sexta-feira, 30 de março de 2018

Nietzsche explica

Nietzsche explica "O Mecanismo": série explora o veneno psíquico nacional do ressentimento

blog cinegnose


http://cinegnose.blogspot.com.br/2018/03/nietzsche-explica-o-mecanismo-serie.html





O diretor José Padilha rebate às acusações de “Fake News” à série brasileira Netflix “O Mecanismo” alegando que é uma obra de ficção: uma “dramatização” da Operação Lava Jato. Porém, como obra de ficção, Padilha atirou no que viu e acertou no que não viu: sem a prisão de Lula, planejada para a semana do lançamento de “O Mecanismo”, a série foi deixada por si mesma. Sem o apoteótico final que a impulsionaria, a série revelou ser feita do mesmo material de propaganda indireta da atual guerra híbrida brasileira – o envenenamento psíquico pela doença do ressentimento. Como narrativa ficcional, “O Mecanismo” nada mais é do que uma tentativa de transformar ressentimento, ódio e frustração dos protagonistas em valores estoicos, nobres e patrióticos. A grande “virtude” de “O Mecanismo” é ser uma prova de como a “doença do ressentimento”, a “condição mais perigosa do homem” para Nietzsche, transformou-se em matéria-prima de propaganda política indireta.

A concessão da liminar a Lula pelo Supremo Tribunal Federal nessa última quinta-feira melou o que seria uma perfeita bomba semiótica dentro do quadro atual de guerra híbrida que mal os brasileiros estão percebendo.

Na semana em que a plataforma Netlix lançava a série de José Padilha O Mecanismo (baseado nos acontecimentos da Operação Lava Jato), a presidente do STF Carmen Lúcia manipulava a pauta do Supremo para que Lula fosse preso nesses próximos dias. E como planejado, tudo se encerraria numa  entrevista com o juiz Sérgio Moro, no programa Roda Viva da TV Cultura de São Paulo, nessa segunda-feira. E (por que não?) dando a ordem de prisão ao vivo em uma final apoteótica para o distinto público.

Mas os juízes do Supremo adiaram tudo para depois da Páscoa. E restou para a série  O Mecanismo tentar sustentar-se por si mesma, sem o bombástico contexto que seria criado com a prisão do líder trabalhista.

E deixada por si mesma, a obra de José Padilha não consegue se sustentar: a necessidade insistente de voice over para explicar buracos no roteiro e os sentimentos que motivam as ações dos personagens, roteiro sem sutilezas (Rigo, o Juiz Sérgio Moro de Padilha, lê um HQ chamado “Vigilante Sombrio”), protagonistas idealizados e pairando sobre o bem e o mal e um roteiro que mal esconde o desequilíbrio – embora, a certa altura, a narração em of reivindique à Justiça brasileira equilíbrio e imparcialidade.  

Sem a razão, motivo e propósito de sua existência (a prisão de Lula), O Mecanismo no entanto revela involuntariamente um segredo: a matéria-prima psíquica que foi mobilizada pelas bombas semióticas, nos últimos anos, para produzir aquilo que o russo Andrew Korybko chama de “caos sistêmico” ou “caos estruturado” na sua obra “Hybrid Wars: The Indirect Adaptive Approach to Regime Change” (clique aqui, em inglês) – o envenenamento do psiquismo nacional pelo mecanismo regressivo do ressentimento.


Imprecisões oportunas


Todas as oportunas “imprecisões” na série (por exemplo, fala-se do esquema de corrupção do “Banco do Estado” que teria começado em 2003 – na verdade, o caso Banestado começou nos anos 1990 nos governos FHC) podem ser interpretadas como “licença poética” como logo no início Padilha alerta aos espectadores: “essa é uma obra de ficção livremente adaptada... etc.”.

Porém, como obra de ficção é uma perfeita e didática bomba semiótica por expor, in natura, o esgoto psíquico de onde foi retirado todo o ressentimento que alimentou mal estar, ódio, intolerância, polarizações cuja propaganda indireta da guerra híbrida deu forma e sentido... ou seja, o “caos estruturado” do qual se refere Korybko.

