sábado, 17 de março de 2018

A quem servem as mega fundações?



Ford, Soros, Gates: A quem servem as mega fundações? A professora Joan Roelofs dá algumas pistas

Do blog Viomundo 

17 de março de 2018 às 02h18



por Luiz Carlos Azenha

A resposta curta à pergunta do título, não atribuível à entrevistada, é: aos próprios bilionários.
Nos Estados Unidos, quem cria uma fundação pode deduzir do imposto de renda de 20 a 30% do valor que transferiu a ela, dependendo se for cash ou títulos.
Se você criar uma fundação e doar U$ 1 milhão a ela, pode deduzir ao menos U$ 200 mil do seu imposto a pagar.
Mas, tem mais: a lei obriga a fundação a aplicar apenas 5% de seus bens líquidos do ano anterior em grants, doações, no ano seguinte.
Ou seja, 95% você pode administrar como bem quiser, direta ou indiretamente. Desde que você não tire proveito do dinheiro pessoalmente, tudo bem.
O que permite a você construir duas fortunas, paralelas: uma, pessoal; outra, que você pode usar indiretamente para turbinar sua fortuna pessoal. Ou a de seus filhos, netos e bisnetos.
Como? Comprando poder.
Há milhares de beneficiários das doações, sem qualquer dúvida. Mas, será que é mudança na qual se pode acreditar?, para repetir o candidato que deixou tudo como estava?
Nos Estados Unidos, a maior de todas as fundações é a Bill & Melinda Gates. Uma das mais antigas e influentes é a dos irmãos Rockefeller. Grande e influente é a dos herdeiros de Henry Ford. Dentre as mais agressivas está a do megainvestidor George Soros. Até Leona Helmsley, que já foi presa por sonegar impostos, tem no nome dela e do marido uma fundação filantrópica, com bens superiores a U$ 5 bi.
A soma dos bens só das mais importantes supera os U$ 200 bilhões, mais que o PIB de muitos paises.
Nos Estados Unidos existe um debate incipiente sobre o papel das fundações. Incipiente por falta de conhecimento, de transparência e de interesse.
Fora de lá, houve alguma polêmica depois que o Fórum Social Mundial de Porto Alegre foi financiado em parte pela Fundação Ford. Deveria ser o alter ego da reunião dos capitalistas em Davos, na Suiça.
Depois de quatro edições em Porto Alegre, o financiamento da Fundação foi rejeitado quando o Fórum teve sua primeira edição fora do Brasil, em Mumbai, na Índia.
Numa “confissão involuntária”, a então diretora de governança e sociedade civil da Fundação Ford à época, Lisa Jordan, resumiu em entrevista: “Já podemos ver algumas diferenças em relação a foruns anteriores. Por exemplo, podemos ver maior colaboração de grupos da esquerda comunista da Índia no fórum de Mumbai — o que não era necessariamente uma parte importante do Fórum Social Mundial em sua manifestação brasileira”.
Sobre a rejeição do Fórum ao financiamento da Fundação Ford, ela acrescentou: “Não estamos apoiando o fórum deste ano porque o Comitê Organizador Indiano, que representa uma tentativa ampla de juntar uma grande parte da sociedade local, inclui alguns grupos que se opõem às atividades da [Fundação] Ford na Índia desde 1953 — especialmente o apoio à Revolução Verde nos anos 60 e 70. Eles acreditam que as contribuições feitas pela Fundação Ford evitaram que a Índia passasse por uma revolução comunista”.
Trata-se de uma generalização barata: as críticas à Revolução Verde são muito mais profundas e embasadas do que isso. Ou talvez a entrevistada tenha dito isso por acreditar que a tarefa da FF fosse mesmo evitar uma revolução na Índia. Não é o ponto.
O mais importante é que ela deu a entrevista a um site que se chama Open Democracy, free trinking for the world, ou Democracia aberta, pensamento livre para o mundo, cuja lista de doadores… inclui a própria Fundação Ford, para não falar das Open Society Foundations, do megainvestidor George Soros, que segundo sua própria fundação doou mais de U$ 32 bilhões desde 1979 para financiar “uma sociedade civil vibrante”.
Isso dá uma ideia de como é difícil desfazer este emaranhado de interesses cruzados.
Travar o debate está se tornando difícil, uma vez que as grandes fundações dos Estados Unidos estão investindo cada vez mais na mídia — inclusive a identificada com a esquerda — e especialmente nos veículos sem financiamento, que tendem a se tornar dependentes das doações — e da renovação das doações.

