sexta-feira, 29 de maio de 2015

O Eterno Petralha (por Ayrton Centeno) - Sul 21

O Eterno Petralha (por Ayrton Centeno) - Sul 21



O Eterno Petralha (por Ayrton Centeno)






Há uma praga que ameaça o Brasil. Chama-se petralha. “O petralha é o
demônio por trás da corrupção”, advertiu um grande homem. Petralhas,
como os seus amigos nordestinos ou os sem terras e os sem teto, não
gostam de trabalhar. Não se trata de fraqueza. É para atrair piedade.
Parecem mas não são pobres. São uma raça de parasitas. Petralhas e
outros vagabundos são os perpétuos parasitas. Assim como os ratos.


Uma pesquisa recente indica que petralhas e seus aliados são
responsáveis pela existência de 34% dos pedintes, de 47% dos roubos, de
47% dos jogos de azar e de 82% das organizações criminosas em ação.
Petralhas são adeptos do comunismo, doutrina de destruição de nações e
da luta de classes, que brota de mentes como as de Karl Marx e de Rosa
Luxemburgo.


Petralhas e seus iguais não querem nada com o trabalho. Deixam para
os brasileiros. Tem um objetivo comum: explorar o país. Enquanto nós
brasileiros empobrecemos, os petralhas enriquecem através de fraude,
trapaça e usura.


São ladrões que roubaram milhões e milhões do país. Atacam em todas
as frentes. Na cultura, promovem uma arte anormal, grotesca e perversa
com exaltações à pornografia e à homossexualidade. Mas críticos de arte
petralhas as enaltecem como “elevadas expressões artísticas”.


Atrás de tudo está a doutrinação petralha. Seus líderes são, acima de
tudo, educadores políticos. A carta de princípios petralha encerra
cinco mandamentos: 1) amai-vos uns aos outros; 2) amai o roubo; 3) amai o
excesso; 4) odeie seu patrão; 5) nunca diga a verdade.


E assim tem sido. Mas este modo de pensar petralha está chegando ao fim. E não mais poluirá nossa nação.

Se o bravo leitor resistiu até aqui, mesmo ansiando por um engov,
prepare-se: vai ficar pior. Porque o que se assemelha a um surto não é
um surto, o que parece delírio não é delírio. E aquilo que aparenta ser
apenas ficção ruim não é ficção ruim. É realidade ruim. De muito tempo
atrás e, como se verá, de agora.


Substitua petralha e seus iguais por judeu, brasileiros por alemães,
Brasil por Alemanha, grande homem por Richard Wagner, carta de
princípios petralha por Canaã e você terá uma súmula da narração em off daquele que foi considerado “o filme mais imundo jamais feito”: O Eterno Judeu, de Fritz Hippler.


Seguindo as diretrizes de Joseph Goebbels, ministro da cultura e
propaganda do Terceiro Reich, Hippler filmou o gueto de Lodz, na Polônia
ocupada onde, atrás do arame farpado, o regime confinara 160 mil
pessoas. Construiu uma ópera de ódio.


Na montagem, alternam-se cenas de judeus e de ratos. Ambos sujos,
detestáveis, ameaças. Subjacentemente, induz-se a necessidade de serem
dizimados. O fato de ser um documentário, com gente das ruas e não de
atores, robustece a noção de veracidade embutida naquilo que descreve.
Em tese, desvela o real, aquilo que o olhar do espectador captaria se
estivesse em Lodz. Essa a ideia. Persuadir que algo tão desprezível não
merece subsistir. Apronta-se a opinião pública para a solução final.


A analogia entre o inimigo engendrado e as moscas e roedores também é um presságio do modo de operação dos vernichtungslagers,
os campos de extermínio. Pestes, os judeus seriam erradicados através
de um pesticida, o Zyklon B, que paralisa o sistema respiratório. O
Eterno Judeu chegou às telas em 1940. Em setembro de 1941, o Zyklon B
estreou em Auschwitz.


Quem vê Der Ewige Judeestá no You Tube
– percebe a assombrosa afinidade entre sua escrotidão e a matéria fecal
transbordante das caixas de comentários e nas redes sociais. Mas, ojo, o narrador insinua mas não explicita a opção pelo genocídio. Ou seja, a ferocidade está aquém daquela ostentada na internet em 2015. Não duvide disso.


“Tem que começar a exterminar essa raça”, preconizou o internauta
Carlos Zanelatto ao saber que o ex-presidente do PT, José Genoíno,
poderia cumprir sua pena em prisão domiciliar. “A solução é começar a
matar”, concordou outro, identificando-se com o número 010190. “Eu quero
a cabeça dele. Pago em dólar”, bravateou Maurício P. Se a sensibilidade
feminina faltava ao debate, Márcia TDB supriu a carência: “Dá nojo
olhar pra esse safado. Morre camundongo da caatinga”.


Ante a observação de que “o porco sujo” deveria ter sido largado no
mato “para ser comido vivo pelas onças”, um tal Denys divergiu: “Culpa
foi não ter matado a Dilma”. TSilva111 discordou do discordante: “Culpa
disso são (sic) os militares. Deveriam ter acabado com toda essa raça de
bandidos na ditadura militar”. Fernando Amorim também xingou os
milicos: “Porque diabos não mataram esses vermes na época da ditadura?”


É mole? Não, mas tem mais.


Avisando que seu recado era “sangrento”, João Neto informou que teria
“o prazer de fuzilar qualquer petista”. Para ele, “nada irá mudar
enquanto não começarmos a invadir as casas desses bandidos e pendurá-los
pelo pescoço em praça pública…” Hemer Rivera foi logo buscar a faca e a
corda: “Sou a favor disso, pendurar nos postes sem cabeça sangrando e
deixar amanhecer para que todos vejam que político corrupto, merece ser
decapitado”.


Bastou o ex-ministro José Dirceu sofrer um princípio de AVC, para uma
internauta postar no Facebook: “Estamos juntos AVC. Não mata não, por
favor, só deixa ele vegetativo, cagando na cama.” Recebeu 844 curtidas.
Quando soube que Lula sofria de um tumor na laringe, um cidadão
penalizou-se: “Tenho dó do câncer ter que comer carniça petralha”. Outro
sugeriu apelar aos EUA “para assassinar Lula e Maduro”. Alguém gritou
“Sou a favor. Amém” mas um terceiro propôs um caminho mais direto:
“Porque não matamos esse filho da puta do Lula?”


E o que viria depois que “a vaca comunista”, “a puta da Dilma”, o
“filho da puta do Lula”, os “vermes”, os “porcos”, a “escória”, a
“raça”, a “sujeira”, os “vagabundos”, o “lixo” e – claro – os “ratos”
fossem extirpados da face da Terra?


Um certo Rogério Bento rabiscou o novo programa de governo, com
direito à “trinta anos de regime militar direitista”, mais “educação
cristã”, “estado de sítio”, “pena de morte” e “criminalização do aborto,
das ideologias esquerdistas, ateístas, gayzistas e dos direitos dos
bandidos”.


Será que o nazista Hippler a serviço do nazista Goebbels insertaria
tais falas no filme nazista de ambos? Difícil acreditar. Mesmo os
nazistas tem limites. Formais, ao menos.


Sob Hitler, o patrocínio do ódio era oficial, bancado por um estado totalitário. Aqui, os haters
são opositores da democracia sob uma democracia. Escancaram as bocarras
para rugir sua ferocidade. Diferentemente de 1933 – e de 1964 — são
leões desdentados.


Na Alemanha, o fascismo se serviu do governo. Que alimentou, pela
propaganda, o horror aos judeus, eslavos, ciganos, comunistas,
homossexuais. No Brasil, ao reverso, o governo é o inimigo a ser
devorado. Na Alemanha, a escalada de Hitler à chancelaria do Reich foi
atapetada pelos jornais de Alfred Hugenberg, o grande magnata da mídia.
No Brasil, o governo vive sob estado de sítio midiático há 12 anos. Onde
velhas vozes, dia após dia, tangem seu alaúde para lastimar a teimosia
petralha em continuar existindo.


São, portanto, situações distintas. O que não muda, salvo alguma cor
local, é o fascismo. Seu ingrediente básico é a frustração. Sova-se esta
massa, umedecendo-a com algumas colheradas de ignorância e um copo
cheio de cólera para fermentar. Deixa-se crescer. Quando as três partes
estão bem misturadas, acrescentam-se porções generosas de
irracionalismo, machismo, xenofobia, homofobia e intolerância e leva-se
ao fogo alto. Na cobertura, um tanto de negação do outro, suspeição da
cultura e força bruta.