O tema central da série é o ressentimento, muito mais do que uma suposta dramatização da Lava Jato. O que comprova a natureza da produção Netflix: é mais um veículo de propaganda, como muitos outros desde 2013, a incutir o ódio e o ressentimento como doença psíquica nacional que legitimou todo o golpe e a crise política.

Tirando os vilões (doleiros, empreiteiros e as caricaturas de Lula e Dilma Rousseff), todas as motivações dos “mocinhos” são originadas no ressentimento – o ódio e desejo de vingança por descobrirem que “Deus não é brasileiro”, que a Justiça não existe, por descobrir que depois 20 anos de trabalho na Polícia Federal o protagonista vai apenas receber migalhas de auxílio-doença da Previdência.

Ou por dó por ver “heróis anônimos” levando uma vida miserável enquanto doleiros enriquecem e sustentam “as mais caras campanhas eleitorais à presidência”... Logicamente, as campanhas das parodias de Lula e Dilma.  

Por isso, a obsessiva necessidade narrativa de voice over para tentar explicar as motivações dos protagonistas. É a única maneira dos criadores José Padilha e Elena Soarez tentar atribuir alguma motivação nobre, patriótica ou estoica para os heróis. Mas o que as imagens nos mostram mesmo é o mesmo envenenamento psíquico que a propaganda indireta da Guerra Híbrida (as “bombas semióticas”) inoculou nos corações e mentes de uma nação.


A série


A dupla Padilha e Soarez também tenta nos vender a ideia de que o tal “mecanismo” do título está por trás de tudo como “um câncer” como obsessivamente repete o policial federal Marco Ruffo (Selton Mello): na esquerda, na direita, na presidência, na empresa estatal, na “cervejinha” paga ao policial, na falsa carteirinha de estudante.

Mas o “câncer” mesmo está no clone de Lula: ele fala em “estacar a sangria” da Lava Jato e em “grande acordo nacional”. Na verdade, quem usou essas frases foi Romero Jucá no infame diálogo com Sérgio Machado... Mas, afinal, quem se importa. Ele já estaria preso, não fosse a “tremedeira” do STF. O que  daria um belo empurrão promocional à série.

Ruffo fica obcecado pelo esquema corrupto do doleiro Roberto Ibrahim (Enrique Diaz). Junto com a sua companheira de investigações e aprendiz Verena (Croline Abras), Ruffo descobre um gigantesco mecanismo de corrupção envolvendo, logicamente, todo o fornecimento de dinheiro para as campanhas eleitorais de uma alusão ao PT e superfaturamento na “Petrobrasil”.

Padilha e Soarez fazem questão de reforçar ao espectador o contraste entre a vida contida financeiramente do herói (“levei 20 anos para dar um carro para minha esposa”, lamenta Ruffo), numa casa humilde e com uma filha que necessita de cuidados especiais, e as cifras milionárias manipuladas pelo doleiro Ibrahim.

Ruffo não se conforma em olhar para sua esposa e filha como um perdedor e a precária vida material que consegue dar a elas. Sua motivação profunda é a vingança, a justiça custe o que custar. Ressentido, sofrendo derrotas atrás de derrotas, sente-se paralisado pela Justiça (“às vezes tenho vontade de meter uma balas na sua cabeça!”) e quase a dupla Ruffo/Ibrahim se transforma na dupla atormentada Batman/Coringa do cinema e das HQs.


Ressentimento como arma política


Ressentimento sempre foi uma arma da propaganda política. Para Nietzsche, o ressentimento se transforma em doença quando as forças ativas perdem a capacidade de atuar e o indivíduo deixa-se contaminar. Então a sede de vingança começa a ganhar forma e buscar por um sentido.

E a propaganda política com seus bodes expiatórios e soluções finais está sempre atenta: golpes, intervenções militares, sanha persecutória, linchamentos etc oferecem a tradução política para essa doença.

Para Nietzsche, o ressentimento surge da oposição entre duas visões de mundo: a ativa, aceitar o mundo como é e tentar adaptar-se a ele aplicando seus instintos; e a reativa, que não aceita esse mundo e nega os instintos por pertencerem a esse mundo.