Um estudo do American Press Institute, relativo a 2015, mostrou que as fundações estão doando como nunca a veículos de comunicação.
O mesmo estudo capturou a dependência da mídia não comercial dos Estados Unidos em relação às fundações: quase 40% dos meios pesquisados tinham nos grants mais de 50 por cento de seu orçamento total!
Nossa série de reportagens a respeito começa com uma entrevista com a autora de um dos livros seminais sobre o assunto, publicado nos Estados Unidos, Fundações e Política Pública: Joan Roelofs.
Ela é professora de Ciência Política do Keene State College, de New Hampshire, e nos respondeu por e-mail. A tradução é nossa, assim como a edição, para facilitar a clareza.
Viomundo: Há muitas fundações hoje em dia, conservadoras e liberais, mesmo de esquerda. Por que a máscara do pluralismo no subtítulo do livro?
Joan Roelofs: Eu estava me referindo à teoria pluralista, segundo a qual diferentes grupos de interesse competem uns com os outros para definir as políticas públicas [um conceito utilizado nos Estados Unidos]. Argumento que todos os grandes grupos de interesse são financiados pelas fundações, o que falsifica a ideia de pluralismo e mascara a real competição. Há limites impostos pelo financiamento (e outros processos relacionados às fundações, como networking, workshops, assistência técnica e a própria formulação do pedido de financiamento). Organizações financiadas não podem provocar grandes rupturas no poder e na riqueza, ou no capitalismo imperialista. Mesmo as ongs de esquerda, como o Institute for Policy Studies, e um dos grandes institutos trabalhistas, o Economic Policy Institute, são financiados pela fundações liberais, dentre as quais a Ford e a Open Society [de George Soros].
Viomundo: O financiamento amplifica a influência das fundações muito além da elite?
Joan: Meu livro é sobre isso. Elas se envolvem com o maior número possível de movimentos e organizações. Estes não podem sobreviver ou fazer o que querem, como levar casos à Suprema Corte, por exemplo, só com o dinheiro dos associados. Os institutos financiados pelas fundações fornecem os especialistas que falam na TV e material para artigos de opinião. As fundações têm grande influência nas faculdades e universidades. Elas cooptam liberais de classe média e gente talentosa entre os mais pobres para receberem doações a título de formação de lideranças. Está tudo no meu livro.
Viomundo: A senhora menciona ideias de alguém considerado um dos grandes estrategistas dos Estados Unidos, Zbigniew Brzezinski. O que ele dizia sobre espalhar a influência norte-americana?
Joan: Ele defendia o uso do soft power como forma de derrotar o comunismo. Faça a elite se envolver com as tecnologias da informação e torne as massas fascinadas pela cultura dos Estados Unidos. Operações clandestinas e abertas (com grande participação das fundações) foram utilizadas para levar adiante este plano.
Viomundo: A Fundação Rockefeller tem uma longa relação com o Brasil. Começou com doações ligadas à saúde pública e hoje o dinheiro continua chegando, por exemplo, no campo do chamado desenvolvimento sustentável. Por que eles investiriam dinheiro aqui?
Joan: Existe um ótimo livro sobre os Rockefellers e a América Latina, Thy Will Be Done, de Colby e Dennett. Se você quer explorar os recursos ou mesmo apenas fazer negócios, você não quer que seus trabalhadores locais ou seus gerentes norte-americanos fiquem doentes. Você precisa de água limpa. Você precisa que os recursos naturais sigam jorrando. Se o seu negócio é em turismo internacional, por exemplo, você quer que as pessoas se sintam limpas e seguras em suas férias no Exterior.
Viomundo: A Fundação Ford se define hoje, no Brasil, como defensora da justiça racial, para fazer avançar a democracia e a igualdade. “Nós apoiamos a emergência e o crescimento de poderosas novas vozes e narrativas, tanto no campo quanto na cidade, e trabalhamos para conectá-las com outros líderes da justiça, movimentos e instituições-chave”, diz um texto sobre objetivos da FF. Não é disso que precisamos no Brasil?
Joan: Sim, mas é que direitos civis, lideranças e networking não bastam. Pode ser que o sistema econômico esteja bloqueando o progresso real em todo o mundo (inclusive nas nações desenvolvidas). Escrevi um artigo recente sobre direitos humanos como substituto do socialismo. James Petras tem escrito muito sobre a cooptação da esquerda na América Latina. A NACLA (North American Congress on Latin America), que já foi radical, a certa altura recebeu dinheiro da Fundação Ford e mudou o discurso sobre as barreiras à justiça social na América Latina.
Viomundo: A Ford e a Open Society (Soros) dão muito dinheiro para organizações de mídia, inclusive da nova mídia, algumas das quais identificadas com a esquerda. Por que os bilionários se preocupariam com isso?
Joan: Essas organizações de mídia se dizem realmente independentes, em contraste com as antigas, “ruins”, financiadas por governos ou partidos políticos. Naturalmente, existe poder em ter dinheiro no que é supostamente “alternativo” e que é lido por gente de esquerda, dentre outros.
Viomundo: Hoje, as fundações investem até em parcerias com grandes veículos de mídia, nos Estados Unidos. É dito que sem qualquer tipo de controle. Se as fundações não controlam o conteúdo, por que não aceitar o dinheiro?
Joan: Por que quem aceita o dinheiro normalmente se autocensura. Não quer ofender o patrocinador.
Viomundo: A Open Society está preocupada, pelo menos aparentemente, em fazer avançar a democracia na América do Sul. Junto com a Fundação Ford e outras, traçou inclusive cenários da América Latina para os próximos 15 anos. Com gente de esquerda no meio. Como você vê essas iniciativas de George Soros?
Joan: As organizações dele, junto com as operações clandestinas, tem sido poderosas para provocar mudanças. Por exemplo, na Hungria, com a transformação das universidades e a criação do partido Fidesz, ou com a derrubada de Milosevic [na extinta Iugoslávia]. Roger Cohen escreveu a respeito. Está no meu livro. Alguém deveria escrever um livro sobre tudo o que aconteceu nas revoluções coloridas [no entorno da extinta União Soviética] e sobre quem estava envolvido nelas.
Viomundo: Por que quase não existe debate sobre as fundações? Por que elas parecem ser neutras?
Joan: Elas não gostam de críticas públicas e tem poder suficiente para marginalizá-las. Eu fui chamada de teórica da conspiração por tentar jogar luz nas fundações. A maioria dos acadêmicos e repórteres evita morder a mão que os alimenta. As fundações se dizem apartidárias, o que é verdade. Eles não favorecem a este ou aquele partido nos Estados Unidos. Mas isso não significa que sejam objetivas e neutras. São fachadas para o poder da elite. Sua origem, financiamento, investimentos e filosofias estão profundamente ligadas às corporações bilionárias. Alguns de seus empregados, inclusive presidentes, refletem “diversidade” e elas podem promover grandes mudanças sociais desde que sua riqueza, poder e domínio internacional não sejam afetados. As fundações foram importantes em acabar com o apartheid oficial nos Estados Unidos — e na África do Sul — mas nos dois casos o capitalismo não pode ser tocado.
Viomundo: As fundações distorcem a democracia?
Joan: A riqueza distorce a democracia e as fundações são apenas uma parte dela. O trabalho delas com intervenções internacionais clandestinas certamente não ajuda a democracia. Além disso, a parte a descoberto — apoio a grupos de interesse ou a ongs para representar as pessoas — não promove a democracia. O sistema das fundações apoia e reforça o sistema das ongs e algumas fundações inclusive criaram ongs. Essas organizações são de elite, se comparadas à cidadania em geral, desorganizada. As fundações não podem legalmente financiar partidos políticos ou movimentos políticos de massa. A democracia deveria requerer que todas as pessoas fossem integradas a algum braço de uma organização local, de uma entidade política poderosa. Talvez já nem seja possível nos dias de hoje, com as grandes populações, extremo individualismo e a cultura da celebridade; e muitos gadgets, hobbies e jogos.
Viomundo: Então, as fundações podem ser uma força por mudança?
Joan: Alguma mudança, sim. Mas, elas previnem contra mudanças mais radicais, que poderiam ser mais eficazes na promoção da justiça e da paz?
Na Europa Oriental, nas repúblicas da extinta União Soviética, na Índia, dentre outros lugares, as fundações encorajam o nacionalismo e mesmo tradições religiosas locais, como forma de atacar o internacionalismo e as ideias do ‘trabalhadores do mundo, uni-vos’.
Nos Estados Unidos, trabalham contra o chamado ‘extremismo anticapitalista’. Elas não encorajam os grupos da supremacia branca ou fanáticos religiosos fundamentalistas, mas foram incapazes de evitá-los.
Um sistema baseado na disputa entre grupos de interesse, que foi estimulado pelas fundações, resulta em maior polarização do que ocorreria, se tivessemos movimentos políticos mais generalizados.
Reflito que os Estados Unidos tem o mais amplo e elaborado terceiro setor do mundo — fundações, entidades sem fins lucrativos, think tanks, mesmo organizações de base (reais, não de mentirinha). Ainda assim, o padrão de vida está em declínio, a infraestrutura cai aos pedaços, o meio ambiente está sendo devastado, os números da pobreza são enormes, a incidência de violência é sem precedentes (não apenas se comparada a países desenvolvidos). Todo mundo deveria ler o relatório How Effective Are International Human Rights Treaties? [Quão eficazes são os tratados de direitos humanos internacionais?] Enquanto isso, a agressão e a intervenção dos Estados Unidos em muitas nações não dá sinais de parar. E todas estas, aliás, não são questões que as fundações estão dispostas a descrever como “problemas”.

