sexta-feira, 24 de maio de 2019

O golpe de Bolsonaro é pela família, contra a nação



O golpe de Bolsonaro é pela família, contra a nação

O antipresidente ataca o país para defender os interesses do seu próprio clã

Entre os tantos momentos graves vividos pelo Brasil desde que Jair Bolsonaro (PSL) foi eleito presidente e passou a governar como antipresidente, este em que ele e sua família pregam abertamente um autogolpe é possivelmente o pior. E, a depender de como for enfrentado pela sociedade, outros piores virão. Se aqueles que ocupam as instituições brasileiras ainda têm respeito pelos seus deveres constitucionais, é hora de resgatar o que resta de democracia e usar a Constituição para responsabilizar o ato golpista antes que seja tarde. Não há democracia possível se aquele que foi eleito para governar estimula o autogolpe, incitando seguidores que falam abertamente em fechar o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Não há democracia possível se aquele que foi colocado no Planalto pelo voto está disseminando panfletos pelo seu próprio WhatsApp, em que a população é convocada para ocupar Brasília e as cidades do país no próximo domingo, 26 de maio. Se as instituições brasileiras, todas elas, assim como a sociedade, apenas assistirem passivamente ao antipresidente rasgar abertamente a Constituição, acordaremos na próxima segunda-feira em outro país. E, posso garantir: não será um lugar bom.
Mesmo que as manifestações pelo autogolpe fracassem no domingo, o fato de um presidente incitá-las já é um passo largo demais na escalada autoritária. É um pode tudo que numa democracia não pode. Se puder, e parece que está podendo, porque Bolsonaro está fazendo abertamente diante dos olhos de todos, é porque no Brasil o que resta de democracia já não segura mais nada. É este o autogolpe – e já está agindo como golpe, ao escancarar que pode tudo mesmo antes de poder tudo.
A marcha do próximo domingo tem o DNA de Bolsonaro em todas as partes de seu corpo monstruoso
Depois de incitar e panfletear aquela que está sendo chamada de “marcha da loucura”, Bolsonaro tentou fazer o que sempre faz. Recuou, saiu da oposição ao próprio Governo e temporariamente voltou a ser situação. Anunciou ter desistido de ir pessoalmente à marcha e avisou aos ministros que também não deveriam ir. Tarde demais. A marcha tem o DNA de Bolsonaro em todas as partes do seu corpo monstruoso. Cada ato do próximo domingo será feito em seu nome.
É preciso compreender muito bem o que Bolsonaro e o bolsonarismo são e fazem. Apesar de se venderem como “nacionalistas” e falarem em defesa da “nação”, seus atos mostram que estão contra a nação. E não estou aqui esgrimando com retórica. É contra a nação porque seu golpe é feito em nome da família, do clã. E é feito pela família, pelo clã. Ainda que nação seja um conceito em disputa, com uma história longa, a ideia de nação se opõe radicalmente à ideia de clã. Bolsonaro tem governado abertamente contra a nação, pelo clã. Ele e seu clã querem expulsar do país todos aqueles que não fazem parte do clã. Seja porque defendem propostas diferentes no campo da política, seja porque representam ideias diferentes no campo dos costumes.
O que é o clã Bolsonaro? É primeiro sua família, depois seus seguidores. E nisso aqueles que se sentem parte do clã, os que hoje são chamados de “bolsominions” e eu prefiro chamar de “bolsocrentes”, deveriam prestar bem atenção. O núcleo duro, em qualquer clã, é a família, é o sangue. São zerodois (Carlos, vereador que controla as redes sociais do pai), zerotrês (Eduardo, deputado federal) e zeroum (Flávio, senador). Nessa ordem. Não por coincidência, os garotos zerodois e zerotrês receberão mais uma medalha do pai, a da Ordem do Mérito Naval. A informação foi publicada no Diário Oficial desta terça-feira, 21. Menos de um mês atrás, o antipresidente já tinha mimoseado os filhos com a Ordem Nacional de Rio Branco, a mais alta condecoração do Itamaraty. Tudo (o que é público) em família.
