.

O
país se depara com uma  transição de ciclo econômico marcada por uma
correlação de forças  instável,  desprovida de aderência institucional ,
ademais de submetida à determinação de um  capitalismo global  avesso
a  outro ordenamento  que não  o vale tudo dos mercados.

Um
desaforo tosco é o que de mais eloquente as ‘classes altas’ tem a dizer
sobre a sua capacitação para lidar com esse supermercado de
encruzilhadas históricas.

Não é o único senão.

Nas últimas
horas ruiu também a simbologia conservadora da retidão heroica e
antipetista,  atribuída  à figura de Joaquim Barbosa.

Na última 3ª feira, o presidente do STF  jogou a toalha respingada de ressentimentos, ao abandonar  a execução da AP 470.

Não sem antes  grunhir, em alemão, o menosprezo pelas questões mais gerais da construção da cidadania no país.

‘Es ist mir ganz egal' , sentenciou sobre as cotas reclamadas por negros e índios no Judiciário.

'Para mim é indiferente; não estou nem aí’.

Esse, o herói dos savonarolas de biografia inflamável.

Seria apenas o epitáfio de um bonapartismo  destemperado, não fosse, sobretudo,  a versão germânica da  indiferença social.

A
mesma  inscrita no jogral dos  que se avocam à parte e acima daquilo
que distingue uma nação de um ajuntamento humano: a pactuação
democrática de valores e projetos que selam um destino  compartilhado.

O particularismo black bloc enfrenta agora seu novo revés no terreno da inflação.
Seja
pela eficácia destrutiva da maior taxa de juro do planeta (em termos
nominais o juro  brasileiro só perde para o da Nigéria), seja pelo
espraiamento das anomalias climáticas  no mercado de alimentos, o fato é
que os principais índices de inflação desabam.

E com eles a bandeira ‘popular’ de Aécio e assemelhados.

Mas há uma variável ainda mais adversa ao conservadorismo no plano  da economia política.

O
fato de o país viver um quadro de pleno emprego dá ao campo
progressista  um trunfo inestimável na negociação de um novo ciclo de
crescimento.

Uma coisa é negociar com trabalhadores espremidos em
filas de desempregados vendendo-se a qualquer preço. Outra, faze-lo  em
um mercado em que a demanda por mão-de-obra cresceu mais que a
população economicamente ativa nos últimos anos.

O conjunto
fragiliza um  certo fatalismo com devotos dos dois lados da polaridade
política,   que encara as eleições como uma formalidade incapaz de
alterar  o  calendário do arrocho, com o qual o país teria um encontro
marcado  após as eleições.

Tudo se passa, desse ponto de vista,
como se houvesse uma concertación não escrita  à moda chilena que
tornaria irrelevante o titular da Presidência, diante dos  limites 
impostos  pela subordinação do Estado  aos  imperativos dos mercados
local e global.

É essa, um pouco,   a aposta  da candidatura
Campos, que se oferece à praça e à  banca como a cola ambivalente  capaz
de dissolver os  dois lados da disputa em um tertius eficiente e
confiável.

O fato de ter fracassado até agora  não implica o
êxito efetivo  do campo progressista em se libertar  da 
indiferenciação   que  rebaixa o papel da democracia na definição do
futuro.

Os desafios desse percurso  não podem ser subestimados.

De
modo muito grosseiro, trata-se de modular um estirão  de ganhos de
produtividade (daí a importância  de se fortalecer seu principal núcleo
irradiador, a indústria, ademais da infraestrutura e da educação)  que
financie  novos degraus de acesso  à cidadania plena.

A força e o
consentimento necessários para conduzir  esse  ciclo --em uma chave que
não seja a do arrocho--  requisitam um salto de discernimento e
organização social  que assegure   o mais amplo debate sobre metas,
prazos, compromissos, concessões, conquistas  e  salvaguardas.

Não se trata, portanto,  apenas de sobreviver  à convalescência do modelo neoliberal.

O
que está em jogo é erguer  linhas de passagem para um futuro
alternativo  à lógica do cada um por si, derivada  de determinações
históricas devastadoras  que se irradiam da supremacia global das
finanças desreguladas, para todas as dimensões da vida, da economia e da
sociabilidade em nosso tempo.

