sábado, 18 de fevereiro de 2017

68% de executivos do país identificaram fraudes em 2016, diz Kroll

ConJur - 68% de executivos do país identificaram fraudes em 2016, diz Kroll



68% de executivos do país viram fraudes em suas empresas em 2016, diz Kroll


Sessenta
e oito porcento dos executivos de grandes e médias empresas instaladas
no Brasil confirmaram que companhias onde atuam sofreram fraudes em
2016. O levantamento foi feito pela consultoria de riscos Kroll, que
ainda mostra que 94% desses mesmos executivos afirmaram que a exposição
das corporações a esquemas fraudulentos aumentou.

Embora, segundo a
consultoria, os dados mostram que os métodos de controle interno no
Brasil são falhos, o índice de fraudes no Brasil está abaixo do índice global,
que é de 82%. “Nossa análise permite concluir que a desproporção entre
os resultados brasileiro e global pode estar associada a um agravamento
na deficiência de controles internos, possivelmente resultante da
redução de investimentos associada à crise econômica”, destaca a empresa
de consultoria no relatório da pesquisa.

O levantamento aponta
que os tipos mais comuns de fraude praticados no Brasil são roubo de
ativos físicos (24% dos entrevistados). Já os principais responsáveis
pelos crimes são ex-funcionários (43%), trabalhadores autônomos e
temporários (26%), empregados do baixo escalão (22%), vendedores e
fornecedores (17%), terceirizados (17%), parceiros (17%) e clientes
(17%).

As motivações para fraude mais citadas entre os
entrevistados brasileiros foram a complexidade da infraestrutura de
tecnologia da informação (29%), a entrada em novos mercados (29%), a
alta rotatividade de funcionários (26%), o aumento de terceirização
(26%) e a complexidade de produtos ou serviços vendidos (24%).

Barreira cultural

Até aí, os dados brasileiros pouco se diferenciam do comportamento
mundial. Mas o a diferença aumenta quando são analisados os meios como
as fraudes são descobertas no país. Aqui, esses esquemas, na maioria das
vezes (43%), são revelados por auditorias externas, segundo os
entrevistados. A média global é de 36%.

“Não é função da auditoria
externa detectar fraude”, destaca Fernanda Barroso, diretora da Kroll
em São Paulo. Ela afirma ainda que esse índice mostra a fragilidade dos
controles internos no Brasil.

Na contramão global, em que 39% dos
entrevistados afirmaram que as fraudes foram descobertas por auditorias
internas, no Brasil, 35% dos executivos consultados disseram que
esquemas fraudulentos foram desbaratados por essas verificações
corporativas. Além desses meios, fraudes também foram descobertas pela
administração da empresa, disseram 26% dos entrevistados, e graças a
denúncias (17%).

Apesar do resultado, o índice de denunciantes no
Brasil está muito descolado da média mundial: 44%. Segundo Ian Cook,
diretor da Kroll no Brasil, essa diferença se dá pela barreira cultural.
“Ainda é muito comum a repulsa pela figura do denunciante, que é
facilmente associada à imagem do traidor, mesmo quando está a favor da
ética e contra a perpetuação de crimes”, diz.

Ele explica que para
melhorar esses resultados é preciso criar um canal de denúncias
independente e que garanta o anonimato. “Também é necessário demonstrar
na prática que toda acusação com bases reais será, de fato, investigada,
bem como toda conduta imprópria, punida.”

Impactos das fraudes

Apesar do descolamento em relação às fraudes detectadas, a noção de
perdas dos entrevistados brasileiros é similar à média mundial: 66%
estimam perdas entre 1% e 3%, enquanto 26% apontam prejuízos menores do
que 1%. As perdas entre 4% e 6% e entre 7% e 10% representam, cada uma
4% das opiniões

Na pesquisa global, os resultados encontrados
foram: 57% dos executivos questionados disseram que problemas com
fraudes impactam entre 1% e 3% da receita da empresa, 30% afirmaram que
esse problema afetou menos de 1% dos ganhos, 10% citaram ter sentido
perdas entre 4% e 6% e 3% acham que fraudes empresariais afetam entre 7%
e 10% dos rendimentos.

Na questão reputacional, os entrevistados
brasileiros afirmaram que as fraudes sofridas impactam, principalmente,
na relação com autoridades reguladoras (70%); na privacidade, segurança e
moral dos funcionários (69%), na imagem da companhia frente ao cliente
(69%), na reputação da empresa (65%) e na receita e na continuidade dos
negócios (61%).

Raiva é uma revolta contra o que nos parece injusto (mesmo que não seja)

Raiva é uma revolta contra o que nos parece injusto (mesmo que não seja) - 15/02/2017 - Francisco Daudt - Colunistas - Folha de S.Paulo



Raiva é uma revolta contra o que nos parece injusto (mesmo que não seja)










Como psicanalista, sou um advogado de defesa do cliente que me contrata.
Ele chega pagando pena, prisioneiro por décadas de uma culpa que não
está clara –sua neurose–, e pior, achando-se mais culpado ainda por
tê-la. Quero ver os autos desse processo que o condenou, mas eles não
estão on-line, infelizmente. A coisa é tão injusta que se faz necessário
um trabalho detetivesco de arqueólogo para decifrá-lo. Sim, porque ele
está codificado em sintomas e sonhos, ele está inconsciente.





A beleza da coisa reside em que, à medida que vamos jogando luz na
história, ela se revela injusta com o neurótico: foi resultado de
incompetências –nunca encontrei história de má intenção– de sua criação
carregadas pela vida afora, o famoso complexo de Édipo. Exposta a
injustiça, entra então a força da justiça: a indignação e o
inconformismo, a vontade de corrigir o erro.





Indignação com injustiça é um software inato que trazemos, com um
resultado primeiro: raiva. Qualquer raiva é revolta contra o que nos
parece injusto (mesmo que não seja). Por isso digo que a raiva é a mãe
da justiça. É ela que motiva a busca de se corrigir o erro, ainda que
muitas vezes tome caminhos que só fazem agravá-lo.





Um jovem cliente me perguntou: "Qual é sua motivação na vida? A minha é a
vingança". Respondi que a minha era amar e ser amado. Disse ele: "É,
essa também é boa... mas vingança é melhor!"





Ele era prisioneiro de um canal incompetente da justiça, deixara de
viver sua vida para se tornar um vingador. Ele se ressentia da
incompetência de seus pais, e era rebelde na vida como forma de
vingança. Ou seja, seus pais continuavam mandando nele. O máximo desse
tiro no pé é o suicídio de vingança, para deixar os pais culpados. É o
único suicídio que me revolta, os outros costumam ser eutanásias.





Mas, veja só, o fato de se perceber prisioneiro do ressentimento, e a
injustiça contida nisso, fez com que ele começasse a mudar o rumo de sua
vida, a tomá-la para si em vez de dedicá-la a "homenagear" os pais.





Outro canal incompetente da raiva é a inveja: "Ele é mais bonito, rico e
inteligente que eu, isso não é justo". O curioso é que a inveja não
almeja a igualdade, e sim a inversão da desigualdade: "Quero me dar bem,
e que ele se ferre". Isso ajuda a entender muitas ideologias
políticas...





O ciúme, por sua vez, ora é injusto, ora é justo: quando nasce um
irmãozinho e toda a atenção que o mais velho recebia lhe é retirada, o
ciúme que ele tem é mais do que justo, precisa ser considerado e
respeitado.





A justiça está ligada ao nosso programa de altruísmo recíproco: mesmo na
amizade, se estamos dando muito mais que recebendo, um incômodo/raiva
começa a surgir.

Repare em você como a avaliação de justiça/injustiça funciona quase que o tempo todo, aplicada a inúmeras situações.





A psicanálise conta com essa premissa: o complexo de Édipo é injusto,
vamos corrigi-lo. A esperança de cura, em psicanálise, reside na força
da justiça. A esperança de cura das doenças institucionais do Brasil
reside na força da justiça.





Me encanta ver isso acontecendo

De racismo de youtuber a ministro raivoso:

De racismo de youtuber a ministro raivoso: Temer sabe escolher porta-voz? - Cotidiano - Cotidiano



De racismo de youtuber a ministro raivoso: Temer sabe escolher porta-voz?

Leonardo Sakamoto
O youtuber Lukas Marques foi um dos principais temas da rede nesta sexta (17). Após
a Folha de S.Paulo mostrar que o seu canal ''Você Sabia'' recebeu R$ 65
mil do governo Temer para produzir um vídeo defendendo sua reforma do
ensino médio
, começaram a pipocar, na rede, tuítes antigos postados por ele de cunho racista, machista e preconceituoso.

''Nada
contra gays, mas não me diga que isso é normal.'' ''Nao sou racista… So
acho que os pretos poderiam ae fuder mais…'' ''(`-`) (._. ) (· – ·) (
._.) ( ' -') Procurando quem me roubou numa multidão de pretos''
''Nordeste todo elegeu Dilma pq pensa com a barriga e não com a cabeça''
''Como estragar sua noite: Imagine a Dilma de quatro para você. De
Nada'' ''Mulher: tem mais de 1000 amigos no face?? É PUTA'' ''Quem gosta
de pica eh viado.. mulher gosta eh de dinheiro!'' ''A pior coisa que
tem é sapatão… MACHAO'' (sic)

Diante da polêmica negativa sobre ele e seu canal no YouTube (que possui mais de 7 milhões de seguidores), Lukas reagiu:

''Sobre
meus tweets antigos, eu peço desculpas. Não é como eu penso e me
arrependo de ter postado. Nunca tive a intenção de ofender ninguém'' e
''Não vamos mais falar sobre esses dois assuntos. Agora é bola pra
frente e fazer conteúdo legal pra todo mundo que gosta do Você Sabia.''

Independente
da sinceridade ou do oportunismo do arrependimento, é interessante que o
governo Michel Temer tenha escolhido exatamente um garoto-propaganda
que repetidas vezes tenha se pronunciado publicamente com esse conteúdo
para protagonizar uma peça publicitária de educação.

Ainda mais em
um momento em que a inclusão da formação para a empatia e da discussão
sobre ódio e intolerância,como temas transversais nas escolas de ensino
fundamental e médio é mais urgente do que nunca.

Isso, contudo,
não é novidade. Vale lembrar que um dos primeiros especialistas em
pedagogia recebidos pelo ministro da Educação Mendonça Filho, ao assumir
o cargo neste governo, tenha sido Alexandre Frota, porta-bandeira do
movimento Escola Sem Partido. O mesmo que, durante uma entrevista a um
programa de TV, narrou um caso de violência sexual do qual foi
protagonista contra uma mãe-de-santo, para deleite da plateia, que ria
como se fosse uma piada.

