sábado, 12 de julho de 2014

Google filter

Google filtra notícias "ruins" e minimiza eliminação do Brasil na Copa — CartaCapital

Google filtra notícias "ruins" e minimiza eliminação do Brasil na Copa

Em busca de manchetes mais "felizes", site diminui a
importância de textos como os que abordavam a derrota histórica contra a
Alemanha





por Clarice Cardoso







publicado
11/07/2014 17:54













TORSTEN SILZ/DDP/AFP
Se palavras como "vergonha", "vexame" e "tragédia" estamparam as capas dos jornais nacionais
e estrangeiros após a goleada de 7 a 1 sofrida pelo Brasil no jogo
contra a Alemanha na Copa do Mundo, especialistas do Google fizeram um
esforço consciente para evitar que esses termos se tornassem virais após
a partida. Ou seja, quem navegasse pelas notícias usando o site de
buscas não veria a história da goleada entre aquelas de maior destaque.


A estratégia é parte de um experimento que tem acontecido em toda a
Copa do Mundo e tem lugar em uma redação criada em São Francisco, na
Califórnia, especialmente para tentar tornar virais os conteúdos
mais buscados. A lógica ditaria que, dada a imensa quantidade de dados e
de informações sobre os usuários que detém, o Google usasse as
palavras-chave das buscas para fornecer conteúdos sob demanda.
Contudo,
o que esses cientistas fazem é usar esses dados para minimizar a
importância de palavras tidas como negativas dentro de seus gigantescos
bancos de dados. O conflito acontece quando se avalia que boa parte das
manchetes produzidas contém palavras negativas.



De acordo com informações da National Public
Radio, organização sem fins lucrativos norte-americana, se no começo do
jogo contra a Alemanha a busca por músicas de incentivo correspondia a
18% das relacionadas ao Brasil, após o quinto gol alemão a palavra mais
frequentemente associada ao País era "vergonha".



Foi neste momento que entrou em ação a tradutora do Google Luciana
Meinking Guimarães, que listou termos considerados negativos nas 50
principais buscas que eram feitas no Brasil para priorizar aquelas que
não mencionavam o termo. O objetivo era, segundo o Google, não "esfregar
sal" sobre as feridas dos torcedores.



Em vez disso, a equipe do Google resolveu colocar como a pergunta
mais importante do dia a busca "qual o maior placar vencedor na história
das Copas do Mundo?", que ganhava força entre os internautas alemães. A
estratégia foi a mesma utilizada depois de todos os jogos desta Copa do
Mundo: ao fim da partida, os analistas elencavam as palavras mais
importantes do dia, o que influencia o Google+, o Twitter e o Facebook,
por exemplo.



O raciocínio por trás desse tipo de iniciativa parte do comportamento dos usuários na redes sociais (e dialoga com um estudo recentemente descoberto feito pelo Facebook):
as pessoas tendem a compartilhar mais as postagens com conteúdos
"felizes". Assim sendo, raciocinam os cientistas, um conteúdo noticioso
terá mais chance de ser mais compartilhado se for considerado igualmente
"feliz".


Para além do fato de o Google deter hoje o maior banco de dados
de conteúdos indexados da internet, servir como base para boa parte do
que se publica e elencar a informação por ordem de importância, há uma
questão essencial a ser levada em conta no que diz respeito ao
comportamento do brasileiro na internet: os mecanismos de busca são
especialmente fortes para os leitores daqui encontrarem conteúdo
jornalístico. De acordo com o Digital News Report 2014 do Reuters
Institute for the Study of Journalism, um relatório anual publicado pela
agência de notícias, 59% dos brasileiros consomem notícias a partir de
buscas em mecanismos como o Google.



Ou seja, mais da metade dos leitores nacionais pode não estar
recebendo esta e outras notícias de tom "negativo" em suas buscas. A
questão, aqui, é que
o jornalismo pautado pela lógica das
redes sociais não segue, de forma alguma, o critério usado nas redações
de todo o mundo para decidir o que deve ou não ser noticiado. E isso,
por si só, representa um grande desafio para o jornalismo praticado no
mundo digital.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Que fim levou a direita ilustrada?

Que fim levou a direita ilustrada? | Blog da Boitempo

Que fim levou a direita ilustrada?

