terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O mensalão tucano

O mensalão tucano - 22/12/2015 - Bernardo Mello Franco - Colunistas - Folha de S.Paulo



O mensalão tucano






BRASÍLIA - A Justiça de Minas Gerais condenou o ex-governador
Eduardo Azeredo a 20 anos e 10 meses de prisão. De acordo com a sentença
da juíza Melissa Pinheiro Costa Lage, o tucano desviou dinheiro público
para financiar sua campanha frustrada à reeleição, em 1998.





O esquema envolveu três estatais mineiras, que fecharam contratos de
fachada para repassar verba de publicidade a políticos. Em valores
atualizados, o rombo foi de R$ 10 milhões. O caso ficou conhecido como
mensalão tucano porque serviu como laboratório para o mensalão do PT. Os
dois escândalos tiveram o mesmo operador: o publicitário Marcos
Valério, da SMP&B.





Azeredo não é um tucano qualquer. Chegou a ser presidente nacional do
PSDB, cargo hoje ocupado pelo senador Aécio Neves. Estava no Senado
quando a Procuradoria-Geral de República o denunciou ao Supremo Tribunal
Federal, em 2007. Dois anos depois, a corte decidiu transformá-lo em
réu.





O mensalão mineiro virou um símbolo da morosidade judicial. O caso se
arrastou no STF até 2014, quando Azeredo renunciou ao mandato de
deputado para escapar da punição. Sob protestos do então ministro
Joaquim Barbosa, que acusou o tucano de "debochar" da Justiça, o
processo voltou à primeira instância.





Na semana passada, Azeredo foi finalmente condenado por peculato e
lavagem de dinheiro, mais de 17 anos depois dos desvios. Graças à
manobra para fugir do STF, ele poderá recorrer em liberdade até que o
caso volte a ser analisado pela corte.





Desde que perdeu a eleição presidencial para o PT, o senador Aécio
repete que não foi derrotado por um partido, e sim "por uma organização
criminosa". Apesar do prontuário de alguns petistas influentes, talvez
seja a hora de virar o disco. Na sentença do mensalão tucano, a juíza
Costa Lage afirma que seu aliado Azeredo também integrou "uma
organização criminosa complexa", montada para assaltar os cofres
mineiros.



Altamiro Borges:

Altamiro Borges: Paulo Skaf e os patos da Fiesp



Skaf e os patos da Fiesp


Por Altamiro Borges



O oportunista Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias de São
Paulo (Fiesp), deve estar com cara de nádega - ou de pato. Excitado com a
conspiração do correntista suíço Eduardo Cunha, que manobrou na Câmara
Federal para acelerar o processo do impeachment de Dilma, ele passou a
pregar abertamente a derrubada da presidenta. Distribuiu bonecos do
"pato" - símbolo da campanha dos sonegadores contra os impostos - na
marcha golpista da Avenida Paulista e ainda fez a Fiesp aprovar um
documento pelo impeachment que relembra o sombrio período em que os
industriais paulistas financiaram o golpe de 1964 e apoiaram os crimes
da sanguinária ditadura militar.

Sua excitação, porém, durou pouco tempo. O Supremo
Tribunal Federal derrotou o golpe do lobista e afastou a possibilidade
do assalto ao poder do vice Michel Temer - que o falso peemedebista
Paulo Skaf jura representar junto ao empresariado. Para piorar sua
situação, o eterno derrotado em eleições - já perdeu duas seguidas para o
governo de São Paulo - ainda foi criticado por seus pares. Segundo a
Folha deste sábado (19), o industrial José Velloso Dias Cardoso, diretor
da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), acha um
equívoco a partidarização da Fiesp.


"Quem se posiciona num tema tão agudo quanto esse, logicamente que há
polarização, e o outro lado vai te enxergar como inimigo, como
adversário... Porque hoje os lados não estão respeitando quem tem a
opinião contrária. Quem se posiciona corre esse risco", afirmou. Ele
lembrou que na Abimaq os dirigentes são proibidos de ter atuação
partidária, diferentemente do que ocorre na Fiesp. A própria Folha
registra que a discussão sobre o tema na entidade não foi tranquilo.
"No decorrer do debate, um dos dirigentes afirmou que a Fiesp não
deveria declarar-se a favor do impeachment, porque iria derrubar pontes
com o governo - e acabou duramente criticado pela maioria dos
presentes".



O oportunista Paulo Skaf, famoso por golpear a democracia na própria
Fiesp e por utilizar os recursos bilionários da entidade para seus
projetos eleitorais, não conta com unanimidade na sua tese golpista do
impeachment de Dilma. O que unifica os empresários paulistas -
principalmente os sonegadores - é a luta contra os impostos. Daí a
campanha do "pato", em que eles tentam envolver os incautos, os
verdadeiros patos, na guerra por menos tributos - para os ricos. Sobre o
tema, vale conferir excelente artigo publicado na Folha  da semana
passada por Laura Carvalho.
*****



Quem paga o pato?

A Fiesp oficializou na segunda-feira seu
apoio ao impeachment da presidente Dilma Rousseff, fundada, segundo ela,
em uma pesquisa que realizou com 0,7% das empresas do Estado.

A
decisão da Fiesp já havia sido antecipada na véspera: símbolo de sua
campanha pela redução de impostos, seu pato serviu para alegrar as
muitas crianças que passeiam pela Paulista aos domingos.

Mas as
ações da federação também servem para deixar clara a origem de vários
dos erros de política econômica cometidos pelo governo Dilma desde seu
primeiro mandato.

Os dados apresentados por Rodrigo Orair no
"Texto para Discussão" número 2.117 do Ipea (Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada) mostram que a carga tributária brasileira, que subiu
cinco pontos percentuais –de 27% para 32% do PIB– entre 1995 e 2002,
chegou ao patamar de 33,7% em 2007, mas se manteve relativamente estável
desde então.

O estudo esclarece, entretanto, que o que aumentou a
arrecadação entre 2005 e 2014 foram os tributos sobre a folha de
pagamentos e os rendimentos do trabalho, devido à expansão da massa
salarial e do nível de emprego formal no período. Os impostos sobre o
lucro das empresas e sobre bens e serviços, ao contrário, contribuíram
para uma redução da carga tributária de 2,3 pontos percentuais.

Na
realidade, o setor empresarial foi o maior beneficiado pela expansão
fiscal do primeiro governo Dilma Rousseff, que se deu essencialmente
pela via das desonerações tributárias e outras formas pouco criteriosas
de subsídios às suas margens de lucro. Desonerações que, diferentemente
dos numerosos itens aprovados no ajuste fiscal de 2015, que já bateram
–direta ou indiretamente– no bolso dos trabalhadores, ainda não foram
eliminadas pelo Congresso.

Além disso, assim como em quase todos
os países da OCDE, até 1995 também se tributavam dividendos no Imposto
de Renda de Pessoa Física (IRPF) no Brasil. De acordo com outra pesquisa
recente de Orair e Gobetti do Ipea, essa isenção de IRPF sobre os
lucros convertidos em renda pessoal é o principal fator que explica por
que os brasileiros que ganham mais de R$ 1,3 milhão por ano pagam apenas
6,7% em impostos, em comparação a uma média de 11,8% pelos que ganham
entre R$ 162,7 mil e R$ 325,4 mil.

Uma reforma tributária que
vise reduzir impostos sobre o consumo e a produção, e elevar impostos
progressivos sobre a renda e o patrimônio, seria muito bem-vinda. O
mesmo vale para uma política industrial estratégica.

Esses não
parecem, no entanto, ser os verdadeiros alvos da campanha "Não vou pagar
o pato", da Fiesp, que, aliás, vem sendo muito eficaz no cumprimento de
seu objetivo. O pato quem vem pagando é o resto da população, ora
cedendo suas fatias no bolo cada vez menor do Orçamento público, ora
sofrendo as consequências da atuação política da entidade.

A
federação pode não ter sido tão sincera quando, acusada pela Comissão
Nacional da Verdade de seu envolvimento com os crimes da ditadura
militar, declarou, por meio de nota oficial, que sua atuação tem se
pautado pela defesa da democracia e do Estado de Direito.

Seus
membros mais afoitos devem ser avisados de que, desta vez, podem não
contar com o apoio nem do governo americano nem de nossas Forças Armadas
para o desmonte das instituições democráticas brasileiras.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Um salva vidas para a hipocondria informativa

Um salva vidas para a hipocondria informativa | Observatório da Imprensa 



Um salva vidas para a hipocondria informativa

Por Roxana Tabakman em 14/12/2015 na edição 880
As informações médicas que são
divulgadas todo dia deixam ao público confuso. A proliferação de fontes
de noticias e o fato das pessoas estarem utilizando referências não
tradicionais em matéria de informação sobre saúde geram ansiedade
crescente e, na sequência, a sensação de que estamos nos afogando em
informação. Em alguns casos, pela própria natureza do assunto, as
pessoas acabam desenvolvendo uma espécie de hipocondria informativa.


São os tempos atuais e não há mais volta possível para o passado.
Neste contexto, a curadoria de conteúdos é vista como um dos possíveis
remédios para o tratamento desta prolongada situação de mal-estar
informativo que ameaça se transformar num problema crônico
contemporâneo.



