domingo, 19 de julho de 2015

O jogo político das forças repressivas brasileiras |

O jogo político das forças repressivas brasileiras |




O jogo político das forças repressivas brasileiras







Por Rogerio Dultra dos Santos




A participação da Polícia Federal na “Operação Lava-Jato” revela a
situação de um corpo que compreendeu a sua importância no jogo político.
Isto significa que a PF irá desenvolver – pelo menos em setores que têm
se mostrado hegemônicos –, cada vez de forma mais autônoma, uma agenda
política descolada do controle normativo-constitucional.


A utilização da polícia no jogo político não é nenhuma novidade na história. A criminalização das oposições muito menos.


Por trás de uma pauta aparentemente respaldada pelo direito subjaz um
projeto moralizador, refratário ao funcionamento naturalmente plural e
contraditório da democracia. Imbuída de que porta a verdade
inquestionável, a instituição se debruça sobre a vida política nacional,
esquadrinhando os seus agentes e impedindo o seu curso, numa ânsia
quase-religiosa de purificação do que considera estranho à república.


Foi assim com a polícia política brasileira, a DEOPS – Delegacia
Especializada de Ordem Política e Social, que funcionou entre 1928 e
1983, como instrumento de criminalização e anulação das atividades de
contestação oriundas das classes populares.


O emprego de serviços de inteligência para fins políticos também
operou de forma sistemática com o SNI – Serviço Nacional de Informações,
criado em 1964 pela ditadura e somente extinto em 1999. Órgãos do SNI
instalados em Universidades, por exemplo, monitoravam as ações de
dissidência ao regime, o movimento pela anistia e o das diretas já.


Algo menos óbvio é que uma instituição submetida aos limites
normativos oficiais é quase inviável quando a corporação define sua
agenda operacional a partir de interesses próprios. É que a instituição
perde seu caráter republicano, porque não submetida ao controle externo,
porque não orientada pelo interesse público.


Esta anomalia institucional impede que consequências indesejadas para a vida democrática sejam determinadas de antemão.


O arrivismo político-burocrático de parte da PF, a falta de controle
do Ministério da Justiça sobre as suas atividades e a criminalização da
política como agenda geral de suas “operações” configuram a conjuntura
que coloca em xeque a estabilidade da democracia no país.


Este processo – equivalente ao desencadeado na Itália pela “Operação
mãos limpas” – que aniquilou os maiores partidos e deu origem à
hegemonia da direita de Berlusconi por mais de uma década, bate à nossa
porta. Ninguém dele está a salvo.


O jogo pelo poder coloca, além da PF, praticamente todas as
instituições do sistema repressivo brasileiro em disputa,
contaminando-as com o vírus político do “heroísmo” de resultados.


E nem se precisaria ir tão longe na história do Brasil para
identificar de onde surge esta mutação institucional que atinge a PF, e
que parece alcançar também o Ministério Público Federal e o próprio
Poder Judiciário.


O primeiro sintoma de aparelhamento político da PF foi a “Operação Lunus”,
em 2002, articulada pelo PSDB contra a Ex-Senadora maranhense Roseana
Sarney, então candidata à Presidência da República. Mesmo sendo
arquivada pelo STF por falta de provas um ano depois, a operação fez
naufragar a candidatura de Roseana.


O dado mais importante desta primeira grande “operação” política da
PF é que ela foi articulada com a imprensa para der repercussão imediata
na opinião pública, induzindo uma condenação prévia e inviabilizando a
candidata do PMDB. Isto foi motivo de comemoração não somente do PSDB,
mas inclusive da – à época – oposição petista.


Chegando à presidência, Lula estabeleceu um processo de empoderamento
institucional da Polícia Federal, ampliando os investimentos em
tecnologia, capacitação, concursos e orçamento, a ponto de que parte do
MPF passou a entender-se sem condições de controlar a PF e que esta se
transformou em unidade autônoma de investigação
(hoje o MPF luta para aprovar que a sua capacidade investigatória seja
implementada através de uma polícia própria, o que poderá causar outra
sanha heróica de profilaxia da política).


Logo depois explode o chamado “mensalão” e o PT é tragado pelo mesmo
protocolo de “operações”, forças-tarefa, vazamentos seletivos de
investigações em andamento para os grandes meios de comunicação e
adjetivações sem provas estabelecidas em juízo. As oposições aplaudiram
de pé.


Nos últimos 13 anos as instituições repressivas e de justiça
cresceram e se internacionalizaram. Internacionalização que implicou,
por exemplo, em extensos cursos de formação policial e jurídica nos EUA.
Policiais, procuradores e juízes aprenderam novas técnicas de
investigação, mas, especialmente, novos modelos de direito e de processo
penal que prescindem de várias das garantias previstas em nossa
Constituição.


Este é o caso da teoria do domínio do fato e das regras do plea bergaining,
que deram origem aos céleres e midiáticos protocolos de investigação do
crime de lavagem de dinheiro e a toda legislação de delações premiadas.


Assim, a “Operação Lava-Jato” aparece como a terceira grande onda de
ataque das instituições repressivas brasileiras à política, mas sob uma
nova roupagem.


Profissionalizadas, internacionalizadas e articuladas politicamente,
agindo de forma autônoma e sem que qualquer controle republicano balize
as suas ações, estas instituições têm o poder de ameaçar todo o processo
democrático.


O certo é que ninguém que tenha vida pública está mais seguro de nada.


Se é viável a interpretação segundo a qual parte dos órgãos de
investigação está funcionando com uma agenda política fechada ao
escrutínio público, o escopo de suas atividades não ficará – e já não
está mais ficando – restrito ao PT.


Se há a incorporação, por estes órgãos, de uma compreensão
hegemonicamente moralizadora e criminalizadora da política – e poucos
duvidam disto – o andamento desta e de outras “operações” alcançará não
só integrantes dos partidos aliados, mas também da oposição política.


O resultado, contudo, não será um país “passado a limpo” como muitos
imaginam e até desejam, mas uma democracia fragilizada, submetida a uma
caça às bruxas que perverte os limites do direito.


Apesar do processo que tramita na Justiça Federal no Paraná não ser
televisionado, a exposição sistemática na mídia permite o avanço seguro
da PF e do MPF rumo à criminalização de forças políticas para além do
governo Dilma Rousseff e para além do PT. Ontem foi Collor de Mello.
Amanhã será Eduardo Cunha. Depois, quem sabe, Temer, Dilma, Lula, sem
esquecer dos “300 picaretas” do Congresso Nacional, que insistem em
entrar em recesso. Quem irá sobrar desta vez para bater palmas?

O Uber e o mito da panaceia tecnológica

O Uber e o mito da panaceia tecnológica — CartaCapital



Marketing

O Uber e o mito da panaceia tecnológica


por Patrick Luiz Sullivan De Oliveira*



publicado
19/07/2015 04h55,


última modificação
19/07/2015 05h00

O Uber se apresenta como um fenômeno da “economia compartilhada”, mas a
ideia é desonesta. O aplicativo nada mais é do que uma empresa agressiva
tentando maximizar seus lucros

Recentemente, taxistas em
cidades espalhadas pelo país foram às ruas para protestar — em certos
casos violentamente — contra a introdução do Uber no Brasil. Na França a situação foi ainda mais extrema, com carros pegando fogo e a Uber por fim decidindo suspender o seu segmento mais low-cost no país dos gauleses.


Simpatizantes do Uber criticaram severamente os taxistas (e os
reguladores, que não andam satisfeitos com o fato de que o serviço não
cumpre as normas estabelecidas para o transporte de passageiros). Dizem
que eles querem barrar a competição e manter o monopólio de passageiros,
que não são nada mais do que uma classe corporativista reacionária com
medo de perder os seus privilégios.


Mas as coisas não são tão simples assim.


O Uber não é nenhuma panaceia, muito menos uma
empresa beatificada. Através de um marketing engenhoso,
companhias multibilionárias do Silicon Valley apresentam para seus
consumidores uma autoimagem positiva e utópica que é extremamente
tentadora nesses tempos econômicos tenebrosos.


O Uber diz que faz parte de um novo fenômeno, o da “economia compartilhada
— um termo que conjura a imagem de pessoas alegres e bem dispostas
ajudando umas às outras, todas ganhando uma parcela justa no processo.
Mas a ideia de que o Uber enquadra-se nesse conceito de “economia
compartilhada” é desonesta, pois o aplicativo nada mais é do que uma
empresa extremamente agressiva tentando de tudo para maximizar seus
lucros.


Talvez seja até o melhor exemplo que temos atualmente de um
capitalismo desenfreado abastecido por enormes reservas de capital que
primeiro destroem a competição para depois monopolizar o mercado (o
exemplo da Amazon). Com um exercito de lobistas e de advogados o Uber
vem penetrando mercados de maneira beligerante, curvando governos municipais aos seus desejos e colecionando multas por não dar ouvido aos reguladores.