Confira aqui a tréplica de Christian Dunker à resposta de Rodrigo Constantino a este artigo.
Quando
entrei na USP em 1984 meus avós ficaram preocupados. Ainda era época do
degelo militar e a Psicologia vinha com um traço “róseo” que levantava
suspeitas em meu querido avô. Formado da tradição liberal inglesa, voraz
leitor do Estadão, ele iniciou uma espécie de profilaxia que
consistia em receber-me, às quartas feiras, para uma conversa sobre
temas de sua livre escolha: economia, política ou cultura. Minha avó
esperava a ocasião com uma generosa torrada sobre a qual repousavam dois
ovos pochés, em cima dos quais salpicava-se pimenta, extraída
de um daqueles antigos e compridos moedores feitos de madeira. Depois do
fausto e antes da partida de xadrez, vinha a chamada oral em torno dos
artigos, previamente selecionados na semana anterior: Delfim Neto,
Pedreira, Paulo Francis, Simonsen, Joelmir Beting e ao fim o
indefectível Bob Fields (Roberto Campos), combinavam-se com artigos mais
informativos do The Economist ou das revistas francesas ou
alemãs, que minha avó conseguia interpolar na conversa. Lembro
particularmente de um luminar da direita americana chamado Rush
Limbaugh, que quando ativado era o código para “agora o comunismo vai
tremer nas bases” e Cuba deixará de ser o exemplo eterno de
superioridade moral em matéria de educação e saúde. Rapidamente descobri
que havia alguns caras que “pegavam mais leve” e que havia uma tensão a
ser explorada entre meus dois avós, já que ela gostava mesmo era da Folha.
À medida que
a esquerda foi entrando, no país e nos meus anos de graduação, as
batalhas verbais com meu avô aumentavam em teor de pimenta. Daquela
época retive o diagnóstico de que as verdadeiras ideias liberais jamais
tinham sido realmente implantadas no Brasil. Não tínhamos instituições
fortes, nossa economia era ridiculamente fechada e o espírito de
discussão livre, pública e democrática havia sido sequestrado por dois
grandes malfeitores: o governo corruptor de adultos e a esquerda
corruptora de jovens. A alma do capitalismo é o risco, e as joint ventures
públicas ou privadas deviam ser o ponto nevrálgico de um grande sistema
baseado em punições e recompensas, praticadas pelas mãos invisíveis de
Adam Smith.
Havia ainda
outro lado da direita liberal. Sua capacidade de erudição, seu gosto
cultivado e seu exercício da ilustração. Independente do sentido
aristocrático ou popular deste tipo de virtude, ela não vinha sem alguma
humildade, característica daqueles que sabem o tamanho do problema que
se está a enfrentar. Talvez seja por isso que os antigos cadernos
culturais tinham títulos diminutivos como o Pasquim e o Folhetim, ou que indicavam sua condição acessória como o Suplemento Literário. Hoje passamos para a época dos superlativos como o Mais!, ou a atual Ilustríssima.
À esquerda podia-se perdoar a falta de lastro cultural, que em tese
seria substituído pela aposta em novas formas, vanguardas ou não,
populares se benfazejas. Afinal, cultura implica conservar, cuidar,
manter. Por isso a direita tinha a obrigação moral de pagar o imposto
por sua própria vocação e conservar os clássicos, louvar as origens e
cantar as descendências. Foi assim que a própria relação entre política e
cultura tornou-se um tema mais político para a esquerda e mais cultural
para a direita.
Fato é que
aprendi a respeitar este tipo de pensamento liberal que era realmente
uma forma de pensamento, um estilo, que podia ser mais ou menos
conservador, mais inglês que francês, mais protestante que católico,
mais liberal do que progressista, mais aderido aos fatos do que às
interpretações, mais realista do que construtivista. Ser de direita não
tornava o sujeito imediatamente desrespeitável, mas um adversário a ser
batido. Podia-se refazer a genealogia imaginária deste tipo de
liberalismo no pessimismo auto-irônico de Machado de Assis (o nosso
Chesterton), na poesia densa de João Cabral, na sobriedade metodológica
de Villa Lobos, ou nas tragédias de Nelson Rodrigues (o nosso Swift).
Todos eles expressões mais ou menos reativas ao positivismo francês e
seu moralismo de ocasião.
Nos anos
1980 a ecologia apareceu como um tema emergente, meio político, meio
cultural. Logo foi metabolizado pelos liberais na seguinte máxima: “nada menos ecológico do que uma criança com a barriga vazia”.
Para este tipo de pensamento progresso e economia vêm primeiro, justiça
e distribuição são uma espécie de consequência natural: “Primeiro vamos fazer o bolo crescer, depois distribuímos suas fatias
– era a lei de Delfim. Para esta narrativa nossos heróis são os
capitães de indústria de Mauá a Hermírio de Morais passando por Chatô.
Foi também nesta época que o tema do “social” caiu no colo da esquerda,
para desespero de meu avô. Como observou outro dia Paulo Arantes, em entrevista a Mario Sergio Conti, no… GloboNews
(isso sim teria levado meu velho ao colapso) a identificação entre a
esquerda e a defesa de temas sociais é relativamente recente. E esta
ideia de um Estado benemérito, sem mexer no “core” da economia, é, no fundo, senão estratégica, um pouco estranha.
Tais
“maravilhosas” sínteses facultavam que na hora de escolher entre o
sórdido caráter egoísta e hobbesiano ou a alegre idealização de nós
mesmos, promovida pela Liga da Justiça formada pelos descendentes de
Rousseau e Marx, seria preciso optar sempre pela primeira alternativa.
Gostaria que
meu velho avô Colin voltasse para este mundo, apenas para ver ao que se
reduziu o pensamento de direita e quiçá dar-me razão, pelo menos uma
vez, senão em vida, depois da morte. Talvez ele tenha prenunciado os
novos tempos quando em um de seus últimos gestos renunciou à revista Veja
dizendo que aquilo tinha virado propaganda de remédio aplicada à
política. Quando leio Reinaldo Azevedo, Olavo de Carvalho, Diogo
Mainardi, Rodrigo Constantino e os chamados neoconservadores eu me
pergunto: o que aconteceu com a tênue, mas boa, tradição da direita
ilustrada brasileira? Que fim levou o pessoal que realmente acreditava
nas ideias de Milton Friedman, que queria discutir Ayn Rand ou que, no
geral, tinha teses para interpretar o Brasil?
Gostaria de dizer para meu velho avô: olha aí, aquilo deu nisso.
Mas não é verdade. Há uma espécie de erro de continuidade neste filme
onde, de repente, aparece um pessoal dançando uma espécie de “Lepo Lepo”
sanguinário contra o PT. Uma espécie de macarthismo retórico contra
tudo o que cheire, pareça ou suporte a projeção vermelha. É uma turma
que surge do nada, fantasiada de Capitão Nascimento, dizendo coisas que
nem o Maluf do “estupra, mas não mata” seria capaz de dizer. Há uma
fratura de gerações na direita, que de repente deu a luz a espécimes
mutantes capazes de argumentar que o “2014” escrito em vermelho no
logotipo da Copa do Mundo só pode ser uma propaganda subliminar da
esquerda. Se o poder perdeu a vergonha, a reflexão de direita sobre o
poder transformou a crítica em pichação. Esquecendo sua nobre origem
liberal, não se pode reconhecer nos neoconservadores nem mesmo os
bibelôs da história: seus heróis, ideias ou compromissos. Basta entrar
no Bonde do “Ai se eu te pego” para perseguir, criar e vender inimigos,
qual romanos vendendo bárbaros aprisionados como escravos.
Ninguém viu,
ninguém sabe como chegaram esses sujeitos a posições de reputada
representação em grandes diários, revistas, canais de televisão ou blogs
correlatos. Passagem pelo governo, partido ou qualquer outro órgão
politicamente formativo: nenhuma. Experiência com movimentos sociais,
terceiro setor ou com grandes corporações: desprezível. Reputação
acadêmica da moçada: zero. Aliás, para esta turma, a academia deveria
ser extinta, privatizada, vendida como ferro velho, ou comprimida e
coada antes da floculação tendo em vista a extração vendável de pigmento
vermelhiforme.
Da antiga
indignação liberal, ainda que com a típica arrogância dos vencedores,
que não obstante entendiam-se como guardiões da virtude, não sobrou mais
que a raiva dos impotentes. Leia-se: a cólera esbravejante dos que
acreditam que possuem mais poder do que realmente têm. Antes a velha
direita cheirava a dinheiro e gostava de dizer-se acima de esquerdas ou
direitas, pois era tão somente contrária à vulgaridade. Ao que a velha
esquerda respondia com “o meu partido é um coração partido”. Hoje,
denunciam, reagem e latem como caçadores baratos de celebridade. E o
sentimento basal é de vergonha alheia.
Com uma direita destas quem precisa de esquerda?
Esta direita está mais para os ovos poché
de minha avó do que para o Rush Limbaugh de meu avô. São quadrados,
ásperos e chatos como uma torrada queimada. Os ovos são moles e espalham
tudo com qualquer furinho à toa. Mas o pior é que ainda não entenderam
que não é para sentar em cima do moedor de pimenta.
***
miniaturaEm outubro a Boitempo lança Mal-estar, sofrimento e sintoma,
de Christian Dunker. Novo título da coleção Estado de Sítio, coordenada
por Paulo Arantes, o livro parte de uma psicanálise da vida
em condomínios para desenvolver uma aprofundada
reflexão interdisciplinar sobre a privatização do espaço público e
inserção da psicanálise no Brasil.



***


Christian Dunker assina a orelha de A visão em paralaxe, de Slavoj Žižek. Confira a aula Žižek e a psicanálise de Christian Dunker ministrada no “Curso de introdução à obra de Slavoj Žižek” do Seminário Internacional Marx: a criação destruidora, que trouxe, entre outros, David Harvey e o filósofo esloveno ao Brasil:

***
Christian Ingo Lenz Dunker é
psicanalista, professor Livre-Docente do Instituto de Psicologia da
Universidade de São Paulo (USP), Analista Membro de Escola (A.M.E.) do
Fórum do Campo Lacaniano e fundador do Laboratório de Teoria Social,
Filosofia e Psicanálise da USP. Autor de Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica (AnnaBlume, 2011) vencedor do prêmio Jabuti de melhor livro em Psicologia e Psicanálise em 2012, seu livro mais recente é Sofrimento, mal-estar e sintoma (Boitempo, 2014, no prelo). Desde 2008 coordena, junto com Vladimir Safatle e Nelson da Silva Junior, o projeto de pesquisa 
Patologias do Social: crítica da razão diagnóstica em psicanálise. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

A bola na urna

A bola na urna - 08/07/2014 - Janio de Freitas - Colunistas - Folha de S.Paulo







A bola na urna

Jânio de Freitas



Os sinais de preocupação dos opositores de Dilma Rousseff, com os presumidos
benefícios do "clima da Copa" à candidatura da presidente, são mais
uma boa comprovação do quanto era esperado que tudo resultasse em um pipocar
infinito de situações desastradas. As quais, para serem eleitoralmente tão
produtivas quanto possível, não poderiam limitar-se aos ambientes extracampo.



Logo mais, tanto pode haver motivo para mais inquietação opositora, como
pode ocorrer uma parte do insucesso, a do futebol. Em nenhum dos casos a
preocupação dos opositores deixará de ser precipitada.



A observação que se segue não é de todo segura, mas sem dúvida merece
consideração: em se tratando de política e de eleições no Brasil, os efeitos da
Copa nas urnas são do mesmo modo sujeitos, no êxito ou no insucesso, aos
fatores mais imponderáveis. Estamos no país em que o sequestro fabricado de um
dono de supermercado e a transmissão, uma só, da remontagem de um debate de
candidatos podem decidir uma eleição de presidente. O nível quase zero de
politização, na grande maioria dos brasileiros, e o uso político dos meios de
influência são capazes de definir ou revirar rumos como um vendaval a um
barquinho.



Assim como êxitos na Copa não preservam Dilma Rousseff do risco de trovões e
raios, não é provável que insucessos resistissem, ou resistam, à extraordinária
capacidade digestiva da memória brasileira. Nesse sentido, vem um oportuno
exemplo histórico do que agora deram para chamar de "Maracanazo".



Aquele 1950 foi, como este 2014, ano de Copa e de eleições, inclusive a
presidencial. Com derrota, "Maracanazo" ou lá o que seja, não houve
influência alguma contra a vitória de Getúlio, candidato verdadeiro (havia o
meramente partidário) do governo patrocinador da Copa e dos gastos agigantados
com o Maracanã. Os comprometidos com esses gastos e com a derrota foram eleitos
da mesma maneira que os presumíveis beneficiários eleitorais do desastre, os
que combateram a Copa ou a construção do estádio.



