sexta-feira, 30 de março de 2018

Ex-ministro de FH: intervenção é eleitoreira e inócua


Ex-ministro de FH: intervenção é eleitoreira e inócua

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Do ex-ministro dos Direitos Humanos do Governo Fernando Henrique Cardoso, Paulo Sérgio Pinheiro, no UOL:
Essa intervenção federal-militar não podia ser mais desastrada, ineficiente e autoritária. Por que desastrada? Porque este é um ano tampão desse governo. E o Rio de Janeiro está longe de ser o estado com maior número de homicídios ou, por exemplo, de mortes pela PM [Polícia Militar], comparativamente em relação à população. É que o Rio é a antiga capital [federal], tem certo mito, então o governo escolheu para fazer essa intervenção federal ali.
É inócua porque não vai ter nenhuma condição de lidar com o crime organizado. Eu vi outras intervenções no Rio com tanque na rua. Não adianta pôr tanque na rua. É para a galera, para fazer de conta que estão fazendo alguma coisa. As Forças Armadas não têm nenhuma competência para lidar com a criminalidade ou a criminalidade organizada.
Por que autoritária? Porque se dá nas comunidades de favela, onde moram os brasileiros de menor renda e quase a maioria afrodescendentes. Então, é um lugar onde estão, segundo as categorias do censo, os pretos e os pardos. E ali 95% dos moradores são gente respeitadora da lei, são cidadãos. Por isso, essa intervenção se articula com o apartheid [segregação social institucionalizada], que é centenário em relação aos morros do Rio, as comunidades, desde que elas foram instaladas.
E você evidentemente não vai fazer [nos bairros ricos] como o Exército começou a fazer [nas comunidades]: fotografia dos consumidores da [avenida] Vieira Souto, do Leblon e da avenida Atlântica [localidades ricas da zona sul carioca]. Ninguém pensa.
Então, a intervenção tem essas características e está fadada ao insucesso. Não vai absolutamente trazer nenhuma melhoria para a segurança pública no Rio e é medida marqueteira até as eleições por um governo que mal tem 6% de aprovação [segundo pesquisa do Datafolha]. E é esperança para a população das comunidades, que vive entre o terror da polícia e do crime mais ou menos organizado.
Porque, quando falam em crime organizado na favela, é uma piada, porque os organizadores não estão [ali]. Aqueles são pés de chinelo intermediários, os traficantes moram na Barra [da Tijuca, bairro rico da zona oeste do Rio] ou em Miami [EUA]. Sim, são quadrilhas armadíssimas agora, mas chamar aquilo de crime organizado é um exagero. Na verdade, têm um nível de organização muito limitado e impondo pelas armas o terror às populações. 
O que ocorre, e eu li pesquisas, é que 75% da população do Rio aprova. Bom, aprova porque há desespero grande em relação à criminalidade, ao estado dos homicídios, e é natural que a população espere que uma intervenção com esse teor possa ter efeito positivo. Mas não vai ter. É uma intervenção oportunista, marqueteira e eleitoreira.
Nenhum choque ou guerra funciona. O que funciona: infiltração dentro da lei. Você tem que se infiltrar nessas organizações. E não é muito difícil de se infiltrar nessas organizaçõezinhas de pés de chinelo. É preciso tempo, dedicação. Em segundo lugar, para onde vai esse dinheiro [do tráfico de drogas e de armas]? Onde é lavado? É lavado nas praças do Rio e de São Paulo. Com Miami [EUA], são os maiores centros lavadores de dinheiro nas Américas. Há utilização de empresas de ônibus, lavanderias. Tudo isso dá para lavar. Mas o combate a isso não se faz.

Partidos brasileiros são mais do mesmo

Partidos brasileiros são mais do mesmo e poderiam ser reduzidos a 2, aponta pesquisa de Oxford