Muitos já falaram sobre os benefícios que o Uber supostamente traz,
então talvez seria hora de dar voz a algumas criticas que precisam ser
tomadas em consideração para o debate progredir de uma forma realmente
honesta.


Do lado do consumidor temos a questão da regulamentação,
principalmente no quesito da segurança. Como a história dos séculos XIX e
XX demonstra, não podemos contar com o “mercado” para arcar os custos
sociais dos avanços industriais e tecnológicos. As condições de trabalho
dos mineradores — com seus pulmões tachados de preto — não melhorou por
livre e espontânea vontade das mineradoras. E as industrias químicas
não começaram a lidar com o lixo toxico de uma maneira mais segura para o
meio ambiente e para as seus vizinhos só porque são conscientes.


Seria ingênuo esperar que o Uber resolveria questões relativas a
inspetorias de veículos, paliação do risco sofrido por passageiros,
motoristas e pedestres, emissão de gazes, entre outras.


Quem é legalmente responsável no caso de um acidente envolvendo um carro da Uber? 


Fica também a dúvida quanto a ética do sistema de “surge pricing”
(onde os preços aumentam simultaneamente com a demanda) adotado pela
empresa. O Uber foi criticado severamente quando seus preços explodiram
durante o sequestro em massa que ocorreu dezembro passado em Sidney  (o preço mínimo para usar o serviço subiu para $100).


Tudo isso demonstra que o serviço insere-se em um complexo sistema de transporte publico — um problema de política urbana que deveria ser sujeito a deliberação de todos os partidos afetados.


Podemos também analisar a situação pelo ângulo da classe
trabalhadora. Nos Estados Unidos, a cada dia cresce o descontentamento
dos motoristas do Uber. Eles têm visto o seus percentuais de lucro cair, mesmo continuando em ter que arcar com todos os riscos envolvidos em prestar um serviço de transporte.


Inclusive, essa exímia empresa da “economia compartilhada” foi acusada de surrupiar gorjetas que clientes deixavam aos motoristas. (Não menos preocupantes é como a empresa manuseia os dados privados de seus usuários, ainda mais depois que um de seus executivos sugeriu usar essas informações para vendetas contra jornalistas que fizeram reportagens que não foram favoráveis à imagem do Uber).


Esses fatores explicam porque nos EUA temos um crescente movimento
para que os motoristas deixem de ser autônomos e virem empregados. Não
podemos esquecer que o Uber é parte de um processo que anda ganhando
força nessa economia global onde os termos são ditados pelo capital
financeiro: a criação de uma classe maior de subempregados
cada vez mais dependentes de bicos aqui e ali para sobreviver enquanto
os lucros dos investidores crescem a níveis exorbitantes.


O CEO do Uber, Travis Kalanick, acusou
os críticos do aplicativo de quererem “parar o progresso”. Isso nada
mais é do que uma estratégia retórica que busca marginalizar aqueles que
não compartilham a visão (e os lucros) das elites industriais,
tecnológicas e financeiras.


Como o historiador François Jarrige demonstra em seu livro Techno-critiqes: Du refus des machines à la contestation des technosciences (Paris:
La Découverte, 2014), esse discurso marginalizador nasceu junto com a
Revolução Industrial e consolidou-se na Belle Époque, justamente o
período em que surgiram os grandes barões do industrialismo e um
movimento trabalhista que buscava uma segurança social melhor e salários
mais dignos ante uma desigualdade crescente.


Hoje, em 2015, temos a Uber estimada em mais de 40 bilhões de dólares, o seu CEO com seus
5.3 bilhões de patrimônio e seus motoristas autônomos (“driver
partners”, de acordo com a “novilíngua” do Silicon Valley) — esses
últimos cada vez mais desiludidos com o potencial econômico de um trabalho instável ao mesmo tempo em que ameaçam o ganha pão de milhões de taxistas pelo mundo.


São justamente as vozes mais criticas que demonstram que o
“progresso” pode seguir caminhos diversificados. Podemos “des-inventar”
certas inovações que se mostraram perigosas, como o DDT e o CFC, e
podemos procurar maneiras de orientá-las em direções mais positivas e
seguras, como vem sendo o caso da energia nuclear.


A ideologia que brota do Silicon Valley apresenta a tecnologia como
uma coisa inerentemente positiva ou, na pior das hipóteses, neutra. Mas a
tecnologia nunca é imune a dinâmicas de poder. O “progresso” não é
alcançado através de inovações tecnológicas, mas sim graças a escolhas
políticas de como (e se) incorporaremos essas inovações dentro do nosso
complexo mundo social.


Se uma introdução ética de novas tecnologias na sociedade depende de
um diálogo democrático, porque ao invés de aceitar o Uber como um fait accompli não considerarmos a ideia de Mike Konczal? Um Fellow no Roosevelt Institute, Koczal sugeriu
socializar o aplicativo, lembrando que os populistas americanos criaram
cooperativas para lidar com as mudanças tecnológicas no final do século
XIX.


Afinal, os motoristas já são donos de quase todo o capital
operacional (os seus carros), então porque não distribuir o lucro de
maneira comparável? Aí sim, poderíamos dizer que o aplicativo fomenta
uma verdadeira economia compartilhada. Mas se o Uber não quer empregar
motoristas, que seja então apenas uma provedora de software.





* Patrick Luiz Sullivan De Oliveira é doutorando em História da Princeton University