O curador seria, basicamente, alguém que monitore a informação que se
divulga no mundo digital, selecione o essencial, edite e contextualize
as histórias, e finalmente as deixe disponíveis para o usuário.
Idealmente, uma pessoa que se informe dos assuntos de saúde a traves de
bons curadores além de ficar atualizada em questões médicas ficaria
blindada contra boatos, rumores e informações irresponsáveis. As fontes
escolhidas pelos curadores teriam muito a ganhar, porque aumentariam os
seus índices de leitura e compartilhamento. A ideia é boa. O problema
que enfrentam os novos profissionais da comunicação é como fazer com
rigor e responsabilidade essa curadoria.


O conteúdo


Há muitas ferramentas para monitorar a informação digital e a
disponibilidade infinita e’ uma tentação. O curador tem a sua disposição
conteúdo de jornais, revistas, rádio, TV, blogs, programas no Youtube,
sites e redes sociais de empresas de midia, ONGs, governo, hospitais,
universidades do pais e do estrangeiro. A lista é quase infinita.


Pessoas que antes conformavam a audiência agora estão envolvidas na
produção de notícias, e o conteúdo criado por usuários, sejam
individuais, coletivos, pagos ou voluntários acrescenta um degrau maior
de complexidade. No Brasil, por exemplo, estão contabilizados ao menos
450 blogs de saúde, segundo Priscila Torres, do Blogueiros da Saúde
que ao ser consultada pelo Observatorio da Imprensa, disse que “a
grande maioria das pessoas que produzem blogs é formada por pacientes ou
familiares. Estamos fazendo um grande trabalho na formação dos
blogueiros para que produzem conteúdo com responsabilidade e
conhecimento”.


O excesso de material informativo coloca muito peso nos ombros dos
que fazem a escolha sobre o que é essencial para os objetivos a serem
atingidos. Como ter certeza que a pequena amostra selecionada representa
o que há de melhor para o público? Como não cair nos mesmo problemas
que afetam a cobertura sobre saude na grande mídia?


O dinheiro não é o único fator que suja a informação. No caso da
medicina e qualidade de vida, os médicos ou cientistas nem sempre sabem
explicar de maneira clara e atrativa. E os jornalistas, até os que
assinam na grande mídia, nem sempre passam por treinamentos que permitam
superar os complexos desafios éticos e técnicos das matérias de saúde.
Um curador vira o juiz responsável por distribuir informações geradas
por pessoas que ele não conhece, que estão mais o menos preparadas, são
mais ou menos espertas, estão mais ou menos informadas e, o mais difícil
de verificar, são mais ou menos resistentes a pressões econômicas.


Pode-se escolher divulgar apenas o trabalho dos melhores, se limitar a
traduzir do idioma original textos produzidos por repórteres céticos e
bem informados que não são simples amplificadores de ideias e de dados
alheios, e que muitas vezes trabalham nas grandes grifes midiáticas. Mas
o jornalismo de qualidade é ,no mundo todo, uma atividade em crise de
adaptação a um novo modelo de produção de informações.


Para Robert Lee Hotz, profissional de referência no jornalismo científico pelo seu trabalho no The Wall Street Journal,
está cada dia mais difícil estar bem informado. “Há mais aceso a
notícias de ciência, e menos jornalismo bom”, resume. “A tecnologia não
mudou a ciência que reportamos, mas alterou a maneira como a empacotamos
e a possibilidade de viver de jornalismo científico. O que a sua vez
diminui a qualidade.” (Mais detalhes da entrevista aqui)


Um bom curador seria como um vigia no qual depositamos a nossa
confiança. Como qualquer editor trabalha no escuro, tem que aprender a
conviver com uma voz interior que o lembre que aquelas notícias pontuais
que ele escolheu hoje, de entre muitas outras, amanhã podem acabar não
sendo verdadeiras. Na área de medicina isso e ainda mais marcante,
porque ao escolher levar uma informação ao seu público, o que predomina é
a novidade. Se o curador não quer se arriscar, terá que recomendar
apenas aqueles fatos cientificamente aceitos, evitar a tentação do
“furo”jornalístico ou logo acabará perdendo a confiança do seu público. O
trabalho rigoroso de seleção de informação científica se desenvolve, em
maior ou menor grau, no difícil terreno de comunicar incertezas.


E bom esclarecer que curar conteúdo não é, em termos simples,
aproveitar-se do trabalho dos outros. Há bastante literatura sobre o
compartilhamento ético. Para a pesquisadora Livia Vieyra
“direcionar o leitor para a íntegra da entrevista, por meio de link no
final da matéria é a forma mais correta de curadoria digital, pois o
conteúdo é reescrito ao mesmo tempo em que instiga o leitor a conferir o
restante da entrevista no veículo original.


O que é um bom conteúdo?


Dependendo dos objetivos do projeto de curadoria, ele pode informar,
ensinar, inspirar, divertir, vigiar, emocionar ou uma mistura de todos
eles. Ter toda a informação do mundo disponível jna distância de um
toque traz o risco de algumas armadilhas. Por exemplo, a tentação de
mostrar sempre que puder os dois lados da moeda. Se há uma matéria a
favor da terapia de reposição hormonal após a menopausa, e’ fácil achar
uma outra que defenda a posição contrária, por citar um exemplo.
Oferecer as distintas visões sobre um mesmo assunto, em tese , aumenta a
credibilidade do veiculo de informação. Infelizmente, em saúde, esse
falso equilíbrio é, às vezes, um presente de grego.


Está comprovado que dar espaço a opiniões contrapostas pode deixar as
pessoas mais confusas. Há também pesquisas que mostram que mesmo
deixando claro o peso das evidências, quando se oferecem pontos de vista
diferentes, estes são vistos como alternativas equivalentes. Pode
sugerir que há uma controvérsia quando não é assim, o que há é apenas
“achismo” ou boato de um lado, e ciência do outro. Na época que no Reino
Unido se perguntavam se as crianças podiam desenvolver autismo depois
de tomar uma vacina, mesmo com a maioria dos jornais dando informações
corretas, o fato de seguir a regra de ouvir os dois lados acabou dando
destaque a informações erradas o que gerou uma redução no índice de
vacinação e um aumento no caso das doenças a serem evitadas. A
responsabilidade que se assume ao querer mostrar “os dois lados” não
deve ser negligenciada.


Curadoria é, portanto, um trabalho que exige conhecimento, trabalho e
sobre tudo tempo, que se traduz em dinheiro. Mas há uma grande vantagem
que o curador tem frente ao editor clássico: a sua não é uma porta de
sentido único. `A diferença dos sistemas tradicionais de comunicação,
ele dispõe hoje de uma rede protetora, pois é retroalimentado por uma
comunidade de receptores que corrigem e sugerem. Isso gera uma curadoria
final por decantação: a rede permite a evolução permanente da
informação.


Modelos


Há muitos modelos curadoria de notícias médicas, como se destaca nos exemplos a seguir:


A página Your Health News Review (Sua
revisão de notícias de saúde, em trad. livre) que todo dia avalia as
notícias divulgadas nas principais mídias de EUA pode ser uma bom norte
para os curadores. O aceso do 24 de novembro de 2015, por exemplo, tinha
na tela de entrada o link a nove matérias. A avaliação dos curadores e
expressada de forma simples e de leitura rápida: de 1 a 5 estrelas. O
usuário pode ler as notícias, se orientando pela recomendação e conhecer
nos comentários sobre os quais a nota está baseada.


Destaco algumas recomendações: Fototerapia para a depressão (The Washington Post, 4*), duas matérias sobre os efeitos do café na saúde (CNN: 3*, STAT
5*) e uma sobre Mais uma vantagem do aleitamento materno (5*).
Apresentado como reportagem exemplar, e ponderado com cinco estrelas, um
texto do The Philadelphia Inquirer trata de uma pesquisa feita
sobre um grupo de médicos e pacientes que ganham dinheiro se o paciente
toma todo dia seu comprimido contra o colesterol. O usuário também pode
ler, seguindo o mesmo esquema de recomendação fundamentada, comunicados
de imprensa de universidades, publicações cientificas e companhias.


O projeto é extraordinário em mais de um sentido. O aceso é de graça
mas, nos bastidores do site, há uma equipe de mais de 45 pessoas
comprovadamente independentes da indústria. Os revisores conformam um
equipe multidisciplinar da qual fazem parte jornalistas, médicos,
pesquisadores e pacientes que representam ,segundo eles ,“centenas de
anos de experiência” em avaliação de evidências. Uma redação de luxo que
desde 2006 avaliou mais de 2100 matérias, sendo que cada uma passa por
três revisores.


Como é feita a seleção? As palavras que acendem a luz vermelha são
“milagre”, “cura”, “isto poderia levar a” e similares. Mas os critérios
de análise para medicamentos o terapias novas estão bem definidos: vão
desde o custo/benefício até a comparação com tratamentos alternativos.
(ver lista completa aqui
). Cada quesito pode ter três resultados, (satisfatórios, não
satisfatório ou não aplicável) e depois o valor final é visualizado em
gráficos. São muito exigentes. Em 2014, avaliaram 2015 produtos
jornalísticos, muitos deles de veículos que a grande maioria dos brasileiros tem como referência de qualidade (The New York Times, Reuters Health, a revista Time) e apenas o 15% teve nota máxima.