Sociedades que engolem a gororoba nefasta desembocam, no seu extremo, nos vernichtungslagers.
Outras vezes, na maioria, no borbulhar de uma ira estéril porém
daninha. Temerosas da ascenção das camadas subalternas, as classes
médias são bastante permeáveis ao cardápio. Na expressão de Umberto Eco,
elas representam “o auditório do discurso fascistizante”. Mas, aqui,
quem as nutre? Quem segrega o rancor espesso que se funde, engrossa e
expande como uma nuvem tóxica? Quem ceva a escuridão?


Há uma resposta bem conhecida. Por ironia, de um judeu. O fato de não
ser nova não significa que não deva ser apreciada. “Com o tempo, uma
imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público
tão vil como ela mesma”, pressagiou o jornalista e judeu húngaro Joseph
Pulitzer. Diga que o velho Pulitzer não tem razão.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

O golpe do Facebook — CartaCapital

O golpe do Facebook — CartaCapital



O golpe do Facebook


por Antonio Luiz M. C. Costa



publicado
12/05/2015 05h50

A empresa de Zuckerberg tenta criar um monopólio mundial da comunicação, informação e jornalismo


Um aspecto peculiar
da Cúpula das Américas no Panamá, dias 10 e 11 de abril, foi o papel do
presidente do Facebook, Mark Zuckerberg. O jovem executivo (30 anos)
circulou pela reunião dos chefes de Estado como se fosse mais um deles
ou pelo menos como um presidente do Banco Mundial, não como mais um
participante do fórum empresarial paralelo. Chegou a invadir, por
engano, uma reunião entre os presidentes do Panamá e República
Dominicana. 
Vários líderes, inclusive a brasileira
Dilma Rousseff, o mexicano Peña Nieto, a argentina Cristina Kirchner, o
peruano Ollanta Humala e o panamenho Juan Carlos Varela se fizeram
fotografar ao lado
do executivo e com certeza julgaram isso positivo
para a própria imagem. A oferta de “internet gratuita” do Facebook a
países latino-americanos, a começar por Colômbia, Guatemala e Panamá,
três dos governos mais conservadores do continente, recebeu quase tanta
cobertura quanto a reconciliação entre Washington e Havana. Alguns se
compraziam em considerá-lo representante de uma “nação” de 1,4 bilhão de
usuários, maior que a China.
Aparentemente, a aura “libertária”, “democrática” e
“revolucionária” da internet foi pouco abalada pelas revelações de
Edward Snowden e Julian Assange. A NSA e suas similares, ou “o governo”,
foram responsabilizadas por tudo de negativo ou duvidoso e as grandes
empresas do Vale do Silício posaram como vestais escandalizadas, como se
seu papel na operação não fosse essencial e consciente e seu uso
político um subproduto inevitável. O ciberespaço continua a ser visto
pelos usuários como um playground barato e inofensivo e seus
empreendedores como gênios simpáticos e filantrópicos.
Seria mais sábio vê-lo como a versão atualizada da Terra
dos Brinquedos do Pinóquio, de Carlo Collodi (ou a Ilha dos Prazeres da
versão Disney), para onde crianças ansiosas para escapar do trabalho e
dos estudos são levadas para uma sucessão de diversões gratuitas e
inesgotáveis, mas ao cabo de algum tempo se
veem transformados em
burros e nessa forma postos a trabalhar por supostos benfeitores
revelados como exploradores inescrupulosos.
O mundo estará mais maduro quando as
ofertas, propostas e produtos de um Facebook, um Google, uma Apple ou
uma Microsoft forem recebidas com o mesmo ceticismo saudável com que o
público encara a publicidade institucional da Standard Oil ou do Goldman
Sachs. Quando esse dia chegar, porém, provavelmente será tarde demais e
o Vale do Silício terá controlado corações e mentes de forma mais
completa do que Wall Street e Hollywood jamais sonharam.
Como explica o especialista Evgeny Morozov no jornal britânico Guardian,
o Facebook não é uma instituição de caridade. Está interessado em
“inclusão digital” tanto quanto agiotas em “inclusão financeira”. O
projeto internet.org fornece conexão “gratuita” por celular aos pobres
da América Latina, África e Sudeste Asiático, mas apenas ao Facebook e
pouca coisa mais (como a Wikipedia). Muitos dos que se tornaram usuários
da internet nos últimos anos têm a impressão de que ela é a rede de
Zuckerberg, mas para esses isso será estritamente verdade.
Isso é difícil de conciliar com o marco civil da
internet que o governo brasileiro tanto se empenhou para aprovar em
2014. Para cobrar de Zuckerberg pelo acesso ao Facebook, as operadoras
têm de acompanhar a navegação e guardar os dados de acesso, o que é
proibido. Dar-lhe prioridade de tráfego viola a neutralidade da rede. O
próprio princípio de fornecer conexão gratuita a determinados sites e
cobrar pelo restante é de legalidade duvidosa. Se a regulamentação
autorizar essa prática, pode esvaziar a lei de qualquer sentido.
Lembra a política da Microsoft de
oferecer softwares gratuitos ou muito mais baratos a escolas, estudantes
e serviços públicos para aprisionar usuários em seu sistema, a ponto de
não cogitarem outro quando se tornassem consumidores ou empreendedores.
Mas é muito mais. Além de condicionar a maneira de navegar na internet,
o Facebook lucrará ao dispor dos dados pessoais e coletivos sobre esses
usuários para vendê-los a empresas ou disponibilizá-los ao Estado e
monopolizar a atenção desse público melhor que qualquer rede de TV. 
Como sabe quem já usou o Facebook, este
tem a política de criar dependência para depois cobrar cada vez mais
caro pela interação. Empresas e celebridades que chegaram a criar um
público considerável na rede de repente descobriram que teriam de pagar
para que seus “amigos” continuassem a ver suas mensagens. 
Ao mesmo tempo, a rede impõe regras arbitrárias. Uma delas é o veto
a pseudônimos e duplas identidades. Zuckerberg alega ser tal prática
“falta de integridade”, mas a verdadeira questão é garantir a real
identidade dos usuários para que as informações sobre eles tenham maior
valor. Assim como um pseudônimo pode ajudar a escapar da perseguição de
um regime autoritário, permitiria driblar a curiosidade de um empregador
ou seguradora sobre opiniões políticas, relações afetivas, consultas,
exames, compras e percursos nas horas de lazer. Ou, quando bugigangas
como o Apple Watch forem comuns, acompanhar seus batimentos cardíacos,
pressão e dieta. Nunca as pessoas foram tão transparentes para governos e
empresas – e, ao mesmo tempo, nunca essas instituições foram tão opacas
para o público.
Os critérios de “moralidade” da rede,
aparentemente arbitrários, seguem uma lógica igualmente comercial. Sua
censura é conhecida por ignorar cenas de violência extrema, ameaças de
morte e racismo explícito enquanto chega a extremos ridículos de
moralismo como os de bloquear a foto histórica de uma indígena na página
do Ministério da Cultura e uma reprodução de A Origem do Mundo,
de Gustave Courbet, por um professor de arte. Não se trata de seguir
qualquer ética coerente, mas de criar um ambiente no qual uma classe
média puritana se sinta à vontade para navegar e empresários para
anunciar.
As leis dão ao Facebook, como entidade
privada, o privilégio de proibir conteúdos como bem entender. O problema
é quando o monopólio prático do acesso a um meio de comunicação cada
vez mais indispensável, principalmente se apoiado por convênios com
governos nacionais, proporciona o controle de fato do espaço público. É
como entregar a uma empresa privada a gestão de todas as ruas, praças,
praias e parques e fazer da cidade um shopping à mercê das normas de
comportamento dos proprietários, sem possibilidade de recurso à Justiça.
A ambição da rede é acostumar os usuários a recorrer
a Zuckerberg para tudo e hospedar dentro de seus limites todo tipo de
negócios. Quem quiser levar espetáculos, notícias, publicidade,
educação, serviços ou vendas às massas terá de se entender com ele e
aceitar suas condições.
No tocante à mídia e ao jornalismo, o plano é levar
algumas das maiores empresas a se hospedar dentro da rede social.
Espera-se que os primeiros a aceitar a proposta incluam The New York Times, BuzzFeed e National Geographic, talvez também The Times,
Quartz e Huffington Post. Em troca de administrar sua própria
publicidade e informações sobre leitores e espectadores, esses veículos
dividiriam receita (e talvez dados) com Zuckerberg, que administraria
sua publicidade. Mesmo em 2014, antes da concretização desses acordos ou
dos planos de “internet gratuita”, o Facebook se tornou a principal
fonte de notícias para uma fatia assustadora do público: 67% no Brasil,
57% na Itália, 50% na Espanha, 37% nos EUA.
Acreditar que isso não afetará os
conteúdos é mera ilusão. Esses veículos teriam marca e identidade
diluídas e teriam de se sujeitar à cultura e prioridades do Facebook,
explicitadas por Zuckerberg a um jornalista que o questionou sobre os
critérios dos algoritmos que decidem as notícias exibidas a cada
usuário: “Um esquilo no seu jardim pode ser mais relevante para seus
interesses atuais do que gente morrendo na África”. O público não quer
ouvir sobre problemas alheios e sim de seus gostos e decisões
cotidianas. Textos longos, principalmente se exigem algum esforço ou
causam algum desconforto ao leitor, são menos úteis do que fofocas de
celebridades, informações superficiais e engraçadas, fotos de gatinhos,
dicas de consumo e problemas do cotidiano. Mais Beyoncé e menos Boko
Haram.
Dada a possibilidade de definir o perfil individual
do usuário, pode selecionar o tipo de notícia e informação conforme suas
crenças e preferências. O Facebook é muito bom nisso. Testes mostraram
que com analisar 70 “curtidas” na rede se pode conhecer o perfil de uma
pessoa melhor que um amigo ou colega de quarto, com 150, melhor que um
pai ou irmão e, com 300, quase tão bem quanto um marido ou esposa. Não
só ele, como certeza: no Google, os interesses indicados por buscas
anteriores decidirão se ao buscar por “Egito” o internauta encontrará
informações turísticas, oportunidades de negócio, biografias de faraós
ou detalhes sobre as últimas arbitrariedades da ditadura militar.
De certa forma, isso acontece com a mídia
tradicional. Ao escolher uma revista e não outra, o leitor escolhe uma
abordagem, um ponto de vista e uma temática. Mas isso envolve certo grau
de escolha consciente e nada impede que, vez por outra, experimente
outra publicação. Na rede, é a notícia que escolhe por quem será lida, e
uma vez que o perfil do usuário se defina, suas oportunidades de
escolha são, na prática, reduzidas. Depende apenas de Zuckerberg decidir
se é mais lucrativo manter cada um em sua zona de conforto ou
influenciar sutilmente suas opiniões na direção mais conveniente aos
interesses dos controladores da rede. Nenhum ser capaz de refletir
deveria estar disposto a reforçar seu monopólio e lhe dar ainda mais
poder. Confiar numa empresa como essa para prestar um serviço essencial é
tão sensato quanto entregar a gestão do Banco Central ao Goldman Sachs,
a Petrobras à Exxon ou a polícia e Justiça a uma empresa de
mercenários.  

