sexta-feira, 10 de abril de 2020

Vírus oportunista em corpo com imunidade baixa


Bolsonaro avança como vírus oportunista em corpo com imunidade baixa

Brasil lidou com o presidente como pais cegos, encantados com o monstro que engendraram

Bernardo Carvalho

Jair Bolsonaro é um incendiário. Sempre foi, desde os tempos de quartel, quando planejava atentados a bomba. Também como o deputado inútil que foi, fazendo o elogio da tortura em plenária, impunemente.
Jair Bolsonaro não enlouqueceu de repente. Para ele, nada mudou desde seus tempos de caserna. Para nós, sim. Afinal, que aventura é essa que resolvemos experimentar, pondo nosso destino nas mãos de um homem (e de sua família) cujo ideal é o incêndio, um país sem lei, controlado pela força de milícias?
E que papel é esse que as Forças Armadas, representadas por um punhado de generais seduzidos no final da vida por uma tentação imatura, aceitaram desempenhar?

O que poderia querer além da morte um governo que trabalha abertamente, e com orgulho, contra a razão e a ciência?
Já é óbvio que o interesse de Bolsonaro pelo eventual sucesso da economia é egoísta e oportunista como o de muita gente. Ao contrário dessa gente, entretanto, para ele o sucesso da economia não é um fim, mas a garantia e a condição de poder avançar com seu projeto incendiário. Para Bolsonaro, o Brasil não pode parar, paradoxalmente, porque nada pode detê-lo em seu projeto de destruição.
Bolsonaro é um perverso de manual, uma caricatura clínica, dono de habilidade natural para pôr uns contra os outros, insuflar divisões, conflitos e polaridades. É sua matéria, seu ambiente, seu alimento. No universo de onipotência infantil onde sua personalidade e a de seus filhos se formaram, ele seria o escrotinho que chora quando precisa, para obter o que quer ou quando corre o risco de ser responsabilizado pelo que fez, e depois ri às escondidas do sucesso do próprio ardil.
Seu sucesso depende de estabelecer um raio de sedução e cegueira que lhe permita realizar seu objetivo por via desobstruída, como um vírus oportunista num organismo que não consegue reconhecer e deter sua malignidade.
O “charme” do perverso é justamente a “imaturidade”, sua ignorância do sentido de responsabilidade e de culpa. É realmente fascinante. Bolsonaro não é capaz de assumir nada, nunca. Vem daí a atração que exerce sobre quem quer levar vantagem em tudo, sem contrapartidas, sem impostos, sem Estado. A negação do real e da lei os une por oportunismo. Não pode haver maior perigo para uma nação do que um homem com tal falha de caráter no cargo de responsabilidade máxima, ocupando o posto de chefe de Estado, jogando com o destino de mais de 210 milhões de pessoas.
No final das contas a responsabilidade é nossa, brasileiros que, como um corpo com imunidade baixa, entregamos nossas vidas a uma caricatura, um caso clínico de manual.
Loucos há em qualquer lugar. Foi preciso sermos confrontados com o limite de uma ameaça de morte coletiva, uma crise provocada coincidentemente por um vírus, para que começássemos a enxergar o que sempre esteve diante dos nossos olhos, para que a negação do real passasse a nos afetar diretamente. Nosso real é a morte. Cabe a nós agir enquanto há tempo para sobreviver.
O perverso tenta converter as contrariedades a seu favor como se não existisse real. E é o que ele vai continuar tentando de todas as maneiras, mesmo diante da maior ameaça, enquanto o deixarem, enquanto permanecer no poder, por meio de manipulações e falsificações, ataques e desvios, investidas e retiradas estratégicas.
O país lidou com Bolsonaro como pais cegos, encantados com o monstro que engendraram. Bolsonaro deveria ter sido devidamente punido quando planejou, ainda no Exército, um atentado a bomba. Não foi. Deveria ter sido devidamente punido quando fez o elogio da tortura no Parlamento. Não foi. No poder, só pensa em desmontar o sistema de leis que impedem as ações do indivíduo contra o bem comum. Das multas ambientais às de trânsito, para ele é fundamental desatravancar o campo de sua guerra contra tudo o que é de todos.
Preservá-lo será um risco que o país já não pode correr. Que a maioria se oponha à renúncia de Bolsonaro é um mau sinal, mas que também aponta uma saída, pois revela o círculo vicioso e suicida no qual a perversão se aninha.
De fato, que exemplo pode dar um Estado indiferente às necessidades mais básicas da maioria? O bolsonarismo não sobreviverá a seu catalisador se o Estado e a sociedade brasileira entenderem de uma vez por todas que fazem parte de um único corpo e assumirem seus deveres em relação ao bem comum. A maturidade de uma sociedade se mede por sua capacidade de corrigir seus erros e encarar suas responsabilidades, enquanto é tempo, ao contrário do presidente.

Bernardo Carvalho

quinta-feira, 9 de abril de 2020

“A Lava Jato que pariu Bolsonaro que o embale”, diz procurador da República



“A Lava Jato que pariu Bolsonaro que o embale”, diz procurador da República Celso Três

Frederico Vasconcelos 
 
Sob o título “Quem pariu Bolsonaro negará embalo?“, o artigo a seguir é do procurador da República Celso Três, que atua na Procuradoria da República em Novo Hamburgo (RS).
Ele faz um balanço da Lava Jato e avalia como a operação contra a corrupção –“a maior investigação da história”, como define–, ao violar os limites da ação penal e promover uma “avalanche justiceira” criou condições que ajudaram a eleger o presidente Jair Bolsonaro.
O procurador condenou a divulgação de delações premiadas e atraiu a antipatia da força-tarefa da Lava Jato ao redigir documento criticando as “10 Medidas Contra a Corrupção”, propostas que foram defendidas na época pelo atual ministro  Sergio Moro e pelos procuradores de Curitiba.
O documento de Celso Três foi publicado e distribuído no Senado com apoio do senador Roberto Requião (MDB-PR). Três foi filiado ao PT nos anos 80, atuou na fase inicial do caso Banestado –investigação sobre bilionária lavagem de dinheiro no Paraná julgada pelo então juiz Sergio Moro.
 “Minha posição sobre a Lava Jato é igual à que tenho sobre todas as demais instituições públicas do país (Congresso Nacional, Presidência da República, Justiça, Receita Federal, Ministério Público Federal, Polícia Federal…), ou seja, expresso o que vejo de positivo e negativo”, escreve o procurador.
 
