domingo, 5 de julho de 2015

O bullying diário

O bullying diário contra a presidenta Dilma Rousseff - Jornal do Romário







O bullying diário contra a presidenta


Ligado .







Por Alexandre Ribondi
“Muita mentira, mas não inventada
pelos dois senhores (que ouço) que apenas repetem, como papagaios, o que
é dito e clamado nas redes sociais e na mídia nacional”.
Hoje à tarde, sentado num café, ouvi da
mesa ao lado dois senhores que lamentavam a imensa vergonha de ver a
presidente do Brasil ir aos Estados Unidos de pires na mão, já que o
nosso país está quebrado.
Tudo isso é mentira, é claro, mas não
foi inventada pelos dois senhores que apenas repetem, como papagaios, o
que é dito e clamado nas redes sociais e na mídia nacional.
E não é para se surpreender, porque
qualquer brasileiro sabe que da Dilma Rousseff já se inventou de tudo.
Que a filha dela se tornou dona de 20 empresas e está milionária. Que
ela liberou R$ 13 milhões para erguer estátua do Lula. Que proibiu
divulgação de investigações de acidentes aéreos acontecidos no nosso
céu.
Que é lésbica de dar porrada. Que foi
assaltante de banco e terrorista (informação dada pela Folha de S.
Paulo, que, em seguida, desmentiu, com pedidos de desculpas). Que quer
deturpar a língua portuguesa ao pretender ser chamada de 'presidenta'.
Podemos até nos perguntar se ela
consegue dormir, que calmante tarja preta ela toma, se sofre de
tremedeira e suores. Eu teria tudo isso, porque uma coisa é fato: a
imprensa e a elite brasileiras, enlouquecidas com a possibilidade de o
governo de Dilma continuar levando o Brasil para o bom caminho e, com
isso, firmar a plataforma eleitoral de Lula na próxima eleição não têm
mais pudor em difamar, atacar moralmente e psicologicamente, mentir,
inventar. Isso tem nome e certamente não é jornalismo nem oposição. Isso
é bullying.
Mas tanto a elite quanto a imprensa
sabem que já tiveram vitórias anteriores. Quando, em 1888, a princesa
Isabel saiu de casa para assinar a Lei Áurea (a que acabou com a
escravidão), ela avisou ao marido, o Conde d'Eu, que provavelmente seria
deposta.
Mas ela tinha reservas financeiras, no
banco, para garantir a inserção dos negros na sociedade brasileira e
esperava certa compreensão. Que não veio. Jornais e fazendeiros gritaram
aos quatro ventos que o Brasil iria à falência com o fim da escravatura
- o que nunca aconteceu, naturalmente.
Mas a monarquia foi banida do território
nacional, e a República nunca tratou de convidar os antigos escravos a
participarem da nova sociedade. O resultado foi a manutenção da elite
nos mesmos padrões e a criação de uma horda de mendigos, famintos,
marginais. Todos pretos.
Mais de 50 anos depois, imprensa e elite
voltaram a atacar quando o ditador Getúlio Vargas, inventou de criar o
salário mínimo, em 1936. Foi um deus-nos-acuda. Os jornais estamparam em
suas manchetes que o Brasil estava à beira da falência.
O Brasil não faliu, mas a elite ainda
afirma que se o salário mínimo subir muito, o país acaba. E quando
Vargas voltou, nos anos 50, como presidente eleito, os ataques às suas
reformas sociais foram tão intensas que o resultado pertence à história:
um suicídio no Palácio do Catete.
O bullying praticado contra Dilma Rousseff parte do princípio de que
uma mulher pode ser desrespeitada - assim como é do senso absurdamente
comum a ideia de que um retirante nordestino operário sindicalista não
podia nunca ter chegado à presidência da República.
Lembram-se de quando Lula, esse
pé-rapado com apenas quatro dedos numa das mãos, benzeu uma garrafa do
elegantíssimo vinho Romanée-Conti? Disseram que esse é o vinho dos ricos
e dos corruptos.
Ora, os detratores de Lula bebem
Romanée-Conti e isso é natural. Quem não pode beber é nordestino pobre. O
bullying funciona assim mesmo: quer humilhar, ofender, esmagar a
auto-estima  da pessoa atacada.
Para os difamadores de Dilma, uma mulher
que tem voz de comando, que desafia a monstruosa ordem estabelecida,
que coordena um grupo de homens engravatados, só pode ser feia e mal
amada.
E lésbica, naturalmente - o que, para
eles, é ofensa. E como ela teve a ousadia e a coragem de vencer para um
segundo mandado presidencial, os ataques começaram na manhã seguinte.
A psicologia já sabe que as pessoas que
praticam o bullying adulto mostram suas forças quando se sentem
ameaçados pelo êxito do outro. Surge aí um sentimento de irritação, de
rancor, em relação ao sucesso que o outro possa ter.
Mas, infelizmente, ainda não há leis que
proíbam o bullying contra adultos. Se alguma atitude for tomada contra a
imprensa, que se tornou uma latrina de mentiras, conspirações e
desacatos, sempre poderão alegar que a liberdade de expressão está sendo
ameaçada e que a bolivarianização do Brasil caminha a passos largos.
Então, o que resta fazer, no momento, é
contar com o poder transformador e impactante das redes sociais e
discutir ideias, encontrar soluções, por a boca no trombone, mostrando
que o Brasil não é um poço de analfabetos políticos e que os herdeiros
dos donos de escravos não vencerão sempre.  Isso vai passar a ter nome:
anti-bullying.

Altamiro Borges diz que país vive onda de incerteza, ódio e fascismo

Altamiro Borges diz que país vive onda de incerteza, ódio e fascismo criado pela mídia tradicional - Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região



Altamiro Borges diz que país vive onda de incerteza, ódio e fascismo criado pela mídia tradicional

O jornalista Altamiro Borges
está preocupado. E não é paranoia de blogueiro esquerdista. Faz muito
sentido essa preocupação. Tem fundamento e provas na prática. Pensemos
que, desde 1998, na Venezuela, uma vanguarda se estabeleceu na América
Latina. Foram eleitos governos progressistas, preocupados com o combate à
desigualdade social, com a democratização do acesso a direitos. Mas
esse modelo vive uma crise, uma encruzilhada, uma incerteza, como
repetiu o painelista da 17ª Conferência Estadual de Bancários(as), em
seu painel, do sábado, 4/7, no Hotel Embaixador em Porto Alegre.


Se a Argentina conseguiu regular os meios de comunicação, no Brasil
os 12 anos de governos Lula e Dilma, não conseguiu trilhar o mesmo
caminho, a não ser pela moderna lei de internet. Os dois presidentes
optaram por não enfrentar esses verdadeiros responsáveis pela onda de
ódio que circula pelas redes sociais, pela opção de telejornais e
jornalistas e que tem na defesa do retorno do neoliberalismo a bandeira
de luta. Sim, a bandeira é de luta para enfrentar o ocaso do
neoliberalismo no mundo.


Altamiro diz que a crise econômica faz parte de uma estratégia
política de desgaste de presidentes progressistas. “Esses governos foram
de reformismo brando. As políticas sociais são importantes, mas
insuficientes. Essas políticas não foram acompanhadas da politização.
Pobre que entrou na universidade diz que conseguiu por causa da
meritocracia. Se não tivesse política, ele não teria ingressado na
universidade.”


O modus operandi aparece em vários exemplos. Basta ligar a televisão,
acessar as redes sociais. Vemos uma jornalista da TV Globo ser
corrigida pelo presidente estadunidense Barack Obama sobre o papel de
referência do Brasil como player político mundial e não meramente
regional como ela disse durante a visita da presidenta Dilma aos Estados
Unidos. Vemos também a presidente Dilma ser ofendida e agredida por um
jovem fascista de direita nos Estados Unidos e uma quantidade de
material machista que tenta (e consegue) desgastar a imagem da
presidenta. . “Derrotamos a direita, mas perdemos o debate. O movimento
sindical cuida das pautas dos trabalhadores, mas deixou de politizar a
sociedade”, acrescentou o painelista.


Altamiro diz que a América Latina, a partir de 1998, enfrentou a
hegemonia neoliberal e agora ocorre o que ele chama de um período muito
perigoso de incertezas. O caso da eleição do Syritza, na Grécia é
exemplar. Os governos centrais da Europa impõem uma agenda de recessão,
que procura colocar o partido grego de joelhos, asfixiá-lo. Apesar de os
governos progressistas terem chegado ao poder e implantado políticas de
combate a desigualdade social, no Brasil, por exemplo, faltou ao
presidente Lula e a presidenta Dilma enfrentarem a mídia tradicional com
regulação. “O capitalismo está numa fase agressiva, repressiva e de
retirada de direitos e vive uma crise prolongada e sistêmica de
reestruturação produtiva”, enumera.





América Latina: de laboratório à resistência


O final dos anos 1970 foi marcado pela construção política da
hegemonia do neoliberalismo na América Latina. A região foi o
laboratório do Consenso de Washington. Altamiro diz que o neoliberalismo
se fundou sob um tripé. A estratégia é desmontar o Estado, a nação e o
trabalho. Não por acaso as empresas tradicionais de mídia desempenham um
papel fundamental, se comportam como verdadeiros partidos políticos.


Citando o sociólogo Perseu Abramo, Altamiro refere  as duas formas
clássicas de manipulação dos meios de comunicação. Foi selecionando os
assuntos que deveriam chamar a atenção da massa e defendendo as
privatizações, a terceirização e o banco de horas que os meios de
comunicação montaram o contexto para a chegada do neoliberalismo. “A
América Latina se iludiu. Essas teorias foram apresentadas pela mídia
como teorias inevitáveis”, diz.


Altamiro refere que essa estratégia politicamente se esgotou, a não
ser pelo discurso de crise e de necessidade de uma nova reorganização do
capitalismo. A vanguarda de um movimento dialético, iniciado no Brasil,
em Porto Alegre, com o Fórum Social Mundial “Quando os partidos da
direita entram em crise, os jornais assumem o sseus lugar.”


no início da década passada, criou uma vanguarda de resistência e
levou ao poder progressistas em toda a América Latina. Altamiro chama
este fenômeno de vanguarda mundial, mas alerta para o seu esgotamento.
“Quando os partidos da direita entram em crise, os jornais assumem o seu
lugar. Estamos num momento em que precisamos resistir e atuar juntos”,
explica.