A dificuldade de se iniciar esse
salto  advém, em primeiro lugar, da inexistência de um espaço
democrático de debate  em que os interesses da sociedade  deixem de
figurar apenas como um acorde dissonante no monólogo da restauração
neoliberal.

Cada um por si, e os mercados por cima de todos,  ou a árdua construção de um democracia social negociada?

É em torno dessa disjuntiva que se abre a  janela mais panorâmica da encruzilhada brasileira nos dias que correm.

Da
ampliação da democracia participativa depende o futuro dos direitos
trabalhistas, a sorte das famílias assalariadas, a repartição da renda e
a cota de sacrifícios entre as classes sociais na definição de um novo
ciclo de crescimento.

É essa moldura histórica que magnifica a importância da Política Nacional de Participação Social anunciada agora pelo governo.

Para
que contemple as grandes escolhas  do nosso tempo, porém, é  crucial
que o governo não se satisfaça em  tê-la apenas como um aceno de
participação ou um ornamento  da democracia.

Os desafios são
imensos. Maior, porém, é a responsabilidade do discernimento  que sabe
onde estão as respostas e tem  o dever de validá-las.

Os 10 maiores micos da Copa

Os 10 maiores micos da Copa do Mundo do Brasil - Carta Maior

Na Copa do Mundo do Brasil, foram embora pro chuveiro mais
cedo aqueles que torceram pelo fracasso do país. Confira alguns micos da
elite e da mídia.





Najla Passos



reprodução


A Copa do Mundo do Brasil ainda
não passou da primeira fase, mas já são fartas as gafes, foras e
barrigadas do mundial, especialmente fora do campo.

E,
curiosamente, elas nada têm a ver com as previsões das “cartomantes do
apocalipse” que alardeavam que o país não seria capaz de organizar o
evento e receber bem os turistas estrangeiros. Muito pelo contrário.

Os
estádios ficaram prontos, os aeroportos estão funcionando, as
manifestações perderam força, os gringos estão encantados com a
receptividade brasileira e a imprensa estrangeira já fala em “Copa das
Copas”.

Confira, então, os principais micos do mundial... pelo menos até agora!


1 - O fracasso do #NãoVaiTerCopa

Mesmo
com o apoio da direita conservadora, da esquerda radicalizada, da mídia
monopolista e dos black blocs, o movimento #NãoVaiTerCopa se revelou
uma grande falácia. As categorias de trabalhadores que aproveitam a
visibilidade do evento para reivindicar suas pautas históricas de forma
pacífica preferiram apostar na hashtag #NaCopaTemLuta, bem menos
antipática e alarmista. E os que continuaram a torcer contra o evento e o
país, por motivações eleitoreiras ou ideológicas, amargam o fracasso:
políticos perdem credibilidade, veículos de imprensa, audiência e o
empresariado, dinheiro!


2 – A vênus platinada ladeira abaixo 

Desde
os protestos de junho de 2013, a TV Globo vem amargando uma rejeição
crescente da população. E se apostava no #NãoVaiTerCopa para enfraquecer
o governo, acabou foi vendo sua própria audiência desabar. Uma pesquisa
publicada pela coluna Outro Canal, da Folha de S. Paulo, com base em
dados do Ibope, mostra que no jogo de abertura da Copa de 2006, na
Alemanha, a audiência da Globo foi de 65,7 pontos. No primeiro jogo da
Copa de 2010, na África do Sul, caiu para 45,2 pontos. Já na estreia do
Brasil na Copa, neste ano, despencou para 37,5 pontos.

3 – #CalaABocaGalvão

Principal
ícone da TV Globo, o narrador esportivo Galvão Bueno é o homem mais bem
pago da televisão brasileira, com salário mensal de R$ 5 milhões. Mas,
tal como o veículo que paga seu salário, está com o prestígio cada vez
mais baixo. Criticar suas narrações virou febre entre os fãs do bom
futebol. E a própria seleção brasileira optou por assistir os jogos da
copa pela concorrente, a TV Band. O movimento #CalaABocaGalvão ganhou
ainda mais força! O #ForaGlobo também!


4 – A enquadrada na The Economist 

A
revista britânica The Economista, que vem liderando o ranking da
imprensa “gringa” que torce contra o sucesso do Brasil, acabou
enquadrada por seus leitores. A reportagem "Traffic and tempers",
publicada no último dia 10, exaltando os problemas de mobilidade de São
Paulo às vésperas de receber o mundial, foi rechaçada por leitores dos
EUA, Japão, Holanda, Inglaterra e Argentina, dentre vários outros. Em
contraposição aos argumentos da revista, esses leitores relataram
problemas muito semelhantes nos seus países e exaltaram as qualidades
brasileiras, em especial a hospitalidade do povo.