Não aceitam publicidade, nem apoio da indústria medica. O editor
chefe Gary Schwitzer, também diretor do Centro de Comunicação e saúde da
Escola de Saúde pública da Universidade de Minnesota, respondeu por
e-mail às minhas perguntas. Disse que se financiam com uma doação de 1,3
milhões de dólares (anos 2015-2016) de uma fundação privada. “Estimamos
acabar o ano com 375.000 visitantes únicos. Em anos anteriores nunca
tínhamos tido mais de 250.000.” Pedimos que Schwitzer avaliasse as
notícias médicas publicadas nos EUA na última década: “nós identificamos
muitos conteúdos que classificamos como picos de excelência, mas cada
vez mais nos deparamos com o pior jornalismo que já foi feito. O cenário
é de montanhas com vales, mais estes são cada vez mais largos e
profundos.”


O projeto alemão de curadoria de matérias de saúde Medien-doktor.de foi lançado em maio de 2013, inspirado no baseado no Your Health News Review
e em outros similares de Austrália e Hong Kong. Mas acrescentou uma
diferença importante: a avaliação diária é feita por jornalistas
especializados em ciência e saúde. Em consequência, incorporaram aos
critérios médicos outros quatro princípios puramente jornalísticos:
atualidade, relevância, qualidade na apresentação e precisão
jornalística.  A proposta é destacar bons exemplos para mostrar como se
faz bom jornalismo. “Os usuários se perguntam que matérias podem
acreditar e em quais não. Nós pretendemos encontrar respostas a estas
perguntas.”


Também na frequência diária, o britânico Behind the lines. Your guide to the Science that makes the News
(Detrás das linhas. Seu guia para as noticias científicas, em trad.
Livre) reporta uma única matéria divulgada pela mídia do Reino Unido (no
Daily mail, The Guardian, BBC, The Independent, etc.) com a crítica correspondente. Eu fiz um aceso no dia que examinaram uma matéria do BBC News
sobre se seria recomendável para a saúde que o celular tivesse um modo
“dormir”. Os curadores analisam as limitações da pesquisa original, e
conferem se as conclusões batem com o publicado na matéria. Oferecem
muito conteúdo extra: o link para o relatório científico original, as
ferramentas para entendê-lo, matérias dos outros veículos sobre o mesmo
assunto, mais informação sobre o tema de saúde em foco (nesse caso um
vídeo com uma reportagem sobre insônia e um teste para conhecer a
qualidade do próprio sono). O trabalho é financiado pelo Sistema
Nacional de Saúde (NHS), um órgão do governo britânico.


Recomendações básicas


Entre os trabalhos referenciais comentados, e o caos de navegar sem
bússola, há algumas possibilidades intermediárias para oferecer ao
público um meio de atravessar o mar de conteúdos digitais sobre saúde
sem se afogar.


O trabalho colaborativo e voluntario de indivíduos em rede que saibam
pesquisar, conheçam o assunto tratado ou ao menos tenham o suficiente
domínio da estatística e do método científico para opinar ou fazer
sugestões é a estratégia seguida pelo chileno Observatorio de Prensa Cientifica.
Qualquer jornalista, estudante ou cientista pode propor uma matéria com
o link ao trabalho a divulgar. Mas o jornalista deve prover a resposta a
cinco perguntas pré determinadas e o cientista a duas.


As primeiras servem para julgar a fonte, a linguagem e o benefício
para a sociedade, e o cientista tem que responder pelo conteúdo. Nascido
de ambiente acadêmico (Centro de Comunicación de la Ciencia de la
Universidad Andres Bello) o usuário vai consumir a notícia matéria
seguro de que ela conta com o aval de um cientista da área. Mas o
Observatório também quer intensificar a interação entre jornalistas e
cientistas. Trata-se de uma preocupação oposta a do projeto Stat News, uma publicação irmã do The Boston Globe, cujo objetivo é monitorar o que os cientistas dizem à imprensa. Acaba de nascer com uma seção nova The watchodogs. Onde a equipe do Stat News promete investigar o que chama de lado escuro das pesquisas científicas.


Outro exemplo interessante é Vox.com. Aproveitam o material
que está disponível grátis na internet mas acrescentam valor. O
resultado pode se conferir na seção de Ciência e Saúde. Fiz um aceso no
dia que publicaram a matéria “As Dietas mais pesquisadas no Google” (trad. Livre). Observaram o amplo material do Google
sobre os métodos de emagrecimento mais procurados e, provavelmente,
seguidos da década 2005- 2015 com um olhar inteligente. E o acompanharam
de um texto explicativo titulado (em trad. livre) “8 fatos para prevenir uma loucura


Mais simples. Há ainda uma opção mais simples, que é recomendar
leitura, audição ou visualização sem acrescentar nada ao já difícil
trabalho de fazer escolhas. Veículos digitais como o Stat fazem sugestões diárias para o seu público. Quando acessei, as recomendações eram três: uma matéria do Boston Globe (sobre o debate da segurança dos jalecos brancos nos profissionais de saúde), uma da revista britânica Nature (história sobre os animais geneticamente modificados na China) e uma programa de rádio Science Friday (sobre remédios).


No mundo real, os níveis de liberdade do curador para todos nesse quesito é bastante variável. O site M de mulher
da Editora Abril por exemplo, oferece aceso a informação de saúde que
provem fundamentalmente do conteúdo de outros veículos da mesma empresa:
Saúde e vital, Boa forma, Elle, Bebê’.


Curadoria automática


Consumir apenas o que foi selecionado de acordo com o interesse
pessoal é uma tentação para quem não tem tempo e sofre de ansiedade
informativa.  As grandes empresas digitais e os editores acreditam e
apostam neste tipo de comportamento, como faz o Facebook, com o seu aplicativo Instant Articles.


A curadoria automática, baseada em algoritmos, é diferente da
agregação automática de conteúdos por palavra-chave, pois é uma
plataforma que inclui conteúdos de publicações (da imprensa. blogs,
portais, etc) e não simplesmente justapõe trechos. Há muitos sistemas de
curadoria automatizada e quase todas elas tem suas limitações.  :


Fiz um teste cm o Feedly.com (apenas em inglês) e fui convidada a
selecionar as fontes de informação que pretendia seguir. Depois de
descartar as fontes que considerei pouco confiáveis, como a de um blog
pessoal de um homem que se definia como “pai e vegetariano”, acabei me
limitando as que já recebo diariamente em minhas redes sociais (BBC
Health, CNN Health e outras) . O dia que fiz o teste no Yahoo Saúde,
tive uma experiência ainda mais limitada: as três matérias destacadas e
as 15 não destacadas, vinham todas de uma mesma agência de notícias, a
francesa AFP.  Mesmo sendo um texto em português , não havia nenhum
conteúdo referente ao Brasil. Das 18 recomendações mostradas na tela,
apenas uma era da América Latina (denúncia de perseguições aos defensores do aborto)


Faz alguns anos, o site chileno Mata-sanos que produz conteúdo de medicina próprio, fez um teste para oferecer aos seus leitores a plataforma Scoop.it
. O assunto escolhido para a prova foi “Como as tecnologias da
informação mudaram a relação médico paciente”. Meses depois o
abandonaram porque, segundo os responsáveis pelo site chileno, “o
conteúdo era majoritariamente em inglês, e isso ficava fora de nosso
foco”. Fiz também meu teste com o algoritmo curador de Scoop.it ,
coloquei como focos de interesse saúde, medicina e qualidade de vida, e
não tive problemas com a língua, tinha material em portugués. No
instante vi na tela muitos links escolhidos, na teoria, para satisfazer o
meu interesse. Destaco duas: “Ciência é motor da produtividade agrícola
e da melhoria da qualidade de vida”, do site do Centro de Informações
em Biotecnologia, e “5 práticas sexuais consideradas sujas que fazem bem
a saúde” do Youtube.


Para efeito de comparação, me cadastrei como interessada em matérias de saúde em português também na revista Clipboard
uma das que oferece o serviço de publicações pessoais. Recebi na minha
tela muitas matérias, de poucas fontes e com conteúdo diversificado. O
universo informativo abarca desde atualidade sobre a microcefalia até
uma técnica para mudar a cor dos olhos, esta última de um site que não
passaria nenhuma das rígidas avaliações citadas no começo deste artigo.


Na minha experiência pessoal, portanto, os algoritmos curadores de
conteúdo são por enquanto dessas ideias que só funcionam bem na teoria.
Mesmo se fosse impecável, se tivesse algum tipo de filtro de qualidade
eficaz e eficiente, há uma razão importante pela qual não é boa ideia
abrir mão dos curadores humanos. O algoritmo reduz uma pessoa ao que
acha são as suas preferências e, em termos práticos, isso significa que a
sua visão do mundo vai se estreitando cada vez mais.


O curador profissional


Provavelmente, o que se verá os próximos anos será combinações mais
ou menos sucedidas de curadorias compartilhadas entre algoritmos e’
intervenções profissionais multidisciplinares. Modelos que aproveitem a
rapidez, memória infinita e visão estendida das máquinas, sem deixar de
lado o olhar humano.


Qualquer cidadã conectado já e curador de informação. De todas as
notícias de remédios ou tratamento novos, de toda as evidencias que se
difundem diariamente de que algo produz ou cura o câncer, de todas as
recomendações para emagrecer com saúde, só alguns deles são escolhidos
pelas pessoas para serem amplificados. A diferença no critério dos
curadores dará as chances das novidades serem verdadeiras, as
perspectivas realmente originais e a opinião de qualidade.


Atrair público a um produto que consiga um balanço economicamente
sustentável da excelência e o desafio. Outros processos nos quais um
curador profissional poderá mostrar a diferença com o leigo continuam,
depois da seleção, na editorialização, na hierarquização do conteúdo, na
representação de forma acessível seja por meio da narrativa, de
infográficos ou ambos. Em poucas palavras, na criação de um produto novo
que vai ser compartilhado. Finalmente, o curador é chamado a intervir
no que constitui o foco de monetização do jornalismo digital, o
engajamento.