O que fazer e o papel dos Sindicatos


Os meios de comunicação de massa privados realçam aquilo que lhes
interessa e omitem o que lhes prejudica, como já dito acima. É a tal
seletividade. Não fosse assim, por que apoiaram a Ditadura Militar no
Brasil, da qual Roberto Marinho, fundador da Globo, nunca se arrependeu,
ou por que esconderiam agora investigações que apuram casos de
corrupção, como a Operação Zelotes, da Polícia Federal? A Operação
Zelotes, que investiga o Grupo RBS, sumiu dos jornais. De novo, a tal
seletividade. “A imprensa precisa o tempo todo desconstituir a política.
Precisa publicar um escândalo atrás do outro porque, se a política
funciona a mídia perde importância”, afirma.


Mas o que aconteceu que nos levou do topo para o abismo: da eleição
de uma presidenta com amplo apoio social no final de 2014 para o atual
estado de vandalismo, desrespeito e ódio. Tudo é culpa da Dilma. Por
certo, isso é uma estratégia comunicacional de repetição e ocupação dos
meios de comunicação. Altamiro refere que essa onda de fascismo foi
criada pela mídia. “Apesar de eu ter críticas contra o atual governo,
entendo que é difícil governar. Reconhecemos os avanços sociais dos
governos Dilma e Lula, mas todos os partidos de esquerda enfrentam o
mesmo problema quando administram. Forte oposição da mídia e a
necessidade de fazer concessões polpituicas para governar”, diz Altamiro


Mas e os Sindicatos? Altamiro puxou as orelhas dos sindicalistas. Diz
que é tempo de investir, de não pensar em comunicação como gasto. É
tempo de aproveitar que a internet ainda é um ambiente com relativa
liberdade. Afinal, como o filósofo italiano Antonio Gramsci ensinou e
foi citado por Altamiro, é preciso disputar a hegemonia num ambiente de
batalha de comunicação. Parte desse problema relaciona-se à falta de uma
política de enfrentamento da mídia. Altamiro diz que o atual governo é
um reformador “brando” e não enfrentou a mídia.


É preciso voltar a debater com a sociedade. Criar espaços na internet
e debater, acima de tudo, a sociedade. Precisamos politizar. “A mídia
brasileira é tão colonizada que diz que nós queremos trazer o modelo da
Venezuela de comunicação. Nós queremos o modelo dos Estados Unidos. E
por uma questão muito simples. A legislação estadunidense proíbe a
propriedade cruzada. Não pode ter rádio, internet e jornal ao mesmo
tempo”, diz Altamiro.


Tempos difíceis, mas importantes. É preciso enfrentar o debate por
uma comunicação com interesse público e não de um público. O modelo
brasileiro de comunicação de massa é comercial, neoliberal e fascista ao
repetir que a polpitica e os partidos políticos acabaram. Na crise do
capitalismo, quando começam a perder audiência para as redes sociais, a
estratégia é se juntar ainda mais aos aliados, os partidos e políticos
de direita, para defenderem suas visões de mundo.


Palavras de Altamiro Borges


INCERTEZAS

“Temos no mundo uma perigosíssima onda neofascista. Vivemos uma ditadura do capital financeiro no mundo”.


FENÔMENO

“A América Latina começou uma vanguarda de resistência ao neoliberalismo
a partir de 1998 na Venezuela. Depois, Equadros, Argentina, Bolívia e
Brasil. Foi uma vanguarda mundial. Todos esses governos estão passando
por problemas. Há um processo de asfixiar e de derrubar esses governos.”


ENCRUZILHADA

“Esses governos foram de reformismo brando. As políticas sociais são
importantes, mas insuficientes. Essas políticas não foram acompanhadas
da politização. Pobre que entrou na universidade diz que conseguiu por
causa da meritocracia. Se não tivesse política, ele não teria ingressado
na universidade.”


BATALHA DA COMUNICAÇÃO

“Tanto Dilma quanto Lula optaram por não enfrentar a batalha da comunicação. Estamos vivendo um momento muito perigoso.”


ONDA

“Elegemos o Congresso Nacional mais sujo da história do Brasil.”


OFENSIVA CONSERVADORA

“Derrotamos a direita, mas perdemos o debate. O movimento sindical cuida
das pautas dos trabalhadores, mas deixou de politizar a sociedade.”


PAPEL DA MÍDIA

“Quando os partidos da direita entram em crise, os jornais assumem o seus lugar.”

Como é possível ensinar processo penal depois da operação "lava jato"?

Como é possível ensinar processo penal depois da operação "lava jato"?



Como é possível ensinar processo penal depois da operação "lava jato"?

Do Consultor Jurídico


Depois
do acolhimento da delação premiada e da leniência precisamos repensar
como ensinamos Processo Penal. Isto porque falamos em princípios do
processo penal, em jurisdição, ação e processo. Podemos continuar, por
exemplo, a falar que a ação penal é indisponível? Com a Transação Penal
da Lei dos Juizados Especiais Criminais já se criou o “jeitinho” da
disponibilidade regrada, embora Geraldo Prado tivesse demonstrado que
não cabia na tradição do Direito Continental, da qual, em princípio,
somos herdeiros. Depois disso veio a delação premiada e a leniência.
Ocupam um lugar tolerado. Entretanto, atualmente, viraram manchete. Daí
que não podemos mais fingir que possuímos um processo penal único. Hoje,
se quisermos ser professores minimamente sérios, precisamos rever o que
ensinamos. Delação não é exceção e, acolhida, muda o sentido do
processo brasileiro.


Conforme apontam Allard e Garapon: “O Direito tornou-se num bem
intercambiável. Transpõe as fronteiras como se fosse um produto de
exportação. Passa de uma esfera nacional para outra, por vezes
infiltrando-se sem visto de entrada.”[1] Neste
contexto e articulando as repercussões desta constatação no campo do
Processo Penal, bem assim da Criminologia, influenciadas ainda discurso
da Law and Economics[2], baseado em Posner[3],
pretende-se delinear que coexistem, a partir de critérios
diferenciados, sistemas processuais inconciliáveis em território
nacional.


Não podemos ser mais professores românticos e muito menos cínicos. Delação premiada homologada pelo STF, prisão para delação, na mais lídima aplicação do Dilema do Prisioneiro no Processo Penal[4]leniênciaextintiva
de responsabilidade penal e negociação do objeto e pena da ação penal,
no mínimo, transformaram os pilares daquilo que ensinamos como “ação
penal”.


Coexistem, atualmente, duas frequências de Processo Penal, com
incongruências marcantes, incapazes de formar um sistema coeso. São
tantos institutos incompatíveis com a nossa antiga maneira de pensar
que, atualmente, diante da profusão de fontes e tradições,
encontramo-nos com sérias dificuldades de ministrar aos alunos um
Direito que possa minimamente ser próximo das novidades. Buscamos
propiciar coerência que, todavia, torna-se insustentável dada a
perplexidade. Elencaremos, assim, algumas dificuldades:


a) a ação penal é mesmo indisponível depois da delação premiada ou podemos simplesmente dizer que é uma exceção?


b) O juiz pode produzir prova, tendo papel de protagonista, inclusive
na negociação do acordo? Existe algum resto de imparcialidade? Quais as
funções reais do juiz?


c) A oralidade e o cross-examination foi (mesmo) adotada pelo 212 do CPP diante do deslocamento (matreiro) da questão para ausência de prejuízo?


d) Como compatibilizar a chamada de corréu e a confissão depois da
validade da delação premiada? Qual o lugar e estatuto das declarações do
delator?


e) As normas de processo penal são mesmo irrenunciáveis ou podemos
falar em direitos processuais como privilégios renunciáveis pelo
acusado? Em que hipóteses?


f) Como fica a conexão probatória nas cisões arbitrárias entre
acusados em face do foro privilegiado? Os acusados que foram cindidos
podem se habilitar para formular perguntas aos do foro privilegiado?
Podem ser arrolados como informantes os acusados cindidos?


g) qual o regime da interceptação telefônica diante da volatilidade
dos prazos, regras e do Ministério Público poder executar o ato? Há
garantia dos dados brutos? Quem fiscaliza as possíveis interceptações
frias?


h) a prisão é processual ou não é mecanismo para aplicação do dilema
do prisioneiro ao Processo Penal brasileiro? Qual o papel da mídia nos
vazamentos taticamente fomentados?


i) qual o limite de negociação que o Ministério Público possui nos
acordos de delação? Pode negociar a imputação, perdoar crimes, fixar
teto de pena por todas as condutas? Pode fixar taxa de êxito na
repatriação de recursos e lavar dinheiro sujo? (se o dinheiro repatriado
não tinha origem, ao se dar a comissão ao delator, não se estaria
lavando dinheiro sujo, via delação?) O Juiz pode não homologar o acordo
de delação, a partir de quais critérios? E, caso rejeitada, as
informações já prestadas serão desconsideradas? Como?


j) se os indiciados devem ter acesso ao que já está produzido contra
eles, na linha da Súmula Vinculante 14 (“É direito do defensor, no
interesse do representado, ter acesso amplo aos elementos de prova que,
já documentados em procedimento investigatório realizado por órgão com
competência de polícia judiciária, digam respeito ao exercício do
direito de defesa”)? Qual o estatuto de sigilo da delação?


Pode-se adotar duas posturas. A primeira é passar por cima destas
questões e simplesmente continuar a ensinar como sempre se ensinou. A
segunda é reconhecer que não possuímos mais um Processo Penal, mas
várias versões simultâneas de Processo Penal e que a compreensão a ser
utilizada dependerá dos personagens envolvidos, como já defendemos no
livro da Teoria dos Jogos aplicada ao Processo Penal.  


