Carta Maior - Izaías Almada - Tremendo mau cheiro: "Tremendo mau cheiro
As cascas de banana e a intriga grosseira começam a tomar algumas manchetes jornalísticas na indisfarçável tentativa de criar embaraços a um governo que mal começou. O PMDB se tornará mais uma vez o ‘fiel da balança’ de um sistema partidário viciado, ineficiente e sensivelmente corrupto em muitos dos seus integrantes.
Izaías Almada
Referindo-se a uma quase que inexistente militância da coligação PSDB/DEM/PPS, essa que se transformou na fina flor do atual conservadorismo brasileiro, a jornalista Eliana Catanhede fez, durante a última campanha eleitoral, uma citação auto-elogiosa aos “quadros” que comporiam o tal exército de Brancaleone. Denominou-os de “massa cheirosa”, com a evidente intenção de – por oposição – considerar os eleitores de Dilma e apoiadores do presidente Lula como a massa mal cheirosa da periferia e dos rincões mais distantes do país. O então general presidente João Batista Figueiredo afirmou, já no último governo da ditadura, que preferia o cheiro das estrebarias ao cheiro do povo.
Tais afirmações, a da jornalista e a do general, enquadram-se perfeitamente no discurso raivoso e preconceituoso que caracteriza uma parcela da sociedade brasileira. Antes, durante e depois do regime ditatorial de 64.
A recente campanha oposicionista do candidato José Serra fala por si. Inúmeras foram as demonstrações de intolerância, os arremedos de violência, as mentiras e os factóides diários sustentados por uma imprensa, em sua maioria, defensora de uma candidatura que nasceu morta, mas que era preciso se oxigenar com o que estivesse mais à mão. Com a agravante de que o candidato já se disse em outros tempos um homem de esquerda e progressista. Em outras circunstâncias, é claro...
Os panfletos sobre o aborto, as agressões ao passado guerrilheiro da candidata Dilma Roussef, as idiotices e inverdades repetidas por artistas de telenovelas e programas de humorismo duvidoso, invasões de missas, religiosidade de última hora, uma ridícula bolinha de papel transformada em míssil, uma campanha suja e violenta pela internet, onde predominava o irracional e o mau português, e um candidato – ao contrário do que pregava – completamente despreparado para o exercício da presidência, tudo isso acabou por criar um caldo de cultura muito próprio ao jeito fascista de fazer política. A cultura da violência.
Enquanto a nova política de resgatar o país de mazelas seculares procura avançar com rapidez, passando ao largo de vaidades e incompetências, muitas delas acadêmicas e voltadas para a satisfação de uma pequena parcela da sociedade, políticos formados na velha escola republicana e temperados pelas benesses de uma ditadura que durou 21 anos, ainda insistem em dividir o país em novas capitanias hereditárias, espalhando o preconceito e a discriminação entre brasileiros. Ao perceberem que a realidade do país começa a não responder mais diretamente aos seus interesses, tais esbirros – usando ainda o monopólio do curral mediático, onde são proprietários e beneficiários ao mesmo tempo – passaram a apostar mais pesado no ‘quanto pior, melhor’.
Seria bom não nos deixarmos iludir por uma democracia que continua parcialmente tutelada e que, apesar dos avanços institucionais, ainda não ultrapassou algumas provas de fogo, tais como o efetivo combate à corrupção ou à impunidade de alguns figurões da república. Ou à punição de torturadores de crimes políticos e comuns, de quem pouco se fala. Não conseguiu uma reforma política que merecesse esse nome, uma reforma fiscal, uma reforma do Judiciário.
No momento, tudo parece indicar uma pausa temporária, estratégica, por parte da velha mídia, quando se espera que as águas da eleição e da posse do novo governo se acalmem. A elite política e econômica brasileira é sempre perigosa, sorrateira. A sorte do país, para além de algumas políticas acertadas do governo Lula nos últimos oito anos, é que a oposição emburreceu, assim como jornalistas e analistas do “ancien regime”. Chega a ser patética a cena mostrada em vídeo nos últimos dias, na qual FHC pede a Serra para agradecer alguns elogios do governador Alckmin no seu discurso de posse.
O mito do brasileiro cordial, de índole pacífica é uma falácia que continuamos carregando para apaziguar nossas consciências. Sempre que precisou, a elite brasileira foi violenta, sabendo cooptar aqueles de que necessita para o serviço sujo, incluindo-se aqui amplos setores da classe média também. Os exemplos da Guerra do Paraguai, do último bastião escravista até a Lei Áurea, do Estado Novo, da ditadura civil/militar de 64/68, do trabalho escravo de adultos e crianças, dos matadores de aluguel, dos esquadrões da morte e das atuais milícias urbanas, da violência contra a mulher, do preconceito contra nordestinos, do uso da tortura contra prisioneiros políticos ou comuns, da impunidade contra o crime de colarinho branco e outras mazelas do gênero, deixam muito a desejar sobre esse tão decantado espírito cordial e conciliador.
E é justamente por isso que não podemos desprezar o abominável e recente episódio das inúmeras manifestações de cidadãos brasileiros em suas sintéticas mensagens pelo twitter ao desejarem um atentado contra a presidenta Dilma Roussef no dia da sua posse. Qual o significado daquelas mensagens para além da sua linguagem crua e repetitiva, mas de conteúdo criminoso e ideologicamente condenável? Uma manifestação covarde de adolescentes sem o que fazer? Refletiam um pensamento próprio ou reproduziam opiniões ouvidas em casa, nos escritórios ou escolas? Espontânea ou induzida? O que levou tais pessoas a manifestarem esse desejo?
As cascas de banana e a intriga grosseira começam a tomar algumas manchetes jornalísticas na indisfarçável tentativa de criar embaraços a um governo que mal começou. O PMDB se tornará mais uma vez o ‘fiel da balança’ de um sistema partidário viciado, ineficiente, sensivelmente corrupto em muitos dos seus integrantes, muitas vezes dissonante em relação a antigos e insolúveis problemas brasileiros.
A campanha da presidenta Dilma Roussef prometeu avanço em várias áreas conquistadas no governo do presidente Lula. E seria bom que nos seus 100 primeiros dias de governo, essas promessas começassem a ser reconhecidas pelo povo brasileiro. Caso contrário, o tiro pode sair pela culatra. E o mau cheiro do fascismo deixar os rincões conservadores e preconceituosos, por onde transita com relativa liberdade e travestido de massa cheirosa, e começar a se espalhar por toda a sociedade brasileira.
Presidenta Dilma: olho vivo e, se for preciso, corte o mal pela raiz, já diz a sabedoria popular. Enquanto sentir firmeza, o povo estará ao seu lado. Caso contrário, o país corre o risco do retrocesso. O fascismo se alimenta da inveja, da frustração e usa da mentira e da violência para atingir seus objetivos. Nunca é cedo demais para essas reflexões.
Escritor e dramaturgo. Autor da peça “Uma Questão de Imagem” (Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos) e do livro “Teatro de Arena: Uma Estética de Resistência”, Editora Boitempo.
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sábado, 8 de janeiro de 2011
Por uma sociologia da Era Lula - Terra - Edmilson Lopes Jr
Por uma sociologia da Era Lula - Terra - Edmilson Lopes Jr:
No final da década de 1950, Wright Mills, um dos mais brilhantes cientistas sociais norte-americanos da segunda metade do século XX, chamava à atenção, em uma obra intitulada A imaginação sociológica, para o fato de que as pessoas tendem a reclamar dos seus problemas cotidianos buscando causas explicativas no seu entorno imediato. Para ele, a maioria das não consegue estabelecer relações causais entre os sofrimentos vivenciados individualmente e as estruturas sociais mais amplas, expressas em tendências econômicas, dinâmicas demográficas e relações de classes, dentre outras. Ao contrário do que pensava o grande sociólogo não são apenas as 'pessoas comuns' que agem assim. Ultimamente tem sido essa também essa a reação de muitos dos que se pretendem analistas do mundo social no Brasil. Em especial quando o objeto de análise diz respeito, direta ou indiretamente, ao governo do agora ex-presidente Lula.
Na última semana, marcada pela despedida de um presidente com inéditos 87% de avaliação positiva por parte da população, assistimos ou lemos os nossos 'bem pensantes', especialmente aqueles auto-identificados como 'cientistas políticos', produzindo lugares-comuns e vendendo-os como análises científicas. Nestas, via de regra, a popularidade do ex-presidente resultaria de sua 'capacidade de comunicação', dos ventos favoráveis da economia internacional e do Programa Bolsa-Família. Platitudes e lugares-comuns substituem, assim, a necessidade de perscrutar com mais rigor a realidade.
Poucos analistas se preocuparam em produzir alguma explicação para o espantoso fato de que a popularidade do ex-presidente tenha ocorrido concomitante a uma das mais agressivas reações dos principais órgãos da imprensa nativa a um Presidente da República. Para usar surrado bordão, nunca antes na história deste país um mandatário foi tão hostilizado, quando não ridicularizado, como o Lula durante os últimos oito anos.
Como o bolsa-família, o Prouni e as políticas de micro-créditos, dentre outros instrumentos de transferência de renda, não atingem, nem de longe, aquele contingente populacional que, a cada nova pesquisa, identificava o Governo Lula como 'ótimo' e 'bom', restou aos 'bem-pensantes' apelar para o velho preconceito de classe: os 'de baixo' não teriam muito apreço pela ética. Ou pelas instituições democráticas.
Houve quem chamasse a atenção para o 'carisma' do ex-presidente. Mas este foi definido como uma característica pessoal. Mesmo gente que citava Max Weber, autor de célebre elaboração sobre a 'dominação carismática', esquecia que, para o pensador alemão do início do século, carisma, na vida política, é um fenômeno relacional, não uma particularidade desse ou daquele indivíduo. Analisar os motivos e reações dos 'seguidores' do líder supostamente 'carismático' é sempre o exercício mais importante. Exatamente o que era apenas superficialmente tocado.
Os 'bem-pensantes' esqueceram as pessoas. E estas, ao contrário do que supõem os que se alimentam dos próprios preconceitos que secretam, são reflexivas. Fazem comparações e escolhas. Entre um lado que fazia discursos 'em defesa da ética', mas ainda ontem praticara uma selvagem 'privataria', e o lado que apresentava políticas sociais que tiraram 15 milhões da pobreza, incluíram milhares de jovens no ensino superior e provocaram um positivo curto-circuito em economias locais de recantos esquecidos desde sempre, as pessoas escolheram o segundo.
Novos atores entraram em cena. Tornaram-se visíveis. Mais do que isso, cidadãos. E, em conseqüência, também consumidores. Abarrotaram as ruas de comércio popular, mas também os shoppings e os aeroportos. Não poucos ficaram incomodados com essas novas companhias nos seus espaços. Afinal, 'praias' durante tanto tempo exclusivas foram 'invadidas'.
O incômodo de alguns setores tradicionais ante a emergência desses novos cidadãos alimentou a narrativa preconceituosa dominante na imprensa. Os bem-pensantes contribuíam com suas 'análises' a respeito do 'populismo'. Os menos sofisticados falavam em 'bolsa-esmola'...
Passado o vendaval das fortes emoções provocadas pela presença de Lula no centro do palco, é tempo de se produzir uma rigorosa e crítica sociologia da 'Era Lula'. Quem desejar assumir essa tarefa deve se lembrar de um alerta, formulada há décadas por outro grande cientista social, este brasileiro, que apontava a necessidade de superarmos análises que apenas 'arranham a superfície' dos fenômenos. Refiro-me a Florestan Fernandes, alguém que desdenhava, com ironia corrosiva, o mundo pintado pelos bem-pensantes.
Edmilson Lopes Júnior é professor de sociologia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
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No final da década de 1950, Wright Mills, um dos mais brilhantes cientistas sociais norte-americanos da segunda metade do século XX, chamava à atenção, em uma obra intitulada A imaginação sociológica, para o fato de que as pessoas tendem a reclamar dos seus problemas cotidianos buscando causas explicativas no seu entorno imediato. Para ele, a maioria das não consegue estabelecer relações causais entre os sofrimentos vivenciados individualmente e as estruturas sociais mais amplas, expressas em tendências econômicas, dinâmicas demográficas e relações de classes, dentre outras. Ao contrário do que pensava o grande sociólogo não são apenas as 'pessoas comuns' que agem assim. Ultimamente tem sido essa também essa a reação de muitos dos que se pretendem analistas do mundo social no Brasil. Em especial quando o objeto de análise diz respeito, direta ou indiretamente, ao governo do agora ex-presidente Lula.
Na última semana, marcada pela despedida de um presidente com inéditos 87% de avaliação positiva por parte da população, assistimos ou lemos os nossos 'bem pensantes', especialmente aqueles auto-identificados como 'cientistas políticos', produzindo lugares-comuns e vendendo-os como análises científicas. Nestas, via de regra, a popularidade do ex-presidente resultaria de sua 'capacidade de comunicação', dos ventos favoráveis da economia internacional e do Programa Bolsa-Família. Platitudes e lugares-comuns substituem, assim, a necessidade de perscrutar com mais rigor a realidade.
Poucos analistas se preocuparam em produzir alguma explicação para o espantoso fato de que a popularidade do ex-presidente tenha ocorrido concomitante a uma das mais agressivas reações dos principais órgãos da imprensa nativa a um Presidente da República. Para usar surrado bordão, nunca antes na história deste país um mandatário foi tão hostilizado, quando não ridicularizado, como o Lula durante os últimos oito anos.
Como o bolsa-família, o Prouni e as políticas de micro-créditos, dentre outros instrumentos de transferência de renda, não atingem, nem de longe, aquele contingente populacional que, a cada nova pesquisa, identificava o Governo Lula como 'ótimo' e 'bom', restou aos 'bem-pensantes' apelar para o velho preconceito de classe: os 'de baixo' não teriam muito apreço pela ética. Ou pelas instituições democráticas.
Houve quem chamasse a atenção para o 'carisma' do ex-presidente. Mas este foi definido como uma característica pessoal. Mesmo gente que citava Max Weber, autor de célebre elaboração sobre a 'dominação carismática', esquecia que, para o pensador alemão do início do século, carisma, na vida política, é um fenômeno relacional, não uma particularidade desse ou daquele indivíduo. Analisar os motivos e reações dos 'seguidores' do líder supostamente 'carismático' é sempre o exercício mais importante. Exatamente o que era apenas superficialmente tocado.
Os 'bem-pensantes' esqueceram as pessoas. E estas, ao contrário do que supõem os que se alimentam dos próprios preconceitos que secretam, são reflexivas. Fazem comparações e escolhas. Entre um lado que fazia discursos 'em defesa da ética', mas ainda ontem praticara uma selvagem 'privataria', e o lado que apresentava políticas sociais que tiraram 15 milhões da pobreza, incluíram milhares de jovens no ensino superior e provocaram um positivo curto-circuito em economias locais de recantos esquecidos desde sempre, as pessoas escolheram o segundo.
Novos atores entraram em cena. Tornaram-se visíveis. Mais do que isso, cidadãos. E, em conseqüência, também consumidores. Abarrotaram as ruas de comércio popular, mas também os shoppings e os aeroportos. Não poucos ficaram incomodados com essas novas companhias nos seus espaços. Afinal, 'praias' durante tanto tempo exclusivas foram 'invadidas'.
O incômodo de alguns setores tradicionais ante a emergência desses novos cidadãos alimentou a narrativa preconceituosa dominante na imprensa. Os bem-pensantes contribuíam com suas 'análises' a respeito do 'populismo'. Os menos sofisticados falavam em 'bolsa-esmola'...
Passado o vendaval das fortes emoções provocadas pela presença de Lula no centro do palco, é tempo de se produzir uma rigorosa e crítica sociologia da 'Era Lula'. Quem desejar assumir essa tarefa deve se lembrar de um alerta, formulada há décadas por outro grande cientista social, este brasileiro, que apontava a necessidade de superarmos análises que apenas 'arranham a superfície' dos fenômenos. Refiro-me a Florestan Fernandes, alguém que desdenhava, com ironia corrosiva, o mundo pintado pelos bem-pensantes.
Edmilson Lopes Júnior é professor de sociologia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
"Não acreditar em Deus é um atalho para a felicidade" - Ciência - Notícia - VEJA.com
"Não acreditar em Deus é um atalho para a felicidade" - Ciência - Notícia - VEJA.com
Quando o filósofo americano Sam Harris soube que o atentado ao World Trade Center em Nova York (Estados Unidos), no dia 11 de setembro de 2001, teve motivações religiosas, a briga passou a ser pessoal. Harris publicou em 2004 o livro A Morte da Fé (Companhia das Letras) — uma brutal investida contra as religiões, segundo ele, responsáveis pelo sofrimento desnecessário de milhões. Para Harris, os únicos anjos que deveríamos invocar são a ‘razão’, a ‘honestidade’ e o ‘amor’.
Ao entrar de cabeça em um assunto tão delicado, o filósofo de 43 anos conquistou uma legião de inimigos e deu início a uma espécie de combate literário. Em resposta à repercussão de seu primeiro livro, que levou à publicação de livros-resposta sob as perspectivas muçulmana, católica e outras, os ataques de Harris à fé religiosa continuaram em 2006, com o lançamento do livro Carta a Uma Nação Cristã (Companhia das Letras).
Criado em um lar secular, que nunca discutiu a existência de Deus e nunca criticou outras religiões, Harris recebeu o título de Doutor em Neurociência em 2009 pela Universidade da Califórnia (Estados Unidos). A pesquisa de doutorado serviu como base para seu terceiro livro, lançado em outubro de 2010: The Moral Landscape (sem edição brasileira). Nele, Harris conquista novos inimigos, dessa vez cientistas.
Agora, Harris tenta utilizar a razão e a investigação científica para resolver problemas morais, sugerindo a criação do que ele chama de "ciência da moralidade". Ele afirma que o bem-estar humano está relacionado a estados mentais mensuráveis pela neurociência e, por isso, seria possível investigar a felicidade humana sob essa ótica — algo com que a maioria dos cientistas está longe de concordar.
A ciência da moralidade substituiria a religião no papel de dizer o que é bom ou mau. Esse ‘novo ateísmo’ rendeu a Harris e outros três autores proeminentes — Daniel Dennet, Richard Dawkins e Christopher Hitchens — o título de 'Cavaleiros do Apocalipse'.
Em entrevista ao site de VEJA, Harris explica os pontos mais sensíveis de sua argumentação, e afirma que descrer de Deus é um atalho para a felicidade.