ilustração do congressoDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionExplicação de que grande número de partidos serve para reresentar posições da sociedade não se aplica no Brasil. Segundo pesquisa de Oxford, Congresso poderia ter só dois partidos, um de centro-esquerda e outro de centro-direita
Uma explicação comum para justificar o grande número de partidos políticos no Brasil é o fato de o país ser grande e heterogêneo. Portanto, várias legendas seriam necessárias para representar os diferentes grupos que fazem parte da sociedade.
Mas não é isso o que mostra uma pesquisa inédita da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e da Fundação Getulio Vargas (FGV), segundo a qual apenas dois partidos já seriam suficientes para representar a sociedade brasileira no Congresso Nacional.
"Tem muitos partidos desnecessários no Brasil, em termos de representação ideológica. Quando um partido é criado, normalmente é para atender a um grupo ideológico pouco representado, dar voz a grupos. Mas não é o que esta acontecendo. Os partidos no Brasil estão sendo criados por outras razões, não para defender bandeiras", afirmou à BBC Brasil o professor Timothy J. Power, diretor do Programa de Estudos Brasileiros da Universidade de Oxford.
Entre abril e setembro do ano passado, Power e César Zucco, professor da FGV, distribuíram a deputados e senadores um questionário com perguntas sobre diferentes temas – de economia e controle fiscal a reforma política e aborto. O levantamento, chamado de Brazilian Legislative Survey (BSL), é feito a cada quatro anos e tem o objetivo de captar a evolução do pensamento do Congresso Nacional desde a redemocratização.
A partir da resposta dos legisladores, os pesquisadores descobriram que as 25 legendas com representação na Câmara têm posições muito semelhantes.
Seria possível dividir esses partidos em dois grupos, um de centro-direita, composto pelo chamado "centrão", além de PP, PSDB e MDB, e outro de centro-esquerda, formado por partidos como PT, PC do B e PDT. O bloco de centro-direita têm hoje 60% das cadeiras na Câmara dos Deputados, e o de esquerda, 40%.
"No campo das ideias, pelos 20 assuntos que a gente mediu, dois partidos são suficientes e representariam razoavelmente e de forma coerente a sociedade. Um seria estaria mais à esquerda e outro mais à direita", disse o professor César Zucco à BBC Brasil.
Power traça um paralelo da distribuição atual de cadeiras no Congresso entre centro-direita e centro-esquerda com o cenário partidário do Brasil em 1979, ainda no regime militar, quando havia apenas dois partidos com representação no Congresso.
Câmara dos DeputadosDireito de imagemRICHARD SOWERSBY
Image captionEstudo indica que a criação de partidos políticos no Brasil não serve para representar grupos da sociedade, mas sim a interesses financeiros e eleitorais dos políticos
"Se você pensar, é parecido com o Brasil em 1979. Tinha dois partidos na época. O Arena (partido governista), com 60% das cadeiras, e o MDB (que fazia oposição ao governo militar), com 40%. Nós vemos a mesma coisa hoje: existem dois grupos, sendo que o de centro-direita tem maior representação no Legislativo", afirma.
A conclusão de que duas legendas já seriam suficientes para representar as posições dos grupos políticos existentes hoje no Congresso indica que a acelerada criação de partidos no país não é estimulada pela demanda de setores por representação, mas sim por estratégias políticas e interesses eleitorais.
"Isso confirma a ideia de que, claramente, esses partidos não existem para representar ideologias e ideias que precisam ser representadas. Eles representam ideias parecidas e existem por questões estratégicas dos deputados e senadores", afirma Zucco.
"Atendem a interesses locais, porque os políticos precisam de legendas diferentes para competir em eleições; a interesses em termos de financiamento, por causa do acesso a recursos partidários; e ao interesse de acesso a recursos dentro do Congresso Nacional, como pessoal, verba, participação em comissões", completa o professor da FGV.
A pesquisa não defende a mudança de modelo político para um sistema bipartidário ou com menos legendas, apenas demonstra que a posição dos 25 partidos que hoje têm representação no Congresso Nacional é similar a ponto de ser possível dividir o Legislativo em dois grupos.

O efeito impeachment: PT mais à esquerda e PSDB, à direita

Manifestantes durante votação do impeachment de Dilma Rousseff
Image captionMuro foi construído na Esplanada durante as votações do impeachment, para separar manifestantes. Polarização se reflete no Congresso Nacional, segundo pesquisa de Oxford, em parceria com a FGV | Fonte: Juca Verella/Agência Brasil
Além de mapear a posição dos partidos quanto aos principais temas econômicos e sociais, Power e Zucco também mediram a percepção que parlamentares e senadores têm da ideologia das legendas com representação no Congresso.
Os dois pesquisadores perguntaram aos parlamentares onde eles classificariam cada partido político, numa escala de 1 a 10, sendo 1 "de esquerda" e 10, de "direita".
A análise histórica das respostas, captadas desde 1990, demonstra que partidos de centro e centro-esquerda, quando assumem a Presidência, tendem a dar uma guinada à direita, porque precisam fazer concessões a grupos conservadores para governar. Foi o caso de PSDB e PT nos governos dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva.
Gráfico mostrando partidos à esquerda e à direita
Image captionSetas mostram trajetória dos partidos, para esquersa ou para a direita no espectro ideológico. PT andou para a "direita" quando esteve na presidência, mas após o impeachment de Dilma deu uma guinada à esquerda | Fonte: BLS
Por causa da enorme fragmentação no Congresso e do excesso de partidos políticos, dificilmente o presidente terá, sozinho, maioria para governar. Por isso, forma coligações com outras legendas, ainda que elas não tenham semelhança ideológica com o partido vencedor da eleição.
No governo Lula, por exemplo, o PT se aliou a partidos de centro-direita e direita, como PMDB, PTB e PP. Nos dois mandatos, o Brazilian Legislative Survey captou um "salto" forte do partido para a "direita" em termos de ideologia.
"Se voltamos aos anos 1990, havia uma polarização no governo FHC por causa das políticas neoliberais adotadas. O PT fazia uma oposição forte a elas. Lula ganhou em 2002 e trouxe o PT e partidos mais de esquerda para o centro", disse Power à BBC Brasil.
Temer, Dilma e LulaDireito de imagemRICARDO STUCKERT/PR
Image captionO PT se aliou a partidos de centro e centro-direita para governar, como o PMDB, nos governos Lula e Dilma
Desde o governo Lula, a polarização vinha diminuindo no país. Os levantamentos com parlamentares entre 2002 e 2014 mostram a construção de consensos entre partidos em questões econômicas e sociais, como interferência moderada do Estado na economia, necessidade de responsabilidade fiscal e adoção de programas sociais baseados em transferência de renda – Bolsa Família, por exemplo.
Mas, segundo Power, o impeachment de Dilma Rousseff interrompeu o ciclo de aproximação entre partidos de esquerda e centro-direita.
"Durante o governo FHC, os partidos de esquerda eram mais isolados. Nos anos 2000, eles se aliaram a partidos de centro e centro-direita para permitir a governabilidade de Lula. O impeachment cortou essa aliança."
Com o rompimento dos laços com siglas como o MDB, o PT e demais partidos tradicionalmente vistos como de esquerda, como PC do B e PDT, tendem a voltar às raízes, adotando posições mais "esquerdistas", como maior presença estatal na economia.
"Agora que romperam com a direita, nada os impede de adotar uma ideologia de esquerda mais radical", avalia o professor de Oxford.
Enquanto isso, o PSDB deu um passo largo para a "direita", na percepção dos parlamentares, em comparação com o resultado dos levantamentos de 2014. "O PSDB vem andando para a direita desde que iniciamos o levantamento, em 1990. Mas agora o movimento foi bastante forte", diz Zucco.
"A percepção dos políticos de 'esquerdização' do PT e de 'direitização' do PSDB tem a ver com o impeachment", destaca.