domingo, 12 de julho de 2015

A pauta negativa sobre o Brasil que não cabe nos manuais - Sul 21

A pauta negativa sobre o Brasil que não cabe nos manuais - Sul 21



A pauta negativa sobre o Brasil que não cabe nos manuais






A Suíça, terra dos paraísos fiscais e da Fifa de Joseph Blatter, ocupa um nobre quinto lugar na lista anticorrupção da ONG Transparency Internacional. A receita é simples: basta não investigar. (Foto: BBC)
A
Suíça, terra dos paraísos fiscais e da Fifa de Joseph Blatter, ocupa um
nobre quinto lugar na lista anticorrupção da ONG Transparency
Internacional. A receita é simples: basta não investigar. (Foto: BBC)
Flávio Aguiar, de BerlimRede Brasil Atual
Há exatos dois anos, em julho de 2013, uma solenidade
em Brasília celebrava os dez anos do Conselho de Desenvolvimento
Econômico e Social – fórum consultivo da sociedade instituído pelo
governo Lula para ouvir sugestões de empresários, sindicalistas,
movimentos sociais, intelectuais e outros atores com algo a dizer sobre
os rumos do país. Na ocasião, o diplomata brasileiro Roberto Azevêdo,
então recém-eleito diretor-presidente da Organização Mundial do Comércio
(OMC), protagonizou um dos pontos altos da reunião. Azevêdo expôs com
clareza que os dias de lua de mel entre o Brasil e a mídia internacional
tinham acabado. Dali para diante, seria ladeira acima.
Não deu outra. Até aquele momento, o Brasil estava na
pauta positiva. Lugar atraente para investimentos, a maior e a melhor
democracia entre os Brics – senão a única (com o passivo do apartheid
ainda pesando sobre a África do Sul), nosso país parecia ser ainda e
sempre aquele de e do futuro. Desde então, o bolo brasileiro desandou.
Naquele momento, havia um sutil componente político.
Na mesma medida em que o então G-8 perdia importância para o G-20, o
Brasil se fizera líder das nações emergentes. Auxiliaram nessa ascensão
muitos fatores, entre eles o de ser de fato uma democracia, de não ter
guerras com ninguém, de não ser um país militarista nem militarizado e
de ser um país sem poderio nuclear. O Brasil era uma opção não contra,
mas dentro da hegemonia mundial do capitalismo triunfante. Mas era uma
opção diante do predomínio dos Estados Unidos e dos países líderes da
União Europeia (Alemanha, França, Reino Unido), secundados pela Itália,
Canadá e Japão, que formavam o bloco ocidental dentro do G-8.
Ocorre que esse grupo seleto tinha outro candidato
para a OMC, um diplomata mexicano, aquele país que já foi líder da
diplomacia independente na América Latina e hoje se vê na condição de
ser um irmão menor, ou primo pobre, da América do Norte. E ele perdeu
para o brasileiro Ricardo Azevêdo. Os países hegemônicos, mais a
imprensa que os representa, da Wall Street à City londrina, de
Washington a Frankfurt, ou aquela que não os representa, mas os têm como
referência, não ficaram nada felizes.
A essa altura, já havia uma sutil mas significativa
campanha que se iniciava contra o ministro Guido Mantega e seu
“intervencionismo estatal” na economia. Mas muitas vozes viam tal
iniciativa como uma mera ressonância da campanha da direita brasileira,
na e da nossa mídia e fora dela. Não a viam como uma iniciativa da
própria mídia internacional.
Com o andar da carruagem, isso, que era um ribeiro,
tornou-se um caudal, uma torrente vertiginosa. O canal maior dessa
verdadeira campanha antiBrasil se abriu com a realização da Copa do
Mundo de 2014. Choviam matérias negativas, de todo o tipo, no jornalismo
de direita, centro e meia-esquerda em todos os quadrantes do Ocidente. E
a chuva caía na TV, na internet, na mídia impressa e no rádio. O tom
exaltado era o de que “agora vamos mostrar o verdadeiro Brasil”. E esse
“verdadeiro” era um país de eternos favelados, narcotraficantes,
governantes inescrupulosos, corruptos, prostituição, pobreza escabrosa,
quadrilheiros, sequestros, onde o profissional de jornalismo tinha de
andar de colete à prova de balas, enfim um caos.
Veio a Copa, e a única coisa que não funcionou a
contento foi o nosso time. O resto só merecia elogios. Mas a
contragosto. E as pautas negativas continuaram, depois alimentadas sobre
as denúncias de corrupção na Petrobras, no governo, sempre bordejando a
insinuação de que isso é algo “inerente” ao Brasil. Campanhas da
direita – da bancada da bala, da redução da maioridade penal, a
homofobia que busca se institucionalizar – se diluem nisso de que “o
Brasil é assim”. As manifestações antidemocráticas, os pedidos para que a
ditadura volte, se diluem numa expressão de um “descontentamento”
difuso diante do “caos” ou do “impasse” na economia, na administração
pública, coisas cuja raiz jaz na inapetência ou na incompetência
brasileira. Ou seja, o Brasil é o Brasil inadimplente porque é o
eternamente “atrasado”.
As matérias sobre o “drama Petrobras” se sucedem –
insinuando sempre que o Brasil não deveria, por exemplo, explorar o
pré-sal, por incompetência, porque trará danos ao meio ambiente, será
caro etc. Os únicos personagens brasileiros que merecem alguma­ intenção
positiva são aqueles que resistem ao desenvolvimento econômico, em nome
da preservação de um Brasil que, diga-se de passagem, nem sequer existe
mais.
Para essa mídia internacional e aquilo que ela
representa, a lista de pecados do Brasil só aumentou. Além de a
Petrobras ter-se tornado uma das maiores companhias do mundo, o Brasil
agora planeja com os Brics a organização de um mundo financeiro
alternativo e com bancos independentes. Aliás, os Brics por inteiro só
têm direito, em conjunto, a uma pauta negativa. China e Rússia não são
democracias, a África do Sul é uma democracia capenga nas mãos dos
descendentes do apartheid (de um lado e do outro dele) e o Brasil, bem o Brasil, noves fora, é geneticamente inepto para o mundo moderno.
Na relação com a mídia tradicional brasileira, fica a
dúvida sobre o que nasce primeiro, se o ovo ou a galinha. Uma ressoa a
outra, ainda que a nossa seja mais provinciana e acanhada. Ao se ler
reportagem sobre o Brasil, o mais que se pode esperar é que apareçam
referências ao grupo Globo, Folha de S. Paulo, Estado, aqui e ali Veja. CartaCapital
não existe, bem como a mídia alternativa (isso eu até entendo, não há
nada parecido com a nossa mídia alternativa na Europa, nem mesmo o
equivalente a um site como Democracy Now, dos Estados Unidos).
Penso que ideologia neoliberal antiBrasil de hoje tem por alimento principal a pauta dos arautos da City londrina, The Economist e Financial Times, mas ela também ecoa aparentemente pela esquerda no The Guardian e, em tom menor ou pelo menos não tão frequente, no New York Times. Frequenta o Wall Street Journal, de modo mais sóbrio. É frequente no El País. Mas isso não explica tudo.
Há um fator psicológico importante, que abarca a
relação editor-jornalista-leitor (esta última palavra num sentido bem
amplo, que abrange toda a mídia). O Brasil mudou de lugar no mundo. Na
Projeção de Mercator, que informa os mapas-múndi globais, o ponto de
vista é determinado a partir do trópico de Câncer, o que transforma o
Brasil num anão de pernas curtas frente aos gigantes, como o Alasca e a
Groenlândia. Isto cria uma falsa impressão, mas é assim que nos
acostumamos a nos ver, e que “eles” nos veem. De repente, o
anão-criança-inepto-palhaço virou outra coisa, além do estereótipo de
praia-futebol-café-pobreza-corrupção-traseiro-de-mulher-na-raia-ou-na-praia,
fechando o círculo.
O Brasil não cabe nos manuais, nem nos marxistas nem
nos do FMI ou do Banco Mundial. Nem nos manuais de redação. Isso traz
uma insegurança danada. Diante dela, o melhor é tentar devolver o
“estranho” ao seu lugar. Por isso, há uma certa sofreguidão em mostrar
que no Brasil noves fora, nada fica em pé. Dezenas de milhões de pessoas
saindo da pobreza? Um SUS universal que, com suas precariedades,
funciona? Uma política social e de auxílio a refugiados que a ONU
considera exemplar? Uma presença cada vez mais forte e reconhecida nos
fóruns internacionais? Ora, ora, noves fora, nada.
E se tivermos um critério comparativo, a coisa piora.
A Petrobras continua no noticiário. O HSBC e suas­ contas podres de
narcotráfico, tráfico de armas e joias, evasão fiscal etc. já sumiu das
manchetes e das páginas interiores. Até porque a investigação sobre
desvios na Petrobras continua, enquanto a promotoria suíça encerrou a
investigação sobre as contas do banco, mediante o pagamento de uma multa
irrisória, de 43 milhões de francos, nada, diante dos mais de 100
bilhões em qualquer moeda que se queira daquelas contas.
A Suíça, terra dos paraísos fiscais e da Fifa de
Joseph Blatter, ocupa um nobre quinto lugar na lista anticorrupção da
ONG Transparency Internacional. Assim é fácil. Basta não investigar.

domingo, 5 de julho de 2015

Mirem-se no exemplo das lideranças de Atenas - Carta Maior

O golpe em marcha: mirem se no exemplo das lideranças de Atenas - Carta Maior



O golpe em marcha: mirem-se no exemplo das lideranças de Atenas

Seja
qual for o desfecho do plebiscito deste domingo, é o método o que mais
importa à encruzilhada do Brasil nos dias que correm.

por: Saul Leblon







Levar a lógica dos mercados financeiros a um plebiscito é algo de que nunca se tinha ouvido falar antes.

Mas foi justamente isso o que ocorreu na Grécia neste domingo.

Independente
do resultado das urnas - a essa altura já sabido - é forçoso
reconhecer: um anel poderoso da blindagem neoliberal foi rompido na cena
política.

E isso não é um detalhe: é um método.

O que ele ensina é que a única opção à tirania financeira é submeter o mercado ao escrutínio da democracia.

Na
crise de 2008, a brava Islândia já havia decidido o destino de
seus bancos - um buraco especulativo dez vezes superior ao PIB do país
- a um plebiscito.

Entre sacrificar a nação ou a banca, a decisão foi salvar a nação e deixar o rentismo falir.

A
abrangência e o impacto daquela consulta, porém, foi menor. A pequena
nação de 320 mil habitantes - que se recuperou de maneira formidável e
hoje desfruta de pleno emprego - sequer pertencia ao euro.

Foi tratada como um pitoresco ponto fora da curva pelo colunismo de mercado.

O que a Grécia fez agora é de superior importância e vai muito além do pitoresco.

Ela
resgatou o princípio segundo o qual política é economia concentrada
na expressão mais direta dos conflitos de classe de uma sociedade.

Seu
inestimável exemplo foi justamente dar transparência àquilo que as
ideias dominantes de nossa época lograram mascarar. Ou seja, a farsa que
empresta aos interesses plutocráticos da finança a condição de uma
ciência acima dos conflitos sociais e econômicos.

Reforçar a
blindagem a-histórica do capitalismo, de modo a cegar os olhos para a
relação de poder que lhe é intrínseca, foi uma das maiores vitórias do
neoliberalismo em nosso tempo.

Para consumar esse abastardamento,
ademais de se atribuir à economia uma autossuficiência regulatória que
ela não tem, o neoliberalismo cuidou de aprofundar a interferência do
dinheiro no sentido inverso.

O esforço obstinado de Eduardo Cunha
para legitimar a presença do dinheiro empresarial nas campanhas
eleitorais é um emblema dessa inversão dos papéis, com o sotaque
golpista que marca a urgência brasileira nesse momento.

Que isso
tenha acontecido em meio a investigações de corrupção cuja origem reside
justamente no intercurso entre empresas e partidos não é apenas um
escárnio.

É a força do sistema corruptor do dinheiro impondo a
sua supremacia na vida do país de forma explícita, quase obscena, nesse
momento.