Por que a moralidade e as definições do bem e do mal não deveriam ser deixadas para a religião? O problema com relação à Religião é que ela dissocia as questões do bem e do mal da questão do bem-estar. Por isso, a religião ignora o sofrimento em certas situações, e em outras chega a incentivá-lo. Deixe-me dar um exemplo. Ao se opor aos métodos contraceptivos, a doutrina da Igreja Católica causa sofrimento. É coerente com seus dogmas, embora eles levem crianças a nascerem na pobreza extrema e pessoas a serem infectadas pela aids, por fazerem sexo sem camisinha. Através das eras, os dogmas contribuíram para a miséria humana de maneira tremenda e desnecessária.
Nem toda moralidade é baseada em religião. Existe uma longa tradição de pensamento moral secular por meio da filosofia. O que há de errado com essa tradição? Não há nada de errado com ela a não ser o fato de que a maior parte das discussões filosóficas seculares são confusas e irrelevantes para as questões importantes na vida humana. Deveria ser consenso o apreço ao bem-estar humano. Se alguma coisa é má, é porque ela causa um grande e desnecessário sofrimento ou impede a felicidade das pessoas. Se alguma coisa é boa, é porque ela faz o contrário. Mas existem filósofos seculares batendo cabeça em debates entediantes, dizendo que não podemos falar de verdade moral. Segundo eles, cada cultura deve ser livre para inventar seus ideais morais sem ser perturbado por outros. Isso é loucura. Hoje reconhecemos que a escravidão, que era praticada por muitas culturas, era fonte de sofrimento. Nesse caso, deixamos para trás o relativismo. Por que não podemos fazer o mesmo em outros casos?
Você parece sugerir que a tolerância a outros credos não é uma virtude, como a maioria pensa. Por quê? É um posicionamento inicial muito bom. A tolerância é a inclinação para evitar conflito com outras pessoas. É como queremos que a maioria se comporte a maior parte do tempo quando se depara com diferenças culturais. Mas quando as diferenças se tornam extremas e a disparidade na sabedoria moral se torna incrivelmente óbvia, então, a tolerância não é mais uma opção. A tolerância à intolerância nada mais é do que covardia. Não podemos tolerar uma jihad global. A ideia de que se pode chegar ao paraíso explodindo pessoas inocentes não é um arranjo tolerável. Temos que combater essas coisas por meio da intolerância às pessoas que estão comprometidas com essa ideologia. Não acredito que seria possível sentar à mesa com, por exemplo, Osama Bin Laden e convencê-lo que a forma como ele enxerga o mundo é errada.
Por que a ciência deveria ditar o que é certo e o que é errado? Temos que reconhecer que as questões morais possuem respostas corretas. Se o bem-estar humano surge a partir de certas causas, inclusive neurológicas, quer dizer que existem formas certas e erradas para procurar a felicidade e evitar a infelicidade. E se as respostas corretas existem, elas podem ser investigadas pela ciência. Chamo de ciência o nosso melhor esforço em fazer afirmativas honestas sobre a natureza do mundo, tendo como base a razão e as evidências.
O que é a ciência da moralidade e o que ela quer conquistar? É a ciência da mente humana e das variáveis que afetam a nossa experiência do mundo para o bem ou para o mal. Ela pretende discutir, por exemplo, o que acontece com mulheres e garotas que são forçadas a utilizarem a burca [vestimenta muçulmana que cobre todo o corpo da mulher]. São efeitos neurológicos, psicológicos, sociológicos que afetam o bem-estar dos seres humanos. Com a burca, sabemos que é ruim para as mulheres e para a sociedade. Se metade de uma sociedade é forçada a ser analfabeta e economicamente improdutiva, mas ter quantos filhos conseguir, fica óbvio que essa é uma estratégia ruim para construir uma população que prospera. O objetivo é entender o bem-estar humano. Assim como queremos fazer convergir os princípios do conhecimento, queremos que as pessoas sejam racionais, que avaliem as evidências, que sejam intelectualmente honestas e que não sejam guiadas por ilusões. A Ciência da Moralidade pretende aumentar as possibilidades da felicidade humana.
O senhor afirma que há um muro dividindo a ciência e a moralidade. No que ele consiste? Existem razões boas e ruins para a existência desse muro. A boa é que os cientistas reconhecem que os elementos relevantes ao bem-estar humano são extremamente complicados. Sabemos muito pouco sobre o cérebro, por exemplo, para entender todos os aspectos da mente humana. A ciência espera um dia responder essas questões e isso é muito bom. A razão ruim é que muitos cientistas foram confundidos pela filosofia a pensar que a ciência é um espaço sem valores. E a moralidade está, por definição, na seara dos valores. Esse muro não será destruído enquanto não admitirmos que a moralidade está relacionada à experiência humana, que por sua vez está relacionada com o cérebro e com a forma pela qual o universo se apresenta. Ou seja, por elementos que podem ser investigados pela ciência.
Quais avanços científicos lhe fazem pensar que, agora, a moralidade pode ser tratada a partir do ponto de vista do laboratório? Temos condição de dizer quando uma pessoa está olhando para um rosto, ou uma casa, ou um animal, ou quais palavras ela está pensando dentro de uma lista. Esse nível cru de diferenciação de estados mentais está definitivamente ao alcance da ciência. Sabemos quando uma pessoa está sentindo medo ou amor. Por causa disso podemos, em princípio, pegar uma pessoa que diz não ser racista, colocá-la em um medidor e verificar se ela está falando a verdade. Não apenas isso, podemos descobrir se ela está mentindo para si mesma ou para as outras pessoas. A tecnologia já chegou a esse nível, mas não conseguimos ler a mente das pessoas com detalhes. É possível que futuramente possamos descobrir coisas sobre a nossa subjetividade de que não temos consciência, utilizando experimentos científicos. E isso tudo se relaciona ao bem-estar humano e o modo como as pessoas ficam felizes e como poderemos viver juntos para maximizar a possibilidade de ter vidas que valham a pena.
Por que deveríamos confiar a educação dos nossos filhos aos valores científicos? Os cientistas não se transformariam, com o tempo, em algo como padres, mas com uma ‘batina’ diferente? Cientistas não são padres. Os médicos, por exemplo, agem sob o pensamento da medicina, que, como fonte de autoridade, não se tornou arrogante ou limitou a liberdade das pessoas de maneira assustadora. É uma disciplina que está concentrada em entender a vida humana e minimizar o sofrimento físico. Seu médico nunca vai até você ‘pregar’ sobre os preceitos da ciência, você vai até ele quando precisa. Pais que se deixam guiar por dogmas religiosos não dão remédios aos filhos e os deixam morrer. Na ciência não existem dogmas. Qualquer afirmação pode ser contestada de maneira sensata e honesta.
O que dizer dos experimentos neurológicos que sugerem que a crença religiosa está embutida nos nossos cérebros? Não acho que a crença religiosa esteja embutida no cérebro humano. Mas digamos que esteja. Façamos um paralelo com a bruxaria. Pode ser que a crença em bruxaria estivesse embutida em nossos cérebros. A bruxaria matou muitos seres humanos, assim como a religião. Todas as culturas tradicionais acreditaram em algum momento em bruxas e no poder de magia e, na verdade, a crença na reza possui um conceito semelhante. Algumas pessoas dizem que sempre acreditaremos em bruxas, que a saúde humana será afetada pela 'magia' de vizinhos. Na África, muitas pessoas realmente acreditam em bruxaria e isso é terrível porque causa sofrimento desnecessário. Quando não se entende porque as pessoas ficam doentes, ou porque as crianças morrem antes dos três anos, você está num estado de ignorância que a crença em bruxaria está suprindo uma necessidade de maneira nociva. Superamos isso no mundo desenvolvido por causa do avanço da Ciência. Sabemos como a agricultura é afetada, por exemplo. Entendemos os fenômenos meteorológicos e a biologia das plantas. Não é algo que a religião resolve, e sim a ciência. Mas costumava ser assim. A crença na regência de um deus sobre a lavoura era universal.
As pessoas deveriam parar de acreditar em Deus? Se eu acho que as pessoas deveriam parar de acreditar no Deus da Bíblia? Com certeza. Da mesma forma que as pessoas pararam de acreditar em Zeus, em Thor e milhares de deuses mortos. O Deus da Bíblia tem exatamente o mesmo status desses deuses mortos. É um acidente histórico estarmos falando dele e não de Zeus. Poderíamos estar vivendo num mundo onde os suicidas muçulmanos se explodiriam por causa de ideias dos deuses do Monte Olimpo. A diferença entre xiitas e sunitas muçulmanos é a mesma diferença entre seguidores de Apolo e seguidores de Dionísio.
O senhor sempre foi ateu? Nunca me considerei um ateu, nem mesmo ao escrever meu primeiro livro. Todos somos ateus em relação a Zeus e Thor. Eu era um ateu em relação a eles e ao deus de Abraão. Mas nunca me considerei um ateu, como a maioria das pessoas não se considera pagã em relação aos deuses do Monte Olimpo. Foi no 11 de setembro de 2001, dia do atentado ao World Trade Center em Nova York, que senti que criticar a religião publicamente havia se tornado uma necessidade moral e intelectual. Antes disso eu era apenas um descrente. Eu nunca havia lido livros ateus, ou tivera qualquer conexão com a comunidade ateísta. O ateísmo não é um conceito que considere interessante ou útil. Temos que falar sobre razão, evidências, verdade, honestidade intelectual — todas essas coisas são virtudes que nos deram a ciência e todo tipo de comportamento pacífico e cooperativo. Não é preciso dizer que você é contra algo para advogar em favor da honestidade intelectual. Foi justamente isso que destruiu os dogmas religiosos.
O senhor cresceu em um ambiente religioso? Cresci em um ambiente completamente secular, mas não havia crítica às religiões ou discussões sobre ateísmo, existência de Deus etc. Quando era adolescente, fiquei muito interessado em religiões e experiências religiosas. Coisas como meditação, por exemplo. Aos vinte, comecei a estudar espiritualidade e misticismo. Ainda me interesso por essas coisas, mas acho que, para experimentar, não precisamos acreditar em nada que não possua evidencias suficientes.
Como o senhor se sente em ser rotulado como um dos ‘Quatro Cavaleiros do Apocalipse’? Estou muito feliz com a companhia! É uma honra. A associação não me desagrada de forma alguma. Acho que os quatro lucraram por terem sido reunidos e tratados como uma pessoa de quatro cabeças. Em alguns momentos é um desserviço porque nossos argumentos não são exatamente os mesmos e não acreditamos nas mesmas coisas em todos os pontos. Mas tem sido útil sob o ponto de vista das publicações e admiro muito os outros cavaleiros — os considero mentores e amigos. A parte do apocalipse tem um efeito cômico.
Se o senhor tivesse a chance de se encontrar com o Papa para um longo e honesto bate-papo, qual seria sua primeira pergunta? Gostaria de falar imediatamente sobre o escândalo do estupro infantil dentro da Igreja Católica. Acho que o Papa é culpável por tudo que aconteceu. A evidência nesse momento sugere que ele estava entre as pessoas que conseguiram fazer prolongar o sofrimento de crianças por muitos anos. Acho que ele trabalhou ativamente para proteger a Igreja do constrangimento e no processo conseguiu garantir que os estupradores tivessem acesso às crianças por décadas além do que deveria ter sido. O Papa deveria ser diretamente desafiado por causa disso. Contudo, é algo que seu status como líder religioso impede que aconteça. Ele nunca seria protegido dessa forma se ele estivesse em qualquer outra posição na sociedade. Imagine o que aconteceria se descobrissem que o reitor da Universidade de Harvard [uma das universidades americanas mais respeitadas do mundo] tivesse permitido que empregados da universidade estuprassem crianças por décadas e ele tivesse mudado essas pessoas de departamento para protegê-las da justiça secular? Ele estaria na cadeia agora. E isso é impensável quando se fala do Papa. Isso acontece por que nos ensinaram a tratar a religião com deferência.
Quando o filósofo americano Sam Harris soube que o atentado ao World Trade Center em Nova York (Estados Unidos), no dia 11 de setembro de 2001, teve motivações religiosas, a briga passou a ser pessoal. Harris publicou em 2004 o livro A Morte da Fé (Companhia das Letras) — uma brutal investida contra as religiões, segundo ele, responsáveis pelo sofrimento desnecessário de milhões. Para Harris, os únicos anjos que deveríamos invocar são a ‘razão’, a ‘honestidade’ e o ‘amor’.
Divulgação
"A Ciência é capaz de dizer o que é certo e o que é errado", diz Sam Harris
Criado em um lar secular, que nunca discutiu a existência de Deus e nunca criticou outras religiões, Harris recebeu o título de Doutor em Neurociência em 2009 pela Universidade da Califórnia (Estados Unidos). A pesquisa de doutorado serviu como base para seu terceiro livro, lançado em outubro de 2010: The Moral Landscape (sem edição brasileira). Nele, Harris conquista novos inimigos, dessa vez cientistas.
Agora, Harris tenta utilizar a razão e a investigação científica para resolver problemas morais, sugerindo a criação do que ele chama de "ciência da moralidade". Ele afirma que o bem-estar humano está relacionado a estados mentais mensuráveis pela neurociência e, por isso, seria possível investigar a felicidade humana sob essa ótica — algo com que a maioria dos cientistas está longe de concordar.
A ciência da moralidade substituiria a religião no papel de dizer o que é bom ou mau. Esse ‘novo ateísmo’ rendeu a Harris e outros três autores proeminentes — Daniel Dennet, Richard Dawkins e Christopher Hitchens — o título de 'Cavaleiros do Apocalipse'.
Em entrevista ao site de VEJA, Harris explica os pontos mais sensíveis de sua argumentação, e afirma que descrer de Deus é um atalho para a felicidade.
Por que a moralidade e as definições do bem e do mal não deveriam ser deixadas para a religião? O problema com relação à Religião é que ela dissocia as questões do bem e do mal da questão do bem-estar. Por isso, a religião ignora o sofrimento em certas situações, e em outras chega a incentivá-lo. Deixe-me dar um exemplo. Ao se opor aos métodos contraceptivos, a doutrina da Igreja Católica causa sofrimento. É coerente com seus dogmas, embora eles levem crianças a nascerem na pobreza extrema e pessoas a serem infectadas pela aids, por fazerem sexo sem camisinha. Através das eras, os dogmas contribuíram para a miséria humana de maneira tremenda e desnecessária.
Nem toda moralidade é baseada em religião. Existe uma longa tradição de pensamento moral secular por meio da filosofia. O que há de errado com essa tradição? Não há nada de errado com ela a não ser o fato de que a maior parte das discussões filosóficas seculares são confusas e irrelevantes para as questões importantes na vida humana. Deveria ser consenso o apreço ao bem-estar humano. Se alguma coisa é má, é porque ela causa um grande e desnecessário sofrimento ou impede a felicidade das pessoas. Se alguma coisa é boa, é porque ela faz o contrário. Mas existem filósofos seculares batendo cabeça em debates entediantes, dizendo que não podemos falar de verdade moral. Segundo eles, cada cultura deve ser livre para inventar seus ideais morais sem ser perturbado por outros. Isso é loucura. Hoje reconhecemos que a escravidão, que era praticada por muitas culturas, era fonte de sofrimento. Nesse caso, deixamos para trás o relativismo. Por que não podemos fazer o mesmo em outros casos?
Você parece sugerir que a tolerância a outros credos não é uma virtude, como a maioria pensa. Por quê? É um posicionamento inicial muito bom. A tolerância é a inclinação para evitar conflito com outras pessoas. É como queremos que a maioria se comporte a maior parte do tempo quando se depara com diferenças culturais. Mas quando as diferenças se tornam extremas e a disparidade na sabedoria moral se torna incrivelmente óbvia, então, a tolerância não é mais uma opção. A tolerância à intolerância nada mais é do que covardia. Não podemos tolerar uma jihad global. A ideia de que se pode chegar ao paraíso explodindo pessoas inocentes não é um arranjo tolerável. Temos que combater essas coisas por meio da intolerância às pessoas que estão comprometidas com essa ideologia. Não acredito que seria possível sentar à mesa com, por exemplo, Osama Bin Laden e convencê-lo que a forma como ele enxerga o mundo é errada.
Por que a ciência deveria ditar o que é certo e o que é errado? Temos que reconhecer que as questões morais possuem respostas corretas. Se o bem-estar humano surge a partir de certas causas, inclusive neurológicas, quer dizer que existem formas certas e erradas para procurar a felicidade e evitar a infelicidade. E se as respostas corretas existem, elas podem ser investigadas pela ciência. Chamo de ciência o nosso melhor esforço em fazer afirmativas honestas sobre a natureza do mundo, tendo como base a razão e as evidências.
O que é a ciência da moralidade e o que ela quer conquistar? É a ciência da mente humana e das variáveis que afetam a nossa experiência do mundo para o bem ou para o mal. Ela pretende discutir, por exemplo, o que acontece com mulheres e garotas que são forçadas a utilizarem a burca [vestimenta muçulmana que cobre todo o corpo da mulher]. São efeitos neurológicos, psicológicos, sociológicos que afetam o bem-estar dos seres humanos. Com a burca, sabemos que é ruim para as mulheres e para a sociedade. Se metade de uma sociedade é forçada a ser analfabeta e economicamente improdutiva, mas ter quantos filhos conseguir, fica óbvio que essa é uma estratégia ruim para construir uma população que prospera. O objetivo é entender o bem-estar humano. Assim como queremos fazer convergir os princípios do conhecimento, queremos que as pessoas sejam racionais, que avaliem as evidências, que sejam intelectualmente honestas e que não sejam guiadas por ilusões. A Ciência da Moralidade pretende aumentar as possibilidades da felicidade humana.
O senhor afirma que há um muro dividindo a ciência e a moralidade. No que ele consiste? Existem razões boas e ruins para a existência desse muro. A boa é que os cientistas reconhecem que os elementos relevantes ao bem-estar humano são extremamente complicados. Sabemos muito pouco sobre o cérebro, por exemplo, para entender todos os aspectos da mente humana. A ciência espera um dia responder essas questões e isso é muito bom. A razão ruim é que muitos cientistas foram confundidos pela filosofia a pensar que a ciência é um espaço sem valores. E a moralidade está, por definição, na seara dos valores. Esse muro não será destruído enquanto não admitirmos que a moralidade está relacionada à experiência humana, que por sua vez está relacionada com o cérebro e com a forma pela qual o universo se apresenta. Ou seja, por elementos que podem ser investigados pela ciência.