sexta-feira, 16 de março de 2018

O que nos diferencia das bestas?



“Tava chorando a defensora de bandido”: O que nos diferencia das bestas?

”Tava chorando a defensora de bandido, Sakamoto?” Voltando do protesto por conta da execução de Marielle Franco, que passou pela avenida Paulista, na noite desta quinta (15), ouvi a frase dita pela voz de um rapaz, acompanhada de risos de outros, provavelmente seus amigos. Dessa vez não me dignei a olhar para trás e fazer alguma brincadeira, como sempre. Apenas respirei fundo, muito fundo, e segui meu caminho, pensando na tristeza que é ter orgulho da própria ignorância.

por Leonardo Sakamoto no Blog

Já havia me deparado com centenas de comentários ao longo do dia que celebraram o assassinato de Marielle – liderança feminista, do movimento negro e da comunidade da Maré, no Rio de Janeiro, e quinta vereadora mais votada da capital carioca – e de seu motorista Anderson Gomes. Boa parte deles repetia exaustivamente abominações típicas de quem não faz ideia do que seja esse pacote mínimo de garantias para nossa dignidade.
Alguns dos leitores, aliás, acham que direitos humanos é o nome de um grupo de pessoas. Escreveram que ”com a morte dessa mulher, vai ter menos direitos humanos por aí” ou algo semelhante.
Parte desses jovens acha que está sendo subversiva e revolucionária, pois luta contra a ”ditadura dos direitos humanos”. Essa ditadura, claro, é uma ficção. Pois se eles fossem minimamente respeitados não teríamos essa taxa pornográfica de homicídios, mulheres sendo estupradas, negros ganhando menos do que brancos e pessoas morrendo por amar alguém do mesmo sexo. Não teríamos pessoas sendo executadas por defender a qualidade de vida de outras, inclusive daquelas que querem o seu mal.
Achei que valia a pena retomar trechos de um texto que eu havia escrito, em dezembro passado, para ilustrar a situação:
Direitos humanos dizem respeito à garantia de não ser assaltado e morto, de professar a religião que quiser, de abrir um negócio, de ter uma moradia, de não morrer de fome, de poder votar e ser votado, de não ser escravizado, de poder pensar e falar livremente, de não ser preso e morto arbitrariamente pelo Estado, de não ser molestado por sua orientação sexual, identidade, origem ou cor de pele.
Mas devido à deformação provocada por políticos escandalosos, líderes espirituais duvidosos e formadores de opinião ruidosos, a população acha que direitos humanos dizem respeito apenas a ”direito de bandido”, esquecendo que o mínimo de dignidade e liberdade do qual desfrutam estão neles previstos.
O mundo, ainda em choque com os horrores da Segunda Guerra Mundial, produziu a Declaração Universal dos Direitos Humanos para tentar evitar que esses horrores se repetissem. De certa forma, com o mesmo objetivo, o Brasil, ainda olhando para as feridas de 21 anos de ditadura militar, sentou-se para escrever a Constituição Federal de 1988 – que não é um documento perfeito, longe disso. Mas, com todos seus defeitos, ousa proteger a dignidade e a liberdade de uma forma que se hoje sentássemos para formula-lo, não conseguiríamos.
É depois de grandes momentos de dor que estamos mais abertos para olhar o futuro e desejar que o sofrimento igual nunca mais se repita. Desde então, não vivemos uma guerra como aquela entre 1939 e 1945, muito menos um período de exceção quanto 1964 e 1985. Acabamos nos acostumando. E esquecendo. E banalizando.
Minha geração herdou esses textos – um de nossos avós e outro de nossos pais. Agora, precisamos ensinar à geração de nossos filhos sua própria história sob o risco de que o espírito presente em 1948 e 1988 se perca por desconhecimento. O problema é que parte da geração que ajudou a escrever a Declaração Universal bem como a Constituição de 1988 se esqueceu por completo dos debates que levaram até elas, em nome do poder.
O mundo está em convulsão, com guerras, ataques terroristas, crises migratórias, catástrofes ambientais. O Brasil passa por um período sombrio, com um Palácio do Planalto castrador de direitos, o pior Congresso Nacional de todos os tempos (que está aprovando leis que retiram, à luz do dia, direitos de trabalhadores, mulheres, populações tradicionais, minorias) e um Poder Judiciário que, por vezes, faz política ao invés de resguardar a Justiça.
Contudo, é exatamente nestes momentos que precisamos nos lembrar da caminhada que nos trouxe até aqui. Para ter a clareza de que, mais importante do que reinventar todas as regras, é tirar do papel, pela primeira vez, a sociedade que um dia imaginamos frente aos horrores da guerra ou da ditadura. O que só se fará com muito diálogo e a garantia desse quinhão mínimo de dignidade que todos têm direito por nascerem humanos.
Só assim frases como as que podem ser lidas abaixo deixarão a boca das pessoas para cair no esquecimento. Frases que, não raro, nós falamos sem perceber, guiados pela nossa ignorância, medos e preconceitos. Até que sejamos devidamente educados para o contrário.
– Amor, fecha rápido o vidro que tá vindo um ”escurinho” mal encarado. – Aquilo são ciganos? Vai, atravessa a rua para não dar de cara com eles! – Não sou preconceituoso. Eu tenho amigos gays. – Tá vendo? É por isso que um tipo como esse continua sendo lixeiro. – Por favor, subscreva o abaixo-assinado. É para tirar esse terreiro de macumba de nossa rua. – Bandido bom é bandido morto. – Tinha que ser preto mesmo! – Vestida assim na balada, tava pedindo. – Por que o governo não impede essas mulheres da periferia de ter tantos filhos assim? Depois, não consegue criar e vira tudo marginal. – Mulher no volante, perigo constante. – Sabe quando favelado toma laranjada? Quando rola briga na feira. – Os sem-teto são todos vagabundos que querem roubar o que os outros conquistaram com muito suor. – A política de cotas raciais é um preconceito às avessas. Ela só serve para gerar racismo onde não existe. – Ai, o Alberto, da Contabilidade, tem Aids. Um absurdo a empresa expor a gente a esse risco. – Esse aeroporto já foi melhor. Hoje, tem cara de rodoviária. – Por mim, tinha que matar mulher que aborta. Por que a vida do feto vale menos que a da mãe? – Os índios são pessoas indolentes. Erram os antropólogos ao mantê-los naquele estado de selvageria. – Criança que roubou não é criança. É ladrão e tem que ir para cadeia. – 