O que aconteceu com o ex-ministro Gustavo Bebianno, que se achava parte do núcleo duro do clã até bater de frente com o segundo garoto, o mais influente junto ao pai, deveria ter deixado os bolsocrentes mais espertos. Ainda que os laços de sangue não signifiquem total garantia neste tipo de organização, eles são muito mais difíceis de romper num clã do que qualquer outro laço. Bebianno compreendeu isso tarde demais e possivelmente vários outros ainda o seguirão na desgraça.
Bolsonaro prega o autogolpe no momento em que uma investigação das atividades do filho zeroum pode atingir toda a família
De forma alguma é coincidência que Bolsonaro tente um autogolpe no momento em que o filho zeroum é investigado por desvio de dinheiro público, lavagem de dinheiro e organização criminosa. E no momento em que essa investigação pode alcançar outros familiares e também o chefe do clã. No momento em que essa investigação, que apenas começou, pode revelar um envolvimento criminoso com as milícias que dominam o Rio de Janeiro.
Atenção, policiais honestos, o clã Bolsonaro não é a favor de vocês. Os Bolsonaros já demonstraram publicamente que apoiam não as polícias, mas sim as milícias. Na lógica do clã, tornar-se policial parece ser apenas rito de passagem para a conquista de poder e território. Em 2005, vale a pena lembrar, o então deputado Jair Bolsonaro fez uma defesa enfática de Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-capitão da Polícia Militar, suspeito de chefiar a milícia de Rio das Pedras e ser articulador do Escritório do Crime, o maior grupo de matadores de aluguel do Rio. Bolsonaro defendeu Adriano, hoje suspeito de envolvimento no assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e foragido, no plenário da Câmara. Quatro dias antes do pronunciamento, Adriano tinha sido condenado por homicídio. Meses antes, havia sido condecorado pelo filho zeroum com a medalha Tiradentes, a mais alta honraria do estado do Rio. Bolsonaro defendeu o miliciano e chamou-o de “brilhante oficial”.
É fundamental fazer a distinção. O autogolpe está em andamento não porque o projeto de Bolsonaro para o país está ameaçado. E sim porque o projeto de Bolsonaro para o seu próprio clã está ameaçado. Primeiro pelas investigações que, se não forem barradas, possivelmente alcançarão outros membros do clã. Como impedir então que as investigações continuem? Pelo golpe. Botando os crentes na rua para, como eles próprios gritam nas redes sociais, fechar o Congresso e fechar o STF, a instância máxima do judiciário.
Ninguém está impedindo Bolsonaro de governar, além dele mesmo e de seu clã
Não há ninguém impedindo Bolsonaro de governar para o país, além dele mesmo e de seu clã. A questão é que eles nunca quiseram governar para o país, porque a nação não lhes interessa. O que eles sempre quiseram foi governar para o clã e, assim, transformar o território da nação no território do clã. Agora o clã está ameaçado porque as instituições democráticas funcionam mal, mas ainda funcionam. Funcionam o suficiente para investigar se o filho zeroum cometeu os crimes dos quais é suspeito e apurar quem mais está envolvido.
Esta é a principal razão para Bolsonaro ter divulgado pelo WhatsApp um texto em que o autor afirma que o Brasil é “ingovernável” fora dos “conchavos” e que teme que o governo possa “ser desidratado até a inanição”. Num trecho, Paulo Portinho, funcionário público e candidato derrotado a vereador pelo partido Novo, afirma: “Que poder, de fato, tem o presidente do Brasil? Até o momento, como todas as suas ações foram ou serão questionadas no Congresso e na justiça, apostaria que o presidente não serve para NADA, exceto para organizar o governo no interesse das corporações. Fora isso, não governa”. Bolsonaro divulgou o texto classificando-o como de “leitura obrigatória”. Fez isso após as manifestações contra os cortes na educação terem levado centenas de milhares de pessoas para as ruas de mais de 200 cidades do Brasil, tornando-se o maior protesto feito contra um presidente no início de mandato.
O clã Bolsonaro vai para o tudo ou nada, o que neste caso significa arregimentar seus fiéis para uma demonstração de força no próximo domingo, porque quer impedir uma investigação que só eles sabem até onde pode chegar e o que vai aparecer. Como só eles sabem, agora nós também podemos saber, pelo menos, que é muito fundo e muito grave o que os investigadores poderão encontrar, caso não forem impedidos. Fundo e grave o suficiente para merecer a convocação de um autogolpe com menos de cinco meses de governo eleito.