 
***

Glosado por Twitter e Facebook, tal qual moleque irresponsável, tachando de “gripezinha” a tragédia do coronavírus, garantindo que brasileiro mergulha incólume no esgoto, curvando-se servil aos Estados Unidos quem pirateia bens médicos que a China destinara ao Brasil, fazendo da liturgia da Presidência piadas contra dignidade sexual, atiçando a massa ignara ao linchamento de jornalistas, consoante atestam periódicos pelo mundo, presidente do nosso Brasil, tristemente, virou ícone do ridículo mundial. Pior! Bolsonaro é tudo, menos surpreendente. Sempre foi assim.
Então, quem pariu Bolsonaro? Urna foi berçário dos votos nascidos de alguns ventres. Justo e legítimo antipetismo aliado à histórica –quatro séculos de escravatura–  extrema direita foi útero decisivo.
Aqui, trato apenas de  quanto Têmis, aparelho de justiça, deu à luz votos em prol do capitão, em síntese, dizimando o  establishment político, dando asas a outsiders populistas, quem capitalizaram com a sanha acusatória indiscriminada brandida pela espada de Dâmocles da Lava Jato.
Vítima emblemática foi o PSDB, partido dos melhores quadros técnicos, candidato Alckmin, de idoneidade mais longamente provada no comando do principal estado da federação, sucumbiu indefeso à avalanche justiceira. História sempre inexorável.
‘Ab initio’, a Lava Jato foi a maior e irrepetível investigação da história.
Nela, os procuradores perpetuaram em bronze seus nomes no memorial da justiça. Quantidade e status dos agentes públicos e capitalistas privados envolvidos, valores desviados e recuperados, prisões, condenações, confisco patrimonial e outras medidas formaram quadro de impacto verdadeiramente mundial.
O vício adveio no correr da apuração, violação nos limites da ação penal.
Rei Pirro do Epiro, após guerra contra os romanos na qual teve pesadas perdas (280 a.C.), respondeu a quem o louvava pelo sucesso: “mais uma vitória desta e estaremos completamente arruinados”. É a vitória de Pirro.
Tempo de pandemia, lembrar que a distinção entre o remédio e o veneno pode estar na dosagem. Cloroquina é remédio. Oremos pela sua efetividade! Mas a ministração ou não ao caso, dosagem dependerá da perícia do médico.
Efeitos colaterais
Se o corpo do estado está doente de corrupção –-e estava (!), o remédio, ação da justiça, não pode ter efeitos colaterais ainda piores, debacle na economia e atentado à democracia.
“A própria virtude precisa de limites”, respondeu Montesquieu a quem objetava a tripartição dos poderes com a bondade do rei. Embora bondosos, bem intencionados são desastrosos todos quem não obedecem aos limites de sua autoridade.
Início de 2017, país estupefato com o videoshow dos 78 delatores da Odebrecht, Frederico Vasconcelos honrou-me com entrevista (Folha, 17.mar.2017), quando disse que a divulgação “derrete o mundo político, o Estado, dilapida a economia, os investimentos e os empregos”.
“A lei da delação impõe sigilo até a apresentação da denúncia. Preserva a apuração e a honra do delatado até então indefeso”. Infelizmente, a sequência dos fatos provou que eu estava certo.
Bem diz o ministro Lewandowski, nossa história atesta que a messiânica cruzada contra a corrupção nunca foi causa, foi pretexto de violação à democracia, a exemplo do suicídio de Getúlio Vargas e do golpe militar de 1964. Novo nesta quadra da vida pública brasileira é que a justiça, dantes passiva, agora é protagonista no ataque à democracia.
Lava Jato teve –e ignorou!– um standard precioso para não desviar-se. Foi a persecução do mensalão. Nela, o procurador-geral da República Antonio Fernando foi cirúrgico, altivo, tempestivo, rigoroso e competente. Ação, pautada pela redução de danos, não lesou o devido processo legal, economia, tampouco a democracia.
Independência, imparcialidade é o maior atributo do juiz. Mesmo o magistrado dado aos piores vícios de honestidade, desvia-se para abdicar desse status. Honesto, mas parcial, iguala-se ao desviado na lesão à justiça. “Se o jogo não há juiz; não há jogada fora da lei” (música de Engenheiros do Hawai, “Exército de um homem só”).
Por sua vez, a imparcialidade não diz com o subjetivo, intenção do juiz em prejudicar uma das partes. Exige-se objetividade, estética de conduta imparcial. É dessa ostensividade que emana a confiança da sociedade na imparcialidade judiciária. Esse preceito de conduta da magistratura está consolidado nos diversos ordenamentos do mundo civilizado.
Isso também vale para o Ministério Público. Ele é parte imparcial. Parte porque tem atribuição da acusação. Imparcial porque a imputação está restrita aos valores republicanos do devido processo legal, entre eles, o da impessoalidade, ou seja, não tem alvo preordenado, não investiga pessoas, apura materialidade de fatos que sejam criminosos para só então identificar seus autores.
Clamor público
Nisso, pecou a Lava Jato. Claudicou, gravemente, na estética de imparcialidade. Mesmo que assim não intencionasse, tampouco houvesse qualquer vantagem, possivelmente sucumbindo ante o “tsunami” pela derrubada do governo Dilma.
É a tentação do “vox populi, vox jus” –justiça decidindo pela opinião pública, confessado pela então presidente da Suprema Corte: “STF não vai ignorar clamor por Justiça das ruas, diz Cármen Lúcia” (Uol, 30.jun.2017). O comandante das Forças Armadas, general Eduardo Villas Bôas, admitiu intervenção caso STF concedesse habeas corpus a Lula (Folha, 11.nov.2018).
A essência do atentado à democracia perpetrado pela Lava Jato esteve no ataque indiscriminado, fazendo tábula rasa do mundo político, sabido que esse, contrariamente ao Ministério Público, é ungido pelo voto, mandato de quem é o soberano do poder, o povo.
Nas cinzas da política, a democracia jamais encontrará seu berço. Daí, nascem Berlusconi na Itália e Bolsonaro no Brasil. O enxovalhamento da política é a tática comum de todos os déspotas da história.
Preciso, pontificou Reinaldo Azevedo: “Como procuradores e juízes militantes, os tenentes não gostavam de políticos” (Folha, 26.mai.2017). Nesse diapasão, editorial do Estadão “é perniciosa a tentativa de transformar a Lava Jato na grande panaceia nacional. Além de não tirar o País da crise, esse modo de conduzi-la inviabiliza a saída da crise” (10.mai.2017).