domingo, 17 de maio de 2015

Brasil vai voltar a crescer e panelaços irão acabar,

Brasil vai voltar a crescer e panelaços irão acabar, diz Chico de Oliveira - 17/05/2015 - Poder - Folha de S.Paulo



 (...)




E a questão da corrupção envolvendo empreiteiras?

Há tempos, quando todo mundo se desesperava com isso, Ignácio Rangel
(1914-1994), que era realista e cético, dizia: "A corrupção é o creme do
capitalismo. Não se desesperem, isso é sinal de que o capitalismo está
se expandindo". É isso: tudo é corrupto no capitalismo.

A imprensa apoia Dilma

A imprensa apoia Dilma | Observatório da Imprensa –



A imprensa apoia Dilma

Por Luciano Martins Costa em 15/05/2015 | 0 comentários
Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 15/5/2015

A sexta-feira (15/5) marca um ponto de inflexão no noticiário
político, no qual se pode perceber que há uma mudança na narrativa da
imprensa sobre os efeitos da disputa entre o Executivo e o Congresso
Nacional. Também é possível que se trate de uma reversão na parábola
desenhada pelos acontecimentos em Brasília, com a redução das tensões e
alguma acomodação nas próximas semanas.


As duas figuras de geometria analítica, comumente usadas no controle
de risco em comunicação, se referem a uma tendência natural das crises,
que costumam se comportar, metaforicamente, como um objeto lançado para o
alto: se responder apenas à força inercial, o objeto vai em algum
momento atingir o ápice da parábola e começar a cair. Se houver uma
força adicional capaz de dar novo impulso a ele, o objeto irá sofrer uma
inflexão no ponto de exaustão da força inicial, em que se começa a
curva descendente, e receberá novo impulso, retomando a ascensão com uma
curva inversa, para cima.


O fato que determina esse momento curioso da nossa crônica política é
a aprovação, pela Câmara dos Deputados, de uma emenda que extingue, na
prática, o fator previdenciário no cálculo das aposentadorias.


O tema é bastante explorado pelos diários de circulação nacional, com
boas reportagens, análises variadas e um ponto em comum: em maior ou
menor grau, os jornais condenam a decisão e mobilizam seus colunistas
para questionar o que chamam de irresponsabilidade do Legislativo.


O sistema proposto pelos deputados, chamado de fórmula 85/95, garante
aposentadoria integral para os homens que se aposentarem quando a soma
da idade com o tempo de contribuição atingir 95 e as mulheres alcançarem
o número 85 na mesma conta.


Embora o assunto envolva uma alta complexidade, que inclui as
perspectivas de longevidade das próximas gerações, a composição de renda
das famílias e outros fatores, é consenso entre os analistas que a
iniciativa vai causar um grande impacto nas despesas do governo com a
previdência social.


A imprensa observa que o custo será insignificante nos primeiros
quatro anos, porque as pessoas tenderão a adiar a aposentadoria para se
beneficiar da nova regra, assegurando um benefício maior no longo prazo.
Mas os textos assumem que o sistema previdenciário sofrerá um choque de
mais de R$ 40 bilhões na primeira década.


Lula é o alvo


O leitor curioso e atento se perguntaria: por que a mídia tradicional
se mostra tão preocupada com o futuro, e ao mesmo tempo incentiva uma
crise política que afeta as chances de desenvolvimento do Brasil?


Da mesma forma, o que explicaria, para além das picuinhas
partidárias, o fato de que boa parte da oposição votou contra seus
interesses de longo prazo e parte da aliança governista contrariou seu
discurso tradicional de defesa do trabalhador para se opor à proposta?


Os jornais exploram o sinal invertido entre petistas e tucanos, e
surpreendem ao tomar o partido da presidente Dilma Rousseff nessa
questão.


Uma razão pode estar no fato de que, até mesmo quando imersa até os
ossos na disputa partidária, a imprensa precisa definir um limite para
as ações populistas dos presidentes da Câmara e do Senado, que jogam
para a plateia para fugir dos holofotes da Operação Lava Jato. Em algum
momento há de se impor a responsabilidade nesse cenário que um
articulista do Estado de S. Paulo chama de “clima de bundalelê”.


Para os pouco afeitos à nova linguagem jornalística, convém registrar
que a expressão “bundalelê” representa a atitude provocativa de alguém
que exibe as nádegas em público, como ocorreu na quarta-feira (13/5) em
que foi votada a medida provisória que define as regras da pensão por
morte.


Até o Jornal Nacional, da Globo, mostrou rapidamente o ativista da Força Sindical, de camisa preta (ver aqui a cena que acontece aos 30 segundos do vídeo) tirando as calças e mostrando o traseiro aos deputados.


O fato de os principais jornais do país, que têm investido no
desgaste da imagem da presidente Dilma Rousseff, definirem um limite
para as diatribes da dupla que dirige o Congresso Nacional precisa ser
visto sob diversos ângulos.


Um deles é a percepção de que, apesar da crise política, o governo já
aprovou as medidas básicas destinadas a conter os gastos públicos, e o
Brasil volta a receber novos investimentos, o que pode reacender a
economia em curto prazo. A outra razão é menos nobre: o principal alvo
da imprensa não é a atual presidente da República, que, mal ou bem, vem
retomando as rédeas do governo. O projeto da mídia tradicional é atingir
a reputação do ex-presidente Lula da Silva, para minar suas chances
caso venha a se candidatar em 2018.


FHC fala mal do Brasil nos EUA - Carta Maior

FHC fala mal do Brasil nos EUA - Carta Maior

A miopia da política econômica de prioridades conflitantes



A economia não comporta exageros. Não é uma máquina controlável a golpes de Selics.