5 – O assassinato da semiótica

Guru
da direita brasileira, o colunista da revista Veja, Rodrigo
Constantino, provocou risos com o texto “O logo vermelho da Copa”, em
que acusa o PT de usar a logomarca oficial do mundial da Fifa para fazer
propaganda subliminar do comunismo. Virou chacota, claro. O
correspondente do Los Angeles Times, Vincent Bevins, postou em seu
Twitter: “Oh Deus. Colunista brasileiro defendendo que o vermelho 2014
na logo da Copa do Mundo é obviamente uma propaganda socialista”.  Seus
leitores se divertiram usando a mesma lógica para apontar outros
pretensos ícones comunistas, como a Coca-Cola (lol)!

6 – A entrevista com o “falso” Felipão

Ex-diretor
da Veja e repórter experiente, Mário Sérgio Conti achou que tivesse
tirado a sorte grande ao encontrar o técnico da seleção brasileira, Luiz
Felipe Scolari, em um voo comercial, após o empate com o México.
Escreveu uma matéria e a vendeu para os jornais Folha de S. Paulo e O
Globo, que a publicaram com destaque. O entrevistado, porém, era o ator
Wladimir Palomo, que interpreta Felipão no programa humorístico Zorra
Total. No final da conversa, Palomo chegou a passar seu cartão à Conti,
onde está escrito: “Wladimir Palomo - sósia de Felipão – eventos”. Mas,
tão confiante que estava no seu “furo de reportagem”, o jornalista achou
que era uma “brincadeirinha” do técnico...

7 – A “morte do pai” do jogador marfinense

O
jogador da costa do Marfim, Serey Die, caiu no choro quando o hino do
seu país soou no estádio Mané Garrincha, em Brasília. Imediatamente, a
imprensa do Brasil e do mundo passou a noticiar que o pai dele havia
morrido poucas horas antes. A comoção vias redes sociais foi intensa. O
jogador, porém, desmentiu a notícia assim que pode. Seu pai havia
morrido, de fato. Mas há dez anos. As lágrimas se deveram a outros
fatores. "Também pensei no meu pai, mas é por tudo que vivi e por ter
conseguido chegar a uma copa do mundo”, explicou.

8 – “Vai pra casa, Renan!”

Cheio
de boas intenções, o estudante Renan Baldi, 16 anos, escolheu uma forma
bastante condenável de reivindicar mais saúde e educação para o país:
cobriu o rosto e se juntou aos black block paulistas para depredar
patrimônio público na estreia do mundial. Foi retirado do meio do
protesto pelo pai, que encantou o país ao reafirmar seu amor pelo filho,
mas condenar sua postura violenta e antidemocrática. A hashtag
#VaiPraCasaRenan fez história nas redes sociais!

9 – O fiasco do “padrão Fifa”

Pelos
menos 40 voluntários da Copa em Brasília passaram mal após consumir as
refeições servidas pela Fifa, no sábado (14), um dia antes do estádio
Mané Garrincha estrear no mundial com a partida entre Suíça e Equador.
Depois disso, não apareceu mais nenhum manifestante desavisado para
pedir saúde e educação “padrão Fifa” no país!

10 – Sou “coxinha” e passo recibo!

Enquanto
o Brasil e o mundo criticavam a falta de educação da “elite branca” que
xingou a presidenta Dilma no Itaquerão, a empresária Isabela Raposeiras
decidiu protestar pela causa oposta: publicou no seu facebook um post
contra o preconceito e à discriminação dirigidos ao que ela chamou de
“minoria de brasileiros que descente da elite branco-europeia”. “Não
sentirei vergonha pelas minhas conquistas, pelo meu status social, pela
minha pele branca”, afirmou.  Virou, automaticamente, a musa da “elite
coxinha”. 

quinta-feira, 19 de junho de 2014

"Direita Militante" e eleição

"Direita Militante" irá radicalizar eleição, diz Gilberto Carvalho — CartaCapital