A dissonância aberta pela Grécia não é pequena.

Sobretudo,
porém, não deve ser avaliada pelas forças progressistas brasileiras
apenas com base no resultado efêmero do plebiscito deste domingo.

Seja qual for o seu desfecho, é o método o que mais importa à encruzilhada do país nos dias que correm.

Ou
não foi justamente a equivocada decisão de endossar a ‘objetividade’
dos mercados na definição dos ajustes que deveriam ter sido repactuados
politicamente, que levou ao afunilamento golpista atual?

A opção
pela estratégia publicitária nas eleições de 2014 (criticada então neste
espaço, e que quase levou à derrota da candidatura Dilma) subestimou a
capacidade de luta e discernimento do protagonista social que  que
poderia fazê-lo.

Negligenciou-se a força e a centralidade
política da tomada de consciência histórica de 60 milhões de brasileiros
que saíram da miséria e da pobreza e ascenderam na pirâmide da renda no
ciclo de 12 anos de governos progressistas.

Ao invés de ser corrigido, o equívoco eleitoral se aprofundou uma vez instalada o novo mandato.

A
um centurião dos mercados foi dada carta branca para proceder a
ajustes cuja pertinência e ponderação só teriam viabilidade
se negociados com as forças sociais do país.

A frente de esquerda Syriza não cometeu esse erro; pode pagar caro por sua ousadia, é verdade.

Mas não tão caro a ponto de ver esfarelar a confiança de suas bases em sua coerência.

Não
tão caro a ponto de, eventualmente derrotada no referendo, perder o
vigor representativo para uma volta ao poder até com maior força, quem
sabe.

É a emergência ameaçadora dessa força - não os bilhões de
euros em questão no calote grego - que explica a determinação da troika
(FMI, BCE e Comissão do Euro) de não permitir a consumação de um acordo
favorável ao governo do primeiro ministro Alexis Tsipras.

A sequência política antecedente ao plebiscito ilumina essa hierarquia com clareza.

Vejamos:

1.
Em 21 de junho, o  presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude
Juncker, e o primeiro ministro grego, Alexis Tsipras, chegaram a um
esboço de acordo que gerou euforia nos mercados;

2. Em 23 de
junho, tudo havia ruído. O que se passou nessas 48 horas é a pergunta
que analistas isentos se fazem em diferentes veículos;

3. A
maioria atribui ao FMI, aos falcões germânicos  e a governos
reacionários do euro que vergastaram seus povos, Espanha e Portugal, por
exemplo,  o veto ao acordo favorável à Grécia. Não por divergências
intransponíveis em relação a valores. Não. Acima de tudo porque uma
vitória do  Syriza abriria o precedente encorajador a novos hereges em
marcha. Caso do Podemos espanhol, por exemplo;

4. O argumento é corroborado matematicamente:

-
cálculos do Royal Bank of Scotland, divulgados pelo jornal Valor,
estimam que a soma  total das dívidas pendentes no imbróglio grego é de
537 bilhões de euros;

- se o país saísse do euro, as perdas para os credores seriam de 234 bi de euros (2,4% do PIB do euro);

-
todavia, se lograsse uma reestruturação, como reivindica o Syriza,
 trazendo a dívida de 200% do PIB  para 100% dele, com o perdão do
restante, a perda seria de apenas  1,4% do PIB da zona do euro;

5.
Estudos do próprio FMI divulgados na 6ª feira admitem que a dívida da
Grécia é impagável, qualquer que seja o grau de sacrifício que venha a
ser imposto a sua população;

6. De acordo com o estudo, vazado
sem a assinatura da direção do FMI, a dívida grega deveria  ser abatida
em 30%, ademais de se assegurar uma carência de 20 anos para iniciar o
pagamento  restante. Qualquer ‘ajuste’ sem esse requisito é
insustentável.

Tudo isso é muito, muito próximo do que argumenta e reivindica o governo Syriza.

Mas nunca lhe foi oferecido na mesa de negociações.

Por quê?

Justamente porque a vitória da democracia grega implodiria uma das mais eficazes operações ideológicas das últimas décadas.

Essa que  apresenta a economia como um enclave autônomo, esfericamente subordinado às leis naturais dos livres mercados.

A
serviço dessa mesma assepsia histórica vicejam no Brasil as editorias
de economia e o colunismo dos vulgarizadores do capital metafísico, esse
que em textos abestalhados de tanta toxina neoliberal, apresenta os
desequilíbrios estruturais  do desenvolvimento como mera inépcia do
lulopopulismo.

Essa lixeira histórica e ética  prendeu a
respiração diante da odisseia do país que mais longe levou a
politização  da disjuntiva em torno da qual se debate  a  luta pelo
desenvolvimento em nosso tempo: a economia deve trabalhar pela sociedade
ou contra ela para servir a banqueiros e rentistas?

A
transformação da pergunta em uma disputa política aberta e explícita  é
uma vitória da Grécia e uma derrota antecipada da ideologia mercadista urbi et orbi.

Não
por acaso, uma gigantesca operação de asfixia foi acionada para impedir
que esse levante se consumasse no plebiscito deste domingo.

A
sociedade que já perdeu 1/5 de quase tudo, empregos, salários,
aposentadorias, leitos hospitalares etc  foi explicitamente ameaçada de
confinamento financeiro e político, se insistisse em reinventar seu
contrato social no escrutínio proposto pelo primeiro ministro, Alexis
Tsipras.

A 48 horas do referendo, na sexta-feira, o sindicato dos
banqueiros da Grécia lançou um comunicado coercitivo para dizer que o
sistema   dispunha de apenas um bi de euros em caixa --insuficiente para
prover a liquidez do mercado no day after do escrutínio, quando o país
ficaria órfão se votasse ‘não’ ao arrocho.

Grandes empresas e
redes de serviços –postos de gasolina, por exemplo— anteciparam-se para
vender exclusivamente cash a uma população sem caixa, confrontando-a
assim com a prefiguração do colapso acenado.

Na antevéspera do
plebiscito, as principais redes de televisão, as Globos de lá, dedicaram
46 minutos à cobertura dos comícios favoráveis ao arrocho e apenas oito
minutos às concentrações pelo ‘não’.

Autoridades da União
Européia, governantes conservadores, bancos e consultorias
–compulsivamente ecoados pelo dispositivo midiático local—fecharam o
cerco com ameaças, coações e  chantagens.

Consumou-se assim uma 
operação de propaganda de guerra de virulência equivalente ao cerco do
exército branco contra a Rússia revolucionária, em 1917.

‘O que
estão fazendo com a Grécia tem um nome: terrorismo”, disse o ministro
Yannus Varoufakis, autor também da frase síntese  da  polaridade entre a
coerência e a coerção: ‘Prefiro cortar um braço a assinar um acordo que
não contemple a reestruturação da dívida da Grécia'.

Independente
do veredito do domingo, portanto, a heresia já terá desempenhado a
missão pedagógica de produzir um clarão capaz de iluminar o imaginário
social para muito além das fronteiras gregas.

Para que servem as
urnas afinal, se um governo, e o projeto por elas escolhidos, é
literalmente destruído no momento seguinte ‘pelas imposições dos
mercados' assim afrontados?

Ou para ser mais explícito diante da
urgência do Brasil nos dias que correm: para que servem  se, uma vez
eleito, o governante é coagido pelo cerco do dinheiro a fazer concessões
que corroem os vínculos de confiança com sua principal base de apoio,
tornando-se ainda mais vulnerável às imposições dos mercados e dos
interesses determinados a derrubá-lo?

A força e a tragédia do
povo grego reside em particularizar a heresia em relação à encruzilha
diante da qual muitos hesitam  na vã esperança de obter a indulgência
dos mercados.

Um dos principais jornais brasileiros, a Folha,
dedica seu caderno de Política, na edição deste domingo, a avaliar as
possibilidades, preferências e métodos mais adequados à derrubada do
governo da Presidenta Dilma Rousseff, eleita com 54 milhões de votos há
apenas e longínquos oito meses.

A principal batalha do nosso
tempo, portanto, aqui ou na Grécia, fique claro, não se trava em torno
de cifras ou adequações macroeconômicas  em si. Mas, sim, em se
preservar ou não o poder de dominação dos detentores das cifras.

O
câmbio defasado no caso brasileiro - um exemplo de problema real que
sucateou parte da indústria - não é tão grave para a plutocracia local e
global quanto a consolidação de um poder progressista no comando do
Estado.

Derruba-lo é uma prioridade que antecede e independe da
genuflexão macroeconômica – ou as concessões suicidas em curso já teriam
erradicado o furor golpista.

Não é  propriamente uma trégua que se  assiste no Brasil nesse momento.

A resposta, portanto, é de outra natureza.