É isso que Bolsonaro está nos dizendo sem dizer. Este é o único ocultamento. Todo o resto é explícito, como sempre foi. Estamos testemunhando um autogolpe bem diante dos nossos olhos e timelines. Só um ditador pode impedir uma investigação contra si mesmo e sua família. Contra o seu clã.
Bolsonaro não é um presidente, mas um chefe de clã ocupando a presidência
Quando escolho chamar Bolsonaro de antipresidente, como já expliquei em artigo anterior, é conceito. Bolsonaro é um presidente contra a presidência, algo totalmente novo na história do país. Para governar, ele ocupa o espaço da situação e da oposição, como apontei. Está fora e dentro, ao mesmo tempo. Isso é método, não incompetência. A incompetência está em outro lugar. É importante compreender que Bolsonaro não é um presidente, mas sim um chefe de clã na presidência.
Quem comparecer à convocação do antipresidente no domingo estará fazendo aquele tipo de escolha que pode definir uma vida. Estará escolhendo o clã – e não a nação. E aí pode começar a rezar para saber quanto tempo durará dentro da paliçada, sem nenhuma lei que não seja a do chefe, antes de se indispor com a família de sangue e ser jogado para fora numa piscada.
Setores da extrema direita e da direita que apoiaram Bolsonaro já entenderam a dinâmica. É o caso de articuladores dos movimentos de rua que levaram ao impeachment de Dilma Rousseff , como o MBL. O deputado federal Kim Kataguiri explicou claramente – em live, tuítes, posts e entrevistas – por que o Movimento Brasil Livre não apoiaria nem estaria na manifestação: “Fechar o Congresso e o STF é coisa de revolucionário. Quem é liberal e conservador defende a separação dos Poderes, e não o fechamento dos Poderes”. Outro protagonista das manifestações pelo impeachment, o Vem Para a Rua, também se posicionou: "Sendo um ato pró-governo, não vamos aderir, porque vai contra um dos nossos pilares, que é ser um movimento suprapartidário".
“Se as ruas estiverem vazias (no domingo), Bolsonaro terá de parar de fazer drama para TRABALHAR”, diz Janaina Paschoal
Personagens centrais do impeachment, como a deputada estadual pelo PSL, Janaina Paschoal, têm feito oposição enfática à convocação do próximo domingo. “Estão causando um terrorismo onde não há! As pessoas estão apavoradas, escrevendo que nosso presidente está correndo risco. Ele não é amado pela esquerda, pelos formadores de opinião? É verdade. Mas quem o está colocando em risco é ele, os filhos dele e alguns assessores que o cercam. Acordem! Dia 26, se as ruas estiverem vazias, Bolsonaro perceberá que terá que parar de fazer drama para TRABALHAR!”, defendeu Paschoal numa série de tuítes. "Essas manifestações não têm racionalidade. O presidente foi eleito para governar nas regras democráticas. (...) Pelo amor de Deus, parem as convocações! Essas pessoas precisam de um choque de realidade. Não tem sentido quem está com o poder convocar manifestações! Raciocinem!".
Muitos dos que apoiaram a candidatura de Bolsonaro por serem contra o PT ou por quererem emplacar seu próprio projeto de extrema direita ou direita no poder já perceberam a dinâmica da família Bolsonaro, apelidada nas redes sociais de “familícia”. O que o domingo mostrará é quantos crentes o clã Bolsonaro conseguirá mover na tentativa de barrar as investigações do filho zeroum.
A tentativa de autogolpe de Bolsonaro tem sido comparada a do então presidente Jânio Quadros, em 1961. Que deu bem errado, como sabemos. Para ele, não necessariamente para o projeto de outros golpistas, como os anos seguintes mostraram. Mas, se há algumas semelhanças com a tentativa de Jânio Quadros, há um número muito maior de diferenças. Entre elas, a forma de operação da política do Brasil contemporâneo.
Quando me refiro a bolsocrentes, não estou tentando fazer graça. Também é conceito. Em 2016, escrevi um artigo intitulado: “Na política, mesmo os crentes precisam ser ateus”. Meu principal argumento nesse texto é o de que a antipolítica demanda uma adesão pela crença, e não pela razão. Essa operação beneficia o bolsonarismo, mas o precede. E poderá ser mais longeva do que ele, a depender dos próximos capítulos.