Nesta mesma sexta, durante solenidade de entrega do Prêmio Camões, um dos mais importantes da língua portuguesa, o escritor Raduan Nassar fez um discurso contundente contra o governo Michel Temer.
Isso já era de se esperar, uma vez que o autor de Lavoura Arcaica foi
crítico ao impeachment e é contra as reformas assumidas pelo
atual ocupante do Palácio do Planalto.

O que surpreendeu é que o
ministro da Cultura Roberto Freire – um político com experiência e que
se diz progressista – tenha usado seu discurso para criticar o
agraciado, sendo vaiado pelos presentes. ''Se ele viesse dizer que não
aceitava o prêmio, a crítica que ele fez podia até ser justa'', afirmou
Freire à Folha de S.Paulo. Também disse que Nassar ''é um adversário
recebendo um prêmio de um governo que ele considera ilegítimo'', apesar
da decisão do juri ter ocorrido antes do impeachment. O Prêmio Camões
condecora com 100 mil euros – conta dividida entre os governos
brasileiro e português.

Raduan Nassar já provou, como escritor e
como cidadão, não ser adversário de seu país, mas crítico aos que o
governam. Roberto Freire esquece que governos são transitórios e o
Estado não pertence a grupos políticos. Nassar não recebeu o prêmio do
governo Temer, mas do Estado brasileiro. Que, apesar de políticos de sua
base acharem que é a mesma coisa, na verdade, não é. Ou não deveria
ser.

Na entrega do Prêmio Jabuti de 2016, o escritor Julián Fuks,
que teve seu A Resistência escolhido como o livro de ficção do ano, fez
um duro discurso contra o governo Temer diante de representantes dos
governos municipal, estadual e federal. Que, elegantemente, ouviram as
críticas e fizeram falas protocolares. Afinal, a noite era dos premiados
e não das autoridades. Mas elegância, bom senso, saber quando ouvir e
quando falar, infelizmente, não são virtudes universais.

Temer tem
todo o direito de se comunicar com a sociedade e defender seu projeto
de governo – por mais que esse projeto não tenha sido escolhido em uma
eleição democrática e por mais que o objetivo principal dele e de seu
grupo, neste momento, seja salvar a própria pele das denúncias de
corrupção.

Mas depois da escolha questionável de um youtuber que
destila ódio nas redes sociais para ser garoto-propaganda da reforma
educacional e da falta de bom senso do ministro da Cultura, pergunto:
não seria de bom tom ele se esforçar um pouco mais para não
demonstrar que ele pensa que somos estúpidos?


domingo, 12 de fevereiro de 2017

A crise brasileira, na visão de Antonio Negri | Congresso em Foco

A crise brasileira, na visão de Antonio Negri | Congresso em Foco



A crise brasileira, na visão de Antonio Negri

Filósofo italiano critica PT por
reação aos protestos de 2013, por se afastar das populações
metropolitanas e dos trabalhadores negros, pela passividade diante do
crescimento da direita evangélica e pela “completa ignorância” das
mudanças que se passam hoje na divisão do trabalho














Foto: Verena Glass
Para onde vai o PT? Para onde vão as lutas?
 
Antonio Negri *


Negri:
"A ideia de governar por meio da corrupção, ou seja, retomando o hábito
da direita, não parece ter perturbado o projeto do PT desde o
princípio"
Em viagem a trabalho para o Brasil encontrei políticos e intelectuais
brasileiros, apresentei a eles alguns questionamentos e recebi
respostas distintas e às vezes contraditórias sobre a crise
constitucional em curso e sobre a derrota do PT (em âmbito parlamentar
e, por último, nas eleições municipais). A partir das respostas a essas
questões, gostaria de tirar algumas conclusões provisórias.


Meus interlocutores eram pessoas de esquerda, de uma esquerda
brasileira hoje muito fragmentada. Primeira pergunta: por que o PT
reprimiu as lutas modelo Occupy de 2013-2014 a ponto de desvirtuar o seu
significado e permitir que a direita tivesse hegemonia sobre elas? A
resposta que recebi dos expoentes do PT foi unívoca e terrivelmente
decepcionante.


Por parte de todos – este é um ponto realmente grave, por parte de
todos sem nenhuma hesitação, sem qualquer arrependimento (ainda que
muitas vezes com o embaraço da mentira) – obtive uma só resposta: esses
movimentos ameaçavam desde o início a manutenção da nossa
governabilidade. Não vou nem considerar comentários sem sentido, como
quando alguém disse que as lutas de 2013 haviam sido inspiradas pela
CIA, e isso não somente no Brasil, mas também no mesmo ciclo de Istambul
e do Cairo… É claro que, a partir dessa declaração, evidentemente
insensata, dá para concluir que o PT já tinha uma relação ruim com as
populações metropolitanas, que, envolvidas na crise econômica do país e
tocadas pela inflexão neoliberal das políticas de Dilma, pediam desde
2013 ao governo e ao município uma mudança de linha.


A segunda pergunta foi: por que tantos jovens negros continuam
morrendo? Não me foram dadas respostas sobre esta questão. Como sempre,
desde que visito o Brasil, a questão segue completamente silenciada. A
incompreensão dessa situação, a falta de vontade de assumi-la como
problema fundamental, foi determinante na impotência do PT, não digo
para resolver, mas simplesmente enfrentar o problema das favelas (fora
da dinâmica do capital imobiliário), e agora precipitou um vazio de
relações que não só permitiu, mas facilitou a entrada da direita
religiosa (e não religiosa) em meio ao proletariado negro.


A função das igrejas evangélicas é subvalorizada em sua capacidade de
organizar os novos estratos da classe média dentro e fora das favelas e
isso permitiu a penetração ideológica da direita e de uma propaganda de
“valores” totalmente subjugada a propostas reacionárias e/ou de
restauração da moralidade etc.


Provavelmente aqui está o nó de um dos pontos centrais da crise do
PT, sua perda de contato (ou de alguma forma da capacidade de
endereçar-se) com o proletariado negro do sistema industrial em crise
(se não em dissolução) nas periferias das grandes metrópoles (nos
estados de São Paulo e Minas Gerais, particularmente). É dentro da
ex-classe operária (dividida agora entre nova classe média e multidões
desempregadas e precarizadas) que se revela a crise mais pesada para a
esquerda – lá onde ela era hegemônica.


A perda de hegemonia nesses estratos do proletariado metropolitano é
sentida por quadros do PT como uma traição. Olha-se com espanto a


Rovena Rosa / Agência Brasil
Por que tantos jovens negros continuam morrendo?
emergência
e afirmação de novos “quadros” negros da direita. Em suma, parece que
há uma completa ignorância em relação às modificações estruturais na
produção e na divisão do trabalho metropolitano – ao qual se agrega o
abandono, como veremos, dos estratos proletários mais pobres.
Terceira pergunta: por que o PT não conseguiu responder ao ataque da
direita (desde 2013) fazendo com que as organizações de massa ligadas ao
partido também reagissem? Aqui as respostas mostram que também com as
organizações tradicionais (a central sindical CUT, o movimento camponês
MST etc.) a relação já havia se tornado irrelevante, ou talvez
subsistisse apenas para fins de propaganda.


Os sindicatos tornaram-se corporativizados, com os mesmos problemas
que existem na Europa diante da ofensiva “empreendedora” do empresariado
financeiro; o MST tornou-se frustrado pela recusa ou pela maneira lenta
e contraditória das expropriações fundiárias (e, consequentemente,
radicalizou-se em um surdo ressentimento em relação a um governo que não
podia, contudo, abandonar para não ficar sujeito ao contra-ataque das
forças do latifúndio agrário). Sindicatos industriais e rurais
tornaram-se mecanismos de controle político e, possivelmente, até de
repressão. Como pedir a estes uma reação organizada frente à prevalência
da direita? Quanto aos movimentos sociais ou ao povo, estes também
haviam sido duramente reprimidos.


A ofensiva da direita


Aqui provavelmente dá para compreender a conquista da hegemonia nos
protestos metropolitanos por parte de uma nova direita que, pela
primeira vez desde 2014, consegue levar às ruas centenas de milhares de
pessoas em meio à ausência de qualquer resposta antagônica. O elemento
que incendeia e permite à direita o predomínio nas ruas está ligado à
campanha contra a corrupção que, de maneira conjunta, Poder Judiciário e
grande imprensa desencadearam contra o PT, colhendo com perfeição (“a
tempestade perfeita”) o momento de crise no relacionamento do partido
com a massa.


O modelo utilizado para o ataque contra o PT por parte do Judiciário e
da grande imprensa é exatamente o mesmo que o da operação Mãos Limpas
(o juiz Moro, que representa o centro da iniciativa judiciária, havia
escrito e teorizado a respeito).


Duas breves reflexões sobre isto: a corrupção de boa parte das elites
do PT nasce da necessidade de equilibrar a “maioria” no Parlamento
brasileiro, onde o PT nunca obteve maioria; complica-se, então, pelo
apetite constituído no hábito da corrupção política de enriquecimento
pessoal de muitos expoentes do partido.


Trata-se, contudo, de corrupção generalizada do sistema político
brasileiro: a força e a astúcia da direita (e do sistema
jurídico/midiático) foi lançar a denúncia sobre o governo do PT. Parece
que agora, para além do desastre do PT, a magistratura está
endereçando-se contra setores da direita – sem, todavia, exercitar a
mesma eficácia terrorista que se produziu em relação ao PT.


Seguem duas perguntas. Uma primeira: por que com três presidências o
PT não lançou mão de uma reforma constitucional que garantisse a
governabilidade sem a necessidade de corromper? E em segundo lugar: por
que naquele mesmo período não construiu um sistema de comunicação/mídia
etc. que permitisse ao PT pelo menos alguma defesa contra os dinossauros
midiáticos (Globo, Folha etc.) deste país? À primeira
pergunta, obtive respostas ambíguas e confusas. Para alguns, não seria
possível mexer na Constituição de um país que acabara de sair de um
longo parêntese ditatorial.