É uma engrenagem complexa, composta por inúmeras cadeias produtivas
interconectadas, por um conjunto de fatores interligados, como estoques,
uso de capacidade instalada. A recuperação das expectativas depende
fundamentalmente das perspectivas de crescimento da economia.
Estabilidade fiscal, monetária, são instrumentos, mas o objetivo final é
o crescimento.


Essa máquina sensível, complexa, interligada, não comporta medidas de
choque, a não ser em situações extremas – como nos períodos
superinflacionários. Choques ampliam desequilíbrios, atrapalham a
visibilidade futura, pela dificuldade dos agentes econômicos entenderem a
nova dinâmica da economia.


***


A melhora das expectativas e a volta do investimento/crescimento
dependem da aposta na demanda futura. Consegue-se interromper a demanda
apertando o botão dos juros e dos cortes fiscais. Não existe um botão do
crescimento, em sentido contrário.


***


Houve exageros na dosagem dos incentivos fiscais da era Mantega.
Agora corre-se o risco inverso, do excesso de dosagem na combinação
política fiscal-monetária.


Não existe nada de mais falso do que a ideia de que o melhor ajuste
fiscal é o mais rigoroso e a melhor política monetária é a mais radical.



***


Em outros tempos, que se pensava superados, empresas e governos agiam
sob o domínio da prioridade única, da bala de prata que, resolvendo um
problema único, resolvesse todos os problemas.


Esse modelo quebrou empresas e a economia, mas a política econômica recuou para o simplismo dos anos 80 e 90.


***


A demanda vai despencar, muito mais do que a presidente Dilma
Rousseff imagina – três semanas atrás ela imaginava que o pior já tinha
passado.


Despencando, o desemprego irá aumentar muito, especialmente se
continuar sendo uma variável desconsiderada pelo BC – que aparentemente
só sabe trabalhar com o binômio juros-inflação.


Com o aumento do desemprego e redução da demanda, o mercado de
consumo cai e cria-se uma capacidade ociosa na indústria. Ao mesmo tempo
a relação dívida/PIB explode por dois motivos: aumento da dívida, com
os juros; redução do PIB com a recessão, exigindo metas mais drásticas
ainda de superávit primário.


***


Fazenda e BC estão recorrendo à retórica do caos para aprovar as
medidas, expediente que funcionava bem nos velhos tempos da
hiperinflação. Tipo: se não derem o que peço, o Brasil acaba; se me
derem, em breve o país será recompensado.


Vão receber o que querem e não vão entregar o que prometem. Caos
ocorrerá se o desemprego explodir em um quadro politicamente instável
como o atual.


Em um ponto qualquer do futuro, virão os investimentos, mas
exclusivamente onde houver demanda: algumas concessões públicas, nas
quais o preço será menor devido à redução das expectativas de negócio
decorrentes da queda da atividade econômica.


É muito pouco para compensar o estrago que a recessão terá causado nos demais setores da economia.


***


Se nesse período todo o governo Dilma não conseguir desenhar o
segundo tempo do jogo, criar um sonho que seja, um pote d’água lá na
frente para compensar a travessia do deserto, nem a mediocridade ampla
da oposição salvará seu governo.




Peidousim!

domingo, 10 de maio de 2015

Os super-ricos e o resto — CartaCapital

Os super-ricos e o resto — CartaCapital



Os super-ricos e o resto


por Thomaz Wood Jr.



publicado
10/05/2015 10h19,


última modificação
10/05/2015 10h41

A estrutura social está cada vez mais parecida com a hierarquia corporativa


Brazil

A sociedade retratada no filme Brazil, 1958, Terry
Gilliam, é desigual e consumista, com tecnologia onipresente e governo
totalitário


Brazil é uma distopia satírica dirigida por Terry Gilliam, em 1985. O personagem central é Sam Lowry,
interpretado por Jonathan Pryce. A sociedade retratada no filme é
desigual e consumista, a tecnologia é onipresente, o governo é
totalitário, as corporações são poderosas e impessoais, a mãe do
protagonista é obcecada por cirurgia plástica e o seu trabalho não tem
sentido. As semelhanças com as empresas e a sociedade contemporânea são
notáveis.
A vida imita a arte. Em um texto sobre os
movimentos populares na sociedade do século XXI, Noam Chomsky traça a
origem dos termos Plutonomia e Precariado. O primeiro surgiu de um
estudo realizado há dez anos por analistas do Citigroup, segundo o qual o
mundo está dividido em dois blocos, a Plutonomia, formada pelos
super-ricos, e o resto. O objetivo dos autores era orientar os
investidores a selecionar as melhores ações, aquelas de empresas que
produzem para os abastados. 
 
A Plutonomia surgiu
das condições do capitalismo moderno: governos simpáticos às grandes
corporações, estado de direito que garante a liberdade econômica, espaço
para “inovações” financeiras, proteção de patentes e mão de obra
qualificada e dócil. Os super-ricos concentraram a riqueza dos países
desenvolvidos anglo-saxões, Estados Unidos, Inglaterra e Austrália.
Entretanto, os criadores do termo acreditavam que formações similares
surgiriam em economias emergentes, como Brasil, Rússia, Índia e China.
A contrapartida da Plutonomia é o Precariado, formado por
um contingente que vive em condições de insegurança e incerteza, tende a
crescer e tornar-se um componente relevante da estrutura social. O
economista Guy Standing é autor do mais conhecido livro sobre o tema, The Precariat: The new dangerous class, publicado em 2011. Standing advoga que a transformação global da economia está gerando uma nova estrutura de classes, substituta da anterior, cuja espinha dorsal era formada pela burguesia e pelo proletariado.
A nova estrutura, segundo o autor, é
composta de vários grupos. No topo encontra-se uma plutocracia
internacional, a usar seu poder econômico para influenciar e moldar o
poder político. Abaixo dela vicejam elites nacionais e compõe com a
primeira uma classe hegemônica. Logo abaixo, vem o grupo assalariado,
com rendimentos elevados e segurança no emprego. Seus membros ocupam o
topo da pirâmide das grandes empresas e nichos privilegiados da máquina
do Estado. É uma confraria pressionada, perde integrantes para os grupos
logo abaixo, frequentemente por causa de processos de terceirização.
Parte desse contingente é constituída por consultores e pequenos
empresários, que sonham em pertencer à elite. Abaixo desses situa-se o
velho proletariado, mais um grupo em processo de redução, com poucas
chances de sucesso na luta pela manutenção de conquistas passadas. O
precariado está abaixo do proletariado e constitui, segundo Standing,
uma “classe em construção”. Seu trabalho é caracterizado pela
flexibilidade e incerteza.
 
Standing observa que
o precariado é constituído por três subgrupos. O primeiro é formado
pelos desterrados do proletariado, com baixo nível de instrução,
frustrados e propensos a serem seduzidos pelo populismo de
extrema-direita. O segundo é composto de imigrantes e minorias,
frequentemente nostálgicos e politicamente passivos. O terceiro é
constituído por profissionais qualificados, inseguros sobre seu status
na sociedade e sujeitos a trabalho eventual. O autor identifica ainda um
lúmpen precariado, formado por miseráveis que vivem nas ruas, à margem
da sociedade.
A tipologia de Standing pode ser vista
como um modelo em construção. Entretanto, seus componentes podem ser
facilmente observados nas pirâmides empresariais. No topo, os
controladores e suas famílias, servidos por grupos seletos e bem
remunerados de executivos. Nos escalões médios, gestores e profissionais
especializados, aspirantes naturais à vida nos andares superiores.
Abaixo deles, um exército de analistas e operários, lutando para
preservar salários, empregos e benefícios. Ao redor, contingentes cada
vez maiores de prestadores de serviços, dos mais qualificados assessores
aos menos instruídos provedores de serviços básicos. A uni-los a
sujeição às intempéries econômicas e aos humores dos contratantes. A
sociedade parece imitar as corporações.

domingo, 26 de abril de 2015

Sonegação corre solta | Brasil 24/7

Sonegação corre solta | Brasil 24/7






MARCOS CINTRA 
É através do Imposto Único (PEC 474/01)
que o Brasil pode deixar de ser o paraíso dos sonegadores para se tornar
um país justo com os contribuintes e que valoriza quem produz








O Sinprofaz (Sindicato Nacional dos Procuradores
da Fazenda Nacional) divulgou recentemente que R$ 443,9 bilhões deixaram
de entrar nos cofres públicos em 2014 por conta da sonegação. O valor
equivale a 8,6% do PIB brasileiro e a 23,6% da arrecadação total de R$
1,9 trilhão. De acordo com a entidade, os tributos mais sonegados foram:
ICMS (R$ 110 bilhões), Contribuições Previdenciárias (R$ 104 bilhões),
Imposto de Renda (R$ 85 bilhões), Cofins (R$ 43 bilhões) e FGTS (R$ 29
bilhões). O Sindicato revela ainda que em relação a 2013 o total da
perda de receita no ano passado cresceu R$ 23,4 bilhões e que se não
fosse essa evasão a carga tributária, que hoje é da ordem de 36% do PIB,
poderia ser 30% menor.