“Curar não é gerar conteúdo novo, é muito mais do que colar
informação“, resume Anita Howart, da Universidade Brunel de Londres em “Exploring a curatorial turn in journalism
. “Envolve representar de maneiras imaginativas, reformulando o
conteúdo existente em novas configurações. Neste sentido, a curadoria
representa uma forma de criatividade crescentemente comum na era das
mídias sociais, a de misturar e reimaginar o material existente para
criar algo novo.” Para Anita, o que diferencia o curador de outros
profissionais das redações é o volume, a natureza e a verificação do
material com o que trabalha.


O mundo comunicacional se divide entre os pessimistas, que encaram a
curadoria de conteúdos como um sintoma da agonia do jornalismo, e os
otimistas que a enxergam como uma nova maneira de exercer a profissão,
fazendo circular conhecimento com práticas novas. Os otimistas acreditam
que é uma maneira de dar um novo impulso a imprensa por meio da
recirculação de conteúdos gerando novas audiências. Qualificam a
curadoria como uma forma de evitar a perda de diversidade na mídia
tradicional. Celebram uma maneira de deixar de consumir mais do mesmo,
com garantia de qualidade.


A curadoria de conteúdo é o futuro? Há quem pensa que depois da explosão dos websites e o boom
das redes que geraram um dilúvio de dados, vem a terceira onda, a dos
filtros. Gary Schwitzer, jornalista com 40 anos de experiência em saúde,
e que nove anos atrás criou o Your Health News Rewiew faz a
seguinte analogia: “Os consumidores de notícias de saúde tem sede de um
pequeno gole de informação completa, equilibrada, e precisa para
enfrentar a variedade de decisões relativas a saúde que devem enfrentar.
Mas com o fluxo de informação a alta pressão que recebem, é como tentar
beber da mangueira dos bombeiros. Os consumidores estão se afogando, e
nós tentamos atirar um salva-vidas para eles”.


***


Roxana Tabakman  é bióloga,  jornalista e autora do livro “A saúde na
mídia (Medicina para jornalistas, jornalismo para médicos)”. Ed.
Summus.


domingo, 20 de dezembro de 2015

Pré-Sal: quem desdenha quer vender. Baratinho, quase doado...

Pré-Sal: quem desdenha quer vender. Baratinho, quase doado... - TIJOLAÇO | “A política, sem polêmica, é a arma das elites.”



Pré-Sal: quem desdenha quer vender. Baratinho, quase doado…

monteiro


Ontem à tarde, postei aqui
algumas reflexões sobre a crise provocada pelos preços do petróleo e a
advertência de que havia gente “se aproveitando disso para ver se
convence os trouxas de que o petróleo não é mais o “ouro negro” e
consegue que o entreguemos de mão-beijada”.


Não deu tempo nem de esfriar: O Globo sai hoje com um editorial dizendo que “o pré-sal pode ser um patrimônio inútil”.


Com o petróleo barato e os altos custos da extração no pré-sal (uma
mentira, que tenta confundir o volume de investimento – alto – com o
custo de produção, baixo, pela quantidade de petróleo que gera, com
médias perto de 30 mil barris diários) para concluir que “foi erro
crasso do lulopetismo, movido a ideologia, suspender por cinco anos os
leilões, a fim de instituir o modelo de partilha no pré-sal, com alta
intervenção do Estado”.


Perdemos, porque deixamos de atrair, bilhões de dólares, dizem.


Das duas, uma: ou O Globo nos crê burros por não entregarmos
por uns poucos bilhões aquilo que vale trilhões ou crê que as
multinacionais do petróleo são mais asininas ainda, porque pagariam
bilhões por um “patrimônio inútil”.


Não há nada de novo entre os vendilhões do Brasil.


Há dois anos postei e posto de novo o que imaginava Monteiro Lobato,
nos anos 40, quando teimavam em dizer que o Brasil não tina petróleo e
ele se dedicava, à falta de muitos adultos que o acreditassem, explicar
para as crianças o que seria do Brasil quando estes facínoras forem,
afinal, desmascarados.


Em seu “O Poço do Visconde” deu o nome de “caxambueiros ” aos que
descriam de nossa capacidade de explorar petróleo. E conta que o povo
pegou estes marotos e “os fez passear pela cidade com caraças de burro
na cabeça — e no fim da passeata os jogou na lama dos mangues para serem
comidos pelos sururus”.


Que me perdoem os “politicamente corretos”, mas ainda é pouco para quem vende a sua pátria.

A contribuição milionária da imprensa para ampliar a crise econômica

A contribuição milionária da imprensa para ampliar a crise econômica. Por Paulo Nogueira



A contribuição milionária da imprensa para ampliar a crise econômica.

Só notícias ruins
Só notícias ruins
Existe uma expressão em inglês chamada self fulfilling prophecy. Numa tradução livre, profecia auto-realizável. O termo foi cunhado em 1949 pelo cientista social americano Robert Merton.


É mais ou menos o seguinte.



Você tanto fala numa coisa com bases falsas que ela acaba se tornando
realidade. Um exemplo comumente citado é o de alguém que, ao acordar,
já fala que vai ter um mau dia. Se ele colocar isso na cabeça, acabará
por criar as condições para que seu dia seja, efetivamente, ruim.


O Brasil vive um momento de profecia auto-realizável. Tanto a mídia,
por motivações políticas, gritou que o Brasil vivia um inferno econômico
que as coisas, efetivamente, se complicaram.


Não há economia que resista a maciços ataques de catastrofismo.


Seria um ano difícil, sem dúvida. O Brasil vinha de dez anos de
crescimento ininterrupto, e não há vento que sempre bata para um só lado
na economia.


Adicionalmente, a crise global começou a cobrar – enfim – seu preço
do Brasil. Mundo afora, o dólar estourou, para ficar num caso.


Mas a imprensa se apressou em atribuir o drama do dólar apenas ao
Brasil. Não era o universo em convulsão. Era o Brasil. Quer dizer, era o
governo Dilma.


Demorou semanas para que alguém, na mídia, mostrasse a floresta, e não a árvore: o dólar crescera diante de todas as moedas, do euro ao yuan chinês.


Agora, imagine. Você é empresário, e está submetido a uma corrente interminável de previsões apocalípticas.


O que você faz?


Vai para a defesa, naturalmente. Isso significa demitir, cortar investimentos e coisas do gênero.


Pronto. A profecia se auto-realizou.


Os rugidos negativistas da mídia encontraram o parceiro ideal numa
oposição obcecada em derrubar Dilma, e cassar assim 54 milhões de votos,
a qualquer preço.


Projetos fúnebres para o país – as apropriadamente chamadas pautas
bombas – foram aprovados com a execução de Eduardo Cunha e a
contribuição milionária do PSDB de Aécio.


A crise política nascida abjetamente do desejo sujo de dar um golpe
na democracia acabou piorando, também, a crise econômica. Mais uma vez,
era a profecia auto-realizável em ação.


Ainda haveria um outro fator para dar dimensões muito maiores a um
problema que poderia ser relativamente pequeno: a Lava Jato, com seu
espalhafato.


Segundo a BBC, a Lava Jato pode ter tido um impacto negativo no PIB
de 2,5 pontos. Uma recessão de coisa de 1% negativo pode chegar a menos
3,5%. Grandes corporações ficaram imobilizadas com a Lava Jato.


Alguém terá feito a conta do custo benefício da Lava Jato? Moro pegou uma calculadora? Duvido.


Haveria uma forma de enfrentar a corrupção no mundo do petróleo sem o custo devastador que se apresentou? Muito provavelmente.


E o ciclo pode continuar. O economista Gustavo Loyola, presidente do
Banco Central na era FHC, está no noticiário dizendo que a crise
econômica vai até 2018.


É bom que se desconfie dessa previsão, muito mais fundada na política do que nos fundamentos econômicos.


Até porque, se ela se propagar, poderemos perfeitamente estar, neste
final de 2015, começando a fabricar uma crise que cederá apenas em 2018.


A isto o professor americano Merton deu, em meados do século passado, o nome de profecia auto-realizável.

Afastar Dilma agora seria golpe

Afastar Dilma agora seria golpe, diz autor de ação contra Collor em 92 - 20/12/2015 - Poder - Folha de S.Paulo



Afastar Dilma agora seria golpe, diz autor de ação contra Collor em 92





FERNANDA MENA











"É golpe porque é contrário à Constituição." É assim que Dalmo de Abreu
Dallari, decano jurista e professor emérito da Faculdade de Direito da
USP, se refere ao pedido de impeachment atualmente em trâmite na Câmara
dos Deputados. "Impeachment sem fundamento jurídico é um golpe porque é
uma violência", acrescenta.





Prestes a completar 84 anos, o professor explica a decisão do Supremo
Tribunal Federal de anular a votação secreta na Câmara e reiterar o
poder do Senado no rito do impeachment e evoca a Constituição de 1988 a
cada argumento que dá contrário ao pedido assinado por Hélio Bicudo e
Miguel Reale Jr., dois colegas que rascunharam com ele o pedido de
impedimento do ex-presidente Fernando Collor de Mello em 1992. "Eu não
sou a favor de Dilma. Sou a favor da Constituição."





Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.