Consequentemente, a ideia de governar por meio da corrupção, ou seja,
retomando o hábito da direita, não parece ter perturbado o projeto do
PT desde o princípio. Um sistema constitucional em que o presidente é
eleito com 60% dos votos – tais os números do sucesso de Lula –, numa
república federal semipresidencialista em que o Congresso e o Senado não
alcançam – num sistema eleitoral quase proporcional – nunca a maioria
(presidencial) necessária para o funcionamento legislativo e executivo, é
um monstro constitucional, condenado à instabilidade e a negociatas
contínuas – deixo que imaginem os métodos.


Quanto à questão midiática, muitos dos meus interlocutores foram
menos reticentes. Parecia-me entender que houve, desde o início dos
governos do PT, um acordo tácito de fair play com os
conglomerados midiáticos: nenhum ataque a eles por parte do governo e
recíproca lealdade por parte da mídia. Esse acordo se rompeu assim que a
direita conquistou as ruas e a capacidade de expressar uma oposição
orgânica. Naturalmente, não estou imputando à ingenuidade do PT a
responsabilidade pela queda do seu governo, da sua força e, sobretudo,
da perda de hegemonia.


O problema está, evidentemente, em outro lugar, na incapacidade
política de resistir à ofensiva neoliberal, de abrir uma resposta
multitudinária (como aquela acenada em 2013 por parte dos movimentos
metropolitanos), mas sem dúvida essas ingenuidades, que se tornaram
estruturais, também não ajudaram.


Crise econômica e a classe média


Uma nova questão: por que a crise econômica mundial foi percebida com
tal violência no Brasil a ponto de se tornar incontrolável, ou seja,
controlável somente com instrumentos neoliberais? Aqui a resposta foi
mais precisa. Temos aqui os documentos, por parte do PT, que ilustram a
situação.


Dizem: ganhamos as eleições presidenciais de 2014 com uma campanha à
esquerda (eu acrescento: tentando retomar o contato com os movimentos
reprimidos em 2013), mas Dilma, apenas reeleita, inverte a sua política,
intimidada pelas forças da crise e da recessão. Adota as medidas
macroeconômicas clássicas, mas de uma tal maneira que, incidindo sobre
as políticas energéticas, expõe os nervos das forças financeiras globais
e delas provém uma dura reação.


Vou poupá-los aqui da narração do que seguiu, pois não é nada além
dos acontecimentos, ou seja, a formação de um bloco de oposição que vê o
partido tradicionalmente aliado ao PT (o PMDB) converter de súbito sua
linha em termos neoliberais; uma tentativa de Dilma de corrigir a linha…
imediatamente rompida. É como dizer que o omelete neoliberal,
timidamente provado, não caiu bem para o PT, mas, em vez disso, acabou
imposto goela abaixo pela direita na forma de um “golpe de Estado” – uma
direita agora capaz, esta a sua “novidade”, de identificar políticas
financeiras no cenário global e privilegiar medidas que simplesmente
favoreçam os ricos, como fazia tradicionalmente.


Mas como é triste ouvir homens que foram militantes, marxistas,
companheiros de movimento interpretarem tudo em termos de equilíbrio
governamental e parlamentar quando perderam a oportunidade de relançar
uma ação à esquerda e renovar o próprio partido, pois reprimiram as
lutas de 2013! Nota-se, além do mais, que em 2008 alguns deles haviam
considerado que, diante da crise, haviam construído suficientes
barreiras de defesa. Tratava-se, evidentemente, de uma ilusão.


Mas estavam sinceramente convencidos de que haviam criado um ciclo
independente [2]1 do comando financeiro do Norte – um ciclo financiado
pelo petróleo e defendido pelas alianças políticas dos Brics.


Outra questão: o que é esta bendita “classe média” que as políticas
do PT no governo criaram e que – incompreendidas – teriam cometido o
parricídio? Aqui as respostas que obtive levam todas ao ano de 2013.
Para alguns do PT, 2013 foi um delito que o povo cometeu contra si
mesmo, contra o poder popular – em suma, é como se uma besta imunda
houvesse então se revelado… e se revoltado.


É estranho como a incompreensão política das necessidades de
“contrapoderes” ativos na sociedade pode se revelar letal para as forças
da velha esquerda que se tornaram social-democratas! Há uma total
incompreensão sobre a ação de minorias nas multidões ativas. Falando com
ex-funcionários da prefeitura de São Paulo – já passada para a direita
nas eleições recentes – que provocaram acidentalmente os processos de
luta de 2013 ao se recusarem a reduzir o preço dos transportes, a minha
percepção da incapacidade de compreensão dos mecanismos elementares do
poder por parte desses burocratas foi confirmada.


Eles têm em mente uma dupla ilusão: que a legitimidade das lutas não
pode ir além da fábrica e que as lutas sociais são antidemocráticas.
Todo tecnocrata entende perfeitamente que a metrópole é, a esta altura, o
mecanismo central da acumulação capitalista, que a partir dela ocorrem
os processos de extração de mais-valia, mas não querem entender que a
força de trabalho metropolitana deve ser, por esse motivo, de alguma
forma reconhecida e eventualmente recompensada – que aquele “comum”
metropolitano explorado deve ser, de alguma forma, “remunerado” (por
exemplo, por meio da gratuidade do transporte numa metrópole de 18
milhões de habitantes, com uma extensão e com um caos que tornam a
mobilidade cotidiana uma tarefa árdua).


Contudo, não há uma resposta precisa ao que seja essa fantasmagórica
nova classe média. Sociologicamente, isso é o que já havíamos notado,
trata-se de uma classe operária que evoluiu em novas formas de
composição cognitiva e metropolitana, agora atacada pela crise e pelas
políticas neoliberais: ela defende conquistas que acreditava ter
adquirido e se rebela contra uma situação miserável que considera
inaceitável. Politicamente, essa multidão metropolitana é a classe
produtiva que quer ser reconhecida como tal.


Os movimentos representaram uma espécie de introdução à política e
esboçaram – numa aproximação ao poder – uma tentativa de exercício de
contrapoder. Em consequência, o fracasso dos atos dos movimentos,
decorrente da repressão, tolhe qualquer possibilidade de recuperação e
mediação no governo da cidade: abre caminho para ações de reivindicação
baseadas em poderes de mediação e de decisão não mais expressos pela
vontade democrática nem sujeitos a um controle democrático.


Seus instrumentos foram desconsiderados e/ou destruídos. Agregue-se
que tudo isso acontece sobre um território de ruínas. Em São Paulo,
simplesmente andando pela cidade ou em algumas periferias de classe
média, a miséria transborda: miséria do tipo “indiana”, pobres deitados
pelas ruas – não se sabe se dormindo ou morrendo –, pedintes por todos
os lados, violência noturna etc. Espetáculos intoleráveis.


A nova direita


José Cruz / Agência Brasil
"Nova direita é uma força indistinta, ferozmente anti-PT, muitas vezes antissindicatos..."
Nova
pergunta: qual é o peso e qual é o jogo dos vários componentes da
direita brasileira (a fascista antiga, a moderna neoliberal, a nova
direita militante, o fundamentalismo evangélico, a direita católica
etc.)? Se o elemento determinante da sublevação reacionária foi a classe
média em crise, por que o foi e como? Vou poupá-los dos testemunhos de
algumas pessoas, integrantes do PT, que encontrei: perseguidas e
submetidas a uma espécie de linchamento público, por parte de
transeuntes, de conhecidos, de lojistas – um deles me relatou ter sido
chamado de “comunista” e “ladrão” na classe executiva de um avião…
ameaças e manifestações sob as janelas dos “petistas”, denunciados como
coveiros da nação, a crise econômica foi imputada a eles… sem esquecer
(e certamente não deve ser esquecido) que se aguarda o encarceramento de
Lula.
Voltando a nós: uma novidade, por exemplo, é o fato de que uma
direita agressiva, bélica, se manifeste hoje pelas ruas. É desde os
tempos da queda da ditadura que algo assim não acontecia. A derrocada do
poder municipal do PT foi maciça nas eleições no começo de novembro de
2016; nenhuma cidade foi reconquistada nos locais em que o PT tinha
quase monopólio.


Então, o que é a nova direita? Em muitos aspectos, é algo
indefinível; no momento, é uma força indistinta, ferozmente anti-PT,
muitas vezes antissindicatos… os elementos ideológicos clássicos do
neoliberalismo atravessam-na. Aceita as pesadíssimas operações que o
novo governo decidiu de imediato: rigor orçamentário, flexibilização do
mercado de trabalho e, sobretudo, a decisão de limitar –
constitucionalmente – por vinte anos a progressão das despesas do Estado
no ritmo da inflação (idêntica operação feita por Macri na Argentina).


O déficit do sistema previdenciário justificaria, além do mais, o
fato de se fixar em 65 anos o limite de aposentadoria, até então fixo
nos 35 anos de contribuição de serviço. Estado mínimo, privatizações
etc. constituem uma perspectiva próxima.


Poderá esta direita manter-se por muito tempo ou ela também está
destinada a se dissolver? A respeito disso as opiniões são distintas, a
questão permanece em aberto, mas é claro que uma nova fase teve início. O
Brasil é um país potencialmente riquíssimo, mas sua estrutura social é
talvez mais injusta (quase absurda) que a de outros países com potencial
análogo.


Uma direita que mantenha intactas as atuais condições sociais é
impensável: a passagem do PT ao poder, neste sentido, marcou uma virada
decisiva. Para a direita, manter-se no poder poderá significar então
desorganizar as estruturas democráticas do Estado. Há algo de patético
nos meus interlocutores do PT, quando os repreendi pelo comportamento
durante os movimentos de 2013-2014: “mas nós defendemos o Estado de
Direito!”. Mas já não era mais defensável, isto eles não entenderam –
então melhor apostar nos contrapoderes dos pobres do que ser esmagado
pela contrarrevolução, pela desorganização autoritária do Estado de
Direito –, que a direita não pode não fazer.


O que é então a direita? É uma nova máquina de poder que não poderá
fazer outra coisa além de consolidar, em formas autoritárias, o controle
financeiro sobre o desenvolvimento do país. Além do mais, a este tronco
enxerta-se uma direita racista, escravagista, branca e oligárquica que,
desde sempre, mesmo quando não dominou, impôs no Brasil sua vontade.
Tendo presente este dado, é impensável no Brasil qualquer slogan do
tipo indignados que equipare direita e esquerda. No Brasil, antecipou-se Trump.


O futuro do PT


Eis que surge uma última pergunta: o que permanece do partido (PT)?
Por que não se produziu uma mudança de quadros, um rejuvenescimento do
partido? Por que se revelou um corpo mole contra o qual a estocada do
inimigo foi fácil e profunda? Minha opinião é que o PT não conseguirá
mais se apresentar como uma força hegemônica. Por melhor que seja,
virará um dos pequenos partidos de esquerda que pululam no cenário
brasileiro.