A mitologia da derrota de 50 propaga a ideia de um colapso nacional, um
infarto emocional que paralisou o país em prantos. A imagem da multidão abatida, deixando o
estádio, reproduz, porém, o que se passa com a torcida do Corinthians nas
derrotas, com a diferença de que não havia violência porque o povo então era
educado. Mas em poucos dias ninguém se lembrava mais de Uruguai e de Copa. A
não ser na imprensa esportiva, na ruminação própria dos comentaristas, não só
os de esportes.



O que foi escrito e dito a propósito da fissura vertebral de Neymar, nos
últimos três dias, é muitas vezes mais do que tudo o que foi dito e escrito em
todo o restante 1950 sobre o insucesso na Copa. O que diz muito, ainda mais que
de Neymar, do Brasil.

 


sábado, 5 de julho de 2014

Copa mostra que país “é capaz”, diz cientista político -

Copa mostra que país “é capaz”, diz cientista político - Vida Pública - Gazeta do Povo

Copa mostra que país “é capaz”, diz cientista político

Carlos Sávio Teixeira, professor de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense
Publicado em 05/07/2014 |



Três semanas após o início da Copa do Mundo, o clima de
desconfiança em relação ao evento parece ter sido substituído no país
por uma grande festa popular. Antes, dizia-se que nem ia haver Copa.
Agora, já há quem brinque pedindo “Copa Permanente” ou “Copa todo ano no
Brasil”. No entanto, a realização do evento de grande porte, mais do
que animar a população, serve como pontapé inicial para outras
realizações que o país precisa empreender. O professor de ciência
política da Universidade Federal Fluminense (UFF) Carlos Sávio Teixeira
analisa que o principal efeito do mundial, até agora, foi mostrar que o
país é capaz. Usar bem toda essa capacidade passa pela vontade política.
A Gazeta do Povo conversou com Teixeira sobre o assunto. Confira os
principais trechos da entrevista.


Três semanas após o início da Copa do Mundo no Brasil, como o evento repercute na sociedade?


O aspecto mais importante até agora é a comprovação de que o país é
capaz. Em termos de organização, tudo está ocorrendo dentro da
normalidade, contrariando muitos críticos que não acreditavam na
capacidade brasileira de realizar a Copa de maneira satisfatória. Houve
dois tipos de críticas durante a preparação para o evento. De um lado,
há os que não gostam do Brasil – a maioria da elite e da classe média –
que avaliam os limites e as possibilidades do país de maneira
preconceituosa. Para esses, o fato de as coisas estarem funcionando é
uma surpresa desagradável. De outro lado, há os que analisaram de
maneira objetiva as dificuldades estruturais da sociedade e do Estado
brasileiro. O Brasil é uma sociedade que combina enorme desigualdade
social com grande vitalidade econômica e cultural. Nós somos uma das
sociedades mais irresponsáveis do Ocidente, deixando à margem da vida
social minimamente digna cerca de um terço da população. Eles não têm
acesso a crédito, à tecnologia nem a conhecimentos. Na sua maioria
operam na informalidade, sem direito e sem representação política. A
instrumentalização desse universo pelo Estado representaria uma grande
transformação social e institucional no país. Esse é o maior “gargalo”
de nossa política.


Que mudanças a Copa pode trazer para as instituições públicas?


Na verdade, o único discurso da política brasileira contemporânea é a
combinação da agenda de redistributivismo marginal – que apesar de
necessária é insuficiente para enfrentar os desafios do país –, com a
agenda do controle exercida por órgãos do governo como as
controladorias, que parte de um pressuposto equivocado de que o maior
problema do Brasil é a corrupção. Essa agenda “policial”, além de travar
o desenvolvimento, desvia perigosamente a atenção do país de seus reais
problemas. Não estou dizendo que não devem existir controles. Mas que o
nosso direito administrativo deva ser reformado para melhorar a gestão
do Estado e ser meio para acelerar o desenvolvimento e inibir de fato os
desmandos com os recursos públicos – o que não acontece hoje. Muitos
dos problemas que tivemos com as obras para a Copa são o resultado
combinado de nossa ineficiência com essa estrutura formada por órgãos de
controle que torna qualquer iniciativa do Estado um verdadeiro inferno.


O que a realização deste torneio pode trazer de consequências a curto, médio e longo prazo?


Em primeiro lugar, já trouxe a modernização dos estádios de futebol
no país. Isso é muito importante, pois os brasileiros amam o futebol. Em
segundo lugar, apesar de atrasadas, muitas obras de infraestrutura
serão entregues. Mas o mais importante seria um debate sério e profundo
sobre o tipo de reforma de que precisamos para termos o tal “padrão
Fifa” nas políticas públicas. Que tipo de Estado é capaz de ofertar
educação e saúde de qualidade para a classe média? Pois sabemos pelas
experiências mais exitosas no mundo que políticas públicas só para
pobres não funcionam nem para pobres. Se a classe média não se
interessar pelas políticas de educação e saúde, elas serão como são hoje
no Brasil: péssimas.


Como o sr. avalia as manifestações que ocorreram nas várias cidades-sede e também fora do país?


Minha avaliação sobre o aumento da temperatura da política no Brasil é
favorável. É melhor as pessoas irem para as ruas reivindicar questões
que tenham algum apelo coletivo do que ficarem acomodadas em seus
interesses privados. Mas o que sempre pondero é sobre o aproveitamento
disso para fecundar mudanças efetivas. Acho que a população das
manifestações do ano passado era composta por três grupos: os
manipulados pela mídia conservadora com a questão da corrupção; os que
pegaram carona na onda para tentar dar sentido atual a abstrações
ideológicas do século 19; e uma minoria interessada de fato em lutar por
reorientação das principais políticas do Estado. Se esta última
motivação conseguir se sobressair sobre as outras, teremos uma vitória.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

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Uma manchete que vale por mil teses


Enviado por
on 04/07/2014 – 3:25 pm





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A quantidade de teorias que poderiam ser escritas com base nesse título da Folha encheriam quatro ou cinco maracanãs…


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Uma manchete que vale por mil teses

Enviado por Miguel do Rosário on 04/07/2014 – 3:25
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A quantidade de teorias que poderiam ser escritas com base nesse título da Folha encheriam quatro ou cinco maracanãs…



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A quantidade de teorias que poderiam ser escritas com base nesse título da Folha encheriam quatro ou cinco maracanãs…


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Politicagem mórbida: viaduto de BH era da ‘obra da Copa’.E a viga do monotrilho que matou 1 em SP, não?

Politicagem mórbida: viaduto de BH era da ‘obra da Copa’.E a viga do monotrilho que matou 1 em SP, não? | TIJOLAÇO |


Politicagem mórbida: viaduto de BH era da ‘obra da Copa’.E a viga do monotrilho que matou 1 em SP, não?

4 de julho de 2014 | 07:13 Autor: Fernando Brito


colagemjornais


Jornalismo não briga com fatos.


Mas também não noticia seletivamente fatos.


Há menos de um mês, caiu uma viga da obra do monotrilho da Linha 17 –
Ouro do Metrô paulista, próxima ao Aeroporto de Congonhas, e matou uma
pessoa.


O monotrilho, que fará a ligação entre o aeroporto de Congonhas e a rede de trens metropolitanos da capital paulista, era, como está noticiado em uma velha matéria do UOL,
” a única obra de responsabilidade do governo do Estado de São Paulo
que consta na Matriz de Responsabilidades da Copa do Mundo”.


É preciso ver em textos antigos, porque, quando do acidente, isso não foi dito ou escrito pela mídia.


Ontem caiu o viaduto Guararapes, obra da prefeitura de Belo Horizonte
igualmente parte da Matriz de responsabilidade, matando duas pessoas.


Duas tragédias dolorosas, que mataram seres humanos como eu ou você e
que resultaram de erros técnicos incompatíveis com as boas práticas da
engenharia, pois ambas estavam em construção, sem desgastes ou acidentes
de origem externa.


Pelo que, é claro, ambas são notícia, e notícia importante.


A questão jornalística é: porque o viaduto era da Copa e isso é
agitado nas manchetes e o monotrilho “não era da Copa” – uma vez que é
igualmente parte das obras para as quais o Governo Federal deu recursos
aos governos locais?


tela2Se a queda do viaduto mineiro é manchete, porque a viga paulista foi apenas um tímido registro nos jornais de São Paulo?


Nem no Estadão, que você vê lá em cima, nem na Folha, que reproduzo
ao lado. A Folha, aliás, publica a reportagem do desastre no caderno de
política.