*
Folha - O Sr. foi um dos juristas que redigiu o pedido de impeachment
do ex-presidente Fernando Collor de Mello. O uso deste instrumento era
legítimo com Collor, mas não o é com Dilma?






Dalmo Dallari - A questão da legitimidade não é pelo impeachment
em si mesmo, mas pela sua fundamentação. Naquela ocasião, em relação ao
Collor, foram feitas acusações muito precisas. Foram indicados elementos
muito concretos que configuravam crime de responsabilidade. E isso não
aconteceu até agora em relação à presidente Dilma Rousseff. Por isso
essa acusação de agora é ilegítima. Ela não tem fundamentação jurídica.





Que tipo de fundamentação existia à época e não existe hoje?





Contra Collor, houve acusações com muita comprovação de desvio de
recursos públicos em benefício pessoal ou de amigos. Foram indicados
atos praticados pelo presidente e determinações dele que configuravam
crime de responsabilidade, ou seja, eram flagrantemente contrários à
lei. E este é o ponto fundamental, que dava fundamentação jurídica e,
portanto, legitimidade ao pedido.





No caso presente, o que há são, primeiro, afirmações que mais do que
evidentemente não servem de fundamento. Por exemplo, dizer que Dilma
Rousseff, quando presidente da Petrobras, se omitiu. Primeiro que a
Constituição exige "atos" presidenciais. Ora, omissão é a ausência de
atos. Segundo, a Constituição exige para impeachment que esses atos
tenham sido praticados agora, no mandato como presidente.





E não há a mínima acusação de que ela tenha desviado recursos
financeiros em proveito próprio ou de alguém ou para aplicação ilegal,
contrária à lei orçamentária.





As pedaladas fiscais não foram atos presidenciais?





Aquilo que se convencionou chamar de pedaladas, que estão comprovadas,
ditas e afirmadas, o próprio [ex-presidente] Fernando Henrique Cardoso
praticou muito também. A pedalada é um artifício contábil e não um
desvio de recursos financeiros para objetivo ilegal. É um retardamento
na transposição de recursos de um fundo para outro fundo público. Mas
isso não configura nenhum dos crimes de responsabilidade previstos na
lei 1.079 de 1950, que trata do impeachment.





Falta este enquadramento legal que poderia dar legitimidade a um
processo. Por isso não há o mínimo fundamento jurídico para o processo
de impeachment.





Outros juristas que estiveram ao seu lado no impeachment de Collor agora defendem o impeachment de Dilma...





Existem várias razões para isso. Uma delas é um ressentimento pessoal. E
aí eu vou mencionar o meu caríssimo amigo, que eu respeito e admiro
muito, Hélio Bicudo. Ele tem toda uma história magnífica de defesa do
direito. Mas ele se filiou ao PT e teve a pretensão de ser embaixador
brasileiro na Suíça, possivelmente porque é em Genebra que está o centro
de direitos humanos da ONU. Essa história é de amplo conhecimento: ele
ficou absolutamente indignado porque havia manifestado indiretamente
essa ideia, mas não foi recebido pelo presidente Lula para externar essa
vontade. Isso provocou um forte ressentimento.





Não sei por qual motivo o presidente Lula não o recebeu. Hélio Bicudo é
uma figura respeitável. E isso foi decisivo: ele se tornou um
antipetista absolutamente obsessivo.





Agora, o caso de Miguel Reale Jr. é mais evidente: ele é filiado ao
PSDB, de modo que a posição dele é, antes de tudo, política e não
jurídica.





Então, isso explica porque pessoas da área jurídica são favoráveis ao
impeachment mesmo não havendo consistência jurídica para isso.





O Sr. redigiu pedido de impeachment contra FHC em 2001 por negociar
emendas para bloquear uma CPI. O mesmo argumento não poderia ser usado
contra Dilma?






Quem acha isso demonstra absoluta falta de conhecimento jurídico e não
tem nenhuma ideia de que o direito se aplica aos fatos segundo as
circunstâncias. Então a mesma regra jurídica poderá ser invocada mas
aplicada ou não dependendo do conjunto de fatos e de circunstâncias.





Por isso, a própria jurisprudência do STF muda, às vezes oscila. Porque
em relação um determinado preceito jurídico, mas considerando o conjunto
de circunstâncias, o ministro muda a posição. Por isso a jurisprudência
é variável. Isso não significa que os ministros tenham abandonado os
critérios jurídicos absolutamente.





Eu não lembro agora de pormenores da situação contra FHC, mas
possivelmente havia comprovação de fatos que caracterizavam uma agressão
ao direito.





Acentuo muito isso: não tenho vinculação com nenhum dos partidos existentes no Brasil.





Se se acusar amanhã a presidente Dilma dando os fundamentos válidos e
consistentes para sustentar que ela praticou crimes de responsabilidade,
eu serei a favor do impeachment e da punição.





Eu não sou a favor da presidente Dilma, eu sou a favor da Constituição.





O jurista René Dotti diz que há precedente no STF para o pedido de impeachment com base em ações do mandato anterior.





Isso eu acho que é contra o artigo 86 da Constituição, que diz
expressamente que o presidente só pode ser responsabilizado por atos
praticados no exercício do presente mandato.





Mas e o que ela fez como presidente no mandato anterior?





Também não é fundamento jurídico para impeachment. Tem de ser no atual mandato.





Só que a constituição é anterior à reeleição.





Mas a Constituição fala em atos praticados na vigência do seu mandato.
Isso exclui o mandato anterior. Cada mandato tem absoluta autonomia e,
por isso, um tempo certo de duração. Não importa que uma mesma pessoa
receba dois mandatos. Um não é uma prorrogação do anterior. É um novo
mandato eleito.





Isso não parece mais um exercício de retórica?





Não. Senão, nós poderíamos ir buscar lá atrás atos do ex-presidente
Fernando Henrique para declarar, agora, que tudo o que ele fez a partir
de então é nulo porque já teria praticado um crime.





Quando a Constituição diz "o presidente, na vigência do mandato", não há
dúvida: é o presidente atual na vigência do mandato atual que ele está
exercendo.





A falta de governabilidade é argumento para impeachment?





Esse é um argumento político que varia quando alguém é a favor do
governo ou contra ele. Não é um argumento jurídico; portanto, é
ilegítimo.





*Como o Sr. avalia o julgamento do STF sobre o rito do impeachment





Fiquei feliz pela maneira como o julgamento foi conduzido e com suas
conclusões. Ficou evidente que a maioria dos ministros está consciente
de seu papel de guarda da Constituição.





Em termos de conteúdo, foi importante a abordagem feita no tocante ao artifício usado pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, para a votação secreta.
Ela não é prevista na lei, mas foi utilizada como forma de esconder os
seus aliados ou os seus dependentes. Seria uma forma de ocultar do povo
qual foi a condição de cada deputado, e isso daria uma cobertura para
negociatas, grande especialidade do presidente da Câmara. A decisão do
Supremo repeliu isso.





Outro dado que, a meu ver, é de fundamental importância e que estava
sendo esquecido de propósito ou ignorado –porque, infelizmente, muitos
brasileiros que atuam no direito, inclusive alguns professores, não
conhecem a Constituição– é que há uma diferença essencial entre o papel
da Câmara de Deputados e o papel do Senado num processo de impeachment. A
Constituição é muito clara quando diz que compete à Câmara autorizar o
processo pura e simplesmente. Autorizar não é determinar ou ordenar. E
isso estava sendo mal interpretado. Alguns podem não ter lido direito a
Constituição, mas outros estavam maliciosamente fazendo a aplicação dos
preceitos porque lhes era conveniente.





Se essa autorização não é uma ordem ou uma determinação, existe um
segundo momento no Senado. Diz a Constituição que compete exclusivamente
ao Senado o julgamento do processo de impeachment. Então, nessa
competência para julgar está incluída a competência desde logo que não
existe qualquer fundamento e que a proposta deve ser arquivada.





Sem impeachment, não corremos o risco de passar três anos em convulsão social e econômica?





Estou convencido de que a onda do impeachment está chegando ao final. A
partir de março do ano que vem estará tudo voltando ao normal. Temos uma
ordem constitucional democrática muito consistente. A Constituição é
essencialmente democrática e foi feita pelo povo.





Como é que o sr. avalia a postura do vice neste momento de trâmite do impeachment?





Eu acho que, infelizmente, e ele também é meu velho amigo, há uma
vinculação política. E neste caso, mais grave ainda, porque ele seria o
sucessor de Dilma, então, ele tem interesse pessoal no afastamento da
presidente. Ele tem deixado muito evidente este interesse.





E há um aspecto quase terrorista que já foi levantado. A questão de que
Michel Temer, por atos cometidos quando substituiu a Dilma, também
ficaria sujeito a afastamento. Aí o que é que resulta: que a Presidência
do Brasil será entregue a Eduardo Cunha (risos). Deveriam pensar melhor
neste absurdo.





O que eu tenho verificado é que tanto PMDB quanto PSDB já estão em
campanha eleitoral. Muito do que eles dizem contra a Dilma vem daí: de
sua pretensão de surgir como salvador da pátria.





Nenhum deles propôs um plano de governo detalhado. E é isso o que deveriam fazer agora. Quem sabe eu mesmo não me convenceria?





O pedido do procurador-geral, Rodrigo Janot, de afastamento do presidente da Câmara tem fundamento jurídico?