Distinto é o parecer de alguns dos dirigentes do PT, coisa não
irrelevante dada a inteligencia estratégica que continuam a expressar.
Eles sustentam que o partido deve renascer e é interesante a forma em
que imaginam este renascimento. Deve voltar ao passado, ou seja,
renascer como um movimento. Um movimento horizontal que se apresente em
todas as faixas da sociedade onde se trabalha e se é explorado.


A situação mudou completamente desde que o partido nasceu, e os
processos de exploração estenderam-se sobre toda a sociedade: é a partir
daí,


José Cruz / Agência Brasil
"O PT não conseguirá mais se apresentar como uma força hegemônica"
então,
que se deve agir. E, no entanto, junto à mobilização da sociedade, a
verticalidade de uma organização é necessária. O Brasil é um continente;
uma ação reformadora não pode avançar senão por meio de um governo, uma
verticalidade mediadora que saiba colocar-se à altura daquilo que exige
o país e da terrível complexidade das questões e desafios que
aparecerem.
E aqui eles reivindicam novamente o fato de terem conduzido uma
política qualificada, para além da revolução interna no Brasil, por
terem compreendido a necessidade de uma unidade continental da América
Latina e por terem iniciado uma aliança política intercontinental – a
dos Brics.


Representação horizontal, unidade continental, conexão com os países
do hemisfério sul contra o capitalismo financeiro: para eles, este ainda
parece ser o quadro no qual renascerá o partido. O que dizer, então,
sobre este ponto? O fato de que esses dirigentes não queiram discutir os
eventos de 2013 e que o atribuam à CIA é algo bastante cômico – como eu
já disse. É necessário, todavia, admitir que em quinze anos esses
homens mudaram o Brasil e tiraram da pobreza 50 milhões de pessoas.


Enfim, é necessário admitir que o PT sucumbiu ao seu próprio sucesso.
Na verdade, o que é diferente, na experiência brasileira em relação à
de outros países, é o fato de que a direção partidária do PT foi
derrotada pela classe média que havia se emancipado de uma condição de
subalternidade e que havia sido criada a partir das cinzas de uma classe
operária já envelhecida. Mais do que uma derrota política, o que está
acontecendo no Brasil parece ser para a velha direção uma nêmese
antropológica – e talvez o seja.


É incontestável também o fato de que aquelas novas gerações, que
poderiam representar mais um avanço na revolução brasileira,
tornaram-se, em vez disso, presas da ofensiva da direita neoliberal. Não
sei, portanto, o que acontecerá com o PT. Em todo caso, descarto que
possa se tornar de novo aquilo que foi em seu momento mais feliz, uma
força capaz de hegemonia. De todas as formas, não dá para jogar tudo
fora, como insistem alguns: há ainda muita vida ao redor desse partido e
qualquer movimento que queira assumir a tarefa de reconstruir uma
hegemonía deve manter isso presente.


Aqui se deve agregar uma defesa explícita do Lula “revolucionário” e
também uma leitura não irrisória do seu papel como “estadista”. Se de
fato é inaceitável que ele tenha considerado as manifestações de
2013-2014 como promovidas pela CIA, sem dúvida a iniciativa de Lula no
terreno latino-americano e internacional para garantir os fundos
internos e o desenvolvimento externo do projeto petista danificou, se
não rasgou, a teia de comando financeiro global e talvez tenha indicado
um modo de contornar o controle: construir unidades continentais
homogêneas a partir das quais se pode exercitar resistência e redefinir o
poder sobre o território global.


Quem não tem presente esses pressupostos não compreende o quanto o
processo de inserção do Brasil e da América Latina no sistema global (a
condição GlobAL[3])2é avançado. Lula intuiu uma passagem para
ruptura: unidade continental latino-americana, abertura – com tonalidade
não apenas tática – aos Brics, com particular interesse nos mais
“sujos” – África do Sul, Índia e, sobretudo, Irã. Esta intuição de Lula
(permitam que eu expresse respeito pela sua inteligência revolucionária)
é leninista.


Essa é mais uma razão para insistir sobre o fato de que uma
alternativa ao PT, além de se desenvolver no terreno da classe e de se
abrir para a compreensão da questão racial nos processos organizativos,
precisa recolher do PT aquela intuição política global (para além das
palhaçadas populistas do bolivarianismo e em ruptura com o refluxo
nacionalista do progressismo andino).


A reconstrução da esquerda


Movimentos de reconstrução? Não sei se existem, e também não sei se
novas experiências organizativas que tenham futuro estão em curso. É
certo, porém, que existe a sensação generalizada no Brasil de que há
algo de novo no ar – contrário e irredutível à direita neoliberal e
racista. É algo novo que vai além da expectativa de uma crise interna da
classe neoliberal do governo, supondo que a atividade judiciária possa
agora criar danos nessa direção. De todas as formas, não acredito muito
que algo novo possa surgir assim tão rápido.


Também no Brasil o ciclo neoliberal está distante de sua conclusão,
mas é evidente que o “golpe de Estado”, além de atingir o PT, atingiu o
sistema e a Constituição de 1988, enfraqueceu-o, talvez tenha bloqueado
as articulações e a capacidade de mediação do poder. É aqui, portanto,
que me parece possível ter em conta os encontros com os companheiros dos
movimentos, atentos à atual fase da crise. Foram eles que me indicaram
linhas de recomposição e de programa para reconstruir uma força
antagonista.


Eis aqui os pontos mais importantes que eu obtive:


1. A denúncia da violência da polícia, do Estado. Uma
violência que não se dirige somente contra a população negra, mas
contra qualquer iniciativa social – violência institucional, numa
situação em que a “exceção” é norma. É tocante a normalidade de uma
violência escravagista e colonialista, mantida e desenvolvida nas e
pelas instituições do Estado. Neste ponto, a atenção unânime
concentra-se no desenvolvimento de estratégias de resistência que
permitam evitar as condições de excepcionalidade sofridas.


Emerge aqui uma característica do debate autônomo brasileiro no qual,
dentro das qualificações de formas de luta e de programa, a demanda
pela construção de uma “política do desejo” se torna central.
Entendem-se assim ações políticas em que prevalecem componentes do
desejo, formas de agregação nas quais os pontos motores são os aspectos
criativos do fazer política. Pacifismo contra a polícia? Certamente não,
mas criações alegres de formas de resistência contra a violência e a
brutalidade cega do poder. Compreende-se aqui por que Félix Guattari
seja ainda tão citado no Brasil.


2. Há lutas em curso, sobretudo nas escolas secundárias. Lutas
que envolveram grande parte dessas instituições em São Paulo e que
também passaram para o estado do Paraná. São lutas pelo financiamento
público da escola e pela autonomia no ensino. Lutas longas, ocupações
que duram meses, conduzidas pelos garotos e garotas e apoiadas pelas
famílias. A essas lutas pelas escolas unem-se, com bastante frequência,
lutas de estilo argentino, parte dos movimentos feministas, juntos
contra a violência sexual e contra a violencia sobre a reprodução
(reivindicações: garantia de renda, trabalho doméstico remunerado etc.).


Em toda a América Latina, seguem, após a derrota dos governos
progressistas, sobretudo lutas nas escolas e lutas conduzidas pelas
mulheres. Trata-se de novas frentes sociais – centrais à luta de classe.
O conhecimento e a reprodução constituem, de fato, nós essenciais que o
capital deve dominar – formas diretas da emergência de um tecido
biopolítico sobre o qual se dá o confronto de classe. É ali que se abrem
novos espaços sociais de luta anticapitalista.


3. E depois a luta das populações negras, antes de tudo contra a
chacina dos inocentes, ou seja, a carnificina contínua dos jovens às
bordas das favelas.
Mas a questão racial não emerge somente em
relação ao genocídio da juventude negra – a questão racial se dá em
todas as partes da sociedade brasileira, constitui “a exceção” sobre a
qual se funda a “constituição material” do país. Também a questão da
pobreza é completamente ligada à dimensão racial-escravagista da
sociedade brasileira.


Não dá para cogitar que o Brasil entre plenamente na democracia sem
que a questão racial seja resolvida. As lutas dos negros e negras
constituem, portanto, a verdadeira sublevação da sociedade brasileira.
Discuti com jovens companheiros e velhos ativistas negros esta sua
conclusão: sem a direção de uma força militante negra, será impossível
construir qualquer forma de organização autônoma no Brasil, assim como
qualquer tipo de reviravolta política de libertação.


4. As principais forças que hoje se movem no terreno social em São Paulo,
particularmente o movimento contra a tarifa dos transportes urbanos e o
“movimento dos sem-teto”, conduzem a discussão sobre um terreno
instantaneamente político. Esses movimentos, protagonistas das lutas de
2013-2014, o primeiro por ter iniciado, o segundo por ter somado a força
de dezenas de milhares de famílias “sem-teto”, são também os que têm
uma consistência numérica (quadros de organização) e um respaldo
importante da massa.


São forças que produzem programa político na metrópole e que, de uma
nova forma, constituem contrapoderes sociais no âmbito metropolitano. Na
discussão com esses companheiros, o tema do “comum” é central,
tornando-se imediatamente evidente – assim como é – pelas lutas contra
as tarifas do transporte e também pela moradia. O “comum” pode ser
traduzido – dizem esses companheiros – em objetivos imediatamente
viáveis. Além disso, o debate destacou a importância da “greve social”
como forma de luta que pode unificar as forças que se agitam no contexto
metropolitano. Resta o fato de que as grandes manifestações de massa (e
pacíficas) são ainda consideradas uma arma fundamental.


5. O que fazer? A conclusão de muitos desses companheiros de
movimento está baseada no fato de que o PT tornou-se uma “esquerda
branca”, pálida em relação à questão racial e mole ao confrontar
políticas neoliberais. O partido perdeu a relação com a sociedade e não
poderá mais ser uma locomotiva para o desenvolvimento político. Há,
então, que se encontrar forças políticas e construir uma nova
organização social e política partindo dos movimentos. A autonomia dos
movimentos é agora fundamental para começar uma nova temporada política.
E como? O ponto central – como foi visto – será conjugar o (projeto
do) comum como tema unificador das lutas. A “renda universal
incondicionada biopolítica” é, neste quadro, a trama sobre a qual podem
se desenvolver o discurso político e a mobilização de defesa da “bolsa
família” e até da gratuidade dos transportes metropolitanos. E, sempre
neste quadro, devem ser destacados outros três campos de luta: 1)
intervenção sobre escola e conhecimento; 2) sobre o trabalho de
reprodução (particularmente o feminino); 3) sobre a questão racial e a
pobreza. A primeira intervenção sobre escola e conhecimento é central na
atual fase de acumulação capitalista no território cognitivo. Não por
acaso a escola se tornou um dos pontos centrais de construção das novas
legitimidades neoliberais.


