segunda-feira, 4 de junho de 2018

O Brasil paralelo no WhatsApp



O Brasil paralelo no WhatsApp

por Pedro Doria
Há, nas entranhas do WhatsApp, um outro Brasil. Nele, uma quantidade imensa de pessoas vive uma realidade paralela. Passei a última semana me dividindo entre, ao fim, seis grupos distintos de mensagens.
Estes “grupos de notícias” informam aquilo que a imprensa “não tem coragem” de contar.
Para o observador atento, os grupos revelam dois processos paralelos. Um deles é uma estrutura de marketing político de guerrilha em formação, fazendo um jogo sujíssimo. O outro é um novo tipo de brasileiro, despolitizado e, no entanto, engajado, tentando compreender a confusa realidade à volta, com as poucas ferramentas de que dispõe.
Grupos no WhatsApp têm um limite de tamanho: 256 usuários. E os convites podem ser distribuídos por links. Clique na tela do celular, entre no grupo. Estas são informações chaves para compreender a dinâmica de como funcionam. Os links para entrar nos grupos de notícias vão circulando de zap em zap, do grupo de família para o do serviço.
Quem entra é abastecido com centenas de mensagens por dia. São vídeos, áudios e imagens, quase nunca texto. Muitos memes — montagens de fotos críticas ao governo. Os vídeos e os áudios carregam um sentido de urgência. De que é preciso encaminhar, que a notícia tem de alcançar a maior quantidade de pessoas possível. Rápido. Sempre notícias falsas.
Durante o estirão final da greve dos caminhoneiros, as mensagens principais eram três.
Primeiro: não confie na imprensa.
Depois: a intervenção militar está para acontecer. Basta um dia a mais de caminhões parados. Os generais estão decididos. É segurar um pouco mais. Está chegando.
Em terceiro: quem fica na fila de posto de gasolina é burro. Em memes e vídeos, burros foram imagens constantes. É a gente que não aguenta o tranco. Os caminhoneiros parados conseguiram baixar o preço do seu combustível, as cidades precisam ir às ruas, também parar, mostrar sua fibra. Derrubar o governo é fundamental.
Nada é acidental ou espontâneo nestes grupos de WhatsApp. Muitos leem, dois ou três os alimentam com a torrente de posts. E alguém, por trás, passou os dias produzindo material. De dez em dez minutos, tem alguma coisa nova para que todos sejam mantidos em alerta. O conjunto oferece uma mensagem organizada e calculada com um efeito em mente. E, sempre que um grupo começa a encher, novo link, para um novo grupo, é publicado. Distribuam para os amigos.
Há uma operação por trás deste processo, gente especializada construindo a mensagem. O governo, já frágil por deméritos próprios, sofreu uma tentativa de sabotagem por uma ou mais equipes que sabiam muito bem o que estavam fazendo. Tentaram aproveitar-se da greve dos caminhoneiros para provocar um novo 2013 nas cidades. Não conseguiram.
Mas conseguiram outras coisas. Porque todo mundo que se inscreve nos grupos deixa duas informações essenciais.
A primeira: é alguém que procurou, que está querendo notícias novas.
E, em segundo, celular com DDD. Ou seja: origem geográfica.
A turma do marketing de guerrilha construiu, na crise, um banco de dados bem fornido de pessoas crédulas, engajadas, que formarão o marco zero da distribuição de fake newsdurante a campanha eleitoral.
Não é o fato de os grupos serem de extrema-direita que mais impressiona. É sua credulidade. Sua ingenuidade política. “Os militares já estão chegando em Brasília”, dizia um áudio. Como se eles precisassem ir para a capital. “O general Beltrano vai subir a rampa do Senado às 15h”, informava outro. A rampa é do Planalto. “O deputado Cicrano deu ordens.” Deputados não dão ordens. As incongruências, as notícias falsas tão vagas, não ligam o alerta de ninguém. Mas alimentam uma raiva já existente. Terreno fértil para um demagogo populista.
*Publicado no jornal O Globo

domingo, 3 de junho de 2018

Junho de 13 foi de sonho democrático a pesadelo autoritário, diz Bosco

Junho de 13 foi de sonho democrático a pesadelo autoritário, diz Bosco

Autor afirma que a pintura romântica de cinco anos atrás parece dar lugar a retrato de Dorian Gray


Francisco Bosco
[RESUMO] Junho de 2013 representou para muitos a esperança de uma nova cultura política. Cinco anos depois, autor afirma que a pintura romântica parece dar lugar a uma espécie de retrato de Dorian Gray.

Na última quarta-feira (30), esta Folha reportou que a jornalista Rachel Sheherazade, o MBL e o general Eduardo Villas Bôas foram atacados em suas redes sociais por terem criticado a greve dos caminhoneiros.
A turba acusou a princesa do conservadorismo e o militar de serem vendidos, declarou-se decepcionada com Kim Kataguiri (cofundador do Movimento Brasil Livre) e, pasmem, tachou a posição deles de... comunista.
Aquilo que até 24 horas antes era percebido por muitos como uma direita imoderada agora é deslocado de sua posição no espectro ideológico —rumo à esquerda!— pela ação de uma força tão extremista que já não cabe nos limites do quadro político democrático.
A coisa é desconcertante. Sheherazade, para quem não se lembra, é aquela que alegou "legítima defesa coletiva" em favor dos justiceiros que não somente espancaram um adolescente negro acusado de assalto como também o prenderam num poste, pelo pescoço, com uma tranca de bicicleta.
O MBL é, na definição do professor Wilson Gomes, uma startup que promove o ódio político. E, pode-se acrescentar, produz e dissemina fake news como estratégia de convencimento.
Villas Bôas, além de representar o Exército, é o general que tuitou, na véspera de o Supremo Tribunal Federal julgar a possibilidade de Lula ser preso após decisão em segunda instância, que os militares estavam atentos e zelando pelas instituições.
Que essa turma seja percebida, por outra turma, como insuficientemente radical, isso ajuda a compreender o estado da arte da nova cultura política brasileira.
Durante os anos do lulismo, assistia-se com perplexidade renovada às alianças do Partido dos Trabalhadores com personagens notoriamente corruptas e/ou regressivas do sistema político nacional.
De Sarney a Renan Calheiros, de Severino Cavalcanti a Eduardo Cunha, passando por Maluf, a conciliação do inconciliável desenhava uma lógica, fartamente descrita: a estratégia —percebida pelo PT como única factível naquelas condições— de dirigir as forças conservadoras, em vez de confrontá-las.
O filósofo Marcos Nobre nomeou de "peemedebismo" essa força conservadora e fisiológica que se instalou à larga no Parlamento e funcionou como o fiel da balança desde o começo da Nova República.
Tanto Fernando Henrique Cardoso (PSDB) como Lula foram capazes de no máximo dar algum sentido ao país sem entrar em choque com o peemedebismo. O governo Lula, de "conservação e mudança, reprodução e superação", como escreveu André Singer em "Os Sentidos do Lulismo" (Companhia das Letras, 2012), realizou transformações à custa da manutenção e até do aprofundamento da lógica peemedebista.
Essa seria uma das contradições que levariam ao fim da pax lulista em junho de 2013. Não faltaram, como se sabe, bases materiais para os protestos. Apesar do pleno emprego e do PIB ainda em expansão, a classe média, protagonista dos atos, saíra perdendo nos anos anteriores.
Laura Carvalho, em "Valsa Brasileira" (Todavia, 2018), mostra os números que permitem falar de um "squeezed middle", um miolo espremido financeiramente entre o crescimento da renda da elite e o dos mais pobres: "Os 50% mais pobres aumentaram sua participação na renda total de 11% para 12% entre 2001 e 2015", e "os 10% mais ricos subiram a sua parcela de 25% para 28%".
Enquanto isso, "os 40% intermediários reduziram sua participação na renda de 34% para 32% naqueles anos".
Mas me parece correto dizer que o sentido geral de junho de 2013 era a revolta acumulada contra a tendência progressivamente privatista da democracia liberal (tiveram o mesmo sentido o Occupy Wall Street, em Nova York, e os Indignados, em Madri), que comprimia cada vez mais o espaço do comum, e contra um sistema institucional endógeno, blindado, que asfixiava a participação política, reduzindo ao mínimo possível sua intensidade.