Trata-se
de  trazer a economia para a política e de levar a política para a
economia. Ou seja, repactuar o desenvolvimento com uma nova correlação
de forças.

É essa fusão que pode devolver à democracia um poder ordenador que a  sociedade cedeu ao mercado.

Não se negue à economia leis próprias, circunstâncias limitadoras e incertezas a exigir gestão, equilíbrio e bom senso.

Mas
sancionar a não ingerência da política nas decisões do desenvolvimento 
é tão somente uma operação suicida de entorpecimento social para
preservar e engordar interesses sabidos.

Nas crises cíclicas do
sistema, quando se descarrega sobre a sociedade um fardo de sacrifícios
dificilmente vendável como ciência ou fatalidade, o labor dessa
catequese  é afrontado pela natureza crua das coisas.

Democracia e capitalismo deparam-se então em pé de igualdade com a disputa pelo destino da nação e do seu desenvolvimento.

Atenas se transformou na capital dessa transgressão nos últimos meses.

O
nó górdio que impede o Brasil de extrair as devidas lições dessa
experiência é a rala contrapartida de organização coletiva para levar a
cabo a luta por uma outra agenda de desenvolvimento.

Não há espaço para mágicas na história.

O
país não sairá do atoleiro se o sujeito do processo, aquele do qual
depende o respaldo  para enfrentar a coerção mercadista, permanecer 
alheio aos  conflitos que determinarão o seu destino.

O salto em direção a isso hoje no Brasil chama-se frente progressista e democrática.

E a pergunta que ela enseja às organizações populares é curta e grossa:

"o
que mais precisa acontecer aqui para que as lideranças sociais anunciem
um comitê unificado contra o golpe e uma agenda política de repactuação
do desenvolvimento?"

Mirem-se no exemplo das lideranças de Atenas.

Enquanto há tempo.

'Mãos Limpas' não visava um golpe de Estado' - Carta Maior

'A diferença é que a operação 'Mãos Limpas' não visava um golpe de Estado' - Carta Maior



A diferença é que a operação 'Mãos Limpas' não visava um golpe de Estado'

Juristas brasileiros enviaram perguntas sobre a 'lava-jato' a
Raúl Zaffaroni, o maior penalista da América Latina, que criticou as
delações premiadas.


Martín Granovsky, de Buenos Aires - Especial para Carta Maior





Sua casa, no bairro de Flores, setor de classe média, tranquilo, a meia hora do centro de Buenos Aires, parece uma velha casona da Toscana. Sua mesa de trabalho fica no meio de uma sala enorme. Tem as dimensões de uma biblioteca pública. Perto das estantes, pode-se ver belapeças de artesanato latino-americanas, como um retábulo peruano de Ayacucho. Sobre essa mesa, ao lado do computador, uma pilha de livros de Direito, muitos deles em alemão, sobre a tipologia dos delitos políticoeconômicos, ou sobre o nazismo. Raúl Zaffaroni completou 75 anos no passado dia 7 de janeiro. Ao assumir como juiz da Corte Suprema da Argentina, em 2003, indicado pelo presidente Néstor Kirchner, prometeu se aposentar quando alcançasse essa idade. Honrou sua promessa. Mas Zaffaroni, um dos penalistas de maior prestígio no mundo, nãse distanciou do mundo. Viaja, escreve, dá palestras, recebe doutorados honoris causa, estuda, dá aulas em universidades públicas da Grande Buenos AiresTambém participa da discussão pública sobre os acontecimentos argentinos e latino-americanosNesta entrevista para Carta Maior ele demonstra seu vigor intacto, respondendo perguntas dos jornalistas e inquietudes levantadas por importantes juristas do Brasil.

 
 
– Tarso Genro, ex-ministro da Justiça no governo de Lula e ex-governador do Rio Grande do Sul, pergunta que acontece com o Estado de Direitquando a grande imprensa influi tanto no processo penal, como vem sucedendo ultimamente.

 
 
– Penso
que a invenção da realidade por parte dos meios de comunicação,
especialmente os televisivos, está afetando a base do Estado de
Direito. E cria um perigo grave para a sua sobrevivência.

 
 
– Transmito a você uma pergunta do Professor da UERJ, Juarez Estevam Xavier Tavares Que medidas podem ser tomadas para diminuir a irracionalidade do poder punitivo e evitar a destruição do Estado de Direito?

 
 
– A primeira
medida tem que ser a proibição constitucional dos monopólios ou
oligopólios televisivos. Sem pluralidade midiática não podemos ter
democracia. O que os meios monopólios ou oligopólios estão fazendo
na América Latina é trágico. Nos países onde existem altos níveis de
violência letal, eles a naturalizam. Sua proposta se reduz a atentar
contra as garantias individuais. Nos países onde a
letalidade é baixa, eles buscam exacerbá-la. Clamam pela criação de
um aparato punitivo altamente repressivo e, definitivamente,
também letal.

 
 
– É a vez do Professor da USP,  Alysson Leandro
Mascaro. Os meios de comunicação de massa cada vez mais formam e moldam
perspectivas da compreensão do jurista. Em face disso, qual sua leitura
sobre o horizonte ideológico do jurista hoje? O mesmo do capital e dos
grandes meios de comunicação de massa? Qual sua percepção da ideologia
como constituinte do afazer do jurista na atualidade?

 
 
– Não tenho
a menor dúvida de que a Televisa, no México, ou
a Rede Globo, no Brasil, entre outros exemplos, são conglomerados,
formam parte indissociável do capital financeiro
transnacional. Logo, também são parte desse modelo de sociedade,
que é uma sociedade com uns 30% de incluídos e 70% de excluídos.
Um modelo de sociedade excludente. Daí nasce uma necessidade,
querem moldar um jurista que se mantenha nessa lógica
formal e não perceba que está legitimando um processo de genocídio a
conta-gotas. Temos esse tipo de genocídio, em grande parte da América
Latina, em circunstância em que o Estado já não é mais o que mata, senão
o que fomenta a violência letal entre esses 70% que o modelo quer
excluir. Não nos esqueçamos que dos 23 países que superam a taxa anual
de 20 homicídios a cada 100 mil habitantes 18 são da América
Latina e do Caribe, os outros cindo são
africanos. Tampouco esqueçamos que também somos campeões de coeficientes
de Gini, ou seja, má distribuição da renda. Esse é o modelo de
sociedade que os meios massivos concentrados querem reafirmar. O pior
que pode acontecer na América
Latina é continuar assimilando assepticamente as teorias importadas como
se não tivessem conteúdo
político, e nos perdermos nas doutrinas vinculadas a teorias presas a
meros planteamentos normativistas. Se, ideologicamente, a doutrina
jurídica latino-americana não evolui em direção ao realismo,
lamentavelmente não fará nenhum favor nem ao Estado de Direito
nem às nossas democracias.

 
 
– Agora quem pergunta é o presidente
do Movimento do Ministério Público Democrático, Roberto Livianu. Qual a
importância dos acordos de leniência, para o controle da corrupção e
qual a importância da intervenção do Ministério Público, fiscalizando a
celebração desses acordos?

 
 
– Pessoalmente, acho que
a delação premiada é perigosa em qualquer caso. Especialmente em casos
de corrupção. Hoje, na Alemanha, estão tentando elaborar um novo
conceito de crime político-econômico para os piores casos de
destruição econômica. Por exemplo, para as terríveis crises bancárias
que determinaram que os Estados Unidos
tivessem que gastar 500 bilhões de dólares e a Europa 460 bilhões de
euros para salvar um sistema financeiro havia provocado, grosseiramente,
sua própria ruína, diante da indiferença dos órgãos de
controle bancário. Não acredito que, em casos assim, se possa aplicar,
nem minimamente, um acordo no estilo da delação premiada. O mais trágico
nesses casos é depender da boa vontade dos próprios delinquentes, que
ofereçam suas informações para se chegar às soluções. Há um livro
muito interessante sobre o tema, do professor Wolfgang Naucke, que se
refere a algo que merece uma reflexão: o título é O Conceito de Delito Político-econômico.

 
 
– Quem
pergunta agora é o Presidente da Associação Brasileira dos Juízes pela
Democracia, André Augusto Bezerra. Do ponto de vista da estrutura
interna do Judiciário, há alguma peculiaridade do sistema de justiça
argentino que o tornou mais sensível às violações aos Direitos Humanos
da época da ditadura do que o sistema de justiça brasileiro?

 
 
– Não vejo
uma diferença notória, em termos de estrutura interna, de cada
Judiciário. A política argentina para casos de direitos humanos avançou
por iniciativa dos poderes
Executivo e Legislativo. Num primeiro momento, ela chocou com algumas
resistências dentro do Poder Judiciário.

 
 
– Depois dos juristas, a pergunta do jornalista. É possível comparar a Operação Lava Jato, no Brasil atual, com a Operação Mãos Limpas, na Itália dos Anos 90quando os juízes começaram a descobrir os grandes subornos nas obras públicas?