Ambas mataram pessoas. E em número bem parecido: duas ontem, uma há um mês.


Mas uma é associada a Geraldo Alckmin, estrela do tucanato e
peça-chave da eleição e a outra nem vai ser tanto a Márcio Lacerda, um
burocrata insípido que – embora filiado ao PSB  de Eduardo Campos e cabo
eleitoral declarado de Aécio Neves – é nacionalmente desconhecido.


Assim, o monotrilho é obra de Alckmin e o viaduto é “obra da Copa” e,
claro, daquela senhora que é responsável por tudo o que acontece na
Copa ou em suas obras.


Embora, em nenhum dos dois casos, nem mesmo se possa suspeitar de
pressões indevidas para que as obras fossem feitas de forma acelerada e
imprudente, porque não seriam mesmo utilizadas na Copa, como é obvio.


Por isso, a politicagem dos jornais brasileiros, sempre asquerosa, adquire aqui tons de morbidez.


A responsabilidade pelos dois eventos é dos responsáveis pelo projeto
e execução, das empresas construtoras e dos contratantes das obras, o
Governo de São Paulo e a Prefeitura de Belo Horizonte, simples assim.
Nas placas das obras, aliás, há os nomes dos responsáveis técnicos, que
num caso ou em outro não foram sequer procurados.


E o pior, para a minha profissão, é que a imensa maioria dos jovens
profissionais de imprensa, que “se acham”, nem sequer percebem o óbvio.


Obra de engenharia cai porque é mal projetada ou mal-feita. Ou mal fiscalizada.


Não porque é “da Copa”.

O mercado ganha se o Brasil perde. E se o Brasil ganha, o mercado…

O mercado ganha se o Brasil perde. E se o Brasil ganha, o mercado… | TIJOLAÇO | 











O mercado ganha se o Brasil perde. E se o Brasil ganha, o mercado…

4 de julho de 2014 | 11:39 Autor: Fernando Brito


bolsabola


Com a dica do professor de economia Cássio Moreira, reproduzo o insuspeito artigo da colunista Raquel Landim, da Folha, hoje.


É o que a gente tinha dito aqui quando falou que a “turma da bufunfa” seca a seleção brasileira para lucrar com a frustração dos brasileiros.


Ou como “torce” por pesquisas que empurrem Dilma para baixo.


É o outro lado de um terrorismo que, na falta de crises na
organização da Copa, torce até por desastres que entristeçam e tirem o
brilho da festa.


Torcem, como torcem por inflação, recessão, apagão ou qualquer coisa que faça o Brasil  se sentir em crise.


É a turma do “quanto pior, melhor” da qual a Dilma falou ontem.


Nunca se viu misturarem tanto futebol com política.


Que  ”Lobo de Wall Street”,  que nada.


Perto dos “Urubus da Bovespa” o personagem é um santinho.


E tolo é quem acha que eles pararam com a “uruca”…


São todos Colômbia desde criancinha…


Brasil nas quartas aquieta ‘urubus’ do mercado financeiro


Raquel Landim, na Folha
A “Copa das Copas” conquistou até os piores “urubus” do mercado
financeiro. Com o Brasil nas quartas de final, os investidores perderam a
esperança de lucrar com a derrota e pararam de “secar” a seleção.



Antes de a competição começar, a expectativa era que um colapso
na organização e/ou um vexame em campo, como a eliminação do Brasil logo
no início, poderiam impulsionar o preço das ações.



O ciclo seria o seguinte: um desastre na Copa recrudesceria o
pessimismo, diminuindo as chances de reeleição de Dilma, e favoreceria
as ações das estatais. Esses papeis estão sendo prejudicados pelo
intervencionismo do governo na economia.



Essa avaliação pipocou em relatórios e declarações de analistas
antes da Copa. Passado o sufoco da partida contra o Chile, que o Brasil
venceu nos pênaltis, o jogo virou.



“O ponto mais perigoso já passou. Estamos perto de um momento em
que uma performance da seleção será satisfatória, mesmo que não ganhe a
Copa”, diz Jorge Mariscal, chefe de análise para mercados emergentes do
banco suíço UBS.



O mercado agora faz a conta do efeito contrário. Se o Brasil
passar pela Colômbia hoje, pela semifinal e erguer a taça no fim da
semana que vem, Dilma vai subir nas pesquisas e a Bolsa pode cair?



“Se o Brasil for bem, favorece o governo. Mas ainda não está
claro quando tempo vai durar o efeito Copa nas intenções de voto e no
mercado”, diz José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do
Banco Fator.



Os investidores estão atentos às pesquisas eleitorais. Nesta
quinta-feira (3), o Datafolha divulgou um aumento nas intenções de voto
em Dilma para 38%.



Mas a oposição também cresceu e os demais candidatos somados
chegaram aos mesmos 38% -o que significa mais chances de segundo turno. O
mercado se animou e o Ibovespa subiu 1,59%.



A percepção dos analistas é que um sucesso na Copa renderá
dividendos eleitorais para Dilma apenas no curto prazo, porque a
economia continua decepcionando e a indústria vai muito mal.



Para André Sacconato, diretor de pesquisa da Brain (Brasil
Investimentos e Negócios), o Brasil teve um avanço institucional e as
pessoas hoje diferenciam futebol, economia e governo. “Essa história de
que o futebol é o ópio do povo está, felizmente, cada vez mais
distante”, diz.



Ópio do povo não é, mas “barato” do mercado, nem tanto…

Por que a cena da torcida japonesa recolhendo o lixo nos estádios nos chocou tanto

Por que a cena da torcida japonesa recolhendo o lixo nos estádios nos chocou tanto

Por que a cena da torcida japonesa recolhendo o lixo nos estádios nos chocou tanto

JAPAO





Por que a atitude tão singela de
recolher os próprios rejeitos, protagonizada pela torcida japonesa nos
estádios de futebol, durante a Copa do Mundo, provocou tamanho espanto
entre nós, brasileiros? O que isso pode nos deixar de legado? Certamente
o que os japoneses podem nos ensinar é o que eles já sabem desde
criancinhas: temos que cuidar do lixo que produzimos. 



De acordo com o sociólogo Roberto DaMatta, autor de livros como “O
que faz o Brasil, Brasil”, de 1984, – que trata da formação da
identidade do nosso povo desde o descobrimento e do famoso “jeitinho
brasileiro” – não sabemos ser responsáveis pelo lixo que produzimos.
Sempre fomos acostumados, avalia DaMatta, a ter alguém que limpe o que
sujamos. “A responsabilidade é sempre do outro”, argumenta o sociólogo.
Fazemos isso automaticamente, sem titubear. Ele lembra do nosso hábito
de dizer “jogar fora” toda vez que nos desfazemos de algo.


A má prática do jogar fora é mesmo antiga, como relata o jornalista e
escritor Laurentino Gomes em seu livro “1822″, em que informou que no
Rio de Janeiro colonial “lixo e os dejetos das casas eram atirados à rua
ou despejados nas praias”. Não é assim que ainda acontece nas ruas das
principais cidades brasileiras? Quem nunca presenciou alguém se
desfazendo de uma lata de bebida ou uma embalagem de salgadinho na
calçada, sem o menor pudor? O brasileiro não se responsabiliza nem ao
menos pelo cocô de seus cães.


O Brasil foi apontado recentemente pela ONU e pelo Banco Mundial como
o quinto maior produtor de lixo do planeta. Acontece que reciclamos
apenas 3% dessa montanha de dejetos. De acordo com a Associação
Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe)
de uma década para cá produzimos nada menos que 63 milhões de toneladas
de lixo todos os anos.


Cerca de 30% desse montante tem grande potencial de reaproveitamento.
Ou seja, são materiais que poderiam gerar riquezas para o país se
devidamente reprocessados para voltar novamente à cadeia produtiva.
Eles, entretanto, são simplesmente “jogados fora” e abarrotam lixões e
aterros sanitários.


O diretor-presidente da Abrelpe, Carlos Silva Filho diz: “O Brasil
viu seu volume de resíduos crescer 21% na última década, muito acima do
índice de crescimento da população, que foi de 9,6% no período”, relata.
Os índices de reciclagem, entretanto, não acompanham esse aumento da
produção de lixo que é resultado do crescimento econômico e do maior
poder de compra e consumo dos brasileiros.


Silva Filho Abrelpe também revela que 60% das cidades brasileiras
dispõem de algum tipo de coleta seletiva. “Mas isso não significa que
esses municípios tenham coleta seletiva em todo o seu território ou que
contem com um programa formalizado porta a porta. Apenas indica que o
município está aberto ao tema”, avisa Silva Filho.