Quais avanços científicos lhe fazem pensar que, agora, a moralidade pode ser tratada a partir do ponto de vista do laboratório? Temos condição de dizer quando uma pessoa está olhando para um rosto, ou uma casa, ou um animal, ou quais palavras ela está pensando dentro de uma lista. Esse nível cru de diferenciação de estados mentais está definitivamente ao alcance da ciência. Sabemos quando uma pessoa está sentindo medo ou amor. Por causa disso podemos, em princípio, pegar uma pessoa que diz não ser racista, colocá-la em um medidor e verificar se ela está falando a verdade. Não apenas isso, podemos descobrir se ela está mentindo para si mesma ou para as outras pessoas. A tecnologia já chegou a esse nível, mas não conseguimos ler a mente das pessoas com detalhes. É possível que futuramente possamos descobrir coisas sobre a nossa subjetividade de que não temos consciência, utilizando experimentos científicos. E isso tudo se relaciona ao bem-estar humano e o modo como as pessoas ficam felizes e como poderemos viver juntos para maximizar a possibilidade de ter vidas que valham a pena.
Por que deveríamos confiar a educação dos nossos filhos aos valores científicos? Os cientistas não se transformariam, com o tempo, em algo como padres, mas com uma ‘batina’ diferente? Cientistas não são padres. Os médicos, por exemplo, agem sob o pensamento da medicina, que, como fonte de autoridade, não se tornou arrogante ou limitou a liberdade das pessoas de maneira assustadora. É uma disciplina que está concentrada em entender a vida humana e minimizar o sofrimento físico. Seu médico nunca vai até você ‘pregar’ sobre os preceitos da ciência, você vai até ele quando precisa. Pais que se deixam guiar por dogmas religiosos não dão remédios aos filhos e os deixam morrer. Na ciência não existem dogmas. Qualquer afirmação pode ser contestada de maneira sensata e honesta.
O que dizer dos experimentos neurológicos que sugerem que a crença religiosa está embutida nos nossos cérebros? Não acho que a crença religiosa esteja embutida no cérebro humano. Mas digamos que esteja. Façamos um paralelo com a bruxaria. Pode ser que a crença em bruxaria estivesse embutida em nossos cérebros. A bruxaria matou muitos seres humanos, assim como a religião. Todas as culturas tradicionais acreditaram em algum momento em bruxas e no poder de magia e, na verdade, a crença na reza possui um conceito semelhante. Algumas pessoas dizem que sempre acreditaremos em bruxas, que a saúde humana será afetada pela 'magia' de vizinhos. Na África, muitas pessoas realmente acreditam em bruxaria e isso é terrível porque causa sofrimento desnecessário. Quando não se entende porque as pessoas ficam doentes, ou porque as crianças morrem antes dos três anos, você está num estado de ignorância que a crença em bruxaria está suprindo uma necessidade de maneira nociva. Superamos isso no mundo desenvolvido por causa do avanço da Ciência. Sabemos como a agricultura é afetada, por exemplo. Entendemos os fenômenos meteorológicos e a biologia das plantas. Não é algo que a religião resolve, e sim a ciência. Mas costumava ser assim. A crença na regência de um deus sobre a lavoura era universal.
As pessoas deveriam parar de acreditar em Deus? Se eu acho que as pessoas deveriam parar de acreditar no Deus da Bíblia? Com certeza. Da mesma forma que as pessoas pararam de acreditar em Zeus, em Thor e milhares de deuses mortos. O Deus da Bíblia tem exatamente o mesmo status desses deuses mortos. É um acidente histórico estarmos falando dele e não de Zeus. Poderíamos estar vivendo num mundo onde os suicidas muçulmanos se explodiriam por causa de ideias dos deuses do Monte Olimpo. A diferença entre xiitas e sunitas muçulmanos é a mesma diferença entre seguidores de Apolo e seguidores de Dionísio.
O senhor sempre foi ateu? Nunca me considerei um ateu, nem mesmo ao escrever meu primeiro livro. Todos somos ateus em relação a Zeus e Thor. Eu era um ateu em relação a eles e ao deus de Abraão. Mas nunca me considerei um ateu, como a maioria das pessoas não se considera pagã em relação aos deuses do Monte Olimpo. Foi no 11 de setembro de 2001, dia do atentado ao World Trade Center em Nova York, que senti que criticar a religião publicamente havia se tornado uma necessidade moral e intelectual. Antes disso eu era apenas um descrente. Eu nunca havia lido livros ateus, ou tivera qualquer conexão com a comunidade ateísta. O ateísmo não é um conceito que considere interessante ou útil. Temos que falar sobre razão, evidências, verdade, honestidade intelectual — todas essas coisas são virtudes que nos deram a ciência e todo tipo de comportamento pacífico e cooperativo. Não é preciso dizer que você é contra algo para advogar em favor da honestidade intelectual. Foi justamente isso que destruiu os dogmas religiosos.
O senhor cresceu em um ambiente religioso? Cresci em um ambiente completamente secular, mas não havia crítica às religiões ou discussões sobre ateísmo, existência de Deus etc. Quando era adolescente, fiquei muito interessado em religiões e experiências religiosas. Coisas como meditação, por exemplo. Aos vinte, comecei a estudar espiritualidade e misticismo. Ainda me interesso por essas coisas, mas acho que, para experimentar, não precisamos acreditar em nada que não possua evidencias suficientes.
Como o senhor se sente em ser rotulado como um dos ‘Quatro Cavaleiros do Apocalipse’? Estou muito feliz com a companhia! É uma honra. A associação não me desagrada de forma alguma. Acho que os quatro lucraram por terem sido reunidos e tratados como uma pessoa de quatro cabeças. Em alguns momentos é um desserviço porque nossos argumentos não são exatamente os mesmos e não acreditamos nas mesmas coisas em todos os pontos. Mas tem sido útil sob o ponto de vista das publicações e admiro muito os outros cavaleiros — os considero mentores e amigos. A parte do apocalipse tem um efeito cômico.
Se o senhor tivesse a chance de se encontrar com o Papa para um longo e honesto bate-papo, qual seria sua primeira pergunta? Gostaria de falar imediatamente sobre o escândalo do estupro infantil dentro da Igreja Católica. Acho que o Papa é culpável por tudo que aconteceu. A evidência nesse momento sugere que ele estava entre as pessoas que conseguiram fazer prolongar o sofrimento de crianças por muitos anos. Acho que ele trabalhou ativamente para proteger a Igreja do constrangimento e no processo conseguiu garantir que os estupradores tivessem acesso às crianças por décadas além do que deveria ter sido. O Papa deveria ser diretamente desafiado por causa disso. Contudo, é algo que seu status como líder religioso impede que aconteça. Ele nunca seria protegido dessa forma se ele estivesse em qualquer outra posição na sociedade. Imagine o que aconteceria se descobrissem que o reitor da Universidade de Harvard [uma das universidades americanas mais respeitadas do mundo] tivesse permitido que empregados da universidade estuprassem crianças por décadas e ele tivesse mudado essas pessoas de departamento para protegê-las da justiça secular? Ele estaria na cadeia agora. E isso é impensável quando se fala do Papa. Isso acontece por que nos ensinaram a tratar a religião com deferência.
Observatório da Imprensa - Venício A. de Lima - Por que a midia nao se autoavalia? - 28/12/2010
Observatório da Imprensa - Venício A. de Lima - Por que a midia nao se autoavalia? - 28/12/2010: "Por Venício A. de Lima em 28/12/2010
Final de ano é tempo de balanços e previsões. Pessoais e institucionais. É momento de parar e refletir sobre o que se fez, identificar erros e acertos, corrigir o que pode ser melhorado, reavaliar caminhos e objetivos, planejar o futuro.
A grande mídia faz avaliações públicas e previsões de e para tudo: de todos os setores do governo, da iniciativa privada, das ONGs, da política, de todas as artes, esportes, religiões, do clima, das tendências... Por óbvio, a grande mídia faz avaliações e previsões internas, como em todas as empresas privadas comerciais que precisam dar conta a acionistas de metas e resultados.
O que a grande mídia não faz são avaliações públicas de si mesma, de seu próprio desempenho, de sua parcialidade, de seus preconceitos, de suas tendências, de suas omissões, de suas escolhas, de seu papel na democracia. O que a grande mídia omite é a avaliação de si mesma como um serviço que, apesar de explorado pela iniciativa privada, não perde sua natureza de serviço público.
Por que será que a mídia, apesar da indiscutível posição de centralidade que ocupa nas sociedades contemporâneas, não pauta o debate sobre seu papel como faz permanentemente em relação a todas as outras instituições na sociedade?
Adaptação do panem et circenses
A explicação da grande mídia será sempre aquela que atribui ao mercado o papel de seu único e supremo avaliador. A grande mídia dirá que é permanentemente avaliada por seus consumidores/leitores/ouvintes/telespectadores e que seu sucesso ou fracasso comercial significa o cumprimento ou não de sua missão e o atendimento ou não das necessidades de seu 'público'. Se o jornal é comprado por X consumidores é porque satisfaz a eles. E essa é a melhor avaliação que pode existir. Essa é uma das versões da conhecida 'teoria do controle remoto': se o consumidor não gosta do que vê, ele pode trocar de canal ou desligar o aparelho de TV.
Como já argumentei em outra oportunidade [ver 'Donos da mídia – A falácia dos argumentos'], a 'teoria do controle remoto' ignora como se formam, se desenvolvem e se consolidam os hábitos culturais, incluindo aqui o hábito de assistir determinados canais e/ou programas de TV ou de ler determinadas revistas e/ou jornais. Este é um fascinante campo da complexa 'sociologia do gosto'. Quando se atribui, sem mais, ao mercado o papel de supremo avaliador, reduz-se toda a problemática da comunicação de massa a uma única dimensão – do 'consumo' individual – e ignora-se a complexa questão da formação social do gosto e do papel determinante que a própria mídia nela desempenha.
Além disso, o argumento pressupõe um mercado de mídia democratizado, onde estariam representadas a pluralidade e a diversidade da sociedade, o que, por óbvio, não existe. Ignora ainda o fato elementar de que não se pode gostar ou deixar de gostar daquilo que não se conhece ou cujas chances de se conhecer são extremamente reduzidas.
No fundo, trata-se de uma adaptação contemporânea [sem as problematizações levantadas por historiadores como Renata Garraffoni] do panem et circenses romano. Naturalmente, o sacrifício de cristãos, entregues às feras em espetáculos públicos, não torna a prática dos imperadores romanos correta. Dito de outra forma, nem tudo que agrada a parcela importante da população é automaticamente ético e correto.
Omissão grave
A transparência que a grande mídia corretamente cobra de outras instituições – públicas e privadas –, ela não pratica em relação a si mesma. Permanecemos em 2010 sendo um país democrático onde sequer existe um cadastro geral com acesso público dos concessionários do serviço de radiodifusão.
A transparência pública aplicada aos grupos dominantes da grande mídia certamente revelaria redes de interesses e compromissos – nem sempre legítimos – dos mais variados tipos, locais e globais. No que se refere à radiodifusão, por exemplo, revelaria os absurdos do 'coronelismo eletrônico' enraizado em diferentes esferas do poder público; a propriedade cruzada como prática garantidora de oligopólios e monopólios; a exclusão de muitos e a liberdade de poucos apresentada e defendida em nome dos valores universais da liberdade de expressão e da liberdade de imprensa.
Ainda não será ao final deste ano de 2010 que a grande mídia fará uma avaliação pública de si mesma. Mas, com certeza, esta omissão grave já não passa despercebida para um número cada vez maior de brasileiros.
– Enviado usando a Barra de Ferramentas Google"
Final de ano é tempo de balanços e previsões. Pessoais e institucionais. É momento de parar e refletir sobre o que se fez, identificar erros e acertos, corrigir o que pode ser melhorado, reavaliar caminhos e objetivos, planejar o futuro.
A grande mídia faz avaliações públicas e previsões de e para tudo: de todos os setores do governo, da iniciativa privada, das ONGs, da política, de todas as artes, esportes, religiões, do clima, das tendências... Por óbvio, a grande mídia faz avaliações e previsões internas, como em todas as empresas privadas comerciais que precisam dar conta a acionistas de metas e resultados.
O que a grande mídia não faz são avaliações públicas de si mesma, de seu próprio desempenho, de sua parcialidade, de seus preconceitos, de suas tendências, de suas omissões, de suas escolhas, de seu papel na democracia. O que a grande mídia omite é a avaliação de si mesma como um serviço que, apesar de explorado pela iniciativa privada, não perde sua natureza de serviço público.
Por que será que a mídia, apesar da indiscutível posição de centralidade que ocupa nas sociedades contemporâneas, não pauta o debate sobre seu papel como faz permanentemente em relação a todas as outras instituições na sociedade?
Adaptação do panem et circenses
A explicação da grande mídia será sempre aquela que atribui ao mercado o papel de seu único e supremo avaliador. A grande mídia dirá que é permanentemente avaliada por seus consumidores/leitores/ouvintes/telespectadores e que seu sucesso ou fracasso comercial significa o cumprimento ou não de sua missão e o atendimento ou não das necessidades de seu 'público'. Se o jornal é comprado por X consumidores é porque satisfaz a eles. E essa é a melhor avaliação que pode existir. Essa é uma das versões da conhecida 'teoria do controle remoto': se o consumidor não gosta do que vê, ele pode trocar de canal ou desligar o aparelho de TV.
Como já argumentei em outra oportunidade [ver 'Donos da mídia – A falácia dos argumentos'], a 'teoria do controle remoto' ignora como se formam, se desenvolvem e se consolidam os hábitos culturais, incluindo aqui o hábito de assistir determinados canais e/ou programas de TV ou de ler determinadas revistas e/ou jornais. Este é um fascinante campo da complexa 'sociologia do gosto'. Quando se atribui, sem mais, ao mercado o papel de supremo avaliador, reduz-se toda a problemática da comunicação de massa a uma única dimensão – do 'consumo' individual – e ignora-se a complexa questão da formação social do gosto e do papel determinante que a própria mídia nela desempenha.
Além disso, o argumento pressupõe um mercado de mídia democratizado, onde estariam representadas a pluralidade e a diversidade da sociedade, o que, por óbvio, não existe. Ignora ainda o fato elementar de que não se pode gostar ou deixar de gostar daquilo que não se conhece ou cujas chances de se conhecer são extremamente reduzidas.
No fundo, trata-se de uma adaptação contemporânea [sem as problematizações levantadas por historiadores como Renata Garraffoni] do panem et circenses romano. Naturalmente, o sacrifício de cristãos, entregues às feras em espetáculos públicos, não torna a prática dos imperadores romanos correta. Dito de outra forma, nem tudo que agrada a parcela importante da população é automaticamente ético e correto.
Omissão grave
A transparência que a grande mídia corretamente cobra de outras instituições – públicas e privadas –, ela não pratica em relação a si mesma. Permanecemos em 2010 sendo um país democrático onde sequer existe um cadastro geral com acesso público dos concessionários do serviço de radiodifusão.
A transparência pública aplicada aos grupos dominantes da grande mídia certamente revelaria redes de interesses e compromissos – nem sempre legítimos – dos mais variados tipos, locais e globais. No que se refere à radiodifusão, por exemplo, revelaria os absurdos do 'coronelismo eletrônico' enraizado em diferentes esferas do poder público; a propriedade cruzada como prática garantidora de oligopólios e monopólios; a exclusão de muitos e a liberdade de poucos apresentada e defendida em nome dos valores universais da liberdade de expressão e da liberdade de imprensa.
Ainda não será ao final deste ano de 2010 que a grande mídia fará uma avaliação pública de si mesma. Mas, com certeza, esta omissão grave já não passa despercebida para um número cada vez maior de brasileiros.
– Enviado usando a Barra de Ferramentas Google"
Observatório da Imprensa - Jürgen Habermas - O valor da noticia - 28/12/2010
Observatório da Imprensa - Jürgen Habermas - O valor da noticia - 28/12/2010: "Por Jürgen Habermas em 28/12/2010
Reproduzido da Folha de S.Paulo, 27/5/2007; publicado originalmente no jornal alemão Süddeutsche Zeitung, tradução de Samuel Titan Jr.
Semanas atrás [N. da R: Base maio de 2007], a página de economia do jornal alemão Die Zeit assustou seus leitores com a manchete 'O quarto poder corre perigo?'. Tratava-se da notícia alarmante de que o Süddeutsche Zeitung rumava para um futuro econômico de incertezas.
A maioria dos acionistas quer se ver livre do jornal; caso as coisas se encaminhem para um leilão, é possível que um dos dois bons diários supra-regionais da Alemanha [o outro é o Frankfurter Allgemeine] caia nas mãos de investidores privados, fundos de investimento ou conglomerados de mídia.
Haverá quem diga: 'Business as usual' [negócios, como sempre]. O que poderia haver de alarmante no fato de que os proprietários queiram fazer uso de seu direito de se desfazer de seus negócios, sejam quais forem seus motivos?
A crise dos jornais, desencadeada no começo de 2002 pelo colapso do mercado publicitário, ficou para trás – no Süddeutsche Zeitung e em outros órgãos de imprensa da mesma dimensão. As famílias que agora se dispõem a vender sua participação detêm 62,5% das ações e escolheram um momento propício.
Apesar da concorrência digital e dos novos hábitos de leitura, os lucros vêm aumentando.
Deixando de lado a boa conjuntura econômica, os lucros se devem sobretudo a medidas de racionalização com impacto direto sobre o desempenho e a margem de manobra das redações. Notícias bombásticas à maneira do jornalismo norte-americano ditam a tendência atual.
Assim, por exemplo, o Boston Globe, um dos poucos jornais de centro-esquerda dos EUA, teve que renunciar a todos os seus correspondentes no estrangeiro, enquanto os grandes encouraçados da imprensa nacional – como o Washington Post e o New York Times – temem a capitulação diante de fundos ou conglomerados ávidos por 'sanear' jornais em vista de taxas de lucro descabidas; no caso do Los Angeles Times, esse já é fato consumado.
Jugo do lucro
Há três semanas, o Die Zeit voltou à carga, falando de um 'ataque de Wall Street à imprensa dos EUA'.