O momento é de perplexidade acadêmica já que o modo de aplicar e
ensinar o Processo Penal herdado da tradição continental se foi. Aos
poucos, sem que tenhamos nos apercebido, ainda que alguns tenham escrito
sobre o tema (Geraldo Prado, Rubens Casara, Elmir Dulcrec, Rômulo
Moreira, Gustavo Badaro, Fauzi Hassan Choukr, Diogo Malan, João
Gualberto Garcez, Jacinto Nelson de Miranda Coutinho, Aury Lopes Jr,
Nereu Giacomolli, Lenio Streck, Salah Khaled, Flaviane Barros, dentre
outros), continuamos fingindo que as coordenadas em que pensamos os
institutos do Processo Penal são atuais.


Nesse contexto há uma manifesta tensão entre o Direito Continental e o
Direito Anglo-Saxão. Os institutos próprios de cada um dos sistemas
acabam sendo intercambiados sem a devida aproximação democrática, isto
é, as novidades legislativas são implementadas em tradições filosóficas distintas,
daí a perplexidade de muitas das alterações legislativas recentes. Não
se trata de reconhecer que a tradição Continental é melhor ou pior, dado
que esta discussão é inoperante. O que importa é que as tradições
implicam em práticas e modos de pensar diferenciados.


Essa lógica do acontecimento e de diálogo entre tradições precisa ser
questionada, já que continuamos a ensinar um Processo Penal que anda em
descompasso com os novos institutos. Para os crimes de todos os dias
(furto, tráfico, roubo, estupro etc.), de fato, temos o mesmo processo
penal da “ação penal indisponível”, da Jurisdição como poder-dever,
incapaz, todavia, de se conformar aos novos institutos, especialmente
delação e leniência. Podemos, então, aceitar acriticamente a situação?
Não deveríamos nos indagar se podemos ensinar parcialmente e não seria
nosso dever ético mostrar aos acadêmicos que possuímos versões em
frequências diferentes?


O tema nos angustia porque estamos em frequências antagônicas que
convivem sem possibilidade de coerência. Fechar os olhos sempre foi a
saída mais fácil e arbitrária. Mas chegamos a um ponto de virada, do
qual não podemos mais fingir, nem fugir. Ou podemos? Agosto é novo
semestre.


[1] ALLARD,
Julie; GARAPON, Antoine. Os juízes na Mundialização: a nova revolução
do Direito.  Trad. Rogério Alves. Lisboa: Instituto Piaget, 2006, p. 07.
[2] MORAIS DA ROSA, Alexandre; AROSO LINHARES, José Manuel. Diálogos com a Law & Economics. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009.
[3] POS­NER,
Richard A. Economic Analysis of Law. New York: Aspen, 2003; Overcoming
Law. Cambridge: Harvard University Press, 1995, Law and Legal Theory in
the UK and USA. New York: Oxford University Press, 1996; Law and
Literature. Cambridge: Harvard University Press, 1998; The Little Book
of Plagiarism. New York: Phatheon, 2007; Problemas de filo­so­fia do
direi­to. Trad. Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
[4] MORAIS DA ROSA, Alexandre. A Teoria dos Jogos Aplicada ao Processo Penal. Lisboa: Rei dos Livros, 2015.





 é
juiz em Santa Catarina, doutor em Direito pela UFPR e professor de
Processo Penal na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e na
Univali (Universidade do Vale do Itajaí).
 


Do Spin GGNauta:


Eis ai  mais um ótimo artigo tratando dessa aberração jurídica
chamada Direito Penal do Inimigo.  Alexandre Salim, promotor criminal, e
 outros autores abordaram o Direito Penal do Inimigo, como por exemplo
Eduardo Cabette. Há videos-aulas deste dois especialistas, como também
um artigo, "O Brasil decide seu futuro com base com base no Direito
Penal do Inimigo", publicado aqui no Conjur. O Direito Penal do Inimigo
tem inspiração nazista quando trata transforma o réu numa näo-pessoa e,
como tal, destituído de humanidade, está sujeito à tortura e outras
atrocidades, o que ocorreu no holocausto.


O Brasil decide seu futuro com base no Direito Penal do Inimigo, por Marcos de Vasconcellos


http://www.conjur.com.br/2015-jan-05/brasil-decide-futuro-base-direito-p...


Direito Penal do Inimigo, por Alexandre Salim


https://m.youtube.com/watch?v=MjNcdY2-N_0


Mimetismo e Direito Penal do Inimigo, por Eduardo Cabette


https://m.youtube.com/watch?v=sH5obUdhZhY

domingo, 28 de junho de 2015

Só um idiota para acreditar no ‘escândalo’ da UTC

Diário do Centro do Mundo » Só um idiota para acreditar no ‘escândalo’ da UTC. Por Paulo Nogueira



Só um idiota para acreditar no ‘escândalo’ da UTC. Por Paulo Nogueira





Postado em 28 jun 2015

Somos todos idiotas.


É, pelo menos, o que a grande mídia pensa.



O ridículo estardalhaço em torno das alardeadas revelações do dono da
UTC ultrapassa todos os limites do descaro, da hipocrisia e da
desonestidade.


Colunistas – os suspeitos de sempre –parecem fingir que acreditam nos disparates que escrevem.


Mais uma, o coro é pelo impeachment de Dilma. Dia sim, dia não,
aparecem supostas novidades que levam os colunistas das empresas de
mídia a gritar, histéricos, pelo fim de um governo eleito há pouco tempo
com 54 milhões de votos.


O caso particular do UTC é icônico.


Todos os holofotes vão, condenatórios, para Dilma e para o PT, pelo dinheiro dado para a campanha petista.


Foram, segundo cálculos de um site ligado à Transparência Brasil, 7,5 milhões de reais.


Não é doação: é achacamento, propina, roubo.


Ninguém diz que a campanha de Aécio levou ainda mais da UTC: 8,7 milhões.


Neste caso, não é propina, não é achaque, não é roubo. É demonstração
de afeto e reconhecimento pelos dentes brancos do candidato Aécio.


E eles querem que a sociedade acredite nesse tipo de embuste.


A mídia presta mais um enorme desserviço ao Brasil com essa manipulação grosseira e farisaica.


Você foge do real problema: o financiamento privado de campanhas, a forma como a plutocracia tomou de assalto a democracia.


É um problema mundial, e não apenas brasileiro. Dezenas de países já
trataram de evitar que doações de grandes empresas desvirtuem a voz
rouca das ruas e das urnas.


No Brasil, a mídia não trata desse assunto, em conluio com políticos
atrasados e guiados pelo dinheiro, porque se beneficia da situação.


Nem o mais rematado crédulo compra a história de que as doações empresariais são desinteressadas.


A conta vem depois do resultado, na forma de obras ou leis que beneficiam os doadores.


Veja os projetos de Eduardo Cunha, para ficar num caso clássico, e depois observe as companhias que o têm patrocinado.


Em alguma publicação, li até uma lição de moral na forma como o PT
teria abordado o dono da UTC para pedir dinheiro para a campanha de
Dilma.


A abordagem não teria sido “elegante”.


Imagina-se que quando o PSDB solicita dinheiro seja coisa de lorde
inglês, pelo que pude entender: ninguém fala em dinheiro, ninguém toca
em dinheiro. É como uma reunião social, entre amigos, em que o dinheiro é
a última coisa que importa.


Como disse Wellington, quem acredita nisso acredita em tudo.


Outro crime jornalístico que é cometido é dar como verdadeiras quaisquer coisas ditas nas delações, como se elas estivessem acima de suspeita.


Quer dizer, esse tratamento só vale contra o PT. Quando se trata dos
amigos da mídia, aí sim entram as ressalvas. Há que investigar, provar
etc – coisas que absolutamente não valem para o PT.


Que a imprensa, movida pelo interesse de seus donos, aja assim, até que você pode entender.


O que não dá para aceitar é que a justiça faça a mesma coisa, e com ela a Polícia Federal.


Porque aí você subverte, por completo, o conceito de justiça, e retrocede aos tempos de João V no Brasil.


Sua mulher, a rainha Carlota Joaquina, mandou matar uma rival no amor.


Dom João pediu investigação rigorosa.


Quando chegaram a ele os resultados do trabalho, com Carlota Joaquina
comprovadamente culpada da morte, ele refletiu, refletiu – e queimou os
documentos que a incriminavam.


Aquela era a justiça, e esta nossa não é muito diferente quando se trata da plutocracia.

UTC doou mais a Aécio que a Dilma; “novas” denúncias são requentadas | Blog da Cidadania

UTC doou mais a Aécio que a Dilma; “novas” denúncias são requentadas | Blog da Cidadania



UTC doou mais a Aécio que a Dilma; “novas” denúncias são requentadas

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UTC capa





Não dá para entender por que tanta celeuma em torno das acusações do
dono da UTC, Ricardo Pessoa, a políticos de vários partidos. E muito
menos por que razão só as acusações dele à campanha de Dilma Rousseff e
ao seu partido ganharam as manchetes.


UTC 1


Quem lê os principais jornais dando conta de que a UTC doou 7,5
milhões de reais à campanha de Dilma Rousseff fica com a impressão de
que há, aí, uma grande descoberta e que a presidente foi especialmente
beneficiada por essa empresa. Nada mais falso.


Em primeiro lugar, se esses grandes veículos fizessem jornalismo
deveriam esclarecer que essa empresa doou inclusive mais dinheiro à
campanha de Aécio Neves no ano passado do que à de Dilma Rousseff.


Levantamento feito pelo site Às Claras,
ligado à ONG Transparência Brasil, mostra que a UTC doou R$
8.722.566,00 para a campanha a presidente de Aécio Neves, no ano
passado. O valor é R$ 1,22 milhão superior ao valor doado à campanha de
Dilma Rousseff na mesma época.


UTC 2





Diz o noticiário que Pessoa sentiu-se pressionado a doar a Dilma e ao
PT porque tinha medo de que, se não doasse, o governo petista
prejudicaria seus negócios. A pergunta que é obrigatório fazer, diante
de tal acusação, é muito simples: por que Aécio, sem pressionar, recebeu
mais do que Dilma?


