sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Nazismo, fascismo e marxismo: um pouco de história


Nazismo, fascismo e marxismo: um pouco de história


CADU DE CASTRO




Vivemos a Era da Pós-verdade, que consiste na disseminação de mentiras suportadas por argumentos forjados e interpretação equivocada ou propositalmente distorcida de contextos históricos e sociais. Aqueles que as disseminam o fazem por profunda ignorância sobre o assunto abordado ou por desonestidade intelectual crua.
Nas esteira das mentiras inconsistentes e absurdas - largamente difundidas por aqueles que querem crer em despautérios -, está a categorização das ideologias fascista e nazista como pensamento e prática das esquerdas. Esta afirmação parte de profundo desconhecimento sobre o tema ou mera má-fé?
Bem, como acredito na educação crítica, cidadã, como meio de transformação e desenvolvimento humano das pessoas, penso ser importante tocar neste tema. Para se compreender a origem do fascismo e do nazismo, é preciso conhecer contextos históricos, sociais e econômicos que permitiram que estas ideologias brotassem e se consolidassem nas primeiras décadas do século passado.
Durante a Primeira Grande Guerra, houve maior intervenção e controle do Estado em praticamente todas as áreas em muitos países, com grande relevância na economia. A este processo, que recrudesceu especialmente na Europa, denominamos Ordenação Estatal, resultado da necessidade de reconstrução de alguns países e da recuperação de suas economias.
As recorrentes crises econômicas acentuaram as pressões sociais e produziram transformações na conjuntura política. Neste período, o anarco-sindicalismo se tornou muito forte na Itália, especialmente por representar as reivindicações dos trabalhadores. O Partido Comunista Italiano também havia se organizado no país e tinha, por sua vez, fortes ligações com o socialismo da Revolução Bolchevique de 1917.
A monarquia parlamentar italiana era liderada pelo Primeiro-Ministro, de matriz liberal, Giolitti. O principal partido que fazia oposição a Giolitti era o Partido Socialista Italiano (PSI), do qual Benito Mussolini foi membro até o momento em que apoiou a entrada da Itália na Primeira Guerra. Tal gesto contrariou as decisões do PSI, e Mussolini foi expulso da organização.
Em 1919, Benito Mussolini articulou uma nova organização de caráter paramilitar, formada por muitos ex-combatentes. Inicialmente, a batizaram de Fascio de combatimento, que remetia ao feixe de lictor (fascio de littorio), símbolo do poder do antigo Império Romano.
Os integrantes do Fascio vestiam uniformes paramilitares, com destaque para as camisas negras. Em 1920, Mussolini transformou essa organização em partido político, o Partido Nacional Fascista, que disputou as eleições no ano seguinte, ocupando 20 cargos para deputados. Em 1922, os fascistas promoveram a famosa Marcha sobre Roma, nos dias 26 e 27 de outubro, cujo objetivo era forçar o rei Vitor Emanuel III a nomear Mussolini Primeiro-Ministro. O rei, cedendo às pressões, o encarregou de formar um novo governo para Itália.
À época, Mussolini foi uma uma espécie de terceira via, que divergiu do fracassado liberalismo italiano e se contrapôs violentamente ao socialismo e ao anarco-sindicalismo.
Fraudou as eleições para controlar o Parlamento, mandou eliminar os adversários - entre eles o deputado comunista Giácomo Matteotti -, suprimiu a liberdade de imprensa e proibiu os partidos políticos, exceto o Partido Fascista, tornando-se o Duce (O Guia) de uma sórdida ditadura.
O Estado fascista se construiu forte e centralizado, totalitário, corporativista, de caráter nacionalista, anticomunista e militarmente expansionista. Uma das muitas contradições é que, apesar de antiliberal, o fascismo se aliou a alguns empresários e banqueiros italianos e recuperou a economia investindo em grandes obras públicas.
Segundo De Felice, a consolidação da ideologia fascista se deu por intermédio de uma concepção mística da política e da vida em geral; da exaltação da coletividade nacional - ao contrário do marxismo, que pregava o internacionalismo -, e do indivíduo incomum (o mito do chefe); de um regime político de massa, baseado no sistema de partido único, da milícia partidária e do controle das fontes de informação e propaganda; de um revolucionarismo verbal e conservadorismo de fundo; da ascensão da pequena e média burguesia às classes dirigentes; da criação e valorização de forte aparato militar, e do controle da economia pelo Estado, porém, com objetivo de concentrar as riquezas nas classes dirigentes e não de distribuí-la.