"Direita Militante" irá radicalizar eleição, diz Gilberto Carvalho

Segundo ministro, campanha presidencial será marcada
por racha social, como no caso do Decreto de Participação Social





por André Barrocal







publicado
19/06/2014 08:50














Os xingamentos contra Dilma
Rousseff na abertura da Copa do Mundo são ilustrativos de um fenômeno
que o ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral da Presidência,
acredita ter se alastrado pelo Brasil. Uma parcela expressiva da
sociedade, diz ele, está tomada por ódio.
Pessoas que, pelas redes sociais e por alguns
meios de comunicação, propagam intolerância em relação ao governo
petista, às ações federais dirigidas às camadas populares e à relativa
ascensão social dos mais pobres. É uma atitude que o ministro entende
estar estimulando um racha social no País, e que marcará a iminente
campanha presidencial, a mais dura para o PT desde a chegada do partido
ao poder em 2003, na opinião dele.
Um dia antes dos xingamentos, Carvalho recebeu CartaCapital
para uma entrevista sobre um tema que gerou enorme polêmica justamente
por conta daquilo que o ministro identifica como produto de ódio e
elitismo. Um decreto presidencial assinado no fim de maio determina que
os órgãos federais devem ter como regra ouvir a sociedade na elaboração,
execução e supervisão de políticas públicas.
Em outras palavras, que de fato levem em conta o
que é proposto em conselhos, comissões e conferências criados e
reconhecidos pelo Estado, assim como também levem a sério o que é dito
em audiências públicas e em futuros fóruns constituídos na internet
exclusivamente com esta finalidade.
O que o governo chama de avanço da democracia,
via ampliação da participação social na vida nacional, foi encarado de
forma radicalmente oposta por grupos que Carvalho classifica de “direita
militante”. Para esses brasileiros, o decreto é um atentado à
democracia, a usurpar atribuições do Congresso e a dar poder a pessoas –
os integrantes de conselhos, comissões, conferências – sem voto, isto
é, sem legitimidade.
Trata-se, sustentam tais críticos, de um decreto
“bolivariano”, evocação do governo socialista da Venezuela, visto pela
“direita militante” como antidemocrático, em que pese ser este o país
que provavelmente mais realizou eleições e plebiscitos no século XXI.
“Nos
acusam de ser um risco para a democracia, quando é o contrário”, afirma
Carvalho. “Nos acusam de dividir a sociedade, mas quem planta essa
divisão é quem prega o ódio.”
Líderes de partidos de oposição, um ministro e um
ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, juristas e colunistas
políticos de tradicionais veículos de comunicação estão entre os
responsáveis pelos mais duros ataques ao decreto. Em geral simpatizantes
dos principais presidenciáveis da oposição, Aécio Neves (PSDB) e
Eduardo Campos (PSB), tais críticos, diz Carvalho, parecem ignorar que,
juntos, os estados hoje governados por afilhados de ambos, Minas e
Pernambuco, têm juntos mais conselhos de representantes da sociedade do
que o Planalto.
O bombardeio ao decreto e a disseminação da ideia de
que os parlamentares levaram o presidente do Congresso, Renan Calheiros,
fiel aliado de Dilma, a cobrar da presidenta que desista da ideia e
discuta a proposta na forma de uma lei a ser votada por deputados e
senadores. Recuo que Dilma não está disposta a fazer, segundo Carvalho, o
idelizador do decreto.
A seguir, a íntegra da entrevista concedida pelo ministro, cujos principais trechos foram publicados na edição 804 de CartaCapital.
CartaCapital: Por que o
decreto enfrenta tanta resistência da oposição partidária, da oposição
midiática e até de setores do governo, como os peemedebistas presidentes
do Senado e da Câmara?
Gilberto Carvalho: É uma enorme surpresa,
ninguém de nós esperava. Até porque o decreto não inova no sentido de
criar qualquer instância de governo. Ele simplesmente regulamenta e
organiza uma realidade já existente. O primeiro conselho no Brasil foi o
da educação, de 1937. Depois foram criados vários outros, alguns até
durante a ditadura. No governo Lula, foi criado de fato um número
grande. Mas eles funcionam na sociedade brasileira há muito tempo,
prestam uma enorme contribuição, sobretudo nos municípios. Imagine o