A pauta original do aumento da tarifa do transporte público o atesta. Não era só por 20 centavos. Estava em jogo o poder empresarial submetendo o poder público e o interesse dos cidadãos; um péssimo serviço a preço alto; péssimas condições de circulação. Estava em jogo, em suma, o direito à cidade.
A proximidade da Copa do Mundo e da Olimpíada do Rio, por sua vez, adensava a sensação de um sistema político encastelado. Os custos exorbitantes das obras eram por si sós absurdos, da perspectiva orçamentária, diante da precariedade dos serviços públicos.
Além disso, os gastos crescentes com estádios, muitas vezes feitos sem licitações, deixavam um fedor de corrupção no ar. E o autoritarismo ainda mostrava a sola da bota nas remoções compulsórias de pessoas pobres.
Tudo isso já foi muito repetido.
A democracia sob aparelhos sofreu então um choque de alta intensidade. O começo do fim do lulismo deflagrou o que chamo de "passagem da cultura à política" na autoimagem social do país.
As pessoas foram para as ruas. As redes sociais digitais haviam se consolidado como uma vasta mídia (e metamídia), contando já àquela altura com dezenas de milhões de usuários no Brasil. Sua natureza de autocomunicação fez surgir nelas um novo espaço público marcado pela polarização e pela explicitação de todas as tensões.
No lugar do país do futebol, nos tornamos o país da política: lá onde se dizia que todo brasileiro era um técnico, agora todo brasileiro se revelava um analista de conjuntura. Em suma, "o gigante acordou".
Escrevendo em cima do lance, muitos celebraram a explosão das ruas (eu entre eles). Houve setores que se opuseram. A chamada grande imprensa tentou diminuir o acontecimento num primeiro momento, em seguida criminalizou os "vândalos" e por fim procurou capturar o sentido da irrupção (acabaria sendo muito bem-sucedida).
Os governistas também foram contra, é claro, pois rapidamente perceberam o risco envolvido. Afinal, não importava o caráter difuso das pautas; no limite, a conta sobraria no colo dos mandatários de turno (foi o que aconteceu).
Por outro lado, tanto uma esquerda marxiana crítica ao PT quanto uma esquerda filiada às ideias de Negri apoiaram e participaram dos atos. A primeira viu em junho uma amostra grátis de democracia participativa. A outra viu a materialização da experiência política da multidão.
Diferentemente da noção de povo (unívoca e coesa) e de classe operária (restritiva, sem correspondência com a realidade contemporânea do trabalho e da luta de classes), o conceito de multidão designa um coletivo horizontal e heterogêneo, cujo agenciamento é capaz de acolher singularidades e se transformar em potência. Com efeito, o que se viu em junho de 2013 foi a transformação da massa em multidão.
Se, como definem Antonio Negri e Michael Hardt no livro "Multidão" (Record, 2004), "a essência das massas é a indiferença", a população saiu da letargia para lutar pelo comum.
Marcos Nobre, no livro "Imobilismo em Movimento" (Companhia das Letras, 2013), identificou uma tensão entre o conservadorismo do sistema político institucional e o desejo de transformação social de uma "nova cultura política", manifesta pela sociedade civil: "Essas reservas profundas de energia democrática são o que há de mais precioso para a libertação da sociedade".
Muitos apostaram nessa movimentação social como a esperança para pressionar, furar ou renovar a política institucional.
As mobilizações de junho lograram algumas conquistas imediatas. Em São Paulo e no Rio, o aumento das passagens foi revogado. Alguns processos de remoção encontraram forte resistência e foram suspensos. A demolição da Aldeia Maracanã (Museu do Índio) foi cancelada. No ano seguinte, também no Rio, a categoria dos garis realizou uma greve bem-sucedida, com o apoio de grande parte da população.
O legado de junho, porém, foi bem além e se desenvolveu com robustez em alguns movimentos sociais que se estabeleceram de modo eficiente.
Com efeito, surgiram e cresceram forças de sentido igualitarista na sociedade brasileira. Os movimentos chamados de identitários foram os mais bem-sucedidos na sua capacidade de organização e no impacto de sua atuação.
O movimento negro já vinha de pelo menos uma década de conquistas fundamentais, como o sistema de cotas nas universidades públicas (o processo de institucionalização da perspectiva racialista começou em FHC e se desenvolveu nos anos Lula).
De junho para cá, sua agenda, como a dos demais movimentos de grupos subalternizados, estabeleceu-se menos em torno de pautas concretas, legais, do que como uma não menos fundamental luta por reconhecimento social, identificando a naturalização e extensão do preconceito racial na biopolítica cotidiana da experiência social brasileira.
movimento feminista não fez menos do que impor sua agenda como protagonista das lutas por igualdade no país. Seu impacto concreto, nas relações sociais, já se faz sentir e deverá transformar as interações heterossexuais profundamente (em que pesem eventuais críticas que lhe podem ser feitas).
O movimento LGBT também avançou nas lutas por reconhecimento, por políticas públicas e por representatividade. Hoje já temos escritoras e intelectuais trans disputando o espaço público e concorrendo a cargos eletivos, como Indianara Siqueira nas últimas eleições e Helena Vieira, entre outras, nessas que virão.
Registre-se ainda o surgimento de novos movimentos sociais, à esquerda e à direita. Muitos deles têm reavaliado a natureza de seus papéis, passando a buscar um acesso direto à política institucional, em vez de uma relação de pressão com os governantes.
Atesta-o a presença, em todos os espaços do espectro ideológico, de movimentos voltados principalmente à disputa pelo Legislativo: Muitas, Bancada Ativista, Quero Prévias, Rede, Agora, Raps (Rede de Ação Política pela Sustentabilidade), RenovaBR, Livres, Novo, Vem pra Rua, MBL.
Apesar das diferenças ideológicas —e, pelo menos no caso do MBL, das estratégias baixas—, são todos sintomas da formação de uma nova cultura política, com o objetivo comum de transformar o sistema político institucional.
Mas os efeitos transformadores por ora não parecem ir muito além. O gigante rapidamente foi se revelando menos progressista do que reacionário. Menos esclarecido que irracional. Menos espontâneo que titerizado por setores poderosos. Por fim, menos democrático do que autoritário.
Junho de 2013 foi uma montanha que pariu um pato —e uma récua de cavalgaduras. Chega a quase dar saudade daquelas figuras de direita da Veja e até do delírio paranoico de Olavo de Carvalho, inofensivo perto da regressão em massa dos infantilizados adoradores de Bolsonaro.
Reinaldo Azevedo, epítome da direita conservadora há alguns anos, também levou um chega pra lá rumo ao socialismo ao se declarar mais liberal que conservador e criticar as arbitrariedades do juiz federal Sergio Moro no processo contra Lula.
Rodrigo Constantino, ao ver os frankensteins que ajudou a criar (a Veja foi uma empresa de fake news avant la lettre), expressou sua decepção. Olhando para a greve dos caminhoneiros, concluiu: "Não se trata de uma greve de trabalhadores de direita. Eles não leem Olavo de Carvalho, não se deliciam com os livros liberais, não estão dentro de uma concepção de Estado mínimo".