Há anos o Brasil vai empurrando a reforma tributária para frente e a
complexa estrutura fiscal se torna cada vez pior. Os fiscos nos três
níveis de governo com frequência criam normas para tentar dificultar a
fuga de receita, mas com isso o sistema fica mais burocrático e caro.
Nesse ambiente de elevado custo e enorme complexidade o sonegador se
beneficia e a evasão se torna um prêmio.


A sonegação é uma das anomalias tributárias no país, já que gera
injustiça social, representada pela compensação da perda de receita
através da sobretaxação da classe média. O que se deixa de arrecadar por
quem sonega é compensado com mais imposto sobre os assalariados, que
têm elevadas retenções diretamente em seus holeriths e ainda pagam
pesados tributos nos preços dos bens e serviços que consomem.


A alternativa para combater a absurda sonegação no Brasil é a
tributação direta sobre a movimentação financeira, tal como previsto no
projeto do Imposto Único. A ideia é transformar vários tributos em um. A
cobrança seria automática toda vez que o correntista movimentasse sua
conta bancária através de saques, compensação de cheque ou uso do cartão
de débito. Haveria enorme simplificação do sistema e a carga tributária
individual seria reduzida porque todos passariam a pagar suas
obrigações com o fisco.


Com o Imposto Único, a fiscalização torna-se mais simples; os
critérios de taxação ficam mais transparentes; os custos por parte do
poder público, e também os custos do setor privado vinculados às
exigências tributárias, tornam-se menores. A simplificação do processo
fiscal é evidente quando toda a arrecadação se concentra em um único
tributo, incidente sobre uma única base que não exige formulários e
guias.


O Imposto Único acarretaria a virtual eliminação da sonegação, da
corrupção fiscal e da economia informal, com custos administrativos e de
fiscalização pouco significativos. Apenas 2,8% em cada lado da
transação geraria receita equivalente a dos tributos a serem
substituídos. Para evitar que as transações efetuadas em moeda fiquem
isentas, todo saque e todo depósito em dinheiro no sistema bancário
seriam taxados através de uma alíquota que em média reproduziria o
número de transações que seria realizada com essa moeda até seu retorno
aos bancos.


É através do Imposto Único (PEC 474/01) que o Brasil pode deixar de
ser o paraíso dos sonegadores para se tornar um país justo com os
contribuintes e que valoriza quem produz.

Impeachment hoje serve a corruptores e corruptos

Impeachment hoje serve a corruptores e corruptos, diz sociólogo - 26/04/2015 - Poder - Folha de S.Paulo



Impeachment hoje serve a corruptores e corruptos, diz sociólogo


















A operação Lava Jato está expondo o coração do capitalismo brasileiro,
que é inteiramente corrupto. Ela fere interesses empresariais e
políticos que usam o Estado em seu benefício. Quem defende o impeachment
hoje quer que essa limpeza acabe. Por isso, o impeachment serve aos
corruptores e corruptos.





A visão é do sociólogo Adalberto Cardoso, 53, diretor do Instituto de
Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.
Para ele, é ingenuidade não identificar interesses externos na crise
política.





"O impeachment interessa às forças que querem mudanças na Petrobras:
grandes companhias de petróleo, agentes nacionais que têm a ganhar com a
saída da Petrobras da exploração de petróleo", diz.





Doutor pela USP, Cardoso afirma que o projeto sobre terceirização leva
as relações de trabalho para o século 19. Na sua análise, as
mobilizações da semana passada mudaram a qualidade do debate sobre o
tema, e votar a favor da mudança na CLT é suicídio político.





Autor de dez livros –entre eles "A Construção da Sociedade do Trabalho
no Brasil" (FGV, 2010) e "Ensaios de sociologia do mercado de trabalho
brasileiro" (FGV, 2013)–, ele avalia que o projeto sofrerá mudanças. A
seguir, trechos da entrevista concedida por telefone.









Folha - Como o sr. avalia os desdobramentos da crise política após a prisão do tesoureiro do PT?





Adalberto Cardoso - O combate à corrupção é necessário. A
corrupção é uma prática empresarial antiga no Brasil, basta lembrar dos
usineiros. O que vivemos hoje é parte de um processo de limpeza e,
espero, de correção dessa herança histórica de conluio entre o público e
o privado. As elites e vários agentes sociais não sabem separar o
púbico e o privado. O Estado sempre funcionou a serviço das elites
econômicas.





Quando há um amplo combate à corrupção, o potencial de crise é muito
grande. O que a Lava Jato está expondo é a forma como o capitalismo se
organiza no Brasil. O capitalismo no Brasil é constituído de forças com
capacidade de corromper os poderes públicos para que a sua atividade
possa caminhar sem problemas. Há uma burocracia infernal, os custos
operacionais são grandes.





A cada passo a empresa tromba com uma agência estatal. Aí corrompe essa
agência para que sua atividade possa continuar. É a maneira mais fácil e
rápida. Existe uma simbiose muito grande entre agências estatais e
grandes corporações e grupos econômicos, que usam o Estado como agente
seu.





A Lava Jato está mexendo com profundos interesses empresariais e
políticos. Aqueles que estão clamando pelo impeachment estão querendo
impedir que essa limpeza continue. O impeachment hoje serve aos
corruptores e aos corruptos. A história recente mostra que há um certo
viés na ação anticorrupção, principalmente no Paraná.





Só petista ou próximo ao PT vai para cadeia. Há uma profunda revisão do
que é o nosso capitalismo e o agente desse processo é o governo. Nenhum
outro governo jamais fez isso. Está agindo sobre o coração do
capitalismo brasileiro, que é inteiramente corrupto.





É essa imbricação entre o público e o privado que está sendo desvendada
hoje. Infelizmente, pelo viés antigovernista dos agentes da PF, não se
investigou nada da época do FHC. Sergio Moro é um juiz ligado de muitas
maneiras ao PSDB. Sua esposa é assessora do PSDB. Por um viés da
radicalização política, está se colocando na cadeia membros do PT. Esse
processo vai ter um impacto de longo prazo no partido.





Como o sr. analisa as posições que apontam interesses externos nesse
ambiente, especialmente em relação à Petrobras e ao pré-sal?






Seria ingenuidade imaginar que não há interesses internacionais
envolvidos nessa questão. Trata-se da segunda maior jazida do planeta.
Existem interesses geopolíticos de norte-americanos, russos,
venezuelanos, árabes. Só haveria mudança na Petrobras se houvesse nova
eleição e o PSDB ganhasse de novo. Nesse caso, se acabaria o monopólio
de exploração, as regras mudariam.





O impeachment interessa às forças que querem mudanças na Petrobras:
grandes companhias de petróleo, agentes nacionais que têm a ganhar com a
saída da Petrobras da exploração de petróleo. Parte desses agentes quer
tirar Dilma. Esse tema vai voltar como o mais importante da eleição de
2018.





Há uma ação coordenada vinda de fora?





Não acho. Não acredito em teorias internacionais da conspiração. Mas não
há dúvida que há financiadores desses movimentos de direita que chamam
as pessoas para rua. As faixas têm a mesma tinta, mesmos dizeres, as
camisetas são iguais, os enfeites. Alguém está bancando.





Interessa a determinadas forças internacionais a desestabilização
política do Brasil. O petróleo é um ativo num ambiente altamente
explosivo, um recurso importante de poder. O Brasil está se tornando
independente em petróleo. Daqui a pouco, será exportador. É obvio que os
EUA estão olhando para isso. Não tem como não estar.





Como o sr. analisa a ação do Congresso?





Eduardo Cunha está agindo como manda Maquiavel: fazendo maldades de uma
vez. Em parte porque não sabe se há sustentabilidade para essa agenda
que resolveu abrir: redução da maioridade penal, terceirização, armas.