Logo cresce o sentimento de que alguma coisa é a culpada pela inércia, paralisia e o mal-estar. De imediato vem a ideia de vingança, mas é necessário agir. O que foge da capacidade do ressentido. 

O ressentimento é introjetado, criando o ódio – a matéria-prima à espera de uma tradução em um slogan, uma campanha, um bode expiatório. Mas, principalmente, à espera de alguém que, por delegação, faça o trabalho de vingança: um herói, um vingador que esteja acima do bem e do mal. Acima da Lei, da Constituição, do Estado de Direito – na verdade, para o ressentido, instituições que só dificultam a justiça.


O Mecanismo gasta os primeiros episódios para descrever esse cenário de impotência, esforço e sacrifício de destemidos investigadores federais e do Ministério Público (destacando o caso de um policial que veio da favela e graças ao esforço e mérito tornou-se um servidor público), da tragédia pessoal e familiar de Ruffo até os esforços inúteis daquele que lutaram toda uma vida para serem servidores concursados. Enquanto doleiros e políticos corruptos se locupletam em dinheiro e poder.

Tudo para criar esse quadro de frustração e ressentimento. Na verdade,O Mecanismo tenta transformar em motivações nobres a doença do ressentimento que tanto Nietzsche denunciava.

Doença que levou o País a ficar eletrizado pelo espetáculo de meganhamento da Justiça, com policiais federais encapuzados empunhando escopetas negras, ao vivo na TV.

A dupla de criadores Padilha e Soarez atirou no que viu e acertou no que não viu. Se a “dramatização” da Operação Lava Jato foi paródica e tosca, por outro lado, O Mecanismo é um documento exemplar do espírito do seu tempo: o ressentimento em estado bruto explorado como arma semiótica política.

A Guerra Híbrida ainda está em curso até o seu objetivo final: ódio, ressentimento e medo como atmosfera psíquica dominante que transformará, para os cidadãos, até razoável o impedimento das eleições desse ano. Afinal, não foi para isso que foi dado o golpe político?  

Ameaças no STF e tiros a ônibus de Lula colocam Brasil em espiral intimidatória

Ameaças no STF e tiros a ônibus de Lula colocam Brasil em espiral intimidatória

apud Jornal El País

Ministro Fachin relata ameaças, enquanto tiros atingem ônibus da caravana petista.