Os fracassos da democracia liberal (de resto, mundiais) naturalmente conduziriam as coisas para algum extremo —mas não é de espantar que tenha sido em boa medida para o reacionarismo e até para fora da democracia. Afinal, olhemos sem mistificações para a "bildung" do gigante.
A população brasileira atual foi formada sobretudo, quando não exclusivamente, por décadas de TV aberta. Quer compreender o que é um inconsciente político construído desse modo? Assista à aula magna de sociologia que é o documentário "Um Dia na Vida" (2010), de Eduardo Coutinho.
O filme é uma montagem feita a partir de 19 horas da programação de diversos canais da TV aberta durante um dia qualquer de 2009. Coutinho gravou programas e comerciais e os expôs no filme tais e quais, sem comentários, sem metalinguagem, sem outra interferência que a seleção, o corte e a montagem. O resultado é uma sessão de 90 minutos de zapping televisivo.
Há desenho animado, constantes apelos ao consumo, estímulos sensíveis gritantes, infantilização, "fait divers", muita violência, sexualização generalizada da mulher, programas religiosos, novelas românticas, confissões emocionais, humor, colunismo social, euforia nacionalista e exibição de intimidades.
O cardápio é só superficialmente variado, pois é a mesma lógica da imagem que o organiza. Uma lógica da produção do que podemos chamar de imagens imaginárias, isto é, imagens que reproduzem o modo de funcionamento do imaginário. O conceito de imaginário, em Lacan, designa o registro da identificação, da ilusão de completude, do narcisismo, portanto da agressividade, da rivalidade.
Pense em Datena. São imagens plenas, que excluem a falta, a dimensão do sentido, do que não está na imagem, logo obscurecendo a compreensão da realidade. Imagens que apelam à identificação, atraindo o espectador para uma relação nos termos imaginários, rivalitários, conflituosos, impedindo assim um recuo, um passo para fora da identificação, capaz de propiciar a compreensão da própria estrutura das relações. Imagens que acenam com a sua completude para a perfeita letargia do espectador.
A relação entre violência e sociedade do espetáculo já foi bem estudada. O Brasil é um caso agudo.
A dominância do registro imagético facilitou a construção desse fenômeno midiático-jurídico-parlamentar que foi o antipetismo (obviamente facilitado pelas ilegalidades cometidas pelo PT). O povo brasileiro foi cevado de antipetismo durante quase uma década.
Aos que ainda não entenderam o conceito: o antipetismo é basicamente o apagamento da dimensão estrutural do problema da corrupção, em favor de sua atribuição exclusiva ao PT, que metonimicamente passa a ser responsabilizado por todos os males do Brasil.
A lógica metonímica, aliás, vai além e estende a culpa à esquerda como um todo. Não apenas a culpa da corrupção, mas toda culpa social (e tome venezuelização, bolivarianismo e "vai pra Cuba!").
Laura Carvalho identifica e ironiza esse procedimento ao chamar a consensualmente desastrosa Nova Matriz Econômica do governo Dilma de "agenda Fiesp", uma vez que as medidas de juro baixo, real depreciado e desoneração dos investimentos "foram referendadas por associações patronais que, posteriormente, abandonaram o barco e apoiaram o impeachment da presidente".
O antipetismo, portanto, é menos um conjunto de argumentos do que um afeto. Um afeto de ódio, já que fundado na substituição da estrutura por uma única instância concreta. O antipetismo é a disciplina de onde saíram pérolas do febeapá contemporâneo, como o bordão "artistas de esquerda mamadores nas tetas da Rouanet".
Nenhum aluno da turma conseguiu entender que: a) nenhum governo em exercício é capaz de favorecer os projetos contemplados de acordo com seu interesse ideológico; b) a Rouanet é uma lei que, em seu funcionamento atual (pois seu espírito original é diverso), pouco ou nada tem de esquerdista, tem antes sentido liberal, uma vez que relega ao mercado a maior parte do financiamento da cultura nacional.
Falando em liberais, a nova renascença do liberalismo no Brasil não faz minimamente justiça à complexidade e heterogeneidade da tradição do pensamento liberal. Assim como na primeira renascença, nos anos 1980/90, a perspectiva é exclusivamente econômica.
Nota-se pouco o legado dos primeiros clássicos da doutrina liberal, como Locke e Montesquieu, mobilizados contra a realidade do despotismo político. E é bem raro ver a tradição do socialismo liberal —de um Rawls ou de um Bobbio— representada pelos guris Kataguiris, para os quais o princípio igualitário não tem valor.
Esse neoliberalismo econômico, já o descrevia José GuilhermeMerquior em artigo dos anos 1980, "toma às vezes uma forma extrema e virulenta, em que o antiestatismo —posição das mais lúcidas— vira estadofobia generalizada, não raro acompanhada de sentimentos antidemocráticos" ("Renascença dos liberalismos: a paisagem teórica"). O que era, segundo Merquior, ocasional, parece ter virado a regra.
Mesmo os esforços no sentido de tentar ser fiel ao princípio liberal costumam esbarrar em contradições orientadas por infidelidades ideológicas, como o presidente do Partido Novo, João Amoêdo, declarando-se simultaneamente a favor do porte de armas pelos cidadãos e contra a descriminalização das drogas.
Ou toda a histeria paranoica diante das questões de gênero e sexualidade, em que a fantasia de um proselitismo LGBT encobre a fobia conservadora —e não liberal— diante da plena realização do mundo moderno.
Os traços da formação recente são muitos e não tenho a pretensão de ser exaustivo. Meu ponto, no fundo, é simples. Junho de 2013 representou para muitos a esperança de que uma nova cultura política havia se formado e irrompido, e que poderia cumprir a promessa ali vislumbrada de interromper o funcionamento do sistema político, transformando-o.
A tomada do Congresso Nacional por milhares de manifestantes era o afresco a retratar a luta da multidão esclarecida contra a tirania peemedebista.
Cinco anos depois, a pintura romântica parece dar lugar a uma espécie de retrato de Dorian Gray. As panelas seletivas, o impeachment farsesco, os quase 20% de Bolsonaro, o Escola sem Partido, os caminhoneiros militaristas, a histeria generalizada transformaram o sonho da democracia direta no pesadelo da regressão autoritária.
É conhecida a anedota atribuída a Zhou Enlai, líder do Partido Comunista Chinês. Questionado, em 1972, sobre o sentido da Revolução Francesa, ele teria dito que era ainda muito cedo para avaliar. Segundo um diplomata presente no encontro, foi provavelmente apenas um mal-entendido; Zhou se referira a maio de 68. Não importa. "Se non è vero è bene trovato": a tirada cabe às jornadas de junho.
Não é difícil entender as causas dos protestos, nem a sua legitimidade; isso parece pacificado. Mas talvez seja ainda cedo para avaliar o legado de junho quanto ao despertar da sociedade civil, aos ataques ao sistema representativo e às consequências políticas e sociais que esse acontecimento segue produzindo. Junho é o mês que não terminou.
Por ora, como escreveu o antropólogo Antonio Risério em uma rede social, nosso retrato é esse: "Um país pirado, com elites podres e população perdida". Estamos espremidos, de um lado, por um sistema político completamente apodrecido; e, de outro, por uma nova cultura política que em larga medida não é nova —e chega a nem ser política. 