 
 
– Não
acho que a Mãos Limpas tenha a ver com a Lava Jato. A Mãos Limpas não
foi uma tentativa de golpe de Estado. Não nos esqueçamos que, se
analisamos todos os golpes de Estado militares que aconteceram na
região, eles se agarraram em duas bandeiras para se legitimar. Uma era a
de supostamente descontrolada criminalidade. Outra era a da corrupção.
Lamentavelmente, o que verificamos, no final de um século de tristes
experiências, é que os maiores casos de
corrupção tiveram lugar sob amparo das forças reacionárias.
Ao dizer isso, não nego que em tal administração possa haver
personagens corruptos que devem ser punidos. Digo que em nenhum caso
pode ser um pretexto para que se legitime a
desestabilização democrática. A magnificação de casos individuais de
corrupção através dos meios massivos de comunicação é um velho recurso
golpista, que conhecemos por tristes experiências.
Em definitivo, não é mais que o uso de formas estruturais de corrupção
para desarmar o potencial produtivo e as relações econômicas das nossas
sociedades.

 
 
– No Brasil, juiz federal Sérgio Moro, responsável pela Operação Lava Jato, pretende alterar o Código Penal, para colocar na prisão os réus condenados em 1ª Instância, independentemente dos recursos para instâncias superiores, ou seja, é quase um tribunal de exceção.

 
 
– Na América
Latina, mais de 60% da população carcerária chegou à prisão sem ser
condenado em nenhuma instância. Ou seja, estão presos só como medida
cautelar, em forma de prisão preventiva. É uma realidade que já
é estrutural, se arrastra ao longo de anos e que implica numa inversão
do sistema penal. Primeiro alguém é detido, depois é condenado, a pena
vem antes da condenação.

O bullying diário

O bullying diário contra a presidenta Dilma Rousseff - Jornal do Romário







O bullying diário contra a presidenta


Ligado .







Por Alexandre Ribondi
“Muita mentira, mas não inventada
pelos dois senhores (que ouço) que apenas repetem, como papagaios, o que
é dito e clamado nas redes sociais e na mídia nacional”.
Hoje à tarde, sentado num café, ouvi da
mesa ao lado dois senhores que lamentavam a imensa vergonha de ver a
presidente do Brasil ir aos Estados Unidos de pires na mão, já que o
nosso país está quebrado.
Tudo isso é mentira, é claro, mas não
foi inventada pelos dois senhores que apenas repetem, como papagaios, o
que é dito e clamado nas redes sociais e na mídia nacional.
E não é para se surpreender, porque
qualquer brasileiro sabe que da Dilma Rousseff já se inventou de tudo.
Que a filha dela se tornou dona de 20 empresas e está milionária. Que
ela liberou R$ 13 milhões para erguer estátua do Lula. Que proibiu
divulgação de investigações de acidentes aéreos acontecidos no nosso
céu.
Que é lésbica de dar porrada. Que foi
assaltante de banco e terrorista (informação dada pela Folha de S.
Paulo, que, em seguida, desmentiu, com pedidos de desculpas). Que quer
deturpar a língua portuguesa ao pretender ser chamada de 'presidenta'.
Podemos até nos perguntar se ela
consegue dormir, que calmante tarja preta ela toma, se sofre de
tremedeira e suores. Eu teria tudo isso, porque uma coisa é fato: a
imprensa e a elite brasileiras, enlouquecidas com a possibilidade de o
governo de Dilma continuar levando o Brasil para o bom caminho e, com
isso, firmar a plataforma eleitoral de Lula na próxima eleição não têm
mais pudor em difamar, atacar moralmente e psicologicamente, mentir,
inventar. Isso tem nome e certamente não é jornalismo nem oposição. Isso
é bullying.
Mas tanto a elite quanto a imprensa
sabem que já tiveram vitórias anteriores. Quando, em 1888, a princesa
Isabel saiu de casa para assinar a Lei Áurea (a que acabou com a
escravidão), ela avisou ao marido, o Conde d'Eu, que provavelmente seria
deposta.
Mas ela tinha reservas financeiras, no
banco, para garantir a inserção dos negros na sociedade brasileira e
esperava certa compreensão. Que não veio. Jornais e fazendeiros gritaram
aos quatro ventos que o Brasil iria à falência com o fim da escravatura
- o que nunca aconteceu, naturalmente.
Mas a monarquia foi banida do território
nacional, e a República nunca tratou de convidar os antigos escravos a
participarem da nova sociedade. O resultado foi a manutenção da elite
nos mesmos padrões e a criação de uma horda de mendigos, famintos,
marginais. Todos pretos.
Mais de 50 anos depois, imprensa e elite
voltaram a atacar quando o ditador Getúlio Vargas, inventou de criar o
salário mínimo, em 1936. Foi um deus-nos-acuda. Os jornais estamparam em
suas manchetes que o Brasil estava à beira da falência.
O Brasil não faliu, mas a elite ainda
afirma que se o salário mínimo subir muito, o país acaba. E quando
Vargas voltou, nos anos 50, como presidente eleito, os ataques às suas
reformas sociais foram tão intensas que o resultado pertence à história:
um suicídio no Palácio do Catete.
O bullying praticado contra Dilma Rousseff parte do princípio de que
uma mulher pode ser desrespeitada - assim como é do senso absurdamente
comum a ideia de que um retirante nordestino operário sindicalista não
podia nunca ter chegado à presidência da República.
Lembram-se de quando Lula, esse
pé-rapado com apenas quatro dedos numa das mãos, benzeu uma garrafa do
elegantíssimo vinho Romanée-Conti? Disseram que esse é o vinho dos ricos
e dos corruptos.
Ora, os detratores de Lula bebem
Romanée-Conti e isso é natural. Quem não pode beber é nordestino pobre. O
bullying funciona assim mesmo: quer humilhar, ofender, esmagar a
auto-estima  da pessoa atacada.
Para os difamadores de Dilma, uma mulher
que tem voz de comando, que desafia a monstruosa ordem estabelecida,
que coordena um grupo de homens engravatados, só pode ser feia e mal
amada.
E lésbica, naturalmente - o que, para
eles, é ofensa. E como ela teve a ousadia e a coragem de vencer para um
segundo mandado presidencial, os ataques começaram na manhã seguinte.
A psicologia já sabe que as pessoas que
praticam o bullying adulto mostram suas forças quando se sentem
ameaçados pelo êxito do outro. Surge aí um sentimento de irritação, de
rancor, em relação ao sucesso que o outro possa ter.
Mas, infelizmente, ainda não há leis que
proíbam o bullying contra adultos. Se alguma atitude for tomada contra a
imprensa, que se tornou uma latrina de mentiras, conspirações e
desacatos, sempre poderão alegar que a liberdade de expressão está sendo
ameaçada e que a bolivarianização do Brasil caminha a passos largos.
Então, o que resta fazer, no momento, é
contar com o poder transformador e impactante das redes sociais e
discutir ideias, encontrar soluções, por a boca no trombone, mostrando
que o Brasil não é um poço de analfabetos políticos e que os herdeiros
dos donos de escravos não vencerão sempre.  Isso vai passar a ter nome:
anti-bullying.

Altamiro Borges diz que país vive onda de incerteza, ódio e fascismo

Altamiro Borges diz que país vive onda de incerteza, ódio e fascismo criado pela mídia tradicional - Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região



Altamiro Borges diz que país vive onda de incerteza, ódio e fascismo criado pela mídia tradicional

O jornalista Altamiro Borges
está preocupado. E não é paranoia de blogueiro esquerdista. Faz muito
sentido essa preocupação. Tem fundamento e provas na prática. Pensemos
que, desde 1998, na Venezuela, uma vanguarda se estabeleceu na América
Latina. Foram eleitos governos progressistas, preocupados com o combate à
desigualdade social, com a democratização do acesso a direitos. Mas
esse modelo vive uma crise, uma encruzilhada, uma incerteza, como
repetiu o painelista da 17ª Conferência Estadual de Bancários(as), em
seu painel, do sábado, 4/7, no Hotel Embaixador em Porto Alegre.


Se a Argentina conseguiu regular os meios de comunicação, no Brasil
os 12 anos de governos Lula e Dilma, não conseguiu trilhar o mesmo
caminho, a não ser pela moderna lei de internet. Os dois presidentes
optaram por não enfrentar esses verdadeiros responsáveis pela onda de
ódio que circula pelas redes sociais, pela opção de telejornais e
jornalistas e que tem na defesa do retorno do neoliberalismo a bandeira
de luta. Sim, a bandeira é de luta para enfrentar o ocaso do
neoliberalismo no mundo.