Eloquente o projeto de monumento (escultura) à Lava Jato, na palavra do idealizador e também homenageado Deltan Dallagnol: “… minha primeira ideia é esta: algo como dois pilares derrubados e um de pé, que deveriam sustentar uma base do país que está inclinada, derrubada. O pilar de pé simbolizando as instituições da justiça. Os dois derrubados simbolizando sistema político…” (Folha/The Intercept Brasil, 21.ago.2019)
Medidas contra corrupção
Usurpando da iniciativa popular em legislar, instituto da sociedade civil –jamais órgão de Estado!–, Lava Jato colheu assinaturas de adesão ao seu projeto das “10 medidas contra corrupção”.
Irresignado com a rejeição parcial, Juliano Baiocchi, subprocurador, escreve artigo tachando o parlamento de organização criminosa (“A Operação Cavalo de Troia da Orcrim” – blog de Fausto Macedo, 1.dez.2016). Coerente com a linguagem da Lava Jato usada na mídia e em juízo, “quadrilhão do PT, quadrilhão do MDB, quadrilhão do PSDB, quadrilhão do PP …”
O ápice foi a solenidade, reunindo todas as unidades da Lava Jato no país, quando emitida a Carta do Rio de Janeiro, todos sob a palavra de ordem de Deltan: “2018 é batalha final para Lava Jato”, pregando que nenhum dos parlamentares fossem reeleitos (Folha, 27.nov.2017). Nisso, a campanha da Lava Jato foi exitosa, extraordinária não reeleição no parlamento e executivo.
Isso tudo no contexto de autoempoderamento absolutista da Lava Jato, cujos órgãos de correição, procurador-geral Rodrigo Janot, corregedores do Ministério Público Federal e o Conselho Nacional do Ministério Público, todos converteram-se em seus admiradores.
Carlos Fernando Lima postara na internet foto com camiseta, estampando imagens dele, Deltan e Moro, intitulado “Liga da Justiça” (Uol, 19.abr.2016).
Tudo em sintonia com a chefia, à saída da procuradoria-geral em Brasília, posando com o cartaz: “Janot você é a esperança do Brasil!” (noite de 2.mar.2015).
Tivemos, próximo ao aeroporto, duplo outdoor estampando imagem dos procuradores, “Bem-vindo à República de Curitiba … Aqui a lei se cumpre”, resultando em ação popular contra os personagens (Folha, 13.fev.2020)
Confundindo escracho com publicidade, ‘ab initio’, sob a demagógica justificativa da sociedade controlar a justiça, a Lava Jato lançou ao linchamento moral, muro da vergonha todos, não apenas os investigados, assim também testemunhas, advogados, empresas e pessoas sem qualquer relação com ilícito, jornalistas, juízes, enfim, quem opusesse embaraços aos desígnios da operação.
“… sem exposição, é impossível avançar contra poderosos, afirma Dallagnol” (Folha, 24.nov.2017).
Em face de habeas corpus deferido pelo ministro Dias Toffoli, Carlos Fernando e Diogo Castor, título “Medalha de ouro para o habeas corpus … twist carpado”, é exemplo (Folha, 2.jul.2016).
Promoveram investigação clandestina contra o ministro Gilmar Mendes (The Intercept Brasil). MBL/Vem pra rua, sabidamente entusiastas da operação, na praça pública mais simbólica de Porto Alegre (RS), ao som da voz de Lula vazada pela Lava Jato, cena sinistra, trevas próprias dos fascistas, queimou 11 bonecos, cada qual representando um dos ministros do STF (vide YouTube).
O jornalista Reinaldo Azevedo, Folha, crítico dos desvios, teve conversa pessoal sua com a irmã de Aécio Neves divulgada com claro intento de retaliação. Eram vazadas informações para intimidar investigados (The Intercept Brasil, 29.ago.2019).
Paradoxalmente, quando surgiram as revelações do Intercept Brasil, alegou-se violação de privacidade, ilícito na  devassa. Privacidade é do cidadão contra o estado, jamais do estado – autoridade no exercício de seu múnus.
Na função de sua competência, autoridade pode manter sigilo, sempre temporário, como condição de efetividade, a exemplo da prisão e  interceptação telefônica. Devido processo legal exige que agentes públicos despidos estejam de segredos. Lava jato que pregava fiscalização da justiça para escrachar seus alvos, homiziou-se da luz às suas entranhas.
Delações veiculadas
A principal arma de abate ao mundo político foi a ilegal e irresponsável veiculação das delações. Sempre houve imposição de sigilo até o recebimento da denúncia (art. 7º, §3º, da Lei nº 12.850/13). Sequer o juiz pode afastar a reserva.
Dupla razão fundamenta a lei: a) sigilo oportuniza a produção de prova que corrobore a delação; tivemos casos de delatados, após mais de ano da divulgação, com mandados de busca domiciliar; b) sigilo protege a honra, o direito de defesa do delatado, indefeso na divulgação sem  acusação formalizada.
Exemplo mais aberrante foi a Odebrecht, transtornando o país no alvorecer de 2017, Lava Jato decantando 415 autoridades mencionadas, fora particulares, empresas, doleiros, laranjas e outros.
Resultado em termos de denúncias, processos foi ínfimo. “Delação da Odebrecht gera poucos resultados em um ano” (Folha, 29.jan.2018).
Adiante, constatada a inexorável previsão: “Procurador previu há dois anos insucesso de delações da Odebrecht” (Blog Interesse Público, 30.1.2019).
Emblemático do abuso foi a acusação generalizada de embaraçar a investigação (art. 2º da Lei 12.850/13).
A conduta da lei não é contrariar o interesse das autoridades na incriminação de seus alvos. O ‘embaraço’ exige conduta de per si ilícita e não diz com o interesse da acusação e sim com o devido processo legal da devida justiça.
As revelações do The Intercept Brasil, atuação do juiz Sergio Moro comandando a investigação, caracteriza obstrução da justiça.
Exemplo pitoresco foi a repetida imputação por instar investigados a não delatarem.
Em 28 de agosto de 2016, a Folha revela a “bolsa delação”, ou seja, as corruptoras Odebrecht, OAS e Andrade Gutierrez garantem até 15 anos de salários para que seus subalternos delatem políticos, salvaguardando os patrões. Apenas da Odebrecht, foram 78 delatores.
Oposto do tratamento aos políticos, foi o dispensado pela lava jato aos banqueiros. Mensagens analisadas mostram que força-tarefa de Curitiba preferiu buscar acordos a investigar acusações contra as instituições financeiras. Enquanto desenhava estratégia, Dallagnol fez palestra na Febraban (The Intercept Brasil, 22/8/2019)
Alijamento de Lula
Na eleição de Bolsonaro, sabidamente decisivo foi o alijamento de Lula –sem ignorar sua intuitiva responsabilidade na brutal corrupção desvelada!–, cuja estética da imparcialidade da Lava Jato restou brutalmente comprometida.