Tortura é método válido de interrogatório. – Um mendigo! Vamos botar fogo nas roupas dele. Assim ele aprender a trabalhar. – Pena de morte já. – Eutanásia? Pecado. A vida pertence a Deus, não a você. – Temos que tirar essas regalias trabalhistas. O Brasil não aguenta crescer com tantos custos engessando o desenvolvimento.
Por fim,  gostaria de dar parabéns a todos que veem tudo isso acontecer ao seu redor, mas preferem ficar na ignorância quentinha de sua bolha na rede social porque pensam que o mundo lá fora é a barbárie. Afinal, a ignorância coletiva precisa, para se reproduzir, do silêncio dos que têm consciência, mas não falam.
E o silêncio é sentença de morte dos direitos humanos.

quinta-feira, 15 de março de 2018

Governo e Globo tentam higienizar assassinato político de Marielle Franco


Governo e Globo tentam higienizar assassinato político de Marielle Franco

Os algozes da vereadora não fizeram a mínima questão de esconder o que fizeram. Foi um recado, contando com a impunidade. Não simularam assalto, nada. Quem tenta ocultar sua responsabilidade é o governo e a Rede Globo. Impossível. Estão todos com as mãos sujas do sangue de Marielle Franco

Marielle Franco homenagem ALERJ
Milhares foram às ruas do Rio de Janeiro prestar homenagem a Marielle Franco (Imagem: Mídia Ninja)

Kiko Nogueira, DCM
 
Foi posta em movimento a roda para tentar triturar o caráter político da morte de Marielle Franco e diluí-la.
Na GloboNews, a notícia sobre o assassinato vem acompanhada de outros casos de violência, como se fosse tudo parte da “crise de segurança pública” no Rio. O jornal da família nem sequer deu capa para Marielle.
Não à toa, o ministro da Justiça e Michel Temer fazem força para emplacar essa narrativa. “Essas quadrilhas organizadas, essas organizações criminosas não matarão nosso futuro”, diz Michel. Que organizações, Michel? A PM? As milícias?
Torquato Jardim vai na mesma toada. “Foi uma tragédia. Mais uma tragédia diária do Rio de Janeiro. Lamentável”, falou após sua participação em um painel sobre corrupção no Fórum Econômico Mundial, em São Paulo.
“É preciso conhecer bem as razões e ir atrás dos responsáveis”, prosseguiu, acaciano. “Isso não põe em xeque a eficácia da intervenção federal”. Ora. O que põe em xeque, então?
A linha da investigação aponta para o óbvio: execução. Os bandidos sabiam o assento que ela ocupava no carro e a atingiram com nove tiros, quatro deles na cabeça.
O motorista, Anderson Pedro Gomes, também morreu. Marielle, quinta vereadora mais votada em 2016, se definia como “cria da Maré” e tinha orgulho de ser negra e favelada.
Três dias antes, denunciou policiais que agiam em Acari. O batalhão estava “aterrorizando e violentando moradores”.
Seus algozes não fizeram questão nenhum de esconder o que fizeram. Foi um recado, contando com a impunidade. Não simularam assalto, nada.
Quem tenta ocultar sua responsabilidade é o governo e seus comparsas na mídia.
Impossível. Estão todos com as mãos sujas do sangue de Marielle Franco.