Mas os protestos na semana passada contra o projeto de terceirização não provocaram um recuo, com o adiamento da votação?





Eduardo Cunha percebeu que cometeu um erro no caso da terceirização. Uma
coisa é tirar da gaveta temas conservadores da agenda dos costumes
–proibição do aborto, redução da maioridade penal. É diferente de mexer
em direito das pessoas, principalmente no direito do trabalho.





A CLT, que tem 72 anos, faz parte do que o Brasil é. Foi uma conquista
dos trabalhadores, fruto de lutas, greves ao longo de décadas. Os
trabalhadores nascem sabendo que terão direito. Cunha tocou num ponto
muito sensível de uma maneira muito atabalhoada e gerou a reação que
gerou.





Por que houve recuo no amplo apoio recuo ao projeto?





É um suicídio político para qualquer partido [apoiar o projeto]. No caso
do PMDB é mais grave porque ele foi o patrono da Constituição de 1988. O
projeto da terceirização é um tiro no peito da Constituição de 88, pois
destrói direitos sociais e do trabalho no Brasil. O custo para os
partidos será muito alto se isso passar e isso foi percebido. Paulo
Pereira da Silva deu um tiro na cabeça com esse projeto.





Com as manifestações da última quarta o projeto tem menos chance de passar?





Não tenho dúvida. Houve uma mudança na qualidade do debate. A sociedade
reagiu ao projeto. A CUT, os sindicatos e partidos conseguiram botar
mais gente na rua no que nos protestos de 12 de março. Os políticos que
não levarem isso em consideração estão dando um tiro no pé.





Essa mobilização pode virar o jogo e galvanizar a esquerda?





No parlamento, essa é uma possiblidade real. não sei se uma reentrada no
debate das posições de esquerda. Existe a possibilidade de pacificação
no parlamento, principalmente na Câmara. O presidente do Senado disse
que a lei como está não passa na casa. O PMDB não é só o que se diz na
mídia. É um partido de alguma maneira comprometido com as causas
sociais. Ele, em parte, herdou a história da luta contra a ditadura e da
construção da democracia. Ainda que dois de seus líderes estejam sob
investigação judicial, não quer dizer que o partido tenha abdicado
inteiramente da sua história de apoio às lutas sociais. Abrir mão disso é
um risco muito alto para esse partido também. Outros movimentos por
parte de Dilma, como chamar Michel Temer e flexibilizar o ajuste fiscal,
podem ajudar na pacificação. Não vai pacificar Cunha, que tem uma
agenda conservadora do lado dos costumes e vai continuar tentando
implementá-la.





O projeto da terceirização vai fracassar?





Metade da Câmara é composta por empresários, que apoiam o projeto e têm
muito a ganhar com ele, sem exceção. Ele precariza as relações de
trabalho e gera redução de custos. Vai haver uma pressão muito grande
por parte do lobby empresarial e financeiro. Mas haverá também povo na
rua fazendo barulho. Político preocupado com sua sobrevivência ouve a
rua. Político preocupado com sua reeleição ouve quem paga a campanha.
Isso vai criar uma tensão séria no Congresso.





Suspeito que vai haver uma amenização do projeto, mas não acho que a
questão da terceirização foi para o brejo. Foi para o brejo tal como
está. A regulamentação da contratação de terceiros vai passar com algum
outro formato. Esse formato do atual projeto leva as relações de
trabalho no Brasil para o século 19, um momento na história do mundo
ocidental que não havia proteção para o trabalhador.





A presidente deveria ter anunciado que vetará o projeto?





Ela já deveria ter feito isso.





Por que não o fez? Faz pare da guinada da presidente?





Não chamaria de guinada. Muitos se esquecem das maquiagens feitas nos
anos anteriores. A contabilidade criativa foi aceita pelos agentes
econômicos porque eles estavam ganhando com isso. O governo estava
emprestando muito dinheiro via BNDES, injetando muitos recursos na
economia para ver se estimulava o investimento. Desonerou a folha de
pagamento e deu subsídio a empresas. O governo perdeu R$ 28 bilhões por
conta da desoneração da folha.





Isso significou a transferência líquida de R$ 28 bilhões da mão do
Tesouro para as empresas. O deficit gerado nas contas foi para sustentar
a economia e transferir recursos públicos para o empresariado.





Para ver se investiam; nem assim investiram. As empresas entesouraram o
dinheiro, aplicaram no mercado financeiro e ficaram esperando para ver
se ela iria perder a eleição. O que o Joaquim Levy fez foi acabar com a
maquiagem das contas públicas. O ajuste era inevitável.





A presidente não fala sobre terceirização para não se indispor com o empresariado?





Não acho. Ela sabe que, em alguns setores da economia, o trabalho
terceirizado dá mais eficiência e pode ser necessário. O que é
inaceitável –e deveria ser inaceitável para um governo do PT– é a
terceirização das atividades fim. Há um ponto central. Um artigo no fim
do projeto anistia os empresários que hoje estão em situação ilegal.
Ficam anistiados todos que hoje contratam ilegalmente mão-de-obra
terceirizada, inclusive os que têm trabalho escravo.





Se o projeto for aprovado, no dia seguinte esses contratos vão ser
rescindidos sem que os contratados tenham direito a qualquer tipo de
recurso. Isso é um descalabro tão claro que qualquer um diz que o
projeto está querendo destruir o Brasil.





Dilma deve ter claro que o projeto como esta é inaceitável. No meu mundo
ideal, não haveria terceirização. Haveria proteção do trabalhador, e os
empresários que busquem redução de custos em outro lugar. Não naqueles
que produzem a riqueza, que são os trabalhadores





Como explicar a queda abrupta na aprovação da presidente?





O ajuste fiscal é profundo, mas ainda não atingiu o cotidiano das
pessoas. O que atingiu foi a inflação e a queda na popularidade tem mais
a ver com isso e com a construção de um ambiente político que diz que o
Brasil acabou. Estrangeiros que chegam aqui não entendem esse clima de
fim de mundo. A população não é imune a esse tipo de propaganda.





Qual a responsabilidade no governo nesse quadro?





Existe uma incapacidade de liderança política do governo, que poderia
estar tentando liderar a construção de uma visão alternativa. Mas hoje,
nesse ambiente de fim de mundo, a possibilidade de fazer isso é muito
pequena. Tudo a Dilma diz cai nesse ambiente e é triturado. A voz dela
não é ouvida. Se fala em petralhas, ladrões, esse é o clima.





A mídia tem uma importância brutal e central nisso. O clima
pós-eleitoral ainda não acabou e a oposição ainda não aceitou que perdeu
a eleição.





Como o sr. analisa o futuro do PT?





Tudo vai depender do que vai acontecer nos próximos meses. Se a questão
do impeachment evoluir –o que não considero o cenário mais provável–o PT
vai sofrer um revés que levará anos para se refazer. Há um outro
cenário de sangramento contínuo de Dilma, com ela ficando totalmente
submissa ao Congresso, um esvaziamento da presidência.





O cenário mais provável é de uma crise este ano, estabilização em 2016,
retomada em 2017 e o Brasil chegar bombando em 2018, como aconteceu em
2010. Isso com o ajuste produzindo os efeitos que os economistas dizem
que ele vai produzir: mudança da expectativa dos empresários, retomada
de investimentos pelo Estado, mais infraestrutura, retomada do emprego,
de melhoria dos salários, inflação mais controlada. Um governo mais bem
avaliado, com possibilidade de fazer sucessor.





Com Lula?





A tentativa hoje é destruir o governo, o PT e o Lula. Destruir essa
alternativa eleitoral. O que está em jogo no país é um processo de
desconstrução de uma alternativa eleitoral de esquerda. Querem destruir o
PT como alternativa de poder no Brasil.





O PT paga um preço alto por fazer o que os partidos de esquerda fazem:
distribuição de renda, melhoria de vida para os mais pobres, redução da
desigualdade social. Uma parte do Brasil está reagindo de forma muito
pesada contra isso. São empresários, os que votaram na oposição e não
aceitam o resultado eleitoral, a imprensa.





O PT não agiu contra si próprio?





O PT tem culpa nisso. Isso decore dos paradoxos do sucesso de qualquer
organização que chega ao poder central. PT foi efetivo ao dar ao
capitalismo condições mais dignas de funcionamento, proporcionando
melhores condições de vida para as pessoas. O PT nunca foi partido
revolucionário.





A liderança de Lula foi abalada?