País vive escalada de tensão às vésperas do julgamento de habeas corpus de Lula

Edson Fachin e ex-presidente Lula
O ministro Edson Fachin (à esq.) e o ex-presidente Lula.
Faz só duas semanas que o Brasil parou estarrecido diante do assassinato da vereadora Marielle Franco, no Rio de Janeiro, com quatro tiros que estouraram a sua cabeça. Agora, a execução da política do PSOL e do motorista Anderson Gomes parecem ser apenas mais um episódio dentro da escalada de violência e intimidações em que o país mergulhou nas últimas semanas. Nesta terça, três disparos de arma de fogo atingiram dois dos três ônibus da caravana do ex-presidente Lula pelos Estados do sul do Brasil, entre os municípios de Quedas do Iguaçu e Laranjeiras do Sul, no Paraná. As balas danificaram a lataria dos ônibus mas não atingiram ninguém. O ex-presidente não estava em nenhum dos ônibus atingidos.
Poucas horas antes, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e relator da operação Lava Jato, Edson Fachin, disse em entrevista à Globo News, que ele e sua família estão sofrendo ameaças, embora não tenha especificado o teor das intimidações. As ameaças ocorreram há três semanas e, desde então, a segurança de Fachin começou a ser reforçada. “Nos dias atuais uma das preocupações que tenho não é só com julgamentos, mas também com segurança de membros de minha família”, disse o ministro ao jornalista Roberto D'Ávila.
A caravana de Lula, por sua vez, já vinha experimentando um clima de hostilidade, com o bloqueio de acesso a algumas áreas, barricadas, ovos e até pedras arremessados contra Lula e sua militância. Nesta segunda-feira, a equipe do ex-presidente foi flagrada em uma cena censurável: um segurança de Lula agrediu o jornalista Sergio Roxo, do jornal O Globo quando ele filmava com o celular cenas de protestos contra a caravana.
Mas os tiros inesperados aumentaram o fogo do caldeirão em que o país se meteu neste ano eleitoral, ainda imerso na polarização política. Desde que o ex-presidente, que lidera as pesquisas de intenção de voto, foi condenado a 12 anos e um mês de prisão no Tribunal Regional Federal da Região 4 em (TRF-4), em janeiro por corrupção e lavagem de dinheiro no caso do triplex do Guarujá, o partido decidiu mantê-lo como pré-candidato. O gesto tem sido visto como uma afronta pelos antipetistas que fazem questão de hostilizá-lo publicamente. As cenas filmadas da chuva de ovos atirada contra a caravana mostram bem essa realidade.
O Supremo, por outro lado, vive os reflexos da polarização mais radical com o julgamento do habeas corpus de Lula, marcado para o dia 4 próximo. Se a Corte acatar o pedido da defesa do petista, poderia livrá-lo da prisão no caso do triplex do Guarujá. A pressão aumentou, seja por ameaças veladas como as relatadas por Fachin, mas também em comentários públicos, como o tuíte do general Paulo Chagas, que faz um alerta ao STF. “Cumpro o dever cívico e cristão de alertá-los para o risco de brincar com a passividade do povo e com a paciência de quem, em silêncio, apenas observa e avalia, porque, quando o futuro e a segurança da Nação estão em jogo, tanto quanto o silêncio do lobo, a passividade pode, num repente, dar lugar à cólera das multidões”, afirmou. Também o grupo Movimento Brasil Livre tem feito convocatórias para protestos no dia 3, sob o lema "Ou você vai, ou ele [Lula] volta".

Reações sob clima belicoso e eleitoral

Na noite de terça, o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, foi o primeiro do staff do Governo Temer a repudiar os tiros à caravana petista. “Isso é absolutamente antidemocrático”, disse em uma entrevista coletiva em Brasília afirmando que não se pode “admitir confrontos”. Nesta quarta, foi a vez do próprio presidente Michel Temer se manifestar pelas redes sociais. “Lamento o que aconteceu com a caravana do ex-presidente Lula. Desde quando assumi o governo, venho dizendo que nós precisamos reunificar os brasileiros. Precisamos pacificar o País. Essa onda de violência, esse clima de ‘uns contra outros’ não pode continuar”, escreveu ele, mencionando o jargão adotado por Lula do “nós contra eles”, que inflama ainda mais a divisão do país.
Foto de um dos buracos deixados pelos tiros em um dos ônibus.
Foto de um dos buracos deixados pelos tiros em um dos ônibus.
O clima belicoso – e eleitoral – também abriu espaço para declarações infelizes, como a do governador e pré-candidato Geraldo Alckmin (PSDB) que afirmou na noite de terça que com os tiros à caravana “o PT colhe o que plantaram”. A frase foi lida como a legitimação da violência que poderia ter matado integrantes da comitiva além dos jornalistas que acompanham a carreata, e que estavam no ônibus atingido pelos disparos. O prefeito de São Paulo e pré-candidato ao governo paulista,João Doria (PSDB), seguiu na mesma linha ao afirmar que “o PT sempre utilizou de violência, agora sofreu da própria violência”.
O mal-estar com a frase dos dois tucanos foi a deixa para que outros políticos moldassem os discursos desta quarta. De Henrique Meirelles, ministro da Fazenda e potencial pré-candidato, ao próprio Alckmin e Ciro Gomes (PDT), se manifestaram pelas redes sociais repudiando os tiros. “Toda forma de violência tem que ser condenada. É papel das autoridades apurar e punir os tiros contra a caravana do PT. E é papel de homens públicos pregar a paz e a união entre os brasileiros. O país está cansado de divisão e da convocação ao conflito”, escreveu Alckmin no twitter. Marina Silva, da Rede, Guilherme Boulous, do PSOL, já haviam se posicionado apontando a gravidade dos disparos na própria terça. O silêncio de Jair Bolsonaro também foi notado diante da gravidade dos fatos.