Quando me refiro a crentes, não estou me referindo apenas a fiéis religiosos evangélicos, que majoritariamente deram seu voto a Bolsonaro. Mas a algo mais amplo, que é a adesão a um projeto político pela fé. Basta acompanhar as discussões nas redes sociais para perceber que há muitos ateus que se comportam como crentes na política.
Pela razão, Bolsonaro não consegue incitar uma manifestação para promover seu autogolpe. Por isso ele demanda fé. Pela razão é fácil perceber que quem mais causa problemas ao Governo é o seu clã. Pela razão é fácil conferir que Bolsonaro, que tanto critica os partidos e a política tradicional, acabou de anistiar 70 milhões de reais da dívida dos partidos, num momento crítico para o país. Pela razão é evidente que as dificuldades dos primeiros meses decorrem da incompetência de Bolsonaro. Pela razão, portanto, não dá.
Por isso Janaina Paschoal, insuspeita de ser de “esquerda”, tem clamado nas redes sociais: “Raciocinem! Reflitam!”. Mas como, se ela mesma exigiu tanta fé dos eleitores para votar num homem que se manifestava claramente contra os valores humanitários mais básicos e contra a própria democracia? Ela também invoca a fé de seus eleitores para que acreditem que só agora ela percebeu o que Bolsonaro queria ser – e dizia que seria.
A adesão à política pela crença – e não pela razão – é a marca deste momento histórico no Brasil e no mundo
A adesão à política pela crença é uma marca deste momento histórico no Brasil, e também no mundo. E, como não custa repetir, ela atinge fiéis de todas as religiões e também de religião nenhuma. E, como também não custa repetir, precede e pode ser mais persistente do que o próprio bolsonarismo. A adesão à política pela fé é um modo de operação que marca a antipolítica.
Por outro lado, também é preciso dizer que o crescimento do fundamentalismo evangélico no Brasil, representado pelas igrejas neopentecostais, se articula com esse modo de operação. Já desenvolvi essa ideia no artigo chamado “Bolsonaro e a autoverdade”. É possível que o Brasil esteja sendo mais impactado pela religiozisação da política do que pela politização da justiça.
A retórica bíblica do bem contra o mal atravessa fenômenos como o bolsonarismo. Quando me refiro a essa palavra feia, “religiozisação” da política, chamo a atenção para a adesão à política pela fé. Esse fenômeno vai muito além dos fiéis evangélicos, mas é influenciado pelas empresas da fé e seus CEOs que se autointitulam pastores e bispos.
Mais de uma geração de brasileiros já foi formada numa interpretação tosca da Bíblia, na luta do bem contra o mal. Mais de uma geração já foi e está sendo educada na visão maniqueísta do mundo. Produtos de entretenimento como as novelas e os filmes supostamente bíblicos de uma rede de TV como a Record, colaboram para formatar um determinado olhar sobre a dinâmica da vida, criando um terreno fértil para arregimentar fiéis para um projeto político, ao deslocar a fé para um campo que não é o da fé, mas se torna.
O grupo de comunicação Record é o melhor exemplo, ao ser ao mesmo tempo o braço de difusão da ideologia do projeto empresarial-religioso aplicado à política e a TV oficial, ainda que não formal, do bolsonarismo. Ou uma delas, já que Bolsonaro quer o apoio, mas não a sombra do bispo Edir Macedo. Ele sabe que em algum momento os clãs chegarão a um impasse. Não custa ainda lembrar que nada mais Velho Testamento do que um clã.
Bolsonaro divulga vídeo em que pastor afirma que, se o povo não sustentar o “escolhido por Deus”, “a queda do Brasil será terrível”
Depois de divulgar um texto que mencionava um Brasil “ingovernável”, Bolsonaro mostrou que entende muito bem a dinâmica da religiozisação da política. Postou em seu Facebook o vídeo de um pastor congolês que fundou uma igreja evangélica na França. Steve Kunda começa dizendo: “Eu não faço política, eu sou pastor”. E então desanda a fazer política em prol de Bolsonaro, mas com retórica bíblica. “Na história da Bíblia, há políticos que foram estabelecidos por Deus”, diz. Afirma então que, assim como Deus escolheu Ciro como rei da Pérsia, “Deus escolheu Jair Bolsonaro”.