Por isso, as lutas em curso no território da escola são estratégicas e
nelas podem se construir novas vanguardas. Mas o discurso pode se
alargar e provavelmente é deste ponto de vista – este da crítica e da
intervenção sobre o conhecimento – que o tema da nova classe média
poderá ser enfrentado – porque é aqui, dentro desta composição social e
produtiva, que o conhecimento é, sobretudo, explorado.


A classe do trabalho intelectual e de serviços já constitui – também
no Brasil – a média social e é sobretudo daqui que se extrai a
mais-valia. Quanto às lutas sobre a reprodução, a iniciativa argentina
me parece ressoar também no Brasil como perspectiva para o movimento. No
que tange à questão racial e aos temas da pobreza, já nos pronunciamos.
Partindo de São Paulo, talvez se pudesse impor um movimento que combine
essas diversas, porém convergentes linhas de ação. Isso foi o que
aparentemente pude compreender ao interrogar os movimentos autônomos de
São Paulo.





* Filósofo marxista italiano, Antonio Negri esteve no
Brasil em outubro de 2016 a convite da Universidade de São Paulo
(USP). Este texto foi publicado originalmente pela Fundação Rosa Luxemburgo, que também é responsável por sua edição e tradução.

Não há panelaços e bonecos infláveis

Não há panelaços e bonecos infláveis para os acusados do governo Temer - 12/02/2017 - Janio de Freitas - Colunistas - Folha de S.Paulo



Não há panelaços e bonecos infláveis para os acusados do governo Temer











Agora ficou mais fácil compreender o que se tem passado no Brasil. O
poder pós-impeachment compôs-se de sócios-atletas da Lava Jato e, no
entanto, não há panelaço para o despejo de Moreira Franco, ou de
qualquer outro da facção, como nem sequer houve para Geddel Vieira Lima.
Não há panelaços nem bonecos inflados com roupa de presidiário.





Logo, onde não há trabalhador, desempregado, perdedor da moradia
adquirida na anulada ascensão, também não há motivo para insatisfações
com a natureza imoral do governo. Os que bancaram o impeachment
desfrutam a devolução do poder aos seus servidores. Os operadores
políticos do impeachment desfrutam do poder, sem se importar com o
rodízio forçado, que não afeta a natureza do governo.





Derrubar uma Presidência legítima e uma presidente honesta, para retirar
do poder toda aspiração de menor injustiça social e de soberania
nacional, tinha como corolário pretendido a entrega do Poder aos que o
receberam em maioria, os geddeis e moreiras, os cunhas, os calheiros, os
jucás, nos seus diferentes graus e especialidades.





Como disse Aécio Neves a meio da semana, em sua condição de presidente
do PSDB e de integrante das duas bandas de beneficiários do impeachment:
"Nosso alinhamento com o governo é para o bem ou para o mal". Não faz
diferença como o governo é e o que dele seja feito. Se é para o mal,
também está cumprindo o papel a que estava destinado pela finalidade
complementar da derrubada de uma Presidência legítima e de uma
presidente honesta.





Não há panelaço, nem boneco com uniforme de presidiário. Também, não precisa. Terno e gravata não disfarçam.





POLÍTICA, SIM





Se divulgar a delação da Odebrecht, como propõe Rodrigo Janot, pode
levar à "destruição de prova útil" –como disse o procurador Carlos
Fernando dos Santos Lima ao repórter Thiago Herdy–, "de outro lado, há o
uso de vazamentos para o jogo político, algo que não nos interessa".





Sem esse interesse, não teria havido os vazamentos. Atos cuja gravidade
não se confunde com a liberação particular de informações para
jornalista. O inaceitável eticamente nos vazamentos da Lava Jato é a
perversa leviandade com que torna públicas, dando-lhes ares de verdades
comprovadas, acusações não provadas, em geral nem postas (ainda?) sob
verificação.





Otávio Azevedo, ex-presidente da Andrade Gutierrez, por exemplo,
proporcionou um desses vazamentos: acusou Edinho Silva e outro petista
de receberem determinado cheque, relatando até o encontro para a
entrega. O então ministro José Eduardo Cardozo localizou e exibiu o
cheque de tal pagamento: o destinatário do cheque nominal era um certo
Michel Temer. Mas a Lava Jato pusera Edinho Silva, secretário de
Comunicação da Presidência de Dilma, nas manchetes e na TV como
recebedor do suborno da empreiteira.





Otávio Azevedo e outros ex-dirigentes da Andrade Gutierrez estão
chamados a corrigir seus depoimentos, porque a delação da Odebrecht
revelou que distorceram ou omitiram. E também foram vazamentos
acusatórios. Diz a regra que trapacear nas delações as anula. Não porém
para protegidos na Lava Jato, como Otávio Azevedo e Alberto Youssef.





Ficou comprovado que a Lava Jato e mesmo o seu juiz programavam
vazamentos nas vésperas dos dias importantes na campanha contra Dilma e
Lula. Só por "interesse político" –evidência que ninguém na Lava Jato
tem condições honestas de negar.

Lances de soberba de Moro ajudam os adversários

Lances de soberba de Moro ajudam os adversários da Lava Jato - 12/02/2017 - Elio Gaspari - Colunistas - Folha de S.Paulo




Na solene e medonha rotunda da Universidade Columbia, em Nova York, o
juiz Sergio Moro explicou sua estrondosa decisão de liberar o grampo de
um telefonema de Dilma Rousseff para Lula, em março do ano passado. Os
dois trataram da blindagem de Nosso Guia que havia sido nomeado chefe da
Casa Civil.





O efeito da divulgação do áudio foi devastador. Contudo, havia um
problema. Às 11h12, Moro determinara o fim da escuta do telefone de Lula
e a conversa ocorreu às 13h32. Ainda assim, foi transcrita e anexada
aos autos da Polícia Federal às 15h37.





Falando para uma plateia relativamente leiga, Moro explicou sua conduta:
"Nossa decisão foi a de não esconder nenhuma evidência nesses casos".
Meia verdade. Sua decisão foi a de expor uma tramoia na qual Dilma
blindava Lula, mas a prova que usou era ilegal.





Confrontado à época, Moro disse que a questão dos horários não tinha
relevância, porque as companhias telefônicas ainda não haviam sido
notificadas. Conversa para boi dormir. Ele é que não deveria ter anexado
o grampo feito fora do prazo legal.





Foi um golpe de mestre, mas custou a Moro uma repreensão vinda do
ministro Teori Zavascki: "Não há como conceber a divulgação das
conversações do modo como se operou".





Explicando-se, Moro disse o seguinte: "Compreendo que o entendimento
então adotado possa ser considerado incorreto, ou mesmo sendo correto,
possa ter trazido polêmicas e constrangimentos desnecessários. Jamais
foi a intenção desse julgador (...) provocar tais efeitos e, por eles,
solicito desde logo respeitosas escusas a este egrégio Superior Tribunal
Federal".





Teori foi bonzinho aceitando esse pedido acrobático de desculpas, mas
não passaria pela cabeça de Moro dizer ao Supremo o que disse em Nova
York.





Lances de soberba ajudam os adversários da Lava Jato. Afinal de contas, o
ladrão sabe que é ladrão, o que ele precisa é que o policial faça uma
besteira.





É o caso de se repetir: pode-se fazer tudo por Moro e pela Lava Jato, menos papel de bobo.

A dobradinha de Sergio Moro e Temer para "acabar com a Lava Jato" - O Cafezinho

A dobradinha de Sergio Moro e Temer para "acabar com a Lava Jato" - O Cafezinho





O título é irônico porque eu acho muito biruta essa gritaria toda sobre “acabar com a Lava Jato”.


A Lava Jato personalizou-se. Virou um indivíduo, com opiniões
políticas, com mau humor. Frequentemente, ela se porta como uma donzela
desamparada, sequestrada pelos vilões do Senado e do governo.


“Ah, querem acabar com a Lava Jato!”


Até mesmo os parlamentares de esquerda se comovem, esquecendo que a
donzela, num momento anterior, era o próprio dragão servindo de guarda
costas para o impeachment e, logo em seguida, para a demolição do
Estado. Então se juntam ao coro dos macacos de auditório, também
querendo tirar uma casquinha da aprovação da Lava Jato junto a este
setor da sociedade que Hannah Arendt chamava, muito apropriadamente, de
“ralé”, e que a gente tem chamado aqui, mais modernamente, de zumbis
midiáticos.


“Temer quer acabar com a Lava Jato!”, gritam os parlamentares do PT, achando-se muito perspicazes.


A militância de esquerda, que também é muito esperta, diz que o golpe foi dado para “acabar com a Lava Jato”.


A militância de direita, que vive uma fase bem malandra, sorri e se
cala: ela jamais escondeu o seu desejo mais ardente, o de que a Lava
Jato prenda Lula. O resto, não lhe interessa.


A tara para prender o Lula não significa apenas tirá-lo das eleições
de 2018. Há um objetivo maior, mais velho que o mundo, de enterrar o
sonho de liberdade e democracia que Lula representa.


Foi assim com Oliver Cromwell, o “rei do povo”, que as elites
britânicas odiavam tanto que mandaram desenterrar seu corpo, decapitá-lo
e jogá-los aos abutres, de maneira a humilhar para sempre todos aqueles
que ousaram acreditar nele.


Em seu depoimento a Sergio Moro, Eduardo Cunha acusou o presidente
Michel Temer. Moro acorreu, furiosamente, em socorro do presidente.
Escreveu um texto de mais de 100 páginas, onde não disfarça sua
indignação com a tentativa de Cunha de fazer “insinuações” contra o
presidente.


É comovente.


Sergio Moro também quer “acabar com a Lava Jato”?