"Bang bang"

A caravana do ex-presidente Lula começou a percorrer o país em agosto do ano passado, a partir da região Nordeste. Depois disso, o pré-candidato e sua militância passaram por Minas Gerais, Rio de Janeiro e agora percorrem a região Sul. Três ônibus formam o comboio pelas estradas. Olhando de fora, não é possível saber em qual deles Lula está.
Os Estados do sul, onde o ex-presidente têm o menor percentual de intenções de voto - cerca de 20%, de acordo com a última pesquisa Datafolha, contra 37% no âmbito nacional –, foi a que mais registrou cenas de tensão e hostilidade contra a caravana.
No momento em que os ônibus foram alvejados, não havia nenhuma manifestação ocorrendo. Antes dos disparos, um dos ônibus passou por cima de alguns miguelitos, espécie de estrelas de prego. Os pneus foram furados, o que fez com que a velocidade fosse reduzida, e então os disparos aconteceram. A sequência dos fatos reforça a tese da militância de que a caravana foi alvo de uma emboscada. “Podemos dizer isso claramente”, disse a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), que acompanhava a viagem. A jornalista Eleonora de Lucena, que estava num dos ônibus alvejados, classificou o episódio como um “atentado”. "A escalada fascista subiu mais um degrau. Grupos ultradireitistas não enxergam limites", escreveu ela na Folha de S. Paulo.
Na busca pelos autores dos disparos, o PT e a Secretaria de Segurança Pública do Paraná atribuem a responsabilidade um ao outro. Gleisi Hoffmann disse que mandaram “as informações [sobre a caravana] ao governo do Estado do Paraná e falamos com o comando da Polícia Militar”. Mas a secretaria de Segurança informou que “não houve pedido formal de escolta da caravana do ex-presidente e no o próprio ex-presidente, embora ele tenha esta prerrogativa”. Diz ainda que houve “alteração, por parte dos organizadores da caravana, do roteiro e do cronograma que foram informados previamente às forças de segurança do Estado”.
A Secretaria de Segurança Pública do Paraná informou, por meio de nota, que será feita uma perícia no ônibus e “se constatado um disparo de arma de fogo, será aberto um inquérito policial para apurar os fatos”. Mas o delegado de Laranjeiras do Sul, onde ocorreu o incidente, afirmou ao jornal O Globo que vai tratar o caso como “tentativa de homicídio”. Ele acredita que ao menos duas pessoas participaram da ação, já que há tiros dos dois lados de um mesmo ônibus.
Hoffmann também diz que enviou ao ministro Raul Jungmann um ofício da caravana pedindo apoio e segurança. A informação não foi confirmada e nem desmentida pela assessoria de imprensa do ministério até o fechamento desta reportagem. “O fato é que não temos proteção”, afirmou a senadora. “Vamos deixar se transformar nisso a política? Vai virar um bang bang? Nós poderíamos ter uma pessoa morta ou mais aqui”.
O encerramento da caravana será nesta quarta-feira em Curitiba, sede da Justiça Federal do Paraná, espécie de quartel-general da primeira instância da Operação Lava Jato. Por coincidência, o deputado pré-candidato Jair Bolsonaro também terá compromisso na capital paranaense na mesma data. Outros pré-candidatos da esquerda à presidência, Guilherme Boulos (PSOL) e Manuela D’Ávila (PCdoB) confirmaram que estarão com Lula no ato final em apoio ao petista depois do ocorrido. A Polícia Militar afirma que reforçou o policiamento em todos os locais indicados pelos representantes da caravana.

Toledo: Alckmin estabacou-se ao falar de Lula


Toledo: Alckmin estabacou-se ao falar de Lula

José Roberto de Toledo, a meu ver o melhor analista de pesquisas eleitorais do país, escreve na Piauí, publicada pela Folha, o diagnóstico mais arrasador sobre a tentativa de Geraldo Alckmin de pegar carona do movimento pistoleiro de extrema direita.  O chuchu queimou-se, como cedo se disse  aqui.