Francisco Bosco, ensaísta, é autor de "A Vítima Tem Sempre Razão?" (Todavia).

sábado, 2 de junho de 2018

Temendo o povo

Temendo o povo

Vladimir Safatle


A derrubada do governo por pressão grevista seria um processo civilizatório


Poucos foram os acontecimentos que explicitaram de forma tão cabal a realidade brasileira quanto a atual greve dos caminhoneiros.
Primeiro, saiu de cena a narrativa delirante de que, apesar da degradação política, a economia nacional caminharia a passos seguros rumo à recuperação. Os caminhoneiros explicitaram a dinâmica destrutiva que alimenta a dita racionalidade econômica em vigor no governo. Racionalidade esta capaz de estrangular a atividade produtiva, como ficou evidente na exposição da lógica que atualmente comanda a política de preços da Petrobras, com seu modelo de importação de petróleo refinado enquanto deixa em ociosidade refinarias nacionais.
Mas essa greve de caminhoneiros explicitou principalmente a inanidade política dos principais atores nacionais. Não apenas porque ele deixou a nu o simples fato de que não existe governo no Brasil.
Aquilo que alguns chamam de governo demonstrou sua inépcia absoluta em lidar com movimentos sociais e reivindicações populares. O que lhe resta é apelar sistematicamente às Forças Armadas na esperança de criar alguma ilusão de comando.
Vemos nascer um Estado tutelado no qual as Forças Armadas são o verdadeiro gestor e poder moderador a definir os limites de atuação do campo político. Aqueles que temem um golpe de Estado deveriam se dar conta de que um golpe já ocorreu. Nós já habitamos um sistema, no mínimo, híbrido de governo.
Essa greve demonstrou a inanidade política a que estamos submetidos porque ela demonstrou como até mesmo setores hegemônicos da esquerda brasileira têm medo de mobilizações populares, e essa greve esteve longe de ser simplesmente um locaute.
Os caminhoneiros conseguiram literalmente parar o país e deveriam ter sido seguidos por uma mobilização radical de outros setores, tendo em vista a pura e simples derrubada de um governo que não representa ninguém, que não tem legitimidade alguma e cuja única razão de existência é procurar defender uma casta corrupta de políticos que nunca desaparecem.
A derrubada do governo por pressão grevista seria um processo civilizatório na política brasileira, pois mostraria que nenhum governo indiferente à vontade popular absolutamente majoritária tem direito de existência. A democracia representativa precisa caminhar para a incorporação do poder destituinte efetivo da pressão popular.
No entanto, vários entenderam que estávamos diante de um movimento claramente autoritário devido à presença de pedidos por golpe militar vindos de setores dos grevistas.
Mais correto seria lembrar que as classes populares entraram, e não apenas no Brasil, em uma clara dinâmica anti-institucional. Elas sabem que a estrutura institucional da democracia liberal é incapaz de garantir condições mínimas de justiça social.
Esta dinâmica anti-institucional pode tanto ir em direção às fantasias paranoicas de um regime forte e ditatorial quanto a um fortalecimento de movimentos de transferência do poder decisório a instâncias imanentes à vontade popular. A história nos mostra que as classes populares, quando assumem uma dinâmica anti-institucional, podem ir tanto para um extremo quanto para o outro.
Neste sentido, o erro é deixar o campo livre para a paranoia autoritária e não procurar construir hegemonia por meio de processos de proliferação de greves e movimentos de ocupação das ruas.
Um erro similar já aconteceu em junho de 2013. Pois há de se entender que uma das polaridades decisivas da política contemporânea passa pelo confronto entre saídas institucionais e saídas anti-institucionais.
Essas últimas não são mera expressão de regressão social. Algumas delas são a expressão de um desejo efetivo de construir uma democracia ainda por vir, distinta do modelo tecnocrata e oligárquico que conhecemos hoje. Ignorar essa dimensão é o caminho mais curto para a derrota contínua.
Vladimir Safatle
Filósofo, é professor livre-docente do Departamento de Filosofia da USP (Universidade de São Paulo).

O fascismo não precisa de muito mais além de ignorância política e força bruta.


O fascismo não precisa de muito mais além de ignorância política e força bruta. 

Publicado originalmente na fanpage de Facebook do autor
POR AFRÂNIO SILVA JARDIM, professor de Direito da UERJ
Tenho para mim que muito da dramática realidade social que estamos vivenciando decorre de um sórdido “trabalho”, sistemático e permanente, da grande imprensa no sentido de despolitizar o cidadão brasileiro. A mídia empresarial criou, na opinião pública, a falsa crença de que a política é “coisa” perversa e que todos os políticos são corruptos ou incompetentes.
Parte do Poder Judiciário e parte do Ministério Público parece que também restaram “seduzidos” por esta falácia…
A má-fé é patente, pois estas empresas de comunicação sabem muito bem que não há país no mundo sem governo e não há governo sem política. Não há como liderar sequer um grupo social sem negociar com apoiadores e adversários. Tudo em sociedade é regido pela política !!!
O resultado desta desinformação é gritante. As pessoas se mostram contraditórias, pois não têm condições de compreender corretamente os acontecimentos econômicos, políticos, jurídicos e sociais.
Por isso, assistimos a alguns líderes da paralisação dos caminhoneiros criticando a intervenção do Estado na economia e postulando que o governo federal interfira nos preços dos combustíveis praticados pela Petrobrás !!! Querem a redução dos impostos, mas desejam melhores serviços de saúde, segurança pública, educação gratuita, etc.
Estes líderes e as empresas de transporte que os incentivaram e os auxiliaram, pediam intervenção militar (ditadura) e são a favor da livre iniciativa (sic). Falam de patriotismo, mas são a favor da privatização das empresas públicas que atuam em áreas estratégicas para o nosso desenvolvimento.
O ápice de toda esta ignorância foi alcançado quando chegaram a acusar grandes empresas de comunicação e seus jornalistas de serem comunistas, sendo elas sabidamente comprometidas com os interesses econômicos privados. Tais supostos líderes nada sabem sobre a doutrina de Marx e Engels… Não têm formação ou educação política.
Todas estas contradições se reproduzem pelas redes sociais, alternando tais postagens com fotos de pratos de comida ou fotos de corpos “sarados” …
Por outro lado, todos sabemos que a falta de argumentação lógica e competente, quase sempre, desencadeia uma reação violenta. Fanatismo, ignorância e violência, tudo é igual ou leva ao fascismo.
Fascismo é a negação do humanismo, da solidariedade e de uma sociedade justa.
Desta forma, serão precisas algumas décadas para que a nossa sociedade retome os melhores valores do processo civilizatório, privilegiando-se a educação e uma reforma democrática nos meios de comunicação.
A curto prazo, fiquemos atentos aos ardis e estratégias da direita fascista. Democracia neles!!!