papel dos conselhos tutelares, da educação, da saúde em cada município,
fiscalizando, cobrando.
Essa teia envolve centenas de milhares de cidadãos que
participam voluntariamente. O SUS nasce do movimento sanitarista e foi
configurado numa grande conferência nacional de saúde. O plano Brasil
sem Miséria é gestado no Consea (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional),
a Lei Maria da Penha nasce no Conselho Nacional de Políticas para
Mulheres... Só posso atribuir essa reação a dois aspectos. Um, uma
profunda desinformação, as pessoas não leram e não gostaram. O decreto
de certa forma antecipa o debate eleitoral radicalizado, qualquer
iniciativa do governo recebe um endurecimento muito grande... Além
disso, há um papel que hoje é desempenhado muito fortemente na mídia por
um setor organizado da direita que combate qualquer forma de
democratização, qualquer forma de aproximação popular do governo. Até
pessoas bem intencionadas passaram a imaginar que o decreto criava os
velhos conselhos populares, o que evoca a lembrança dos sovietes, do
chavismo... É uma clivagem ideológica muito forte que estamos vivendo.
CC: Que setores resistem à ampliação
da participação popular? A proposta de plebiscito para a reforma
política sofreu essa mesma resistência.
GC: Temos um fenômeno novo no Brasil que é uma
direita militante que se expõe muito fortemente em vários meios de
comunicação, diferentemente de um passado quando, ainda como rescaldo da
ditadura, havia um recuo desses setores, eles estavam envergonhados.
Com o passar do tempo, esses setores foram se organizando. Temos de
reconhecer: há uma direita militante que tem uma voz, uma reverberação
muito forte em setores de imprensa, em vários colunistas políticos e que
ganha espaço muito grande na opinião pública. E não estou condenando a priori o
fato de ser de direita, é uma posição legítima que tem grande
capacidade de mobilização na imprensa e nas redes sociais. De modo que
os setores populares hoje precisam tomar consciência do que se trata,
pois estamos caminhando para uma eleição. Mas, independentemente, da
eleição, há uma vigilância permanente contra qualquer forma de avanço da
democracia. Taxa-se de inconstitucional tudo aquilo que pode
representar uma partilha do poder.
CC: Na ditadura, parece que tínhamos uma
intelectualidade, uma classe artística, uma opinião pública mais
progressista. E agora, num governo de centro-esquerda, parece que a
situação está invertida. Por quê?
GC: Nós tivemos uma crise da nossa utopia. O
socialismo, que galvanizava nosso ideário, entrou em crise com as
experiências mal sucedidas. E os equívocos e limitações do nosso governo
reforçaram a militância contra a democratização, contra o avanço dos
setores populares. E há uma coincidência disso com a elite econômica,
que tem um grande acesso aos meios de comunicação. Não é uma resposta
simples, é uma complexidade de fenômenos. Mas não tenho dúvida desses
dois aspectos: o desencanto com a utopia anticapitalista e os equívocos
que nós cometemos no governo, como a presença da corrupção. Mas o que me
espanta, voltando ao decreto, é que se o decreto tivesse essa vocação
de ampliar os poderes populares, eu até entenderia o debate. O problema é
que há um equívoco da informação, da interpretação do decreto, que
deliberadamente recebeu uma leitura deformada e que diz que, por
decreto, a presidenta tenta instaurar uma mudança na democracia, por
exemplo diminuindo poderes do Congresso. É um absurdo. O decreto está
baseado no parágrafo único do primeiro artigo da Constituição, que diz
que o poder é exercido indiretamente, através de representantes, ou
diretamente, nas formas da Constituição.
CC: O governo vai recuar do decreto e
apresentar um projeto de lei, uma medida provisória, como cobra o
presidente do Congresso, que é governista?
GC: Não há nenhuma perspectiva de a gente
recuar, a presidenta Dilma deixou isso muito claro, tem mostrado muita
firmeza. Estamos agora em um diálogo com o Congresso propondo fazer
audiências públicas para clarear todos os pontos e convencer inclusive a
sociedade. Apostamos que esclarecendo os limites do decreto a gente
vence essa resistência. Temos que pensar que essa resistência é a mesma