“Luto pelo Brasil”: Nação indignada reage ao bárbaro crime do Rio - blog do kotscho



“Luto pelo Brasil”: Nação indignada reage ao bárbaro crime do Rio



“Luto pelo Brasil” é uma das tantas criações imortais de Carlito Maia usada para exprimir o que sentia diante das barbaridades que aconteciam no Brasil, muitos anos atrás.
Carlito não está mais entre nós para dizer o que significa o bárbaro assassinato da vereadora Marielle Franco e do seu motorista, Anderson Pedro Gomes, na noite de quarta-feira, em meio à Guerra do Rio.
Agora há pouco, no começo da tarde desta quinta, na chegada dos corpos de Marielle e Anderson à Câmara Municipal do Rio de Janeiro, milhares de cariocas choravam e gritavam palavras de protesto nas ruas, outros aplaudiam e todos ficaram emocionados diante da cena.
Em Brasília, as sessões do Congresso Nacional foram suspensas à tarde diante dos protestos de parlamentares da oposição.
Há muito tempo não se via uma reação tão forte como essa diante da brutal execução de quem denunciava a violência policial e o motorista que a conduzia no Estácio, quando o carro foi alvejado por nove tiros.
Em poucas horas do dia, tudo mudou. Ainda de manhã cedo, quando escrevi a coluna sobre o “novo normal” dos fatos consumados (ver post anterior) , não poderia imaginar que a revolta externada nas redes sociais transbordasse tão rápido para as ruas.
Os combates da Guerra do Rio ameaçavam ultrapassar todos os limites de humanidade.
Desde cedo, milhares de pessoas começaram a chegar à Cinelândia para pedir justiça, aos gritos de “Marielle vive! Presente!”.
Com tropas militares e milícias combatendo nas ruas do Rio e policiais municipais e estaduais agredindo professores em São Paulo, voltamos a ver esta semana cenas que lembram os dias trágicos que antecederam o golpe de 1964 e o golpe dentro do golpe de 1968.
O que falta ainda? Bem a propósito, Frei Betto lembrou do assassinato do estudante Edson Luis, no Calabouço, em 28 de março de 1968, que mobilizou a população carioca em grandes manifestações. Diz ele:
“Agora, o crime organizado escancara suas impressões digitais e proclama que é o dono do pedaço carioca. Não pretenda a intervenção militar extirpar o conluio entre a banda podre da polícia e o narcotráfico, nem defender os direitos humanos dos moradores das favelas. Este o recado dado”.
A vereadora Marielle Franco, do PSOL, cometia o crime de defender os direitos humanos e era relatora da comissão nomeada pela Câmara Municipal para acompanhar a intervenção federal na segurança. Há vários dias ela vinha denunciando a violência praticada contra a população mais pobre da zona norte.
“A quem ela tanto incomodava?”, pergunta Bernardete Diniz em mensagem enviada à comunidade orante da qual Betto e fazemos parte, e ela mesma responde: “Um tanto nós já sabemos (a lição sabemos de cor, só nos resta aprender): mulher, negra, pobre, criada na favela, empoderada e lutando pelo empoderamento de outras. Acho que só não tínhamos a noção de quanto isso incomodava. Sem palavras, nesse dia de tanta tristeza, um abraço a todos”.
Em meio à comoção provocada pela execução de Marielle e Anderson, o ministro da Justiça, Torquato Jardim, falou em nome do governo: “Mais uma tragédia diária no Rio de Janeiro não põe em xeque a eficácia da intervenção federal. Lamentável”.
Eficácia? Lamentável é ter um ministro da Justiça incapaz de ver a dimensão do que aconteceu.
Não, não foi apenas mais uma tragédia diária do Rio de Janeiro, como tantas outras, um crime de rotina nos boletins de ocorrência, mas a gota d´água que entornou o copo.
Parafraseando Sérgio Cabral, o grande causador da tragédia carioca, desta vez exageraram.
Tudo tem que ter um limite. Estamos perigosamente chegando a ele.

terça-feira, 13 de março de 2018

“As pessoas já não acreditam nos fatos”

Noam Chomsky: “As pessoas já não acreditam nos fatos”

Prestes a fazer 90 anos, acaba de abandonar o MIT. Ali revolucionou a linguística moderna e se transformou na consciência crítica dos EUA