Em que espectro estão os partidos

De acordo com a pesquisa de Power e Zucco, o partido hoje visto entre os parlamentares como mais "de esquerda" é o PSOL, seguido por PC do B, PT e Rede.
classificação dos partidos conforme ideologia
Image captionEsta é a forma como os deputados e senadores percebem a posição ideológica dos partidos. Os que aparecem mais à esquerda, são vistos como mais esquerdistas, enquanto os mais à direita, foram classificados como mais direitistas pelos parlamentares | Fonte: BLS Survey
O levantamento também captou a ascensão do chamado Centrão, partidos de médio porte que tiveram papel chave no impeachment de Dilma. Juntos, eles formam uma das maiores bancadas da Câmara e são essenciais à sobrevivência do governo Michel Temer.
Fazem parte desse grupo, visto como "de centro" pelos parlamentares, PSC, Pros, PTB e Podemos (visto na tabela acima com a sigla Pode). Classificados como centro-direita, estão MDB, PSDB, PSD e PR.
O partido visto como mais "de direita" é o Democratas, seguido por PP e PSL. O DEM é também a sigla que de forma mais consistente se manteve "à direita" na percepção dos legisladores desde que o BLS começou a ser feito, em 1990.
Com base nas respostas diretas dos parlamentares às perguntas que medem a posição ideológica, é possível dividir o Congresso em dois grandes grupos, segundo o estudo: um de centro-esquerda, composto por PSOL, PC do B, PT, Rede, PDT, PSB, PPS e PV, e outro de centro-direita, com os demais partidos.

O que esses achados dizem sobre o cenário pós-2018?

Em resumo, o Brazilian Legislative Survey captou um Congresso Nacional polarizado. E, embora existam 25 partidos com deputados eleitos, o legislativo poderia ter apenas dois se levada em conta a semelhança entre eles em questões ideológicas.
Embora haja movimentos na sociedade por uma renovação na política, os pesquisadores avaliam que a fotografia atual do Congresso tende a ser reeditada após a eleição de outubro. Com a restrição ao financiamento empresarial de campanha, candidatos dependerão do Fundo Partidário. E quem recebe mais dinheiro são os partidos tradicionais, que elegeram mais deputados em 2014.
Deputados comemorando reeleição de Rodrigo Maia
Image captionPara pesquisadores da Oxford e da FGV, partidos políticos estão sendo criados para servir a interesses de políticos, não para representar a sociedade
O presidente que se eleger precisará, segundo Zucco e Power, captar o apoio de parte do bloco de "centro-direita" – que tem 60% das cadeiras –, principalmente dos partidos que hoje integram o chamado Centrão.
"Vai ter menos renovação do que o espírito das ruas sugeririam. Quem tem acesso ao dinheiro são os políticos que já estão no poder. O próximo presidente vai ter que fazer mais do mesmo. O grupo majoritário (Centrão) é o que dá apoio ao Temer e ele vai ter que ser cooptado pelo próximo governo. Não dá para esperar muita diferença", diz Zucco.
"O presidente que se eleger vai ter minoria no Congresso (por causa do grande número de partidos que devem eleger deputados), dificilmente terá 12% das cadeiras. Para governar, ele vai ter que formar alianças com, pelo menos, seis ou sete partidos", completa Power.

domingo, 25 de março de 2018

Perguntas cretinas, respostas idem



Perguntas cretinas, respostas idem

por Renato Terra
Pego emprestado de Millôr Fernandes o formato “Perguntas Cretinas com Respostas Engatilhadas” misturado com o clássico da revista MAD “Respostas Cretinas para Perguntas Imbecis”.
P. Direitos Humanos defendem bandidos?
R. Óbvio. A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi elaborada por Al Capone e Marcinho VP no tempo em que eram casados. Há provas no WhatsApp. Seus objetivos foram divulgados no 1º Foro de São Paulo: Pavimentar caminho para o Twitter facilitar a vida de quem pretende burlar a Lei Seca, por sugestão de Capone, e divulgar o comunismo para eleger Lula, por sugestão de VP –na época conhecido como Marcinho PT.
Até hoje, é comum ver o artigo 1º colado na parede de milicianos, traficantes e de líderes do PCC: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”.
P. A comoção por todas as mortes deve ser igual?
R. Claro. E aqui vai uma dica: se você morrer no mesmo dia que Pelé, Roberto Carlos ou Silvio Santos, peça para a sua família processar todos os meios de comunicação que não te derem o mesmo espaço.
P. O aumento do número de armas vai reduzir a violência?
R. Evidente. Policiais militares do RJ, por exemplo, andam armados. Por isso, quase não são vítimas de violência.
P. Foram “6.370 homicídios violentos no ano passado. E onde estava Marcelo Freixo? Aliás, o segredo de aborrecer é dizer tudo, e eu digo: onde estava Marielle?” (Reinaldo Azevedo em 16/3 na Band News).
R. Estavam em horário de almoço na Liga da Justiça junto com o Batman, os Super Gêmeos e o Aquaman.
P. Existe homofobia no Brasil?
R. Não porque todo mundo que perdeu a vergonha na cara entrou pra gay.
P. Existe racismo no Brasil?
R. Positivo e operante. Já não se pode ser homem branco e heterossexual sem sofrer patrulha. O mundo tá chato pra caramba.
P. Estão politizando a morte de Marielle?
Resposta Nem Tão Cretina: Não. Estão dançando “Ragatanga” para amplificar uma voz que confrontava milícias, traficantes e maus policiais ao mesmo tempo que arregaçava as mangas para dar oportunidades aos favelados e guarida aos bons policiais. Quem faz essa acusação de que “estão politizando” está —tchan tchan tchan— politizando também.
*Publicado na Folha de S.Paulo