O que há por trás desse tipo de manchete? Certamente, o temor de que os mercados não façam justiça à dupla função que a imprensa de qualidade até hoje desempenhou: atender à demanda por informação e formação, sem comprometer taxas de lucro aceitáveis.
Mas os lucros em alta não serão uma confirmação de que jornais ‘enxutos’ satisfazem melhor os desejos de seus consumidores?
Conceitos vagos como 'profissional', 'arrojado' ou 'sério' não servem apenas para velar a preeminência concedida ao leitor adulto, que sabe o que quer?
A imprensa terá o direito de, sob o pretexto da 'qualidade', cercear a liberdade de escolha de seus leitores?
Por que forçar a leitura de reportagens áridas em vez de infotainment [fusão, em inglês, das palavras 'information' e 'entertainment', informação e entretenimento], comentários objetivos e argumentos circunstanciados, ao invés de encenações apelativas de personalidades e acontecimentos?
A objeção que se manifesta nessas questões se baseia na suposição polêmica de que os consumidores escolhem com autonomia, segundo suas preferências pessoais. Mas essa espécie de verdade acaciana certamente induz ao erro quando se trata de uma mercadoria tão peculiar quanto a informação política e cultural. Pois essa mercadoria a um só tempo atende e transforma as preferências de seus consumidores.
Formação em massa
Não há dúvida de que leitores, ouvintes e espectadores seguem suas preferências ao fazer uso dos meios de comunicação: querem se divertir ou se distrair, querem se informar ou tomar parte em debates públicos.
Mas, quando se interessam por um programa político ou cultural, quando recebem a 'bênção matinal realista' da leitura de jornais, todos se expõem – com alguma medida de autopaternalismo- a um processo de aprendizado de resultados imprevisíveis.
No curso de uma leitura, novas preferências, convicções ou juízos podem se formar.
A metapreferência que orienta uma tal leitura se dirige então àquelas prioridades que se exprimem na auto-imagem de um jornalismo independente e que fundamentam o prestígio da imprensa de qualidade.
A polêmica sobre o caráter peculiar da mercadoria 'informação e formação' faz pensar no slogan que fez furor quando do surgimento da televisão: essa nova mídia não seria mais que 'uma torradeira com imagens'.
Pensava-se que a produção e o consumo de programas televisivos podiam ser deixados inteiramente a cargo do mercado. Desde então, as empresas de comunicação cuidam de fornecer programas para seus espectadores enquanto vendem a atenção do público a seus anunciantes.
Sempre que imperou sem peias, esse modo de organização causou danos políticos e culturais. O sistema 'híbrido' de televisão [na Alemanha] é uma tentativa de remediar o mal.
E as leis locais, as decisões de tribunais federais e os princípios de programação das emissoras públicas refletem a noção de que as mídias eletrônicas não devem satisfazer apenas as necessidades mais comercializáveis dos consumidores.
Ouvintes e espectadores não são apenas consumidores mas também cidadãos com direito à participação cultural, à observação da vida política e à voz na formação de opinião.
Com base nesses direitos, não é o caso de deixar programas voltados a tais necessidades fundamentais da população à mercê da conveniência publicitária ou do apoio de patrocinadores.
Mais ainda, as taxas que financiam esses serviços também não devem variar ao sabor dos orçamentos locais, isto é, da conjuntura econômica – é o que argumentam algumas emissoras num processo contra os governos locais, em trâmite no Supremo Tribunal Federal alemão.
A idéia de uma reserva pública voltada para a mídia eletrônica pode ser interessante.
Mas algo assim poderia servir de modelo para a organização de jornais e revistas 'sérios', como o Süddeutsche Zeitung ou o Frankfurter Allgemeine Zeitung, Die Zeit ou Der Spiegel, para não falar das revistas mensais mais ambiciosas?
Efeito político
O resultado de um estudo sobre fluxos de comunicação pode ter interesse nesse contexto: ao menos no âmbito da comunicação política – ou seja, para o leitor enquanto cidadão –, a imprensa de qualidade desempenha um papel de 'liderança': o noticiário político do rádio e da televisão depende em larga escala dos temas e das contribuições provenientes do jornalismo 'argumentativo'.
Suponhamos que uma dessas redações caia nas mãos de investidores que trabalham com lucros rápidos e prazos curtos: a reestruturação e o enxugamento nesses lugares estratégicos não tardarão a pôr em risco os padrões jornalísticos e a afetar em cheio a vida política.
Pois a comunicação pública perde vitalidade discursiva quando lhe falta informação fundamentada ou discussão vivaz, coisas que não se obtêm sem custos.
A esfera pública não teria mais como opor resistência às tendências populistas e não seria mais capaz de desempenhar funções que lhe cabem no quadro de um Estado democrático de Direito.
Vivemos em sociedades pluralistas. O processo de decisão democrático só pode ultrapassar as cisões profundas entre visões de mundo opostas se houver algum vínculo legitimador aos olhos de todos os cidadãos.
O processo de decisão deve conjugar inclusão (isto é, a participação universal em pé de igualdade) e condução discursiva do conflito de opiniões.
Pois tão-somente a discussão deliberativa fundamenta a suposição de que, no longo prazo, os processos democráticos propiciam resultados mais ou menos racionais.
A formação de opinião por via democrática tem uma dimensão epistêmica, uma vez que envolve a crítica de afirmações e juízos errôneos.
Esse é o papel de uma esfera pública dotada de vitalidade discursiva.
Esse papel se evidencia intuitivamente tão logo se tenha em mente a diferença entre o conflito público de opiniões concorrentes e a divulgação de pesquisas de opinião.
Opiniões que se formam por meio de discussão e polêmica são, a despeito de toda dissonância, filtradas por informações e argumentos, enquanto as pesquisas de opinião apenas invocam opiniões latentes em estado bruto ou inerte.
Mediação
É claro que os fluxos díspares de comunicação numa esfera pública dominada pelos meios de comunicação de massa não permitem o tipo de discussão ou consulta regrada que tem lugar em tribunais ou sessões parlamentares.
Mas isso também não é necessário, pois a esfera pública é apenas um dos elos relevantes: ela faz as vezes de mediação entre discursos e discussões nos foros do Estado, de um lado, e as conversas episódicas ou informais de eleitores potenciais, de outro.
A esfera pública dá sua contribuição à legitimação democrática da ação estatal ao selecionar temas de relevância política, elabora-os polemicamente e os vincula a correntes de opinião divergentes.
Por essa via, a comunicação pública estimula e orienta a formação da opinião e do voto, ao mesmo tempo em que exige transparência e prontidão do sistema político.
Sem o impulso de uma imprensa voltada à formação de opinião, capaz de fornecer informação confiável e comentário preciso, a esfera pública não tem como produzir essa energia.
Quando se trata de gás, eletricidade ou água, o Estado tem a obrigação de prover as necessidades energéticas da população.
Por que não seria igualmente obrigado a prover essa outra espécie de ‘energia’, sem a qual o próprio Estado democrático pode acabar avariado?
O Estado não comete nenhuma 'falha sistêmica' quando intervém em casos específicos para tentar preservar esse bem público que é a imprensa de qualidade.
Melhores resultados
O problema é apenas de ordem pragmática: como se alcançam os melhores resultados?
Em certo momento, o governo [do Estado] de Hessen concedeu ao jornal Frankfurter Rundschau um crédito subsidiado – sem sucesso. Mas as subvenções diretas são apenas um dos meios disponíveis.
Outros caminhos são as fundações com participação pública ou a renúncia fiscal para famílias envolvidas no ramo.
Nenhuma dessas soluções está livre de problemas. E ainda é preciso aclimatar a idéia de subvenções a jornais e revistas.
Em termos históricos, a idéia de regular o mercado da imprensa tem alguma coisa de contra-intuitivo. Afinal, o mercado foi outrora o cenário em que idéias subversivas puderam se emancipar da repressão estatal.
Mas o mercado só é capaz de desempenhar essa função se as determinações econômicas não penetrarem nos poros dos conteúdos culturais e políticos dispersos no mercado.
Agora, como antes, a crítica adorniana da indústria cultural constitui o ponto central. A observação cética é indispensável, pois nenhuma democracia pode se dar ao luxo de uma falha de mercado nesse setor.
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Reproduzido da Folha de S.Paulo, 27/5/2007; publicado originalmente no jornal alemão Süddeutsche Zeitung, tradução de Samuel Titan Jr.
Semanas atrás [N. da R: Base maio de 2007], a página de economia do jornal alemão Die Zeit assustou seus leitores com a manchete 'O quarto poder corre perigo?'. Tratava-se da notícia alarmante de que o Süddeutsche Zeitung rumava para um futuro econômico de incertezas.
A maioria dos acionistas quer se ver livre do jornal; caso as coisas se encaminhem para um leilão, é possível que um dos dois bons diários supra-regionais da Alemanha [o outro é o Frankfurter Allgemeine] caia nas mãos de investidores privados, fundos de investimento ou conglomerados de mídia.
Haverá quem diga: 'Business as usual' [negócios, como sempre]. O que poderia haver de alarmante no fato de que os proprietários queiram fazer uso de seu direito de se desfazer de seus negócios, sejam quais forem seus motivos?
A crise dos jornais, desencadeada no começo de 2002 pelo colapso do mercado publicitário, ficou para trás – no Süddeutsche Zeitung e em outros órgãos de imprensa da mesma dimensão. As famílias que agora se dispõem a vender sua participação detêm 62,5% das ações e escolheram um momento propício.
Apesar da concorrência digital e dos novos hábitos de leitura, os lucros vêm aumentando.
Deixando de lado a boa conjuntura econômica, os lucros se devem sobretudo a medidas de racionalização com impacto direto sobre o desempenho e a margem de manobra das redações. Notícias bombásticas à maneira do jornalismo norte-americano ditam a tendência atual.
Assim, por exemplo, o Boston Globe, um dos poucos jornais de centro-esquerda dos EUA, teve que renunciar a todos os seus correspondentes no estrangeiro, enquanto os grandes encouraçados da imprensa nacional – como o Washington Post e o New York Times – temem a capitulação diante de fundos ou conglomerados ávidos por 'sanear' jornais em vista de taxas de lucro descabidas; no caso do Los Angeles Times, esse já é fato consumado.
Jugo do lucro
Há três semanas, o Die Zeit voltou à carga, falando de um 'ataque de Wall Street à imprensa dos EUA'.
O que há por trás desse tipo de manchete? Certamente, o temor de que os mercados não façam justiça à dupla função que a imprensa de qualidade até hoje desempenhou: atender à demanda por informação e formação, sem comprometer taxas de lucro aceitáveis.
Mas os lucros em alta não serão uma confirmação de que jornais ‘enxutos’ satisfazem melhor os desejos de seus consumidores?
Conceitos vagos como 'profissional', 'arrojado' ou 'sério' não servem apenas para velar a preeminência concedida ao leitor adulto, que sabe o que quer?
A imprensa terá o direito de, sob o pretexto da 'qualidade', cercear a liberdade de escolha de seus leitores?
Por que forçar a leitura de reportagens áridas em vez de infotainment [fusão, em inglês, das palavras 'information' e 'entertainment', informação e entretenimento], comentários objetivos e argumentos circunstanciados, ao invés de encenações apelativas de personalidades e acontecimentos?
A objeção que se manifesta nessas questões se baseia na suposição polêmica de que os consumidores escolhem com autonomia, segundo suas preferências pessoais. Mas essa espécie de verdade acaciana certamente induz ao erro quando se trata de uma mercadoria tão peculiar quanto a informação política e cultural. Pois essa mercadoria a um só tempo atende e transforma as preferências de seus consumidores.
Formação em massa
Não há dúvida de que leitores, ouvintes e espectadores seguem suas preferências ao fazer uso dos meios de comunicação: querem se divertir ou se distrair, querem se informar ou tomar parte em debates públicos.
Mas, quando se interessam por um programa político ou cultural, quando recebem a 'bênção matinal realista' da leitura de jornais, todos se expõem – com alguma medida de autopaternalismo- a um processo de aprendizado de resultados imprevisíveis.
No curso de uma leitura, novas preferências, convicções ou juízos podem se formar.
A metapreferência que orienta uma tal leitura se dirige então àquelas prioridades que se exprimem na auto-imagem de um jornalismo independente e que fundamentam o prestígio da imprensa de qualidade.
A polêmica sobre o caráter peculiar da mercadoria 'informação e formação' faz pensar no slogan que fez furor quando do surgimento da televisão: essa nova mídia não seria mais que 'uma torradeira com imagens'.
Pensava-se que a produção e o consumo de programas televisivos podiam ser deixados inteiramente a cargo do mercado. Desde então, as empresas de comunicação cuidam de fornecer programas para seus espectadores enquanto vendem a atenção do público a seus anunciantes.
Sempre que imperou sem peias, esse modo de organização causou danos políticos e culturais. O sistema 'híbrido' de televisão [na Alemanha] é uma tentativa de remediar o mal.
E as leis locais, as decisões de tribunais federais e os princípios de programação das emissoras públicas refletem a noção de que as mídias eletrônicas não devem satisfazer apenas as necessidades mais comercializáveis dos consumidores.
Ouvintes e espectadores não são apenas consumidores mas também cidadãos com direito à participação cultural, à observação da vida política e à voz na formação de opinião.
Com base nesses direitos, não é o caso de deixar programas voltados a tais necessidades fundamentais da população à mercê da conveniência publicitária ou do apoio de patrocinadores.
Mais ainda, as taxas que financiam esses serviços também não devem variar ao sabor dos orçamentos locais, isto é, da conjuntura econômica – é o que argumentam algumas emissoras num processo contra os governos locais, em trâmite no Supremo Tribunal Federal alemão.
A idéia de uma reserva pública voltada para a mídia eletrônica pode ser interessante.
Mas algo assim poderia servir de modelo para a organização de jornais e revistas 'sérios', como o Süddeutsche Zeitung ou o Frankfurter Allgemeine Zeitung, Die Zeit ou Der Spiegel, para não falar das revistas mensais mais ambiciosas?
Efeito político
O resultado de um estudo sobre fluxos de comunicação pode ter interesse nesse contexto: ao menos no âmbito da comunicação política – ou seja, para o leitor enquanto cidadão –, a imprensa de qualidade desempenha um papel de 'liderança': o noticiário político do rádio e da televisão depende em larga escala dos temas e das contribuições provenientes do jornalismo 'argumentativo'.
Suponhamos que uma dessas redações caia nas mãos de investidores que trabalham com lucros rápidos e prazos curtos: a reestruturação e o enxugamento nesses lugares estratégicos não tardarão a pôr em risco os padrões jornalísticos e a afetar em cheio a vida política.
Pois a comunicação pública perde vitalidade discursiva quando lhe falta informação fundamentada ou discussão vivaz, coisas que não se obtêm sem custos.
A esfera pública não teria mais como opor resistência às tendências populistas e não seria mais capaz de desempenhar funções que lhe cabem no quadro de um Estado democrático de Direito.
Vivemos em sociedades pluralistas. O processo de decisão democrático só pode ultrapassar as cisões profundas entre visões de mundo opostas se houver algum vínculo legitimador aos olhos de todos os cidadãos.
O processo de decisão deve conjugar inclusão (isto é, a participação universal em pé de igualdade) e condução discursiva do conflito de opiniões.
Pois tão-somente a discussão deliberativa fundamenta a suposição de que, no longo prazo, os processos democráticos propiciam resultados mais ou menos racionais.
A formação de opinião por via democrática tem uma dimensão epistêmica, uma vez que envolve a crítica de afirmações e juízos errôneos.
Esse é o papel de uma esfera pública dotada de vitalidade discursiva.
Esse papel se evidencia intuitivamente tão logo se tenha em mente a diferença entre o conflito público de opiniões concorrentes e a divulgação de pesquisas de opinião.
Opiniões que se formam por meio de discussão e polêmica são, a despeito de toda dissonância, filtradas por informações e argumentos, enquanto as pesquisas de opinião apenas invocam opiniões latentes em estado bruto ou inerte.
Mediação
É claro que os fluxos díspares de comunicação numa esfera pública dominada pelos meios de comunicação de massa não permitem o tipo de discussão ou consulta regrada que tem lugar em tribunais ou sessões parlamentares.
Mas isso também não é necessário, pois a esfera pública é apenas um dos elos relevantes: ela faz as vezes de mediação entre discursos e discussões nos foros do Estado, de um lado, e as conversas episódicas ou informais de eleitores potenciais, de outro.
A esfera pública dá sua contribuição à legitimação democrática da ação estatal ao selecionar temas de relevância política, elabora-os polemicamente e os vincula a correntes de opinião divergentes.
Por essa via, a comunicação pública estimula e orienta a formação da opinião e do voto, ao mesmo tempo em que exige transparência e prontidão do sistema político.
Sem o impulso de uma imprensa voltada à formação de opinião, capaz de fornecer informação confiável e comentário preciso, a esfera pública não tem como produzir essa energia.
Quando se trata de gás, eletricidade ou água, o Estado tem a obrigação de prover as necessidades energéticas da população.
Por que não seria igualmente obrigado a prover essa outra espécie de ‘energia’, sem a qual o próprio Estado democrático pode acabar avariado?
O Estado não comete nenhuma 'falha sistêmica' quando intervém em casos específicos para tentar preservar esse bem público que é a imprensa de qualidade.
Melhores resultados
O problema é apenas de ordem pragmática: como se alcançam os melhores resultados?
Em certo momento, o governo [do Estado] de Hessen concedeu ao jornal Frankfurter Rundschau um crédito subsidiado – sem sucesso. Mas as subvenções diretas são apenas um dos meios disponíveis.
Outros caminhos são as fundações com participação pública ou a renúncia fiscal para famílias envolvidas no ramo.
Nenhuma dessas soluções está livre de problemas. E ainda é preciso aclimatar a idéia de subvenções a jornais e revistas.
Em termos históricos, a idéia de regular o mercado da imprensa tem alguma coisa de contra-intuitivo. Afinal, o mercado foi outrora o cenário em que idéias subversivas puderam se emancipar da repressão estatal.
Mas o mercado só é capaz de desempenhar essa função se as determinações econômicas não penetrarem nos poros dos conteúdos culturais e políticos dispersos no mercado.
Agora, como antes, a crítica adorniana da indústria cultural constitui o ponto central. A observação cética é indispensável, pois nenhuma democracia pode se dar ao luxo de uma falha de mercado nesse setor.