Lula foi alvo de condução coercitiva abusiva, sob acintosa fundamentação de ser protegido, provocação de previsto stress nacional, onde captada conversa com Dilma, interceptação clandestina, sem ordem judicial vigente, cuja divulgação foi o estopim do impeachment. Diálogo inclusive editado, suprimidos trechos que mudariam a sua interpretação (Folha, 8.set.2019). Aposentado, PGR Janot, “Nada menos que tudo”,  assevera que Dilma é mulher honesta.
Todos lembram da teatral apresentação em PowerPoint da denúncia do triplex do Guarujá por Deltan Dallagnol.
Peça de imputação em que constava, entre outras aberrações técnicas, tratado sobre presidencialismo de coalizão, finalizando por pedir prioridade na tramitação em face do estatuto do idoso, em suma, na hermenêutica dos procuradores, exótico direito de Lula ser condenado mais rápido.
Em 14 de julho de 2017, desembargador Gebran Neto, já definido como relator que conduziria julgamento de Lula no TRF-4 –causa de sua prisão e inelegibilidade–, é homenageado em Curitiba pela Fecomércio (PR), quando declara que a Lava Jato promovia “viragem paradigmática”.
Após, o desembargador Thompson Flores Lenz –-então presidente do TRF-4, depois migrado à turma da Lava Jato, embora na sua longeva trajetória na corte não optasse pela área criminal, recentemente condenado Lula no processo do sítio de Atibaia– quando da solenidade de láurea da Associação Comercial do Paraná ao ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no STF, sentenciou: “Lula será julgado antes da eleição” (Uol, 10.nov.2017).
De forma geral, desde integrantes da Polícia Federal até a mãe do juiz Sergio Moro, todos foram homenageados pelas entidades patronais do Paraná, por razões óbvias, avessas ao governo Dilma, Lula.
Imagine-se que o presidente Bolsonaro, tal qual Lula, uma vez saído do poder, seja alvo de processos criminais.
Então, entidades dos laboristas, a exemplo de CUT/MST, façam pomposa homenagem, louvação aos seus julgadores?! Todos –e com razão!– entenderiam escandaloso.
Tão logo finalizada a eleição: “Moro me ajudou politicamente”, afirma Bolsonaro (revista Exame, 2.nov.2018). E continua ajudando, transformado que foi Sergio Moro no primeiro ministro da República.
Procurador Carlos Fernando Lima, destaque da Lava Jato, então já aposentado e advogando, entrevista à Globo News, admitiu que seus membros sufragaram Bolsonaro.
Mãos Limpas
“Veritas filia temporis”,  verdade é filha do tempo. “Mãos Limpas” da Itália, assumida inspiração da Lava Jato, gerou Berlusconi, figura simétrica a Bolsonaro. “Juízes da Mãos Limpas viraram atores políticos, diz historiador italiano” (entrevista do professor Giovanni Orsina, Folha, 29.ago.2017).
No âmbito econômico, a Lava Jato não agiu no Brasil conforme atuam os seus homólogos americanos: “A ideia dos americanos é punir de maneira dura, mas evitar que a indenização a ser paga coloque em risco os negócios e os empregos que eles geram.” (Folha, 20.dez.2016).
Nenhum dos acordos previu manutenção de empregos. Insensibilidade social atroz! Calcula-se em meio milhão de postos de trabalho a debacle.
Odebrecht, até a Lava Jato, empregados e terceirizados, mantinha 276 mil trabalhadores. Em 2019, imersa em recuperação judicial, foram extintos 80% dos postos de trabalho.
Em artigo de agosto/2019, jornal do Conselho dos Economistas do Rio de Janeiro, professores de nomeada calculam algo em torno de 2 a 2,5% de contribuição da Lava Jato na queda do PIB de 2015 e 2016 respectivamente, em função dos impactos nos setores metalomecânico, naval, construção civil e engenharia pesada.
Enquanto a Lava Jato municiava os americanos para autuarem a Petrobrás –vítima da corrupção!– no maior valor já pago por empresa estrangeira naquela nação, abiscoitava alguns bilhões à ridícula fundação destinada à publicidade contra corrupção, em boa hora pelo STF, ministro Alexandre Moraes, destinados a combater o coronavírus.
Lava Jato revelou elevada incidência de contaminação. Prisão do procurador Ângelo Villela, Marcelo Miller às voltas com a dubiedade de MPF e advogado da poderosa JBS/J&F, investigação em curso trata do apontamento de propina pelo doleiro Dario Messer, corregedores do MPF flagrados em conduta imprópria a quem cumpria sanar os desvios de procuradores (The Intercept Brasil), auditores da Receita Federal, atuando na operação no Rio de Janeiro,  presos por extorsão a investigados e, sublimando, o chefe de tudo, Rodrigo Janot, está sob inédita Lei Maria da Penha à justiça, ou seja, cautelar que sequer pode aproximar-se do STF.
Curioso que, quando propôs projeto das 10 medidas contra corrupção ao Congresso Nacional, uma delas era o teste de integridade, espécie de purgatório da fraqueza humana, pelo qual agentes públicos seriam tentados a desviarem-se.
Procuradores são brasileiros. Em 2017, pesquisa nacional de valores, Datafolha mostra que o brasileiro vê o país corrupto, mas ele, individualmente, honesto. Brasileiro fala do brasileiro na terceira pessoa, e se dissocia.
A Lava Jato, na voz de Deltan Dallagnol aos pares do MPF, apoiou nomeação de Augusto Aras. De forma geral, quem agora tem ressalvas ao novo chefe integraram ou sempre aplaudiram a operação. O novo PGR segregou facções internas que consolidaram-se nos últimos anos, zelando pelas condições materiais e remuneratórias da instituição.
Com respaldo de todos os segmentos políticos na sua aprovação pelo Senado, não usou dos seus poderes contra adversários de quem o nomeou. Deduziu as imputações cujas provas têm solidez, marcando sua atuação pela discrição. Em suma, olhando pelo retrovisor seu homólogo Rodrigo Janot, tem plena ciência do que não deve fazer, ou seja, ser protagonista no cenário político pátrio, eis que assim agindo a Lava Jato foi desastrosa.
Provérbio diz quem pariu Mateus que o embale. A história não diz se Mateus embalou ou não. Aqui, certo é que, sim, a Lava Jato ajudou parir Bolsonaro.
Certamente, isso é motivo de orgulho a seus integrantes e de aplauso por grande parcela da sociedade brasileira, tanto que o capitão foi eleito o presidente da República.
Porém, agora, a Lava Jato, além de não embalar, está reclusa, homiziando-se de sombrio exame de DNA que possa atestar sua paternidade desta criatura.