que sofre a reforma política. Os mesmos setores que acusam nosso partido
de ser o inventor da corrupção, quando você propõe medidas fundamentais
contra as causas da corrupção, como a proibição do financiamento
empresarial de campanhas, eles não aceitam. No fundo, esses setores
querem o status quo, porque beneficia a elite. Hoje, o sistema
eleitoral beneficia quem tem maior capacidade de mobilização econômica. E
nós enxergamos, inclusive dentro do nosso partido, o quanto esse
financiamento é prejudicial, é fonte de corrupção. Mas nessa hora da
verdade, não se aceita o debate.
Aceita-se o debate moralista, mas quando você quer
combater as causas, não se aceita. É o mesmo padrão de resistência do
setor conservador, elitista, para deter o avanço social no Brasil. Nós
precisamos ter clareza também de que há um incômodo em um setor da
sociedade com essa mobilidade social dos últimos anos. Essa mobilidade
foi muito maior nos setores pobres do que na classe média. O fato de
você ter incluído no padrão atual, que é o de consumo, aliado ao fato de
você não ter investido no transporte público, coletivo, de massas,
criou também um desconforto enorme nas grandes cidades. A exigência por
mais saúde e educação também alimenta isso. No fundo, o receio é que
essa mobilidade avance ainda mais e aprofunde o desconforto desses
setores conservadores.
CC: Dá a impressão de que a eleição será muito radicalizada. Vai ser?
GC: Não tenho dúvida. O debate vai ser muito
semelhante ao que vemos no caso do decreto, com uma demarcação
ideológica muito forte, nessa linha de nos acusar de aparelhar o governo
para praticar corrupção, de sermos um risco para a democracia, quando é
o contrário. O que mais me preocupa é uma certa pregação do ódio.
Quando você usa adjetivos como “petralhas”, você planta o ódio. E quem
planta esse ódio vai colher tempestade. Tenho receio de que a eleição vá
além do debate político e que se tente criar uma divisão na sociedade.
Eles nos acusam de dividir a sociedade, mas quem planta essa divisão é
quem prega o ódio.
CC: A polarização pode não interessar durante o exercício do governo, mas interessa ao PT e ao governo na eleição, não?
GC: Digamos que é interessante quando ela
permite um debate mais claro dos dois projetos existentes no país. O que
não interessa é essa carga de ódio, de criminalização por parte do
outro lado. Isso pode ter efeitos ruins, que caminhe para a violência,
para o sectarismo. E nesse ponto me preocupa também o sectarismo
esquerdista, um certo justicialismo com as próprias mãos, sobretudo
entre os jovens. Fiz muito debate com jovens, andei nas doze
cidades-sedes da Copa e me impressionou muito a dificuldade de ouvir que
tem um setor novo, que aparentemente caminha pela esquerda, mas que ao
fim e ao cabo tem uma pauta muito convergente com os conservadores, meio
moralista.
CC: Depois dessas reuniões nas cidades-sedes
da Copa, diria que vai haver manifestação durante a Copa e, se sim, com
que grau de descontentamento?
GC: Esse meu giro pelas doze cidades foi uma das
melhores coisas que fiz estes anos e me arrependo de não ter feito algo
assim antes. Verifiquei uma brutal desinformação, uma crença em
inverdades colocadas massivamente, um clima de rebelião. Passei
situações de muito constrangimento, como um jovem no Rio que jogou papel
higiênico em cima da mesa dizendo que aquilo eram os ingresso para a
Copa. Ao mesmo tempo foi possível mudar muitas opiniões com argumentos
que as pessoas não tinham. No fundo, reclamavam muito de não terem
dados. Por exemplo: todos os gastos com estádios da Copa equivalem a um
mês de gasto federal com educação. Fomos mostrando esses dados e o
legado na infra-estrutura das cidades. Deu para notar o quanto o governo
está distante das pessoas, o quanto a realidade que a gente vive aqui (em Brasília) não
dialoga com o cotidiano. Acredito que não teremos manifestações
massivas, de cinco mil pessoas. O que vão acontecer são manifestações
pequenas de grupos muito sectarizados, com 500, mil pessoas, mas sem
apoio popular, até porque são grupos que se afastaram da opinião
pública. Segundo: o clima da Copa vai contaminando o País. A maneira
como as seleções foram recebidas reflete isso. Aposto que não teremos