Com relação à Alemanha, a derrota na Primeira Guerra Mundial conduziu à extinção da monarquia e a instalação de uma República Federativa Parlamentarista, a República de Weimar. O caos do pós-guerra, gerado principalmente pelas rigorosas condições impostas pelo Tratado de Versalhes, que submeteu o país à desmilitarização, à perda de territórios e a altas indenizações aos países vencedores, se intensificou após 1919.
O momento crítico da República de Weimar ocorreu em 1923, quando a inflação assumiu proporções dramáticas. Apesar de os grandes industriais e proprietários de terra a tolerarem, pois se favoreciam com a desvalorização monetária que permitia liquidarem suas dívidas com o Estado, a hiperinflação solapou as classes trabalhadoras.
Não obstante, França e Bélgica ocuparam a região industrial do rio Ruhr, com o pretexto de garantir a extração e o fornecimento de matérias-primas como parte do pagamento da dívida de indenização de guerra, aprofundando ainda mais a crise alemã.
A miséria e o clima de convulsão levaram a greves gerais, manifestações de rua e até sabotagens, visando à queda do governo. Neste cenário, Adolf Hitler, um ex-combatente condecorado do exército alemão, de ideias nacionalistas, antissemitas, anticomunistas e revanchistas, bem como dono de excelente oratória, toma para si o Partido dos Trabalhadores Alemães, fundado por Anton Drexler. Apesar do nome, o partido tinha postura antissemita e anticomunista, mas com o objetivo de angariar massas o rebatizaram com o nome de Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, conhecido pela sigla NAZI.
Aproveitando-se do ambiente conturbado, Hitler tentou um golpe de estado (o Putsche de Munique, em 1923) e foi preso. Na prisão, escreveu o primeiro volume de Mein kämpf (Minha luta). Nesta obra, salta aos olhos o antissemitismo e o anticomunismo de Hitler. A ideologia nazista preconizava a supremacia racial ariana. Portanto, tinha por objetivo a construção de uma sociedade fortemente hierarquizada, em que os privilégios dos arianos deveriam ser garantidos por sua superioridade racial (embasaram-se no darwinismo social).
Em Mein kämpf, Hitler desonestamente caracteriza o marxismo como uma ideologia judaica - a família de Karl Marx era de origem judaica -, sendo assim, seria imprescindível combatê-la.
Separei alguns trechos do livro para ilustrar melhor suas ideias:
“Nesse tempo, abriram-se-me os olhos para dois perigos que eu mal conhecia pelos nomes e que, de nenhum modo, se me apresentavam nitidamente na sua horrível significação para a existência do povo germânico: marxismo e judaísmo.”
"No pequeno círculo em que agia, esforçava-me, por todos os meios ao meu alcance, por convencê-los da perniciosidade dos erros do marxismo e pensava atingir esse objetivo, mas o contrário é o que acontecia sempre.”
“A doutrina judaica do marxismo repele o princípio aristocrático na natureza. Contra o privilégio eterno do poder e da força do indivíduo levanta o poder das massas e o peso-morto do número. Nega o valor do indivíduo, combate a importância das nacionalidades e das raças, anulando assim na humanidade a razão de sua existência e de sua cultura. Por essa maneira de encarar o universo, conduziria a humanidade a abandonar qualquer noção de ordem. E como nesse grande organismo, só o caos poderia resultar da aplicação desses princípios, a ruína seria o desfecho final para todos os habitantes da terra.”
"Se o judeu, com o auxílio do seu credo marxista, conquistar as nações do mundo, a sua coroa de vitórias será a coroa mortuária da raça humana e, então, o planeta vazio de homens, mais uma vez, como há milhões de anos, errará pelo éter.”
“Nos anos de 1913 e 1914 manifestei a opinião, em vários círculos, que, em parte, hoje estão filiados ao movimento nacional-socialista, de que o problema futuro da nação alemã devia ser o aniquilamento do marxismo.”