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Folha de S.Paulo - Entrevista Gilberto Carvalho: Oposição não deve se agitar; temos um Pelé no banco de reservas - 03/01/2011
Folha de S.Paulo - Entrevista Gilberto Carvalho: Oposição não deve se agitar; temos um Pelé no banco de reservas - 03/01/2011: "SECRETÁRIO-GERAL DA PRESIDÊNCIA ANUNCIA REAJUSTE PARA ASSESSORES, DIZ QUE PMDB PODE MUDAR IMAGEM E NEGA QUE LULA TENHA SIDO TOLERANTE COM ACUSAÇÕES
CÁTIA SEABRA
ENVIADA ESPECIAL A BRASÍLIA
NATUZA NERY
DE BRASÍLIA
A oposição não deve se 'agitar' em caso de dificuldades na gestão Dilma Rousseff porque o governo tem um 'Pelé na reserva' -Luiz Inácio Lula da Silva.
O recado é do mais próximo auxiliar do ex-presidente, o ex-chefe de gabinete e agora ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, 59.
Durante entrevista à Folha, na manhã de ontem, ele chorou várias vezes ao lembrar da relação com Lula.
A despeito da discussão sobre corte de despesas federais, Carvalho revelou que está na mesa da presidente proposta de aumento salarial para os ocupantes de cargos de confiança. Ele disse que não sabe qual será o índice de reajuste.
Sobre o PMDB, partido do vice-presidente da República, Michel Temer, afirma que o aliado tem uma oportunidade de 'melhorar sua imagem' no governo.
Folha - Qual será seu maior desafio no ministério? Gilberto Carvalho - Administrar as tensões naturais das demandas dos movimentos sociais e o que o governo consegue atender. Exemplo: salário mínimo, reforma agrária e a questão indígena. As demandas do funcionalismo. Embora não seja a minha secretaria a responsável pela discussão, tem uma tensão.
Circula no governo a informação de que haverá um aumento para os ocupantes de cargos de confiança.
Há uma decisão já tomada de fazer um reajuste de DASs [sigla para designar cargos de confiança]. Não sei adiantar em que nível. Mas há uma ideia de fazer uma correção. O último reajuste foi há quatro anos.
Já passou pela presidente?
A decisão foi tomada pelo Planejamento. Mas não deu tempo de fazer no governo Lula. Caberá a Dilma fazer. O problema sempre é manter o salário num nível que não seja elevado em relação ao mercado, mas também não tão defasado que te impeça de ter quadros de qualidade.
Não é um sinal ruim dar aumento quando há necessidade de corte de despesas?
É o que ela [Dilma] chama de gasto inteligente. Se não há um funcionalismo minimamente motivado, se a pessoa tem a preocupação de o dinheiro não dar até o fim do mês, prejudica o desempenho profissional. Se fosse um reajuste desmedido, bom. Mas não é o que se está pretendendo. É correção da perda dos últimos quatro anos.
O temperamento de Dilma não impõe risco de isolamento dos movimentos sociais?
O que a gente perde em relação ao Lula com a Dilma é aquilo que chamaria de reação epidérmica aos movimentos, desse contato pelo carisma, pela história dele, pela facilidade com que captava os sinais. A gente perde.
Mas a Dilma tem essa sensibilidade. Quando me chamou, disse: 'Sei que preciso dessa relação mais do que Lula precisou'. Não é a área que me preocupa.
Qual é? É a política?
A política, na medida em que não temos o peso definidor da figura do Lula, a capacidade de sedução que ele exerceu. A Dilma não tem naturalmente essa relação. Vamos ter que construir.
O sr. disse, em entrevista, que, se houvesse dificuldades, o Lula poderia voltar. Levou bronca?
Falei a coisa mais óbvia. Acho que o governo da Dilma será de muita competência. Se Deus quiser, faremos um belíssimo governo e ela será reeleita. É evidente que, se não der certo, temos um curinga. Estou dizendo para a oposição: 'Calma. Não se agitem demais. Temos uma carga pesada. Não brinca muito que a gente traz. É ter o Pelé no banco de reservas'.
Que dificuldade pode existir?
Tenho até medo de falar e se tornar uma profecia ruim. Mas digamos que haja uma dificuldade na gestão, na economia, algum acidente, por exemplo, na economia do mundo.
O PMDB não está satisfeito com a perda de espaço. Falam que haverá troco.
Há importantes discussões a serem feitas no segundo e no terceiro escalões. O PMDB tem a grande chance histórica de mudar sua posição, de ser de fato um partido com unidade, e se converter numa verdadeira alternativa de poder. Aposto na soma desses fatores: mais participação do PMDB em outros escalões e o fato de que o partido tem uma chance de mudar de posição...
Mudar de imagem?
Mudar de imagem. De romper essa tradição de um partido regionalista e que não foi até hoje alternativa de poder efetivo.
Lula pode impor uma sombra à Dilma? Ele vai ser usado com moderação?
Lula vai ter um comportamento rigorosamente discreto. Não vai falar em público, não vai me usar para mandar recado. Não precisa disso. A relação deles é tão direta, tão próxima. Ontem quando ela me abraçou, disse: 'Nossa, você viu como ele estava triste quando desceu a rampa? Vi nos olhos dele que ele estava triste'.
Dilma e Lula chegaram a um ponto da relação que isso supera qualquer necessidade de intermediação. Lula não precisa de mim. Seria muita pretensão querer ser o espião do Lula no Planalto. Vou continuar tendo uma relação com o Lula... [chora].
Como foi para o sr. vê-lo descendo a rampa?
Difícil dizer. Tem uma coisa enorme de agradecimento a Deus e à vida por essa possibilidade de ter convivido com esse cara. Tem uma coisa de perda de cotidiano, de liberdade. Vou ficando velho e ficando chorão. Caramba. Não pensei que doía tanto. É isso, um tempo da minha vida que sei que terminou.
Há uma avaliação de que, em relação à ética, Dilma seria mais firme. O sr. concorda?
Acho uma bobagem. Lula sofreu muito com tudo isso, vocês não imaginam como ele sofreu com os problemas da nossa turma e de outros aliados. Se fosse isso ele não tinha tirado do governo tantas pessoas tão ligadas a ele.
A Polícia Federal o informava das operações antes de elas acontecerem.
Ele nunca ligou para o irmão para dizer que a polícia iria entrar na casa dele. Falar que esse cara contemporizou? Eu acompanhei o episódio do Vavá. Doeu na alma do Lula [chora]. Ele sabia que era uma bobagem, que o irmão dele era um ingênuo sendo utilizado por um bando de picaretas. Mas não ligou para o Vavá.
Acha que essa tolerância...
Eu quero insistir: não houve tolerância, eu não aceito a palavra tolerância. Quando o Lula fala que ele se insurgiu contra o mensalão, não é que ele concordou com as atitudes do Delúbio, não é isso.
Ele disse que não houve mensalão no sentido de que o governo não precisava pagar para que bandidos votassem com o governo.
A insurgência não é contra os erros que aconteceram. É também contra essa história de que o governo dele foi o inventor da corrupção, quando a gente sabe que governo começou a combater a corrupção, porque antes tudo era discretamente e tucanamente muito bem guardado.
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CÁTIA SEABRA
ENVIADA ESPECIAL A BRASÍLIA
NATUZA NERY
DE BRASÍLIA
A oposição não deve se 'agitar' em caso de dificuldades na gestão Dilma Rousseff porque o governo tem um 'Pelé na reserva' -Luiz Inácio Lula da Silva.
O recado é do mais próximo auxiliar do ex-presidente, o ex-chefe de gabinete e agora ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, 59.
Durante entrevista à Folha, na manhã de ontem, ele chorou várias vezes ao lembrar da relação com Lula.
A despeito da discussão sobre corte de despesas federais, Carvalho revelou que está na mesa da presidente proposta de aumento salarial para os ocupantes de cargos de confiança. Ele disse que não sabe qual será o índice de reajuste.
Sobre o PMDB, partido do vice-presidente da República, Michel Temer, afirma que o aliado tem uma oportunidade de 'melhorar sua imagem' no governo.
Folha - Qual será seu maior desafio no ministério? Gilberto Carvalho - Administrar as tensões naturais das demandas dos movimentos sociais e o que o governo consegue atender. Exemplo: salário mínimo, reforma agrária e a questão indígena. As demandas do funcionalismo. Embora não seja a minha secretaria a responsável pela discussão, tem uma tensão.
Circula no governo a informação de que haverá um aumento para os ocupantes de cargos de confiança.
Há uma decisão já tomada de fazer um reajuste de DASs [sigla para designar cargos de confiança]. Não sei adiantar em que nível. Mas há uma ideia de fazer uma correção. O último reajuste foi há quatro anos.
Já passou pela presidente?
A decisão foi tomada pelo Planejamento. Mas não deu tempo de fazer no governo Lula. Caberá a Dilma fazer. O problema sempre é manter o salário num nível que não seja elevado em relação ao mercado, mas também não tão defasado que te impeça de ter quadros de qualidade.
Não é um sinal ruim dar aumento quando há necessidade de corte de despesas?
É o que ela [Dilma] chama de gasto inteligente. Se não há um funcionalismo minimamente motivado, se a pessoa tem a preocupação de o dinheiro não dar até o fim do mês, prejudica o desempenho profissional. Se fosse um reajuste desmedido, bom. Mas não é o que se está pretendendo. É correção da perda dos últimos quatro anos.
O temperamento de Dilma não impõe risco de isolamento dos movimentos sociais?
O que a gente perde em relação ao Lula com a Dilma é aquilo que chamaria de reação epidérmica aos movimentos, desse contato pelo carisma, pela história dele, pela facilidade com que captava os sinais. A gente perde.
Mas a Dilma tem essa sensibilidade. Quando me chamou, disse: 'Sei que preciso dessa relação mais do que Lula precisou'. Não é a área que me preocupa.
Qual é? É a política?
A política, na medida em que não temos o peso definidor da figura do Lula, a capacidade de sedução que ele exerceu. A Dilma não tem naturalmente essa relação. Vamos ter que construir.
O sr. disse, em entrevista, que, se houvesse dificuldades, o Lula poderia voltar. Levou bronca?
Falei a coisa mais óbvia. Acho que o governo da Dilma será de muita competência. Se Deus quiser, faremos um belíssimo governo e ela será reeleita. É evidente que, se não der certo, temos um curinga. Estou dizendo para a oposição: 'Calma. Não se agitem demais. Temos uma carga pesada. Não brinca muito que a gente traz. É ter o Pelé no banco de reservas'.
Que dificuldade pode existir?
Tenho até medo de falar e se tornar uma profecia ruim. Mas digamos que haja uma dificuldade na gestão, na economia, algum acidente, por exemplo, na economia do mundo.
O PMDB não está satisfeito com a perda de espaço. Falam que haverá troco.
Há importantes discussões a serem feitas no segundo e no terceiro escalões. O PMDB tem a grande chance histórica de mudar sua posição, de ser de fato um partido com unidade, e se converter numa verdadeira alternativa de poder. Aposto na soma desses fatores: mais participação do PMDB em outros escalões e o fato de que o partido tem uma chance de mudar de posição...
Mudar de imagem?
Mudar de imagem. De romper essa tradição de um partido regionalista e que não foi até hoje alternativa de poder efetivo.
Lula pode impor uma sombra à Dilma? Ele vai ser usado com moderação?
Lula vai ter um comportamento rigorosamente discreto. Não vai falar em público, não vai me usar para mandar recado. Não precisa disso. A relação deles é tão direta, tão próxima. Ontem quando ela me abraçou, disse: 'Nossa, você viu como ele estava triste quando desceu a rampa? Vi nos olhos dele que ele estava triste'.
Dilma e Lula chegaram a um ponto da relação que isso supera qualquer necessidade de intermediação. Lula não precisa de mim. Seria muita pretensão querer ser o espião do Lula no Planalto. Vou continuar tendo uma relação com o Lula... [chora].
Como foi para o sr. vê-lo descendo a rampa?
Difícil dizer. Tem uma coisa enorme de agradecimento a Deus e à vida por essa possibilidade de ter convivido com esse cara. Tem uma coisa de perda de cotidiano, de liberdade. Vou ficando velho e ficando chorão. Caramba. Não pensei que doía tanto. É isso, um tempo da minha vida que sei que terminou.
Há uma avaliação de que, em relação à ética, Dilma seria mais firme. O sr. concorda?
Acho uma bobagem. Lula sofreu muito com tudo isso, vocês não imaginam como ele sofreu com os problemas da nossa turma e de outros aliados. Se fosse isso ele não tinha tirado do governo tantas pessoas tão ligadas a ele.
A Polícia Federal o informava das operações antes de elas acontecerem.
Ele nunca ligou para o irmão para dizer que a polícia iria entrar na casa dele. Falar que esse cara contemporizou? Eu acompanhei o episódio do Vavá. Doeu na alma do Lula [chora]. Ele sabia que era uma bobagem, que o irmão dele era um ingênuo sendo utilizado por um bando de picaretas. Mas não ligou para o Vavá.
Acha que essa tolerância...
Eu quero insistir: não houve tolerância, eu não aceito a palavra tolerância. Quando o Lula fala que ele se insurgiu contra o mensalão, não é que ele concordou com as atitudes do Delúbio, não é isso.
Ele disse que não houve mensalão no sentido de que o governo não precisava pagar para que bandidos votassem com o governo.
A insurgência não é contra os erros que aconteceram. É também contra essa história de que o governo dele foi o inventor da corrupção, quando a gente sabe que governo começou a combater a corrupção, porque antes tudo era discretamente e tucanamente muito bem guardado.
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Na era da globalização, o que deveríamos ler? - 03/01/2011 - UOL Notícias - NYT - Umberto Eco
Na era da globalização, o que deveríamos ler? - 03/01/2011 - UOL Notícias - NYT - Umberto Eco:
Mesmo nos atendo somente à tradição ocidental, quais são os livros que as pessoas deveriam ler?
“O Cânone Ocidental” de Harold Bloom define o cânone literário como “a escolha de livros em nossas instituições de ensino”, e sugere que a verdadeira questão que ele suscita é: “o que o indivíduo que ainda deseja ler deveria tentar ler, a essa altura da História?” E ele observa que, na melhor das hipóteses, dentro do tempo de uma vida é possível ler somente uma pequena fração do grande número de escritores que viveram e trabalharam na Europa e nas Américas, sem contar aqueles de outras partes do mundo. Mesmo nos atendo somente à tradição ocidental, quais são os livros que as pessoas deveriam ler? Não há dúvidas de que a sociedade e a cultura ocidentais foram influenciadas por Shakespeare, pela “Divina Comédia” de Dante, e – voltando atrás no tempo – por Homero, Virgílio e Sófocles. Mas será que somos influenciados por eles porque os lemos de fato em primeira mão?
Isso lembra o argumento de Pierre Bayard, em “Como Falar Sobre Livros que Você Não Leu”, de que não é essencial ler de fato um livro de capa a capa para entender sua importância. Por exemplo, é nítido que a Bíblia teve uma profunda influência tanto sobre a cultura judaica como sobre a cristã no Ocidente, e mesmo sobre a cultura de não-crentes – mas isso não significa que todos aqueles que foram influenciados por ela a tenham lido do começo ao fim. O mesmo pode se dizer sobre os escritos de Shakespeare ou James Joyce. É necessário ter lido o Livro dos Reis ou o Livro dos Números para ser uma pessoa culta ou um bom cristão? É necessário ter lido Eclesiastes, ou basta simplesmente saber em segunda mão que ele condena a “vaidade das vaidades”?
Sendo assim, a questão do cânone não é homóloga à do currículo escolar, que representa o conjunto de obras que um estudante deverá ter lido ao fim de seus estudos. Hoje o problema é mais complicado do que nunca e, durante uma recente conferência literária internacional em Mônaco, houve um debate sobre o lugar do cânone na era da globalização. Se roupas de marca “europeias” são produzidas na China, se usamos computadores e carros japoneses, se até em Nápoles comem hambúrgueres em vez de pizza – resumindo, se o mundo encolheu a dimensões provincianas, com estudantes imigrantes em todo o mundo pedindo para aprender sobre suas próprias tradições – então como será o novo cânone?
Em certas universidades americanas, a resposta veio na forma de um movimento que, mais do que “politicamente correto”, é politicamente estúpido. Como temos muitos estudantes negros, algumas pessoas sugeriram ensinar-lhes menos Shakespeare e mais literatura africana. Uma ótima piada à custa de todos aqueles jovens destinados a saírem pelo mundo sem entender referências literárias universais como o solilóquio do “ser ou não ser” de Hamlet – e, portanto, condenados a permanecerem à margem da cultura dominante. Se tanto, o cânone existente deveria ser expandido, e não substituído. Como foi sugerido recentemente na Itália, a respeito de aulas semanais de religião nas escolas, os estudantes deveriam aprender algo sobre o Corão e os ensinamentos do Budismo, bem como sobre os Evangelhos. Assim como não seria mau se, além de suas aulas sobre a civilização grega antiga, os estudantes aprendessem algo sobre as grandes tradições literárias árabe, indiana e japonesa.
Não faz muito tempo, fui a Paris para participar de uma conferência entre intelectuais europeus e chineses. Foi humilhante ver como nossos colegas chineses sabiam tudo sobre Immanuel Kant e Marcel Proust, sugerindo paralelos (que poderiam estar certos ou errados) entre Lao Tsé e Friedrich Nietzsche – enquanto a maioria dos europeus entre nós mal conseguia ir além de Confúcio, e muitas vezes com base somente em análises em segunda mão.
Hoje, no entanto, esse ideal ecumênico esbarra em certas dificuldades. Você pode ensinar a jovens ocidentais a “Ilíada” porque eles ouviram algo sobre Heitor e Agamêmon, e porque seus rudimentos de cultura incluem expressões como “o julgamento de Páris” e “calcanhar de Aquiles” (embora em um recente exame de admissão de uma universidade italiana um candidato tenha pensado que o termo “calcanhar de Aquiles” se referia a uma doença, como cotovelo de tenista). Ainda assim, como conseguir fazer com que esses estudantes se interessem pelo poema épico sânscrito “O Mahabharata”, ou pelos poemas dos “Rubaiyat de Omar Khayyam” de forma que essas obras permaneçam em suas memórias? Será que realmente podemos adaptar o sistema educacional a um mundo globalizado quando a vasta maioria dos ocidentais cultos ignora totalmente que, para os georgianos, um dos maiores poemas na história literária é “O Cavaleiro na Pele de Pantera” de Shota Rustaveli? Quando acadêmicos não conseguem nem concordar se, na versão georgiana original, o cavaleiro do poema está na verdade usando uma pele de pantera e não de tigre ou de leopardo? Chegaremos sequer a esse ponto, ou continuaremos simplesmente a perguntar: “Shota o quê?”