Ninguém está imune ao processo de desconstrução. Mas Lula é o Lula. Hoje
ele sofre as consequências do dessoramento do projeto político do PT em
função da crise econômica e política. Se cenário da retomada se
concretizar, Lula pode voltar a ser o que era.





Ele estará no segundo turno de qualquer eleição e tem muito o que
mostrar. Se for candidato, é um dos mais fortes em 2018. A única
alternativa da oposição é continuar batendo no impeachment.





Qual sua visão sobre Aécio?





Aécio voltou com a agenda do impeachment, que parte do PSDB estava
abandonando, por duas razões. Primeiro, porque Eduardo Cunha tomou a
dianteira da agenda da oposição e de direita de maneira muito eficiente
nos últimos meses. Em segundo lugar, porque os que foram às ruas no
domingo começaram a chamar Aécio de "cagão", porque ele não vinha [às
ruas].





A única bandeira que ele tem nesse debate é a do impeachment. No PSDB já
foi dito que eles não podem cometer o mesmo erro de 2005, quando não
levaram adiante o processo. Estão escaldados. Perderam em 2006 e em
2010. Acharam que o Lula iria sangrar até o final, mas o Brasil voltou a
crescer e o Lula saiu com 80% de aprovação. Isso pode acontecer de
novo.





Eles olham para traz e dizem que cometeram um erro. Dizem que Dilma não é
o Lula, que o Congresso não vai sustentar Dilma como sustentou Lula e
querem levar até o fim esse negócio. A agenda do impeachment, que o
Aécio diz que não é golpista, nesse caso é. É uma agenda de quem ainda
não aceitou o resultado do processo eleitoral.





Como o sr. define esse momento historicamente. Há paralelos?





O momento é único. Comparam com Jango, mas é muito diferente. Lá havia
paralisia decisória no Congresso, com uma presidência muito fraca, e com
os militares sendo a força de oposição mais importante. Hoje não há
isso. Não temos conspiração militar. O clima hoje é de fim de mundo em
razão da corrupção. Isso matou Vargas.





É um momento de muita incerteza. É único também porque nunca tivemos
instituições democráticas tão sólidas. Temos um Judiciário autônomo como
nunca tivemos, um parlamento que é representativo do que é o Brasil,
que é conservador.





Temos uma crise desse tamanho –com perda da capacidade do PT de liderar o
centro político, com pedidos de impeachment– e ela não está
desestabilizando o sistema político. Pelo contrário, a crise reforça os
aspectos virtuosos da nossa democracia. Isso também é uma novidade.
Antes, crises assim levavam a golpismo militar. Agora se tem golpismo,
mas institucional.





Nesse ambiente contaminado, o PT e a esquerda perderam a capacidade de
liderar o centro. Lula conseguiu fazer isso. Dilma o fez até 2013,
quando ela perdeu o centro, capturado pela direita. Cunha puxou o centro
para o seu lado.





Como chegamos até aqui?





Essa situação de radicalização decorre, em parte, de um processo mais
longo de desgaste, não só eleitoral, mas da capacidade de condução
política do PT. Começou há mais tempo, mas os movimentos de junho de
2013 são emblemáticos e mudaram a pauta do Brasil. Até ali, o governo
tinha uma aprovação acachapante e o controle da agenda política.





O caldeirão continuou fervendo em 2013 e 2014 e explodiu na eleição. Os
temas continuaram se radicalizando nas redes sociais. O caminho do meio,
de conciliação de políticas contrárias, foi perdido.





Por quê?





As mídias sociais permitem um certo tipo de radicalização que na esfera
política não tinha como prosperar no Brasil. As mídias sociais e a
imprensa abdicaram da construção de um caminho do meio, tomaram partido,
e isso ajudou no processo de radicalização.





O governo foi se sentindo mais acuado; suas forças de apoio também
radicalizaram suas posições, o que levou a uma campanha eleitoral muito
radicalizada. Não esperava que a agressividade de ambos os lados
chegasse ao nível que chegou, de ameaças à própria democracia. Foi
exagerada a forma como a campanha de Dilma destruiu a Marina.





Aécio também fez uma campanha radicalizada para a direita, porque o
centro foi ocupado pela Marina. Chegamos a 1º de janeiro saídos de uma
campanha eleitoral muito sangrenta. O Congresso foi impondo à Dilma
seguidas e grandes derrotas. A primeira foi a eleição de Eduardo Cunha,
um inimigo declarado do PT.















Estatizem a Petrobras

Estatizem a Petrobras - 26/04/2015 - Clóvis Rossi - Colunistas - Folha de S.Paulo



Estatizem a Petrobras






A melhor saída para a crise da Petrobras é estatizar a empresa.





Sim, você leu bem: estatizar uma companhia que em tese é pública, mas
que nos últimos muitos anos foi privatizada pela porta dos fundos.





Torna-se até ridícula a tese esgrimida por alguns petistas e colunistas
segundo os quais o alarido em torno da Lava Jato é apenas uma maneira de
aplainar o terreno para a privatização da Petrobras.





Acorda, gente. A Petrobras está privatizada.





Privatizada para um corpo de diretores dos quais dois são corruptos
confessos, um terceiro está preso sob sólidos indícios de que é
igualmente corrupto e os demais são incompetentes, aí incluídos os dois
presidentes mais recentes.





Incompetência dupla, aliás. Primeiro, porque nenhum deles viu
esvaírem-se R$ 6,2 bilhões pela corrupção de seus pares. Não é o troco
para o ônibus, não é uma esmolinha para o primeiro pobre com que se
cruzar. É muito, mas muito dinheiro.





Incompetência ainda maior na gestão. Como relatou esse brilhante
Vinicius Torres Freire nesta Folha, "atrasos de obras faraônicas, mal
projetadas, mal planejadas e outras lambanças resultaram em prejuízos de
R$ 31 bilhões" –cinco vezes mais, portanto, que a roubalheira.





A Petrobras foi também privatizada para empreiteiras, que a
transformaram em um playground para seu clube de propinas. Você acredita
que as propinas saíram do lucro das empresas envolvidas?





Não, saíram de sobrepreços ou outras modalidades de assalto à Petrobras.





Privatizada, por fim, para partidos políticos, o PT, o PP e o PMDB
(talvez haja outros). Não há a mais leve racionalidade em uma empresa
petrolífera ter "operadores" deste ou daquele partido.





É uma aberração que só ocorreu pela privatização de uma empresa que deveria ser pública.





Petrolíferas são feitas para extrair petróleo, não para delas extrair
contribuições de campanha para quem quer que seja. Perdoe a obviedade,
necessária porque o escândalo é tão maiúsculo que ameaça esconder
obviedades.





Estatizar a Petrobras talvez permitisse restabelecer o controle do
Estado sobre uma empresa da qual é o maior acionista e cuja importância
se mede pelo fato de que corresponde a 3,5% da economia brasileira, se
considerado o valor de mercado, conforme as contas de Marcos Troyjo,
também nesta Folha.





O Estado brasileiro tem, na teoria, muitos instrumentos de controle. Se a
Petrobras não tivesse sido privatizada, talvez um deles detectasse
alguma coisa nesse tsunami de irregularidades e conseguisse evitar parte
dos crimes e da incompetência.





É inacreditável que nem mesmo o corpo técnico da companhia, que tem de
fato um histórico de alta qualificação, tenha percebido algo.





Será verdade o que disse o ex-presidente da empresa, José Sérgio Gabrielli, que a corrupção é impossível de detectar?





Se é verdade, então todos os absurdos apontados pela Lava Jato podem
perfeitamente se repetir, a menos, insisto, que a Petrobras seja
colocada sob controle do Estado –no discutível pressuposto de que o
Estado brasileiro funciona.



Incentivo fiscal pode tornar filantropos os bilionários

Incentivo fiscal pode tornar filantropos os bilionários do Brasil - 26/04/2015 - Mercado - Folha de S.Paulo

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Evasão fiscal anual no Brasil 'equivale a 18 Copas do Mundo' - BBC Brasil

Evasão fiscal anual no Brasil 'equivale a 18 Copas do Mundo' - BBC Brasil



Evasão fiscal anual no Brasil 'equivale a 18 Copas do Mundo'





A evasão fiscal do Brasil, com base em números de 2010, equivaleu a R$ 490 bilhões

Mesmo antes da disparada na cotação do dólar, US$ 280 bilhões já seria um número impressionante.
Segundo
uma pesquisa da Tax Justice Network (rede de justiça fiscal, em
tradução livre, organização internacional independente com base em
Londres, que analisa e divulga dados sobre movimentação de impostos e
paraísos fiscais), este é o montante que o Brasil teria perdido, apenas
em 2010, com a evasão fiscal - em 2011, ano de divulgação do estudo,
isso equivalia a R$ 490 bilhões.