domingo, 5 de abril de 2020

Democracia tutelada: a maldição da Anistia


Democracia tutelada: a maldição da Anistia


O vice Mourão, que cada dia mais parece próximo a ser o próximo, apareceu ontem com um tweet de – não dá pra concluir de outra forma – apologia à ditadura militar:
Há 56 anos, as FA intervieram na política nacional para enfrentar a desordem, subversão e corrupção que abalavam as instituições e assustavam a população. Com a eleição do General Castello Branco, iniciaram-se as reformas que desenvolveram o Brasil.
Vamos tentar passar isso por um filtro de realidade: vivemos um regime civil iniciado em 1985 após uma ampla campanha pelo fim do que era chamado, nessa campanha, de ditadura. Uma nova constituição foi entregue, o que quer dizer que não foi reforma; foi revolução. Até a guerra civil que exigia uma constituição democrática ganhou o prêmio de consolação de ser chamada de “Revolução Constitucionalista” porque veio uma constituição (já prometida e na data marcada). Nosso regime é um sucessor espiritual da democracia anterior, a Quarta República de de JK e João Goulart, mas não da ditadura ou sua “revolução de 1964”, como preferia ser chamada.
O que Mourão está fazendo na prática é dar uma declaração de fidelidade a um regime antagonístico. E essa postura não tem nada de exótica nas Forças Armadas brasileiras, ainda que costume vir com uma reafirmação formal de sua submissão ao regime democrático. É o duplipensar militar: sob o comando de uma democracia, demonstram fidelidade a um regime que a destruiu a democracia, com se não houvesse contradição. É, não sei se o bom Godwin me permite a comparação, como se oficiais da Bundeswehr, as forças armadas da Alemanha democrática, saíssem fazendo declarações de que o nazismo era necessário. (Pra ficar claro: a comparação é da fidelidade errada, não entre os militares da ditadura e nazistas.) Para ficar num exemplo próximo e menos dramático: que oficiais da Argentina, Uruguai ou Chile demonstrassem fidelidade às suas ditaduras. Isso seria visto como absurdo por lá e devia ser aqui também. A condição para a existência de forças armadas democráticas é (ou devia ser) que não demonstrem simpatia a golpes militares. Caso contrário, fica a séria suspeita de constituírem não os defensores da democracia que dizem ser, mas uma quinta coluna à espera de atacar.
Essa é a Maldição da Anistia. Quando, em 28 de agosto de 1979, num gesto “generoso”, os militares perdoaram os que se opuseram ao seu regime, violentamente ou não, perdoaram a si próprios. Essa impunidade foi a imposição para que aceitassem sair do poder. Um gesto de intimidação à democracia antes da democracia começar. Durante toda a segunda metade dos anos 80, quando certo tenente Bolsonaro era acusado de entreter sua mente com explosivos, uma conversa de “inquietude nos quartéis” pairava como um cúmulo-nimbo sobre a liberdade reconquistada. Pairaria até pelo menos 1989, quando a conversa era que, se Lula vencesse, a ditadura voltava.
Foi sob essa “inquietude” – eufemismo para “intimidação” – que a Sexta República aceitou o autoperdão dos militares. E ouça, caro direitista: o fim da Anistia significaria realizar o sonho dos militares de também levar os crimes da esquerda a julgamento. Julgamento democrático, legal, constitucional; não morrer por um torturador decidindo ser juiz, algo que era proibido pelas leis da própria ditadura. Do jeito que foi, os militares preferiram simplesmente ficar de lado, com sua narrativa própria, na qual nos impuseram 21 anos de ditadura para salvar a democracia. Não se viram obrigados a assumir um real compromisso de fidelidade ao novo regime, que é aceitar o significado da mudança histórica para esse regime.
A quinta coluna continua a nos intimidar hoje: será que podemos reconhecer o absurdo, o ridículo que é precisarmos saber da opinião de generais para remover um presidente acusado de violar a Constituição e ser uma ameaça à saúde pública? De onde vem essa consulta? Que poder lhes dá a Constituição? Se nossa democracia é intimidada por essa mesma sombra desde 1985, se nossa democracia só existe como uma concessão dos militares, dá pra dizer que somos – ou fomos – uma democracia real? Um regime que nasceu intimidado, forçado a aceitar a Anistia. E que parece ter um limite sobre o que pode decidir, limite imposto por uma ameaça de uso ilegal da força.
Não estou sugerindo um grande expurgo em 1988. Voltando à Alemanha: a Bundeswehr nasceu em 1955 e fez uso de nazistas: não era exatamente fácil achar oficiais alemães sem um passado dez anos depois da guerra. Mas os nazistas tinham que fechar o bico e a revelação de um passado ou opiniões problemáticas dava escândalo e podia significar expulsão.
Dizem que a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude. Mas devíamos parar de subestimar o quanto a hipocrisia é algo superior à apologia ao vício. Hipocrisia é um problema pessoal; a apologia é de todos. Em 1988, o Brasil devia ter, no mínimo, imposto aos militares a hipocrisia.