Lula, Alckmin e dois canos fumegantes

José Roberto de Toledo
Fora o solitário 1% de intenção de voto espontânea no Datafolha, até que a corrida presidencial estava bem armada para Geraldo Alckmin. O tucano superara o risco de disputar votos com um antipolítico popular tipo Luciano Huck; o rival Jair Bolsonaro havia sido contido pela onda de opinião pública que se seguiu ao assassinato de Marielle Franco; e o favorito da disputa estava prestes a levar a culpa pelo desmonte da Lava Jato e ainda ter a candidatura cassada pela Justiça Eleitoral. Bastava jogar parado e ganhar por falta de oponente, mas Alckmin arriscou dar um pique. Estabacou-se.
Quatro tiros acertaram dois ônibus da caravana de Luiz Inácio Lula Silva enquanto o petista e sua entourage percorriam estradas paranaenses, na terça-feira. Esses quatro tiros não tiveram a mesma precisão dos que mataram Marielle. Nem talvez a mesma intenção assassina. Acertaram apenas as carrocerias – em lados diferentes e ao mesmo tempo, sugerindo que havia dois atiradores. Para azar deles, num dos ônibus atingidos viajavam repórteres que cobrem a caravana. Por isso, a narrativa prevalente do ataque foi ditada sob o ponto de vista dos alvos, e não de quem só colhe aspas, como sói acontecer no império do jornalismo declaratório.
Assim, os primeiros títulos genéricos e que deixam espaço para dúvida – como “tiros atingem ônibus de caravana de Lula, dizem petistas” – logo viraram afirmações categóricas: “Caravana de Lula sofre ataque a tiros no Paraná.” Havia os estampidos, havia os buracos de bala e havia o depoimento dos próprios repórteres.
Entrevistado sobre o ataque logo antes de assistir à pré-estreia da cinebiografia do bispo Edir Macedo – dono da TV Record e da Igreja Universal do Reino de Deus –, Alckmin pareceu ignorar a gravidade de um candidato a presidente da República como ele entrar literalmente na linha de tiro. Atribuiu a culpa aos alvos: “Estão colhendo o que plantaram”, afirmou o tucano sobre os petistas. À repórter Anna Virginia Balloussier, da Folha, acusou o PT de tentar rachar o Brasil. “Acabaram sendo vítimas”, concluiu. Exatamente. Acabaram sendo vítimas. O melhor papel em uma trama eleitoral tão radicalizada quanto a de 2018.
O nome do filme a que Alckmin tinha ido assistir é Nada a Perder. O candidato do PSDB tem pouco a ganhar fazendo uma declaração duplamente desastrada sobre o que a polícia do Paraná (governado pelo tucano Beto Richa) ainda investiga, mas já classifica como tentativa de assassinato. É o contrário de Lula. Ao passar ao papel de vítima – como reconheceu Alckmin –, o petista fica na mesma situação do bispo Macedo na tela. Lula já tinha perdido. Agora, ganhou a chance de recuperar alguma coisa.
Como pode o líder disparado nas pesquisas de intenção de voto (17% na espontânea, e de 34% a 37% nos cenários estimulados pelo Datafolha) não ter nada a perder? Intenção é fumacinha. Lula não pode perder votos que só existiriam se ele conseguisse chegar à urna. Dificilmente chegará. Condenado e sem mais chance de recurso à segunda instância, o ex-presidente caiu no rol dos que a Lei da Ficha Limpa proíbe de disputar eleições. Sua candidatura tem tudo para ser indeferida pelo Tribunal Superior Eleitoral, o TSE. Não só.
Do jeito que o Supremo Tribunal Federal encaminhou a revisão da jurisprudência que determina a prisão imediata dos condenados em segunda instância ficou parecendo que o desmantelamento iminente da Lava Jato é obra de Lula e de mais ninguém.
Presidente do tribunal, Cármen Lúcia pautou o julgamento do habeas corpus em favor do ex-presidente antes da apreciação da ação direta de inconstitucionalidade que pretende derrubar a prisão após a segunda instância. Tivesse sido o inverso, todos os condenados como Lula seriam beneficiados e, juntos, escapariam da cadeia. Mas seria o julgamento de uma ideia e, portanto, despersonalizado. Não teria barba.
Não foi o que aconteceu. Cármen Lúcia não pautou a ação que mudaria a jurisprudência sobre o assunto (prevalecia a estimativa de que, por maioria de 6 a 5, os ministros reverteriam decisão anterior do próprio tribunal). Ao colocar na frente o HC a favor de Lula, o Supremo personificou o julgamento. Se o petista não for preso, quem está na cadeia após condenação em segunda instância será libertado por efeito indireto do habeas corpus que o tribunal vier a conceder a ele. Seria mais um desastre de opinião pública para o PT.
Aí vieram os ataques verbais, depois os ovos, seguidos das pedras e, por fim, as balas. O PT, de acusado, virou acusador. De algoz, vítima. Só falta o Supremo não conceder o habeas corpus e Lula ir parar na cadeia. Seria o fecho de ouro para o processo de vitimização. Nesse cenário, se Alckmin não mudar seu discurso sobre o ataque, correrá risco crescente de seguir patinando e virar uma espécie de candidato a vice de Bolsonaro.