Uma campanha recebeu 7,5 milhões de reais do empresário porque o
intimidou e a outra – que, conforme a omissão do noticiário em citá-la,
subentende-se que não intimidou – recebe 8,7 milhões de reais.


A primeira doação decorre de chantagem e a segunda de “amor” ao candidato?


Ora, façam-me o favor…


Mas o pior não é isso. Uma simples busca na internet revela que essa
celeuma que dominou a grande mídia a partir da última sexta-feira (26)
por conta das “novas” revelações de Ricardo Pessoa, da UTC, não tem a
menor justificativa porque é matéria requentada.


Os três maiores jornais do país (Folha, Globo e Estadão) publicaram,
neste sábado (27/06), praticamente a mesma matéria sobre o tema,
inclusive com manchetes praticamente idênticas. Desse modo, tomemos como
exemplo a matéria da Folha, que afirma que “Revelações de empreiteiro
ampliam pressão sobre o PT”.


FOLHA DE SÃO PAULO
27 de junho de 2015
PETROLÃO
Dono da UTC cita doações a campanhas de Dilma e Mercadante em delação
Partido afirma que todas as contribuições que recebeu foram feitas conforme a lei e declaradas à Justiça
DE BRASÍLIA
DE CURITIBA
DE SÃO PAULO
Depoimentos prestados pelo
empresário Ricardo Pessoa, dono da empreiteira UTC, aos procuradores da
Operação Lava Jato ampliaram a pressão sobre o governo da presidente
Dilma Rousseff e seu partido, o PT, lançando novas suspeitas sobre
doações feitas à sua campanha à reeleição em 2014.
Apontado como um dos líderes do
cartel de empreiteiras acusadas de participar do esquema de corrupção na
Petrobras, Pessoa fez acordo com a Procuradoria-Geral da República para
colaborar com as investigações em troca de uma pena reduzida. O acordo
foi homologado pelo STF (Supremo Tribunal Federal) nesta quinta-feira
(25).
Pessoa doou R$ 7,5 milhões para a
campanha de Dilma. A contribuição foi declarada à Justiça Eleitoral
pelo PT, mas, como a Folha revelou em maio, Pessoa disse que só fez a
doação por temer prejuízos em seus negócios na Petrobras se não ajudasse
o partido. Ele disse que tratou da contribuição com o tesoureiro da
campanha de Dilma, o atual ministro da Secretaria de Comunicação Social
da Presidência, Edinho Silva.
Nesta sexta (26), a revista
“Veja” afirmou que Pessoa detalhou também contribuições feitas para 18
campanhas políticas, incluindo repasses de R$ 15 milhões para o
ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto e de R$ 750 mil ao ex-deputado
José de Fillipi (PT-SP), que foi tesoureiro da campanha de Dilma em 2010
e hoje é secretário da administração do prefeito de São Paulo, Fernando
Haddad (PT).
Segundo o jornal “O Estado de S.
Paulo”, Pessoa indicou aos procuradores que os repasses para Vaccari e
Fillipi foram feitos de maneira ilegal, e não por meio de doações
oficiais. Em nota, o PT afirmou que todas as doações recebidas pelo
partido foram declaradas à Justiça Eleitoral.
Como a Folha informou nesta sexta
(26), Pessoa também detalhou a maneira como foi negociada uma
contribuição à campanha do petista Aloizio Mercadante ao governo do
Estado de São Paulo, em 2010. Em 2010, Mercadante declarou à Justiça
Eleitoral uma doação de R$ 250 mil da UTC. Hoje ministro da Casa Civil,
Mercadante é o principal auxiliar de Dilma.
As novas revelações sobre os
depoimentos de Pessoa fizeram Dilma convocar uma reunião de emergência
nesta sexta. Participaram Mercadante, Edinho Silva e o ministro da
Justiça, José Eduardo Cardozo. Nenhum se manifestou sobre o assunto.
Em avaliações internas, ministros
afirmavam que o episódio poderá contribuir para abalar ainda mais a
frágil popularidade da presidente, que tem 10% de aprovação, segundo o
Datafolha.
Preso desde novembro de 2014 e
hoje em prisão domiciliar, Ricardo Pessoa negociou durante meses o
acordo de delação premiada. A Folha apurou que Pessoa descreveu em
detalhes a maneira como acertava o repasse de recursos destinados ao PT.
‘PIXULECO’
Segundo ele, o então diretor da
Petrobras Renato Duque, ligado ao PT, avisava João Vaccari sempre que a
estatal fechava um contrato com a UTC e o tesoureiro então procurava o
empreiteiro para cobrar o “pixuleco”, como ele chamava a propina de 1%
que seria destinada ao PT.
Segundo Pessoa, eles então combinavam de que forma, e em quantas parcelas, esse pagamento seria feito.
Na maior parte das vezes, Pessoa
disse que optou por fazer doações oficiais ao PT ou a candidatos do
partido. Às vezes, disse, Vaccari pedia que o pagamento fosse feito por
fora. Segundo Pessoa, nesses casos o dinheiro era passado em espécie ao
partido.
Na delação, Pessoa também citou
contribuições a políticos de outros partidos, entre eles os senadores
Aloysio Nunes (PSB-SP), Fernando Collor (PTB-AL) e Edison Lobão
(PMDB-MA). Todos negam irregularidades.
(ANDRÉIA SADI, MARINA DIAS, NATUZA NERY, ESTELITA HASS CARAZZAI E FLÁVIO FERREIRA)
O que você, atento leitor, entende dessa matéria e, sobretudo, da
manchete que a intitula é que surgiu alguma novidade que “ampliou” a
“pressão” sobre “o PT”. Ou seja, o que se subentende da manchete é que
alguma coisa nova veio à tona.


Pois bem. Vejamos, então, matéria da mesma Folha de São Paulo
publicada 49 dias antes, de autoria da mesma Estelita Hass Carazzai que
assina a matéria publicada pelo jornal neste sábado.


FOLHA DE SÃO PAULO
9 de maio de 2015
FLÁVIO FERREIRA
DE ENVIADO ESPECIAL A CURITIBA
ESTELITA HASS CARAZZAI
DE CURITIBA
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O empresário Ricardo Pessoa, dono
da empreiteira UTC, disse a procuradores da Operação Lava Jato que doou
R$ 7,5 milhões à campanha à reeleição da presidente Dilma Rousseff por
temer prejuízos em seus negócios na Petrobras se não ajudasse o PT.
Segundo Pessoa, a contribuição da
empresa foi tratada diretamente com o tesoureiro da campanha de Dilma, o
atual ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência,
Edinho Silva.
Preso desde novembro do ano
passado e hoje em regime de prisão domiciliar, o empresário negocia
desde janeiro com o Ministério Público Federal um acordo para colaborar
com as investigações em troca de uma pena reduzida.
Nos contatos com os procuradores e
no documento em que indicou as revelações que está disposto a fazer
caso feche o acordo, Pessoa descreveu de forma vaga sua conversa com
Edinho, mas afirmou que havia vinculação entre as doações eleitorais e
seus negócios na Petrobras.
O empreiteiro contou ter se
reunido com Edinho a pedido do então tesoureiro do PT, João Vaccari
Neto, apontado como o principal operador do partido no esquema de
corrupção descoberto na Petrobras e hoje preso em Curitiba.
As doações à campanha de Dilma
foram feitas legalmente. Segundo os registros do TSE (Tribunal Superior
Eleitoral), foram três: duas em agosto e outra em outubro de 2014, dias
antes do segundo turno da eleição.
Se Pessoa fechar o acordo de
delação premiada com os procuradores, ele terá então que fornecer provas
e detalhar suas denúncias em depoimentos ao Ministério Público e à
Polícia Federal.
Em janeiro, Pessoa já havia
indicado sua disposição de falar sobre a campanha de Dilma Rousseff em
documento escrito na cadeia e publicado pela revista “Veja”. “Edinho
Silva está preocupadíssimo”, escreveu o empresário.
CAIXA DOIS
Pessoa também afirmou aos
procuradores que fez contribuições clandestinas para a campanha do
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição, em 2006, e a do
prefeito petista de São Paulo, Fernando Haddad, em 2012.
O empreiteiro disse que deu R$
2,4 milhões à campanha de Lula, via caixa dois. O dinheiro teria sido
trazido do exterior por um fornecedor de um consórcio formado pela UTC
com as empresas Queiroz Galvão e Iesa e entregue em espécie no comitê
petista.
Pessoa afirmou também que, a
pedido de Vaccari, pagou outros R$ 2,4 milhões para quitar dívida que a
campanha de Haddad teria deixado com uma gráfica em 2012. O doleiro
Alberto Youssef, outro operador do esquema de corrupção na Petrobras,
teria viabilizado o pagamento.
Segundo o empreiteiro, o valor
foi descontado de uma espécie de conta corrente que ele diz ter mantido
com Vaccari para controlar o pagamento de propinas associadas a seus
contratos na Petrobras.
Pessoa também promete revelar às
autoridades detalhes sobre seus negócios com o ex-ministro da Casa Civil
José Dirceu, que hoje cumpre prisão domiciliar por seu envolvimento com
o mensalão.
O empreiteiro, que pagou R$ 3,1
milhões à empresa de consultoria de Dirceu entre 2012 e 2014, diz que o
contratou para prospectar negócios no Peru, mas afirmou aos procuradores
que a maior parte dos repasses foi feita após a prisão do ex-ministro,
para atender a um pedido de ajuda financeira da sua família, em razão de
sua influência no PT.
OUTRO LADO
O PT rejeitou as acusações do
empresário Ricardo Pessoa e afirmou em nota que todas as doações à
campanha da presidente Dilma Rousseff em 2014 foram feitas de acordo com
a legislação eleitoral.
O partido ressaltou que as contas da campanha de Dilma foram aprovadas por unanimidade na Justiça Eleitoral.
A assessoria do ministro Edinho
Silva, chefe da Secretaria de Comunicação Social, que foi o tesoureiro
da campanha presidenical, informou que a nota do PT deveria ser
considerada sua reposta às alegações do empreiteiro.
A Presidência da República e a
assessoria do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disseram que não
fariam comentários sobre o assunto.
O prefeito de São Paulo, Fernando
Haddad, afirmou que as doações à sua campanha foram todas feitas de
acordo com a lei, e que as dívidas foram absorvidas e quitadas
posteriormente pelo PT.
O advogado Luiz Flávio Borges
D’Urso, que defende o ex-tesoureiro petista João Vaccari Neto, disse que
ele só captou doações legais para o partido e não participou do esquema
de corrupção descoberto na Petrobras.
O advogado do ex-ministro José
Dirceu, Roberto Podval, informou que seu contrato de consultoria com a
UTC tinha como objetivo prospectar negócios no Peru, sem qualquer
relação com a Petrobras.
Alguém, por favor, ajude este desorientado blogueiro: o que é,
diabos, que há de novo nas notícias recém-publicadas sobre as denúncias
do empreiteiro Ricardo Pessoa? O que é que ele acrescentou ao que já
havia dito que justifique que a mídia e a oposição façam esse
estardalhaço e digam que, à luz das “novas” revelações, há que tirar o
mandato de Dilma Rousseff?