Verifiquei e o Janot agiu rigorosamente dentro da lei. É papel do
Ministério Público e ele fundamentou seu pedido de maneira que existe
sim base jurídica para atendimento da proposta. O Ministério Público
ganhou uma nova força com a Constituição de 1988, e ele é, de certo
modo, um advogado do povo. Sempre que esteja ou ameaçado ou agredido o
interesse público, é ele que deve agir porque tem essa atribuição.





Está bem evidente por todos os elementos a que já foram dados
publicidade que Eduardo Cunha tem agido contrariamente à lei. Mas
escancaradamente contra a lei. Então, não há dúvida de que existe muito
fundamento para essa iniciativa.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Veja explica por que protege PSDB e Azeredo

Veja explica por que protege PSDB e Azeredo | Brasil 24/7









247 –
Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Com esse argumento, a
revista Veja tenta explicar por que blinda, em suas páginas, políticos
do PSDB e o ex-presidente nacional do partido, Eduardo Azeredo, que, na
semana passada, foi condenado a vinte anos de prisão por supostamente
arquitetar o chamado "mensalão tucano".



Em editorial publicado pelo diretor
Eurípedes Alcântara, Veja sustenta que é necessário ter "senso de
proporção". Por isso, Veja dedicou apenas uma página ao caso – ao
contrário das dezenas de capas que publicou em relação ao chamado
"mensalão petista".



Para a revista, o caso tucano foi
pequeno, quando comparado ao petista, e nem deveria ser chamado de
mensalão, uma vez que os depósitos feitos para políticos que se aliaram a
Azeredo, na disputa pelo governo de Minas, em 1998, ocorreram apenas
uma vez. Por isso, segundo Veja, nunca existiu um "mensalão tucano".



É um argumento falacioso porque,
também no caso do PT, os depósitos ocorreram uma única vez, para pagar
dívidas de campanha. Ao contrário do discurso midiático, jamais houve
mensalão (como pagamentos mensais) e o próprio criador do termo, o
ex-deputado Roberto Jefferson, disse se tratar de uma figura retórica.
Portanto, se não houve mensalão tucano, também não houve mensalão
petista.



Outro argumento furado que Veja usa
em defesa de Azeredo é o fato de sua condenação ter ocorrido em primeira
instância, cabendo, portanto, recursos. A revista não lembra que
Azeredo renunciou ao mandato de deputado federal para escapar do Supremo
Tribunal Federal e que a corte desmembrou o caso tucano, reconhecendo
implicitamente ter sido um erro julgar réus sem direito ao foro
privilegiado (como José Genoino, por exemplo) diretamente no STF.



Com sua única página dedicada ao
caso e o editorial de Eurípedes, Veja apenas comprovou o que todos
sempre souberam: a revista é um aparelho ideológico do PSDB.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Cinco lições sobre a vida e o Direito, por ministro Barroso

Cinco lições sobre a vida e o Direito, por ministro Barroso - Migalhas Quentes

 


Patrono da turma de 2014 da faculdade de Direito da UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro, o ministro Luís Roberto Barroso, do STF, proferiu emocionante discurso com reflexões essenciais relacionadas à vida e ao Direito.

Confira a íntegra do texto.
__________


A vida e o Direito: breve manual de instruções
I. Introdução
Eu
poderia gastar um longo tempo descrevendo todos os sentimentos bons que
vieram ao meu espírito ao ser escolhido patrono de uma turma
extraordinária como a de vocês. Mas nós somos – vocês e eu – militantes
da revolução da brevidade. Acreditamos na utopia de que em algum lugar
do futuro juristas falarão menos, escreverão menos e não serão tão
apaixonados pela própria voz.
Por
isso, em lugar de muitas palavras, basta que vejam o brilho dos meus
olhos e sintam a emoção genuína da minha voz. E ninguém terá dúvida da
felicidade imensa que me proporcionaram. Celebramos esta noite, nessa
despedida provisória, o pacto que unirá nossas vidas para sempre, selado
pelos valores que compartilhamos.
É
lugar comum dizer-se que a vida vem sem manual de instruções. Porém,
não resisti à tentação – mais que isso, à ilimitada pretensão – de sanar
essa omissão. Relevem a insensatez. Ela é fruto do meu afeto. Por
certo, ninguém vive a vida dos outros. Cada um descobre, ao longo do
caminho, as suas próprias verdades. Vai aqui, ainda assim, no curto
espaço de tempo que me impus, um guia breve com ideias essenciais
ligadas à vida e ao Direito.
II. A regra nº 1
No
nosso primeiro dia de aula eu lhes narrei o multicitado "caso do
arremesso de anão". Como se lembrarão, em uma localidade próxima a
Paris, uma casa noturna realizava um evento, um torneio no qual os
participantes procuravam atirar um anão, um deficiente físico de baixa
altura, à maior distância possível. O vencedor levava o grande prêmio da
noite. Compreensivelmente horrorizado com a prática, o Prefeito
Municipal interditou a atividade.

Após recursos, idas e vindas, o
Conselho de Estado francês confirmou a proibição. Na ocasião,
dizia-lhes eu, o Conselho afirmou que se aquele pobre homem abria mão de
sua dignidade humana, deixando-se arremessar como se fora um objeto e
não um sujeito de direitos, cabia ao Estado intervir para restabelecer a
sua dignidade perdida. Em meio ao assentimento geral, eu observava que a
história não havia terminado ainda.
E
em seguida, contava que o anão recorrera em todas as instâncias
possíveis, chegando até mesmo à Comissão de Direitos Humanos da ONU,
procurando reverter a proibição. Sustentava ele que não se sentia – o
trocadilho é inevitável – diminuído com aquela prática. Pelo contrário.
Pela
primeira vez em toda a sua vida ele se sentia realizado. Tinha um
emprego, amigos, ganhava salário e gorjetas, e nunca fora tão feliz. A
decisão do Conselho o obrigava a voltar para o mundo onde vivia
esquecido e invisível.
Após eu
narrar a segunda parte da história, todos nos sentíamos divididos em
relação a qual seria a solução correta. E ali, naquele primeiro
encontro, nós estabelecemos que para quem escolhia viver no mundo do
Direito esta era a regra nº 1: nunca forme uma opinião sem antes ouvir
os dois lados.
III. A regra nº 2
Nós
vivemos em um mundo complexo e plural. Como bem ilustra o nosso exemplo
anterior, cada um é feliz à sua maneira. A vida pode ser vista de
múltiplos pontos de observação. Narro-lhes uma história que li
recentemente e que considero uma boa alegoria. Dois amigos estão
sentados em um bar no Alaska, tomando uma cerveja. Começam, como
previsível, conversando sobre mulheres. Depois falam de esportes
diversos. E na medida em que a cerveja acumulava, passam a falar sobre
religião. Um deles é ateu. O outro é um homem religioso. Passam a
discutir sobre a existência de Deus. O ateu fala: "Não é que eu nunca
tenha tentado acreditar, não. Eu tentei. Ainda recentemente. Eu havia me
perdido em uma tempestade de neve em um lugar ermo, comecei a congelar,
percebi que ia morrer ali. Aí, me ajoelhei no chão e disse, bem alto:
Deus, se você existe, me tire dessa situação, salve a minha vida".
Diante de tal depoimento, o religioso disse: “Bom, mas você foi salvo,
você está aqui, deveria ter passado a acreditar". E o ateu responde:
"Nada disso! Deus não deu nem sinal. A sorte que eu tive é que vinha
passando um casal de esquimós. Eles me resgataram, me aqueceram e me
mostraram o caminho de volta. É a eles que eu devo a minha vida".
Note-se que não há aqui qualquer dúvida quanto aos fatos, apenas sobre
como interpretá-los.
Quem está
certo? Onde está a verdade? Na frase feliz da escritora Anais Nin, “nós
não vemos as coisas como elas são, nós as vemos como nós somos”. Para
viver uma vida boa, uma vida completa, cada um deve procurar o bem, o
correto e o justo. Mas sem presunção ou arrogância. Sem desconsiderar o
outro.

Aqui a nossa regra nº 2: a verdade não tem dono.
IV. A regra nº 3
Uma
vez, um sultão poderoso sonhou que havia perdido todos os dentes.
Intrigado, mandou chamar um sábio que o ajudasse a interpretar o sonho. O
sábio fez um ar sombrio e exclamou: "Uma desgraça, Majestade. Os dentes
perdidos significam que Vossa Alteza irá assistir a morte de todos os
seus parentes". Extremamente contrariado, o Sultão mandou aplicar cem
chibatadas no sábio agourento. Em seguida, mandou chamar outro sábio.
Este, ao ouvir o sonho, falou com voz excitada: "Vejo uma grande
felicidade, Majestade. Vossa Alteza irá viver mais do que todos os seus
parentes". Exultante com a revelação, o Sultão mandou pagar ao sábio cem
moedas de ouro. Um cortesão que assistira a ambas as cenas vira-se para
o segundo sábio e lhe diz: "Não consigo entender. Sua resposta foi
exatamente igual à do primeiro sábio. O outro foi castigado e você foi
premiado". Ao que o segundo sábio respondeu: "a diferença não está no
que eu falei, mas em como falei".
Pois
assim é. Na vida, não basta ter razão: é preciso saber levar. É
possível embrulhar os nossos pontos de vista em papel áspero e com
espinhos, revelando indiferença aos sentimentos alheios. Mas, sem
qualquer sacrifício do seu conteúdo, é possível, também, embalá-los em
papel suave, que revele consideração pelo outro.

Esta a nossa regra nº 3: o modo como se fala faz toda a diferença.