Altamiro diz que a crise econômica faz parte de uma estratégia
política de desgaste de presidentes progressistas. “Esses governos foram
de reformismo brando. As políticas sociais são importantes, mas
insuficientes. Essas políticas não foram acompanhadas da politização.
Pobre que entrou na universidade diz que conseguiu por causa da
meritocracia. Se não tivesse política, ele não teria ingressado na
universidade.”


O modus operandi aparece em vários exemplos. Basta ligar a televisão,
acessar as redes sociais. Vemos uma jornalista da TV Globo ser
corrigida pelo presidente estadunidense Barack Obama sobre o papel de
referência do Brasil como player político mundial e não meramente
regional como ela disse durante a visita da presidenta Dilma aos Estados
Unidos. Vemos também a presidente Dilma ser ofendida e agredida por um
jovem fascista de direita nos Estados Unidos e uma quantidade de
material machista que tenta (e consegue) desgastar a imagem da
presidenta. . “Derrotamos a direita, mas perdemos o debate. O movimento
sindical cuida das pautas dos trabalhadores, mas deixou de politizar a
sociedade”, acrescentou o painelista.


Altamiro diz que a América Latina, a partir de 1998, enfrentou a
hegemonia neoliberal e agora ocorre o que ele chama de um período muito
perigoso de incertezas. O caso da eleição do Syritza, na Grécia é
exemplar. Os governos centrais da Europa impõem uma agenda de recessão,
que procura colocar o partido grego de joelhos, asfixiá-lo. Apesar de os
governos progressistas terem chegado ao poder e implantado políticas de
combate a desigualdade social, no Brasil, por exemplo, faltou ao
presidente Lula e a presidenta Dilma enfrentarem a mídia tradicional com
regulação. “O capitalismo está numa fase agressiva, repressiva e de
retirada de direitos e vive uma crise prolongada e sistêmica de
reestruturação produtiva”, enumera.





América Latina: de laboratório à resistência


O final dos anos 1970 foi marcado pela construção política da
hegemonia do neoliberalismo na América Latina. A região foi o
laboratório do Consenso de Washington. Altamiro diz que o neoliberalismo
se fundou sob um tripé. A estratégia é desmontar o Estado, a nação e o
trabalho. Não por acaso as empresas tradicionais de mídia desempenham um
papel fundamental, se comportam como verdadeiros partidos políticos.


Citando o sociólogo Perseu Abramo, Altamiro refere  as duas formas
clássicas de manipulação dos meios de comunicação. Foi selecionando os
assuntos que deveriam chamar a atenção da massa e defendendo as
privatizações, a terceirização e o banco de horas que os meios de
comunicação montaram o contexto para a chegada do neoliberalismo. “A
América Latina se iludiu. Essas teorias foram apresentadas pela mídia
como teorias inevitáveis”, diz.


Altamiro refere que essa estratégia politicamente se esgotou, a não
ser pelo discurso de crise e de necessidade de uma nova reorganização do
capitalismo. A vanguarda de um movimento dialético, iniciado no Brasil,
em Porto Alegre, com o Fórum Social Mundial “Quando os partidos da
direita entram em crise, os jornais assumem o sseus lugar.”


no início da década passada, criou uma vanguarda de resistência e
levou ao poder progressistas em toda a América Latina. Altamiro chama
este fenômeno de vanguarda mundial, mas alerta para o seu esgotamento.
“Quando os partidos da direita entram em crise, os jornais assumem o seu
lugar. Estamos num momento em que precisamos resistir e atuar juntos”,
explica.





O que fazer e o papel dos Sindicatos


Os meios de comunicação de massa privados realçam aquilo que lhes
interessa e omitem o que lhes prejudica, como já dito acima. É a tal
seletividade. Não fosse assim, por que apoiaram a Ditadura Militar no
Brasil, da qual Roberto Marinho, fundador da Globo, nunca se arrependeu,
ou por que esconderiam agora investigações que apuram casos de
corrupção, como a Operação Zelotes, da Polícia Federal? A Operação
Zelotes, que investiga o Grupo RBS, sumiu dos jornais. De novo, a tal
seletividade. “A imprensa precisa o tempo todo desconstituir a política.
Precisa publicar um escândalo atrás do outro porque, se a política
funciona a mídia perde importância”, afirma.


Mas o que aconteceu que nos levou do topo para o abismo: da eleição
de uma presidenta com amplo apoio social no final de 2014 para o atual
estado de vandalismo, desrespeito e ódio. Tudo é culpa da Dilma. Por
certo, isso é uma estratégia comunicacional de repetição e ocupação dos
meios de comunicação. Altamiro refere que essa onda de fascismo foi
criada pela mídia. “Apesar de eu ter críticas contra o atual governo,
entendo que é difícil governar. Reconhecemos os avanços sociais dos
governos Dilma e Lula, mas todos os partidos de esquerda enfrentam o
mesmo problema quando administram. Forte oposição da mídia e a
necessidade de fazer concessões polpituicas para governar”, diz Altamiro


Mas e os Sindicatos? Altamiro puxou as orelhas dos sindicalistas. Diz
que é tempo de investir, de não pensar em comunicação como gasto. É
tempo de aproveitar que a internet ainda é um ambiente com relativa
liberdade. Afinal, como o filósofo italiano Antonio Gramsci ensinou e
foi citado por Altamiro, é preciso disputar a hegemonia num ambiente de
batalha de comunicação. Parte desse problema relaciona-se à falta de uma
política de enfrentamento da mídia. Altamiro diz que o atual governo é
um reformador “brando” e não enfrentou a mídia.


É preciso voltar a debater com a sociedade. Criar espaços na internet
e debater, acima de tudo, a sociedade. Precisamos politizar. “A mídia
brasileira é tão colonizada que diz que nós queremos trazer o modelo da
Venezuela de comunicação. Nós queremos o modelo dos Estados Unidos. E
por uma questão muito simples. A legislação estadunidense proíbe a
propriedade cruzada. Não pode ter rádio, internet e jornal ao mesmo
tempo”, diz Altamiro.


Tempos difíceis, mas importantes. É preciso enfrentar o debate por
uma comunicação com interesse público e não de um público. O modelo
brasileiro de comunicação de massa é comercial, neoliberal e fascista ao
repetir que a polpitica e os partidos políticos acabaram. Na crise do
capitalismo, quando começam a perder audiência para as redes sociais, a
estratégia é se juntar ainda mais aos aliados, os partidos e políticos
de direita, para defenderem suas visões de mundo.


Palavras de Altamiro Borges


INCERTEZAS

“Temos no mundo uma perigosíssima onda neofascista. Vivemos uma ditadura do capital financeiro no mundo”.


FENÔMENO

“A América Latina começou uma vanguarda de resistência ao neoliberalismo
a partir de 1998 na Venezuela. Depois, Equadros, Argentina, Bolívia e
Brasil. Foi uma vanguarda mundial. Todos esses governos estão passando
por problemas. Há um processo de asfixiar e de derrubar esses governos.”


ENCRUZILHADA

“Esses governos foram de reformismo brando. As políticas sociais são
importantes, mas insuficientes. Essas políticas não foram acompanhadas
da politização. Pobre que entrou na universidade diz que conseguiu por
causa da meritocracia. Se não tivesse política, ele não teria ingressado
na universidade.”


BATALHA DA COMUNICAÇÃO

“Tanto Dilma quanto Lula optaram por não enfrentar a batalha da comunicação. Estamos vivendo um momento muito perigoso.”


ONDA

“Elegemos o Congresso Nacional mais sujo da história do Brasil.”


OFENSIVA CONSERVADORA

“Derrotamos a direita, mas perdemos o debate. O movimento sindical cuida
das pautas dos trabalhadores, mas deixou de politizar a sociedade.”


PAPEL DA MÍDIA

“Quando os partidos da direita entram em crise, os jornais assumem o seus lugar.”

Como é possível ensinar processo penal depois da operação "lava jato"?

Como é possível ensinar processo penal depois da operação "lava jato"?



Como é possível ensinar processo penal depois da operação "lava jato"?

Do Consultor Jurídico


Depois
do acolhimento da delação premiada e da leniência precisamos repensar
como ensinamos Processo Penal. Isto porque falamos em princípios do
processo penal, em jurisdição, ação e processo. Podemos continuar, por
exemplo, a falar que a ação penal é indisponível? Com a Transação Penal
da Lei dos Juizados Especiais Criminais já se criou o “jeitinho” da
disponibilidade regrada, embora Geraldo Prado tivesse demonstrado que
não cabia na tradição do Direito Continental, da qual, em princípio,
somos herdeiros. Depois disso veio a delação premiada e a leniência.
Ocupam um lugar tolerado. Entretanto, atualmente, viraram manchete. Daí
que não podemos mais fingir que possuímos um processo penal único. Hoje,
se quisermos ser professores minimamente sérios, precisamos rever o que
ensinamos. Delação não é exceção e, acolhida, muda o sentido do
processo brasileiro.