“O marxismo, cuja finalidade última é, e será sempre, a destruição de todas as nacionalidades não judaicas, teve de verificar, com espanto, que nos dias de julho de 1914, os trabalhadores alemães, já por eles conquistados, despertaram e cada dia com mais ardor, se apresentavam ao serviço da pátria.”
A Crise de 29 promoveu o colapso completo do liberalismo econômico. Segundo Hobsbawn, a grande depressão destruiu o liberalismo econômico por meio século. E com o liberalismo combalido ”três opções competiam agora pela hegemonia intelectual-política. O comunismo marxista; um capitalismo privado de sua crença na otimização de livres mercados, e reformado por uma espécie de casamento não oficial ou ligação permanente com a moderada social-democracia de movimentos trabalhistas não comunistas; e a terceira opção era o fascismo, que a Depressão transformou num perigo mundial.
Neste ambiente, o NAZI se tornou o partido dirigente das classes médias alemãs, pois elas compunham seu principal eleitorado. As classes médias escolhiam sua política conforme seus temores, então, com medo do Partido Comunista alemão, fortemente influenciado pelas orientações bolcheviques, preferiram se submeter à ditadura nazista a apoiar os “comunas".
No entanto, a ascensão nazista ocorreu não somente pelo apoio das classes médias, mas também pela introdução de uma propaganda brutal que possibilitou a integração das massas. A propaganda nazista não oferecia somente o fim da crise e do desemprego, mas aparelhados e financiados pela burguesia, prometia melhores salários, participação nos lucros, nacionalização dos trustes, reforma agrária, anulação de dívidas de camponeses, isto é, oferecia mudanças no próprio sistema capitalista.
Os nazistas levaram a sério suas mentiras propagandistas e impressionaram com sua força de organização. O resultado disto todos conhecemos: o genocídio de milhões de pessoas (judeus, comunistas, ciganos, deficientes físicos, testemunhas de Jeová, entre outros).
É preciso que fique claro que o fascismo e o nazismo foram ideologias e governos de extrema-direita, e que estiveram muito distantes da direita liberal e democrática. Segundo Michel Gherman, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém e coordenador do Centro de Estudos Judaicos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, “(…) a razão de existência do Estado era manter as diferenças raciais.
Estabelecer um estado racialmente hegemônico, escravizar e eliminar raças inferiores e combater e exterminar a oposição que falava em classes sociais. O nazismo, ao contrário do socialismo, não pretendia a abolição da propriedade privada e nem a coletivização dos meios de produção. O nazismo gostaria de garantir a arianização da economia, buscava ter alianças com grandes empresas verdadeiramente alemães e buscava construir um estado corporativo. O nazismo constituía-se assim, como modelo de capitalismo excludente e estatal. Nada mais distante do que qualquer posição a esquerda.”
Portanto, é preciso que se refutem as pós-verdades. A quem serve a reprodução de mentiras desonestamente forjadas? Opiniões, hoje tão banalizadas, devem ser embasadas em argumentos sólidos e honestos. O conhecimento só é real quando construído pelo próprio indivíduo, e isso se dá por intermédio de pesquisa, crítica sobre as fontes e profunda reflexão, e relações dialéticas, ou seja, o processo de se educar. Caso contrário, será um papagaio a serviço de pessoas ou instituições intelectualmente desonestas.
Reproduzir estas pós-verdades sem nenhuma crítica ou reflexão é o que denomino ignorância ostentação, pois, não basta ser ignorante, há de se ostentar.
Seguem algumas indicações bibliográficas para quem quiser conhecer um pouco mais sobre o tema.
PARA SABER MAIS:
ALMEIDA, Angela Mendes. A República de Weimar e a ascensão do nazismo. São Paulo: Brasiliense, 1999.
DEFELICE, R. Explicar o fascismo. São Paulo: Edições 70, 1980.
HOBSBAWM, Eric J. Era dos extremos: o breve século XX São Paulo: Companhia das letras, 1995.
PARIS, R. As origens do fascismo. São paulo: Perspectiva, 1970.
POULANTZAS, N. Fascismo e ditadura. São Paulo: Martins Fontes, 1970.
http://internacional.estadao.com.br/…/o-nazismo-e-de-extre…/
Leia também 1984, de Orwell. Ótimo para compreender a produção de pós-verdades.
*Poderia aqui sugerir também Mein kämpf, mas, pela falta de senso crítico de muitos, pode ser perigoso.

CADU DE CASTRO
Cadu de Castro é historiador, com pós-graduação em gestão ambiental. Educador, dedica-se ao trabalho  com povos originários, tradicionais e outras comunidades, bem como com a cultura popular brasileira.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

O juiz do TSE pode o que o juiz de futebol não pode?



O juiz do TSE pode o que o juiz de futebol não pode?

No Painel de hoje, a Folha faz uma curiosa interpretação do que, claro, define como a “tática que foi adotada pelo ex-presidente desde que ele entrou na mira da Lava Jato”, como se houvesse algum tipo de tática para quem é acusado num processo de perseguição política senão a de proclamar sua inocência e espernear contra o arbítrio.
A opção pelo confronto foi consciente e pragmática. Numa tentativa de dar sobrevida política ao partido que criou e ao próprio legado, Lula decidiu esgarçar todos os fios de sua relação com a Justiça, sacrificando as remotas chances que teria de deixar a cadeia cedo ou de contar com alguma boa vontade no Tribunal Superior Eleitoral.
O petista sabe que, colocando o TSE contra a parede enquanto arquiteta a própria substituição na corrida pelo Planalto —dentro da carceragem da Polícia Federal—, irrita os ministros e abre espaço para respostas extremadas e céleres.
Opção pelo confronto? Será que a redatora deste texto, ao ser, em sua visão, condenada injustamente como corrupta e “lavadora” de dinheiro consideraria a hipótese de “miar” diante de seus algozes para que, pelo menos, aceitassem que ela ” deixasse a cadeia(mais) cedo”, ficasse quietinha em casa, de tornozeleira e impedida sua profissão de escrever?
É preciso ser muito ingênuo para acreditar que tribunais que fecham os olhos às barbaridades praticadas por Sérgio Moro e pelo TRF-4 fossem deixar Lula livre, mesmo sem ser candidato, funcionando como referencial para o processo eleitoral que é, justamente, toda a razão de terem-no perseguido e encarcerado.
O mais grave, porém, é que diz, como se fosse natural, que esta “tática” tira a “boa vontade do tribunal” . “irrita os ministros” e “abre espaços para respostas extremadas e céleres”.
Uau! Quer dizer que se aceita que juízes de um tribunal superior, com todas as obrigações de guardiões dos direitos da cidadania, mudam suas decisões e seu entendimento da lei porque “ficaram irritados” com o cidadão que foi buscar sua prestação jurisdicional?
É simples entender o quão absurdo isso é.
Então o “juiz” de futebol, se uma torcida, como tantas vezes acontece, pega no seu pé – para dizer o menos – e o deixa irritado está autorizado a marcar impedimentos que não existem? Pênaltis que não aconteceram? Inverter as faltas para prejudicar o time desafeto?
Curioso que considerem que um sujeito que está preso há mais de quatro meses tenha de ser “calmo e paciente” e à turma da toga, no bem-bom, não se estranhe sair às pressas, num domingo, disparando telefonemas para ordenar que não se cumprisse um relaxamento de pena que, pelas regras, poderia ser anulado já na segunda ou terça-feira? Ou que no caso de seu registro, já mesmo antes de pedi-lo, o então presidente do TSE dissesse que a negativa seria “chapada” e a procuradora-geral nem sequer esperou a formalização, com a publicação do pedido, para já apresentar pedido de impugnação.
É um absurdo e uma vergonha que a imprensa e a comunidade jurídica do país tenha naturalizado e aplaudido este comportamento. O fim – excluir Lula das eleições, não só como candidato, mas como uma simples voz – passou a justificar todos os meios.
É pueril e idiota acharmos que suas excelências possam estar decidindo como estão, invariavelmente conta Lula, por convicção jurídica – todos sabem que o processo de Moro é uma mixórdia – ou porque estão “magoados” com a insubmissão do ex-presidente a uma injustiça.
O propósito é claro e asqueroso: dirigir o resultado das eleições, nada menos que isso.
É, invocando a lei e usando a força do Judiciário, fraudar a vontade popular. E contra isso não se pode tergiversar.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Por que esquecemos a maioria dos livros que lemos e filmes a que assistimos

Por que esquecemos a maioria dos livros que lemos e filmes a que assistimos

Segundo pesquisador, a forma que consumimos informação mudou o tipo de memória que damos valor


Julie Beck
As lembranças de Pamela Paul quanto a leituras são menos sobre as palavras e mais sobre a experiência. "Quase sempre me recordo de onde estava, e do livro em si. Lembro do objeto", diz Paul, editora da revista The New York Times Book Review e pessoa que pode ser facilmente definida como alguém que lê um monte de livros. "Recordo a edição; recordo a capa; usualmente recordo onde comprei o livro, ou de quem o ganhei. O que não recordo —e isso é terrível— é tudo mais".
Paul me contou, por exemplo, ter terminado recentemente de ler a biografia de Benjamin Franklin por Walter Isaacson. "Enquanto lia o livro, aprendi não tudo que se conhece sobre Ben Franklin, mas boa parte disso, e estava ciente da cronologia geral da revolução americana", ela diz. "Agora, dois dias mais tarde, eu provavelmente não conseguiria resumir a cronologia da revolução americana".
Certamente há pessoas capazes de ler um livro ou assistir a um filme uma vez, e reter a história perfeitamente. Mas, para muita gente, a experiência de consumir cultura é como encher uma banheira, entrar na água e depois vê-la escoando pelo ralo. Pode restar uma pequena quantidade de água na banheira, mas o resto se vai.
"A memória em geral tem uma limitação muito intrínseca", diz Faria Sana, professora assistente de psicologia na Universidade de Athabasca, no Canadá. "É essencialmente um gargalo".
A "curva do esquecimento", o nome pelo qual o fenômeno é conhecido, é mais acentuada nas primeiras 24 horas depois que a pessoa recebe uma informação. Exatamente quanto a pessoa esquece, em termos percentuais, varia, mas a menos que ela revise o material, boa parte dele escorre pelo ralo depois do primeiro dia, e a perda aumenta nos dias subsequentes, o que deixa apenas uma fração do que a pessoa recebeu.

Presume-se que a memória sempre tenha funcionado assim. Mas Jared Horvath, pesquisador da Universidade de Melbourne, na Austrália, diz que a maneira pela qual as pessoas consomem informação e entretenimento hoje mudou o tipo de memória a que atribuímos valor —e a nova preferência não é pelo tipo que ajuda a reter a trama de um filme assistido seis meses atrás.
Na era da internet, a memória declarativa —a capacidade de acessar espontaneamente informações que a pessoa guarda na cabeça— se torna muito menos necessária. É boa para jogos de bar ou para recordar a lista de tarefas a fazer, mas, segundo Horvath, a chamada memória de reconhecimento se tornou em geral mais importante. "Desde que você saiba onde está a informação, e como acessá-la, não precisa da memória declarativa", ele diz.
Pesquisas mostraram que a internet serve como uma espécie de memória externa. "Quando as pessoas antecipam ter acesso futuro a uma informação, elas recordam menos os detalhes dessa informação", nas palavras de um estudo. Mas mesmo antes que a internet existisse, produtos de entretenimento serviam como memórias externas sobre eles mesmos. Ninguém precisa lembrar uma citação de um livro se puder consultá-lo. Quando surgiram os videotapes, tornou-se fácil voltar a assistir um filme ou programa de TV.
Não existe mais a sensação de que, se a pessoa não gravar uma dada informação em seu cérebro, ela se perderá.
Com os serviços de streaming e os artigos da Wikipédia, a internet rebaixou ainda mais o limiar da recordação, quanto à cultura que consumimos. Mas não é como se antes recordássemos mais ou melhor.
Platão foi um dos mais famosos ranzinzas da antiguidade, se o assunto era conservar memórias fora do cérebro. No diálogo que ele escreveu entre Sócrates e o aristocrata Fedro, Sócrates conta uma historia sobre o deus Thoth, o descobridor do "uso das letras".
O rei egípcio Tamo diz a Thoth: "Essa sua descoberta criará o esquecimento nas almas dos aprendizes, porque eles não usarão sua memória; confiarão nos caracteres escritos externos e não recordarão sozinhos". (É claro que as ideias de Platão só nos são acessíveis hoje porque ele as escreveu.)
"[No diálogo], Sócrates odeia a ideia de escrever porque acha que isso matará a memória", diz Horvath. "E ele está certo. Escrever com certeza matou a memória. Mas pense em todas as coisas incríveis que obtivemos com a escrita. Eu não trocaria a escrita por uma memória declarativa melhor, em hipótese alguma". Talvez a internet ofereça uma barganha semelhante: o usuário pode acessar e consumir toda a informação e entretenimento que desejar, mas não reterá a maior parte disso.
É verdade que as pessoas acumulam em seus cérebros muito mais do que são capazes de reter. No ano passado, Horvath e seus colegas da Universidade de Melbourne constataram que as pessoas que assistem a muitos episódios de séries de TV em rápida sequência esquecem o conteúdo dos episódios muito mais rápido do que as pessoas que assistem a um episódio por semana.
Pouco depois da conclusão de um episódio, o pessoal que assistia a múltiplos episódios em sequência registrava os melhores resultados em um teste de memória, mas passados 140 dias seus resultados eram inferiores aos dos espectadores que assistiam a um episódio por semana. Eles também reportaram curtir menos a série do que as pessoas que assistiam a um episódio por dia ou por semana.
As pessoas também estão consumindo palavras escritas em grande volume. Em 2009, o americano médio estava exposto a 100 mil palavras por dia, mesmo que não as "lesse" todas. É difícil imaginar que esse número tenha caído, nove anos mais tarde.
Em "Binge-Reading Disorder" [distúrbio da leitura compulsiva], um artigo para o jornal The Morning News, Nikkitha Bakshani analisa o significado dessa estatística. "Ler é uma palavra nuançada", ela afirma, "mas o tipo mais comum de leitura é provavelmente a leitura de consumo - lemos, especialmente na internet, para adquirir informação, uma informação que não tem chance de se tornar conhecimento a menos que seja retida".
Ou, nas palavras de Horvath, "é uma risadinha passageira, e você logo quer outra risadinha. Não estamos falando de aprender alguma coisa, e sim sobre uma experiência momentânea que leva a pessoa a sentir que aprendeu alguma coisa".
A lição do estudo sobre leitura compulsiva é a de que, se a pessoa deseja recordar aquilo que assistiu ou leu, precisa espaçar o processo. Eu costumava me irritar na escola quando o curso de inglês requeria leitura de apenas três capítulos de um livro por semana, mas havia um bom motivo para isso.
A memória ganha força se a pessoa é forçada a reclamá-la constantemente, diz Horvath. Se a pessoa lê um livro todo de uma vez - por exemplo no avião -, a história ficará armazenada em sua memória de trabalho o tempo todo. "Ela jamais será reacessada", ele diz.
Sana diz que é comum, quando lemos., que haja uma "sensação de fluência" falsa. A informação está fluindo para o cérebro, o leitor a está entendendo, e ela parece estar sendo armazenada em uma pasta que encontrará lugar na nossa biblioteca mental. "Mas na verdade ela não será fixada se o leitor não se esforçar, e não adotar certas estratégias que ajudam a lembrar".
Pode ser que as pessoas ajam assim quando estão estudando ou lendo algo para o trabalho, mas parece improvável que, em seus momentos de lazer, façam anotações sobre "Gilmore Girls" para teste posterior. "Você pode estar vendo e ouvindo, mas talvez não esteja percebendo e escutando", diz Sana. "E acho que é exatamente assim que agimos na maioria do tempo".
Ainda assim, nem todas as memórias que não são armazenadas devidamente se perdem. Algumas delas podem estar retidas na memória, inacessíveis, até que a pista correta as libere - talvez uma cena de episódio anterior exibida no começo de um novo episódio de "Gilmore Girls", ou uma conversa com um amigo sobre um livro que ambos tenham lido. A memória é "essencialmente associativa", diz Sana.
Isso pode explicar por que Paul e outros se recordam do contexto em que leram um livro sem se recordarem de seu conteúdo. Paul mantém um "livro de livros", apelidado de "Bob" [book of books], desde que estava no segundo grau - uma forma analógica de memória externa.
Ela adota no diário todos os livros que lê. "O Bob oferece acesso imediato aos lugares em que estive, psicológica e geograficamente, em cada dado momento de minha vida", ela explica em "My Life With Bob", livro que ela escreveu sobre seu livro de livros. "Cada anotação conjura uma lembrança que de outra forma poderia ter se perdido ou se tornado menos nítida, com o tempo".
Em artigo intitulado "A Maldição de Ler e Esquecer", para a revista New Yorker, Ian Crouch escreve que "ler tem muitas facetas, uma das quais pode ser bastante indescritível e naturalmente fugaz, uma mistura de pensamento, emoção e manipulação sensória que acontece no momento e desaparece. Que proporção da leitura, portanto, é só uma forma de narcisismo - um marcador de quem você era e em que estava pensando ao encontrar dado texto?"
Para mim, não parece narcisismo recordar as estações da vida com base na arte que as ocupou - a primavera dos romances de amor, o inverno das reportagens sobre crimes. Mas é verdade que, se você consome cultura na esperança de construir uma biblioteca mental à qual possa se referir a qualquer momento, é provável que se decepcione.
Livros, espetáculos, filmes e canções não são arquivos subidos para os nossos cérebros - são parte da tapeçaria da vida, entretecidos a tudo mais. De longe, pode ser difícil distinguir uma das meadas, mas ela estará lá.
"Seria bacana se nossas memórias fossem limpas - uma informação entra e em consequência a pessoa tem uma memória daquele fato", diz Horvath. "Mas na verdade, todas as memórias são todas as coisas juntas".
 
Julie Beck é editora sênior da revista The Atlantic, onde cobre família e educação
 
Tradução de PAULO MIGLIACCI

Sobre Hélio Bicudo



Ao se equivocar no impeachment, Hélio Bicudo não soube preservar seu patrimônio histórico. Por José Eduardo Bicudo, filho do jurista


 

domingo, 12 de agosto de 2018

O “strip-tease” do arbítrio


O “strip-tease” do arbítrio


Na imprensa deste final de semana, assiste-se ao espetáculo obsceno da revelação de como as instituições judiciais se tornaram tão adeptas do Direito quanto aqueles “capangas lá do Mato Grosso” que ficaram tristemente famosos numa sessão do Supremo tribunal Federal.
Na Veja, o desembargador João Gebran Neto diz que agiu ilegalmente para “evitar um mal maior” – a soltura de Lula por algumas horas, até que o monólito da Justiça pudesse esmagá-lo outra vez – e atropelou a decisão do desembargador Rogério Favreto:
O desembargador Gebran Neto admitiu a amigos que ignorou a letra fria da lei ao dar decisão contrária à soltura de Lula, desconsiderando a competência do juiz de plantão. Gebran  alegou que era a única saída para evitar um erro ainda mais danoso: libertar o petista.
Gebran, está claro, o fez com as “costas quentes” que lhe deu o presidente do TRF-4, Carlos Eduardo Thompson Flores que, relata o chefe da Polícia Federal, Rogério Galloro,  ao Estadão, telefonou aos que tinham a obrigação de cumprir a ordem e, a revogou de “gogó” e, ele sim, sem jurisdição para isso.
O segundo momento tenso para a PF envolveu a ordem de soltar Lula dada pelo desembargador Rogerio Favreto e a contraordem de Moro e dos desembargadores Gebran Neto e Thompson Flores, do TRF-4.
Eu estava no Park Shopping, em Brasília, dei uma mordida no sanduíche, toca o telefone. Avisei para a minha mulher: ‘Acabou o passeio’.
 Em algum momento a PF pensou em soltar o ex-presidente?
Diante das divergências, decidimos fazer a nossa interpretação. Concluímos que iriamos cumprir a decisão do plantonista do TRF-4. Falei para o ministro Raul Jungmann (Segurança Pública): ‘Ministro, nos vamos soltar’. Em seguida, a (procuradora-geral da Republica   ) Raquel Dodge me ligou e disse que estava protocolando no STJ (Superior Tribunal de Justiça) contra a soltura. ‘E agora?’ Depois foi o (presidente do TRF-4) Thompson (Flores) quem nos ligou. ‘Eu estou determinando, não soltem’. O telefonema dele veio antes de expirar uma hora. Valeu o telefonema.
Num país minimamente sério, o Conselho Nacional de Justiça estariam abrindo procedimentos contra Gebran, Flores e o Ministério Público instaurando uma investigação contra o próprio diretor da PF.
Desde quando “vale o telefonema” diante de um mandado judicial? Desde quando, sem ser provocado, um juiz decide que outra decisão judicial representa “um mal maior”?
Imagino que os nossos grandes juristas do STF devam estar achando, a esta altura, como explicações e justificativas para isso, ou os confeitos que estejam preparando para enfeitar o coronelato de roça que praticam os algozes de Lula.
Na Justiça brasileira, porém, isso já não enoja ninguém.

Janio: Pentágono vem se apropriar de Alcântara


Janio: Pentágono vem se apropriar de Alcântara
Embraer eles já têm no papo!
publicado 12/08/2018
bessinha (2).jpg
Conversa Afiada reproduz da Fel-lha deste domingo, 12/VIII, artigo de Janio de Freitas:

Como outrora


A regressão se dá em mais vias do que vemos na política e em outras paisagens do dia a dia brasileiro. Uma das vias não observadas tem hoje um dia marcante, com a chegada do secretário de Defesa dos Estados Unidos ao Brasil, sua parada inicial na América do Sul. O general James Mattis vem acelerar o empenho americano de restabelecer os acordos "de cooperação militar" com países da região.
O Acordo Militar Brasil-Estados Unidos foi extinto pelo governo Geisel, em represália a atitudes do governo Jimmy Carter contra as práticas de violência da ditadura. Em parte, Geisel aproveitava a ocasião para encerrar uma presença de militares americanos que começava a ser perigosa para o regime. Os militares da "missão militar americana" estavam nas principais unidades do Exército, para uma assistência que nunca se limitou a questões técnicas.
Os assistentes do acordo tiveram papel importante, de fato, como doutrinadores políticos. Desde seus primeiros anos nos quartéis brasileiros, colaboraram para reverter o nacionalismo difundido entre os militares a partir da "batalha do petróleo", nos primeiros anos 1950, com a decorrente criação da Petrobras.
Na mesma trilha, sua encoberta doutrinação contribuiu para a formação, nas casernas, do movimento contra Getúlio e seu desenvolvimentismo. A abundância atual de documentos oficiais americanos reduz ao ridículo os que negavam a ação de americanos no preparo e na execução do golpe de 1964.
Por diferentes motivos, os acordos "de cooperação" se extinguiram na América Latina, passada a série de golpes. A degradação e depois o fim da União Soviética relaxaram a vigilância ativa dos Estados Unidos na região. Até verem, já atrasados, que a China se reinventou mais uma vez.
Com Lula, o governo Obama tanto propôs a reassociação como a encerrou em um curto-circuito inexplicado. Com Dilma, vigente ainda o mal-estar, o governo Obama foi desmascarado em escutas clandestinas das comunicações da presidente, espionagem cuja motivação também não foi esclarecida. Com Temer, as portas se abriram.
Os americanos querem o controle da base de lançamento de foguetes em Alcântara, Maranhão. As conversas a respeito, entre os dois governos, estão adiantadas. O mesmo a respeito de maior oferta do pré-sal a empresas privadas. Além disso, o governo Temer estuda a derrubada das restrições à venda, pela Petrobras, de parte das suas áreas no pré-sal.
A cessão da Embraer à entrada dominante da Boeing, empresa sob influência da Secretaria da Defesa, é outro item da reaproximação em andamento. E, com a vinda do general Mattis, iniciam-se os entendimentos para um plano de segurança regional, aproveitando a oportunidade implícita nos atuais governantes de Brasil, Argentina, Colômbia e Chile, países a receberem o secretário.
O Equador de Lenín Moreno, eleito pela esquerda e presidente de direita, já fez com o governo Trump o acordo formulado pelo Pentágono, para reativar a "cooperação militar" prevista no plano de segurança.
Contra que ameaças aos países procurados, isso os militares sul-americanos vão aprender nos cursos em bases americanas, como outrora era feito na "Escola das Américas" no Panamá, e na "assistência técnica" em seus próprios quartéis, também como outrora.