O que esse estardalhaço todo significa é, no fim das contas, um
imenso desrespeito pela opinião pública, obviamente vista pela mídia e
pela oposição como desmemoriada, idiotizada, incapaz de juntar fatos
escandalosamente óbvios e deles tirar uma simples conclusão.


Infelizmente, pensando bem, tanto a mídia quanto a oposição têm boas
doses de razão para enxergar assim a sociedade brasileira, ou ao menos
sua maioria esmagadora.

Colunista da Folha vê “violações” e “sadismo” na Lava Jato | Esmael Morais

Colunista da Folha vê “violações” e “sadismo” na Lava Jato | Esmael Morais



O jornalista Janio de Freitas desfere duras críticas em diversos
aspectos da Operação Lava Jato em sua coluna deste domingo 28. “É
preciso estar muito entregue ao sentimento de vingança para não perceber
certo sadismo na Lava Jato”, conclui o colunista, que aponta
“violações” e “sadismo” na investigação comandada pelo juiz Sérgio Moro.


Para ele, “o exemplo mais perceptível e menos importante” do citado
“sadismo” são “as prisões nas sextas-feiras, para um fim de semana
apenas de expectativa penosa do preso ainda sem culpa comprovada”. Entre
os políticos, diz Janio, “a hipocrisia domina”, uma vez que “são
milhares” os que recebem doações de empreiteiras e bancos. “Houve mesmo
jantares de arrecadação no Alvorada e pagos pelos cofres públicos.
Ninguém na Lava Jato sabe disso?”, pergunta, em menção a FHC.


Janio critica o “jorro contínuo de vazamentos” de informações que
seriam “sigilosas” da Polícia Federal, mas ressalta que “a imprensa é
que faz o sensacionalismo. É. Com o vazamento deformado e o incentivo
deformante vindos da Lava Jato”. O jornalista aponta ainda que ocorre,
com os “vazamentos deformantes”, o “desvio da suspeita”, como no caso do
bilhete de Marcelo Odebrecht, que teria pedido para “destruir” um
e-mail.


Abaixo, leia a íntegra do artigo de Janio de Freitas:




Jatos que mancham


É preciso estar muito entregue ao sentimento de vingança para não perceber certo sadismo na Lava Jato


Janio de Freitas


Como inquérito “sob segredo de Justiça”, a Operação Lava Jato lembra
melhor uma agência de propaganda. Ou, em tempos da pedante expressão
“crise hídrica”, traz a memória saudosa de uma adutora sem seca.


Em princípio, os vazamentos seriam uma transgressão favorável à
opinião pública ansiosa por um sistema policial/judicial sem as
impunidades tradicionais. Mas, com o jorro contínuo dos tais vazamentos,
nos desvãos do sensacionalismo não cessam os indícios que fazem a “nova
Justiça” — a dos juízes e procuradores/promotores da nova geração — um
perigo equivalente à velha Justiça acusada de discriminação social e
inoperância judicial.


É preciso estar muito entregue ao sentimento de vingança para não
perceber um certo sadismo na Lava Jato. O exemplo mais perceptível e
menos importante: as prisões nas sextas-feiras, para um fim de semana
apenas de expectativa penosa do preso ainda sem culpa comprovada.
Depois, a distribuição de insinuações e informações a partir de mera
menção por um dos inescrupulosos delatores, do tipo “Fulano recebeu
dinheiro da Odebrecht”. Era dinheiro lícito ou provou-se ser ilícito? É
certo que o recebedor sabia da origem, no caso de ilícita?


A hipocrisia domina. São milhares os políticos que receberam doações
de empreiteiras e bancos desde que, por conveniência dos candidatos e
artimanha dos doadores, esse dinheiro pôde se mover, nas eleições, sob o
nome de empresas. Nos últimos 60 anos, todos os presidentes tiveram
relações próximas com empreiteiros. Alguns destes foram comensais da
residência presidencial em diferentes mandatos. Os mesmos e outros
viajaram para participar, convidados, de homenagens arranjadas no
exterior para presidente brasileiro. Banqueiros e empreiteiros doaram
para os institutos de ex-presidentes. Houve mesmo jantares de
arrecadação no Alvorada e pagos pelos cofres públicos. Ninguém na Lava
Jato sabe disso?


Mas a imprensa é que faz o sensacionalismo. É. Com o vazamento deformado e o incentivo deformante vindos da Lava Jato.


A partir de Juscelino, e incluídos todos os generais-presidentes, só
de Itamar Franco e Jânio Quadros nunca se soube que tivessem relações
próximas com empreiteiros e banqueiros. A íntima amizade de José Sarney
foi mal e muito comentada, sem que ficasse evidenciada, porém, mais do
que a relação pessoal. Benefícios recebidos, sob a forma de trabalhos
feitos pela Andrade Gutierrez, foram para outros.


Ocorre mesmo, com os vazamentos deformantes, o deslocamento da
suspeita. Não importa, no caso, o sentido com que o presidente da
Odebrecht usou a palavra “destruir”, referindo-se a um e-mail, em
anotação lida e divulgada pela Lava Jato. O episódio foi descrito como
um bilhete que Marcelo Odebrecht escreveu com instruções para o seu
advogado, e cuja entrega “pediu a um policial” que, no entanto, ao ver a
palavra “destruir”, levou o bilhete ao grupo da Lava Jato.


Muito inteligível. Até que alguém, talvez meio distraído, ao contar o
episódio acrescentasse que Marcelo, quando entregou o bilhete e fez o
pedido ao policial, já estava fora da cela e a caminho de encontrar seu
defensor.


Então por que pediria ao policial que entregasse o bilhete a quem ele mesmo ia encontrar logo?


As partes da historinha não convivem bem. Não só entre si. Também com
a vedação à interferência na comunicação entre um acusado e seu
defensor, considerada cerceamento do pleno direito de defesa assegurado
pela Constituição.


Já objeto de providências da OAB, a apreensão de material dos
advogados de uma empreiteira, em suas salas na empresa, foi uma
transgressão à inviolabilidade legal da advocacia. Com esta explicação
da Lava Jato: só os documentos referentes ao tema da Lava Jato seriam
recolhidos, mas, dada a dificuldade de selecioná-los na própria empresa,
entre 25 mil documentos, foram apreendidos todos para coleta dos
desejados e posterior devolução dos demais.


Pior que uma, duas violações: a apreensão de documentos invioláveis,
porque seus detentores não são suspeitos de ilicitude, e o exame
violador de todos para identificar os desejados. Até documentos secretos
de natureza militar, referentes a trabalhos e negócios da Odebrecht na
área, podem estar vulneráveis.


Exemplos assim se sucedem. Em descompasso com uma banalidade:
condenar alguém em nome da legalidade e da ética pede, no mínimo,
permanentes legalidade e ética. Na “nova Justiça” como reclamado da
“velha Justiça” – Artigo de Janio de Freitas. Na Folha de S. Paulo.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Ai, meu jornalismo…Ou como destruir um e-mail em uma lição… | TIJOLAÇO | “A política, sem polêmica, é a arma das elites.”

Ai, meu jornalismo…Ou como destruir um e-mail em uma lição… 

 









Ai, meu jornalismo…Ou como destruir um e-mail em uma lição…

24 de junho de 2015 | 15:48 Autor: Fernando Brito
fogo


Maldita idade que me faz conservar certo modo cartesiano de pensar.


Daí que li a manchete do Estadão sobre o bilhete onde Marcelo Odebrecht manda “destruir o e-mail sondas”, escrito na cela da PF e xerocopiado pelos sherlocks da Polícia Federal.


Esqueça-se o que disse a defesa,
alegando que era destruir juridicamente um e-mail sobre sondas arrolado
como prova, tanto que era um item do ” pontos para o habeas corpus” (a imagem o Estadão deixa claro) e que, logo a seguir o texto explica como rebater: “lembrar que naquela época, a Sete…” etc.


Vamos ficar na questão da destruição física, mesmo.


Se o cidadão está pedindo para os advogados destruírem, das duas uma: ou o e-mail não foi apreendido, ou foi.


Se não foi, apareceria o pedido assim, sem especificação. Como os
advogados dariam, abririam a caixa de mensagens de Marcelo e
procurariam, entre milhares de e-mails, qual deles se referia a sondas.


Como sonda é um negócio de vulto, deve haver dezenas. Qual deles, o
doutor e a doutora causídica iam destruir? E será que eles não sabem
que, apreendido o computador ou através do servidor de e-mails, mesmo
que se delete algo, isso pode ser recuperado?


Isso é canja para qualquer perito em informática da Polícia, ora. E o
megaempresário e seus advogados estão carecas de saber disso. E-mail
fica armazenado no servidor, tanto que você pode abrir sua caixa de
mensagens em outro computador, na Conchinchina e estarão todos lá,
porque estavam no servidor e é só pesquisar os arquivos apagados e
reconstituir.