Como o WhatsApp mobilizou caminhoneiros, driblou governo e pode impactar eleições

Como o WhatsApp mobilizou caminhoneiros, driblou governo e pode impactar eleições

Mobilização foi a maior já feita no mundo por meio do aplicativo, afirmam especialistas


Amanda Rossi
SÃO PAULO
Depois de uma insurreição popular convocada por SMS em Moçambique, em 2010, da Primavera Árabe difundida pelo Twitter no Oriente Médio, em 2011, e das manifestações brasileiras de junho de 2013 impulsionadas pelo Facebook, chegou a vez do WhatsApp ocupar o protagonismo na organização de uma mobilização.
A greve dos caminhoneiros, que interditou milhares de trechos de rodovias em todo o país ao longo de dez dias, é a maior mobilização mundial já feita pelo WhatsApp, dizem Yasodara Córdova, pesquisadora da Escola de Governo de Harvard, nos Estados Unidos, que estuda como os governos lidam com a Internet, e Fabrício Benevenuto, professor de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pioneiro na pesquisa de conteúdos compartilhados em grupos de WhatsApp.
"A mobilização ocorre por motivos sociais. As redes dão uma vazão a esses sentimentos", diz Yasodara.
 
"Na quarta-feira antes da greve, o (preço do) diesel aumentou. Desci para Santos para levar carga. Quando voltei, o diesel já tinha aumentado. Na sexta, aumentou de novo. A galera se comunicou no WhatsApp e falou: não está dando mais", afirma o caminhoneiro Moisés de Oliveira, que ficou parado na Rodovia Régis Bittencourt, em São Paulo, onde ajudou a organizar um grupo de grevistas, sempre com o celular à mão.
A essência do trabalho do caminhoneiro é circular. Isso facilitou que as mensagens se espalhassem rapidamente por diferentes pontos do Brasil.
"A gente viaja o Brasil inteiro e vai conhecendo outros caminhoneiros. Quando chega no posto para dormir, a gente conversa, troca o (número de) WhatsApp. Aí, quando chegou a greve, já havia vários grupos montados e a gente distribuiu a informação", diz Oliveira, de 40 anos, 22 anos deles passados atrás do volante do caminhão.
 
"O Whatsapp facilitou demais a nossa comunicação. Antes, a gente era desconhecido (um do outro). Agora, o pessoal faz um vídeo e, em dois minutos, já espalhou pelo Brasil", afirma. "A gente não é envolvido com partido político nenhum. Mas a gente tem a nossa logística".
Na última quinta-feira, apesar de já não haver mais pontos de interdição nas estradas, segundo a Polícia Rodoviária Federal, os apelos pela continuidade da greve não haviam parado de circular pelo WhatsApp.
Eram desde pedidos para caminhoneiros irem até Brasília, para que ficassem parados em casa, até convocações de protestos nas cidades.

CONVERSAS FECHADAS, CRIPTOGRAFADAS, SEM RASTRO E EM PIRÂMIDE

A comunicação por WhatsApp tem características diferentes das feitas por Twitter e Facebook. Os dois últimos "são como uma via pública, uma praça, onde você abre uma banquinha e as pessoas podem te ver e interagir com você. Já o grupo de WhatsApp é como a sala de jantar da sua casa, não entra todo mundo", diz a pesquisadora brasileira Yasodara Córdova.
Na prática, enquanto postagens públicas no Twitter ou Facebook podem ser vistas por qualquer um e chegar de uma vez só a milhares de usuários, as mensagens de WhatsApp atingem apenas um indivíduo ou os participantes do grupo, limitados a um número máximo de 256 pessoas.
Dali, podem ser levadas para outras pessoas ou outros grupos, em uma distribuição em pirâmide. Além disso, todo diálogo é criptografado —é como se a sala de jantar estivesse bem trancada e só pudesse entrar quem fosse convidado ou tivesse a chave.
Isso faz com que a conversa fique fechada —para acessá-la, só infiltrado.
 
"A comunicação no Whatsapp acontece de maneira mais velada, mais escondida. São grupos relativamente pequenos. E não há registro público, um rastro, porque há essa encriptação", afirma Benevenuto.
Além disso, a comunicação é mais difusa. A conversa vai se propagando pelos celulares, sem registro de quem foi a fonte original da informação —seja mensagem em texto, imagem, áudio ou vídeo. Assim, fica mais difícil identificar quem são as vozes mais difundidas e que estão se transformando em lideranças.
Essas características fazem com que a mobilização pelo WhatsApp represente um novo desafio para governos, acostumados a negociar com lideranças de organizações definidas, com logotipo e CNPJ.
"O sindicato é um modelo que está em declínio no mundo todo. Não só em termos de representatividade, mas também em metodologia. No caso da greve dos caminhoneiros, há um pioneirismo da organização do trabalho baseado na internet. É uma espécie de sindicato digital. É possível que no futuro a gente tenha novas formas de mobilização da força de trabalho como essa", diz Yasodara.
No quarto dia de greve, uma quinta-feira, o governo do presidente Michel Temer fechou um acordo com parte dos representantes de associações e sindicatos de caminhoneiros se comprometendo a baixar o preço do combustível em 10% por 30 dias. Com isso, anunciou que a greve iria ter uma trégua.
Naquele momento, os postos já começavam a ficar sem combustível. Mas os caminhoneiros organizados pelo WhatsApp não concordaram com a negociação
No aplicativo, seguiram-se mensagens de repúdio às lideranças que negociaram com o governo Temer, além de aúdios e vídeos notificando sobre pontos de paralisação que se mantinham ativos. Nada de acordo, a greve continuava.
"Se não tivesse o WhatsApp, eu creio que o governo já tinha enganado a gente há dias. O governo ia na televisão dizer que a greve acabou. Até um caminhoneiro conseguir se comunicar com outro, já tinha tudo mundo ido embora, tinha acabado a greve. Agora, a gente assistiu a nota do presidente e já passou informação para os grupos de WhatsApp: não acabou não", diz o caminhoneiro Moisés Oliveira.