Coronavírus: "Os Estados Unidos têm uma tradição individualista ...


Coronavírus: "Os Estados Unidos têm uma tradição individualista ... É possível que as primeiras decisões de profundo significado ético sejam tomadas lá e que dividam a humanidade"

José Ignacio LatorreDireitos de imagemJOSÉ IGNACIO LATORRE
"No momento, este país foi afetado pelo vírus de forma menos agressiva do que outros. As medidas de confinamento são seletivas: uma parte da atividade econômica é mantida, como o setor de construção, ao mesmo tempo em que é instruída. enfaticamente que não deve haver desaceleração em nenhuma empresa que não exija a presença de trabalhadores. A limitação de movimento é obrigatória à noite ".
O palestrante é o proeminente físico espanhol José Ignacio Latorre, que foi recentemente pego na crise global do coronavírus em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos, para onde se mudou de Barcelona para dirigir um novo centro de pesquisa quântica.
Latorre, um dos cientistas mais renomados em seu campo, também é autor de dois livros interessantes sobre o mundo em que vivemos.
No primeiro, "Quantum", ele explora as chaves para entender essa parte fascinante da ciência e as transformações que dela derivam e, no segundo, "Ética para máquinas", ele faz um apelo urgente para refletir sobre como programaremos a inteligência artificial. morar com ela.
Neste texto, ele também investiga o que somos como humanidade e para onde queremos avançar, dois tópicos que o coronavírus se tornou especialmente relevante ao enfrentar não apenas um enorme desafio médico, mas também grandes dilemas éticos.
De Abu Dhabi, Latorre respondeu às perguntas da BBC Mundo por escrito.
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A legenda da imagemJosé Ignacio Latorre recebeu o prêmio Research and Science do jornal digital Merca2 em 2019.
Parece que estamos passando por uma crise sem precedentes no mundo moderno. Como isso é diferente dos outros que experimentamos no passado?
A humanidade sofreu e superou crises muito graves e terríveis.
Pandemias e guerras devastaram a terra inúmeras vezes, sem piedade.
Eu não gostaria de estar experimentando a peste bubônica, as trincheiras da Primeira Guerra Mundial, a varíola ou sob o sangrento Pol Pot do Camboja.
A grande diferença é que essa crise nos afeta na primeira pessoa, aqui e agora; não se limita a uma leitura em um livro didático.
Uma segunda grande diferença é que vivemos em um tempo em que a tecnologia possibilita que a maioria das pessoas (não todas) fique em casa.
E uma terceira diferença é que vemos que as sociedades mais avançadas conseguiram manter intacta a cadeia de suprimentos, tanto de alimentos quanto de eletricidade e internet.
Existem muitos outros, porque nossa sociedade evoluiu enormemente nos últimos tempos. As referências anteriores parecem irrelevantes, se não inúteis.
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A legenda da imagemJosé Ignacio Latorre lembra que a humanidade já sofreu crises "muito sérias", como as trincheiras da Primeira Guerra Mundial: "A grande diferença é que essa crise nos afeta em primeira pessoa".
Na sua opinião, quais são os principais dilemas éticos que ele apresenta?
Continuo a defender, como sempre repito, que o século XXI não se refere a guerras entre esquerda e direita, mas entre gerações de jovens e idosos e na relação homem-máquina.
Esta crise torna evidente.
Eu acho que certos países não vão mostrar solidariedade com os mais velhos. O bem-estar da maioria prevalecerá sobre a vida de uma minoria cara.
Não devemos ficar chocados, porque a humanidade já tomou esses mesmos tipos de decisões em outros contextos.
Compramos mercadorias de países onde os direitos humanos não são respeitados, simplesmente porque são mais baratos.
A expectativa de vida de um mineiro na América do Sul ou de um trabalhador em uma fábrica em uma cidade chinesa altamente poluída não é de 80 anos, como a de outros trabalhadores privilegiados.
Paciente com coronavírus.
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O coronavírus nos confronta com a determinação de decidir quanto vale a vida de um cidadão. "
José Ignacio Latorre
Físico quântico espanhol.
Temos o duplo padrão no valor de uma vida humana tranqüila, desde que essas vidas estejam longe de nós.
Não temos problemas morais ao fabricar armas que não servem para defender nosso país, mas para alimentar guerras na África ou em qualquer outro lugar.
No entanto, o coronavírus nos confronta com a vontade de decidir quanto vale a vida de um cidadão.
Os Estados Unidos têm uma tradição individualista, longe do contrato social europeu. É possível que as primeiras decisões de profundo significado ético sejam tomadas lá e que dividam a humanidade.
Como devemos enfrentá-los?
Eu não sou virologista. Eles são os que devem responder a como a ação de um vírus é fisicamente interrompida, mas o resto de nós também deve contribuir, primeiro tentando entender e depois considerando as ações corretas e sua justa medida.
Aplico o slogan e tento entender melhor essa crise.
Bandeiras americanas
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Os Estados Unidos têm uma tradição individualista (...) É possível que aí sejam tomadas as primeiras decisões de profundo significado ético e que dividam a humanidade ".
José Ignacio Latorre
Físico quântico espanhol.
Entendo que um coronavírus é uma entidade com cerca de 100-200 nanômetros de diâmetro, capaz de inserir seu código através da membrana celular. Não há remédio para pará-lo, mas a evolução nos deu a capacidade de gerar uma resposta imune.
Certas pessoas o desenvolvem rapidamente e dificilmente sofrem as conseqüências do vírus. Outros não conseguem e podem morrer.
O patógeno afeta jovens e idosos de maneira muito diferente.