É muito pouco para um país que está implantando sua Política Nacional
de Resíduos Sólidos (PNRS). Entre outras medidas como a obrigatoriedade
da reciclagem está determinado que 3 de agosto próximo é o dia em que o
país iria acabar com os lixões a céu aberto. É de conhecimento que a
meta não será cumprida, já que a grande maioria das cidades ainda não
conseguiu eliminar esses depósitos mal-cheirosos.


Agora vejamos como funciona no Japão. Em primeiro lugar, lá a
reciclagem é obrigatória faz tempo. A separação do lixo descartado em
casa também. É uma verdadeira maratona para o cidadão japonês, mas ele
se sai bem. Caso contrário as multas são pesadas. Em uma casa japonesa
sempre há sacos de lixo de cores diferentes para cada tipo de material:
incineráveis e não incineráveis (porque no Japão alguns tipos de
rejeitos são queimados) metais, madeira, plásticos, vidros, restos de
comida. Essa prática cotidiana é aprendida na escola desde a mais tenra
idade. Há, inclusive, uma cartilha distribuída nos condomínios onde é
ensinado o passo a passo do descarte de lixo. É impressa não só em
língua japonesa como também em inglês e espanhol. Assim, não há
desculpas para os incautos imigrantes.


Se quiser se desfazer de um móvel no Japão, antes é preciso verificar
de que tamanho e de que material ele é feito. Se for pequeno e de
madeira vai para a categoria incinerável. Caso contrário é preciso
agendar com a prefeitura um dia para que venham recolhê-lo para a
reciclagem. Não sai de graça, há taxas para esse serviço.


Parece burocrático, mas funciona como um relógio. Jogar lixo na rua é
impensável para o cidadão japonês. E, assim como fizeram em nossos
estádios, em certas cidades há mutirões de limpeza organizados pelos
próprios moradores para fazer faxina nas ruas onde residem. Também
existem campanhas educativas com slogans do tipo “Não compre objetos que
acabará se desfazendo mais tarde” ou “Só use artigos que podem ser
reutilizados várias vezes”.


É esta a lição deixada nas arenas por onde os japoneses passaram
durante a Copa do Mundo no Brasil. Um dia vamos chegar a esse nível de
consciência cidadã e nos livraremos de nosso complexo de vira-latas. De
lixo.

Vidas paralelas

As vidas paralelas de Dirceu e Barbosa

Vidas paralelas



Postado em 03 jul 2014

Dois homens que frequentaram nos últimos anos as primeiras páginas iniciaram, nesta semana, uma nova etapa em sua vida.


As fotos falam sozinhas.


É um Joaquim Barbosa reluzente, com ares de estrela de Hollywood, que você vê se despedindo do STF.


Jornalistas se apressaram em tirar selfies ao lado de JB. Seu futuro é
previsível. Fora a pensão vitalícia de quase 30 mil reais, a
possibilidade de fazer palestras em série com cachês milionários.


Quanto tempo vai demorar até que JB se torne colunista do Globo ou da
Folha, comentarista da CBN e da Globonews – todas aquelas coisas,
enfim, que alavancam você para a vida de palestrante?


A direita cuida dos seus.


Mas antes de tudo o ócio esplêndido, gasto em parte provavelmente no
apartamento de Miami comprado com um expediente para evitar imposto.


A foto do segundo homem é bem diferente. É um Zé Dirceu muito mais
magro e claramente abatido que é fotografado a caminho do seu emprego.


Foram sete meses de prisão por um capricho de Joaquim Barbosa, que
contrariou uma jurisprudência consagrada para mantê-lo trancafiado.



Neste período de mais de meio ano, enquanto Barbosa fazia coisas como
dar um giro pela Europa e ver num camarote a abertura da Copa do Mundo,
Dirceu desfrutava o que a mídia chamava de “regalias” da Papuda.


O banheiro, por exemplo, não tem vaso sanitário, apenas um buraco.
Mas para a mídia era como se Dirceu estivesse no George 5 de Paris.


Ainda agora é este o tom. Leio no site do Globo que “especialistas
dizem que Dirceu debochou” dos brasileiros ao sair da prisão numa Hilux
com motorista.


Como ele deveria sair para satisfazer o Globo? Ele deveria ir a pé para o trabalho? Numa perua Brasília 1974? De quatro?


Vou ver quem é o “especialista”. É Bolívar Lamounier, apresentado
como “cientista político”, simplesmente. Pobres leitores do Globo.
Talvez eles imaginem que Lamounier seja um analista “isento” e não, como
é, um antigo militante do PSDB.


O que Lamounier tem a dizer sobre Robson Marinho, de seu partido,
mantido há tantos anos no Tribunal de Contas do Estado mesmo sob
evidências cabais de contas secretas na Suíça?


Então ficamos assim: o Globo quer que alguém bata em Dirceu e vai
procurar esta pessoa no PSDB. Diz que ela é “especialista”, para lhe
conferir autoridade. Só não avisa seu leitor de que o “especialista”
pertence ao PSDB.


Num certo momento, pouco mais de dez anos atrás, as vidas de Joaquim
Barbosa e José Dirceu se cruzaram. Estavam em situação diferente da
atual.


Barbosa batalhava, sôfrego, por uma vaga no STF, e Dirceu era um ministro poderoso.


Algum tempo depois, no Mensalão, os papeis tinham mudado. Barbosa era Deus e Dirceu o demônio.


Nos últimos meses, em mais um giro da roda, Barbosa era o homem que
podia fazer de Dirceu um presidiário em tempo integral, mesmo sob a
reprovação de quase todos os seus colegas de STF – e fez.


Agora, Barbosa parte para um futuro que promete trazer dinheiro e
status em grandes quantidades. Dirceu é uma incógnita: como a temporada
na prisão o afetou?


Como a posteridade tratará dois homens tão diferentes mas que compartilharam uma mesma história de forma tão intensa?


Representam visões tão opostas que um haverá de aparecer como vencedor e o outro como vencido nos livros de história.


Qual o vencedor, qual o vencido?


Façam suas apostas, amigos.


Tenho a minha.

Colheu o que não semeou | Brasil 24/7

Dilma Rousseff colheu o que não semeou | Brasil 24/7




WANDERLEY GUILHERME DOS SANTOS

Ela colheu precisamente os resultados do que não semeou: não promoveu a emergência de um sistema democrático de informação
(originalmente publicado na Carta Maior)
Aproveitando a vaia pornofônica que
singularizou a participação dos reacionários e distraídos na abertura da
Copa das Copas, a oposição saiu-se com o comentário de que a presidenta
Dilma Roussef colheu o que semeou. Pensou que estava abafando. Não
estava. Para além da falta de compostura e civilidade, a oposição errava
outra vez no diagnóstico. A presidenta colheu precisamente os
resultados do que não semeou: não promoveu a emergência de um sistema de
informação democratizado.

A falta de pluralismo nos meios de
comunicação não é ambição de esquerdas partidárias. Trata-se da
prestação de um serviço privado, pago por consumidores, atualmente
fraudados em suas aspirações de consumo. Ler um jornal, uma revista ou
assistir ao noticiário da televisão faz parte da pauta de itens que a
vida moderna põe, ou devia por, à disposição de quem os deseje usufruir.
E os consumidores têm o direito de protestar. Assim como os passageiros
urbanos reclamam da qualidade dos serviços pelos quais pagam, os
leitores e espectadores insatisfeitos se julgam ludibriados pelos
fornecedores da mercadoria que compram.

Os jornais, revistas e emissoras de
televisão registraram com olhos complacentes os quebra-quebras
aleatórios propulsionados pela carestia e falta de qualidade dos
transportes em circulação. Não seria bom para a democracia, tal como não
o eram os destemperos de violência, que os desgostosos com o pífio
padrão do jornalismo, minorias como as de junho do ano passado ou
maiorias como a queda de audiência e circulação atestam, empastelassem
jornais ou ocupassem estações de televisão, exigindo participação e
honestidade de gestão.

Durante o período que antecedeu a Copa das
Copas e não somente em relação a ela, os meios de informação sonegaram
centenas, milhares de notícias altamente relevantes para a vida dos
leitores e espectadores. Mais do que isso, disseminaram incansavelmente
uma visão de mundo incompatível com a realidade dos fatos. Era falso que
os aeroportos, estádios, avenidas e metrôs não iriam ficar prontos. Era
falso que os gramados não drenariam as chuvas, as comunicações não
funcionariam, os holofotes não acenderiam. Era falso que os turistas
seriam assaltados, que não haveria segurança, que conflitos gigantescos
ofuscariam os jogos nos campos de futebol pela pancadaria generalizada
nas arenas do lado de fora. Tudo falso. Moeda falsa. Produto estragado
vendido a preço de luxo.