sábado, 17 de março de 2018

A invenção da infância sem corpo


A invenção da infância sem corpo

O que há de tão ameaçador em um homem nu junto a uma criança?


Eliane Brum
Imagem da performance "La Bête", no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo Divulgação

Quando publiquei a entrevista com Wagner Schwartz, a primeira que ele deu depois de ser atacado como “pedófilo” após uma performance realizada no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, acompanhei bem de perto os comentários de leitores. Um grande número de intervenções admitia que ele não era um pedófilo, mas afirmava ser inaceitável que um homem nu fosse tocado por uma criança, mesmo acompanhada da mãe, mesmo em público e mesmo no contexto artístico. O uso político e possivelmente planejado do episódio pelas milícias de ódio da internet já é bem conhecido. Mas por que milhões de pessoas aderiram ao linchamento digital de Wagner, mais de uma centena ameaçando-o de morte? O que perturbou tanto essas pessoas, homens e mulheres que encontramos o tempo todo no elevador ou no supermercado e que tudo indica não serem particularmente más?
Tornou-se claro que aquilo que os perturbava era o corpo nu de um homem e o toque de uma criança. Não há justificativa para a violência. Os ataques são inaceitáveis e deixaram sequelas. Mas é necessário compreender o que é tão insuportável para essas pessoas, as que não são robôs nem membros das milícias de ódio, a ponto de se transformarem em linchadoras.
Entre as várias reações à publicação da entrevista, uma chama a atenção: “Era só ter colocado uma bermuda!”.
O que se resolveria ali, não no palco, mas na cabeça da pessoa que fez esse comentário, assim como na de tantas outras, com uma bermuda? Sim, a bermuda esconderia que um homem tem pinto. Ou esconderia o pinto do homem. E, para essas pessoas, um corpo de homem nu, portanto com um pinto, seria ameaçador para uma criança mesmo que não existisse nada de ameaçador naquele contexto.
Mas o quê, de fato, o corpo nu de um homem, no mesmo espaço de uma criança, está ameaçando?
Talvez uma ideia de infância. Ou o conceito do que é uma criança hoje. Como é sabido, a infância não é algo que tenha existido desde sempre. Crianças sempre existiram, obviamente, mas o que entendemos por infância é um conceito recente em termos históricos. Basta lembrar que muitos de nós tiveram avós que trabalhavam na roça desde cedo e que se casavam aos 12, 13 anos. E só não se casavam antes porque o ato de casar estava ligado ao ato de engravidar. Assim, era necessário esperar a primeira menstruação não da menina, mas da mulher.
É comum pessoas que visitam povos indígenas ou comunidades ribeirinhas da Amazônia se espantarem com a diferença do que é ser uma criança para esses povos e comunidades. O primeiro espanto costuma ser o fato de que meninos e meninas mexem com facas, em geral bem grandes, no cotidiano. Fazem quase tudo o que um adulto faz. Nadam sozinhas no rio, escalam árvores altas, sabem fazer fogo e cozinhar, caçam e pescam. Aprendem com os adultos e com as crianças mais velhas.
Não é que não se tenha cuidado com as crianças, mas o cuidado tem outras expressões e significados, obedece a outro entendimento da vida, variando de povo a povo. Dias atrás um amigo estava numa aldeia indígena e viu um menino pequeno ligando um motor de barco. Ele de imediato avisou ao pai que o filho estava mexendo com algo que poderia ser perigoso. O pai limitou-se a dizer, devolvendo o espanto: “Mas este é o motor dele”.
A sociedade atual se esforça para apagar o fato de que a criança tem corpo
É possível concluir que, nesta aldeia, para este povo, assim como para outras comunidades que vivem uma experiência diversa de ser e de estar no mundo, ser criança é outra coisa. O que quero sublinhar aqui é que nada é dado e determinado no campo da cultura. A infância foi inventada pela sociedade ocidental e continua sendo inventada dia após dia. Não existe nenhuma determinação acima da experiência de uma sociedade – e dos vários conflitos e interesses que determinam essa experiência – sobre o que é ser uma criança.
Nesta época, na sociedade ocidental, a criança deve ser protegida de tudo. Mas não só. Há um esforço de apagamento de que a criança tem um corpo. Não um corpo para o sexo. Mas um corpo erotizado, no sentido de que meninos e meninas têm prazer com seu próprio corpo, têm um corpo que se experimenta.
Quando os adultos tentam apagar o corpo das crianças, criam um grande problema para as crianças
Esse apagamento do corpo da criança se entranha na vida cotidiana e também na linguagem. Eu mesma costumava escrever nos meus textos: “homens, mulheres e crianças fizeram tal coisa ou estão sofrendo tal coisa” ou qualquer outro verbo. Até que uma amiga me chamou a atenção de que crianças têm sexo, e eu as estava castrando no meu texto. Então, passei a escrever: “homens e mulheres, adultos e crianças...”. Conto isso apenas para mostrar que rapidamente internalizamos uma percepção geral como se fosse um dado da natureza e, na medida que a assumimos como fato, paramos de questioná-la.
Quando os adultos tentam apagar o corpo das crianças, criam um grande problema para as crianças. E para si mesmos. É um fato que as crianças têm sexualidade. Não é uma escolha ideológica. Essa experiência é parte da nossa espécie e de várias outras. Qualquer pessoa que tenha filhos saudáveis ou acompanhe crianças pequenas próximas sabe que elas se tocam, se masturbam, fazem brincadeiras com os amigos, descobrem que seus pequenos corpos podem lhes dar prazer. E esta já se mostrou uma experiência fundamental para uma vida adulta responsável e prazerosa no campo da sexualidade, que respeite o corpo e o desejo do outro, assim como o próprio corpo e o próprio desejo.
Qualquer adulto que não recalcou sua memória destas experiências com o corpo vai lembrar delas se for honesto consigo mesmo. Quem tem corpo tem sexualidade. O que não pode ter é violência contra esses corpos.
Por que então o corpo nu do artista se tornou ameaçador não para a mãe e para a filha que o tocaram, não para vários outros participantes da performance, mas para quem apenas viu essa cena em um vídeo na internet e a identificou como uma violência – e não qualquer violência, mas aquela que é decodificada como a mais monstruosa de todas, que é a da pedofilia?
Nem todas as crianças devem ser protegidas: apenas as crianças que são “nossas”