SÃO PAULO USOU O WHATSAPP NAS NEGOCIAÇÕES

No estado de São Paulo, foi traçada uma estratégia diferente para negociar com os grevistas. O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de São Paulo, Marcos da Costa, irmão de um caminhoneiro hoje afastado da profissão, resolveu entrar nas negociações.
"Não era um movimento institucionalizado, respondendo a sindicatos e associações. Eram caminhoneiros que se esgotaram com o aumento do preço dos combustíveis e começaram a parar (de rodar). A comunicação deles por WhatsApp permitiu que se formasse uma onda muito rápida no Brasil inteiro", diz Costa.
Depois da negociação fracassada do governo federal na quinta-feira, Costa pediu que colegas advogados do setor de transportes procurassem identificar quem eram as lideranças dos caminhoneiros parados em São Paulo. Em seguida, no sábado de manhã, mais de 10 delas se reuniram na sede da OAB.
"No começo da reunião, os caminhoneiros pediram para tirar foto e fazer vídeo para compartilhar nos grupos de WhatsApp. Isso viralizou. E serviu para que a gente pudesse ter segurança da capacidade de mobilização daquelas pessoas", afirma o presidente da OAB.
Em seguida, foi montado um novo grupo de WhatsApp entre esses caminhoneiros e a OAB. "Esse grupo serviu de preparação das pautas de negociação. Ele canalizava as demandas dos caminhoneiros, porque cada pessoa dessas tinha interlocução com outros grupos de WhatsApp. Era uma rede gigantesca", diz Costa.
"Eu não tenho dúvida de que isso fez a diferença. Foi fundamental para abrir a possibilidade de diálogo com aqueles que estavam realmente à frente do movimento".
No sábado à tarde, o grupo de WhatsApp criado pela OAB se reuniu com o governo de São Paulo para negociar a desobstrução das estradas do Estado.
"Ainda durante a reunião, eles (os representantes dos caminhoneiros) mandaram mensagens de WhatsApp para a base pedindo para liberar (as estradas). Cerca de uma hora depois, vimos pela cobertura da mídia que a liberação estava começando. Foi o diálogo por WhatsApp que permitiu a primeira liberação de rodovia", diz o advogado.
O movimento dos caminhoneiros em São Paulo não acabou ali, mas de fato começou a diminuir. Ainda no sábado, o ministro-chefe da Secretaria de Governo, Carlos Marun, esteve em São Paulo para participar das conversas com o grupo paulista, tomar conhecimento das pautas e tentar tirar as negociações de Brasília do limbo.
"A greve mostrou que vamos ter que criar mecanismos para dar conta de demandas apresentadas de forma completamente diferentes. Tradicionalmente, eram instituições que iam ao governo apresentar suas pautas. Hoje, vemos movimentos líquidos, absolutamente horizontalizados. A partir de agora, os governos vão ter que aprender a lidar com essa nova realidade e aprender a identificar canais que possam servir para diálogo", afirma Costa.
gráfico de bola com percentuais sobre como caminhoneiros tomaram conhecimento da greve
Pesquisa Ipsos questionou caminhoneiros sobre como tomaram conhecimento da greve - Ipsos

WHATSAPP FOI A PRINCIPAL FORMA DE CONTATO COM A MOBILIZAÇÃO

A primeira medição da importância do WhatsApp na greve dos caminhoneiros foi feita pelo Ipsos.
Na última terça-feira (29), o instituto de pesquisa entrevistou cerca de 1,2 mil caminhoneiros que usam um aplicativo de cargas. Dentre os entrevistados, quase metade (46%) soube da paralisação via WhatsApp.
É mais que o dobro de importância da própria estrada —18% souberam do movimento sendo parados por colegas enquanto rodavam com o caminhão. O Facebook veio em seguida, informando 8,5% dos entrevistados.
m número ínfimo de 1% foi convocado por sindicato ou associação. Entre os entrevistados, estão tanto caminhoneiros que estavam protestando, como quem ficou em casa ou estava rodando normalmente.
Por outro lado, nem tudo é digital. Entre o grupo mais ativo de caminhoneiros, que continuava parado nas estradas na última terça-feira, o corpo a corpo foi tão importante quanto a mobilização nas redes —39% tomaram conhecimento da greve na estrada, enquanto outros 39% souberam por WhatsApp e Facebook.
A importância do WhatsApp na greve também fica evidente em um boato que circulou no próprio app, alertando usuários para não atualizarem o aplicativo.
Segundo a mensagem, a atualização do WhatsApp teria sido determinada pelo governo federal para inviabilizar a comunicação de participantes da greve. O WhatsApp informou que essa informação não procede.

O DIA A DIA DOS GRUPOS DE WHATSAPP

Uma vez que a mobilização tinha começado, o WhatsApp foi fundamental para propagar informações, passar mensagens de motivação, angariar apoio e bater de frente com o governo do presidente Michel Temer.
É possível ter um retrato de como isso aconteceu pelo monitor do WhatsApp desenvolvido pelo projeto "Eleições Sem Fake", coordenado por Benevenuto, da UFMG. O sistema acompanha 182 grupos públicos com temática política e seleciona quais são as imagens mais compartilhadas diariamente.
É a única ferramenta brasileira que acompanha o que ocorre dentro do WhatsApp —seu uso é restrito a pesquisadores.
​Segundo o monitor, um dia antes da greve começar, uma imagem de caminhões parados em uma estrada já estava entre as dez mais compartilhadas do dia: "greve geral pela baixa dos combustíveis, você apoia?". Era o movimento se organizando.
Já na segunda-feira (21 de maio), quando os caminhoneiros começaram a parar as rodovias, a greve foi a temática das cinco imagens mais compartilhadas do dia. Na terça-feira, idem —sendo que uma das imagens fazia um chamado: "caminhoneiros convocam população, sozinho (sic) não conseguiremos".
Na quinta-feira (24 de maio), quando o governo de Michel Temer buscou negociar com lideranças de organizações de caminhoneiros, o topo de compartilhamentos foi uma imagem com a hashtag "Somos Todos Caminhoneiros" e outra com a frase "A greve continua".
Também circularam memes culpando o PT pela crise e, no sentido oposto, dizendo que a crise começou porque o PT saiu do governo. Em seguida, pedidos de intervenção militar passaram a despontar.
Já na última terça-feira (29 de maio), quando o protesto dos caminhoneiros já estava perdendo força, os grupos de WhatsApp foram tomados por críticas à baixa adesão da população ao protesto: "Povo tem o governo que merece: reclama ficar 3h na fila do hospital, mas fica 8h na fila do posto de combustível".
caminhões parados em fila única bloqueiam uma pista de rodovia
Caminhoneiros bloqueiam a rodovia Regis Bittencourt, na região metropolitana de São Paulo, no sexto dia da greve - Getty Images