Tradução: Lana Lim
Umberto Eco
Umberto Eco é professor de semiótica, crítico literário e romancista. Entre seus principais livros estão 'O Nome da Rosa' e o 'Pêndulo de Foucault'.
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Mesmo nos atendo somente à tradição ocidental, quais são os livros que as pessoas deveriam ler?
“O Cânone Ocidental” de Harold Bloom define o cânone literário como “a escolha de livros em nossas instituições de ensino”, e sugere que a verdadeira questão que ele suscita é: “o que o indivíduo que ainda deseja ler deveria tentar ler, a essa altura da História?” E ele observa que, na melhor das hipóteses, dentro do tempo de uma vida é possível ler somente uma pequena fração do grande número de escritores que viveram e trabalharam na Europa e nas Américas, sem contar aqueles de outras partes do mundo. Mesmo nos atendo somente à tradição ocidental, quais são os livros que as pessoas deveriam ler? Não há dúvidas de que a sociedade e a cultura ocidentais foram influenciadas por Shakespeare, pela “Divina Comédia” de Dante, e – voltando atrás no tempo – por Homero, Virgílio e Sófocles. Mas será que somos influenciados por eles porque os lemos de fato em primeira mão?
Isso lembra o argumento de Pierre Bayard, em “Como Falar Sobre Livros que Você Não Leu”, de que não é essencial ler de fato um livro de capa a capa para entender sua importância. Por exemplo, é nítido que a Bíblia teve uma profunda influência tanto sobre a cultura judaica como sobre a cristã no Ocidente, e mesmo sobre a cultura de não-crentes – mas isso não significa que todos aqueles que foram influenciados por ela a tenham lido do começo ao fim. O mesmo pode se dizer sobre os escritos de Shakespeare ou James Joyce. É necessário ter lido o Livro dos Reis ou o Livro dos Números para ser uma pessoa culta ou um bom cristão? É necessário ter lido Eclesiastes, ou basta simplesmente saber em segunda mão que ele condena a “vaidade das vaidades”?
Sendo assim, a questão do cânone não é homóloga à do currículo escolar, que representa o conjunto de obras que um estudante deverá ter lido ao fim de seus estudos. Hoje o problema é mais complicado do que nunca e, durante uma recente conferência literária internacional em Mônaco, houve um debate sobre o lugar do cânone na era da globalização. Se roupas de marca “europeias” são produzidas na China, se usamos computadores e carros japoneses, se até em Nápoles comem hambúrgueres em vez de pizza – resumindo, se o mundo encolheu a dimensões provincianas, com estudantes imigrantes em todo o mundo pedindo para aprender sobre suas próprias tradições – então como será o novo cânone?
Em certas universidades americanas, a resposta veio na forma de um movimento que, mais do que “politicamente correto”, é politicamente estúpido. Como temos muitos estudantes negros, algumas pessoas sugeriram ensinar-lhes menos Shakespeare e mais literatura africana. Uma ótima piada à custa de todos aqueles jovens destinados a saírem pelo mundo sem entender referências literárias universais como o solilóquio do “ser ou não ser” de Hamlet – e, portanto, condenados a permanecerem à margem da cultura dominante. Se tanto, o cânone existente deveria ser expandido, e não substituído. Como foi sugerido recentemente na Itália, a respeito de aulas semanais de religião nas escolas, os estudantes deveriam aprender algo sobre o Corão e os ensinamentos do Budismo, bem como sobre os Evangelhos. Assim como não seria mau se, além de suas aulas sobre a civilização grega antiga, os estudantes aprendessem algo sobre as grandes tradições literárias árabe, indiana e japonesa.
Não faz muito tempo, fui a Paris para participar de uma conferência entre intelectuais europeus e chineses. Foi humilhante ver como nossos colegas chineses sabiam tudo sobre Immanuel Kant e Marcel Proust, sugerindo paralelos (que poderiam estar certos ou errados) entre Lao Tsé e Friedrich Nietzsche – enquanto a maioria dos europeus entre nós mal conseguia ir além de Confúcio, e muitas vezes com base somente em análises em segunda mão.
Hoje, no entanto, esse ideal ecumênico esbarra em certas dificuldades. Você pode ensinar a jovens ocidentais a “Ilíada” porque eles ouviram algo sobre Heitor e Agamêmon, e porque seus rudimentos de cultura incluem expressões como “o julgamento de Páris” e “calcanhar de Aquiles” (embora em um recente exame de admissão de uma universidade italiana um candidato tenha pensado que o termo “calcanhar de Aquiles” se referia a uma doença, como cotovelo de tenista). Ainda assim, como conseguir fazer com que esses estudantes se interessem pelo poema épico sânscrito “O Mahabharata”, ou pelos poemas dos “Rubaiyat de Omar Khayyam” de forma que essas obras permaneçam em suas memórias? Será que realmente podemos adaptar o sistema educacional a um mundo globalizado quando a vasta maioria dos ocidentais cultos ignora totalmente que, para os georgianos, um dos maiores poemas na história literária é “O Cavaleiro na Pele de Pantera” de Shota Rustaveli? Quando acadêmicos não conseguem nem concordar se, na versão georgiana original, o cavaleiro do poema está na verdade usando uma pele de pantera e não de tigre ou de leopardo? Chegaremos sequer a esse ponto, ou continuaremos simplesmente a perguntar: “Shota o quê?”
Tradução: Lana Lim
Umberto Eco
Umberto Eco é professor de semiótica, crítico literário e romancista. Entre seus principais livros estão 'O Nome da Rosa' e o 'Pêndulo de Foucault'.
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domingo, 2 de janeiro de 2011
Blog de Ricardo Noblat: colunista do jornal O Globo com notícias sobre política direto de Brasília - Ricardo Noblat: O Globo
Blog de Ricardo Noblat: colunista do jornal O Globo com notícias sobre política direto de Brasília - Ricardo Noblat: O Globo: "Lula e seu povo
Lula quebra o protocolo e vai ao encontro do povo - Foto: / Domingos Peixoto - O Globo
Roberto Maltchik, Fábio Fabrini e Jailton de Carvalho, O Globo
Em seus últimos momentos como presidente da República, Lula quebrou alguns protocolos. Após a cerimônia da passagem da faixa presidencial para Dilma Rousseff, ao descer a rampa do Palácio do Planalto, Luiz Inácio Lula da Silva atravessou a pista e, acompanhado da mulher, Marisa Silva, foi encontrar-se com a multidão que o aguardava atrás de uma grade.
Por cerca de cinco minutos, foi abraçado, tocado e fotografado. Precisou sair rapidamente, antes que sua presença causasse ainda mais confusão.
Inicialmente, Lula até que seguiu o protocolo da solenidade. Diferentemente do que alguns esperavam, ele não discursou, para não nublar o dia de brilho de Dilma. Porém, ao descer a rampa, decidiu não entrar no carro oficial com dona Marisa, como estava programado.
Atravessou a avenida em direção à Praça dos Três Poderes para cumprimentar pessoas que, desde cedo, enfrentando a chuva, esperavam por uma última oportunidade de tirar uma foto com ele.
Quando Lula chegou ao pé da rampa, os seguranças anteviram que o ex-presidente iria em direção ao povo e logo fizeram uma corrente em volta dele para acompanhá-lo. O público o aguardava com as mãos para cima e gritava 'Lula, guerreiro do povo brasileiro'.
O ex-presidente, descabelado, suado e esmagado entre seguranças e repórteres, cumprimentou as pessoas que se apertavam na grade da segurança uma a uma. Em certo momento, não conteve o choro.
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Lula quebra o protocolo e vai ao encontro do povo - Foto: / Domingos Peixoto - O Globo
Roberto Maltchik, Fábio Fabrini e Jailton de Carvalho, O Globo
Em seus últimos momentos como presidente da República, Lula quebrou alguns protocolos. Após a cerimônia da passagem da faixa presidencial para Dilma Rousseff, ao descer a rampa do Palácio do Planalto, Luiz Inácio Lula da Silva atravessou a pista e, acompanhado da mulher, Marisa Silva, foi encontrar-se com a multidão que o aguardava atrás de uma grade.
Por cerca de cinco minutos, foi abraçado, tocado e fotografado. Precisou sair rapidamente, antes que sua presença causasse ainda mais confusão.
Inicialmente, Lula até que seguiu o protocolo da solenidade. Diferentemente do que alguns esperavam, ele não discursou, para não nublar o dia de brilho de Dilma. Porém, ao descer a rampa, decidiu não entrar no carro oficial com dona Marisa, como estava programado.
Atravessou a avenida em direção à Praça dos Três Poderes para cumprimentar pessoas que, desde cedo, enfrentando a chuva, esperavam por uma última oportunidade de tirar uma foto com ele.
Quando Lula chegou ao pé da rampa, os seguranças anteviram que o ex-presidente iria em direção ao povo e logo fizeram uma corrente em volta dele para acompanhá-lo. O público o aguardava com as mãos para cima e gritava 'Lula, guerreiro do povo brasileiro'.
O ex-presidente, descabelado, suado e esmagado entre seguranças e repórteres, cumprimentou as pessoas que se apertavam na grade da segurança uma a uma. Em certo momento, não conteve o choro.
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A fonte de sucesso de Lula, por Jânio de Freitas | Brasilianas.Org
A fonte de sucesso de Lula, por Jânio de Freitas | Brasilianas.Org: "dom, 02/01/2011 - 11:30
Jose de Almeida Bispo
Até o Jânio, salvo falta de entendimento da minha parte, trilha pelo velho jargão do preconceito do 'nordestino esperto', o João Grilo ou, como prefere a intelectualidade paulista, Macunaíma. Pessoal, o Lula de 1º de janeiro de 2011 é o mesmo do 'Lula sem censura' (Vozes, 1981), livreto que comprei à época pra ajudar D. Marisa a por arroz na mesa em tempo bicudos de prisões, demissões, cerceamento de liberdade do operário que chegou a Presidente. Tudo direto ao ponto. É claro que Lula não iria tentar reinventar a roda. Ele nunca deixou dúvidas: comida na mesa; emprego na carteira. Também, a direitona escravagista, embriagada com suas manias de poder extremo e todos os vícios que a este se agrega sempre achou que Lula tem apego ao poder tal qual eles tem; daí, achar que a escolha de um quadro sabidamente dos melhores, e a liberdade para que este quadro funcionasse teria sido 'intuição'. Lula é político. Sabe-se não economista, engenheiro de petróleo, operador da bolsa (se o fosse, seria rico) ou professor universitário. Não é um 'fominha' pelo holofote, pelo poder, e é isso que acaba por atraí-los. É óbvio que a intuição é parte da inteligência humana.
ela que advém as grandes idéias depois racionalizadas, mas, me incomoda, sobremaneira, essa cantilena dos preconceituosos em achar Lula o 'instintivo', o jumento falante de Balaão. Sinceramente! Desse jeito, com essa 'magnificiência' intelectual o PT chega a ser PRI (tóc! toc! na madeira).
Viva o Brasil, que, apesar de ser o último a abolir oficialmente a escravidão foi o primeiro a por um operário no poder (sem esquemas da CIA e do Opus Dei pra derrubar um império enferrujado).
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Jose de Almeida Bispo
Até o Jânio, salvo falta de entendimento da minha parte, trilha pelo velho jargão do preconceito do 'nordestino esperto', o João Grilo ou, como prefere a intelectualidade paulista, Macunaíma. Pessoal, o Lula de 1º de janeiro de 2011 é o mesmo do 'Lula sem censura' (Vozes, 1981), livreto que comprei à época pra ajudar D. Marisa a por arroz na mesa em tempo bicudos de prisões, demissões, cerceamento de liberdade do operário que chegou a Presidente. Tudo direto ao ponto. É claro que Lula não iria tentar reinventar a roda. Ele nunca deixou dúvidas: comida na mesa; emprego na carteira. Também, a direitona escravagista, embriagada com suas manias de poder extremo e todos os vícios que a este se agrega sempre achou que Lula tem apego ao poder tal qual eles tem; daí, achar que a escolha de um quadro sabidamente dos melhores, e a liberdade para que este quadro funcionasse teria sido 'intuição'. Lula é político. Sabe-se não economista, engenheiro de petróleo, operador da bolsa (se o fosse, seria rico) ou professor universitário. Não é um 'fominha' pelo holofote, pelo poder, e é isso que acaba por atraí-los. É óbvio que a intuição é parte da inteligência humana.
ela que advém as grandes idéias depois racionalizadas, mas, me incomoda, sobremaneira, essa cantilena dos preconceituosos em achar Lula o 'instintivo', o jumento falante de Balaão. Sinceramente! Desse jeito, com essa 'magnificiência' intelectual o PT chega a ser PRI (tóc! toc! na madeira).
Viva o Brasil, que, apesar de ser o último a abolir oficialmente a escravidão foi o primeiro a por um operário no poder (sem esquemas da CIA e do Opus Dei pra derrubar um império enferrujado).
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Folha de S.Paulo - Gilberto Dimenstein: Um brinde à saúde - 02/01/2011
Folha de S.Paulo - Gilberto Dimenstein: Um brinde à saúde - 02/01/2011: "30% dos estudantes de SP ficam 'altos' pelo menos uma vez por mês e o crack já está em todo o país
NADA PREOCUPA TANTO o brasileiro como a saúde pública, segundo recente pesquisa do Datafolha: é generalizado o descontentamento com a dificuldade de acesso ao serviço e com a sua qualidade. Mesmo assim, por incrível que pareça, a saúde mereceu um brinde nas festas de fim de ano. Foi aí que colhi algumas das melhores notícias do ano.
À primeira vista, parece estranho afirmar isso, afinal, como mostrou a repórter Cláudia Collucci nesta Folha, um paciente com câncer chega a esperar até seis meses por uma radioterapia. É algo como esperar horas por bombeiros quando uma casa está pegando fogo.
Basta, porém, ler algumas das últimas informações divulgadas para ver a dimensão de certas conquistas, resultado de décadas de mobilização, que nasceram de experiências localizadas em alguns municípios e depois disseminadas. Segundo números do Ministério da Saúde, vem caindo o número de mortes associadas ao fumo. As pessoas já fumam menos. Há menos mortes por doenças do coração porque há mais cuidado com a alimentação e mais preocupação com a prática de exercícios físicos.
Quem conhece o poder da indústria do tabaco sabe o que significam essas conquistas. Portanto, valeu o brinde aos educadores da saúde.
Pesquisa da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) mostrou queda no número de fumantes e no consumo de álcool e drogas entre os estudantes do Brasil. Apesar dos patamares ainda indecentemente altos, há batalhas vitoriosas nessa guerra. Mas o perigo continua: 30% dos estudantes da cidade de São Paulo ficam 'altos' pelo menos uma vez por mês e o crack já está em todo o país.
A preocupação é tão grande que o futuro secretário da Saúde de São Paulo, Giovanni Cerri, prometeu fazer da educação contra o abuso de álcool prioridade de sua gestão. Uma de suas medidas será a disseminação de uma experiência feita com jovens da favela de Heliópolis, que, com a ajuda de especialistas em saúde pública, foram treinados para falar à sua comunidade sobre os perigos da dependência química.
Os números divulgados em dezembro indicam que continua a cair a mortalidade infantil, resultado das políticas de educação, do atendimento às gestantes e do saneamento básico. Aumentou ainda mais a expectativa de vida do brasileiro. Além disso, ocorreu redução acentuada da gravidez precoce, embora a situação continue crítica.
Poucas coisas são tão socialmente devastadoras como a gravidez precoce, que subtrai da mãe a chance de prosperar e condena o filho à vulnerabilidade, mantendo o círculo vicioso da miséria.
Reduzir a gravidez na adolescência significou vencer as barreiras de preconceitos, distribuir contraceptivos na rede pública e convencer as jovens de que, até a idade adulta, é melhor cuidar dos estudos do que de um filho.
Outra notícia importante foi a queda da taxa geral de homicídios no país, segundo relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, fruto da combinação do esforço da polícia com ações comunitárias e educacionais.
São Paulo serviu de laboratório para as metrópoles ao reduzir em extraordinários 70% sua taxa de assassinatos. O homicídio já está quase saindo da condição de epidemia na cidade, segundo padrões da OMS (Organização Mundial de Saúde), o que se explica pelo policiamento comunitário, pelas mudanças demográficas, pelo uso de mais inteligência na repressão e pelas ações educativas de desarmamento, estas uma iniciativa da sociedade (do movimento Sou da Paz).
Há registros de queda acentuada em Recife. A cidade do Rio virou o maior exemplo de ação de segurança graças a uma aliança entre os governos federal, estadual e municipal, apoiados pela sociedade.
Com a continuidade do crescimento econômico, o envelhecimento da população e a evolução da escolaridade, além, é claro, dos programas de saúde pública, todos aqueles indicadores não vão parar de melhorar.
A boa notícia (má para os governantes) é que a pressão por melhores serviços só vai aumentar. E não vai custar barato, afinal a agenda do brasileiro está cada vez mais sofisticada. Será por muito tempo uma das três prioridades dos brasileiros ao lado de educação e segurança.
Mas, enquanto isso, dá para comemorar algumas conquistas que custaram muito esforço de um punhado de gente inovadora.
PS- Sugiro aos futuros governantes, a começar da presidente Dilma, que vejam os resultados de experiências em municípios (como SP e Sorocaba) que aplicaram projetos de saúde preventiva aos estudantes. Não só melhoraram o desempenho escolar deles mas evitaram gastos futuros. Gasta-se pouco e economiza-se muito.
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NADA PREOCUPA TANTO o brasileiro como a saúde pública, segundo recente pesquisa do Datafolha: é generalizado o descontentamento com a dificuldade de acesso ao serviço e com a sua qualidade. Mesmo assim, por incrível que pareça, a saúde mereceu um brinde nas festas de fim de ano. Foi aí que colhi algumas das melhores notícias do ano.
À primeira vista, parece estranho afirmar isso, afinal, como mostrou a repórter Cláudia Collucci nesta Folha, um paciente com câncer chega a esperar até seis meses por uma radioterapia. É algo como esperar horas por bombeiros quando uma casa está pegando fogo.