Delegado que investigava atentado a Lula aponta ingerência política


Delegado que investigava atentado a Lula aponta ingerência política


A crise política pode ter contaminado as investigações sobre o atentado contra a caravana em que estava o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Pelo menos é o que indica o delegado Wikinson Fabiano Oliveira de Arruda que foi substituído por decisão da Secretaria de Segurança do Paraná, comandada pelo rtucano Beto Richa.


“Retirar a investigação da minha mão fere o critério de distribuição dos inquéritos no Estado. Assume o inquérito o delegado que estiver de plantão na semana, e esta semana quem está de plantão sou eu”, disse Fabiano a um colega policial que perguntou se o afastamento dele tinha razões políticas, segundo matéria publicada por Joaquim de Carvalho, do Diário do Centro do Mundo.

“É claro que tem razões políticas. Não gostaram das declarações que dei sobre como vejo o crime. Foi uma tentativa de homicídio”, disse.

No lugar de Fabiano entrou o delegado Hélder Lauria que já entrou no caso afirmando que o atentado não pode ser enquadrado como tentativa de homicídio, mas apenas como disparo de arma de fogo com dano provocado, crimes de menor potencial ofensivo, considerados pela lei como contravenções e, por isso, com penas insignificantes

Hélder disse ainda que as informações foram dadas de maneira desencontrada. "As informações são superficiais e não condizem com a realidade da investigação", declarou ele em entrevista ao G1.

Mas o delegado Fabiano, que inciou as primeiras dirigências, disse que o crime é tipificado como dolo alternativo. "Quem atira contra um ônibus está querendo matar alguém. Não estou dizendo que era para matar o Lula. Mas quem faz isso, atirar em um ônibus, quer, sim, matar alguém”, declarou ele.

“Dizem que o PT pode usar politicamente a declaração de que foi tentativa de homicídio. Pode, assim como o PSDB também pode usar essa ocorrência de maneira política. Para mim, por exemplo, desqualificar o crime, tirando o evidente característica de tentativa de homicídio, é politizar. Estou dizendo que, se na caravana, em vez do Lula estivesse o papa Francisco ou a Xuxa ou o pipoqueiro, eu trataria da mesma forma: tentativa de homicídio. Por que com o Lula tem que ser diferente?”, argumentou.

Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, o governador do Paraná, Beto Richa, também minimizou o ataque a tiros contra a caravana de um ex-presdiente da República na terça (27). Para ele, “parece que foi uma coisa muito localizada”.

Questionado se a polícia subestimou o policiamento, Richa disse que não. "Não sei o que houve exatamente naquele momento", afirmou o governador.

A mudança da linha de investigação, além de minimizar o crime, pode levar ao arquivamento do caso. Para Fabiano, a cúpula da Secretaria desrespeitou a sua independência funcional e violou a regra de distribuição de inquéritos.

“Eu não estudei, me preparei e me tornei delegado para aceitar ser desrespeitado dessa forma. Estou apenas esperando ter acesso à nota da Secretaria para fazer a minha nota e me manifestar publicamente”, salientou ao colega.