Ora, é natural. Ele está cansado. Quer prender Lula de uma vez e ir
morar nos Estados Unidos com sua esposa. Quem pode lhe condenar por
isso? O Brasil está um caos! O próprio Moro admitiu, em palestra na
Columbia (bancada por empresário brasileiro), que a Lava Jato produziu
instabilidade, mas que, no futuro, ela ajudará o país a ficar mais
competitivo. Ele não explicou como a destruição de indústrias e a
medievalização dos processos penais podem tornar um país mais
“competitivo”.


O procurador Carlos Lima, um dos coordenadores da Lava Jato no MPF de
Curitiba, disse que ficou aliviado com a opinião de Alexandre de
Moraes, de defender a prisão em segunda instância, uma das mil e uma
bizarrices jurídicas que o STF aprovou, para agradar a… Lava Jato.


A afirmação de Lima foi um aval da Lava Jato à nomeação de Alexandre
de Moraes. Tudo bem, podem indicar Alexandre de Moraes para o STF.


O Conselho Nacional dos Procuradores Gerais (CNPG), uma das inúmeras
maçonarias golpistas do MPF, divulgou nota, dois dias atrás, em que
também apoia a indicação de Moraes para o STF.


A Associação de Magistrados do Brasil, que vem operando intensamente
em prol do golpe, também soltou notinha de apoio a Moraes no STF.


A Associação Nacional dos Membros do Ministério Público (CONAMP), outra maçonaria, também quer Moraes como revisor da Lava Jato no Supremo.


Ou seja, todos aqueles que sustentaram a Lava Jato, incluindo aí
procuradores da própria operação, apoiam Moraes no STF, mesmo sabendo
que o ministro é um filiado ao PSDB, um escudeiro fiel do presidente
Temer que vai para lá com a missão de… “acabar com a Lava Jato”?


Que confusão!


Isso prova uma teoria minha, que me parece um tanto óbvia: na
verdade, quem quer “acabar com a Lava Jato” é a própria Lava Jato. Para
subsidiar o golpe, ela teve que reunir um material enorme em suas mãos,
quase tudo de forma truculenta, ilegal, espionando até mesmo advogados
dos réus, torturando executivos, quebrando grandes empresas
estratégicas. Com esse material, ela pôde fazer o que quiser, prender,
indiciar, ameaçar, quem ela achasse fosse conveniente para a agenda
política do momento.


Por exemplo, é muito bom para o golpe que o governador Pezão esteja
na lona, cassado, com pé na cadeia. Há uns anos, jamais passaria pela
cabeça de Pezão privatizar a Cedae. Hoje, o que ele pode fazer? Se ele
quisesse agradar a maioria da população e dos servidores, e fincasse o
pé contra o crime de vender a estatal de água e esgoto do estado do Rio,
uma das melhores e mais eficientes do país, a Lava Jato, com apoio da
Globo, claro, trataria de tirá-lo do páreo, levando-o a passar uma
temporada em Bangu III.


A missão de Alexandre de Moraes no STF não é evidentemente “acabar
com a Lava Jato”. Ele nunca seria tão ingrato à operação que levou
Michel Temer, Jucá, Moreira Franco e Sarney, o PSDB, de volta ao núcleo
duro do poder.


Moraes quer apenas dar-lhe o retoque final, que é tirar dos
procuradores de Curitiba o constrangimento de indiciarem ou pedirem
medidas mais violentas contra o PSDB.


Alguém poderia se perguntar: não é justamente isso que significa “acabar com a Lava Jato”?


A donzela sorri maliciosa, já um pouco cansada de seu papel de
frágil, e talvez irritada com a quantidade de idiotas que ficam
repetindo esse clichê sobre “acabar com a Lava Jato”.


Ela sabe muito bem o que está acontecendo. É uma dobradinha.
Alexandre de Moraes “controla” a Lava Jato no Supremo, e Sergio Moro
“controla” em Curitiba. Centra-se fogo no PT, prende-se Lula e ponto
final.


O jogo carreta uma série de tensões e riscos. Há muitos cordeiros
gordos do próprio golpe que podem ser sacrificados, como foi Eduardo
Cunha, como pode vir a ser Renan, e que poderiam botar a boca no
trombone. É um risco calculado, porque alguns deles podem trazer ruídos à
narrativa. Não se pode correr o risco de acordar as pessoas e fazê-las
tomar consciência de que se tornaram combustível da Matrix: milhões de
pessoas presas em casulos, como no filme, sonhando com o “fim da
corrupção”, enquanto o sistema usa a sua energia humana para transformar
o país num cenário devastado, sem vida, sem esperança, sem alegria.
Não! Isso não pode acontecer! As pessoas precisam continuar presas à
Matrix.


Em caso de necessidade extrema, a Lava Jato pode até prender um
Aécio. Ou soltar mais umas bombas contra Serra. Mas isso seria tão
constrangedor! Felizmente, as últimas movimentações, em especial a
nomeação de Moraes para o STF, já deixaram claro que o país caminha para
um grande “acordão”.


A docilidade quase servil de Moro diante do ex-presidente FHC, por
ocasião de seu depoimento em defesa de Lula, mostra que o PSDB, de
maneira geral, não corre mais grandes riscos na Lava Jato.


Ufa!


A mesma Lava Jato que se finge de donzela é, na verdade, uma moça
muito esperta, que aprendeu a manipular um governo que, ela sabe e se
orgulha disso, foi posto lá por ela mesma, por suas maquinações
calculadas. Um vazamento aqui, outro ali, uma prisão aqui, uma manchete
lá, tudo de acordo com uma agenda política muito bem pensada. A esquerda
bota 200 mil pessoas na Paulista contra o golpe? A Lava Jato faz então
uma prisão espetacular no dia seguinte bem cedinho, de preferência
contra o PT, para que a imprensa seja “obrigada” a ignorar a
manifestação e dar manchetes às últimas diatribes heroicas de Sergio
Moro…


É muito útil deixar o governo apavorado. É a única maneira, sejamos
francos!, de mantê-lo “na linha”, ou seja, promovendo o saque do
patrimônio público e o desmonte do Estado a uma velocidade recorde.
Trata-se de um governo, afinal, puramente instrumental, que não tem
interesse em se reeleger. Nizan Guanaes, publicitário paulista, resumiu o
pensamento da elite golpista, durante encontro do presidente com
empresários: “presidente, a popularidade é uma prisão! Aproveite que é
impopular e faça as reformas certas”.


É uma maneira de pensar interessante. Para que se importar com a
opinião da população? A população não votou na candidata contra a qual
Temer conspirou? Então, não confie na população, presidente! O povo que
se dane! Confie apenas em nós, grandes empresários. Nós votamos no PSDB e
sabemos o que é bom para o Brasil. Se os números do desemprego, do PIB,
da educação, do desenvolvimento tecnológico, da infra-estrutura, não
confirmam a nossa competência, isso não é problema nosso!


Enquanto isso, a Lava Jato olha-se no espelho, dá um sorriso de
monalisa, e se prepara para fazer outra viagem à Nova York. Ela sabe que
ninguém vai “acabar” com ela, porque ela já tomou conta de todo o
judiciário. O juiz fluminense que condenou o almirante Oto, pioneiro da
energia nuclear brasileira, a mais de 40 anos de prisão, não foi Sergio
Moro. Foi um outro, um clone de Moro, um sujeito que antes, dizem, era
até um juiz legal, democrático, mas que experimentou a mesma
transformação alquímica que observamos em quase todos os ministros do
Supremo. Não há juiz ou procurador, no Brasil do golpe, com coragem para
enfrentar a avassaladora onda fascista que se instalou.


Num dos eventos contra o golpe, na Fundição Progresso, Rio, o diretor
de teatro, Amir Haddad, comparou essa onda a um vírus poderoso, que vai
contaminando as pessoas. De um dia para o outro, o sujeito começa se
portar de maneira completamente diferente. Torna-se um violento, um
reacionário, um instrumento da mídia. Um juiz humanista passa a
distribuir condenações criminais de 40 anos, mesmo que o réu, como é o
caso do almirante Oto, seja um octagenário.


O país vive um período profundamente convulsionado e autoritário,
onde o poder de fato foi transferido para o judiciário e para a Globo.
Isso causa uma instabilidade muito grande, porque – no que tange ao
judiciário – instaura uma anarquia enorme, como vimos na tentativa de
juízes de impedirem a posse de Moreira Franco. A morte trágica de Teori
(oportuníssima, é importante sempre destacar) e a indicação de Moraes
para o Supremo sinalizam uma reação do governo para trazer ordem à
ditadura. Tudo bem o Brasil virar uma ditadura de juízes, mas então que
seja uma ditadura com ordem e hierarquia!


Quem manda é o STF, que por sua vez obedece à Globo, que é um braço do imperialismo americano no Brasil.


Quando tudo isso ficar claro, então voltaremos ao equilíbrio, à ordem (embora sem progresso).


O maior desafio, naturalmente, será manter o povo no cabresto,
através da repressão, do medo, da manipulação das notícias e dos
processos judiciais.


A presença constante do exército nas ruas, o recrudescimento da
repressão policial às manifestações populares, a postura “blasé” do
governo capixaba diante do caos no estado, as capas das revistas
semanais, que continuam mirando no PT, as condenações exageradas, de
mais de 40 anos de prisão, contra Cabral e Eike, obviamente para lhes
forçar a delatar Lula, Dilma, o PT, etc, tudo isso prova que o golpe vai
muito bem, obrigado.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

América dividida. Os EUA podem voltar a se integrar? | Brasil 24/7

América dividida. Os EUA podem voltar a se integrar? | Brasil 24/7















Fonte: TED – Ideas Worth Spreading


Tradução: Cláudia Sander. Revisão: Leonardo Silva





Jonathan Haidt estuda como – e por que – evoluímos para nos tornarmos
criaturas morais e políticas. Entendendo melhor nossa psicologia moral e
suas derivações, ele afirma que podemos criar instituições melhores do
que as atuais (incluindo nisso empresas, universidades e a própria
democracia), e podemos aprender a ser mais civilizados, e abrirmos muito
mais nossas mentes na direção daqueles que não pertencem ao nosso time.


Haidt é um cientista social cuja pesquisa sobre a moralidade através
das culturas e da história é ensinada e debatida hoje em alguns dos
melhores centros universitários norte-americanos.





Vídeo: 









Tradução integral da palestra de Jonathan Haidt no TED, em dezembro 2016:





Chris Anderson: Então, Jon, isso parece assustador.


Jonathan Haidt: Sim.


CA: Parece que o mundo está de uma forma como não
víamos há muito tempo. As pessoas não discordam mais da forma que
estávamos habituados, divididos entre esquerda e direita. Diferenças bem
mais profundas estão em andamento. O que está acontecendo, e como
chegamos a este ponto?