Basta, porém, ler algumas das últimas informações divulgadas para ver a dimensão de certas conquistas, resultado de décadas de mobilização, que nasceram de experiências localizadas em alguns municípios e depois disseminadas. Segundo números do Ministério da Saúde, vem caindo o número de mortes associadas ao fumo. As pessoas já fumam menos. Há menos mortes por doenças do coração porque há mais cuidado com a alimentação e mais preocupação com a prática de exercícios físicos.
Quem conhece o poder da indústria do tabaco sabe o que significam essas conquistas. Portanto, valeu o brinde aos educadores da saúde.
Pesquisa da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) mostrou queda no número de fumantes e no consumo de álcool e drogas entre os estudantes do Brasil. Apesar dos patamares ainda indecentemente altos, há batalhas vitoriosas nessa guerra. Mas o perigo continua: 30% dos estudantes da cidade de São Paulo ficam 'altos' pelo menos uma vez por mês e o crack já está em todo o país.
A preocupação é tão grande que o futuro secretário da Saúde de São Paulo, Giovanni Cerri, prometeu fazer da educação contra o abuso de álcool prioridade de sua gestão. Uma de suas medidas será a disseminação de uma experiência feita com jovens da favela de Heliópolis, que, com a ajuda de especialistas em saúde pública, foram treinados para falar à sua comunidade sobre os perigos da dependência química.
Os números divulgados em dezembro indicam que continua a cair a mortalidade infantil, resultado das políticas de educação, do atendimento às gestantes e do saneamento básico. Aumentou ainda mais a expectativa de vida do brasileiro. Além disso, ocorreu redução acentuada da gravidez precoce, embora a situação continue crítica.
Poucas coisas são tão socialmente devastadoras como a gravidez precoce, que subtrai da mãe a chance de prosperar e condena o filho à vulnerabilidade, mantendo o círculo vicioso da miséria.
Reduzir a gravidez na adolescência significou vencer as barreiras de preconceitos, distribuir contraceptivos na rede pública e convencer as jovens de que, até a idade adulta, é melhor cuidar dos estudos do que de um filho.
Outra notícia importante foi a queda da taxa geral de homicídios no país, segundo relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, fruto da combinação do esforço da polícia com ações comunitárias e educacionais.
São Paulo serviu de laboratório para as metrópoles ao reduzir em extraordinários 70% sua taxa de assassinatos. O homicídio já está quase saindo da condição de epidemia na cidade, segundo padrões da OMS (Organização Mundial de Saúde), o que se explica pelo policiamento comunitário, pelas mudanças demográficas, pelo uso de mais inteligência na repressão e pelas ações educativas de desarmamento, estas uma iniciativa da sociedade (do movimento Sou da Paz).
Há registros de queda acentuada em Recife. A cidade do Rio virou o maior exemplo de ação de segurança graças a uma aliança entre os governos federal, estadual e municipal, apoiados pela sociedade.
Com a continuidade do crescimento econômico, o envelhecimento da população e a evolução da escolaridade, além, é claro, dos programas de saúde pública, todos aqueles indicadores não vão parar de melhorar.
A boa notícia (má para os governantes) é que a pressão por melhores serviços só vai aumentar. E não vai custar barato, afinal a agenda do brasileiro está cada vez mais sofisticada. Será por muito tempo uma das três prioridades dos brasileiros ao lado de educação e segurança.
Mas, enquanto isso, dá para comemorar algumas conquistas que custaram muito esforço de um punhado de gente inovadora.
PS- Sugiro aos futuros governantes, a começar da presidente Dilma, que vejam os resultados de experiências em municípios (como SP e Sorocaba) que aplicaram projetos de saúde preventiva aos estudantes. Não só melhoraram o desempenho escolar deles mas evitaram gastos futuros. Gasta-se pouco e economiza-se muito.
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Folha de S.Paulo - Vinicius Torres Freire: Refinamentos desnecessários - 02/01/2011
Folha de S.Paulo - Vinicius Torres Freire: Refinamentos desnecessários - 02/01/2011: "Projeto petista de exploração do pré-sal defende alguns nacionalismos econômicos que podem ser ineficientes
EM 2010, o Brasil terá o segundo maior deficit na balança comercial de combustíveis desde 2000. Isto é, o valor das importações de combustíveis, basicamente petróleo e derivados, será maior que o das exportações. No ano de 2008, de bom crescimento econômico e de explosão do preço do barril de petróleo, o deficit foi maior.
Problema? Hoje em dia, não. Mas os governos petistas têm alguma implicância com deficit na balança de combustíveis e, mais importante, com o fato de o Brasil exportar combustíveis de 'baixo valor agregado' (petróleo bruto) e importar produtos refinados.
O deficit na balança de combustíveis já foi ameaça econômica grave no Brasil. Entre 1980 e 1982, o valor da importação de combustíveis equivalia a quase metade do valor de todas as exportações. Havia, pois, um risco claro de asfixia nas contas externas também devido ao custo do petróleo (e, claro, devido ao endividamento externo e à desordem econômica da época).
Desde meados dos anos 1990, a importação de combustíveis tem ficado entre 9% e 15% do valor total das exportações. As flutuações se devem, claro, ao preço do petróleo, ao consumo de combustíveis, ao ritmo do PIB, à quantidade e ao preço do total das exportações.
Mas o país produz cada vez mais petróleo e álcool combustível. Ainda pode recorrer a outras fontes renováveis de energia. Não houve drama 'macroeconômico' quando o barril chegou perto de absurdos US$ 150, em 2008. Nos anos 1970, a alta do petróleo ajudou a quebrar o Brasil.
Ainda assim, os governos petistas preocupam-se com a 'qualidade' da balança de combustíveis. Com a eventual abundância do pré-sal, querem fazer que o país não apenas seja grande produtor e, talvez, exportador líquido de petróleo como vendedor de produtos de 'maior valor agregado' (refinados).
Por isso, fizeram a Petrobras engolir um projeto de investimentos em refinarias que, nos corredores, o pessoal da empresa não considera econômico. E para o país, interessa?
Produzir bens de 'maior valor agregado' nem sempre é interessante. O capital despendido em refinarias poderia ter retorno maior em outro investimento. Tecnologicamente, não é um progresso fazer refinarias. Talvez em termos estratégicos, 'de segurança nacional', não depender muito de energia importada talvez fosse relevante, mas esse risco parece muito remoto. Enfim, não sabemos nem quando haverá petróleo bastante para exportar.
A Petrobras vai investir em pesquisa de materiais, métodos de exploração e equipamentos para fazer o pré-sal. Isso é um avanço. Vai encomendar serviços, equipamentos, navios, plataformas, sondas. Se não houver reserva de mercado improdutiva, isso será um avanço e vai impulsionar a indústria nacional.
Decerto, nem sempre o setor privado faz a melhor alocação de capital, 'investe melhor'. Basta ver os desastres das bolhas da década passada. Mas dirigir investimentos demais, via Estado, também dá em besteira, em uso menos produtivo de capital escasso.
Refinarias, trem-bala, estádios da Copa, nada disso deve melhorar a produtividade geral da economia brasileira, de resto faminta de investimentos em outras áreas e já enfrentando deficit externos devido à insuficiência de poupança.
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EM 2010, o Brasil terá o segundo maior deficit na balança comercial de combustíveis desde 2000. Isto é, o valor das importações de combustíveis, basicamente petróleo e derivados, será maior que o das exportações. No ano de 2008, de bom crescimento econômico e de explosão do preço do barril de petróleo, o deficit foi maior.
Problema? Hoje em dia, não. Mas os governos petistas têm alguma implicância com deficit na balança de combustíveis e, mais importante, com o fato de o Brasil exportar combustíveis de 'baixo valor agregado' (petróleo bruto) e importar produtos refinados.
O deficit na balança de combustíveis já foi ameaça econômica grave no Brasil. Entre 1980 e 1982, o valor da importação de combustíveis equivalia a quase metade do valor de todas as exportações. Havia, pois, um risco claro de asfixia nas contas externas também devido ao custo do petróleo (e, claro, devido ao endividamento externo e à desordem econômica da época).
Desde meados dos anos 1990, a importação de combustíveis tem ficado entre 9% e 15% do valor total das exportações. As flutuações se devem, claro, ao preço do petróleo, ao consumo de combustíveis, ao ritmo do PIB, à quantidade e ao preço do total das exportações.
Mas o país produz cada vez mais petróleo e álcool combustível. Ainda pode recorrer a outras fontes renováveis de energia. Não houve drama 'macroeconômico' quando o barril chegou perto de absurdos US$ 150, em 2008. Nos anos 1970, a alta do petróleo ajudou a quebrar o Brasil.
Ainda assim, os governos petistas preocupam-se com a 'qualidade' da balança de combustíveis. Com a eventual abundância do pré-sal, querem fazer que o país não apenas seja grande produtor e, talvez, exportador líquido de petróleo como vendedor de produtos de 'maior valor agregado' (refinados).
Por isso, fizeram a Petrobras engolir um projeto de investimentos em refinarias que, nos corredores, o pessoal da empresa não considera econômico. E para o país, interessa?
Produzir bens de 'maior valor agregado' nem sempre é interessante. O capital despendido em refinarias poderia ter retorno maior em outro investimento. Tecnologicamente, não é um progresso fazer refinarias. Talvez em termos estratégicos, 'de segurança nacional', não depender muito de energia importada talvez fosse relevante, mas esse risco parece muito remoto. Enfim, não sabemos nem quando haverá petróleo bastante para exportar.
A Petrobras vai investir em pesquisa de materiais, métodos de exploração e equipamentos para fazer o pré-sal. Isso é um avanço. Vai encomendar serviços, equipamentos, navios, plataformas, sondas. Se não houver reserva de mercado improdutiva, isso será um avanço e vai impulsionar a indústria nacional.
Decerto, nem sempre o setor privado faz a melhor alocação de capital, 'investe melhor'. Basta ver os desastres das bolhas da década passada. Mas dirigir investimentos demais, via Estado, também dá em besteira, em uso menos produtivo de capital escasso.
Refinarias, trem-bala, estádios da Copa, nada disso deve melhorar a produtividade geral da economia brasileira, de resto faminta de investimentos em outras áreas e já enfrentando deficit externos devido à insuficiência de poupança.
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Folha de S.Paulo - Janio de Freitas: A fonte do sucesso - 02/01/2011
Folha de S.Paulo - Janio de Freitas: A fonte do sucesso - 02/01/2011: "Ocorreu uma inovação decisiva, quase estritamente intuitiva, que veio a fazer o sucesso de Lula e do seu governo: a imaginação
A APROVAÇÃO espetacular da presidência de Lula se explica, é claro, pelo uso que fez dos instrumentos de governo, mas daí decorre uma indagação menos óbvia e mais interessante: o que levou a esse uso que se diferenciou do mesmismo governamental brasileiro?
Os dois mandatos de Lula são de presidentes e de governos que têm muito pouco em comum. Não foi por falta de memória que a caracterização do governo Lula como mero continuísmo, tão insistente no primeiro mandato, nunca mais foi repetida no segundo. Continuísmo que não era, como mal se defendiam os petistas, uma incompreensão da crítica nem, tampouco, uma contingência incontornável.
Era a escolha de um presidente e um governo temerosos dos setores dominantes, inseguros da resistência para manter-se no poder, e por isso decididos a apegar-se à cartilha do mesmismo governamental. Um estado muito evidente na contradição entre os ares serviçais voltados para o empresariado forte, em especial o financeiro, e a fúria desabafada por Lula, nas falas ao povão, contra 'as elites desse país'.
O convencionalismo do governo Lula confirmou-se na disputa pela reeleição. Geraldo Alckmin não era um competidor difícil, carecia de presença nacional e sustentava uma candidatura cujo único possível atrativo era a oposição a Lula. O qual, além do mais, mesmo valendo-se de facilidades e de meios de propaganda do governo, tal como Fernando Henrique em sua reeleição, teve uma vitória muito pouco expressiva. Ainda há pouco se veio a saber, pelo WikiLeaks, que a derrota de Lula chegou a ser temida em seu círculo.
De qualquer modo, a vitória pareceu dar a Lula alguma confiança mais. Embora não suficiente para encorajá-lo a fazer um governo menos preso aos legados históricos e aos recentes -um país a serviço do setor financeiro privado, com o serviço público devastado, um ou outro programinha social para maquiar a face real, a inexistência de soberania nas relações internacionais, e o mais que se sabe.
Nesse vago andar, não seria apenas por acaso a junção de Guido Mantega, Dilma Rousseff e Celso Amorim em torno de Lula e, desde aí, a criação de um sentido para o governo. Lula conquistou, sem o cerceio do duo de regentes conservadores Antonio Palocci/Henrique Meirelles, o estímulo para a segurança pessoal e a redefinição de sua presidência. Afinal formava-se a unidade no centro de decisões do governo.
A velha ideia de crescimento conjugado a combate à inflação enfim teve a sua oportunidade. Nada a ver com o petismo, nada das modificações estruturais e das reformas institucionais que, antes, se esperariam de Lula. Mas ocorreu uma inovação decisiva, quase estritamente intuitiva, que veio a fazer o sucesso de Lula e do seu governo: a imaginação.
Uma das características do Brasil é a falta de imaginação política e, com ela, de imaginação governamental. O exemplo extremo, nesse sentido, é o governo Fernando Henrique, em que 'o intelectual no Poder' só se afastou do roteiro mediocremente tradicional para submeter-se, e ao país, às diretrizes externas do neoliberalismo, feitas de muitos interesses e escassas ideias.
Aderido à proposta de crescimento, o governo Lula adotou (até por necessidade) uma dose razoável de imaginação, e agiu em função dela. O PAC, Programa de Aceleração do Crescimento, é o exemplo mais apropriado. Não compõe um plano de ação, atira-se para todos os lados, mas deu o sentido de ação governamental a enfrentar buracos negros que, em seus variados gêneros, jamais viam ultrapassado o limite das palavras vazias, ou carregadas só de demagogia.
Geração de energia, retorno à indústria naval, transposição do São Francisco, estímulo a novas siderúrgicas, força total à Petrobras -fartas quantidade e variedade de iniciativas que criaram o clima de país em reelaboração. Nesse conjunto caótico do PAC, a urbanização de favelas juntou-se a programas como o Minha Casa, Minha Vida, o gigantismo do Bolsa Família e vários outros para grupos sociais e atividades pouco ou nada assistidos. Combinados, deram ao governo a face de poder voltado para o povo sempre sem governo. A imaginação deu frutos, a Lula e seu governo e, como melhoria das condições de vida, a grande parte da população.
Comparada à inovação nas relações exteriores, tanto políticas como comerciais, a ação interna foi ideologicamente moderada. Hoje se tem certeza, pelo WikiLeaks, de que a aqui tão criticada mediação no problema Irã foi a pedido dos Estados Unidos. Se esse episódio merece revisão, outros, como a insistência malsucedida para ingresso no Conselho de Segurança da ONU e a 'aliança estratégica' com o governo francês de Nicolas Sarkozy, continuam deploráveis. Mas o governo imaginou ações que conquistaram uma nova inserção internacional do Brasil e lhe deram a voz de nação. A importância dessa novidade é tão grande que ainda não pode ser percebida na plenitude, como realizadora de nova configuração do país e mesmo do mundo. A imaginação deu frutos.
A própria candidatura de Dilma Rousseff foi o exercício de uma liberação imaginativa, de sentido político, imposta por Lula em uma exibição definitiva da autoconfiança e da autenticidade que lhe faltaram no primeiro mandato. E outra vez a imaginação deu frutos.
O Brasil merece que Dilma Rousseff os reproduza e aprimore.
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A APROVAÇÃO espetacular da presidência de Lula se explica, é claro, pelo uso que fez dos instrumentos de governo, mas daí decorre uma indagação menos óbvia e mais interessante: o que levou a esse uso que se diferenciou do mesmismo governamental brasileiro?
Os dois mandatos de Lula são de presidentes e de governos que têm muito pouco em comum. Não foi por falta de memória que a caracterização do governo Lula como mero continuísmo, tão insistente no primeiro mandato, nunca mais foi repetida no segundo. Continuísmo que não era, como mal se defendiam os petistas, uma incompreensão da crítica nem, tampouco, uma contingência incontornável.
Era a escolha de um presidente e um governo temerosos dos setores dominantes, inseguros da resistência para manter-se no poder, e por isso decididos a apegar-se à cartilha do mesmismo governamental. Um estado muito evidente na contradição entre os ares serviçais voltados para o empresariado forte, em especial o financeiro, e a fúria desabafada por Lula, nas falas ao povão, contra 'as elites desse país'.
O convencionalismo do governo Lula confirmou-se na disputa pela reeleição. Geraldo Alckmin não era um competidor difícil, carecia de presença nacional e sustentava uma candidatura cujo único possível atrativo era a oposição a Lula. O qual, além do mais, mesmo valendo-se de facilidades e de meios de propaganda do governo, tal como Fernando Henrique em sua reeleição, teve uma vitória muito pouco expressiva. Ainda há pouco se veio a saber, pelo WikiLeaks, que a derrota de Lula chegou a ser temida em seu círculo.
De qualquer modo, a vitória pareceu dar a Lula alguma confiança mais. Embora não suficiente para encorajá-lo a fazer um governo menos preso aos legados históricos e aos recentes -um país a serviço do setor financeiro privado, com o serviço público devastado, um ou outro programinha social para maquiar a face real, a inexistência de soberania nas relações internacionais, e o mais que se sabe.
Nesse vago andar, não seria apenas por acaso a junção de Guido Mantega, Dilma Rousseff e Celso Amorim em torno de Lula e, desde aí, a criação de um sentido para o governo. Lula conquistou, sem o cerceio do duo de regentes conservadores Antonio Palocci/Henrique Meirelles, o estímulo para a segurança pessoal e a redefinição de sua presidência. Afinal formava-se a unidade no centro de decisões do governo.
A velha ideia de crescimento conjugado a combate à inflação enfim teve a sua oportunidade. Nada a ver com o petismo, nada das modificações estruturais e das reformas institucionais que, antes, se esperariam de Lula. Mas ocorreu uma inovação decisiva, quase estritamente intuitiva, que veio a fazer o sucesso de Lula e do seu governo: a imaginação.