Segundo o pastor, ele teria recebido essa informação do próprio Altíssimo. “Gostando ou não, sendo de esquerda ou de direita, Deus escolheu Jair Bolsonaro como o Ciro do Brasil”. E segue: “Juntem suas forças! Sustentem esse homem (...) Ele é muito oprimido, Deus falou que seus primeiros dois anos não vão ser fáceis, mas a mão de Deus está com ele”. Caso o povo não apoie Bolsonaro, o pastor garante, “a ruína chegará ao Brasil”: “Se o Brasil não assegurar esse tempo, a queda do Brasil será terrível... E eu falo como profeta”.
Antes que os bolsocrentes me acusem de “comunista”, me limito a reproduzir a reação da deputada Janaina Paschoal, do mesmo partido de Bolsonaro, no WhatsApp: “E esse vídeo maluco de Messias? O que ele quer com isso?”.
A resposta parece bastante clara até mesmo para apoiadores arrependidos.
Depois de cinco meses de governo, a disputa de Bolsonaro agora é com a realidade
No próximo domingo veremos o quanto essa operação tem força. E o quanto a realidade se impõe. A razão não está em alta numa população que está sendo educada no maniqueísmo religioso. Mas a realidade é irredutível à falsificação. Pode demorar mais ou pode demorar menos, mas ela se impõe. E a realidade é desemprego crescente e a economia se aproximando da recessão. Até o neoliberal Paulo Guedes, ministro que recentemente afirmou nos Estados Unidos que o Brasil está disposto a “vender tudo, até o palácio presidencial”, já anunciou que a economia está “no fundo do poço”. A sobrevivência é um impulso atávico que precede até mesmo a fé. Será difícil a população absolver o presidente da responsabilidade pelo seu mal-estar cotidiano.
Não é a surpreendente oposição de direita, não é a esquerda ou o “comunismo” e muito menos qualquer “conspiração” que podem esvaziar o autogolpe de Bolsonaro. Depois de quase cinco meses de Governo, a sua disputa agora é com a realidade. Não fosse o destino da nação em jogo, seria interessante observar o quanto a adesão pela fé ainda é potente – ou não – contra a corrosão dos dias. Mas, mesmo que o autogolpe fracasse, o que só saberemos no próximo domingo, o fato de Bolsonaro poder planejá-lo, articulá-lo, propagandeá-lo livre e abertamente de sua cadeira no Planalto já condena o Brasil talvez de forma irreversível.
Bolsonaro começou sua campanha presidencial em 17 de abril de 2016, naquele momento terrível em que votou pelo impeachment de Dilma Rousseff homenageando o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra. Violou a lei e não foi responsabilizado. Ao contrário, continuou propagando a homofobia, o racismo e o ódio, assim como defendendo a ditadura, a tortura e o assassinato de opositores. E seguiu sem ser responsabilizado. Tornou-se presidente do Brasil. E, neste momento, incita a população para um autogolpe. Em nome do clã, contra a nação. Se, mais uma vez, não for responsabilizado, o último limite pode cair. E então descobriremos como é viver sem qualquer limite.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Como acabar com a Rússia, segundo a Rand Corporation



Como acabar com a Rússia, segundo a Rand Corporation

As conclusões do último relatório confidencial da Rand Corporation foram tornadas públicas. O documento explica como desenvolver a nova guerra fria contra a Rússia. Algumas de suas recomendações já foram aplicadas, mas essa exposição sistêmica nos permite entender seu verdadeiro objetivo.
 | ROMA (ITÁLIA)  
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Obrigar o oponente a esticar demais para desequilibrar e derrubá-lo. Não é uma técnica de judô, mas o plano contra a Rússia concebido pela Rand Corporation, o mais importante "think tank" dos Estados Unidos que, com uma equipe de milhares de especialistas, é apresentado como a fonte mais confiável do mundo em questões de inteligência e análise política para os governantes dos Estados Unidos e seus aliados.