JH: Isso é diferente. Há um sentimento muito mais
apocalíptico. A pesquisa feita pela Pew Research mostra que o grau de
sentimento que temos pelo outro lado não é só… nós não só não gostamos
deles; nós não gostamos muito deles, e achamos que eles são uma ameaça
para a nação. Esses número têm crescido cada vez mais, e estão em mais
de 50% agora, em ambos os lados. As pessoas estão com medo pois isso
parece ser diferente; é muito mais intenso. Sempre que olho qualquer
tipo de quebra-cabeça social, aplico os três princípios básicos de
psicologia moral, e acho que eles vão nos ajudar aqui. A primeira coisa
que sempre devemos ter em mente, quando pensamos em política, é que
somos tribais. Evoluímos através do tribalismo. Uma das maiores e mais
simples descobertas sobre a natureza social humana é o provérbio
beduíno: “Eu contra meu irmão; eu e meu irmão contra nosso primo; eu,
meu irmão e meus primos contra o estranho”. E esse tribalismo nos
permitiu criar grandes sociedades e nos unirmos para competir com
outros. Isso nos tirou da selva e dos pequenos grupos, mas significa que
estamos em um eterno conflito. A questão que devemos olhar é: quais
aspectos da nossa sociedade tornam isso mais difícil, e quais acalmam
esse conflito?





CA: Esse é um provérbio muito sombrio. Você está dizendo que isso está incutido nos circuitos mentais das pessoas, em certo nível?


JH: Sim. Absolutamente. Isso é só um aspecto básico
do conhecimento social humano. Mas também podemos conviver de forma
muito pacífica, e inventamos várias formas divertidas de, digamos,
brincar de guerra. Esportes, política, todos são formas de exercitarmos
essa natureza tribal sem realmente ferir ninguém. Também somos muito
bons em negociar, em explorar e em encontrar novas pessoas. Então temos
que ver nosso tribalismo como algo que tem altos e baixos: não estamos
fadados a estar sempre lutando uns com os outros, mas nunca teremos a
paz mundial.


CA: O tamanho dessa tribo pode encolher ou aumentar.


JH: Isso.


CA: O tamanho do que consideramos “nós” e do que
consideramos “o outro” ou “eles” pode mudar. E alguns acreditam que esse
processo pode continuar indefinidamente.


JH: Isso mesmo.


CA: E sem dúvida expandimos o sentido de tribo por um tempo.









JH: Sim, e acredito que estamos chegando,
possivelmente, à nova distinção entre esquerda e direita. A esquerda e
direita, como nós as conhecemos, vêm da distinção entre trabalho e
capital, das classes trabalhadoras e de Marx. Mas o que vemos agora, de
maneira crescente, é uma divisão, em todas as democracias
ocidentais, entre as pessoas que querem ir só até o conceito de
nação, as pessoas mais provincianas, e não falo isso de maneira
pejorativa, pessoas com um maior senso de ter raízes, que se preocupam
com sua cidade, sua comunidade e sua nação… e os que são
anti-provincianos e que… sempre que fico confuso, penso na música
“Imagine”, de John Lennon: “Imagine que não existem países, nada pelo
qual matar ou morrer”. Essas são as pessoas que querem uma governança
mais global, elas não gostam de nações nem de fronteiras. Vemos isso por
toda a Europa também. Um cara de grandes metáforas, na verdade seu nome
é Shakespeare, escrevia no Reino Unido dez anos atrás. Ele tinha uma
metáfora: “Nós vamos levantar ou abaixar a ponte?” E o Reino Unido está
dividido na proporção de 52 por 48. E os Estados Unidos estão divididos
nessa proporção, também.


CA: Então, aqueles de nós que cresceram com os
Beatles e com esse tipo de filosofia hippie de sonhar com um mundo mais
conectado, isso parece tão idealista e “como pode alguém pensar mal a
esse respeito?” E o que você está dizendo, na verdade, é que hoje
milhões de pessoas sentem que isso não é apenas tolo; na verdade é
perigoso e errado, e elas estão com medo disso.











JH: Acho que o grande problema na Europa, e também
aqui, é a questão da imigração. E acho que precisamos olhar com muito
cuidado para as ciências sociais sobre diversidade e imigração. Uma vez
que algo é politizado, uma vez que se torna algo que a esquerda ama e a
direita… nem mesmo os cientistas sociais conseguem ser imparciais a
respeito. A diversidade é boa em várias maneiras. Ela claramente traz
mais inovação. A economia americana cresceu enormemente em função
dela. A diversidade e a imigração trazem muitas coisas boas. Mas o que
eu acho que os globalistas não veem, o que eles não querem ver, é que a
diversidade étnica reduz o capital social e a confiança. Há um estudo
muito importante de Robert Putnam, o autor de “Bowling Alone”, que olha
bases de dados de capitais sociais. Basicamente, quanto mais as pessoas
sentem que são iguais, mais confiam nos outros, e mais podem ter um
Estado que redistribui bem-estar social. Os países escandinavos são tão
maravilhosos porque eles têm esse legado de serem países pequenos e
homogêneos. E isso leva a um Estado de bem-estar social progressivo, um
conjunto progressivo de valores de esquerda que diz: “Abaixem a ponte! O
mundo é um lugar ótimo. As pessoas na Síria estão sofrendo, devemos
recebê-las bem”. E isso é muito bonito. Mas se, e eu estava na Suécia
neste verão, se o discurso na Suécia é politicamente correto e não se
pode falar sobre as desvantagens, você acaba trazendo um monte de
pessoas. Isso vai reduzir o capital social, o que torna difícil manter
um Estado de bem-estar social, e eles podem terminar, como aqui nos
EUA, com uma sociedade visivelmente dividida por raças. Então é muito
desconfortável falar sobre tudo isso. Mas acho que é isso que precisa
ser visto, especialmente na Europa, mas também aqui.


CA: Você está dizendo que pessoas razoáveis, pessoas
que não se considerariam racistas, mas pessoas morais, éticas, têm um
lado racional que diz que os humanos são muito diferentes; que corremos o
risco de exceder nossa percepção sobre o que os humanos são capazes, ao
misturar pessoas muito diferentes.











JH: Sim, mas posso tornar isso mais
palatável dizendo que isso não tem, necessariamente, a ver com raça. Tem
a ver com cultura. Há um trabalho maravilhoso de uma cientista política
chamada Karen Stenner, que mostra que, quando uma pessoa tem a
percepção de que estamos todos unidos, somos todos iguais, há muitas
pessoas com predisposição para o autoritarismo. Essas pessoas não são
particularmente racistas quando elas sentem que não há uma ameaça à
nossa ordem social e moral. Mas se você colocá-las de prontidão,
pensando que estamos nos dividindo, que as pessoas estão ficando mais
diferentes, elas se tornam mais racistas, homofóbicas, querem expulsar
os diferentes. Em parte você obtém uma reação autoritária. A esquerda,
seguindo a linha lennonista, a linha de John Lennon, faz coisas que
geram uma reação autoritária. Estamos vendo isso nos Estados Unidos, com
a direita alternativa. Vimos isso no Reino Unido e por toda a
Europa. Mas a parte positiva disso é que os localistas, ou os
nacionalistas, têm razão: se enfatizarmos nossa similaridade cultural, a
raça realmente não significa muito. Então uma abordagem de assimilação
dos imigrantes elimina muitos desses problemas. Se você valoriza ter um
estado que oferece bem-estar social, deve enfatizar o fato de sermos
todos iguais.


CA: Certo, então o aumento da imigração e dos medos em relação a isso são duas das causas da atual divisão. Quais são as outras?


JH: O próximo princípio da psicologia moral é que
intuição vem primeiro, raciocínio estratégico vem depois. Provavelmente
você já ouviu o termo “raciocínio motivado” ou “viés de confirmação”. Há
trabalhos muito interessantes sobre como nossa inteligência e nossas
habilidades verbais podem ter evoluído não para nos ajudar a encontrar a
verdade, mas para nos ajudar a manipular os outros, defender nossa
reputação… Somos realmente muito bons em justificar a nós mesmos. E
quando você considera interesses de grupos, não é mais apenas eu, é o
meu time contra o seu, ainda que você avalie evidências de que o seu
lado está errado, simplesmente não podemos aceitar isso. Por isso não se
consegue vencer um argumento político. Se você está debatendo
algo, você não pode persuadir a pessoa com razões e evidências, porque
não é assim que o raciocínio funciona. Então vamos ver a Internet, vamos
ver o Google: “Eu ouvi que Barack Obama nasceu no Quênia. Vou pesquisar
isso… Nossa! Dez milhões de resultados! Veja, ele nasceu lá!”











CA: Então isso foi uma surpresa desagradável para
muita gente. As mídias sociais normalmente são consideradas pelos
tecno-otimistas como uma grande força de conexão que vai unir as
pessoas. E ocorreram alguns efeitos colaterais inesperados.


JH: Isso mesmo. Por isso estou encantado com a visão
yin-yang sobre a natureza humana e a esquerda e direita, de que cada
lado está certo sobre algumas coisas, mas cego sobre outras. A esquerda
geralmente acredita que a natureza humana é boa: vamos juntar as
pessoas, derrubar as paredes, e tudo ficará bem. A direita, os
conservadores sociais, não os libertários, conservadores sociais em
geral acreditam que as pessoas podem ser gananciosas, sexuais e
egoístas, e precisam de regulação e restrições. Sendo assim, se você
derrubar os muros e permitir que as pessoas de todo o mundo se
comuniquem, você terá muita pornografia e racismo.


CA: Então nos ajude a entender. Esses princípios da
natureza humana têm estado sempre conosco. O que mudou, que aprofundou
esse sentimento de divisão?