O número vem de estimativas
feitas com base em dados como PIB, gastos do governo, dimensão da
economia formal e alíquotas tributárias. Segundo um dos pesquisadores da
organização, estudos sobre evasão fiscal mostram que as estimativas do
que deixa de ser arrecadado leva em conta também a economia informal.

O
valor coloca o Brasil atrás apenas dos Estados Unidos numa lista de
países que mais perdem dinheiro com evasão fiscal. É 18 vezes maior que o
orçamento oficial da Copa do Mundo de 2014 e quase cinco vezes mais que
o orçamento federal para a Saúde em 2015, por exemplo.

É bem
maior que os R$ 19 bilhões que a Polícia Federal acredita terem sido
desviados da União por um esquema bilionário de corrupção envolvendo um
dos principais órgãos do sistema tributário brasileiro, o Carf - a
agência responsável pelo julgamento de recursos contra decisões da
Receita Federal, e que é o principal alvo da Operação Zelotes.

Mas
para diversos estudiosos da área, a deflagração da ação policial pode
representar o momento em que a sonegação ocupe um espaço maior nas
discussões sobre impostos no Brasil, normalmente dominadas pelas
críticas à carga tributária no país.



Leia mais: Testas de ferro se oferecem na web para controlar empresas ‘obscuras’


"A
operação Zelotes mostrou que grandes empresas são pegas (em esquemas de
sonegação) e têm grandes valores de dívidas. Mostrou ainda que não há
constrangimento em pagar 'consultorias' que lhes assessorem em seus
pleitos. A evasão fiscal é um problema muito mais grave do que a
corrupção, não apenas por causa do volume de dinheiro envolvido, mas
porque é ideologicamente justificada como uma estratégia de
sobrevivência", disse à BBC Brasil uma fonte da Receita Federal.

Paraísos fiscais





Pesquisador da Tax Justice
Network, o alemão Markus Meinzer, aponta também para estimativas da
entidade, igualmente baseadas em dados de 2010, de que os super-ricos
brasileiros detinham o equivalente a mais de R$ 1 trilhão em paraísos
fiscais, o quarto maior total em um ranking de países divulgado em 2012
pelo grupo de pesquisa.

"Números como estes relacionados aos
paraísos fiscais mostram que o grosso do dinheiro que deixa de ser
arrecadado vem de grandes fortunas e empresas. Por isso a operação da
receita brasileira poderá ser extremamente importante como forma de
tornar o assunto mais público", acredita Meinzer.

O pesquisador
acredita que a discussão é crucial para debates políticos no Brasil.
Cita especificamente como exemplo o debate sobre os gastos sociais do
governo da presidente Dilma Rousseff, um ponto contencioso em discussões
públicas no Brasil.

"A verdadeira injustiça não está nas pessoas
que usam benefícios da previdência social, mas as pessoas no topo da
pirâmide econômica que simplesmente não pagam imposto. Pois isso é o que
força governos a aumentar a taxação para os cidadãos. Alguns milhares
de sonegadores milionários fazem a vida de milhões mais difícil".



Leia mais: Ricos brasileiros têm quarta maior fortuna do mundo em paraísos fiscais


Autor de Ilhas do Tesouro,
um livro sobre a proliferação dos paraísos fiscais e esquemas de evasão
de renda que rendeu elogios do Nobel de Economia Paul Krugman, o
britânico Nicholas Shaxson, concorda com a atenção que a Operação
Zelotes poderá despertar junto ao grande público, em especial sobre a
bandeira da justiça fiscal.

"Nos países europeus, a crise
econômica de 2008 mobilizou o público para questões como esquemas de
evasão fiscal, incluindo sistemas de certa forma encorajados pelo
governo, como os impostos de multinacionais. Falar em impostos é um tema
delicado politicamente, mas que se transformou em algo instrumental em
campanhas políticas. O Brasil, que agora passa por um momento econômico
mais delicado terá uma oportunidade de abordar esse assunto de forma
mais generalizada", diz Shaxson.

"O princípio de justiça fiscal é
uma bandeira de campanha interessante. Na Grã-Bretanha, por exemplo, já
não é mais exclusivamente restrito a uma parte do espectro político. E
mostra que não adianta você insistir naquela tese de 'ensinar a pescar
em vez de dar o peixe' quando alguns poucos são donos de imensos
aquários", completa o britânico, numa alusão à expressão usada para
criticar programas assistenciais como o Bolsa-Família.




segunda-feira, 13 de abril de 2015

Fotógrafo de jornal mineiro é agredido durante manifestação em BH | JORNAL O TEMPO

Fotógrafo de jornal mineiro é agredido durante manifestação em BH | JORNAL O TEMPO

O fracasso dos protestos encerra, enfim, o terceiro turno. Por Paulo Nogueira

O fracasso dos protestos encerra, enfim, o terceiro turno. Por Paulo Nogueira



O fracasso dos protestos encerra, enfim, o terceiro turno. Por Paulo Nogueira

Postado em 12 abr 2015
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O flop sensacional dos protestos de hoje tem um significado
essencial: acabou, enfim, o terceiro turno, depois de mais cem dias de
governo Dilma.


Foi um final melancólico para os esperançosos de um golpe contra os
54 milhões de votos – um grupo diversificado que vai dos coronéis da
mídia até aquela massa ignara formada por analfabetos políticos.


Os protestos se esvaziaram de pessoas, e a excentricidade boçal e desinformada foi se acentuando.


Um cartaz que viralizou dizia, por exemplo, que sonegação não é
corrupção. Outro afirmava que Dilma tinha três opções: renunciar, ser
derrubada ou se matar.


Malucos mais uma vez pediam um golpe militar em inglês. E o
direitista punk do Movimento Brasil Livre, do alto do fiasco do
espetáculo que tentou comandar, disse que é preciso meter uma bala na
cabeça do PT.


Em meio a essas cenas beligerantes, a Globonews, como assinalou um
tuiteiro, insistia em destacar o “caráter pacífico e familiar” dos
protestos.


Numa das melhores tiradas do dia, o tuiteiro escreveu: “A Globonews
insiste em dizer que famílias inteiras estão nos protestos. Ora, fodam-se as famílias inteiras.”


Pausa para rir.


Neste estertor de terceiro turno, não podiam faltar também os números inflados. A PM, depois do célebre milhão furado da vez anterior, recuou para um pouco mais de 200 mil pessoas na Paulista.


O Datafolha foi mais modesto: 92 mil no pico, às 16 horas.


Mesmo assim, as imagens de grandes vazios na avenida Paulista deixavam dúvidas quanto à precisão do prognóstico do Datafolha.


Um amigo me escreveu: “Como disse Wellington, quem acredita nestes 100 mil acredita em tudo.”


Derreteu-se o exército de manipulados que decidiram vestir a camisa
da seleção e ir para as ruas. Não deixarão saudade, em sua imensa
tolice.


Eles demoraram uma eternidade a entender que perderam as eleições, mas agora acordaram para a realidade.


Resta Dilma também acordar para o fato de que ela venceu. Não deve haver registro, na República, de um vitorioso em eleições presidenciais com ares tão derrotados.


Isso deu margem a que neoudenistas como FHC, Serra e Aécio agissem
como napoleões de hospício, e adotassem um ar triunfal em nada
compatível com os resultados das urnas.


Dilma deveria pegar um calendário que inclua todos os dias que restam
até o final de seu segundo mandato. E a cada dia, a cada folha
arrancada, verificar se fez todas as tarefas que estão por fazer.


Ela tem três anos e nove meses para fazer  coisas como o desmame das
grandes empresas de mídia, historicamente acostumadas a viver do
dinheiro público sob múltiplas formas.


Nada é tão imperioso como isso, porque os coronéis da mídia se batem ferozmente contra todos os avanços, como se viu agora no caso da terceirização.


Da Globo à Folha e à Abril, as empresas jornalísticas precisam de um choque do capitalismo que pregam para os outros.


Fora todas as mamatas públicas, ainda hoje elas vivem protegidas da
concorrência estrangeira, o que é simplesmente uma obscenidade.


Se o PT aspira a ter futuro depois deste governo, vai ter que enfrentar coisas que preferiu fingir que não via.


A hora é essa – com o final do terceiro turno.