INFORMAÇÕES REAIS DUELAM COM FAKE NEWS

Nesse meio tempo, foram surgindo grupos de WhastsApp de apoiadores dos caminhoneiros, para troca de informações sobre a greve. A BBC Brasil acompanhou seis deles.
Em meio a mensagens verdadeiras, circulavam muitas notícias falsas e desatualizadas. Entre elas, vídeos dizendo que manifestantes tinham ocupado Brasília e imagens informando que militares estariam prestes a tomar o poder.
No começo desta semana, foi feito um apelo nos grupos: que os caminhoneiros passassem a informar data, hora e local da mensagem de áudio ou vídeo, já que tudo estava mudando muito rapidamente e era preciso identificar se se tratava de algo novo ou não.
Em um dos grupos, criado no dia seguinte à greve, o administrador deletou mais de 200 participantes acusados de promover "fake news".
"A ideia do WhatsApp é a comunicação ponta a ponta. Não tem impulsionamento de mensagens, como no Facebook. Então, a empresa não tem influência no diálogo. São grupos se auto-organizando e repassando essas mensagens", afirma Benevenuto.
É uma via aberta, por onde trafegam os diferentes ideiais de uma sociedade. "Eu me lembro de ver a primavera árabe, em 2011, e pensar: 'as redes sociais vão virar movimento político, vão alavancar a democracia, vão abrir a cabeça das pessoas, não tem como governos autoritários controlarem uma coisa dessas'. E hoje vemos que pode ser usada para qualquer dos lados. Tem pedido de intervenção militar, notícia falsa...", diz o pesquisador da UFMG.

WHATSAPP VAI SER IMPORTANTE NAS ELEIÇÕES DE 2018

O WhatsApp, usado por 60% da população do Brasil, já é uma das principais fontes de informação no país.
Segundo o Digital News Report de 2017, um estudo sobre o consumo de notícias produzido em conjunto pela Reuters Institute e pela Universidade de Oxford em 36 países, 46% dos brasileiros usam WhatsApp para encontrar notícias.
O número é muito maior do que a média mundial, de 15%, e chamou a atenção dos pesquisadores. No estudo, eles destacaram que o WhatsApp cresceu tanto no Brasil que já está rivalizando com o Facebook —usado por 57% dos brasileiros para encontrar notícias.
"A greve de caminhoneiros aponta totalmente como pode ser o uso do WhatsApp nas eleições de 2018", diz Maurício Moura, pesquisador da George Washington University, nos Estados Unidos, que analisou o uso do aplicativo nas eleições de 2014.
Segundo o pesquisador, a tendência é que o debate eleitoral deste ano ocorra muito dentro do app de conversas.
"A rede social das eleições de 2018 vai ser o WhatsApp. Hoje, muito mais pessoas têm smarthphones no Brasil do que em 2014", avalia Moura, que também já trabalhou com campanhas políticas e é fundador da Ideia Big Data, que realiza pesquisas de opinião.
"Agora, não tem como fazer campanha no WhatsApp sem números de telefone. Por isso, a primeira estratégia dos candidatos e partidos é coletar números de celular, em eventos, fan pages...".Mesmo antes da campanha, já há diversos grupos de apoiadores de candidatos, como Jair Bolsonaro.
"A tendência é as pessoas se organizarem nos grupos de WhatsApp em torno de candidatos e pautas. Por outro lado, pessoas que querem desestabilizar as campanhas umas das outras também estarão operando nos grupos de WhatsApp com bastante intensidade", diz Yasodara.
O combate às notícias falsas, que se tornou uma grande preocupação desde a eleição de Donald Trump, em 2016, promete ser muito mais difícil no WhatsApp.
O Facebook, por exemplo, se comprometeu a não impulsionar páginas que promovam notícias falsas. A rede social pode fazer isso porque funciona como uma mediadora das publicações. Já no WhatsApp, onde não há nenhuma forma de controle externo, isso é impossível.
"Enquanto Facebook e Twitter estiveram sob forte escrutínio nos últimos tempos, o WhatsApp passou um pouco batido. Porém, o app é extremamente utilizado dentro do Brasil. Com toda essa atenção que se deu às outras redes, muito do esforço de campanha política migra para o WhatsApp, onde não há quase nenhum monitoramento", diz Benevenuto, da UFMG.
No WhatsApp, combater notícias falsas e discursos de ódio "é um desafio tão complexo quanto regular o discurso dentro das casas das pessoas", compara Yasodara.
"Como a sociedade faz para que os pais não ensinem aos filhos que o nazismo é uma coisa legal? Primeiro, criminaliza o que é ilegal. Segundo, traz cada vez mais informações verdadeiras para o debate público", afirma a pesquisadora de Harvard. 
Colaboraram Juliana GragnaniAndré Shalders e Felipe Souza ​
BBC BRASIL

Ditadura abafou apuração de corrupção dos anos 70, revelam documentos britânicos


Ditadura abafou apuração de corrupção dos anos 70, revelam documentos britânicos

Papéis detalham como Brasil chegou a abrir mão de indenização por compra superfaturada de navios


Daniel Buarque
LONDRES
Documentos confidenciais históricos do governo do Reino Unido revelam que a ditadura brasileira atuou para abafar uma investigação de corrupção na compra de fragatas (navios de escolta) construídas pelos britânicos nos anos 1970. Os fatos narrados nos papéis ocorreram durante os governos dos generais Emílio Garrastazu Médici (1969-1974) e Ernesto Geisel (1974-1979).
Segundo os registros, em 1978 o Reino Unido estava disposto a investigar denúncia de superfaturamento na compra de equipamentos para a construção dos navios vendidos ao Brasil e se ofereceu para pagar indenização de pelo menos 500 mil libras ao Brasil (o equivalente a quase 3 milhões de libras hoje —ou R$ 15 milhões). 
Em 1º plano, fragata União deixa base em Niterói para atuar no Líbano 
Em 1º plano, fragata União deixa base em Niterói para atuar no Líbano  - Pedro Carrilho - 6.out.2011/Folhapress
Em vez de permitir e ajudar no inquérito que seria do interesse do Brasil, o regime militar abriu mão de receber o valor e rejeitou os pedidos britânicos para ajudar na investigação —que foi recebido com estranheza em Londres.  
“Os brasileiros claramente desejaram manter o assunto de forma discreta”, diz um dos documentos. “É evidente que eles não gostariam que mandássemos um time de investigadores e não iriam colaborar com um, se ele fosse. O embaixador concluiu que o risco de sérias dificuldades com as autoridades brasileiras, o que poderia ser levantado por uma investigação, não deve ser assumido”, diz outro trecho dos despachos diplomáticos a que a Folha teve acesso.
“Há um mistério até hoje não resolvido, e só agora revelado. Por que, diante de uma investigação detalhada ao Brasil, o governo brasileiro resolveu não apenas impedir a vinda de autoridades britânicas, como não quis o dinheiro que tinha líquido e certo para receber?”, questiona o pesquisador brasileiro João Roberto Martins Filho, responsável pela descoberta dos documentos.
Martins Filho é professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e desenvolveu 
pesquisa nos arquivos da diplomacia britânica durante a ditadura brasileira durante período no King’s College de Londres.
Ele é autor do livro “Segredos de Estado: O Governo Britânico e a Tortura no Brasil (1969-1976)” (Ed. Prismas), em que revela a conivência do governo em Londres com a tortura no Brasil.
O caso dos navios está registrado em uma pasta de documentos diplomáticos intitulada “Alleged fraud and corruption by Vosper Thornycraft (UK) with government of Brazil”, que contém contém 139 páginas de registros históricos sobre o caso. A pasta foi fechada em 1978, e inclui documentos a partir de 1977. 
Em entrevista à Folha, Martins Filho disse que teve primeiro contato com a pasta de documentos há dois anos, durante pesquisa em Londres, mas que só agora conseguiu finalizar a análise detalhada dos documentos. “Tem muito historiador que tem documentos que podem ser bombas, mas ninguém teve capacidade de analisar tudo até agora”, disse.
A denúncia revelada por ele diz respeito ao acordo firmado entre Brasil e Reino Unido em 1970 para a compra de seis fragatas, das quais quatro seriam construídas nos estaleiros da firma Vosper, no Sul da Inglaterra, e duas no Arsenal da Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ). 
O primeiro desses navios, a fragata Niterói, foi lançada ao mar em 8 de fevereiro de 1974 e incorporada a 20 de novembro de 1976. Ela foi seguida pelas fragatas Defensora, Constituição e Liberal. No Brasil, seriam construídas as fragatas Independência e a União.
Cada uma dessas fragatas tinha pouco mais de 129 metros de comprimento e capacidade para uma tripulação de 209 pessoas, com raio de ação de até 4.200 milhas náuticas. Elas continuam em uso pela Marinha brasileira.