Conforme apontam Allard e Garapon: “O Direito tornou-se num bem
intercambiável. Transpõe as fronteiras como se fosse um produto de
exportação. Passa de uma esfera nacional para outra, por vezes
infiltrando-se sem visto de entrada.”[1] Neste
contexto e articulando as repercussões desta constatação no campo do
Processo Penal, bem assim da Criminologia, influenciadas ainda discurso
da Law and Economics[2], baseado em Posner[3],
pretende-se delinear que coexistem, a partir de critérios
diferenciados, sistemas processuais inconciliáveis em território
nacional.


Não podemos ser mais professores românticos e muito menos cínicos. Delação premiada homologada pelo STF, prisão para delação, na mais lídima aplicação do Dilema do Prisioneiro no Processo Penal[4]leniênciaextintiva
de responsabilidade penal e negociação do objeto e pena da ação penal,
no mínimo, transformaram os pilares daquilo que ensinamos como “ação
penal”.


Coexistem, atualmente, duas frequências de Processo Penal, com
incongruências marcantes, incapazes de formar um sistema coeso. São
tantos institutos incompatíveis com a nossa antiga maneira de pensar
que, atualmente, diante da profusão de fontes e tradições,
encontramo-nos com sérias dificuldades de ministrar aos alunos um
Direito que possa minimamente ser próximo das novidades. Buscamos
propiciar coerência que, todavia, torna-se insustentável dada a
perplexidade. Elencaremos, assim, algumas dificuldades:


a) a ação penal é mesmo indisponível depois da delação premiada ou podemos simplesmente dizer que é uma exceção?


b) O juiz pode produzir prova, tendo papel de protagonista, inclusive
na negociação do acordo? Existe algum resto de imparcialidade? Quais as
funções reais do juiz?


c) A oralidade e o cross-examination foi (mesmo) adotada pelo 212 do CPP diante do deslocamento (matreiro) da questão para ausência de prejuízo?


d) Como compatibilizar a chamada de corréu e a confissão depois da
validade da delação premiada? Qual o lugar e estatuto das declarações do
delator?


e) As normas de processo penal são mesmo irrenunciáveis ou podemos
falar em direitos processuais como privilégios renunciáveis pelo
acusado? Em que hipóteses?


f) Como fica a conexão probatória nas cisões arbitrárias entre
acusados em face do foro privilegiado? Os acusados que foram cindidos
podem se habilitar para formular perguntas aos do foro privilegiado?
Podem ser arrolados como informantes os acusados cindidos?


g) qual o regime da interceptação telefônica diante da volatilidade
dos prazos, regras e do Ministério Público poder executar o ato? Há
garantia dos dados brutos? Quem fiscaliza as possíveis interceptações
frias?


h) a prisão é processual ou não é mecanismo para aplicação do dilema
do prisioneiro ao Processo Penal brasileiro? Qual o papel da mídia nos
vazamentos taticamente fomentados?


i) qual o limite de negociação que o Ministério Público possui nos
acordos de delação? Pode negociar a imputação, perdoar crimes, fixar
teto de pena por todas as condutas? Pode fixar taxa de êxito na
repatriação de recursos e lavar dinheiro sujo? (se o dinheiro repatriado
não tinha origem, ao se dar a comissão ao delator, não se estaria
lavando dinheiro sujo, via delação?) O Juiz pode não homologar o acordo
de delação, a partir de quais critérios? E, caso rejeitada, as
informações já prestadas serão desconsideradas? Como?


j) se os indiciados devem ter acesso ao que já está produzido contra
eles, na linha da Súmula Vinculante 14 (“É direito do defensor, no
interesse do representado, ter acesso amplo aos elementos de prova que,
já documentados em procedimento investigatório realizado por órgão com
competência de polícia judiciária, digam respeito ao exercício do
direito de defesa”)? Qual o estatuto de sigilo da delação?


Pode-se adotar duas posturas. A primeira é passar por cima destas
questões e simplesmente continuar a ensinar como sempre se ensinou. A
segunda é reconhecer que não possuímos mais um Processo Penal, mas
várias versões simultâneas de Processo Penal e que a compreensão a ser
utilizada dependerá dos personagens envolvidos, como já defendemos no
livro da Teoria dos Jogos aplicada ao Processo Penal.  


O momento é de perplexidade acadêmica já que o modo de aplicar e
ensinar o Processo Penal herdado da tradição continental se foi. Aos
poucos, sem que tenhamos nos apercebido, ainda que alguns tenham escrito
sobre o tema (Geraldo Prado, Rubens Casara, Elmir Dulcrec, Rômulo
Moreira, Gustavo Badaro, Fauzi Hassan Choukr, Diogo Malan, João
Gualberto Garcez, Jacinto Nelson de Miranda Coutinho, Aury Lopes Jr,
Nereu Giacomolli, Lenio Streck, Salah Khaled, Flaviane Barros, dentre
outros), continuamos fingindo que as coordenadas em que pensamos os
institutos do Processo Penal são atuais.


Nesse contexto há uma manifesta tensão entre o Direito Continental e o
Direito Anglo-Saxão. Os institutos próprios de cada um dos sistemas
acabam sendo intercambiados sem a devida aproximação democrática, isto
é, as novidades legislativas são implementadas em tradições filosóficas distintas,
daí a perplexidade de muitas das alterações legislativas recentes. Não
se trata de reconhecer que a tradição Continental é melhor ou pior, dado
que esta discussão é inoperante. O que importa é que as tradições
implicam em práticas e modos de pensar diferenciados.


Essa lógica do acontecimento e de diálogo entre tradições precisa ser
questionada, já que continuamos a ensinar um Processo Penal que anda em
descompasso com os novos institutos. Para os crimes de todos os dias
(furto, tráfico, roubo, estupro etc.), de fato, temos o mesmo processo
penal da “ação penal indisponível”, da Jurisdição como poder-dever,
incapaz, todavia, de se conformar aos novos institutos, especialmente
delação e leniência. Podemos, então, aceitar acriticamente a situação?
Não deveríamos nos indagar se podemos ensinar parcialmente e não seria
nosso dever ético mostrar aos acadêmicos que possuímos versões em
frequências diferentes?


O tema nos angustia porque estamos em frequências antagônicas que
convivem sem possibilidade de coerência. Fechar os olhos sempre foi a
saída mais fácil e arbitrária. Mas chegamos a um ponto de virada, do
qual não podemos mais fingir, nem fugir. Ou podemos? Agosto é novo
semestre.


[1] ALLARD,
Julie; GARAPON, Antoine. Os juízes na Mundialização: a nova revolução
do Direito.  Trad. Rogério Alves. Lisboa: Instituto Piaget, 2006, p. 07.
[2] MORAIS DA ROSA, Alexandre; AROSO LINHARES, José Manuel. Diálogos com a Law & Economics. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009.
[3] POS­NER,
Richard A. Economic Analysis of Law. New York: Aspen, 2003; Overcoming
Law. Cambridge: Harvard University Press, 1995, Law and Legal Theory in
the UK and USA. New York: Oxford University Press, 1996; Law and
Literature. Cambridge: Harvard University Press, 1998; The Little Book
of Plagiarism. New York: Phatheon, 2007; Problemas de filo­so­fia do
direi­to. Trad. Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
[4] MORAIS DA ROSA, Alexandre. A Teoria dos Jogos Aplicada ao Processo Penal. Lisboa: Rei dos Livros, 2015.





 é
juiz em Santa Catarina, doutor em Direito pela UFPR e professor de
Processo Penal na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e na
Univali (Universidade do Vale do Itajaí).
 


Do Spin GGNauta:


Eis ai  mais um ótimo artigo tratando dessa aberração jurídica
chamada Direito Penal do Inimigo.  Alexandre Salim, promotor criminal, e
 outros autores abordaram o Direito Penal do Inimigo, como por exemplo
Eduardo Cabette. Há videos-aulas deste dois especialistas, como também
um artigo, "O Brasil decide seu futuro com base com base no Direito
Penal do Inimigo", publicado aqui no Conjur. O Direito Penal do Inimigo
tem inspiração nazista quando trata transforma o réu numa näo-pessoa e,
como tal, destituído de humanidade, está sujeito à tortura e outras
atrocidades, o que ocorreu no holocausto.


O Brasil decide seu futuro com base no Direito Penal do Inimigo, por Marcos de Vasconcellos


http://www.conjur.com.br/2015-jan-05/brasil-decide-futuro-base-direito-p...


Direito Penal do Inimigo, por Alexandre Salim


https://m.youtube.com/watch?v=MjNcdY2-N_0


Mimetismo e Direito Penal do Inimigo, por Eduardo Cabette


https://m.youtube.com/watch?v=sH5obUdhZhY