Noam Chomsky (Filadélfia, 1928) superou faz tempo as barreiras da vaidade. Não fala de sua vida privada, não usa celular e em um tempo onde abunda o líquido e até o gasoso, ele representa o sólido. Foi detido por opor-se à Guerra do Vietnã, figurou na lista negra de Richard Nixon, apoiou a publicação dos Papéis do Pentágono e denunciou a guerra suja de Ronald Reagan. Ao longo de 60 anos, não há luta que ele não tenha travado. Defende tanto a causa curda como o combate à mudança climática. Tanto aparece em uma manifestação do Occupy Movement como apoia os imigrantes sem documentos.
Mergulhado na agitação permanente, o jovem que nos anos cinquenta deslumbrou o mundo com a gramática gerativa e seus universais, longe de descansar sobre as glórias do filósofo, optou pelo movimento contínuo. Não se importou com que o acusassem de antiamericano ou extremista. Sempre seguiu em frente com valentia, enfrentando os demônios do capitalismo − sejam os grandes bancos, os conglomerados militares ou Donald Trump. À prova de fogo, sua última obra volta a confirmar sua tenacidade. Em Réquiem para o sonho americano (editora Bertrand Brasil), ele põe no papel as teses expostas no documentário homônimo e denuncia a obscena concentração de riquezae poder que exibem as democracias ocidentais. O resultado são 192 páginas de Chomsky em estado puro. Vibrante e claro.
Preparado para o ataque.
— O senhor se considera um radical?
— Todos consideramos a nós mesmos moderados e razoáveis.
— Defina-se ideologicamente.
“As pessoas se sentem menos representadas e levam uma vida precária. O resultado é uma mistura de aborrecimento e medo”
— Acredito que toda autoridade tem de se justificar. Que toda hierarquia é ilegítima enquanto não demonstrar o contrário. Às vezes pode se justificar, mas na maioria das vezes, não. E isso... isso é anarquismo.
Uma luz seca envolve Chomsky. Depois de 60 anos dando aulas no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), o professor veio viver nos confins do deserto de Sonora, no Arizona. Em Tucson, a mais de 4.200 quilômetros de Boston, ele se instalou e estreou um escritório no Departamento de Linguística da Universidade do Arizona. O centro é um dos poucos pontos verdes dessa cidade abrasadora. Freixos, salgueiros, palmeiras e nogueiras crescem em torno de um edifício de tijolos vermelhos de 1904 onde tudo fica pequeno, mas tudo é acolhedor. Pelas paredes há fotos de alunos sorridentes, mapas das populações indígenas, estudos de fonética, cartazes de atos culturais e, no fundo do corredor, à direita, o escritório do maior linguista vivo.
O lugar não tem nada a ver com o espaço inovador do Frank Gehry que o abrigava em Boston. Aqui, mal cabe uma mesa de trabalho e outra para sentar-se com dois ou três alunos. Recém-estreado, o escritório de um dos acadêmicos mais citados do século XX ainda não tem livros próprios, e seu principal ponto de atenção recai em duas janelas que inundam a sala de âmbar. Chomsky, de calças jeans e longos cabelos brancos, gosta dessa atmosfera calorosa. A luz do deserto foi um dos motivos que o levaram a se mudar para Tucson. “É seca e clara”, comenta. Sua voz é grave e ele deixa que se perca nos meandros de cada resposta. Gosta de falar longamente. Pressa não é com ele.
Pergunta. Vivemos uma época de desencanto?
Resposta. Já faz 40 anos que o neoliberalismo, liderado por Ronald Reagan e Margaret Thatcher, assaltou o mundo. E isso teve um efeito. A concentração aguda de riqueza em mãos privadas veio acompanhada de uma perda do poder da população geral. As pessoas se sentem menos representadas e levam uma vida precária, com trabalhos cada vez piores. O resultado é uma mistura de aborrecimento, medo e escapismo. Já não se confia nem nos próprios fatos. Há quem chama isso de populismo, mas na verdade é descrédito das instituições.
P. E assim surgem as fake news (os boatos)?
R. A desilusão com as estruturas institucionais levou a um ponto em que as pessoas já não acreditam nos fatos. Se você não confia em ninguém, por que tem de confiar nos fatos? Se ninguém faz nada por mim, por que tenho de acreditar em alguém?
P. Nem mesmo nos veículos de comunicação?
R. A maioria está servindo aos interesses de Trump.
P. Mas há alguns muito críticos, como The New York TimesThe Washington Post, CNN…
R. Olhe a televisão e as primeiras páginas dos jornais. Não há nada mais que Trump, Trump, Trump. A mídia caiu na estratégia traçada por Trump. Todo dia ele lhes dá um estímulo ou uma mentira para se manter sob os holofotes e ser o centro da atenção. Enquanto isso, o flanco selvagem dos republicanos vai desenvolvendo sua política de extrema direita, cortando direitos dos trabalhadores e abandonando a luta contra a mudança climática, que é precisamente aquilo que pode acabar com todos nós.
Noam Chomsky.
Noam Chomsky. APU GOMES
P. O senhor vê em Trump um risco para a democracia?
R. Representa um perigo grave. Liberou de forma consciente e deliberada ondas de racismo, xenofobia e sexismo que estavam latentes, mas que ninguém tinha legitimado.
P. Ele voltará a ganhar?
R. É possível, se conseguir retardar o efeito letal de suas políticas. É um demagogo e showman consumado que sabe como manter ativa sua base de adoradores. Também joga a seu favor o fato de que os democratas estão mergulhados na confusão e podem não ser capazes de apresentar um programa convincente.
P. Continua apoiando o senador democrata Bernie Sanders?
R. É um homem decente. Usa o termo socialista, mas nele significa mais um New Deal democrata. Suas propostas, de fato, não seriam estranhas a Eisenhower[presidente dos EUA pelo Partido Republicano de 1953 a 1961]. Seu sucesso, mais que o de Trump, foi a verdadeira surpresa das eleições de 2016. Pela primeira vez em um século houve alguém que esteve a ponto de ser candidato sem apoio das corporações nem dos veículos de comunicação, só com o apoio popular.
“Trump liberou deliberadamente ondas de racismo, xenofobia e sexismo que estavam latentes mas não legitimadas”
P. Houve um deslizamento para a direita do espectro político?
R. Na elite do espectro político sim, ocorreu esse deslizamento, mas não na população em geral. Desde os anos oitenta se vive uma ruptura entre o que as pessoas desejam e as políticas públicas. É fácil ver isso no caso dos impostos. As pesquisas mostram que a maioria quer impostos mais altos para os ricos. Mas isso nunca se leva a cabo. Frente a isso se promoveu a ideia de que reduzir impostos traz vantagens para todos e que o Estado é o inimigo. Mas quem se beneficia da reduzir [verbas para] estradas,hospitais, água limpa e ar respirável?
P. Então o neoliberalismo triunfou?
R. O neoliberalismo existe, mas só para os pobres. O mercado livre é para eles, não para nós. Essa é a história do capitalismo. As grandes corporações empreenderam a luta de classes, são autênticos marxistas, mas com os valores invertidos. Os princípios do livre mercado são ótimos para ser aplicados aos pobres, mas os muito ricos são protegidos. As grandes indústrias de energia recebem subvenções de centenas de milhões de dólares, a economia de alta tecnologia se beneficia das pesquisas públicas de décadas anteriores, as entidades financeiras obtêm ajuda maciça depois de afundar… Todas elas vivem com um seguro: são consideradas muito grandes para cair e são resgatadas se têm problemas. No fim das contas, os impostos servem para subvencionar essas entidades e com elas, os ricos e poderosos. Mas além disso se diz à população que o Estado é o problema e se reduz seu campo de ação. E o que ocorre? Seu espaço é ocupado pelo poder privado, e a tirania das grandes corporações fica cada vez maior.
P. O que o senhor descreve soa a George Orwell.
R. Até Orwell estaria assombrado. Vivemos a ficção de que o mercado é maravilhoso porque nos dizem que está composto por consumidores informados que adotam decisões racionais. Mas basta ligar a televisão e ver os anúncios: procuram informar o consumidor para que tome decisões racionais? Ou procuram enganar? Pensemos, por exemplo, nos anúncios de carros. Oferecem dados sobre suas características? Apresentam informes realizados por entidades independentes? Porque isso sim que geraria consumidores informados capazes de tomar decisões racionais. Em vez disso, o que vemos é um carro voando, pilotado por um ator famoso. Tentam prejudicar o mercado. As empresas não querem mercados livres, querem mercados cativos. De outra forma, colapsariam.
P. Diante dessa situação, não é muito fraca a contestação social?
R. Há muitos movimentos populares muito ativos, mas não se presta atenção neles porque as elites não querem que se aceite o fato de que a democracia pode funcionar. Isso é perigoso para elas. Pode ameaçar seu poder. O melhor é impor uma visão que diz a você que o Estado é seu inimigo e que você tem de fazer o que puder sozinho.
P. Trump usa frequentemente o termo antiamericano. Como o senhor entende esse termo?
“As grandes corporações empreenderam a luta de classes, são marxistas mas com os valores invertidos”
R. Os Estados Unidos são o único país onde, por criticar o Governo, te chamam de antiamericano. E isso representa um controle ideológico, acendendo fogueiras patrióticas por toda parte.
P. Em alguns lugares da Europa também ocorre isso.
R. Mas nada comparável ao que ocorre aqui, não há outro país onde se vejam tantas bandeiras.
P. O senhor teme o nacionalismo?
R. Depende. Se significa estar interessado em sua cultura local, é bom. Mas se for uma arma contra outros, sabemos aonde pode conduzir, já vimos e experimentamos isso.
P. Acha possível que se repita o que ocorreu nos anos trinta?
R. A situação se deteriorou. Depois da eleição de Barack Obama se desencadeou uma reação racista de enorme virulência, com campanhas que negavam sua cidadania e identificavam o presidente negro com o anticristo. Houve muitas manifestações de ódio. No entanto, os EUA não são a República de Weimar[democracia alemã anterior ao nazismo]. Precisamos estar preocupados, mas as probabilidades de que se repita algo assim não são altas.
P. Seu livro começa lembrando a Grande Depressão, uma época em que “tudo estava pior que agora, mas havia um sentimento de que tudo iria melhorar”.
R. Eu me lembro perfeitamente. Minha família era de classe trabalhadora, estava desempregada e não tinha educação. Objetivamente, era uma época muito pior que agora, mas havia um sentimento de que todos estávamos juntos naquilo. Havia um presidente compreensivo com o sofrimento, os sindicatos estavam organizados, havia movimentos populares… Tinha-se a ideia de que juntos podíamos vencer a crise. E isso se perdeu. Agora vivemos a sensação de que estamos sozinhos, de que não há nada a fazer, de que o Estado está contra nós…
P. Ainda tem esperanças?
R. Claro que há esperança. Ainda há movimentos populares, gente disposta a lutar… As oportunidades estão aí, a questão é se somos capazes de aproveitá-las.
Chomsky termina com um sorriso. Deixa vibrando no ar sua voz grave e se despede com extrema cortesia. Em seguida, sai do escritório e desce as escadas da faculdade. Fora, esperam-lhe Tucson e a luz seca do deserto de Sonora.