Poderíamos pensar no óbvio. A infância é idealizada. Os adultos de hoje parecem precisar manter a criança como um ideal de pureza, protegida dos males do mundo. Essa é uma construção que faz sentido, embora o tempo todo as crianças estejam lidando com filmes, séries e jogos com muita violência, e aqui não estou fazendo juízo de valor se isso é bom ou não. Apenas pontuando que parece não ser de tudo que os adultos entendem que a criança deve ser protegida. Elas podem ir para a escola em carros blindados, do muro do condomínio para o muro da escola, na atual vida entre muros. Mas, ao mesmo tempo, sem colocar seus corpos em risco, arriscar-se em jogos perigosos nos tablets e celulares. A questão, portanto, está na ordem dos corpos.
Aqui, vale apontar algo importante. Nem todas as crianças devem ser protegidas: apenas as crianças que são “nossas”. As crianças dos “outros” podem, por exemplo, ficar no sinal pedindo esmola ou fazendo malabarismos com bolas sem que isso cause suficiente incômodo. Podemos lembrar de um episódio ocorrido no ano passado no Shopping Higienópolis, em São Paulo, no qual um homem branco com uma criança negra numa mesa de café foi abordado pela segurança, também negra: “Senhor, este menino está lhe incomodando?”. Ela tinha ordens de não deixar “pedintes” perturbarem os clientes.
O menino era filho daquele homem, mas mesmo estando com o uniforme da escola, foi visto como a criança indesejada por conta da sua cor. Ou visto como a não criança, se pensarmos no modelo de idealização. Aquela criança poderia simplesmente ser posta na rua, no lado de fora do shopping, se estivesse incomodando o homem branco. E sempre penso nessa segurança, que também era negra, e em como deve ter sido duro para ela e para a criança que ela foi, assim como para a adulta que se tornou, pressionada a cumprir esse tipo de ordem contra si mesma.
Há crianças que, por sua raça e classe, não são crianças para aqueles que detêm o poder e os privilégios
Também penso no que aconteceria se fosse o oposto: um homem negro com uma criança branca com o uniforme de um dos colégios mais caros de São Paulo. Talvez a segurança fosse instada a pensar que o homem negro tinha sequestrado ou estava abusando do menino. E ainda precisamos pensar em como é possível achar legítimo que “pedintes” não possam dividir o espaço de um shopping. Como se o problema fosse apenas de engano, pelo fato de que aquele menino não era pedinte. Em resumo: o olhar sobre os corpos é determinado pela política dos corpos.
Há crianças que, por sua raça e classe, não são crianças para aqueles que detêm o poder e os privilégios. Para elas, a infância ainda não foi inventada. Ou só foi inventada em leis como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que a bancada da bala e da bíblia do Congresso faz um esforço persistente para derrubar. Há crianças, como os episódios no Rio de Janeiro são pródigos em demonstrar, que podem ter a cabeça explodida por uma bala “perdida” da polícia. Podemos concluir que, no senso comum, a infância não foi inventada para todas as crianças.
É evidente que a menina que, junto com sua mãe, participou da performance no museu, sabia que aquele corpo era de um homem nu. Se não soubesse, aí sim seria preciso se preocupar com a criança, porque ela estaria deixando de reconhecer a realidade do corpo do outro. Ao brincar com o corpo do artista, ali convertido num dos “bichos” da obra consagrada de Lygia Clark, a criança não temeu ser atacada por ele. Não só ela estava em segurança, como um corpo de homem nu não era sinônimo de violência ou de ameaça de estupro para ela. E não porque a menina era tão pura que não percebeu a nudez do homem – ou porque era tão pura que não tem vagina, mas porque ela não faz a sinapse maluca de que um corpo nu é sinônimo de violência. Sem contar que estava em público e acompanhada de sua mãe. Se para aquela menina o corpo nu de um homem fosse de imediato um alerta de que ela seria estuprada, então seria preciso se preocupar – e muito – com a saúde mental daquela menina.
Conheço crianças que teriam um sobressalto com o corpo nu de um homem. E conheço crianças que teriam tido um sobressalto também com o corpo nu de uma mulher. Ou que ficariam paralisadas. São crianças que foram abusadas e violentadas por adultos. Em geral seus pais, tios e padrastos, mas também mães e tias. Com bem menos frequência, estranhos. A maioria dos casos de violência sexual contra crianças e adolescentes, como é comprovado, são casos de incesto. E acontece dentro do que a bancada da bíblia defende ser uma família “como deus criou” e, portanto, a única aceitável: a de homem com mulher. Não é um juízo de valor, é um dado estatístico. Em todas as classes sociais.
É necessário perceber o quanto é absurda a ideia de que um corpo nu de homem seja sinônimo de violência sexual
A menina que participou da performance com sua mãe não sofreu violência sexual. A violência que sofreu foi a de ter sido exposta na internet como vítima de pedofilia. Esta possivelmente a marcará de alguma forma. Assim como marcou o artista e a mãe da menina. Há uma outra pergunta, também bastante óbvia, mas nem por isso menos importante. As pessoas que se chocaram e, em seguida, atacaram o artista, acham que elas mesmas, caso estejam nuas com uma criança, são capazes de violar essa criança? É isso que temem? É o medo do que ronda nos seus interiores que as transforma em linchadoras? É de si mesmas que querem proteger as crianças?
É necessário perceber o quanto é absurda – ou mesmo violenta – a ideia de que um corpo nu de homem seja sinônimo de violência sexual. Bastaria então um homem estar nu, para de imediato atacar a criança que estiver perto dele, como se essa fosse a condição de todo homem? Caso isso fosse verdade, seria uma bermuda ou qualquer outra roupa que impediria a violência? Alguma vez alguma violência foi impedida porque alguém não conseguiu exercê-la por causa da roupa? Não são justamente as roupas um grande objeto de fetiche sexual na sociedade de consumo?
Todas essas me parecem perguntas importantes, que exigem respostas honestas e investigativas. Mas há algo mais. A psicanalista Ilana Katz, que tem uma larga experiência clínica com crianças, fez uma reflexão muito precisa no programa Café Filosófico, da TV Cultura (que reprisa no próximo dia 18 de março, às 21h). Ela apontou que podemos estar num momento de transformação da ideia de infância. A famosa frase de Freud – “Sua majestade, o bebê” – pode já não dar conta de uma transformação mais recente. A frase expressa a ideia do filho como centro do investimento da família, o que vai prender a criança na posição de objeto de realização do desejo do pai e da mãe. Algo do tipo: “Meu filho vai ser tudo o que eu não sou”.
Nesta posição, a criança determina todo o investimento emocional e financeiro da família, o que a coloca num lugar bastante insuportável, porque pesado demais: o de bancar o desejo dos pais ou a realização dos pais. É muito não só para um pequeno corpo, mas para qualquer corpo. E, assim, as crianças sofrem bastante, a começar pelo peso de uma agenda cheia de aulas para que tenham habilidades que as tornem melhores do que as outras – ou as tornem o que seus pais não puderam ser. Ou, melhor dito, se tornem o impossível. Algo expresso numa frase seguidamente ouvida da boca de muitos pais: “Só quero que meu filho seja feliz”.