A Corporação Rand se orgulha de ter contribuído para o desenvolvimento da estratégia de longo prazo que permitiu aos Estados Unidos terminarem como vitoriosos na Guerra Fria, forçando a União Soviética a exaurir seus recursos econômicos em confrontos estratégicos. Este modelo é inspirado no novo plano, Overextending and Unbalancing Russia (em espanhol, "Over-extension e desequilíbrio da Rússia), que acaba de ser publicado pela Rand Corporation [ 1 ].
Segundo os analistas da Rand Corporation, a Rússia continua sendo um poderoso adversário para os Estados Unidos em certos aspectos fundamentais. Portanto, os Estados Unidos devem implementar, juntamente com seus aliados, uma estratégia conjunta de longo prazo que explore as vulnerabilidades russas. Para esse fim, são analisadas várias maneiras de levar a Rússia a uma situação de desequilíbrio, indicando as probabilidades de sucesso, os benefícios, os custos e os riscos que cada uma dessas variantes apresentaria para os Estados Unidos.
Analistas da Rand Corporation estima que o aumento da vulnerabilidade da economia da Rússia devido à sua forte dependência das exportações de petróleo e gás, cujo rendimento pode ser reduzido através do reforço das sanções e aumentar as exportações de produtos energéticos dos Estados Unidos. O objectivo é fazer com que a Europa reduza a importação de gás natural russo, substituindo-o por gás natural liquefeito importado de outros países por via marítima.
Outra maneira de danificar permanentemente a economia russa é estimular a emigração de pessoal russo qualificado, principalmente jovens russos com alto nível educacional. Em um nível ideológico e informativo, trata-se de estimular as oposições internas e ao mesmo tempo enfraquecer a imagem da Rússia no exterior, excluindo-a dos fóruns internacionais e boicotando os eventos esportivos internacionais organizados por aquele país.
Em termos geopolíticos, Ucrânia braço permite aos Estados Unidos para aproveitar a principal vulnerabilidade externa da Rússia, mas deve ser feito com cautela, para manter a pressão sobre a Rússia, mas sem grande conflito, onde a Rússia iria ganhar.
No nível militar, os Estados Unidos poderiam obter resultados importantes, a baixo custo e com poucos riscos, aumentando as forças terrestres dos países europeus membros da OTAN para usá-los contra a Rússia. Os Estados Unidos também podem ter grandes chances de sucesso e resultados importantes, com riscos moderados, especialmente investindo principalmente em bombardeiros estratégicos e mísseis ofensivos de longo alcance dirigidos contra a Rússia.
Deixar o Tratado INF e implantar novos mísseis nucleares de alcance intermediário destinados à Rússia na Europa garante aos Estados Unidos uma alta probabilidade de sucesso, mas também traz altos riscos.
Calibrando cada opção para obter o efeito desejado, concluem os analistas da Rand Corporation, os Estados Unidos acabariam impondo à Rússia o maior preço no confronto entre os dois países. Mas os Estados Unidos também serão forçados a investir grandes somas, desviando-os de outros objetivos. Assim, os analistas da Rand Corporation anunciam um aumento acentuado nos gastos militares para os Estados Unidos e a OTAN ... em detrimento dos gastos sociais.
Esse é o futuro que nos prepara a Rand Corporation, o mais influente dos "think tanks" do profundo estado norte-americano, que é o centro subterrâneo de poder real, que está nas mãos de oligarquias económicas, financeiras e militares, O poder que determina as opções estratégicas, não apenas para os Estados Unidos, mas para todo o Ocidente.
As " opções " previstas nesse plano são, na verdade, apenas variantes da mesma estratégia de guerra cujo preço, em termos de sacrifícios e perigos, já estamos pagando.

domingo, 19 de maio de 2019

Brasil bolsonarista é casa mal-assombrada em filme de terror



Brasil bolsonarista é casa mal-assombrada em filme de terror

por Jorge Coli
Os filmes de casa mal-assombrada sempre me deixam perplexo. Tomo um exemplo: “A Mansão Macabra”, realizado em 1976 por Dan Curtis, com Bette Davis num papel secundário, mas sempre divina.
A situação é clássica. A família que aluga uma velha casa para férias começa a perceber sinais de estranheza. Acidentes acontecem; sonhos aterradores tomam os novos inquilinos; janelas, portas, lâmpadas passam a ter vida autônoma; a mãe tem reações bizarras. Quando, enfim, decidem escapar da habitação que os hostiliza, é tarde demais e a casa destrói a todos.