Uma das características do Brasil é a falta de imaginação política e, com ela, de imaginação governamental. O exemplo extremo, nesse sentido, é o governo Fernando Henrique, em que 'o intelectual no Poder' só se afastou do roteiro mediocremente tradicional para submeter-se, e ao país, às diretrizes externas do neoliberalismo, feitas de muitos interesses e escassas ideias.
Aderido à proposta de crescimento, o governo Lula adotou (até por necessidade) uma dose razoável de imaginação, e agiu em função dela. O PAC, Programa de Aceleração do Crescimento, é o exemplo mais apropriado. Não compõe um plano de ação, atira-se para todos os lados, mas deu o sentido de ação governamental a enfrentar buracos negros que, em seus variados gêneros, jamais viam ultrapassado o limite das palavras vazias, ou carregadas só de demagogia.
Geração de energia, retorno à indústria naval, transposição do São Francisco, estímulo a novas siderúrgicas, força total à Petrobras -fartas quantidade e variedade de iniciativas que criaram o clima de país em reelaboração. Nesse conjunto caótico do PAC, a urbanização de favelas juntou-se a programas como o Minha Casa, Minha Vida, o gigantismo do Bolsa Família e vários outros para grupos sociais e atividades pouco ou nada assistidos. Combinados, deram ao governo a face de poder voltado para o povo sempre sem governo. A imaginação deu frutos, a Lula e seu governo e, como melhoria das condições de vida, a grande parte da população.
Comparada à inovação nas relações exteriores, tanto políticas como comerciais, a ação interna foi ideologicamente moderada. Hoje se tem certeza, pelo WikiLeaks, de que a aqui tão criticada mediação no problema Irã foi a pedido dos Estados Unidos. Se esse episódio merece revisão, outros, como a insistência malsucedida para ingresso no Conselho de Segurança da ONU e a 'aliança estratégica' com o governo francês de Nicolas Sarkozy, continuam deploráveis. Mas o governo imaginou ações que conquistaram uma nova inserção internacional do Brasil e lhe deram a voz de nação. A importância dessa novidade é tão grande que ainda não pode ser percebida na plenitude, como realizadora de nova configuração do país e mesmo do mundo. A imaginação deu frutos.
A própria candidatura de Dilma Rousseff foi o exercício de uma liberação imaginativa, de sentido político, imposta por Lula em uma exibição definitiva da autoconfiança e da autenticidade que lhe faltaram no primeiro mandato. E outra vez a imaginação deu frutos.
O Brasil merece que Dilma Rousseff os reproduza e aprimore.
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Dilma toma posse: “Sou a presidenta de todos os brasileiros” « CartaCapital
Dilma toma posse: “Sou a presidenta de todos os brasileiros” « CartaCapital: "O Brasil tem, oficialmente, uma mulher no comando. Dilma Rousseff tomou posse na tarde deste sábado 1 em Brasília. A presidenta assinou o termo de posse no Congresso Nacional às 15h. Apesar da forte chuva que caiu na capital federal, milhares de pessoas aguardaram na Esplanada dos Ministérios para acompanhar a transmissão do cargo. A passagem da presidenta em carro aberto, no entanto, precisou ser cancelada por conta do temporal. Ela fez o percurso no Rolls Royce presidencial, mas com a capota fechada.
Após o cortejo inicial, a presidenta e o vice, Michel Temer, chegaram ao Congresso Nacional, entrando pela chapelaria, devido à chuva. Recepcionados pelo presidente do Senado, José Sarney, e da Câmara, Marco Maia, eles eram aguardados pelos convidados, entre eles, autoridades estrangeiras como Hugo Chávez, presidente da Venezuela, e Felipe de Bourbon, príncipe das Astúrias.
A presidenta iniciou seu mandato com um discurso no plenário do Congresso. Dilma começou enaltecendo as mulheres e o fato de ser a primeira a ocupar a presidência da República: “Hoje será a primeira vez que a faixa presidencial cingirá o ombro de uma mulher. Sinto uma imensa honra por essa decisão do povo brasileiro. Sei que meu mandato deve incluir a tradução mais generosa dessa ousadia do voto popular. Meu compromisso supremo é honrar as mulheres, proteger os mais frágeis e governar para todos”
Emocionada, Dilma falou sobre Lula: “Venho para consolidar a obra transformadora do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com quem tive a mais vigorosa experiência política da minha vida”. A presidenta afirmou que Lula foi “um presidente que mudou a forma de governar e levou o povo brasileiro a confiar mais em si mesmo e no próprio país”, e foi muito aplaudida ao lembrar do ex-vice-presidente José Alencar, internado em São Paulo para mais um episódio de sua luta contra o câncer: “Que exemplo de coragem e de amor à vida nos dá esse homem.”
Sobre o futuro, Dilma declarou que o país vive um dos melhores períodos da vida nacional, mas que é preciso manter a estabilidade econômica, controle rígido da inflação e combate ao desequilíbrio externo para que a situação se mantenha. Ela também prometeu incentivos ao setor privado de pequeno porte e afirmou que não fará “a menor concessão” em relação ao protecionismo econômico dos países ricos.
A presidenta também defendeu reformas e austeridade na máquina pública. “É tarefa indeclinável e urgente uma reforma com mudanças na legislação para fazer avançar nossa jovem democracia. Faremos um trabalho permanente e continuado para melhorar a qualidade do gasto público”. Dilma também citou o desafio de conduzir a exploração do petróleo da camada pré-sal: “O pré-sal é nosso passaporte para o futuro, mas só o será realmente se produzir uma síntese de avanço tecnológico, avanço ambiental e avanço social.”
A questão social, que tanto marcou os discursos de posse de Lula, foi trazida por Dilma: “A luta mais obstinada do meu governo será pela erradicação da pobreza extrema e a criação de oportunidades para todos. Uma expressiva mobilidade social ocorreu nos dois mandatos do presidente Lula, mas ainda existe pobreza a envergonhar nosso país e a impedir a nossa afirmação plena como povo desenvolvido. Não vou descansar enquanto houver brasileiros sem alimentos à mesa”.
A respeito das relações externas, a presidenta mencionou fortalecimento das relações entre os países latino-americanos, do Mercosul e da Unasul. Citou as relações com África, Oriente Médio, Europa e Ásia. Por último, ressaltou a importância da relação com os Estados Unidos e afirmou que continuará mantendo um bom diálogo com Washington.
Encaminhando-se para o fim do discurso, Dilma fez um apelo à participação de todos os níveis de governo e setores da sociedade na condução do governo. “O destino de um país não se resume à ação de seu governo. Ele é o resultado do trabalho e da ação transformadora de todos os brasileiros e brasileiras”. Com a voz embargada, a presidenta “estendeu a mão” aos partidos de oposição e aos segmentos que não a apoiaram na campanha eleitoral. “A partir deste momento, sou a presidenta de todos os brasileiros.”
A lembrança dos companheiros de luta contra a ditadura foi muito aplaudida no Congresso: “Eu dediquei toda a minha vida à causa do Brasil. Entreguei minha juventude ao sonho de um país justo e democrático. Suportei as adversidades mais extremas. Não tenho qualquer arrependimento, tampouco ressentimento ou rancor. Muitos da minha geração que tombaram pelo caminho não podem compartilhar a alegria deste momento. Divido com eles a alegria desta conquista e rendo-lhes minha homenagem. Esta às vezes dura caminhada me fez valorizar e amar muito mais a vida”
Dilma encerrou o discurso citando Guimarães Rosa: “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa,sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.
Assim, tomou posse a primeira mulher a ocupar a cadeira de presidente da República Federativa do Brasil.
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Após o cortejo inicial, a presidenta e o vice, Michel Temer, chegaram ao Congresso Nacional, entrando pela chapelaria, devido à chuva. Recepcionados pelo presidente do Senado, José Sarney, e da Câmara, Marco Maia, eles eram aguardados pelos convidados, entre eles, autoridades estrangeiras como Hugo Chávez, presidente da Venezuela, e Felipe de Bourbon, príncipe das Astúrias.
A presidenta iniciou seu mandato com um discurso no plenário do Congresso. Dilma começou enaltecendo as mulheres e o fato de ser a primeira a ocupar a presidência da República: “Hoje será a primeira vez que a faixa presidencial cingirá o ombro de uma mulher. Sinto uma imensa honra por essa decisão do povo brasileiro. Sei que meu mandato deve incluir a tradução mais generosa dessa ousadia do voto popular. Meu compromisso supremo é honrar as mulheres, proteger os mais frágeis e governar para todos”
Emocionada, Dilma falou sobre Lula: “Venho para consolidar a obra transformadora do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com quem tive a mais vigorosa experiência política da minha vida”. A presidenta afirmou que Lula foi “um presidente que mudou a forma de governar e levou o povo brasileiro a confiar mais em si mesmo e no próprio país”, e foi muito aplaudida ao lembrar do ex-vice-presidente José Alencar, internado em São Paulo para mais um episódio de sua luta contra o câncer: “Que exemplo de coragem e de amor à vida nos dá esse homem.”
Sobre o futuro, Dilma declarou que o país vive um dos melhores períodos da vida nacional, mas que é preciso manter a estabilidade econômica, controle rígido da inflação e combate ao desequilíbrio externo para que a situação se mantenha. Ela também prometeu incentivos ao setor privado de pequeno porte e afirmou que não fará “a menor concessão” em relação ao protecionismo econômico dos países ricos.
A presidenta também defendeu reformas e austeridade na máquina pública. “É tarefa indeclinável e urgente uma reforma com mudanças na legislação para fazer avançar nossa jovem democracia. Faremos um trabalho permanente e continuado para melhorar a qualidade do gasto público”. Dilma também citou o desafio de conduzir a exploração do petróleo da camada pré-sal: “O pré-sal é nosso passaporte para o futuro, mas só o será realmente se produzir uma síntese de avanço tecnológico, avanço ambiental e avanço social.”
A questão social, que tanto marcou os discursos de posse de Lula, foi trazida por Dilma: “A luta mais obstinada do meu governo será pela erradicação da pobreza extrema e a criação de oportunidades para todos. Uma expressiva mobilidade social ocorreu nos dois mandatos do presidente Lula, mas ainda existe pobreza a envergonhar nosso país e a impedir a nossa afirmação plena como povo desenvolvido. Não vou descansar enquanto houver brasileiros sem alimentos à mesa”.
A respeito das relações externas, a presidenta mencionou fortalecimento das relações entre os países latino-americanos, do Mercosul e da Unasul. Citou as relações com África, Oriente Médio, Europa e Ásia. Por último, ressaltou a importância da relação com os Estados Unidos e afirmou que continuará mantendo um bom diálogo com Washington.
Encaminhando-se para o fim do discurso, Dilma fez um apelo à participação de todos os níveis de governo e setores da sociedade na condução do governo. “O destino de um país não se resume à ação de seu governo. Ele é o resultado do trabalho e da ação transformadora de todos os brasileiros e brasileiras”. Com a voz embargada, a presidenta “estendeu a mão” aos partidos de oposição e aos segmentos que não a apoiaram na campanha eleitoral. “A partir deste momento, sou a presidenta de todos os brasileiros.”
A lembrança dos companheiros de luta contra a ditadura foi muito aplaudida no Congresso: “Eu dediquei toda a minha vida à causa do Brasil. Entreguei minha juventude ao sonho de um país justo e democrático. Suportei as adversidades mais extremas. Não tenho qualquer arrependimento, tampouco ressentimento ou rancor. Muitos da minha geração que tombaram pelo caminho não podem compartilhar a alegria deste momento. Divido com eles a alegria desta conquista e rendo-lhes minha homenagem. Esta às vezes dura caminhada me fez valorizar e amar muito mais a vida”
Dilma encerrou o discurso citando Guimarães Rosa: “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa,sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.
Assim, tomou posse a primeira mulher a ocupar a cadeira de presidente da República Federativa do Brasil.
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sábado, 1 de janeiro de 2011
O DIREITO DE SONHAR, Eduardo Galeano (*) | Fernando Massote
O DIREITO DE SONHAR, Eduardo Galeano (*) | Fernando Massote: "O DIREITO DE SONHAR, Eduardo Galeano (*)
Política Nacional | 31 de dezembro de 2010 | Envie para um amigo
Tente adivinhar como será o mundo depois do ano 2000. Temos apenas uma única certeza: se estivermos vivos, teremos virado gente do século passado. Pior ainda, gente do milênio passado.
Sonhar não faz parte dos trinta direitos humanos que as Nações Unidas proclamaram no final de 1948. Mas, se não fosse por causa do direito de sonhar e pela água que dele jorra, a maior parte dosdireitos morreria de sede. Deliremos, pois, por um instante. O mundo, que hoje está de pernas para o ar, vai ter de novo os pés no chão.
Nas ruas e avenidas, carros vão ser atropelados por cachorros.
O ar será puro, sem o veneno dos canos de descarga, e vai existir apenas a contaminação que emana dos medos humanos e das humanas paixões.
O povo não será guiado pelos carros, nem programado pelo computador, nem comprado pelo supermercado, nem visto pela TV. A TV vai deixar de ser o mais importante membro da família, para ser tratada como um ferro de passar ou uma máquina de lavar roupas.
Vamos trabalhar para viver, em vez de viver para trabalhar.
Em nenhum país do mundo os jovens vão ser presos por contestar o serviço militar. Serão encarcerados apenas os quiserem se alistar.
Os economistas não chamarão de nível de vida o nível de consumo, nem de qualidade de vida a quantidade de coisas.
Os cozinheiros não vão mais acreditar que as lagostas gostam de ser servidas vivas.
Os historiadores não vão mais acreditar que os países gostem de ser invadidos.
Os políticos não vão mais acreditar que os pobres gostem de encher a barriga de promessas.
O mundo não vai estar mais em guerra contra os pobres, mas contra a pobreza. E a indústria militar não vai ter outra saída senão declarar falência, para sempre.
Ninguém vai morrer de fome, porque não haverá ninguém morrendo de indigestão.
Os meninos de rua não vão ser tratados como se fossem lixo, porque não vão existir meninos de rua. Os meninos ricos não vão ser tratados como se fossem dinheiro, porque não vão existir meninos ricos.
A educação não vai ser um privilégio de quem pode pagar por ela.
A polícia não vai ser a maldição de quem não pode comprá-la.
Justiça e liberdade, gêmeas siamesas condenadas a viver separadas, vão estar de novo unidas, bem juntinhas, ombro a ombro.
Uma mulher - negra - vai ser presidente do Brasil, e outra - negra - vai ser presidente dos Estados Unidos. Uma mulher indígena vai governar a Guatemala e outra, o Peru.
Na Argentina, as loucas da Praça de Maio vão virar exemplo de sanidade mental, porque se negaram a esquecer, em tempos de amnésia obrigatória.
A Santa Madre Igreja vai corrigir alguns erros das Tábuas de Moisés. O sexto mandamento vaiordenar: “Festejarás o corpo”. E o nono, que desconfia do desejo, vai declará-lo sacro. A Igreja vai ditar ainda um décimo-primeiro mandamento, do qual o Senhor se esqueceu: “Amarás a natureza, da qual fazes parte”. Todos os penitentes vão virar celebrantes, e não vai haver noite que não seja
vivida como se fosse à última, nem dia que não seja vivido como se fosse o primeiro.
(*) - Eduardo Galeano, El derecho de soñar, l997
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Política Nacional | 31 de dezembro de 2010 | Envie para um amigo
Tente adivinhar como será o mundo depois do ano 2000. Temos apenas uma única certeza: se estivermos vivos, teremos virado gente do século passado. Pior ainda, gente do milênio passado.
Sonhar não faz parte dos trinta direitos humanos que as Nações Unidas proclamaram no final de 1948. Mas, se não fosse por causa do direito de sonhar e pela água que dele jorra, a maior parte dosdireitos morreria de sede. Deliremos, pois, por um instante. O mundo, que hoje está de pernas para o ar, vai ter de novo os pés no chão.
Nas ruas e avenidas, carros vão ser atropelados por cachorros.
O ar será puro, sem o veneno dos canos de descarga, e vai existir apenas a contaminação que emana dos medos humanos e das humanas paixões.
O povo não será guiado pelos carros, nem programado pelo computador, nem comprado pelo supermercado, nem visto pela TV. A TV vai deixar de ser o mais importante membro da família, para ser tratada como um ferro de passar ou uma máquina de lavar roupas.
Vamos trabalhar para viver, em vez de viver para trabalhar.
Em nenhum país do mundo os jovens vão ser presos por contestar o serviço militar. Serão encarcerados apenas os quiserem se alistar.
Os economistas não chamarão de nível de vida o nível de consumo, nem de qualidade de vida a quantidade de coisas.
Os cozinheiros não vão mais acreditar que as lagostas gostam de ser servidas vivas.
Os historiadores não vão mais acreditar que os países gostem de ser invadidos.
Os políticos não vão mais acreditar que os pobres gostem de encher a barriga de promessas.
O mundo não vai estar mais em guerra contra os pobres, mas contra a pobreza. E a indústria militar não vai ter outra saída senão declarar falência, para sempre.
Ninguém vai morrer de fome, porque não haverá ninguém morrendo de indigestão.
Os meninos de rua não vão ser tratados como se fossem lixo, porque não vão existir meninos de rua. Os meninos ricos não vão ser tratados como se fossem dinheiro, porque não vão existir meninos ricos.
A educação não vai ser um privilégio de quem pode pagar por ela.
A polícia não vai ser a maldição de quem não pode comprá-la.
Justiça e liberdade, gêmeas siamesas condenadas a viver separadas, vão estar de novo unidas, bem juntinhas, ombro a ombro.
Uma mulher - negra - vai ser presidente do Brasil, e outra - negra - vai ser presidente dos Estados Unidos. Uma mulher indígena vai governar a Guatemala e outra, o Peru.
Na Argentina, as loucas da Praça de Maio vão virar exemplo de sanidade mental, porque se negaram a esquecer, em tempos de amnésia obrigatória.
A Santa Madre Igreja vai corrigir alguns erros das Tábuas de Moisés. O sexto mandamento vaiordenar: “Festejarás o corpo”. E o nono, que desconfia do desejo, vai declará-lo sacro. A Igreja vai ditar ainda um décimo-primeiro mandamento, do qual o Senhor se esqueceu: “Amarás a natureza, da qual fazes parte”. Todos os penitentes vão virar celebrantes, e não vai haver noite que não seja
vivida como se fosse à última, nem dia que não seja vivido como se fosse o primeiro.
(*) - Eduardo Galeano, El derecho de soñar, l997
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