Banco Mundial propõe desastre



Paulo Kliass: Banco Mundial propõe desastre

Nos tempos mais recentes, o Banco Mundial parece ter recuperado um pouco de seu triste protagonismo histórico. Trata-se de um retorno à condição de organismo encarregado de sugerir o que existe de pior no cardápio de recomendações de política econômica e políticas públicas para os países membros da instituição.

Confesso que fui um dos que acreditaram, de forma um tanto ingênua, que os efeitos da crise econômica e financeira de 2008/9 poderiam ter contribuído para um processo de oxigenação de ideias e procedimentos no interior do Banco. Afinal, um conjunto de países do chamado “mundo desenvolvido” mudou a forma como passaram a lidar com determinados aspectos das respectivas políticas econômicas.

Além disso, muitos economistas renomados do “establishment” - que haviam dado suporte orgânico e conceitual ao receituário do Consenso de Washington - fizeram uma espécie de “mea culpa” pelos equívocos que haviam patrocinado com as orientações de cunho liberal. As universidades e centros de pesquisa pelo mundo afora também se viram pressionados a introduzir elementos de heterodoxia em suas linhas de estudo e trabalho. O liberalismo radical passou a ser temperado com pitadas de visões críticas ao modelo até então reinante.

A realidade gritava mais forte e os países estavam adotando políticas “ad hoc” influenciadas por derivações de um certo keynesianismo ou desenvolvimentismo, uma vez que a simples crença nas forças do livre mercado não estava sendo capaz de superar a crise e a estagnação da atividade econômica em escala global. Assistiu-se a uma recuperação do protagonismo do Estado em suas diferentes opções de politica econômica. Mas como não foi gerada nenhuma alternativa consistente ao modelo vigente até a antevéspera da eclosão da crise, o fato é que aos poucos a opção liberal foi reassumindo seu espaço.

Banco Mundial e a agenda conservadora
Os movimentos no interior do Banco Mundial podem ser compreendidos a partir dessa dinâmica. Depois de uma breve fase de convivência e aceitação desse humor heterodooa, em seguida percebe-se uma reafirmação dos preceitos fundamentadores do neoliberalismo. No caso do Brasil, a mudança é evidente. No intervalo de poucos meses, a instituição divulgou dois relatórios a respeito de nossa realidade. O primeiro foi objeto de muita crítica, o famoso “Ajuste (In)Justo” que foi tornado público em novembro do ano passado.

E agora, o banco acaba de divulgar outro documento, com o pomposo título de “Emprego e crescimento: a agenda da produtividade”. Parece óbvio que a situação atual que a politica de austericídio nos levou exige mudança de rumo. Recuperação da atividade econômica e geração de emprego para fazer frente aos mais de 12 milhões de desempregados são tarefas essenciais. No entanto, o diagnóstico do Banco e suas sugestões vão exatamente na contramão de tudo aquilo que nos parece necessário para recuperar nosso País.