V. A regra nº 4Nós
vivemos tempos difíceis. É impossível esconder a sensação de que há
espaços na vida brasileira em que o mal venceu. Domínios em que não
parecem fazer sentido noções como patriotismo, idealismo ou respeito ao
próximo. Mas a história da humanidade demonstra o contrário. O processo
civilizatório segue o seu curso como um rio subterrâneo, impulsionado
pela energia positiva que vem desde o início dos tempos. Uma história
que nos trouxe de um mundo primitivo de aspereza e brutalidade à era dos
direitos humanos. É o bem que vence no final. Se não acabou bem, é
porque não chegou ao fim. O fato de acontecerem tantas coisas tristes e
erradas não nos dispensa de procurarmos agir com integridade e correção.
Estes não são valores instrumentais, mas fins em si mesmos. São
requisitos para uma vida boa. Portanto, independentemente do que estiver
acontecendo à sua volta, faça o melhor papel que puder. A virtude não
precisa de plateia, de aplauso ou de reconhecimento. A virtude é a sua
própria recompensa.
Eis a nossa regra nº 4: seja bom e correto mesmo quando ninguém estiver olhando.
VI. A regra nº 5

Em
uma de suas fábulas, Esopo conta a história de um galo que após intensa
disputa derrotou o oponente, tornando-se o rei do galinheiro. O galo
vencido, dignamente, preparou-se para deixar o terreiro. O vencedor,
vaidoso, subiu ao ponto mais alto do telhado e pôs-se a cantar aos
ventos a sua vitória. Chamou a atenção de uma águia, que arrebatou-o em
vôo rasante, pondo fim ao seu triunfo e à sua vida. E, assim, o galo
aparentemente vencido reinou discretamente, por muito tempo. A moral
dessa história, como próprio das fábulas, é bem simples: devemos ser
altivos na derrota e humildes na vitória. Humildade não significa pedir
licença para viver a própria vida, mas tão-somente abster-se de se
exibir e de ostentar. Ao lado da humildade, há outra virtude que eleva o
espírito e traz felicidade: é a gratidão. Mas atenção, a gratidão é
presa fácil do tempo: tem memória curta (Benjamin Constant) e envelhece
depressa (Aristóteles). Portanto, nessa matéria, sejam rápidos no
gatilho. Agradecer, de coração, enriquece quem oferece e quem recebe.
Em
quase todos os meus discursos de formatura, desde que a vida começou a
me oferecer este presente, eu incluo a passagem que se segue, e que é
pertinente aqui. "As coisas não caem do céu. É preciso ir buscá-las.
Correr atrás, mergulhar fundo, voar alto. Muitas vezes, será necessário
voltar ao ponto de partida e começar tudo de novo. As coisas, eu repito,
não caem do céu. Mas quando, após haverem empenhado cérebro, nervos e
coração, chegarem à vitória final, saboreiem o sucesso gota a gota. Sem
medo, sem culpa e em paz. É uma delícia. Sem esquecer, no entanto, que
ninguém é bom demais. Que ninguém é bom sozinho. E que, no fundo no
fundo, por paradoxal que pareça, as coisas caem mesmo é do céu, e é
preciso agradecer".
Esta a nossa regra nº 5: ninguém é bom demais, ninguém é bom sozinho e é preciso agradecer.
VII. Conclusão
Eis então as cláusulas do nosso pacto, nosso pequeno manual de instruções:


1. Nunca forme uma opinião sem ouvir os dois lados;
2. A verdade não tem dono;
3. O modo como se fala faz toda a diferença;
4. Seja bom e correto mesmo quando ninguém estiver olhando;

5. Ninguém é bom demais, ninguém é bom sozinho e é preciso agradecer.
Aqui
nos despedimos. Quando meu filho caçula tinha 15 anos e foi passar um
semestre em um colégio interno fora, como parte do seu aprendizado de
vida, eu dei a ele alguns conselhos. Pai gosta de dar conselho. E como
vocês são meus filhos espirituais, peço licença aos pais de vocês para
repassá-los textualmente, a cada um, com toda a energia positiva do meu
afeto:
(i) Fique vivo;
(ii) Fique inteiro;
(iii) Seja bom-caráter;
(iv) Seja educado; e
(v) Aproveite a vida, com alegria e leveza.
Vão
em paz. Sejam abençoados. Façam o mundo melhor. E lembrem-se da
advertência inspirada de Disraeli: "A vida é muito curta para ser
pequena".

Juíza lista mentiras de Azeredo em sentença sobre o mensalão tucano

Juíza lista mentiras de Azeredo em sentença sobre o mensalão tucano | Brasil 24/7









Minas 247 - A
juíza da 9ª Vara Criminal de Belo Horizonte Marisa Pinheiro Costa Lage,
que condenou o ex-governador de Minas Gerais Eduardo Azeredo (PSDB)a 20
anos e 10 meses de prisão pela sua participação em um esquema de desvio
de recursos de estatais mineiras, no que ficou conhecido como escândalo
do mensalão tucano, listou uma série de mentiras que teriam sido ditos
pelo tucano em seus depoimentos à Justiça. Segundo a juíza, ficou
comprovada "mesmo que somente após um trabalho extremamente árduo de
retirar, das entranhas do processo, o detalhe, a contradição, a
mentira". Azeredo disse ao Estadão que a magistrada não teria lido os
argumento da sua defesa e que irá recorrer da sentença.


Dentre os diversos pontos citados pela juíza, ela ressalta que
Azeredo destacou não ter conhecimento do uso de caixa 2 em sua campanha
eleitoral e que não acompanhava diretamente as atividades do seu comitê
por estar exercendo a função de governador do Estado. Segundo a
magistrada, "em todas as oportunidades que teve para se manifestar nos
autos, o acusado (Eduardo Azeredo) mentiu, objetivando, de todas as
formas, confundir o julgador e se esquivar de sua responsabilidade
penal".


Na justificativa da condenação, ela destaca que Azeredo "Mentiu sobre
as relações pessoais que possuía com os demais envolvidos, tentando
fazer parecer que eram superficiais", "Mentiu ao afirmar que não se
envolvia na campanha e de nada sabia sobre questões financeiras, o que
restou comprovado por meio das declarações e depoimentos dos
colaboradores de campanha, demonstrando, inclusive, que o acusado
realizou reuniões com lideranças políticas", pontuou.


A juíza também cita que o ex-governador tucano "mentiu ao afirmar que
Claudio Mourão (que foi o tesoureiro da campanha de Azeredo em 1998)
fora o único responsável por toda a questão financeira da campanha, o
que restou esclarecido pelas contradições no próprio interrogatório do
acusado e pelos depoimentos das testemunhas referidas anteriormente".


Na sentença, a juíza também desmonta a afirmação de Azeredo de que
não sabia detalhes sobre a contratação do publicitário Duda Mendonça.
"Mentiu sobre a contratação de Duda Mendonça, afirmando ser o único
político envolvido na campanha que não sabia dos valores que seriam
pagos a ele, o que restou comprovado pelos depoimentos/declarações de
depoimentos e de testemunhas, que o contradisseram: Clésio Soares de
Andrade (candidato a vice de Azeredo em 1998), Walfrido dos Mares Guia,
além dos documentos juntados por Marcos Valério Fernandes de Souza aos
autos", pontuou.


Em outro treco da sentença de 125 páginas, a juíza Marisa Pinheiro
Costa Lage também assegura que Azeredo teria mentido "sobre a
participação de Marcos Valérios e a SMP&B na campanha eleitoral à
reeleição de 1998, diante das declarações de Clésio Andrade, Marcos
Valério, Cláudio Mourão, Denise Landim, Leopoldo José de Oliveira, José
Vicente Fonseca e Alezandre Rogério Martins da Silva".
"Mentiu sobre
os patrocínios determinados pelo Governo do Estado às empresas estatais
Copasa, Comig e Bemge, restando claro que foi o acusado Eduardo Azeredo
quem os determinou para financiar sua campanha, diante de todas as
provas relatadas no item respectivo", relata em outro trecho do
documento.


Mais à frente, ela diz que as mentiras de Azeredo foram feitas de
maneira "despudorada". "Mentiu sobre o pagamento das dívidas de Cláudio
Mourão e Marcos Valério, sendo que, nesse caso, a mentira foi tão
despudorada que prescindível depoimento de testemunha. A análise das
próprias declarações do acusado já seria suficiente para demonstrar o
tamanho da inverdade". A referência se deve a cobrança de uma dívida de
campanha no valor de R$ 700 mil feita por Mourão em 2002. A dívida foi
paga com um cheque assinado por Marcos Valério.


"Enfim, aliados a todos os depoimentos, declarações e documentos que,
por si sós, foram capazes de demonstrar o caminho de mentiras em que se
enveredou o acusado Eduardo Azeredo, encontram-se as declarações de
Clésio Andrade, que afirmou que todas as decisões da campanha eram
tomadas por Eduardo Azeredo, Walfrido dos Mares Guia, Cláudio Mourão,
Álvaro Azeredo e João Heraldo, as quais, associadas às declarações e
depoimentos das testemunhas Nilton Monteiro, Vera Lúcia Mourão e Carlos
Henrique Martins Teixeira, são uníssonas em afirmar que o acusado tinha
conhecimento de toda trama envolvida em sua campanha eleitoral,
tornando-se essa, portanto, a única versão possível e plausível para os
fatos dos autos", afirma a magistrada.