Também pareço entender que a taxa de mortalidade ainda é incerta, dado que as estatísticas (que entram totalmente no meu campo de trabalho) para diferentes países são díspares e inconsistentes. Os seres humanos nem aprenderam a contar bem quando as emoções se envolvem nesse nível.
Entendo ainda que os humanos não armazenam informações em nossos genes sobre como combater um vírus específico para as próximas gerações. Cada humano deve lutar por conta própria ou devemos desenvolver vacinas. E uma vacina eficaz pode levar um ano de pesquisa.
Como agir?
A fase crítica para um ser humano que tem dificuldade em lidar com o vírus passa por episódios de insuficiência respiratória. Isso é terrível. Saúde profissional é essencial.
Para poder tratar pacientes difíceis, é necessário um poderoso sistema de saúde e solidariedade entre os levemente afetados e os críticos. Se o vírus se expandir após um exponencial, nenhum sistema de saúde poderá atender os infectados.
O confinamento diminui a taxa de contágio, mas não impede que grande parte da população tenha que enfrentar o vírus em algum momento futuro. Mas suas conseqüências econômicas podem ser devastadoras para um grande número de pessoas.
Assistente da Cruz Vermelha.
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Todo mundo quer uma solução forte e limpa, mas isso é impossível ".
José Ignacio Latorre
Físico quântico espanhol.
Sem remuneração, a comida que chega a uma casa é insuficiente e ruim. Isso também mata adiado.
Por outro lado, o isolamento e a redução do ritmo louco da nossa sociedade podem ter algum elemento benéfico.
Muitos pais e mães realmente conhecem seus filhos e filhas e vice-versa. Talvez o futebol não fosse tão importante. Ou sim, porque para alguns é simbólico da felicidade e da liberdade que perdemos.
Agora temos o covid-19. Outros vírus virão.
A mesma seleção natural que deu origem aos seres humanos não pára de testar variantes de vírus até que um deles consiga explorar uma fraqueza em nosso corpo. A busca cega por combinações, mais cedo ou mais tarde, se depara com uma entidade com consequências devastadoras.
Se dependesse de mim, aplicaria o bisturi fino ao impor o confinamento. Existem muitas razões.
A primeira é que o isolamento viola a liberdade fundamental. Não aceito que, para o benefício comum, seja utilizada a geolocalização de seres humanos. Não vamos deixar Orwell estar certo.
Em segundo lugar, muitos trabalhos podem ser feitos pessoalmente, seguindo as medidas de higiene corretas.
De fato, esse já é o caso.
Ninguém deve esquecer que supermercados, farmácias, sistema elétrico, todas as comunicações, redes de suprimentos e um longo período etc.
Não é verdade que todos estejam confinados. A prova de que existem nuances importantes no controle de uma pandemia é a maneira diferente de proceder em vários países.
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legenda da imagemJosé Ignacio Latorre acredita que o isolamento e reduzir o "ritmo enlouquecido da nossa sociedade" pode ter algum elemento benéfico.
Em tica de áquinas estavam dizendo que "já existem máquinas programadas para decidir sobre a vida ea morte de seres humanos." Agora, a falta de recursos e a preparação para uma pandemia com esta nos coloca diante de uma pergunta semelhante, certo ?
Sim, mas é importante esclarecer que a decisão algorítmica ainda é programada por um ser humano. Não é correto pensar que uma máquina baseada na inteligência artificial atual decida entre a vida e a morte. Essa responsabilidade ainda recai sobre os seres humanos.
O próximo passo é girar bem, como eu disse antes. Há medo de pensar em detalhes.
Todo mundo quer uma solução forte e limpa, mas isso é impossível. A complexidade de nossa sociedade requer ações com níveis sofisticados de reflexão.
Posso imaginar um número infinito de situações em que a solução mais ética não coincide com o ditado de uma norma única e generalizada.
Cuidar de pessoas idosas desprivilegiadas e terrivelmente solitárias deve ter precedência sobre qualquer lei de confinamento.
Atenção, haverá casos extremos de doenças mais terríveis que exigiriam isolamento absoluto, o que causaria situações de tristeza infinita.
Mas acho que o coronavírus não está nesse nível. É um vírus que nos permite ainda servir os mais necessitados, como eles merecem.
O grande exemplo é dado pelos profissionais do sistema de saúde, que trabalham, se expõem, assumem sua responsabilidade admiravelmente.
Pessoa sem-teto
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O altruísmo é evidente, mas o egoísmo também está em casa ".
José Ignacio Latorre
Físico quântico espanhol.
Cada indivíduo está enfrentando uma nova versão do dilema histórico do bonde?
O dilema do bonde (deixar muitos morrerem sem intervir - o bonde atropela muitos -; ou assumir a responsabilidade de escolher a morte de alguns: atrapalhamos o bonde e matamos alguns) ocorre todos os dias, sem vamos notar.
Antes eu estava falando de mineiros cujas vidas são menos importantes para nós. Mas tudo é mais prosaico.
Quando é reparada uma via férrea defeituosa que, mais cedo ou mais tarde, causa um acidente com pessoas falecidas?
A resposta depende do orçamento, não do problema ético de saber que alguém vai morrer.
Certa vez, conheci um consultor do governo britânico sobre ações políticas que envolviam perda de vidas humanas.
Ele me confessou, sem vergonha, que seu governo agia quando o custo para salvar uma vida era inferior a cerca de 10.000 euros. Eu me lembro bem disso.
Evidentemente, o surgimento de notícias e alarmes sociais poderia mudar esse número. Para alguns humanos, o mundo anglo-saxão às vezes parece gritante para nós.
No livro, você também afirma que a bondade deve ser a lei da inteligência artificial. Que papel você acha que a bondade e a empatia desempenham nesta crise?
Lamento dizer que acho que essa crise nos ensina o quão boas podem ser as pessoas e o quanto as pessoas podem ser perfumadas.