Só?
“Transmitimos algo a nossas crianças quando estamos de corpo presente e cabeça ausente ao seu lado”
Com a mudança trazida pela internet e por todos os brinquedos tecnológicos que se seguiram a ela, porém, uma nova relação se estabelece. Não é que a criança como objeto narcísico tenha deixado de existir, pelo contrário. Basta olhar ao redor para compreender que ela é uma ideia ainda bastante ativa. Mas há uma outra relação que se colocou em movimento com a transformação tecnológica.
É frequente que pai ou mãe estejam no mesmo espaço físico que a criança, mas cada um brincando com seu tablet ou celular ou qualquer outra coisa. Ali, mas falando com outras pessoas. “Transmitimos algo a nossas crianças quando estamos de corpo presente e cabeça ausente ao seu lado. Estamos ali, mas gozamos em outro lugar”, diz Katz.
Neste lugar, o das conversas digitais, estão também pessoas que valorizamos. Mas nem nós estamos lá com nossos corpos, nem elas estão lá com seus corpos. “A ideia de que estejamos ali, do lado de nossas criancinhas, de corpo presente e gozando em outro lugar – vai vendo seu filminho enquanto eu estou aqui fazendo de conta que converso sobre ele com você e respondo aos oito e-mails que sobraram de meu dia de trabalho –, vai tecendo uma maneira de estar com o outro para cada um de nós, e para criança também”, assinala a psicanalista. “O que a gente transmite sobre estar com o outro para essa criança? O que é para ela estar com o outro? Qual é o lugar do corpo?”
A partir dessa observação, passo a me perguntar o que aconteceu no museu e fora do museu. Aquela mãe e aquela filha estavam lá com seus corpos. Elas compartilhavam uma experiência, a de participar de uma performance artística. Havia lá um outro corpo, o do artista, que também estava presente. É isso, afinal, uma performance. Algo que acontece com os corpos presentes.
Mas havia alguém, a pessoa que fez o vídeo, que talvez não tenha suportado estar com seu corpo ali, tanto que precisou colocar uma câmera entre o seu corpo e os outros corpos. Fez então a “denúncia”, ao lançar o vídeo na internet. Mas lançar o vídeo na internet não mais como aquilo que era, uma experiência de corpo presente, uma experiência de compartilhamento do espaço, mas sim lançá-lo como o que não era, o recorte de um vídeo, uma imagem de corpos, mas sem os corpos.
O que essa pessoa estaria denunciando? O que a horrorizou tanto? Talvez o fato de que ainda é possível estar com nossos corpos presentes e compartilhar uma experiência, sem que essa experiência seja uma violência.
Ou talvez a descoberta de que, sim, há corpos. Era preciso destruir o corpo que teve a ousadia de se dar ao outro como objeto lúdico. Era preciso destruir o artista e também culpar a mãe por acreditar que é possível ter uma experiência de corpo presente. Assim como tornar vítima uma criança que não era vítima.
Diante do espanto com a possibilidade dos corpos presentes sem violência, era preciso converter o acontecimento em violência, fazendo a denúncia de uma violência que nunca houve. E então, sim, violentar os corpos.
No mundo dos sem corpos, o corpo do outro se tornou uma ameaça
Esta é uma parte. Há outras. Talvez a mais interessante seja a de que começamos a ter uma dificuldade de outra ordem com nossos corpos e, portanto, também com a sexualidade e com o erotismo, que é o que nos leva ao contato com o outro. É claro que podemos contar a história da humanidade também como uma história da sexualidade ou uma história do controle sobre os corpos. Há algo novo, porém, que é a possibilidade de estar com o corpo num lugar e a cabeça no outro.
No mundo dos sem corpos, no mundo em que se goza cada vez mais sem a experiência do compartilhamento com os corpos, o corpo do outro talvez tenha se tornado uma ameaça. O corpo do outro nos ameaça com o toque, que não é o do aviso de mensagem no WhatsApp. E, assim, qualquer possibilidade de encontro entre corpos não é encontro, mas violência. E então, como aconteceu no episódio do museu, colocamos nossos corpos na rua, mas só para destruir os outros corpos. Os corpos como um contra, não um junto.
Nessa deformação, há um esforço também para eliminar pênis e vaginas da representação dos corpos nos livros didáticos e também em qualquer representação da infância. Como se as possibilidades tecnológicas que permitem manipular e retocar as imagens servissem também para isso. No campo da educação, é a escola sem pinto. Também como representação, temos amputado e mutilado os corpos humanos. E logo as crianças terão talvez apenas fantasmagorias para dizer de si. Não é por acaso que tantas crianças e adolescentes se sentem sem contornos, a experiência de ter corpo como algo insuportável. E insustentável.
Deletar da concepção de infância o corpo das crianças parece ser uma nova modalidade de violência
São duas categorias. Uma é dada pelas relações de prazer da criança com seus corpos durante a infância. Outra, inteiramente distinta, é fazer da criança um objeto sexual para adultos. Parece que muitos confundem uma coisa com outra, tomando o diferente como o mesmo. Deletar da concepção de infância o corpo das crianças parece ser uma nova modalidade de violência.
Aqueles que que violentaram a performance do museu sabem que as crianças têm corpo. E que os corpos infantis sentem prazer também erótico. E isso é natural. Cabe aos adultos encontrar limites diante dessa realidade.
O que deve nos preocupar é outro fato: o de que os adultos atuais se sentem tão frágeis, tão incapazes de se colocar limites diante dessa percepção, que precisam eliminar a dimensão erótica do corpo das crianças para que não se sintam compelidos a atacá-las. Neste sentido, a possibilidade tecnológica de viver uma vida sem corpos com nossos brinquedos digitais acirrou um nó que é bem mais enraizado. Exatamente porque a vida humana sem corpo é só uma fantasia. E uma fantasia bastante desesperada, como o acontecimento do museu demonstra.
É também por isso, por causa do medo dos corpos, que o debate está interditado. Ensinar a ter medo do corpo do outro, ensinar que a experiência com o corpo do outro é sempre uma violência, ensinar a punir quem tenta romper o muro entre os corpos, são as lições que temos dado às crianças. E com a desculpa perversa de protegê-las.
Ao inventar uma infância sem corpo, ou com medo do corpo, os adultos de hoje são péssimos criadores de futuro.
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com