JH: Você deve ver seis a dez linhas diferentes se
unindo. Vou listar apenas algumas delas. Nos Estados Unidos, e na
verdade também na Europa, uma das maiores é a Segunda Guerra Mundial. Há
uma pesquisa interessante, feita por Joe Henrich e outros, que diz que
se seu país esteve em guerra, especialmente quando você era jovem, e 30
anos depois você for testado na tragédia dos comuns ou no dilema dos
prisioneiros, você é mais cooperativo. Devido à nossa natureza tribal,
você… meus pais eram adolescentes durante a Segunda Guerra Mundial, e
eles saíam à procura de pedaços de alumínio para ajudar nos esforços de
guerra. Quero dizer, todo mundo pegava junto. E assim essas pessoas
seguiram em frente, cresceram nos negócios e governos, assumiram
posições de liderança. Elas são muito boas em compromisso e
cooperação. Todas elas se aposentaram na década de 90. E fomos deixados
com os “baby boomers” no final da década de 90. E eles passaram a
juventude lutando entre si ou com outros países, em 1968 e depois. A
perda da geração da Segunda Guerra, a “Geração Grandiosa”, é
enorme. Essa é uma delas. Outra, nos Estados Unidos, é a purificação dos
dois partidos. Usualmente havia republicanos liberais e democratas
conservadores. Então os Estados Unidos em meados do século 20 era
realmente bipartidário. Mas devido a uma série de fatores que fizeram as
coisas se modificarem, na década de 90 temos um partido liberal e um
partido conservador puros. Então agora as pessoas em cada partido são de
fato diferentes, e não queremos que nossas crianças casem com elas, o
que, na década de 60, não importava muito. Então, a purificação dos
partidos. A terceira é a internet e, como eu disse, é a causa e efeito
que mais estimula o raciocínio e a demonização.


CA: O tom do que está acontecendo na internet é
muito inquietante. Eu fiz uma pesquisa rápida no Twitter sobre a
eleição e vi dois tuítes próximos um do outro. Um, sobre uma imagem de
um grafite racista: “Isso é nojento! A feiura nesse país foi trazida por
#Trump”. E o outro é: “Página da Hillary Desonesta. Repulsiva!” Essa
ideia de “repulsa”, para mim, é perturbadora. Se você tem um argumento
ou uma discordância sobre alguma coisa, você pode ficar raivoso com
alguém. A repulsa, ouvi você dizer, leva as coisas a um nível bem mais
baixo.


JH: Isso mesmo. Repulsa é diferente. Raiva… veja, eu
tenho filhos. Eles brigam dez vezes por dia, e se amam trinta vezes por
dia. Você só fica no vai e vem: fica brabo, deixa de ficar, fica brabo,
deixa de ficar. Mas repulsa é diferente. Repulsa dá a ideia de pessoa
sub-humana, monstruosa, deformada, moralmente deformada. Repulsa é como
tinta permanente. Há uma pesquisa de John Gottman sobre terapia de
casal. Se você olhar os rostos e um deles expressar repulsa ou
desprezo, é um indício de que em breve eles irão se separar, mas se eles
demonstram raiva, isso não indica nada, porque se você souber lidar com
a raiva, ela é até uma coisa boa. Então essa eleição é diferente. O
próprio Donald Trump usa muito a palavra “repulsivo”. Ele é muito
sensível a germes, então a repulsa importa muito a ele para ele é algo
bem pessoal, mas se demonizamos uns aos outros, e de novo, através de
uma visão maniqueísta de que o mundo é uma batalha entre o bem e o
mal, e isso tem aumentado, em vez de apenas dizer que eles estão errados
ou que não gostamos deles, dizemos que eles são malignos,
satânicos, são repulsivos, revoltantes. E não queremos ter nada com
eles. Penso que é por isso que temos visto muito disso nas
universidades. Temos visto a necessidade de manter as pessoas fora dos
campus, silenciá-las, mantê-las distantes. Receio que toda essa geração
de jovens, se a introdução deles na política envolve tanta repulsa, eles
não vão querer envolver-se com política quando ficarem mais velhos.











CA: E como lidamos com isso? Repulsa. Como se combate a repulsa?


JH: Você não consegue fazer isso com bom senso. Eu
acho… Eu estudei a repulsa por muitos anos e penso muito sobre
emoções, e acho que o oposto da repulsa é, na verdade, o amor. Amor
é… Repulsa é criar barreiras, fronteiras. Amor é derrubar muros. Então
acho que as relações pessoais são, provavelmente, os meios mais
poderosos que temos. Você pode sentir repulsa por um grupo de
pessoas, mas então conhece uma pessoa em particular e descobre que eles
são adoráveis. E isso gradualmente vai mudando sua percepção. A tragédia
é que os americanos costumavam ser bem mais misturados, em suas
cidades, pela direita e esquerda ou pela política, e agora isso se
tornou uma grande divisão moral, existem muitas evidências que estamos
nos aproximando de pessoas que são politicamente como nós. É difícil
encontrar alguém que esteja do outro lado. Eles estão lá, bem
distantes. É difícil conhecê-los.


CA: O que você diria para alguém, ou para os
americanos, para as pessoas em geral, sobre o que devemos entender sobre
os outros que pode nos fazer repensar, por um minuto, essa “repulsa”
instintiva.


JH: Sim. Uma coisa muito importante de ter em
mente… existem pesquisas feitas pelo cientista político Alan
Abramowitz mostrando que cada vez mais a democracia americana é
governada pela chamada “negação partidária”. Isso significa que você
pensa que tudo bem, há um candidato, você gosta dele e vota nele. Mas
com o aumento da propaganda negativa das mídias sociais e diversas
outras tendências, cada vez mais as eleições acontecem de forma que cada
lado faz o outro parecer tão horrível, tão medonho, que por falta de
opção você vai votar no meu candidato. E quanto mais votamos contra o
outro lado e não pelo nosso lado, temos que ter em mente que as pessoas
de esquerda vão pensar: “Bem, eu sempre achei que os republicanos eram
ruins, agora o Donald Trump comprova isso. Agora posso atribuir a todos
os republicanos essas coisas que penso sobre o Trump”. Isso não é
necessariamente verdade. Normalmente eles não estão satisfeitos com seus
candidatos. Essa é a eleição de maior negação partidária da história
dos Estados Unidos. Então primeiro você precisa separar seus sentimentos
sobre o candidato dos seus sentimentos sobre as pessoas que têm uma
escolha. E então você tem que perceber que, como todos nós vivemos em um
mundo moral à parte… e a metáfora que usei no livro é que estamos
presos em “Matrix”, ou cada comunidade moral é uma Matrix, uma
alucinação coletiva…. Então se você está do lado dos azuis, tudo
comprova que do outro lado eles são trogloditas, racistas, são as piores
pessoas do mundo, e você tem todos os fatos que comprovam isso. Mas
alguém na casa ao lado vive em um mundo moral diferente do seu. Eles
vivem um videogame diferente, e veem um conjunto de fatos completamente
diferente. E cada um vê ameaças diferentes ao seu país. E o que eu
descobri por estar no meio e tentar entender os dois lados é: os dois
lados estão certos. Existem várias ameaças a este país, e cada lado é
incapaz de ver todas elas.











CA: Então você está dizendo que todos nós precisamos
de um novo tipo de empatia? A empatia tradicionalmente é enquadrada
como: “Oh, eu sinto a sua dor e consigo me colocar nos seus sapatos”. E
aplicamos isso aos pobres, aos necessitados, aos sofredores. Normalmente
não aplicamos isso a pessoas que sentimos como opostas ou por quem
sentimos repulsa.


JH: Não. É isso.


CA: Como seria se conseguíssemos construir esse tipo de empatia?


JH: Na verdade, eu acho… Empatia é um tópico muito
em alta na psicologia, e é um termo muito popular, especialmente na
esquerda. Empatia para as classes preferidas de vítimas é uma coisa
boa. Então é importante sentir empatia pelos grupos que nós, da
esquerda, achamos importantes. Isso é fácil fazer, porque você ganha
pontos por isso. Você deveria receber pontos ao ter empatia em situações
difíceis de tê-la. E eu acho… Bem, tivemos um longo período de 50 anos
lidando com nossos problemas de raça e discriminação legal, e essa foi
uma das nossas prioridades por muito tempo e ainda é importante, mas
espero que, com este ano, as pessoas vejam que temos uma ameaça
existencial em nossas mãos. Acredito que a divisão em esquerda e
direita é a divisão mais importante que enfrentamos. Ainda temos
questões sobre raça, gênero e LGBTs, mas essa é a necessidade urgente
dos próximos 50 anos; as coisas não vão melhorar sozinhas. Precisaremos
fazer muitas reformas institucionais e podemos falar sobre isso, mas
essa é uma conversa longa e tortuosa, mas acho que ela começa com as
pessoas percebendo que esse é um ponto de virada. E sim, precisamos de
um novo tipo de empatia. Temos que nos dar conta: é disso que nosso país
precisa e é disso que você precisa, se não quiser… Levantem as mãos se
querem passar os próximos quatro anos tão raivosos e preocupados como
estiveram no último ano. Então, se você quer fugir disso, leia Buda,
Jesus, Marco Aurélio. Eles têm todo tipo de conselhos sobre como acabar
com o medo, repensar tudo, parar de ver os outros como inimigos. Há
muita orientação para esse tipo de empatia nas sabedorias antigas.


CA: Minha última pergunta: Pessoalmente, o que as pessoas podem fazer para ajudar nessa cura?


JH: Sim, é muito difícil decidir abrir mão de seus
preconceitos mais profundos. E as pesquisas mostram que hoje os
preconceitos políticos são mais fortes e profundos que os de raça em
nosso país. Então acho que é preciso fazer um esforço, isso é o
principal. Esforçar-se para realmente encontrar alguém. Todo mundo tem
um primo, um cunhado, alguém que é do outro lado. Então, depois dessa
eleição, espere uma semana ou duas, porque provavelmente vai ser
horrível para um de vocês, mas espere por umas semanas e então diga que
você quer conversar. E antes de fazê-lo, leia Dale Carnegie: “Como fazer
amigos e influenciar pessoas”. (Risos) Estou falando sério. Você vai
aprender técnicas, se você começar reconhecendo e dizendo: “Veja, não
concordamos em muita coisa, mas uma coisa eu realmente respeito em você,
tio”, ou “… em seu conservadorismo…” Você consegue achar alguma
coisa. Se você começar com algum elogio, é como mágica. Essa é uma das
principais coisas que aprendi que levo para minhas relações
humanas. Ainda cometo muitos erros tolos, mas sou incrivelmente bom em
pedir desculpas e em reconhecer que alguém tinha razão em alguma
coisa. E se você faz isso, o diálogo realmente flui bem e é divertido.


CA: Jon, é absolutamente fascinante conversar com
você. Realmente parece que o terreno sobre o qual estamos pisando é
habitado por profundas questões sobre a moral e a natureza humana. Sua
sabedoria não poderia ser mais relevante. Muito obrigado por
compartilhar esse tempo conosco.


JH: Obrigado, Chris. Obrigado a todos.