Mas se o e-mail foi apreendido, como destruí-lo? Quem sabe entrar um
casal de advogados, ela com roupas bem provocantes, distraem o jovem e
impetuoso agente da  lei e ele, num golpe de prestidigitador, arrancam o
e-mail do processo?


Assim, coisa de Mata-Hari, né?


Se não fosse o apagão mental que parece ter tomado conta da meganhagem, inclusive a jornalística, era só um bobagem policialesca.


Aliás, o delegado diz que “deixou passar”o bilhete para ver se o
advogado do acusado viria “acusar” o seu cliente de estar cometendo
crime de destruição de provas… Pode rir à vontade.


Ou então foi delírio de quem andou vendo demais “Missão Impossível” e
aqueles gravadores de fita que diziam “esta mensagem se autodestruirá
em cinco segundos”…


Mas é manchete e grande acontecimento jurídico.


PS. Embora fosse óbvio, só a Folha percebeu e noticia, discretamente: “Bilhete de presidente da Odebrecht revela estratégias de defesa“. Simples assim.

Enquanto a tevê aberta for uma terra de ninguém, malafaias vão se reproduzir e prosperar

Diário do Centro do Mundo » Enquanto a tevê aberta for uma terra de ninguém, malafaias vão se reproduzir e prosperar. Por Leandro Fortes



Você vai sentir vontade de vomitar, mas é preciso ver um vídeo que
está circulando pelas redes sociais, no qual o pastor Silas Malafaia, da
Assembleia de Deus, ensina seus incautos fiéis a tirar dinheiro do
aluguel e dar para ele.


É uma espécie de manual cristão do achaque, mas serve para dar a
dimensão exata do tipo de gente que está influenciando parte
considerável da sociedade brasileira, além de impor uma agenda política
retrógrada e perigosamente medieval ao Congresso Nacional.



Malafaia é uma figura lamentável, mas não teria esse despudor de ir à
televisão ludibriar multidões de ignorantes sem contar com um ambiente
favorável e algumas condições prévias.


A primeira, e mais importante delas: a leniência do governo com a programação da tevê aberta.


Em um Estado laico, a veiculação de programas religiosos por emissoras concessionárias é, por si só, um absurdo total.


As emissoras vendem malandramente esses horários como se fossem
propaganda, e muito além do limite de 25% da programação, conforme prevê
o confuso conjunto de normas do setor. A saber: Código Brasileiro de
Telecomunicações, Lei Geral de Telecomunicações e outras
regulamentações.


Ou seja, são programas que não fazem parte sequer da grade oficial
das emissoras, vendidos em um esquema de terceirização criminoso sem que
uma única autoridade do Ministério das Comunicações tenha tido coragem,
até hoje, de acabar sumariamente com essa pilantragem.


Recentemente, o jornalista Ricardo Boechat, da Rede Bandeirantes,
lavou a alma nacional ao escrachar Malafaia, a quem mandou “procurar uma
rola”, chamou de “tomador de grana” e acusou de homofóbico. Tudo isso
ao vivo, nas ondas da Band News.


Ocorre que, desde o ano passado, o Ministério Público Federal luta,
em São Paulo, para conter a sanha da Rede 21, do Grupo Band. Desde 2008,
100% do horário do canal era alugado para a Igreja Mundial do Poder de
Deus, chefiada pelo pastor Valdomiro Santiago.


A partir de 2013, a Rede 21 passou a ter 22 horas de programação da
Igreja Universal do Reino de Deus, do pastor Edir Macedo, dono de outra
emissora concessionária, a Rede Record.


O MPF acusou Paulo Saad Jafet, vice-presidente da Band, e José Carlos
Anguita, superintendente de Relações com Mercado da emissora, de violar
a legislação e fomentar “enriquecimento sem causa” com o uso de uma
concessão pública.


Em janeiro passado, o juiz federal Djalma Moreira Gomes, da 25ª Vara
de São Paulo, negou o pedido de suspensão do MPF. Segundo ele, a liminar
só poderia ser concedida se, antes, autoridades administrativas
responsáveis por fiscalizar as infrações apontadas se pronunciassem. Em
seguida, determinou ao Ministério das Comunicações que instaurasse
procedimento administrativo para apurar as infrações ao Código
Brasileiro de Comunicações.


Não por acaso, e dentro de uma tradição que inclui também a igreja
católica, o fundamentalismo cristão é um aliado importante da direita
liberal, no Ocidente. Forma com ela um padrão ideológico gelatinoso onde
políticos profissionais se unem a fanáticos para, no ventre de embustes
patrióticos, tentar emplacar projetos fascistas de poder.


Uma selfie feita, recentemente, durante a Marcha para Jesus, em São Paulo, é um emblema perfeito dessa miscelânea ideológica.


Na foto, amplamente divulgada nas redes, Malafaia aparece ao lado de
dois potentados da extrema direita nacional: o deputado Jair Bolsonaro
(PP-RJ), apologista da tortura e do assassinato de opositores políticos;
e o senador Magno Malta (PR-ES), que costuma comparar Lula e o PT ao
diabo.


Essa percepção tornou-se palatável na campanha presidencial de 2010.
Na época, José Serra, candidato do PSDB, transformou-se em um beato
ecumênico e botou a mulher, Monica, para disseminar a informação de que
Dilma Rousseff era a favor de “matar criancinhas”, de forma a ligar a
candidata do PT à prática de abortos.


Detalhe: antes do fim da campanha, uma ex-aluna de Monica revelou que
ela havia feito um aborto, fato jamais desmentido. Mais tarde, Serra e
Monica, sempre tão ciosos dos valores da família, se separaram.


De lá para cá, os tucanos passaram a se aliar, sem pudor algum, a
todo esgoto religioso disponível, sobretudo aqueles comandados por
lideranças pentecostais ultraconservadoras, como Malafaia, Valdemiro e o
pastor Everaldo, candidato do PSC à Presidência, nas eleições de 2014.


Foi dessa mistura de fanatismo, ignorância, leniência e
pusilanimidade que nasceu a vitoriosa candidatura de Eduardo Cunha
(PMDB-RJ) à presidência da Câmara dos Deputados.


Evangélico, Cunha é a exata simbiose desse triste momento nacional.
Nele estão presentes todos os piores elementos dessa circunstância:
fanatismo religioso, conservadorismo tacanho e fisiologismo político.


E algo me diz que as coisas ainda vão piorar antes de melhorar.

Ódio - Jornal O Globo

Ódio - Jornal O Globo



Luiz Fernando Veríssimo

Sentimento está no DNA da classe dominante brasileira, que
historicamente derruba, pelas armas se for preciso, toda ameaça ao seu
domínio, seja qual for a sigla

Não vi a entrevista do Jô
com a Dilma, mas, conhecendo o Jô, sei que ele não foi diferente do que é
no seu programa: um homem civilizado, sintonizado com seu tempo, que
tem suas convicções — muitas vezes críticas ao governo — mas respeita a
diversidade de opiniões e o direito dos outros de expressá-las. Que Jô
fez uma matéria jornalística importante e correta, não é surpresa. Como
não é surpresa, com todo esse vitríolo no ar, a reação furiosa que
causou pelo simples fato de ter sido feita.

A deterioração do
debate político no Brasil é consequência direta de um antipetismo
justificável, dado os desmandos do próprio PT no governo, e de um ódio
ao PT que ultrapassa a razão. O antipetismo decorre, em partes iguais,
da frustração sincera com as promessas irrealizadas do PT e do
oportunismo político de quem ataca o adversário enfraquecido. Já o ódio
ao PT existiria mesmo que o PT tivesse sido um grande sucesso e o Brasil
fosse hoje, depois de 12 anos de pseudossocialismo no poder, uma Suécia
tropical. O antipetismo é consequência, o ódio ao PT é inato. O
antipetismo começou com o PT, o ódio ao PT nasceu antes do PT. Está no
DNA da classe dominante brasileira, que historicamente derruba, pelas
armas se for preciso, toda ameaça ao seu domínio, seja qual for sua
sigla.

É inútil tentar debater com o ódio exemplificado pela
reação à entrevista do Jô e argumentar que, em alguns aspectos, o PT
justificou-se no poder. Distribuiu renda, tirou gente da miséria e
diminuiu um pouco a desigualdade social — feito que, pelo menos pra mim,
entra como crédito na contabilidade moral de qualquer governo. O
argumento seria inútil porque são justamente estas conquistas que
revoltam o conservadorismo raivoso, para o qual “justiça social” virou
uma senha do inimigo.

Tudo isto é lamentável mas irrelevante, já
que o próprio Lula parece ter desesperado do PT. Se é verdade que o PT
morreu, uma tarefa para investigadores do futuro será descobrir se foi
suicídio ou assassinato. Ele se embrenhou nas suas próprias contradições
e nunca mais foi visto ou pensou que poderia ser a primeira alternativa
bem-sucedida ao domínio dos donos do poder e acordou um dia com um tiro
na testa?

De qualquer maneira, será uma história triste.

Ódio - Jornal O Globo

Ódio - Jornal O Globo



Luiz Fernando Veríssimo

Sentimento está no DNA da classe dominante brasileira, que
historicamente derruba, pelas armas se for preciso, toda ameaça ao seu
domínio, seja qual for a sigla

Não vi a entrevista do Jô
com a Dilma, mas, conhecendo o Jô, sei que ele não foi diferente do que é
no seu programa: um homem civilizado, sintonizado com seu tempo, que
tem suas convicções — muitas vezes críticas ao governo — mas respeita a
diversidade de opiniões e o direito dos outros de expressá-las. Que Jô
fez uma matéria jornalística importante e correta, não é surpresa. Como
não é surpresa, com todo esse vitríolo no ar, a reação furiosa que
causou pelo simples fato de ter sido feita.