Depois de titubear, Globo abraça Marielle. Por quê? Amadeu, Fernando Morais e Leandro Fortes explicam



Depois de titubear, Globo abraça Marielle. Por quê? Amadeu, Fernando Morais e Leandro Fortes explicam

16 de março de 2018 às 13h34


A infame disputa de narrativas
por Sergio Amadeu, no Facebook
A Globo e a revista Veja começaram a disputar a narrativa sobre a execução da militante negra e vereadora do PSOL, Marielle Rocha.
As direções desses órgãos promovem a descontextualização dos fatos, desvirtuam a história e agridem a memória e a luta de Marielle.
Tentam retirar o conteúdo político, anti-racista, feminista, em defesa dos direitos humanos, querem anular sua militância de esquerda.
Ela era do PSOL.
Foi assessora do Freixo que anda com seguranças para evitar um ataque das forças paramilitares.
A Veja vai mais longe e destaca a frase de Temer na capa.
Temer falando de atentado à democracia (sic).
Já a Globo faz de tudo para mostrar que a execução foi para desmoralizar a ação militar no Rio.
Cinismo sem fim. Um insulto de quem é capaz de tudo.

por Fernando Morais, no Facebook
A cobertura destinada pelo Jornal Nacional ao assassinato da vereadora Marielle Franco é uma escancarada tentativa de compra de indulgências pela moribunda Rede Globo.
Agora é tarde.
A família Marinho e as Organizações Globo são inimigas do Brasil e dos brasileiros e assim serão tratadas.