Fabiano emitiu a nota e disse que não foi afastado de suas funções ou sofreu qualquer retaliação por parte da Polícia Civil ou outros órgãos governamentais em razão do enquadramento legal dado ao caso.

Mas afirmou também que o enquadramento legal dado a um caso deve se fundamentar exclusivamente em critérios técnicos, jamais em critérios políticos, "pois Polícia é neutra".

Ele destaca também que o delegado que estava de plantão na noite do fato era ele, embora, diante da gravidade do fato, ambos os delegados tenham se dirigido ao local.

"Efetuar disparos de arma de fogo em direção a um veículo é, na opinião jurídica e fundamentada desta Autoridade Policial, tentativa de homicídio, o que não impede, com o avançar das investigações, novo enquadramento legal, mediante aditamento à Portaria inaugural do Inquérito, se necessário", frisou.

E acrescenta: "Enquadramento legal, em regra, é feito com base nos fatos e não nas pessoas atingidas".

Diferentemente do que disse o delegado Hélder, ele reforça que não é precipitado concluir que houve disparo de arma de fogo em direção a diversas pessoas em um ônibus.

"Isso será considerado, em um primeiro momento, tentativa de homicídio, aqui e em qualquer lugar do mundo, embora se respeite opiniões diversas, desde que juridicamente fundamentadas", defendeu.

O delegado Fabiano salientou ainda que o cumprimento da lei deve ser feito sem a ingerência de questões políticas, "posto que isso sim seria um atentado à ordem jurídica em vigor e à função de Delegado de Polícia".

Ele acrescenta que adotará as devidas medidas legais e administrativas "contra qualquer pessoa que interfira no livre exercício do seu múnus público de defender a tão sofrida sociedade do interior paranaense".

Sucateamento das delegacias

A nota ainda aponta as precárias condições a que estão submetidos os profissionais da segurança pública.

"A demora na chegada de peritos ao local deu-se em razão da extrema precariedade a que está submetido o Instituto de Criminalística do Estado do Paraná, uma vez que o perito foi obrigado a se deslocar de Guarapuava até o local onde estavam os ônibus (aproximadamente 120Km), o que é práxis no Estado do Paraná e poderia ter demorado muito mais, se estivesse atendendo a uma outra ocorrência", relata o delegado em um trecho da nota.

Segundo ele, a infraestrutura da delegacias do estado encontram-se extremamente deficitárias. "Hoje o Paraná possui menos Delegados do que municípios e que a nomeação efetuada no dia de ontem pelo Governo de apenas 20 Delegados suprem quase que apenas as Comarcas vagas (cerca de 11 Comarcas)", afirmou.

Fabiano disse que a delegacia a qual é responsável já possuiu seis escrivães e hoje possui apenas três.

"Somente nesta Subdivisão, encontram-se fechadas as Delegacias de Polícia Civil de Porto Barreiro, Laranjal, Goioxim, Rio Bonito do Iguaçu, Nova Laranjeiras etc., por falta de efetivo policial", denunciou.

E concluiu: "Essa desestruturação e sucateamento da Polícia Civil do Estado do Paraná é fruto de, no mínimo, 20 anos de investimentos insuficientes e/ou inexistentes e contratações meramente pontuais, que praticamente repõem aposentadorias e exonerações de servidores, fazendo com que a ocupação dos cargos efetivos da PCPR esteja hoje na ordem de 50%".

Apesar dos dados contundentes, o governador Beto Richa disse que Fabiano "mente".

"Mentira dele, mentira. Liga para o diretor-geral da Polícia Científica. Ele vai dizer que nunca houve tanto investimento na Polícia Científica quanto no nosso governo. Inaugurei dois IMLs nas duas últimas semanas, Londrina e Curitiba. Liberei a contratação de 28 técnicos, médicos legistas e tudo. Sabe como é funcionário público. Alguns têm mania de querer o paraíso. Pergunta quanto é o salário dele", atacou o governador incomodado.

Segundo Richa, o delegado "está aproveitando o incidente para fazer críticas ao governo".