grandes problemas, mas pequenas manifestações, que podem usar a
violência. Eles têm uma tese de que há uma violência permanente do
Estado na educação, na saúde, no transporte e que isso justifica uma
violência-resposta, uma violência do oprimido, de quem sofre a primeira
violência.
CC: Estes grupos têm nome?
GC: É a tática black bloc. Estive com pessoas
que são a fonte de orientação destes grupos. Esses você não vai segurar.
Nossa preocupação é que as forças de segurança resistam e não reajam
com a mesma moeda.
CC: O sr. está há muito tempo no coração do
governo, o Palácio do Planalto, acompanhou a disputa pelo direito de
sediar a Copa, participou da construção da Copa. Diria que a Copa no
Brasil é um acerto ou um erro? Por quê?
GC: Foi um grande acerto, não tenho dúvida
nenhuma. Tenho clareza total dos benefícios que o País está ganhando,
não consigo ver sinceramente nenhum prejuízo. Tanto que qualquer país
disputa na ponta da faca para ser sede. Ela te coloca no centro do
evento de maior visibilidade do mundo, te coloca no seu país por 40, 50
dias a imprensa internacional, que vai transmitir suas mazelas, mas como
o Brasil é muito maior do que suas mazelas, acredito que saímos
ganhando. A Copa gerou ou antecipou uma série de projetos, como a
transformação dos aeroportos, obras de mobilidade urbana, modernização
de portos, gerou empregos, girou a economia. Tudo isso, por si só, já
traz um enorme benefício. Mas houve problemas, atraso de projetos, falta
de gerenciamento adequado em muitos projetos, problemas típicos dos
nossos dias para fazer obras, licitação, órgãos de controle,
contestações judicias...
Houve em alguns casos desrespeitosos às populações
removidas, diziam que o Brasil ia ter 250 mil remoções, mentira, foram 9
mil. Em alguns lugares foram remoções bem realizadas, em outros, mal
realizadas. A ambiguidade na relação com a Fifa foi um outro problema.
Não conseguimos demarcar, perante a opinião pública e na própria relação
com a Fifa, uma forma adequada de relação. A Fifa é a dona do evento, a
Copa não é um evento governamental, é um campeonato particular de uma
empresa chamada Fifa. E ao conquistá-la, trazer para seu país, você tem
de assumir determinadas condições. Ao não deixar isso muito claro para a
opinião pública, e com essas denúncias de corrupção da Fifa e da CBF,
houve uma espécie contaminação da Copa. Além disso, e também falhamos
nisso, deixamos de aproveitar a vinda do evento para fazer uma
rediscussão de todo o sistema do esporte e do futebol no Brasil, que
sabidamente precisa ser rediscutido.
CC: O que podia ter sido feito? Suponho que a modernização da estrutura do futebol, por exemplo.
GC: Poderia ter feito um grande debate no
Congresso, no que depende de lei, e na sociedade, com os atletas, com o
Bom Senso e com a CBF naquilo que não depende. Não fizemos e foi uma
pena. Talvez ainda dê tempo.
CC: O sr. falou que nas reuniões sobre a Copa
sentiu que há um certo distanciamento do governo em relação ao
movimentos sociais. A relação do governo Dilma com estes movimentos teve
problemas. Como está a situação na reta final do governo?
GC: Primeiro, há que se pontuar uma diferença de
estilos. Enquanto o Lula tem um processo natural de ir ao encontro das
pessoas, de conversar, a Dilma é uma pessoa mais contida, tem outra
formação, outro estilo, e isso marca um governo. Segundo, no início do
governo Dilma, com todo o processo de “faxina” que atingiu as ONGs,
houve um esfriamento na relação. Agora, inegavelmente, depois dessa
crise, houve uma reaproximação, acentuada sobretudo depois de junho do
ano passado, quando a presidenta entendeu a necessidade de estimular o
diálogo. Posso assegurar que de lá para cá a situação se igualou à que
tivemos no governo Lula.
CC: E isso vai se refletir na eleição? Em 2010, por exemplo, todas as centrais sindicais faziam atos de apoio à candidatura Dilma.
GC: Não veremos a mesma unidade das centrais,
até porque alguns dirigentes já se pronunciaram a favor de outras
candidaturas, mas a imensa maioria dos movimentos sociais e sindicatos
vai estar conosco. Os mais representativos movimentos sociais já estão
sabendo distinguir os projetos.
CC: Qual o tom mais adequado à campanha de reeleição?