O Banco Mundial insiste em retornar aos velhos tempos das recomendações da ortodoxia. Tudo elaborado na mais absoluta sintonia com os interesses dos países do centro do capitalismo, com o intuito de manter a distância com relação aos países chamados periféricos. Mas, então o que fazer para aumentar a produtividade da economia e superar as dificuldades atuais? A tecnocracia baseada em Washington não tem dúvidas: o caminho passa por 2 tipos de medidas. São elas: i) reduzir os níveis salariais dos trabalhadores; e, ii) aumentar a abertura comercial do Brasil para com o resto do mundo. Uma loucura!

A volta do arrocho dos salários
Ao contrário do que apontam os estudos e evidências do período recente, o BM volta com a lengalenga de que o valor do salário mínimo impede ganhos de produtividade, aumentando o conhecido “custo Brasil”. O texto é literal nessa interpretação e sugere que os salários sejam reduzidos para voltarmos a crescer, uma vez que limitariam a oferta de trabalho por parte das empresas.


(...) “As restrições das leis trabalhistas às empresas e o alto (e crescente) valor do salário mínimo também têm o potencial de limitar as oportunidades de trabalho formal - principalmente para os jovens em busca de emprego.” (...)
Ocorre que um debate muito similar era realizado em 2002. Quando o salário mínimo cresceu e os rendimentos médios dos trabalhadores subiram a partir de 2003, esse movimento não provocou problemas no mercado de trabalho. O Senador Paulo Paim (PT-RS) tinha um projeto famoso em que atribuía ao salário mínimo o valor de US$ 100. Era considerado lunático/sonhador por uns, populista/irresponsável por outros. Pois o valor do menor rendimento chegou a ultrapassar US$300 e nem por isso o Brasil quebrou, como preconizavam os opositores a esse tipo de medida. Pelo contrário. Foi o período de menor índice de desemprego da História e com baixo nível de informalidade nas relações trabalhistas. Mas o documento parece brigar com a realidade.
(...) “As restrições das leis trabalhistas às empresas e o alto (e crescente) valor do salário mínimo também têm o potencial de limitar as oportunidades de trabalho formal - principalmente para os jovens em busca de emprego.” (...)
O desemprego voltou a crescer a partir de 2015 em razão da política de austericídio e não por conta do valor do salário mínimo. Afinal, é reconhecido por (quase) todos os especialistas que a manutenção do crescimento inclusivo só foi possível graças à elevação da capacidade de consumo dos setores da base da nossa pirâmide social e econômica. Mas o Banco não tem papas na língua e sugere claramente que optemos pelo retrocesso:
(...) “Talvez seja o caso, portanto, de rever as políticas de salário mínimo.” (...)

Abertura comercial: destruição de nossa economia

Na outra ponta, o relatório propõe que o Brasil aprofunde sua política de abertura comercial. Isso implica oferecer ainda maiores e melhores oportunidades para os demais países do resto do mundo que continuem a inundar nossa economia com seus produto

(...) “Em comparação a outros países, a abertura comercial do Brasil é limitada e reflete uma posição de política altamente intervencionista e protetora” (...)
A serem levadas a sério as ponderações do documento, o Brasil não é aquele país que abriu sua economia para o resto do mundo, desde a malfadada experiência irresponsável da liberalização generalizada promovida por Collor no início da década de 1990. O fato é que desde então o peso das importações tem crescido por aqui, com maior impacto na compra de manufaturados estrangeiros, em especial os produtos chineses. Além disso, os setores mais dinâmicos de nossa economia são dominados por oligopólios estrangeiros.
(...) “Essa experiência, portanto, fornece evidências importantes que corroboram a importância da abertura comercial para o aumento da produtividade.” (...)
O documento se esquece de mencionar os efeitos perversos da abertura sem critérios, uma vez que ela aprofundou o processo de desindustrialização de nossa economia. Além disso, o mesmo modelo aberturista tem contribuído para a consolidação de um regime de natureza neocolonial. O Brasil se especializa cada vez mais na exportação de “commodities” de baixo valor agregado, como é o caso dos produtos do agronegócio e dos minerais/petróleo. No outro sentido da abertura comercial, importamos bens e serviços de alto valor agregado. Na prática, mantém-se a estrutura de dominação econômica e subordinação aos países com os quais mantemos relações de comércio.

Finalmente, o Banco tenta nos iludir com o falso argumento de que a abertura comercial também teria o efeito de colaborar para a redução das desigualdades de renda. Mas é amplamente sabido que o principal fator para a inclusão e diminuição das disparidades foi a recuperação dos salários, bem como a melhoria e a ampliação do acesso aos serviços públicos.

(...) “Com a liberalização comercial dos anos 1990 no Brasil, o aumento dos rendimentos reais das famílias pobres foi o dobro do aumento dos rendimentos das famílias mais ricas. ” (...)
Essa crença quase dogmática nas benesses da abertura generalizada tem o efeito de prejudicar ainda mais as bases de um projeto de recuperação do desenvolvimento. Em um momento de incerteza, em que o Presidente Trump retoma suas ideias protecionistas para os Estados Unidos e a própria União Europeia experimenta dificuldades, a pior estratégia é a de promover ainda mais abertura unilateral e sem contrapartidas.

Qualquer projeto de redefinição de nossa rede de relações diplomáticas e comerciais passa pela constituição de um governo legitimado pelas urnas. A busca de uma saída promotora de desenvolvimento inclusivo e sustentável implica a expansão das atividades econômicas internas e a participação importante dos rendimentos do trabalho no total da renda nacional.

Mais uma vez, o Banco Mundial se equivoca. O Brasil deve fugir desse tipo de recomendação, que vem sempre antenada exclusivamente com os interesses do financismo. Precisamos preservar os interesses nacionais na geração de renda e riqueza, além de evitar a tentação de redução de salários.

* Paulo Kliass é doutor em Economia pela Universidade de Paris 10 e Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal.