sábado, 22 de setembro de 2018

Palavras canalhas



Palavras canalhas, 


por Sergio Saraiva

Houve um tempo em que a dor era canalha, mas as palavras eram de luta e esperança. Hoje, vivemos um tempo de desesperança feito de palavras canalhas.
FHC
Palavras canalhas, por Sergio Saraiva
A carta aberta de Fernando Henrique Cardoso aos “eleitores e eleitoras”, vinda à luz na boca da noite de 20 de setembro de 2018, não deveria merecer maiores cuidados. Para pouco servirá, até porque, no mais, recheada de platitudes.
“Não é de estagnação econômica, regressão política e social que o Brasil precisa. Somos todos responsáveis ... É hora de juntar forças e escolher bem ... Pensemos no país e não apenas nos partidos ... A Nação é o que importa neste momento decisivo”.
Desimportante até pelo meio a que veio a público – um textão de Facebook.
FHC 1
Considerando ser FHC tratado como o principal líder do PSDB, considerando que a tal carta trata das eleições presidenciais de 2018 e que seu partido dispõe de 40% do tempo total de televisão do horário eleitoral, seria de esperar que parte desse tempo fosse empregado para um pronunciamento oficial de FHC.
Ocorre que FHC é escondido por seu partido há cinco eleições – e seu partido deve ter razões para isso. Restou-lhe as “mídias sociais”.
Mas a carta de FHC é paradoxalmente também muito importante. Vivemos um tempo canalha e poucos textos o traduzem tão bem quanto o de FHC. Poucas vezes li palavras igualmente tão canalhas – canalhas nas suas omissões, canalhas nas suas afirmações. Canalhas quando tomam seus pretensos destinatários – o povo brasileiro – por idiotas a ponto de crer que creríamos em um texto canalha.
Comecemos pelas omissões. FHC omite o nome de seu próprio candidato - o pressuposto beneficiário da missiva fernandina. Nenhuma novidade, em se tratando de FHC. Só há um candidato possível para FHC; o próprio FHC. Eis um dos porquês de seu partido o esconder. Claro, há outros. Os oitos anos dos governos FHC.
Esses, no entanto, até FHC os omite em sua carta – lembra-nos de seus dois anos como de ministro da Fazenda de Itamar Franco:
“Fui ministro de um governo fruto de outro impeachment, processo sempre traumático. Na época, a inflação beirava 1000 por cento ao ano. ...Com meu apoio e de muitas outras pessoas, lançou-se a estabilizar a economia. Criara as bases políticas para tanto”.
E, escudado nisso, foi eleito presidente. E comprou no Congresso os votos necessários para permitir sua candidatura à reeleição. Dois mandatos nos quais o país foi vendido no limite da irresponsabilidade a troco de moeda podre. As relações trabalhistas foram precarizadas. Os banqueiros socorridos com bilhões, enquanto o povo empobrecido voltou a cozinhar com lenha e o salário mínimo jamais atingiu o valor de 100 dólares. A taxa de desemprego era de mais de 12%. O FMI nos humilhava a pagarmos os juros por um empréstimo que ficava em seus cofres. Era a garantia aos credores que não acreditavam nas "cartas de intenções" dos governos FHC. Quem acreditaria? Era nos recomendado que esquecêssemos o que antes escreveram - sofreríamos menos com o engodo.
Eis o porquê o PSDB esconde e FHC omite. FHC é o Temer de ontem. Até em suas traições.
E o que dizer quando FHC afirma: em plena vigência do estado de direito, nosso primeiro compromisso há de ser com a continuidade da democracia. Ganhe quem ganhar, o povo terá decidido soberanamente o vencedor e ponto final. A democracia para mim é um valor pétreo”?
Afirma e omite que foi seu partido que se insubordinou contra os resultados das urnas de 2014 e buscou nas extravagâncias do poder judicial reverter o que o povo havia decidido soberanamente. Que valor pétreo é esse que não o fez impedir Aécio Neves e suas pautas bombas?
FHC 6
Quanto há de calhorda nas palavras daquele que aponta o dedo para o líder preso por acusações de corrupção” e seu “representante”, mas omite que foram, ele próprio e seu partido, dispensados de dar explicações sobre as acusações que lhes pesavam?
FHC 3
Quem é o desonesto? O que foi preso baseado apenas em “acusações de corrupção” e nenhuma prova, ou aquele a quem a Justiça não se interessou em investigar, mesmo havendo motivos para fazê-lo? Um dossiê completo, vindo do Ministério Público da Suíça, dormitou por dois anos na gaveta de um procurador da República, até começar a andar a passos de cágado para chegar a lugar nenhum.
FHC 4
FHC se omite da resposta. Toma-nos por idiotas que não lhe questionaríamos.
Por fim, a afirmação canalha de que “basta de pregar o ódio. Canalha não a afirmação em si, canalha a omissão de que o ódio é a herança maldita e consequente da pregação política de FHC – por suas afirmações e omissões. Que se alternam segundo seus interesses.
Quem ainda acredita nas suas orações?
Com a palavra, os seguidores de FHC.
FHC 2

PS: Oficina de Concertos Gerais e Poesia - mantendo a vela acesa que é para a bruxa não voltar.

A guerra após as eleições



A guerra após as eleições. 

Por Nilson Lage

Há pouco mais de dois séculos, confrontando o exército de Napoleão, o prussiano Carl Von Clausevitz observou que a guerra era claramente continuação da política “por outros meios”. Isso foi verdadeiro por muito tempo. No entanto, o presidente que assumir o governo após as próximas eleições no Brasil fará bem se, pelo contrário, entender a política como continuação da guerra “por outros meios”, e perceber o quanto ela está ameaçada.
A guerra, escreve Clausevitz, é fruto do ódio que espera o acaso (ou a oportunidade) para impor sua razão estratégica. O que ocorre na atualidade é que o ódio ameaça extinguir a política, sublimação da guerra, e, no vácuo, ocupar o espaço das instituições públicas com a lógica insensível das empresas.
O ódio prevalece quando a motivação principal da disputa não é tal ou qual objetivo social – uma linha de ação, uma projeto de sociedade –, mas o esmagamento do adversário, a que se atribuem condições degradantes sem relação necessária com a realidade. Estamos vendo isso.
A própria noção de guerra se transformou desde que se desenvolveram armas – nucleares e biológicas – tão poderosas que não podem ser usadas. Apoiados em métodos estatísticos e na manipulação de grandes dados, os senhores da guerra passaram a priorizar estratégias alternativas ao confronto militar; buscam colocar a seu serviço corporações que dispõem de poder e promovem operações cada vez mais complexas de domínio da consciência e da opinião pública através do controle dos sistemas de educação e informação.
Pode-se dizer que o conflito que se trava aqui e por toda parte descende do confronto entre Oriente e Ocidente após a derrota do nazismo alemão, mas é fato que se transformou a partir do momento em que, nos anos 1970. a moeda em que se processam os negócios internacionais despregou-se de qualquer referência (o ‘lastro em ouro’) e passou a ser emitida caudalosamente, gerando mercado diversificado de esperanças quanto a lucros futuros.
Na aparência, reproduzem-se eventos heroicos – os da expansão do império anglo-saxão como, antes, dos impérios persa ou romano. No entanto, a essência, menos evidente, é inovadora, radical e perversa: reside na submissão de todos os bens e serviços de que dispõe a humanidade a valores em moeda convencional (a “caudalosa”), desconsiderando os demais aspectos ambientais, sociais e humanos.
Diante desse quadro e na particularidade da situação brasileira – a de um país que é, no momento, mais campo de disputa do que combatente apto –, o novo governo que (e se) sobreviver ao ódio, deverá promover a unificação das forças políticas capazes de resistir ao processo destrutivo das instituições, com vista aos objetivos nacionais comuns. Para isso, será necessário confrontar ou silenciar os mecanismos de monopolização do discurso público já estruturados.
A sociedade brasileira está “condenada” a ser multirracial e multicultural – portanto, tolerante. Não descende exclusivamente do patrimonialismo português, como difunde a História escrita há décadas pela USP, nem do escravismo, como querem os críticos de matriz europeia. É mais complicada: forjou-se em lutas de classes que transcorreram de maneira distinta nos vários núcleos coloniais do vasto território, cuja unificação se fez por obra dos exércitos do Império e, após o interregno oligárquico da República Velha, reconstitui-se na ideologia oriunda do movimento dos tenentes. Vem daí a presença marcante do conceito de nação que se firmou na era Vargas.
As pesquisas pré-eleitorais atestam o quanto ainda está presente no sentimento do povo e porque é nele que se pode apoiar a restauração da normalidade.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

A verdadeira corrupção


A verdadeira corrupção -


 VLADIMIR SAFATLE

Enquanto polemiza, Bolsonaro espera esconder a corrupção final do Estado brasileiro

Os eleitores do sr. Bolsonaro gostam de se ver no interior de uma cruzada redentora contra a corrupção centenária do Estado brasileiro. Mas há de se perguntar se isso não é apenas um conhecido capítulo do sistema de autoengano que acomete setores da sociedade do país.
Afinal, seria bom começar por se perguntar sobre o que significa, de fato, corrupção. Se aceitarmos que estamos a falar dos processos de apropriação privada do bem comum, teremos que admitir que se pratica corrupção de várias formas. Há os casos nos quais a corrupção será o desvio de fundos públicos por agentes privados, sejam eles indivíduos, associações ou partidos.
No entanto, há ainda dois casos mais brutais de corrupção, casos nos quais a apropriação privada do bem comum é ainda mais explícita. O primeiro é o exemplo privilegiado de corrupção no interior da filosofia política. Trata-se da tirania e do autoritarismo. A tirania é a pior forma de corrupção porque ela é a apropriação violenta da força do estado e de sua soberania por grupos particulares. Vimos como isso funciona na ditadura militar, a mesma ditadura que o sr. Bolsonaro e seus seguidores admiram e da qual eles louvam as práticas.
O autoritarismo corrompe o bem comum não apenas porque permite aos ocupantes do Estado desviarem fundos públicos (lembre-se dos casos Capemi, Coroa Brastel, Projeto Jari, Brasilinvest, Petropaulo, entre tantos outros que marcaram a ditadura).
Ele corrompe o bem comum não apenas por fazer do Estado agente de assassinato, estupro, ocultação de cadáveres e tortura perpetrada por bandidos como o sr. Ustra, que Bolsonaro canoniza.
Ele corrompe o bem comum porque saqueia a soberania popular. Para quem não sabe o que é saque da soberania popular, pergunte ao vice do sr. Bolsonaro, o general Mourão. O mesmo que sonha com uma nova constituição escrita não por representantes do povo, mas por "notáveis". Ou perguntem ao general Villas Bôas, que costuma chantagear a sociedade civil a propósito de suas escolhas eleitorais enquanto aponta um revólver em nossa direção.
Mas, além da tirania, há outra forma insidiosa de corrupção, a saber, a plutocracia, o governo dos ricos para a defesa incondicional de seus próprios interesses. A mesma plutocracia que Bolsonaro e seu "cérebro" Paulo Guedes querem implementar de vez no Brasil.
Enquanto cria polêmicas criminosas com homossexuais, negros e mulheres, Bolsonaro espera esconder que seu "governo" será a corrupção final do Estado brasileiro, pois será a entrega final do bem comum à mesma elite que sempre governou o país, mas agora sem necessidade de intermediários e de negociação com outros setores.
Há dias descobrimos que o sr. Guedes pretende reduzir o imposto de renda dos mais ricos, de 27% para 20%. Uma proposta obscena dessa natureza demonstra para quem essas pessoas querem realmente governar.
Em terras liberais como o Reino Unido, os impostos são progressivos até 50%, o que permite ao Estado oferecer serviços públicos aos mais pobres.
No mundo de Guedes, esses serviços inexistirão. O SUS (um sistema que garante saúde gratuita para 206 milhões de pessoas) será sucateado até sua morte, as agências de pesquisa e tecnologia serão letra morta, as universidades públicas deixarão de ser gratuitas, os museus queimarão e tudo o que ouviremos é o sr. Bolsonaro a dizer: "Já foi, o que você quer que eu faça?".
Sua proposta pueril de "privatizar tudo" para amortizar até 20% da dívida pública significa destruir todo bem comum de empresas estatais estratégicas para o país, que produzem tecnologia nacional e garantem que dividendos não sejam remetidos para fora do Brasil, a fim de entregar o resultado do saque aos detentores de títulos da dívida pública, ou seja, em sua grande maioria bancos, especuladores, rentistas.
Sua defesa da reforma trabalhista significa quebrar toda força de defesa da classe trabalhadora contra a espoliação a que ela está normalmente submetida em suas "negociações" com o patronato. Negociações nas quais os trabalhadores verão, de forma cada vez mais abertas, contratos que diminuem salários, benefícios, férias e direitos. Enquanto isso, o governo comandará caças a "kits gay" inexistentes e organizará lutas contra "comunistas" imaginários. Diante de corrupção dessa natureza, o que vimos até agora é nada.

domingo, 16 de setembro de 2018

O Globo cola em sua própria testa: traidor da pátria



O Globo cola em sua própria testa: traidor da pátria

Está na edição de O Globo, estampado e confesso, um dos maiores crimes de lesa-pátria já cometido neste país.
Correta reportagem de Ramona Ordoñez e Bruno Rosa informa que por conta da “redução de custos proporcionada pelos avanços tecnológicos empreendidos pela indústria no país” – leia-se Petrobras – e dos “elevados índices de produtividade”, 12 anos depois de sua descoberta, “o pré-sal brasileiro se tornou a fronteira petrolífera mais atraente do mundo.” Os custos baixos tornam, informa-se, a produção no pré-sal “economicamente viável mesmo se o preço do petróleo cair a US$ 35”, perto da metade do que  precisa o “shale oil” norte-americano precisa para ter viabilidade comercial.
Mas nem dois anos nos separam do editorial do mesmo jornal que afirmava ser o pré-sal “um patrimônio inútil”, poque seus custos eram altos e que, como as cotações haviam chegado a US$ 37,  “não há mais interesse no pré-sal brasileiro”.
É evidente que isso era mentira, porque os padrões tecnológicos não evoluíram em 20 meses e a escala de produção- assim como a elevação do preço – já eram conhecidas, então. E a tecnologia, detalhada na matéria, é criação nossa, nacional, não obra de gênios estrangeiros, de cuja ajuda precisemos.
Os custos operacionais da exploração naquela época andavam por volta de US$ 8 dólares o barril e, agora, apontam na direção dos US$ 5, valor igual ao dos poços da Arábia Saudita.
É mais mentira ainda que – e o editorial de O Globo era parte integrante disso – o golpe de Temer, sob a batuta do PSDB, se apressava em revogar a reserva de 30% dos poços, no mínimo, para a Petrobras e a vender, criminosamente, depósitos imensos de óleo já descobertos e com a exploração iniciada pela empresa estatal, alvejada como sendo “inviável” pelos desvios criminosos de alguns de seus ex-dirigentes.
A defesado pré-sal era, para o jornal, um “erro crasso do lulopetismo, movido a ideologia”.
O Globo cola em sua própria testa que é – o termo não pode ser mais leve – um vendilhão da pátria, disposto a entregar um tesouro que a Natureza deu ao povo brasileiro, para que seja saqueado  em troca de alguns dólares que, por sua vez, vão pagar o saque do rentismo  sobre as finanças públicas.
Só falta agora, nas mãos de um ex-capitão que bate continência à bandeira norte-americana, transformar o Exército Brasileiro em fiador deste saque ao país.

sábado, 15 de setembro de 2018

Entrevista no Jornal Nacional: quem deveria pedir desculpas é a Globo, não Haddad.




Entrevista no Jornal Nacional: quem deveria pedir desculpas é a Globo, não Haddad.

 Por Joaquim de Carvalho

 


“Acho que Willliam Bonner já está satisfeito. O senhor já respondeu à pergunta dele.”
Esta frase, dita pela apresentadora do Jornal Nacional, Renata Vasconcellos, deve entrar para a antologia dos momentos mais vergonhosos da imprensa brasileira.
Fernando Haddad, com seu tom professoral, tentava explicar em detalhes por que não faziam sentido algumas colocações dos jornalistas.
Nesse caso, refutava uma acusação grave, a de que teria beneficiado construtoras quando foi prefeito de São Paulo.
Bonner havia dito que Haddad “deu” uma obra ao grupo UTC, que, mais tarde, alegaria ter contribuído para sua campanha via caixa 2.
Nem o delator, nem o Jornal Nacional apresentaram provas. Mas a lama estava jogada no ar. Em outras palavras, Bonner disse que Haddad recebeu propina.
O ex-prefeito, diante da insinuação de corrupção, detalhou uma resposta para dizer que a acusação era inconsistente, e explicava o que havia feito para proteger o dinheiro público na Prefeitura.
Foi quando Renata, demonstrando impaciência, soltou a pérola:
“Acho que William Bonner já está satisfeito”.
Na verdade, como mostra essa resposta, a entrevista não era propriamente jornalística.
Era um debate, em que a dupla de jornalistas tentava extrair de Fernando Haddad uma “mea culpa”, uma “autocrítica”, um “pedido de desculpas do PT”.
A revista Fórum somou o número de interrupções feitas por Renata e Bonner durante a entrevista — 62 — contra 17 na entrevista de Geraldo Alckmin.
Quando não interrompia, William Bonner parecia debochar, fazia uma provocação. Chegou a desafiar Haddad em um momento. “O senhor fez uma pergunta e eu vou lhe responder”, disse o apresentador.
E citou números da economia na época de Dilma Rousseff.
Haddad poderia ter sido mais incisivo, na mesma medida em que era atacado. Mas Haddad é um lord — o que justifica o apelido “Tranquilão”.
Parece ser incapaz de se comportar de modo que pareça agressivo.
Num momento, Haddad chegou a esboçar uma reação incisiva, ao lembrar que a Globo é investigada.
Foi interrompido e só voltou ao assunto pouco depois, ao falar que a Receita Federal investigou a Globo.
Tudo muito rápido, como se quisessem encerrar logo o assunto, nesse caso incômodo para a Globo, mas não para Haddad.
Ele poderia dar detalhes do esquema de sonegação da Globo, radiografado por uma investigação da Receita, com um desfecho escandaloso: o processo desapareceu da Receita Federal.
Eu estive em Road Town, Ilhas Virgens Britânicas, e mostrei que nunca funcionou uma empresa que a Globo manteve naquele paraíso fiscal apenas com o objetivo de não pagar impostos no Brasil.
Haddad poderia lembrar que a sonegação é tão grave quanto a corrupção, mas, no caso da Globo e de outros sonegadores, vence a impunidade.
Os partidos têm pesquisas que mostram que atacar a Globo não tira de votos de ninguém.
O público consome a Globo, mas a esmagadora maioria sabe que ela tem interesses e lhe falta isenção.
Haddad poderia ter aproveitado o resultado dessas pesquisas, que lhe foi apresentado, e dizer que grande parte da responsabilidade pela crise no Brasil cabe à Globo.
A emissora faz um jornalismo de guerra, para destruir o PT, atribuindo todos os males do país a Lula e ao partido do ex-presidente.
Esse padrão de cobertura está descrito no processo que Lula move na ONU, em que denuncia a perseguição judicial, que só se tornou possível em razão da aliança com a mídia.
Já há no mundo uma percepção de que o Brasil, em razão da concentração de propriedade dos veículos de comunicação, não vive um período de normalidade democrática.
Por que Haddad não insistiu nisso?
Haddad, por outro lado, foi bem quando lembrou que o ex-presidente do PSDB, Tasso Jereissati, admitiu que o partido errou ao sabotar o governo de Dilma Rousseff.
Jereissati fez esta avaliação certamente porque, no Estado que representa como senador, Lula é praticamente unanimidade positiva.
Se Jereissati sabe disso, Haddad também sabe.
Tem que lembrar sempre que atribuir a Lula e ao PT responsabilidade pela crise é injusto, principalmente partindo de uma emissora sem moral para cobrar moralidade.
A Globo se comporta como se fosse o poder moderador, ao sabatinar os candidatos como se Bonner e Renata Vasconcellos tivessem mandato para decidir quem pode ou não assumir a presidência.
Podem fazer perguntas, obviamente, mas devem ser lembrados da falta de isenção da emissora.
Todos os candidatos se submetem à sabatina porque querem a audiência da TV, conquistada com dinheiro ilícito desde a sua fundação — e há abundância de provas nesse sentido.
Mas, se não querem espinafrar a Globo numa entrevista ao vivo, o mínimo que se deve esperar deles é que não abaixem a cabeça.
E Haddad não abaixou, mas poderia (e deveria) ter sido mais incisivo e apontar, sem meias palavras, a responsabilidade que a Globo tem pela crise.
Ela criou o ambiente em que as batidas de panela deram o ritmo das condenações sem provas, e tornou possível a criação do bordão “Somos todos Cunha”, quando o ex-presidente conspirou para derrubar Dilma Rousseff.
Haddad pode fazer isso de maneira tranquila, mas é melhor para o eleitor (e para ele também) que não deixe de fazê-lo.
A Globo se comporta como partido político e deve ser tratada como partido político.
Assim ela deve ser vista. É assim que a Globo já é vista por grande parte dos eleitores.
Nesta sexta-feira, seus representantes tentaram constranger Haddad, arrancar um pedido de desculpas descabido, mas o que conseguiram foi demonstrar que são apenas provocadores
A sorte deles é que o candidato a presidente pelo PT é tranquilão.

O candidato Bonner



O candidato Bonner


Ricardo Miranda

https://gilbertopaodoce.com/2018/09/15/o-candidato-bonner/

Não sei qual é o Brasil que William Bonner quer ver, mas certamente não é um em que Fernando Haddad possa responder às suas perguntas. A última da série de entrevistas com presidenciáveis feitas pelo Jornal Nacional (Assista aqui) – abrindo o telejornal e antes que fosse mostrada a pesquisa Datafolha que confirmou o candidato do PT em forte ascensão, já empatado em segundo lugar com Ciro Gomes (mais que triplicando suas intenções de voto de 4% em 22/08 para 13% em 14/09) -, teve jeito de interrogatório. Pior. Dos 27 minutos de entrevista – assisti diversas vezes para cronometrar -, 16 minutos foram com perguntas e interrupções de William e Renata Vasconcellos, sua parceira de palco. 16 minutos! Ou seja, Haddad teve 11 minutos. Em outras palavras, as perguntas e interrupções tomaram 60% do tempo. William Bonner fez 53 interrupções. Renata outras 19. Em diversos momentos falaram ao mesmo tempo que o candidato, impedindo seu raciocínio.
Mas não eram só perguntas. Bonner e sua coadjuvante de bancada no JN fizeram ilações, deram opiniões, citaram números contestáveis, ocuparam o tempo que podiam. Sempre com ar de deboche e colocando-se como porta-voz da verdade, Bonner indignou-se quando, quase perdendo a paciência, Haddad tentou diferenciar denunciado de réu, citando as Organizações Globo e, por exemplo, seus problemas com a Receita Federal.
Mas a palavra, definitivamente, estava com Bonner, que usava frases como  “candidato, isso não se sustenta”, desqualificando suas respostas. Renata, por sua vez, interrompeu uma resposta de Haddad, que foi perguntado, de forma grave, sobre uma acusação intempestiva do Ministério Público sobre obras em sua gestão na Prefeitura de São Paulo, afirmando “Acho que o Bonner já está satisfeito com sua resposta”. No que Haddad respondeu: “Mas eu não estou. Quando é sua honra que está em jogo, você decide, quando é a minha, eu decido”. Bonner não se deu por satisfeito. “Essa situação não é criada pela Rede Globo, pela mídia, pela imprensa. Estou oferecendo uma oportunidade para se contrapor a essa evidência”, disse Bonner, sem explicar como “contrapor uma evidência”.

Haddad ainda tentou argumentar. Golpe parlamentar. Pauta bomba. Citou, mais de uma vez, para um Bonner impaciente, a entrevista do ex-presidente do PSDB, Tasso Jereissati, ao Estado de S.Paulo (Leia aqui), reconhecendo que os tucanos cometeram um “conjunto de erros memoráveis” após a eleição de Dilma Rousseff, com reflexos para o próprio PSDB nas eleições deste ano. Entre eles, questionar o resultado eleitoral, votar contra “princípios básicos” na economia, servindo aos interesses do PMDB, e entrar no governo Temer. “Foi a gota d’água, junto com os problemas do Aécio (Neves). Fomos engolidos pela tentação do poder”, disse Tasso.

Bonner, que abanava a cabeça e franzia o semblante a cada resposta, fez as duas perguntas mais longas, que tomaram mais de 3 minutos. Uma para listar o número de ministros do STF, STJ, juizes e desembargadores nomeados por “governos petistas” – como forma de provar sua tese de que a Justiça é isenta. Mais tarde listou as “promessas não cumpridas” de Haddad, uma a uma, número a número. Em determinado momento, Bonner inverteu, literalmente, os papéis, quando falavam de recessão. “Candidato, o sr me fez uma pergunta eu vou responder”, disse o entrevistador, para, mais uma vez, listar dados que, segundo ele, provariam que a recessão começou e se agravou com Dilma – e não nos últimos dois anos de governo Temer-PSDB. “A presidente Dilma deixou o Brasil na crise onde estamos todos hoje mergulhados”, afirmou Renata. “É fato”, afirmou a dupla, quase em coro.
Mas a obsessão era ouvir de Haddad, em nome do PT, o que chamaram de “autocrítica”, “pedido de desculpas ao povo brasileiro pelos bilhões desviados pela corrupção” e “mea culpa”. Bonner, sem power point para ajudar, defendeu a posição dos procuradores de “corrupção sistêmica” engendrada nos “governos petistas”, o que chamou de “evidências”. “Vamos colocar as coisas nos seus devidos lugares”, repetiu. A insistência dos entrevistadores em que Haddad “pedisse perdão” pelos pecados do PT em duas administrações mostrou bem a importância que parecia ter para a Globo qualquer tipo de admissão de culpa genérica às vésperas da eleição. Devem ignorar, por exemplo, que isso poderia ser reproduzido no horário eleitoral dos adversários de campanha.
A justificativa – que ouvi aqui e ali de gente respeitável – de que os apresentadores do Jornal Nacional usaram estilo semelhante com os demais presidenciáveis, usando e abusando da ênfase e das interrupções, não é justificativa, é defesa de um erro. Sem falar na parcialidade. Como jornalista há três décadas, acho um desrespeito perguntar e não deixar o entrevistado responder, como se só valesse o que você quer ouvir, interrompê-lo a todo instante, e fazer, ao vivo, caras e bocas para as respostas. Não foi feita uma única pergunta sobre planos de governo e soluções para a crise. Preferiram insinuar que Haddad era mais um poste de Lula. Podem se surpreender.


Em tempo. Ao apresentar a pesquisa Datafolha, William Bonner cometeu um ato falho. Que corrigiu, constrangidamente, no bloco seguinte: “Deixa eu fazer uma correção. Agora há pouco ao divulgar a pesquisa Datafolha nós dissemos que o candidato Fernando Haddad, do PT, OSCILOU de 9% para 13%. Segundo o Datafolha, como o crescimento se deu fora da margem de erro, a frase correta é: o candidato Fernando Haddad CRESCEU de 9% para 13%. Pelo erro nós pedimos desculpas”. Podia ter aproveitado e pedido desculpas pela entrevista nada jornalística e muito pouco democrática que protagonizou, tão ensaiada que, dessa vez, dispensou até ponto eletrônico.

GLOBO TRATOU HADDAD COMO INIMIGO, NÃO ENTREVISTADO

JEAN WYLLYS: GLOBO TRATOU HADDAD COMO INIMIGO, NÃO ENTREVISTADO


Aviso à Rede Globo: nós não estamos mais em 1989

GUSTAVO CONDE
Ricardo Stuckert
O que mais impressiona na entrevista de Fernando Haddad ao Jornal Nacional é a ausência de qualquer regra básica para o desenrolar das perguntas e respostas. O jornalismo da Globo erra no conceito: entrevista não é debate que, por sua vez, demanda outro regime de regulamentos, tanto tácitos quando técnicos.
O jornalismo da Globo deve achar que está cumprindo seu papel de ‘emparedar’ o entrevistado, o que seria correto, do ponto de vista da ‘produção de contraditório’. Talvez – e sendo muito benevolente –, eles tenham se espelhado no programa ‘Upfront’ da TV Al Jazeera, apresentado pelo jornalista Mehdi Hasan.
Hasan costuma ser mesmo agressivo e inconveniente com seus entrevistados, cortando suas respostas e perturbando o ‘sentido’ geral das teses que eles lhe apresentam, fazendo o papel de ‘inocente retórico’ e de advogado do diabo.
Hasan, no entanto, não tem fobias e nem demonstra defender uma posição política a priori. Seu rabo é preso a sua própria inconveniência cênica e suas perguntas estão a serviço de uma prospecção legítima. Em suma, o que ele faz é jornalismo.
O caso de William Bonner e de Renata Vasconcellos é diferente. Eles acusam predisposição ideológica e má vontade. Censuram as respostas de maneira violenta. Lembram um pouco Sergio Moro em seus interrogatórios. Como Moro não entende as complexidades no funcionamento de todo e qualquer governo, ele fantasia e flana nas próprias elucubrações subjetivas a respeito do que ali se discute. Como ele é juiz e tem o poder da decisão, prevalece o simulacro (a mentira).
A fragilidade de Bonner e Vasconcellos chega a assustar. A insistência no discurso monotemático (só falaram de corrupção), o tom pesado de indignação – muito semelhante ao tom de ódio que devastou o tecido social brasileiro; afinal foram eles a matriz de todo esse fenômeno – e a absoluta ausência de um procedimento ritual que é respeitar a presença e a pessoa do entrevistado, ainda que ele represente uma ameaça real à operação desvirtuada de uma emissora de televisão.
Tecnicamente, portanto, os apresentadores continuam sendo o que são: apresentadores. Eles não têm lastro nem inteligência nem educação nem estatura para levar adiante uma entrevista com qualquer personagem minimamente densa da cena política. Essa percepção é quase unanimidade até entre jornalistas experientes que já publicaram resenhas desfavoráveis aos predicados do ‘casal’.
Não custa lembrar a performance sofrível de Renata Vasconcellos diante do próprio Bolsonaro, um candidato que não é conhecido por sua cancha intelectual. Bolsonaro fez a jornalista expor todo a sua subserviência quando a obrigou a comentar a discrepância entre o salário dela e o salário de seu companheiro de bancada. A apresentadora ignorou deliberadamente o tema, o que tornou toda a cena constrangedora.
Esse e um ponto fraquíssimo daquele duo de apresentadores. Eles têm déficits de ordem linguístico-pragmática, para além da incompetência jornalística. São só apresentadores que leem teleprompter.
Mal conseguem dominar regras básicas de ‘etiqueta’ conversacional, como permitir a seu interlocutor a finalização das sentenças gramaticais. Em português claro, trata-se não mais não menos do que ‘grosseria’.
A linguística tem várias teses a respeito da competência conversacional dos falantes de uma língua. A mais célebre delas vem da teoria pragmática da linguagem, que tem nos filósofos John Searle, John Austin e Paul Grice suas inspirações mais notórias.