O altruísmo é evidente, mas o egoísmo também prevalece em casa: os informantes, os que não dão apoio, os golpes econômicos, as notícias falsas , aqueles que invadem o sistema para seu próprio benefício e as diversas figuras políticas de terrível caráter moral.
Empresários.
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Nesta crise, devem ser ouvidas as vozes dos virologistas, agentes do sistema de saúde, mas também os avisos dos empresários ".
José Ignacio Latorre
Físico quântico espanhol.
Uma ideia que constantemente assombra minha mente é que o coronavírus está acelerando a transformação de nossa sociedade.
Eu sempre disse que a segunda metade do século XXI será para a ética, para uma profunda reflexão sobre o sentido humano.
Antes de passarmos pelo sarampo que a tecnologia avançada nos trouxe.
Talvez o coronavírus tenha acelerado que o sarampo e a necessidade de ética se tornem peremptórios mais cedo do que se imaginava.
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Legenda da imagemJosé Ignacio Latorre considera que o coronavírus está acelerando a transformação da nossa sociedade.
h o res um grande defensor da idéia de que os cientistas têm um papel mais Protag ONIC na gestão de sociedades e Estados. Você acha que em esta crise ter tido Os governos fizeram jus a isso?
Gostaria de esclarecer que não acho que os cientistas devam ser protagonistas. Eu acho que ninguém deveria.
O que sempre argumentei é que a voz dos cientistas deve fazer parte de mecanismos de tomada de decisão, como a de economistas, artistas, advogados ou trabalhadores de qualquer empresa.
Não acho que a consanguinidade dos círculos de decisão que ocorre hoje seja boa. A sociedade é diversa, sua representação também deve ser diversa.
Também argumentei que os mecanismos de representação devem ter diferentes níveis de profundidade. Certas decisões de senso comum são o poder da sociedade como um todo. Outros, mais técnicos, exigem experiência comprovada e vozes calmas.
Longe do barulho da mídia, a voz dos cientistas tem um valor óbvio.
Desta vez, dado que a crise é causada por um vírus, é óbvio que as vozes dos virologistas, dos agentes do sistema de saúde devem ser ouvidas especialmente, e os avisos dos empregadores também devem ser atendidos.
Manter a justiça não é trivial nem popular.
O que a metodologia científica e o modo de pensar podem contribuir para pessoas que não são dedicadas à ciência nesses tempos de medo e incerteza?
Calma, raciocínio, respeito pelo pensamento alheio, disciplina, avanço tecnológico.
A ciência é o nosso tesouro. Isso nos dá conhecimento e nos fornece os instrumentos para gerá-lo e gerenciá-lo. É cultura em sua essência pura, é humanismo. Somos herdeiros de Sófocles e Pitágoras.
A ciência é humilde, porque busca, erra, corrige, busca novamente um caminho cheio de pistas falsas.
Pessoas com máscaras nas Filipinas.
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Viver com a incerteza não é tão ruim, é a essência da vida. Viver com medo é terrível. A ciência nos liberta do medo ".
José Ignacio Latorre
Físico quântico espanhol.
Muitas pessoas associam a ciência a belas fotografias de objetos desconhecidos. É o primeiro passo: espanto.
Se você se aprofundar, encontrará sua essência intrínseca: a dúvida e a busca da verdade.
O medo é o resultado de uma falta de conhecimento e compreensão. A ciência prepara os indivíduos para lidar com o desconhecido, mas não elimina a incerteza.
Viver com a incerteza não é tão ruim, é a essência da vida. Viver com medo é terrível. A ciência nos liberta do medo.
Nesta crise, pouco se ouviu sobre o papel que a inteligência artificial pode ter para interromper ou desacelerar o contágio. O que está acontecendo nessa área?
O notável avanço da computação em todos os tipos de técnicas numéricas está sendo usado para entender melhor as variantes do vírus nos supercomputadores.
No entanto, ainda estamos longe de ter um instrumento capaz de ser medido com o desafio colossal de calcular com precisão a bioquímica. Espero que meus olhos vejam avanços incomuns nessa área.
Na primeira pessoa, luto para construir os primeiros passos de um computador quântico. Mas os tempos da ciência são lentos. A completude que a ciência exige é proporcional às suas realizações.
É importante entender que a inteligência artificial tem enormes capacidades, mas não onisciente. Os grandes segredos do universo ainda estão longe de nosso alcance.
O caminho que resta a ser percorrido em inteligência artificial permanece infinito.
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Você acha que um pequeno vírus que paralisa toda a humanidade é um golpe de humildade?
A arrogância humana é uma remanescente da evolução e deve desaparecer com os séculos. Não mais litigamos com paus, nem os mais fortes estão sempre certos.
Uma sociedade formada e bem-educada deve conhecer os elementos básicos da natureza e, conseqüentemente, estar ciente de sua própria fragilidade.
Humildade, não submissão, é um sinal de inteligência.
Qualquer biólogo que tenha lidado com o fascinante funcionamento do DNA, qualquer astrofísico olhando para uma galáxia distante, qualquer matemático enfrentando a conjectura de Golbach (provando que todo número par é a soma de dois números primos), qualquer um enfrentando os fatos Os absolutos são devolvidos à humildade.
Compartilhamento familiar.
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Muitos pais e mães vão realmente conhecer seus filhos e filhas, e vice-versa. "
José Ignacio Latorre
Físico quântico espanhol.
Quem se mediu contra um problema sofisticado conhece suas limitações. Não há espaço para arrogância no verdadeiro conflito intelectual.
¿ O que depende de bom ou mau coisa fora de toda esta crise global?
Como um todo, a humanidade sempre aprende. Ficamos com um conhecimento distribuído que não está perdido.
Às vezes parece que repetimos nossos erros, mas nossa sabedoria coletiva aumenta constantemente.
Sempre que digo, ninguém acredita em mim. Mas não hesite, seremos mais sábios.