As trombetas da derrocada econômica, da
inflação sem controle, do afinal bem vindo desemprego, são igualmente
serviço fraudulento. Os leitores estão sendo diariamente lesados em sua
boa fé, duplamente: não são informados do que ocorre efetivamente na sua
cidade, no seu estado e no país, e são levados a acreditar que há um
pesadelo à espreita assim que puserem os pés fora de casa. Quando não o
vêem não é porque não exista, mas porque ainda não chegou a alguns
lares: inflação, desemprego, falta de saúde e de educação; pior, falta
de perspectiva.

A lição é terrível. Dela sabiam os tiranos da
antiguidade, os tiranos da contemporaneidade os imitaram: um sistema
articulado de falsidades pode produzir os delírios fantasistas ou as
angústias aterradoras de uma droga, se absorvido por tempo suficiente.
Uma imprensa oligopolizada é nada menos do que uma droga.
Eficientíssima, capaz de produzir o pessimismo sem fundamento das
análises econômicas, tanto quanto o desvario irracional das vaias
pornofônicas. Ao se manter indiferente à péssima qualidade do serviço
pago, inclusive com as bondades das concessões e outras benfeitorias, a
presidenta Dilma Roussef colheu o que não semeou.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Folha de S.Paulo - Opinião - Para inverdades, há remédio? - 30/06/2014

Folha de S.Paulo - Opinião - Para inverdades, há remédio? - 30/06/2014

Dirceu Barbano
Para inverdades, há remédio?
Em 2002, cada medicamento de referência tinha três versões de genéricos.
Hoje tem oito. A concorrência triplicou e os preços caíram
Em períodos eleitorais, são comuns manifestações monotemáticas e
desavergonhadas como a do ex-ministro da Saúde José Serra (PSDB) no
artigo "Na saúde, o PT não tem remédio" (13/6), no qual dissimula dados
do mercado de medicamentos genéricos e ilude acerca da gestão da Anvisa
(Agência Nacional de Vigilância Sanitária).





No Brasil, como em qualquer país, a presença dos genéricos trouxe
benefícios. Aumentou a concorrência e os preços caíram. A lei que criou
essa classe de medicamentos foi editada em 1999, depois da aprovação
pelo Congresso Nacional de um projeto de lei apresentado em 1991 por um
deputado do PT. A obsessão pela paternidade da medida faz com que esse
senhor se comporte como padrasto que não aceita a possibilidade de o pai
ser capaz de cuidar ainda melhor do próprio filho.





Em 2002, os genéricos representavam apenas 3,9% do volume de
medicamentos vendidos no Brasil. Em 2006, saltou para 15% e hoje está em
30%. De cada três medicamentos vendidos, um é genérico. Um aumento de
quase dez vezes desde 2002, com participação próxima dos 31% observados
na França.





Entre 2000 e 2002, foram registrados 512 genéricos no país, apenas 170
ao ano. Em 2012, a Anvisa registrou 413 desses medicamentos. Ao final de
2002, cada medicamento de referência tinha, em média, apenas três
versões de genéricos. Hoje tem cerca de oito. A concorrência triplicou
nos últimos 12 anos e os preços estão bem mais baixos.





O ex-ministro se esqueceu da exigência que fez em 2002 para que os
medicamentos similares passassem pelos mesmos testes de equivalência
pelos quais passam os genéricos para serem considerados cópias idênticas
dos seus referenciais. O prazo para essa ação expira no final de 2014. E
o governo e os setores envolvidos discutem o que fazer para beneficiar o
consumidor com essa medida, que deu aos similares as garantias que os
genéricos já possuíam.





Omitindo o fato de ter alterado em 2001 a lei que criou a Anvisa para
esvaziar o poder de diretores que discordavam dele, o padrasto dos
genéricos faz considerações irreais sobre a conduta deles. Desde sua
criação, os diretores da Anvisa são indicados pela Presidência da
República e dependem de aprovação do Senado para serem nomeados para
mandatos de três anos. Tive a honra de passar por esse processo duas
vezes, sendo aprovado por senadores de vários partidos, incluindo o
PSDB.





Em 2002, 45% da mão de obra da Anvisa era composta por servidores da
própria agência, 20% eram concursados oriundos de outros órgãos públicos
e 35% eram indicados por critérios nem sempre transparentes e, por
vezes, indesejáveis, definidos pelo ex-ministro. O primeiro concurso
público foi autorizado pelo então presidente Lula em 2004. Hoje, o
número de profissionais técnicos escolhidos por concurso público chega a
99% do total de seus servidores.





Na criação da Anvisa, o ex-ministro incluiu 88 cargos de confiança que
eram preenchidos por indicação dele. Hoje, a escolha é feita depois de
edital público, análise de currículo, entrevistas e deliberação da
diretoria colegiada. Isso fez com que 75% dos cargos existentes fossem
ocupados por servidores concursados. É desrespeitoso dirigir-se a eles
como loteadores de cargos públicos.





A Anvisa conta com um parlatório onde são atendidos os agentes externos.
As reuniões são gravadas e as atas registradas. Se o ex-ministro
tivesse identificado aqueles que chama de lobistas e, nas suas palavras,
"operam livremente na agência", teria incluído os 43 atendimentos
feitos a deputados e senadores do PSDB entre 2010 e 2014.





Como farmacêutico, aprendi a respeitar os números, uma vez que existem
casos em que uma pequena variação na dosagem dos remédios representa a
diferença entre a vida e a morte. Os economistas gostam deles por outros
motivos. Mas uma coisa é certa: os números falam por si e não mentem.






DIRCEU BARBANO, 48, farmacêutico, é diretor-presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária)


Janio de Freitas - Com e sem Joaquim Barbosa

Janio de Freitas

Com e sem Joaquim Barbosa
Presidente do STF tornou-se, via TV, o que a linguagem modernosa chama de fenômeno midiático
Está prevista para hoje a última participação do ministro Joaquim
Barbosa como presidente e como integrante do Supremo Tribunal Federal,
mas da agenda não decorre a certeza de sua presença. É desejável que vá.
Considerado o nível de apreço que o ministro tem aparentado pelo
Supremo, em referências à corte atual e na renúncia antecipada em
relação até ao que já seria grande antecipação, pode bem revelar-se um
privilégio vê-lo togado ainda uma vez e, como despedida, em sua plena
autenticidade.
O sentido e a dimensão das contribuições de Joaquim Barbosa, para a
magistratura e para o Supremo, devem ser medidos e pesados por juristas e
magistrados. Seu último e relevante desempenho suscitou, porém, fora do
tribunal, admirações exacerbadas e os diferentes opostos disso, além,
entre aquelas e estes, de não pouco estarrecimento.
As múltiplas imagens públicas de Joaquim Barbosa, por mais que se devam
ao próprio, são obra direta da função de projetá-las que o Supremo deu à
TV, ao abrir à indiscrição das câmeras e microfones o que até então era
tratado com o temeroso recato da imprensa ante a alta magistratura.
Joaquim Barbosa tornou-se, via TV, o que a linguagem modernosa chama de
fenômeno midiático. E, em tal condição, protagonista político.
Alguns reflexos desse protagonismo são sociologicamente bastante
reveladores. Ministros do Supremo, por exemplo, em especial Luís Roberto
Barroso, Dias Toffoli e Teori Zavascki, conhecem o efeito, manifestado
por parte da opinião pública e da imprensa, de ter posições divergentes
das expostas por Joaquim Barbosa. No Supremo mesmo, aliás, a exaltação
de Joaquim Barbosa se difundiu, a ponto de ouvir-se o próprio decano do
tribunal, Celso de Mello, em voto descontroladamente irado sobre um
recurso, chamar de "ladrões" os recorrentes entre os quais nenhum foi
acusado ou condenado como ladrão.
Para ficar em exemplo com base ainda mais segura, tenho a
correspondência recebida de leitores. Em minhas três décadas na Folha,
jamais me faltaram críticas de leitores. Guardei todas, valiosas como
elementos de análise histórica. E nelas se comprova um salto
extraordinário: criticar ou mesmo registrar qualquer das muitas
violações, por Joaquim Barbosa, do equilíbrio e da compostura que são
deveres de todo magistrado, e sem as quais o magistrado deixa de sê-lo,
provocou a mudança de linguagem das críticas que antes seriam ásperas.
O crescendo da exaltação de Joaquim Barbosa foi acompanhado do crescendo
de insultos, da violência a ponto de haver até ameaça. E, com o novo
hábito, não mais a respeito só de pontuações do julgamento, mas já sobre
qualquer assunto. As deformações caluniosas do que foi expresso no
texto, antes próprias dos judeus de extrema direita (agora mesmo fui
atacado por lamentar o fim do mandato do presidente Shimon Peres, um
raro estadista israelense), hoje são corriqueiras. O salto nítido na
linguagem exprimiu como que uma liberação de iras e fúrias por Joaquim
Barbosa, por sua exaltação condenatória.
Não muda nada que a liberação ocorresse à revelia do ministro, talvez
desconhecimento. É a revelação de um estrato social que constitui uma
espécie de black bloc mental, político e tão ansioso por
violência quanto aquele que sai de casa para destruir placas de
trânsito, incendiar lixeiras, obstruir partes das cidades e tentar
atingir policiais. É a revelação daquela massa que parece compreender,
insatisfeita embora, os males da prepotência social e do autoritarismo
político, mas está pronta para o contrário. Espera só o pretexto.