2013 DE NOVO
por Leandro Fortes, no Facebook
A Globo e seus acólitos iniciaram um movimento explícito — e escandaloso — para capturar a morte de Marielle Franco, de forma a controlar a narrativa do fato, da mesma forma que fez, com total sucesso, com as chamadas “jornadas” de 2013.
A capa de O Globo com “Marielle presente” não é uma homenagem, é um escárnio.
O Grupo Globo jamais se preocupou com as bandeiras de Marielle, nem muito menos com os grupos sociais que ela defendeu até morrer.
Marielle nunca teve voz nem presença nessa mídia simbolizada pela Globo, muito pelo contrário: a Globo e seus mervais, kamels e jabores sempre estiveram do lado oposto do discurso e da vida de Marielle.
O que se pretende é capitalizar a comoção popular, com repercussões internacionais, de modo a controlar as reações políticas internas e evitar a construção de um argumento sólido contra a intervenção federal, no Rio, e, por extensão, o golpe.
A edição do Jornal Nacional (que não vejo, por determinação médica), festejada por muita gente boa nas redes, é a revelação em si desse movimento.
Ou alguém acredita mesmo que o JN está em lágrimas por conta de uma militante negra, favelada e socialista, em plena ditadura fardada nas comunidades cariocas?
O povo não é bobo.
E a Globo, menos ainda.
PS do Viomundo: Além de tudo, a Globo trata de rachar a esquerda. Ela quer prender Lula de qualquer maneira, como objetivo central do golpe que ajudou a promover: impedir que alguém de esquerda ganhe as eleições em 2018, com uma proposta que coloque em xeque a receita neoliberal. Mas, ao se mostrar simpática — agora — a Marielle, ainda que como ícone despolitizado, ela tenta ganhar créditos na esquerda não petista para prender Lula. Diferentemente do bordão, a Globo acha mesmo que o povo é bobo.

As Marias Antonietas de toga


As Marias Antonietas de toga

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Enquanto o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes toma conta das conversas entre as pessoas em todo o país, nos salões refrigerados dos prédios da Justiça, em todo o país, os senhores magistrados e promotores faziam sua “greve” em defesa do auxílio-moradia indiscriminado e de reajustes dos vencimentos que, nas palavras do presidente da Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Anamatra), Guilherme Feliciano, “hoje estariam em R$ 47 mil”.
Pobres coitados, chegam a dizer que estão sendo perseguidos.
É o escárnio escancarado em um país que tem juízes – e muitos, quase 20 mil – e não tem Justiça e  que tem outros milhares de promotores de Justiça que não a promovem, preferindo dedicar-se à uma espécie de cruzada moralista que perdeu todos os cuidados com a honra alheia e que transforma julgamentos em linchamentos.
É o deboche à inteligência humana, que se soterra ante a histeria de quem diz que uma sociedade que encarcera 700 mil pessoas, quase, tem de resolver seus problemas imensos de segurança prendendo mais gente e por mais tempo.
Poucos e raros dos “gravatinhas” que querem ganhar quase R$ 50 mil, afora “penduricalhos”, tiveram a coragem trágica de agir, com a energia devastadora que agem quando se trata de criminalizar a política quando lhes caíam às mãos, às centenas, indícios de que as corporações policiais estavam infestadas até a medula por esquemas de controle do tráfico de drogas, de armas, de contrabando, de todos os ilícitos que se possa imaginar.
Um destes casos, todos recordam, foi o da juíza Patrícia Acioli, assassinada com 21 disparos, aqui perto de casa, por ter  sido a responsável pela prisão de cerca de 60 policiais ligados a milícias e a grupos de extermínio.
Se houvesse no país um Ministério Público digno deste nome, o Ministro da Justiça seria chamado a explicar-se por ter dito, com todas as letras, há seis meses, que comandantes de batalhões da PM fluminense eram “sócios do crime organizado”.
Quem pode garantir que não veio de um destes sócios o medonho comando para a morte de Marielle, que deixa pendurado no pincel o general interventor da Segurança e suas anunciadas – apenas anunciadas – intenções de moralizar a polícia. Pois não foi preciso atravessar a distância entre intenção e gesto para que lhe jogassem um cadáver aos pés.
Num caso com tudo para ter toda a imensa repercussão que está tendo aqui e lá fora e que mostra o quanto é estúpida e constrangedora a tática primária de “fichar pelo celular” os moradores desta ou daquela favela.
Os juízes gulosos, os policiais corruptos que comandam ou se associam às drogas e armas, os políticos que se associam a este jogo hipócrita de pedir mais penas e mais balas sobre os “bagrinhos do crime” e a mídia que despertou a corja de imbecis que se regojizam nos sites e redes da internet por ter sido assassinada uma mulher a quem, por defender pobres, chamavam de defensora de bandidos são todos parte do cinismo dominante da sociedade brasileira.
Eles são o caldo podre de uma cultura de repressão e de morte, cujos antídotos –  a justiça social, a educação, a polícia e o judiciário que ajam sobre as causas e não sobre o varejo das consequências da criminalidade – se tornaram “malditos”.
O crime, afinal, é um bom negócio para eles: garante-lhes os empregos, o reconhecimento dos salões, o “faz diferença”.
Portanto, que se elimine qualquer um que tente tornar este país um pouco menos dividido.
O Brasil das elites pode ser bem vestido, bem banhado, perfumado. Mas como fede.