FORÇA-TAREFA NO LÍBANO

Segundo o site da Marinha, no fim do ano passado, a Fragata União, por exemplo, regressou ao Brasil após capitanear a Força-Tarefa Marítima da Força Interina das Nações Unidas no Líbano. No início deste ano, a fragata Independência assumiu o lugar dela no país. Já a fragata Liberal foi recentemente aberta à visitação do público em Santa Catarina.
Segundo a investigação realizada em Londres nos anos 1970, o estaleiro britânico contratado para construir os navios pedia desconto aos fornecedores, que entregavam os equipamentos para a construção das fragatas, mas as notas fiscais saíam com o preço sem o desconto. “O equipamento era fornecido, mas não por aquele preço”, disse o professor.
Os documentos mostram que o governo inglês ficou preocupado porque depois do contrato se tornou o dono do estaleiro e recebeu a denúncia de fraude. Londres havia sido avalista de todas as notas do negócio, explicou Martins Filho, então o governo quis evitar ser acusado de ter responsabilidade. 
“A coisa foi tão séria que chegou ao Ministro de Relações Exteriores e até mesmo ao primeiro-ministro James Callaghan”, disse Martins Filho.
Segundo ele, após uma reunião com o representante do governo brasileiro em Londres, entretanto, os britânicos se mostravam surpresos porque o Brasil não fez nenhuma menção de cobrar reparação pelo que foi desviado. Em determinado trecho, um documento da pasta indica que os brasileiros preferiam que o assunto seja “deixado de lado” o mais rapidamente possível.
“O governo inglês fica sem entender por que o governo brasileiro não queria receber de volta o valor numa ordem de 500 mil libras”, diz Martins Filho.

Jesus já deve estar de saco cheio

Jesus já deve estar de saco cheio


Nêggo Tomm - republicado do  site 247

O saudoso Almir Guineto, cantava que "Tudo que se faz na terra, se coloca Deus no meio. Deus já deve estar de saco cheio". E isso é a mais pura verdade. A "Marcha para Jesus", organizada pelos atores, Bispa Sônia Hernandes (Perfume de Jesus - 2012) e por seu marido, Apóstolo Estevam Hernandes (O homem que levava dinheiro escondido na Bíblia - 2007), e que contou com a participação especial do também ator, o deputado federal e presidenciável, Jair Bolsonaro, é uma prova de que Deus, se ainda não perdeu, em breve ficará sem paciência e largará o Brasil de mão.
Todos os anos, milhões de pessoas costumam acompanhar a tal marcha, acreditando que ela os levará para Jesus, mesmo estando sendo guiados por estelionatários e charlatões. Eu respeito profundamente todos aqueles que participam do congraçamento e cuja fé, além de remover montanhas, os faz crer no impossível. E quando falo do impossível, me refiro à possibilidade de algumas figuras públicas, que costumam subir ao palanque do referido evento, estarem no caminho de Jesus.
O que um homem como Bolsonaro, que defende a pena de morte e a tortura, que deseja armar a população e que incita e exala ódio e preconceito por onde passa, pode querer com Jesus? O perdão para os seus despropósitos ou a cura para a sua estupidez? João Dória, foi outro que marcou presença, e, ao lado de Flávio Rocha, dono da Riachuelo e presidenciável pelo PRB, desfilaram no carro de som do evento.
O primeiro, queria dar ração, ao invés de alimento para as crianças paulistanas, talvez desconhecendo que o Jesus para o qual a marcha se conduzia, nos alertou que nunca fizéssemos mal a um de seus pequeninos. O segundo, é condenado por trabalho escravo e já declarou que não se importa com a desigualdade social, talvez não sabendo que Jesus sempre condenou todo e qualquer tipo de opressão. Será que lhes falta conhecimento de quem é Jesus ou vergonha na cara mesmo?
Ainda marchando para Jesus, o Governador de São Paulo, Márcio França, chegou a se ajoelhar no palco, para demonstrar toda a sua fé e reverência. Ele disse que a paz no país depende de Deus e acrescentou: "O Brasil precisa de paz. Não adianta a gente colocar polícia, não adianta a gente vigiar, se Deus não estiver no controle. A Bíblia que fala: se você tiver a sua casa sendo vigiado por quem for, se Deus não estiver lá, está vigiando à toa. É assim que deve ser o país é assim que deve ser o estado é assim que deve ser uma cidade." Ao que parece, ele já definiu que Deus será o responsável pela segurança pública em seu governo.
Mas, nada foi tão surpreendente e apocalíptico, quanto Michel Temer participando de outro evento evangélico - este ligado a Assembléia de Deus - e fazendo uma pregação onde ele revelou que Deus o iluminou durante as negociações com os caminhoneiros. "Que isso sirva de exemplo para o nosso país, a força do diálogo. Depois de dialogar, chamei as Forças Armadas. Fui iluminado por Deus, que disse: 'Vai lá no templo da assembleia comemorar a pacificação do país'", disse o presidente. Sinceramente, a única coisa que consigo imaginar Deus falando para Michel Temer, é: "O seu lugar é na concorrência"
Temer ainda pediu para que os pastores levassem sua mensagem às igrejas de todo o Brasil. O que me leva a entender, que Temer está lançando o seu próprio evangelho. Será que até em Deus ele vai querer dar um golpe? Pelo visto, a religião é o novo ópio do povo. Através dela, gente mal intencionada vem pregando mentiras, promovendo distorções e provocando a alienação dos mais distraídos.
Parece que o apocalipse começou pelo Brasil. Deus nos proteja!