O aniversário do real e o valor do dinheiro.

O aniversário do real e o valor do dinheiro. Dinheiro real, aquele que você recebe. | TIJOLAÇO 


O aniversário do real e o valor do dinheiro. Dinheiro real, aquele que você recebe.

1 de julho de 2014 | 08:15 Autor: Fernando Brito


real


Os jornais publicam  matérias mostrando que a nota de 100 reais, lançada no Plano Real, por Fernando Henrique Cardoso, hoje vale apenas R$ 22.


É verdade.


A inflação, claro, come o valor do dinheiro.


Então, este humilde blogueiro, que tem mania de fazer conta, foi lá
na “Calculadora do Cidadão” do Banco Central ver como foi este processo
de desvalorização.


E fez a conta para saber quanto aquela nota perdeu em cada governo.


Mas não esqueceu de fazer a outra conta, tão importante ou mais, que é
a de quanto dinheiro (o de papel e o verdadeiro, que é o seu poder de
compra) recebe.


Acompanhe com atenção.


A azulada pelega de 100 de FHC, em fevereiro de 2002, oito anos
depois de sua estréia, tinha sido vítima de uma inflação de 143,3%.


Para comprar o mesmo que 100 reais de 94,  seriam precisos 243, 29 reais.


A nota de 100, portanto,  valia  41,11 reais.


No governo Lula, aqueles R$ 41,11 também perderam valor, é claro.


Até fevereiro de 2011 – iguais oito anos – a inflação pelo IPCA foi de 65,37%.


E a cédula de R$ 100, que já começou este período valendo R$ 41,11, desvalorizou-se para R$ 24,85.


No governo Dilma, com a inflação de 19,74% acumulada até fevereiro e
mais 6% de inflação estima da até fevereiro de 2015, a perda será de
27,1%, aproximadamente.


O que faria aquela nota de R$ 100, que FH transformou em R$ 41, que
baixou com Lula a R$ 25, vá chegar, ao final do período Dilma, valendo
R$ 19,56.


Se eu fosse fazer uma conta desonesta – não sei onde já se viu fazer
contas desonestas na imprensa brasileira, né? – poderia dizer que
Fernando Henrique tirou 59 reais da nota, ou R$ 7,37 por ano, enquanto
Lula tirou bem menos, 26 reais ou R$ 3,66 por ano, e Dilma, em quatro
anos, perto de R$ 4,50, ou R$ 1,10 por ano.


Mas não é assim que se avalia, exceto quando se quer fazer comparações desonestas.


O certo é dizer que FHC fez a nota perder 59% de seu valor, ou 6 por cento ao ano, em oito anos.


Que Lula assistiu a uma redução de 39,4% do seu valor, em oito anos, o que dá  4,2% ao ano.


E que Dilma a viu reduzir-se em  21,3%, ou 4,9% ao ano, em quatro anos.


Um pouco acima de Lula, bem abaixo de FHC.


Agora, a trajetória do dinheiro real, para milhões de trabalhadores, aposentados, pensionistas e avulsos: o salário mínimo.


No final do Governo FHC ele era pago com duas daquelas notas de cem
reais que, como vimos, valiam R$ 41,11. Então, em valor deflacionado,
valia R$ 82,22.


A história de que Fernando Henrique deu ganho real ao salário mínimo
está apoiada precariamente no fato de ele ter “herdado” quatro meses de
salário a R$ 80, fixado por ele mesmo no finzinho do Governo Itamar
Franco.


Já no final do Governo Lula, em 2010, o salário mínimo era de R$ 510,
ou pouco mais que cinco notas de cem. Como, no fim deste período, cada
uma destas notas tinha valor real de R$ 25, isso equivalia, em dinheiro
“forte” do início do real a R$ 127, 50, ou 55% mais do que aqueles R$
82,22 que Fernando Henrique deixou como herança.


E com Dilma, o que temos hoje?


O salário mínimo passa de sete notas de cem: 7,24 delas,
precisamente. Como cada uma delas valerá R$ 19,56, isso dá R$ 141,61,
sempre naquele “real forte” do início do plano.


Em percentagem: 11% mais que no final do Governo Lula e 72% mais que no final do Governo Fernando Henrique.


Esta é a verdadeira medida do poder de compra.


Não apenas o da moeda, mas o da moeda que se recebe.


O que, no caso de quem trabalha, chama-se salário.


Mas salário não é santo do altar dos nossos economista, mais devotos do “santo tripé” macroeconômico, não é?

A volta da normalidade no STF - Carta Maior

A volta da normalidade no STF - Carta Maior

Wadih Damous








O Supremo Tribunal Federal, finalmente, volta à sua normalidade institucional.

Sem
mais arroubos autoritários; sem mais decisões monocráticas que, a
despeito da interposição do respectivo recurso, não são levadas a
plenário sem qualquer fundamento e subvertendo preferências legais (em
outras palavras, restabelecendo o princípio da colegialidade); sem
incidentes envolvendo a violação de prerrogativas de advogados nem
acusações e ataques mútuos entre Ministros. Enfim, uma sessão normal de
um órgão colegiado sério e respeitoso, tanto no trato entre seus
membros, quanto na relação entre estes, os advogados e a sociedade em
geral. A ausência percebida preencheu uma lacuna.

Assim foi a
sessão da última quarta-feira (25), presidida pelo Ministro Ricardo
Lewandovski, que está próximo de assumir definitivamente o cargo de
Presidente da Corte. Nela, o Pleno do Supremo (e não a vontade isolada
de um Ministro), decidiu dois recursos referentes à Ação Penal 470: um,
referente ao direito ao trabalho externo de alguns réus, condenados ao
regime semiaberto; o outro, referente ao pedido de prisão domiciliar de
José Genoino, por razões de saúde.

Feitas essas observações gerais, vamos aos julgamentos em si.

Com
relação ao trabalho externo, o Supremo apenas restaurou a aplicação da
Jurisprudência amplamente majoritária sobre o tema – majoritária não
apenas no próprio Supremo, mas em todo o Judiciário Nacional, no sentido
de que o trabalho externo, no regime semiaberto, não depende do
cumprimento de 1/6 da pena, caso em que não diferiria em nada do regime
fechado e não levaria em consideração a realidade do sistema carcerário
brasileiro.

Além disso, acertou o Supremo ao considerar
insignificante, ao menos do ponto de vista jurídico, a suposta relação
de amizade entre o representante da Pessoa Jurídica que ofereceu
trabalho a José Dirceu e este, bem como a suposta dificuldade em
fiscalizar um ente privado nessa hipótese. Com razão, o Tribunal, a
partir do voto do Ministro Barroso, reconheceu que esses supostos
obstáculos, além de carentes de qualquer fundamento racional, seriam
sérios entraves à desejada ressocialização do preso por meio do
trabalho, que muitas vezes só é possível a partir de iniciativas de
determinadas empresas ou a partir de vínculos pessoais de confiança, por
conta da natural desconfiança com relação a egressos do sistema
carcerário.

Com isso, o Tribunal evitou ceder à sanha de parte
da “opinião pública”, que cegamente clama por tratamento mais rígido aos
réus da AP 470 do que às demais pessoas que cumprem penas no país,
percebendo o enorme risco sistêmico e de retrocesso civilizatório que
esse tratamento diferenciado poderia ocasionar.