A deterioração do
debate político no Brasil é consequência direta de um antipetismo
justificável, dado os desmandos do próprio PT no governo, e de um ódio
ao PT que ultrapassa a razão. O antipetismo decorre, em partes iguais,
da frustração sincera com as promessas irrealizadas do PT e do
oportunismo político de quem ataca o adversário enfraquecido. Já o ódio
ao PT existiria mesmo que o PT tivesse sido um grande sucesso e o Brasil
fosse hoje, depois de 12 anos de pseudossocialismo no poder, uma Suécia
tropical. O antipetismo é consequência, o ódio ao PT é inato. O
antipetismo começou com o PT, o ódio ao PT nasceu antes do PT. Está no
DNA da classe dominante brasileira, que historicamente derruba, pelas
armas se for preciso, toda ameaça ao seu domínio, seja qual for sua
sigla.

É inútil tentar debater com o ódio exemplificado pela
reação à entrevista do Jô e argumentar que, em alguns aspectos, o PT
justificou-se no poder. Distribuiu renda, tirou gente da miséria e
diminuiu um pouco a desigualdade social — feito que, pelo menos pra mim,
entra como crédito na contabilidade moral de qualquer governo. O
argumento seria inútil porque são justamente estas conquistas que
revoltam o conservadorismo raivoso, para o qual “justiça social” virou
uma senha do inimigo.

Tudo isto é lamentável mas irrelevante, já
que o próprio Lula parece ter desesperado do PT. Se é verdade que o PT
morreu, uma tarefa para investigadores do futuro será descobrir se foi
suicídio ou assassinato. Ele se embrenhou nas suas próprias contradições
e nunca mais foi visto ou pensou que poderia ser a primeira alternativa
bem-sucedida ao domínio dos donos do poder e acordou um dia com um tiro
na testa?

De qualquer maneira, será uma história triste.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Um dos dois está mentindo | Paulo Moreira Leite

Um dos dois está mentindo | Paulo Moreira Leite



A acareação entre o doleiro Alberto Yousseff e o
ex-diretor da Petrobrás, Paulo Roberto Costa terminou num conflito
inconciliável de versões, levando a uma conclusão óbvia: um dos dois
está mentindo.
Ocorreu aquela situação na qual, com o perdão do vocabulário, mas
apenas em respeito às palavras originais de um procurador que alertou
para o risco que uma acareação representar. Lembrou o que costuma
acontecer quando se mexe em “bosta seca….” Você pode imaginar, certo?


É razoável perguntar o que acontece daqui para a frente.

Foi a partir da delação premiada dos dois que o Ministério Público
construiu a denuncia da Lava Jato, emparedou Lula, esvaziou o governo
Dilma e criou um ambiente de terror nos meios políticos e na economia.


A base da delação premiada reside na confiança absoluta do delator
que, obviamente, não pode mentir. Também não pode fantasiar fatos, nem
permitir-se um exercício que os psicanalistas chamam de fabulação. A
simples delação premiada de Alberto Yousseff já era colocada em dúvida
antes disso. Está provado que ele mentiu em outra investigação, sobre o
Banestado. Por esse motivo, o juiz aposentado Gilson Dipp, um dos
maiores especialistas no assunto já questionou seu depoimento, em
parecer enviado ao Supremo.


Sabemos agora que Costa e Yousseff não lembram dos mesmos fatos
quando falam de uma possível entrega de R$ 2 milhões para a campanha de
Dilma, num pagamento que teria Antonio Palocci como intermediários.
Sabemos também que enxergaram coisas diferentes quando se referem a um
pagamento para Roseana Sarney.

Do que mais não irão lembrar-se daqui para a frente? Do que mais irão esquecer?


Vamos contratar psicólogos a quem se atribui o poder de reavivar a memória de crianças traumatizadas?


Embora a delação premiada seja aceita em várias partes do mundo, o
método empregado nas investigação da Lava Jato não é garantia de um
esforço para se obter a verdade. Numa forma óbvia de coerção, os
acusados enfrentaram longos períodos de prisão preventiva antes de serem
convencidos a falar.


Por isso, é sempre bom repetir aqui os ensinamentos da Suprema Corte
dos Estados Unidos, em 1966, quando estabeleceu regras para garantir que
um acusado tivesse o direito de não ser induzido, pela polícia, a
confessar um crime. Veja só. Não se falava de delação. A preocupação era
impedir impedir que o sujeito seja levado a se auto-acusar. Imagine as
cautelas necessárias para impedir que ele acuse outra pessoa — um
exercício menos doloroso, vamos combinar, ainda mais quando pode trazer
vantagens a quem acusa. Diz que a resolução:


“Concluímos que, sem salvaguardas próprias, o interrogatório sob
custódia de pessoas suspeitas ou acusadas de crime contém pressões que
operam para minar a vontade individual de resistir para que não seja
compelido a falar quando não o faria em outra circunstância. Para
combater essas pressões e permitir uma oportunidade ampla do exercício
do privilégio contra a autoincriminação, o acusado deve ser
adequadamente informado de seus direitos e o exercício desses direitos
deve ser completamente honrado.”


Preste atenção o princípio: a delação tem valor quando é voluntária,
livre de ” pressões que operam para minar a vontade individual de
resistir.”


Quem se der ao trabalho de conhecer uma teoria chamada Dilema do
Prisioneiro, irá entender o que digo. A base se encontra na internet mas
é possível fazer um resumo. Estudiosos das técnicas de interrogatório
compreenderam que é possível manipular membros de uma mesma quadrilha,
já aprisionados, jogando uns contra os outros, quebrando a confiança que
possa existir entre eles e convencendo todos a falar mais do que
gostariam. A experiencia ensina que a teoria funciona.


Mas, como tudo que envolve pontos sensíveis da alma humana, produz
depoimentos longos, detalhadas mas que nem de longe são garantia de
verdade. Essa é a questão.


Ouvi, há quinze anos, o depoimento reservado de um engenheiro que
dizia ter testemunhado o funcionamento de um milionário esquema de
superfaturamento de obras e lavagem de dinheiro na gestão de Paulo Maluf
na prefeitura de São Paulo. O assunto virou manchete por meses. Na hora
de depor a Justiça, quando suas palavras teriam o poder de inocentar ou
condenar, ele voltou atrás, disse que havia se enganado e o caso foi
encerrado.

O escândalo de delação premiada contra o governo de José Roberto Arruda,
do Distrito Federal, baseava-se na delação premiada de um secretário de
Estado. Instruído pelo Ministério Público, ele gravou vídeos que
continham diálogos e imagens nas quais entregava-se dinheiro para
parlamentares, secretários — e o próprio governador. O problema é que os
vídeos eram editados, não era possível verificar quando a gravação
havia começado e quando havia terminado — o que alimentava a suspeita de
montagem. As provas foram anuladas.


Uma delação é sempre um depoimento complicado. Isso porque ela é
motivada pelo interesse de uma pessoa acusada em livrar-se, de qualquer
maneira, de uma acusação. A palavra do co-réu é sempre colocada em
dúvida, aprende-se nos cursinhos preparatórios de uma faculdade de
Direito.

Quando falamos de delação premiada, estamos acrescentando uma
complicação a mais: a pessoa negocia cada palavra, cada frase, em troca
de um benefício. O acerto é consciente, escancarado. De certa forma, é
um negócio.

Uma mentira — ou duas, para ser mais preciso — é tão preocupante que os
advogados dos réus anunciam para breve uma reconciliação de versões.
Isso quer dizer que teremos, em breve, a versão premiada?

domingo, 21 de junho de 2015

Falta governo e falta oposição no país | GGN

Falta governo e falta oposição no país | GGN



O que garante a governabilidade não são apenas as prerrogativas
institucionais da presidência, mas a existência de um conjunto coerente
de ideias




Tem-se uma quadra complicada na vida do país.


O governo Dilma acabou. Pode ser que renasça mais à frente. Mas, no
momento atual, não há comprovação de que os sinais vitais estejam
preservados.


Com o esfacelamento do centro de poder, o país tornou-se um salve-se
quem puder. Ritos, procedimentos, processos deixam de ser observados, a
própria racionalidade é colocada de lado, provocando a ascensão de
pequenos tiranetes invadindo todos os poros da vida nacional.


As relações sociais são atropeladas por bandos de trogloditas saindo do baú da inquisição e invadindo as ruas e as instituições.


***


Na Câmara Federal, o presidente Eduardo Cunha passou a atropelar os
ritos e a impor sua vontade pessoal e a do baixíssimo clero da casa.


No STF (Supremo Tribunal Federal), o Ministro Gilmar Mendes se vale
desde o uso da gaveta até procedimentos, que em outras quadras da
história, seriam considerados escandalosos: como obter,  para eventos do
IDP (Instituto Brasiliense de Direito Público), de sua propriedade,
patrocínios de empresas com extensas demandas no Supremo.


Um procurador lotado no TCU (Tribunal de Contas da União), militante
de passeatas pró-impeachment, se vê no direito de opinar sobre a
viabilidade de empresas-chave na política industrial do pré-sal.


A imprensa ajuda a demolir os financiamentos de serviços do BNDES
(Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) duramente
construídos nos governos FHC e Lula.


Em Curitiba, um juiz de primeira instância, procuradores e delegados,
distribuem prisões preventivas sem a menor preocupação de legitimá-las.


No Banco Central, um grupo de burocratas define a seu talante o nível
das taxas de juros da economia, cria um cenário claramente
insustentável para a dívida pública, sem que ninguém se interponha no
seu caminho.


***


O que garante a governabilidade não são apenas as prerrogativas
institucionais da presidência da República, mas a existência de um
conjunto coerente de ideias, não só econômicas, mas legitimadoras,
capazes de juntar setores dos mais diversos em torno da ideia de nação.


A presidência já não consegue mais estruturar nenhum discurso.


***


A segunda âncora deveriam ser os partidos políticos. Mas também não existem programaticamente.


O vácuo de poder e de propostas seria a oportunidade da oposição
apresentar-se como verdadeira alternativa de poder. Mas consegue ser
ainda pior e menos séria do que a situação que combate.


Hoje em dia, o jogo político consiste na fabricação diuturna de factoides para aparecer na mídia.