sábado, 4 de agosto de 2018

Heróis com o couro alheio

Heróis com o couro alheio


Não estamos a 62 dias de uma eleição democrática, estamos a 62 dias de uma imensa crise institucional.
Fossemos viver, dia 7 de outubro,  um alegre domingo onde, reunidos num parque, iríamos escolher o melhor entre nós para liderar o país na primavera, bem, estou de acordo que poderíamos estar discutindo personalidades, métodos partidários, renovação política e outras questões que têm seu mérito inegável.
Parece óbvio, porém, que não estamos.
Estamos a um passo de assistir um retrocesso como não se vê há 40 anos neste país e, talvez por este afastamento geracional não seja percebido em toda a sua dramaticidade.
Existem, porém, evidências de que estamos nesta iminência.
Como antes com os militares, um corporação – a judicial – assumiu a tutela do país.
À sua sombra, pretendem transformar a eleição presidencial em mera formalização de uma escolha de governantes que, de outra forma, jamais seriam os escolhidos pelo povo brasileiro. Geraldo Alckmin e Jair Bolsonaro são tão pouco representativos da vontade popular que só podem vencer pela fraude judicial que o processo eleitoral se tornou.
Mesmo nela, a toda hora – como se vê agora, na ameaça de “inovação” nas regras de registro de candidaturas – precisam de chicanas jurídicas para reeditar, quase 70 anos depois, o sr. Carlos Lacerda: “O Sr. Getúlio Vargas,  não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar.”
Não, senhores e senhoras, esta não é uma disputa florida e intelectual entre candidatos a presidente, é uma guerra contra o mergulho definitivo na barbárie social e política, no saque colonial e na fragmentação da unidade nacional.
Não se iludam de que haverá um governo conservador na economia, mas algo liberal na política e nas liberdades públicas: o modelo selvagem que desejam para o Brasil é incompatível com a democracia e estamos assistindo a isso, na prática. Com a “legitimação eleitoral” que, ao menos, falta até agora, aí é que veremos os arreganhos.
A liquidação do país é incompatível com a manutenção de um ambiente democrático.
Fiquem os que quiserem com seus purismos algo religiosos. Este humilde escriba, aqui, porém, não quer ser herói ou santo à custa do lombo do povo brasileiro. Não quer chegar ao final das eleições “limpinho e cheiroso” dizendo que “não tem nada com isso” e que “não votou no Aécio”.
A história é impiedosa com quem vacila nos momentos decisivos e temos aí, diante de nós, a figura deplorável de Marina Silva, prestando-se a iludir simplórios com seu ar sofrido, mas vivendo de servir ao que há de mais reacionário em nossa sociedade. Não faz muitos anos, gente de boa-fé pedia que se a poupasse de críticas, pois, afinal, ela estaria no “campo popular”. Bem vimos onde está…
Felizmente, parece que estamos assistindo a uma confluência, ainda que aos trancos e barrancos, das forças democráticas do país.
Lideranças com capacidade transformadora levam décadas para serem construídas, num processo de erros e acertos, de desvios e correções de rumo, só possível quando se tem uma ligação atávica com o povo brasileiro para servir de Norte, de bússola. Quando é só teoria ou suposta ideologia, o dito cujo acaba por ir-se embora servir aos senhores, como foi Fernando Henrique, o cortesão.
Temos uma – e que uma! Quem suportou e suporta o martírio de Curitiba, maior que o exílio de Vargas em São Borja, tem ombros para carregar o renascimento deste país.
Os outros, que ainda não se testaram em combate, são importantíssimos e merecem todo o respeito.
Mas numa guerra como esta em que estamos, desculpem-me, o comando não pode ser exercido em assembléia. Porque a batalha não pode ser perdida, a menos que queiramos lançar o Brasil e os brasileiros numa terra arrasada.