GC: Primeiro, há uma necessidade absoluta de
mostrar o que realizamos em doze anos, não só em quatro. É necessário
que a gente mostre a transformação que o nosso projeto está fazendo no
País, é fundamental do ponto de vista da informação. Mas esse
comparativo é insuficiente. O outro passo é a esperança: dizer que quem
já fez tudo isso tem condição de continuar mudando. Aí eu tenho a
convicção de que é necessário casar a eleição presidencial com a eleição
parlamentar. É fundamental que a gente tenha um avanço na correlação de
forças no Congresso para que a gente possa seguir avançando. Continuar
as conquistas sociais depende de um parlamento que também acompanhe a
mudança, que não resista a avanços na reforma agrária, na distribuição
de renda, na participação social, no aprofundamento da democracia... Sou
a favor de uma campanha muito mobilizadora, que mobilize a sociedade
para a discussão do programa de governo e que este programa inove, traga
novas propostas. Se não conseguirmos fazer isso, temos o risco sério de
perder essa eleição.
CC: A eleição de 2010 tinha um cenário muito
mais favorável ao governo, com o PIB crescendo e um engajamento forte de
partidos e movimentos sociais na candidatura Dilma, e ela venceu só com
56%. Será mais difícil agora por que esse pano de fundo é outro?
GC: Não tenho dúvida e tenho dito para quem
quiser ouvir: vai ser a nossa eleição mais dura desde 2002. Vamos ter um
segundo turno agudo e para vencer teremos de juntar todas as nossas
forças, ter o pé no chão, humildade e muita capacidade de convencimento.
Será uma eleição muito pautada por essa divisão, por esse ódio. Hoje já
sente na sociedade um clima muito cinzento, muito estranho, e isso vai
se agudizar. Temos de ajudar a desfazer isso, não temos que estimular,
ao contrário. Temos de atuar para tentar unificar o País. Confio que
vamos vencer.
CC: O segundo turno é uma certeza?
GC: Certeza ninguém pode dizer, mas é uma
eleição que tem cara de segundo turno. E me baseio não só nas pesquisas
atuais. Você acabou de dizer: alguns fatores que nos ajudavam, como a
economia, nós não vamos ter. Precisamos ter a capacidade de mostrar o
Brasil na relação com o resto do mundo, não dá para analisar o Brasil
isoladamente, temos de fazer um comparativo com as taxas de emprego
daqui e de outros países, sobretudo no primeiro mundo. Além disso, há
dois candidatos com potencial (Aécio Neves, do PSDB, e Eduardo Campos, do PSB). E é bom não esquecer o Pastor Everaldo (do PSC), que representa um segmento crescente no País hoje. Não será moleza.
CC: Em um segundo turno, dá para o PT se reaproximar do Eduardo Campos?
GC: Acho que o eleitorado do Eduardo Campos
tende a votar conosco. E o próprio Eduardo Campos tem uma história
conosco, é bom lembrar que foi nosso ministro, esteve nesse projeto a
vida inteira e tem uma divergência que eu considero momentânea, eu
espero que a gente se reencontre, aposto muito nisso. Diferentemente do
Aécio, que representa de fato o setor conservador, a oposição
permanente.
CC: Quem é o adversário ideal no segundo turno, Aécio ou Eduardo?
GC: Não é sábio escolher um adversário, temos de estar preparados para quem vier. Temos de ter condições de enfrentar os dois.
CC: Para terminar: quem ganha a Copa?
GC: Tem um palpite evidente, que talvez seja
mais desejo do que palpite, que é o Brasil. A seleção de agora, pelo
talento distribuído, lembra a seleção de 70. Além do Neymar, você tem
gente de muito talento. E o Felipão é um diferencial, com seu estilo
copeiro, de saber trabalhar o grupo e de formar uma unidade interna, que
junta uma disciplina com uma leveza, eu tenho muita confiança. Mas vai
ser duríssimo. E não dá para desprezar três equipes: Espanha, Alemanha e
Argentina, que vêm fortes e não será nenhuma surpresa se forem
campeões. Nunca torci tanto por uma seleção. E não que eu ache que haja
contágio da eleição pela Copa. Se o Brasil ganhar, é evidente que você
cria um clima bom no país, mas isso dura até começar o debate eleitoral.
Da mesma forma que eu acho que se o Brasil perder é ruim, mas também
não contamina. Só vai contaminar se houver um grande fracasso, se jogos
não acontecerem... Mas não está dado isso. A realidade desmentiu o
pessimismo sobre a Copa.