O álbum de fotografias do golpe

O álbum de fotografias do golpe - 18/12/2015 - Vladimir Safatle - Colunistas - Folha de S.Paulo












O álbum de fotografias do golpe











Quem ainda tinha dúvidas a respeito do Brasil estar diante de um golpe
travestido de impeachment viu, nesta última semana, uma série de
acontecimentos reveladores. Eles demonstram claramente como, no vazio do
fim da Nova República, seus antigos atores procuram alguma sobrevida,
nem que seja tomando o Palácio do Planalto de assalto.





Depois de anos operando nas sombras, o vice-presidente conspirador
resolveu transformar seu partido-ônibus, ou seja, esse mesmo partido em
que apertando sempre cabia mais um, em uma máquina monofônica organizada
para garantir que ele será, enfim, alçado à Presidência da República
nos próximos meses. Como o sr. Temer sabe que esta é a única e última
oportunidade da sua vida para sair das sombras em que o destino lhe
colocou, ele resolveu deixar às claras sua aliança com o sr. Cunha.
Vimos então, nesta semana, movimentos inacreditáveis para um partido
acostumado à inércia: seu líder da Câmara "moderado" foi deposto, suas
portas foram fechadas para o ingresso de políticos mais alinhados ao
governo que ele quer derrubar. O próximo passo será, ao que tudo indica,
selar a ruptura em janeiro.





Então, como que por acaso, logo depois de descobrirmos que o sr.
Delcídio do Amaral operou fartamente esquemas de corrupção quando
participava da Petrobras no governo FHC, o PSDB, liderado pelo próprio
ex-presidente em seu momento Carlos Lacerda, declarou estar unido para o
golpe. Não, desculpe-me, na verdade não se trata de um golpe, mas de um
impeachment motivado principalmente pela indignação contra a corrupção
que assola este país na última década. De fato, ninguém melhor para
liderar tal indignação do que o partido de Geraldo Alstom Alckmin, de
Marconi Carlos Cachoeira Perillo, partido já comandado por pessoas do
quilate de Eduardo Azeredo, recém condenado a 20 anos de prisão por
idealizar o mensalão. Mensalão que, segundo o próprio Azeredo em
entrevista para esta Folha em 2007, abasteceu as contas de campanha...
De quem? Sim, dele mesmo, do líder da indignação moral nacional: o sr.
Fernando Henrique Cardoso.





Mas, como se diz nos dias que correm, o impeachment é um instrumento que
precisa do povo na rua. E lá se foi o povo manifestar no domingo para
dar a consagração final à moralização nacional. Lá estava também o
trânsfuga do último "Toy Story", o Superpato da Fiesp e de seu
presidente vitalício, que não deixou de anunciar a esperada adesão dos
empresários paulistas, ou do que restou deles, ao golpe. Só que, vejam
só vocês, a manifestação pró-golpe foi menor do que a manifestação
daqueles que a ele se opõem, realizada na última quarta-feira (16). Ou
seja, o argumento do "clamor das ruas" não vai muito longe, será
necessário inventar outro. Nada estranho, já que julgar o governo Dilma
uma das maiores catástrofes da história recente do país não implica,
necessariamente, achar que tudo se ajeitará se tirarmos a personagem da
linha de frente para conservar e aclamar os velhos operadores de sempre.





Para terminar, no mesmo dia em que o STF decidiu conservar o sr. Cunha à
frente do processo de impeachment, a Procuradoria Geral da República
pediu seu afastamento do cargo de deputado por tentar, como nos bons
tempos de gângsteres, intimidar e constranger testemunhas no caso
Petrobras.





É certo que este álbum de fotografias inacreditável de um golpe primário
mostra muito mais do que a inanidade da oposição e a inépcia do
governo. Ele mostra que as saídas para a crise não estão dadas nos
marcos postos pela crise atual. Se o governo conseguir sobreviver a este
golpe, será difícil imaginar o que restará depois. Este é um governo
sem rumo, governo de uma "conciliação" que nunca houve, vítima de suas
próprias escolhas. Ele continuará sem rumo e sitiado. Se, por sua vez, a
oposição der o golpe, este será só o começo de uma das mais profundas
crises institucionais e sociais que o país conhecerá. No poder, estará a
mais crassa casta oligárquica à frente de um governo ilegítimo, com
poderes policiais e repressivos reforçados.





O que se coloca a nós é a tarefa enorme de pensar saídas a partir do
reconhecimento da verdadeira extensão dos problemas e do esgotamento das
práticas de governo da nossa república.





Como costumamos dizer em psicanálise, a primeira condição para sair do problema é reconhecer seu verdadeiro tamanho.



quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Voto desconcertante de Fachin frustra o Planalto

Voto desconcertante de Fachin frustra o Planalto













Quando
pensamos que a crise política chegou atingiu seu clímax, ela consegue se
agravar mais. Agora, ela vai mesmo testar os limites da democracia
brasileira. A quarta-feira foi boa para oposição, que pode ter o
processo de impeachment legitimado e ainda se livrar de Eduardo Cunha.
Foi ruim para o governo, que perdeu toda as apostas jurídicas no STF. E
foi péssima para o Brasil, que sofreu mais um rebaixamento de rating  e tem um ministro da Fazenda que parece estar no cargo apenas para não piorar as coisas.



O voto proferido pelo ministro Luiz
Fachin sobre as regras do processo de impeachment deixou a oposição
eufórica e os governistas perplexos. Afinal, se o ministro achava que
estava tudo certo no rito imposto por Eduardo Cunha, nem precisava ter
concedido a liminar que suspendeu a instalação da comissão especial. Só
há uma explicação, como disse o cientista político Fernando Abrucio,
para seu voto desconcertante em algumas questões: “acredito que no fundo
a preocupação dele foi reduzir a ingerência do Supremo para garantir a
independência entre os poderes”. 



A convalidação da votação secreta
para a escolha dos integrantes da comissão especial foi o que mais
chocou os políticos, especialmente os senadores, como disse ao 247 o
senador Otto Alencar (PSD-BA):  “O ministro Luiz Edson Fachin, no caso
da votação do Senado para relaxar ou manter a prisão do senador Delcídio
do Amaral,  decidiu por votação aberta. Agora, ao manifestar o seu
voto, na ação que questiona as regras para processar a presidente Dilma
Rousseff, decidiu pela votação secreta. No meu ponto de vista são
situações praticamente idênticas mas as decisões foram diferentes”.



Pode mesmo o ministro ter adotado
posições distintas e contraditórias, neste caso,  movido pela
preocupação com os limites do sistema. Mas, se antes de o
procurador-geral Rodrigo Janot pedir o afastamento de Eduardo Cunha do
mandato de deputado federal e da presidência da Câmara, eram fortes as
previsões de que a maioria dos ministros seguiria o voto do relator,  a
nova variável pode influenciar hoje a continuidade do julgamento, pelo
menos em alguns pontos relacionados com os procedimentos ditados por
Cunha.



Ainda esta semana, segundo fontes do
STF, o plenário do tribunal examinará o pedido de Janot, sobre o qual o
ministro Teori, relator da Lava Jato, não decidirá sozinho. O caso é
grave demais e cria um precedente nunca havido de intervenção do
Judiciário no Legislativo, apesar da força dos argumentos apresentados
por Janot em seu pedido de medida cautelar ao STF.



E hoje, os mesmos ministros que em
breve vão decidir pelo afastamento ou não de Cunha, que representaria um
perigo para a ordem pública e as investigações em curso, dirão se
consideram corretas, como Fachin, todas as  medidas ditada por ele no
processo de impeachment. Mais objetivamente, como sancionar os ritos de
Cunha e depois afastá-lo da Câmara por abuso do mandato e do cargo em
interesse próprio, ao ponto de acolher o pedido de impeachment em
retaliação ao PT por ter anunciado que votaria contra ele no Conselho de
Ética?  Por mais cartesianos que sejam, os ministros do STF têm pela
frente este dilema. Se ele não é jurídico, é pelo menos moral.



Ao decidirem sobre Eduardo Cunha, os
ministros pensarão na independência entre os poderes mas vão se lembrar
também de que, caso o TSE venha a cassar a chapa Dilma-Temer, uma
possibilidade que também existe, o sucessor será justamente Eduardo
Cunha, se continuar sendo presidente da Câmara. Esta não é uma
consideração jurídica mas deve ser política e moral.



Ao final da longa quarta-feira em
que aconteceu tudo isso - o novo rebaixamento do Brasil (após mais uma
trapalhada orçamentária do Governo), o voto desconcertante de Fachin e o
tardio pedido de afastamento de Eduardo Cunha por Janot – o presidente
do Senado Renan Calheiros informou que haverá recesso sim. Alegou que é
preciso “baixar a temperatura política”, embora alguns tenham visto
nisso uma primeira reação à Operação Catilinária da Lava Jato, que o
poupou mas atingiu seu entorno.  O Governo não consegue poupar nem Lula
mas os peemedebista estão sempre achando ou fingindo achar que são
perseguidos por ordem palaciana. Como se o Planalto tivesse algum poder
sobre a República dos juízes, procuradores e delegados de Curitiba, que
de fato regem a dinâmica da crise. Fato é que haverá haverá recesso e
isso significa que tudo ficará para fevereiro. O Congresso fechará as
postas, o STF também e ficaremos todos entregues às reações do mercado a
este  nó político que não se desata.  Termino com a mesma previsão de
ontem. Vem aí o verão da incerteza. E não só o verão pois nada indica um
desfecho antes de março/abril.