O jogo de cena armado por Aécio Neves e troupe na visita à Venezuela
seria um episódio vergonhoso em qualquer circunstância, uma mera
molecagem de praia, não tivesse sido protagonizado por um candidato à
presidência da República e por senadores da República.


Transformam um problema de trânsito – registrado inclusive por
jornais de oposição na Venezuela - e meras manifestações de rua em
incidente diplomático. E ainda conseguem a solidariedade do líder do PT
na Câmara. O outro candidato oposicionista, José Serra, aproveita o
vácuo de poder para parcerias de negócio com o presidente do Senado
Renan Calheiros.


É uma quadra vergonhosa da história, uma comprovação trágica de que
falta governo e falta oposição ao país tornam absolutamente incerto a
saída política da crise.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

O Eterno Petralha (por Ayrton Centeno) - Sul 21

O Eterno Petralha (por Ayrton Centeno) - Sul 21



O Eterno Petralha (por Ayrton Centeno)






Há uma praga que ameaça o Brasil. Chama-se petralha. “O petralha é o
demônio por trás da corrupção”, advertiu um grande homem. Petralhas,
como os seus amigos nordestinos ou os sem terras e os sem teto, não
gostam de trabalhar. Não se trata de fraqueza. É para atrair piedade.
Parecem mas não são pobres. São uma raça de parasitas. Petralhas e
outros vagabundos são os perpétuos parasitas. Assim como os ratos.


Uma pesquisa recente indica que petralhas e seus aliados são
responsáveis pela existência de 34% dos pedintes, de 47% dos roubos, de
47% dos jogos de azar e de 82% das organizações criminosas em ação.
Petralhas são adeptos do comunismo, doutrina de destruição de nações e
da luta de classes, que brota de mentes como as de Karl Marx e de Rosa
Luxemburgo.


Petralhas e seus iguais não querem nada com o trabalho. Deixam para
os brasileiros. Tem um objetivo comum: explorar o país. Enquanto nós
brasileiros empobrecemos, os petralhas enriquecem através de fraude,
trapaça e usura.


São ladrões que roubaram milhões e milhões do país. Atacam em todas
as frentes. Na cultura, promovem uma arte anormal, grotesca e perversa
com exaltações à pornografia e à homossexualidade. Mas críticos de arte
petralhas as enaltecem como “elevadas expressões artísticas”.


Atrás de tudo está a doutrinação petralha. Seus líderes são, acima de
tudo, educadores políticos. A carta de princípios petralha encerra
cinco mandamentos: 1) amai-vos uns aos outros; 2) amai o roubo; 3) amai o
excesso; 4) odeie seu patrão; 5) nunca diga a verdade.


E assim tem sido. Mas este modo de pensar petralha está chegando ao fim. E não mais poluirá nossa nação.

Se o bravo leitor resistiu até aqui, mesmo ansiando por um engov,
prepare-se: vai ficar pior. Porque o que se assemelha a um surto não é
um surto, o que parece delírio não é delírio. E aquilo que aparenta ser
apenas ficção ruim não é ficção ruim. É realidade ruim. De muito tempo
atrás e, como se verá, de agora.


Substitua petralha e seus iguais por judeu, brasileiros por alemães,
Brasil por Alemanha, grande homem por Richard Wagner, carta de
princípios petralha por Canaã e você terá uma súmula da narração em off daquele que foi considerado “o filme mais imundo jamais feito”: O Eterno Judeu, de Fritz Hippler.


Seguindo as diretrizes de Joseph Goebbels, ministro da cultura e
propaganda do Terceiro Reich, Hippler filmou o gueto de Lodz, na Polônia
ocupada onde, atrás do arame farpado, o regime confinara 160 mil
pessoas. Construiu uma ópera de ódio.


Na montagem, alternam-se cenas de judeus e de ratos. Ambos sujos,
detestáveis, ameaças. Subjacentemente, induz-se a necessidade de serem
dizimados. O fato de ser um documentário, com gente das ruas e não de
atores, robustece a noção de veracidade embutida naquilo que descreve.
Em tese, desvela o real, aquilo que o olhar do espectador captaria se
estivesse em Lodz. Essa a ideia. Persuadir que algo tão desprezível não
merece subsistir. Apronta-se a opinião pública para a solução final.


A analogia entre o inimigo engendrado e as moscas e roedores também é um presságio do modo de operação dos vernichtungslagers,
os campos de extermínio. Pestes, os judeus seriam erradicados através
de um pesticida, o Zyklon B, que paralisa o sistema respiratório. O
Eterno Judeu chegou às telas em 1940. Em setembro de 1941, o Zyklon B
estreou em Auschwitz.


Quem vê Der Ewige Judeestá no You Tube
– percebe a assombrosa afinidade entre sua escrotidão e a matéria fecal
transbordante das caixas de comentários e nas redes sociais. Mas, ojo, o narrador insinua mas não explicita a opção pelo genocídio. Ou seja, a ferocidade está aquém daquela ostentada na internet em 2015. Não duvide disso.


“Tem que começar a exterminar essa raça”, preconizou o internauta
Carlos Zanelatto ao saber que o ex-presidente do PT, José Genoíno,
poderia cumprir sua pena em prisão domiciliar. “A solução é começar a
matar”, concordou outro, identificando-se com o número 010190. “Eu quero
a cabeça dele. Pago em dólar”, bravateou Maurício P. Se a sensibilidade
feminina faltava ao debate, Márcia TDB supriu a carência: “Dá nojo
olhar pra esse safado. Morre camundongo da caatinga”.


Ante a observação de que “o porco sujo” deveria ter sido largado no
mato “para ser comido vivo pelas onças”, um tal Denys divergiu: “Culpa
foi não ter matado a Dilma”. TSilva111 discordou do discordante: “Culpa
disso são (sic) os militares. Deveriam ter acabado com toda essa raça de
bandidos na ditadura militar”. Fernando Amorim também xingou os
milicos: “Porque diabos não mataram esses vermes na época da ditadura?”


É mole? Não, mas tem mais.


Avisando que seu recado era “sangrento”, João Neto informou que teria
“o prazer de fuzilar qualquer petista”. Para ele, “nada irá mudar
enquanto não começarmos a invadir as casas desses bandidos e pendurá-los
pelo pescoço em praça pública…” Hemer Rivera foi logo buscar a faca e a
corda: “Sou a favor disso, pendurar nos postes sem cabeça sangrando e
deixar amanhecer para que todos vejam que político corrupto, merece ser
decapitado”.


Bastou o ex-ministro José Dirceu sofrer um princípio de AVC, para uma
internauta postar no Facebook: “Estamos juntos AVC. Não mata não, por
favor, só deixa ele vegetativo, cagando na cama.” Recebeu 844 curtidas.
Quando soube que Lula sofria de um tumor na laringe, um cidadão
penalizou-se: “Tenho dó do câncer ter que comer carniça petralha”. Outro
sugeriu apelar aos EUA “para assassinar Lula e Maduro”. Alguém gritou
“Sou a favor. Amém” mas um terceiro propôs um caminho mais direto:
“Porque não matamos esse filho da puta do Lula?”


E o que viria depois que “a vaca comunista”, “a puta da Dilma”, o
“filho da puta do Lula”, os “vermes”, os “porcos”, a “escória”, a
“raça”, a “sujeira”, os “vagabundos”, o “lixo” e – claro – os “ratos”
fossem extirpados da face da Terra?


Um certo Rogério Bento rabiscou o novo programa de governo, com
direito à “trinta anos de regime militar direitista”, mais “educação
cristã”, “estado de sítio”, “pena de morte” e “criminalização do aborto,
das ideologias esquerdistas, ateístas, gayzistas e dos direitos dos
bandidos”.


Será que o nazista Hippler a serviço do nazista Goebbels insertaria
tais falas no filme nazista de ambos? Difícil acreditar. Mesmo os
nazistas tem limites. Formais, ao menos.


Sob Hitler, o patrocínio do ódio era oficial, bancado por um estado totalitário. Aqui, os haters
são opositores da democracia sob uma democracia. Escancaram as bocarras
para rugir sua ferocidade. Diferentemente de 1933 – e de 1964 — são
leões desdentados.


Na Alemanha, o fascismo se serviu do governo. Que alimentou, pela
propaganda, o horror aos judeus, eslavos, ciganos, comunistas,
homossexuais. No Brasil, ao reverso, o governo é o inimigo a ser
devorado. Na Alemanha, a escalada de Hitler à chancelaria do Reich foi
atapetada pelos jornais de Alfred Hugenberg, o grande magnata da mídia.
No Brasil, o governo vive sob estado de sítio midiático há 12 anos. Onde
velhas vozes, dia após dia, tangem seu alaúde para lastimar a teimosia
petralha em continuar existindo.


São, portanto, situações distintas. O que não muda, salvo alguma cor
local, é o fascismo. Seu ingrediente básico é a frustração. Sova-se esta
massa, umedecendo-a com algumas colheradas de ignorância e um copo
cheio de cólera para fermentar. Deixa-se crescer. Quando as três partes
estão bem misturadas, acrescentam-se porções generosas de
irracionalismo, machismo, xenofobia, homofobia e intolerância e leva-se
ao fogo alto. Na cobertura, um tanto de negação do outro, suspeição da
cultura e força bruta.


Sociedades que engolem a gororoba nefasta desembocam, no seu extremo, nos vernichtungslagers.
Outras vezes, na maioria, no borbulhar de uma ira estéril porém
daninha. Temerosas da ascenção das camadas subalternas, as classes
médias são bastante permeáveis ao cardápio. Na expressão de Umberto Eco,
elas representam “o auditório do discurso fascistizante”. Mas, aqui,
quem as nutre? Quem segrega o rancor espesso que se funde, engrossa e
expande como uma nuvem tóxica? Quem ceva a escuridão?


Há uma resposta bem conhecida. Por ironia, de um judeu. O fato de não
ser nova não significa que não deva ser apreciada. “Com o tempo, uma
imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público
tão vil como ela mesma”, pressagiou o jornalista e judeu húngaro Joseph
Pulitzer. Diga que o velho Pulitzer não tem razão.