Já com relação à
prisão domiciliar de José Genoino, há que se discordar do entendimento
majoritário do Supremo. Já disse, em artigo recente, que respeito
profundamente o Ministro Barroso como pessoa, magistrado e acadêmico,
assim como o admirava como advogado. Mas tal admiração não me impede de
exercer o direito de crítica. Nesse caso o Ministro Barroso, a meu ver,
parece ter feito pequena concessão à “opinião pública” (ou publicada),
que acusaria (injustamente, é claro) o relator e quem votasse com ele de
prestigiar a impunidade. Isso porque, no seu voto, o Ministro mencionou
que a decisão seria excepcional, por se verificar a mesma situação no
caso de diversos outros detentos do mesmo sistema prisional, e que não
gozam do direito pleiteado.

Ora, com o devido respeito, a lógica
me parece, nesse ponto, invertida. Até o senso comum indica que não se
deve justificar um erro por outro. Se diversos presos estão
indevidamente privados de cumprirem pena domiciliar, que se lhes garanta
esse direito, e não se negue seu exercício a quem legitimamente o tem,
apenas por uma suposta isonomia.

De todo modo, ainda que
discordando da decisão, reitero minha satisfação do início de nova fase
no Supremo Tribunal Federal, esperando que continue exercendo suas
funções sem os arroubos e paixões individuais que tanto prejuízo podem
causar à sociedade brasileira como um todo.
___________
 
Wadih Damous foi
presidente por duas vezes da OAB do Rio de Janeiro e atualmente é
presidente da Comissão Nacional de Direitos Humanos da OAB e da Comissão
da Verdade do Rio de Janeiro.

Reforma Política:

Reforma Política: só com Lula na rua - Carta Maior

Reforma Política: só com Lula na rua

A
pouco mais de cem dias das eleições a rotatividade na política
brasileira é tão intensa que fica difícil acompanhar o sopão das siglas
que se misturam.

por: Saul Leblon




A pouco mais de cem dias das
eleições de outubro a rotatividade na política brasileira é tão intensa
que fica difícil acompanhar o sopão das siglas se misturam pela manhã
para se dissociarem à noite.

O ziguezague forma um caldeirão
desprovido de qualquer  coerência retrospectiva ou prospectiva, para não
falar de referencias de somenos importância, como história, ideologia,
programas ou projetos de nação.

O cenário político estilhaçado é
um dos gargalos à continuidade do desenvolvimento brasileiro, que requer
o lastro de amplas maiorias para seguir em frente.

Hoje, é essa lava de interesses incandescentes que modela a composição e a lógica do Congresso brasileiro.

Vinte
siglas se digladiam ali num jorro desordenado a equiparar a coerência
programática de qualquer governante ao desafio de conduzir um trem longe
dos trilhos.

Todos os governantes e todos os partidos são reféns dessa montanha russa desengonçada que compõe o sistema político brasileiro.

O sobe e desce abrupto nos dias que correm tem provocado  sugestivas manifestações de enjoo e indigestão.

O Prefeito do Rio, Eduardo Paes, por exemplo.

Ex-demo,
ele  classificou de ‘bacanal’ a possível junção entre PMDB, seu atual
partido, e o PSDB,  na disputa pelo governo do Estado.

Dias
antes, fora a vez de a palavra ‘suruba’ dar o ar da graça no noticiário,
para classificar o apoio do PSB ao PT na mesma disputa fluminense. O
desabafo veio então do deputado federal pelo PSB, ex-verde, Alfredo
Sirkis.

Beirando o despudor em relação ao eleitorado, ao
contribuinte e à democracia, o  presidenciável Aécio Neves esponjou-se
nesse ambiente carregado de cenas explícitas de promiscuidade.

O
tucano exortou os convivas a um comportamento que ilustra o seu conceito
de retidão republicana e respeito ao país e ao povo: ‘Suguem mais um
pouquinho e depois venham para o nosso lado’, disse esse que se anuncia
um cruzado mudancista na vida política nacional.

A sucção tem
funcionado bem no seu nariz, mais precisamente em São Paulo, onde
Alckmin apunhala Serra e ‘aspira’ Kassab, do PDS --que apoia Dilma-- 
para candidato a senador, na vaga do PSDB.

Foi no âmbito desse
corso financiado pelo dinheiro privado  –com todos os complementos daí
decorrentes--  que a discussão sobre a ‘corrupção petista’, catalisada
pelo julgamento da AP 470, assumiu contornos de um imenso biombo.

Savonarolas
de biografias inflamáveis e togas coléricas cerraram fileiras para
fazer desse episódio  uma nuvem de fumaça capaz de desviar a atenção
daquilo que o circunstanciava e decifrava: a urgência de uma reforma
política para  libertar a democracia da subordinação a interesses que se
impõem à revelia das urnas.

Alertas como os feitos atualmente
por dirigentes do PT e membros do governo  --que advertem para a
disseminação do estigma conservador, que colou no PT  o carimbo de
corrupção --   são benvindos.

Mas correm o risco de perder a
força renovadora que carregam, sempre que cederem lugar ao lamento
reiterativo, em detrimento da mobilização por uma Constituinte destinada
a promover uma mudança efetiva na política do país.

Lula, em vídeo recente em defesa dessa bandeira (https://www.youtube.com/watch?v=q1X66PR3KZ), foi eloquente em evocar a sua importância como um divisor na história brasileira.

“Para
o Brasil continuar mudando, é preciso garantir a legitimidade das
instituições e acabar com a interferência do poder econômico nas
eleições”, afirmou reiterando que ela é ‘cada vez mais necessária e
urgente; um clamor, que nasce das ruas, que vem da sociedade’.

O
ex-presidente que deixou o governo com 80% de apoio popular pede adesão a
um manifesto que pretende reunir 1,5 milhão de assinaturas para propor
ao Congresso Nacional a convocação de uma Constituinte, exclusiva e
soberana, com essa finalidade.

 A manifestação é convincente e
ilustrativa da centralidade que a radicalização da democracia passou a
ocupar na visão petista do que é prioritário – indispensável-- para
destravar o passo seguinte desenvolvimento brasileiro.

Mas carece, ainda, de um lastro mobilizador efetivo.

A
ausência desse requisito reflete certa prostração do campo
progressista, que hesita em transformar o  aggiornamento histórico de
suas reflexões em mobilizações de massa, necessárias para alterar, de
fato, a correlação de forças que está na origem dos impasses
brasileiros.

Intervenções como a de Lula terão a força requerida
pelo objetivo a que se propõem, quando forem parte de um engajamento
prático.

Uma determinação feita de agendas, comícios e
caminhadas, claramente traduzidos em locais e datas que ofereçam
alternativas à participação organizada de amplas esferas da sociedade,
para além da franja dos iniciados.

Não apenas isso.

É indispensável  explicitar o vínculo entre democracia e superação da encruzilhada do desenvolvimento do país.

Portanto, entre reforma política e retomada do crescimento brasileiro.

Trata-se
de rejeitar a mística conservadora de uma estabilidade em si da
economia, fruto da terceirização dos destinos da sociedade aos impulsos
dos ‘livres’ mercados.

Em primeiro lugar, a ideia de um capitalismo em equilíbrio é uma contradição nos seus próprios termos.

No
capitalismo, a estabilidade reivindicada pela ortodoxia equivale, na
verdade, à paz salazarista dos cemitérios, na qual o povo faz o papel de
defunto e o dinheiro grosso, o de coveiro.

A retomada do
crescimento por aí tem outro nome: concentração de renda; expropriação
de direitos trabalhistas; regressão social e alienação do patrimônio
público.

É o oposto do compromisso com a melhoria efetiva da qualidade de vida das amplas massas brasileiras.

 Só
há uma receita econômica compatível com esse pacto: aquela que entende o
desenvolvimento como um processo histórico de transformação da
sociedade, o que implica superar estruturas existentes e criar outras
novas.

Isso não se faz a frio.

 Ao contrário do que
sugerem os dogmas neoliberais apregoados pelo jornalismo isento, quem
determina a coerência macroeconômica nesse processo é a correlação de
forças de cada época.

Dito de forma muito clara: para romper os
torniquetes do dinheiro grosso é necessário poder; e poder hoje no
Brasil implica subtrair espaços do mercado em favor da democracia.

Quem
pode propiciar isso  é uma reforma política que amplie os canais de
participação popular e assegure maior legitimidade à representação da
sociedade.
Lula disse em recente encontro de blogueiros, em maio, que ela virá das ruas.
E ela só virá das ruas se Lula estiver nas ruas.