O “Princípio da Cooperação Conversacional” de Grice deveria ser estudado em todas as faculdades de jornalismo. Muito mais avançado que o esquema comunicacional de Roman Jakobson, o Princípio da Cooperação visa compreender e garantir que uma sucessão de atos de fala tenha a mínima chance de ser interpretado por ambos os partícipes de uma conversação (ou de uma entrevista).
Muito simples e elegante, a proposição teórica é composta por quatro ‘máximas’:
1) Máxima da quantidade: dê exatamente a quantia de informação necessária;
2) Máxima da qualidade: diga apenas o que você acredita ser a verdade;
3) Máxima da relação: seja relevante
4) Máxima do modo: seja sucinto (Grice, 1975: 45 – tradução minha).
Nenhum desses princípios foi seguido por Bonner ou por Vasconcellos. Mais do que isso, eles foram flagrantemente violados: eles 1) estenderam-se abusivamente nas formulações, misturando premissas temáticas 2) apresentaram pressupostos largamente discutíveis e partidarizados, 3) produziram muita irrelevância ao concentrar em apenas um tema todo o protocolo de arguição e 4) foram excessivamente prolixos, com perguntas extensas e mal organizadas (tomando 60% do tempo total da entrevista).
Note-se que o filósofo Paul Grice nem elenca uma ‘quinta máxima’ que poderia muito bem ser representada pela competência de um ‘falante’ em ter o ‘bom senso’ de não interromper a fala d – provavelmente – pelo simples fato de que se trata de uma premissa básica demais para que seja tecnicamente arrolada. É um caso, a rigor, mais pertencente ao campo da ‘educação’ formal básica do que da ciência cognitiva.
De sorte que a relevância da entrevista migrou da esfera do debate de ideias para a esfera da resistência mental do entrevistado. Haddad teve que, basicamente – e diante da incompetência meridiana de seus entrevistadores –, reformular todas as questões e respondê-las em seguida em tempo exíguo e sendo interrompido a todo instante. E isso por uma questão muito simples: por respeito ao espectador.
A força ‘conversacional’ de Fernando Haddad foi, portanto, apresentada ao público e ao eleitor de maneira bastante bem sucedida. Aliás, essa dimensão da linguagem – que é mais sutil e inconsciente – tem muito mais apelo e poder diante de um espectador saturado de promessas vazias e contemporizações partidarizadas de entrevistadores pouco competentes.
O eleitor viu um Fernando Haddad que lhe dedica profundo respeito pragmático, além de ser exposto a dois apresentadores que lhe relegam profundo indiferença quando negam o direito de resposta de alguém que, afinal, é o convidado do programa – e merecia ser tratado com a mínima deferência.
Renata Vasconcellos e William Bonner agiram como interrogadores policiais (não admira que o tema e o tom tenham sido policialescos), inquisidores amorais, torturadores intelectuais. O que o espectador testemunhou foi a hiper exposição de um candidato à violência discursiva de uma emissora de televisão, tão bem encarnada na pele de dois apresentadores.
Pragmaticamente, não poderia ter sido melhor para Haddad, que se manteve extraordinariamente respeitoso, técnico e firme em suas posições, atendendo, de maneira solitária, as quatro máximas consagradas da conversação.
A Globo, em seu desespero de continuar destruindo um partido político, vai afundando cada vez mais, não apenas na insolvência de sua operação jornalística (que tem um custo muito alto em um momento de transição de plataformas tecnológicas), mas também na desconexão com a realidade discursiva de um país. A Globo não representa mais nenhum segmento relevante da população brasileira. Ela vai, naturalmente, sendo empurrada para a posição de pária, dada sua negação dos protocolos técnico-linguísticos de construção da realidade, como sua negação da própria realidade.
Promover a manutenção de um golpe de estado não é tarefa trivial, ainda mais com zonas de informação que escapam ao controle institucional – a internet.
É importante avisar a Globo e seus jornalistas: nós não estamos mais em 1989.
GUSTAVO CONDE
Gustavo Conde é linguista, colunista do 247 e apresentador do Programa Pocket Show da Resistência Democrática pela TV 247.