Minha questão é: por que cargas d’água não saíram assim que esses avisos estranhos começaram? Havia ficado logo bem claro que algo estava errado. Por que esperar o irreversível? A resposta: porque se assim fizessem, não haveria filmes de casa mal-assombrada.
Esses filmes me fazem pensar em pessoas que têm mais medo de médico do que de doença. “Ah, não; se eu for à consulta, o doutor vai descobrir alguma coisa”. Elas contam com o tempo, na ilusão de que tudo vai se resolver. E se descobre a enfermidade tarde demais.
Penso também naquela frase de ironia sinistra: “Na Alemanha, durante o nazismo, os judeus otimistas ficaram; os pessimistas foram para Hollywood”. Ou seja, quem se assustou logo fugiu e se salvou.
Enquanto quem pensava que, enfim, os nazistas não iam chegar a extremos, de fato tornou-se sua vítima.
É bem evidente que a frase citada é apenas uma boutade e que nem todos os perseguidos pelo regime nazista tiveram condições de escapar. Mas não é difícil imaginar a inércia muito humana diante do perigo, que consistia em pensar: “Como eu vou deixar minha casa, meu trabalho? E, afinal, malgrado as perseguições, eles não podem ir mais longe do que já foram”.
Aí está o ponto tremendo. Sim, eles podem. A natureza dos homens chega a deformar-se até o massacre em massa, até a destruição premeditada. Os corações com sentimentos humanos têm dificuldade em perceber até que ponto vão aqueles que são violentos e obtusos.
É a velha história do sapo dentro da panela de água fria, não sei se verdadeira, mas expressiva. Acende-se o fogo e ele não percebe o progressivo aquecimento. Termina cozido.
No Brasil, estamos assim. A casa já deu sinais de sobra desse terror no qual entramos. A tal ponto que se tornou difícil acompanhar o progresso do obscurantismo.
Um presidente que propõe lei autorizando proprietários de terras a assassinar, se se julgarem ameaçados por invasões. Como a violência dos latifúndios já toma proporções tremendas em várias regiões do país, o que será quando os proprietários obtiverem licença para matar?
O caso abominável do fogo aberto (83 tiros) pelo Exército no Rio de Janeiro contra uma família e um catador de latas mostra o clima desequilibrado em que vivemos, tanto pelo ocorrido quanto pelas raras manifestações de poucas autoridades, minimizando o fato como erro ou fatalidade.
E a triste certeza de que, neste caso, se alguém for punido, será a arraia miúda, e não os responsáveis pela atmosfera de violência que cresceu tanto.
A perseguição ao pensamento e ao saber não tem mais vergonha. Ao ser contestado quando decidiu, por capricho ideológico, cortar 30% dos orçamentos de três universidades federais, o ministro da Educação não teve dúvidas e aplicou o mesmo corte em todas.
O governo do Estado de São Paulo não ficou atrás, aparelhando uma instituição como o Condephaat, destinada a proteger os monumentos históricos e artísticos do estado, expulsando de seu conselho especialistas universitários. Busca também reverter a autonomia financeira das universidades estaduais. E a Assembleia Legislativa de São Paulo institui uma Comissão Parlamentar de Inquérito contra desvios ideológicos das universidades públicas paulistas.
Entidades diversas se manifestaram contra. Alguns parlamentares esclarecidos tentam organizar resistência. Protestos e abaixo-assinados correm nas redes sociais. Mas, depois das belas manifestações da quarta-feira (15), parece surgir lugar para algum otimismo realista.
O gênio da Laerte criou um cartum por ocasião do Primeiro de Maio: “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, se unir o bicho foge.”
Precisamos que haja união dos espíritos livres, vindos de horizontes os mais diversos, sem acirramentos partidários (sobretudo os fraternos, que são os piores), união que permitiria vencer o país mal-assombrado de hoje. Quatro anos é muito tempo —tempo de sobra para a destruição. Não aguardemos até que o sapo morra.
*Jorge Coli é professor de história da arte na Unicamp, autor de “O Corpo da Liberdade”.
*Publicado na Folha de S.Paulo

Idiotas úteis



Idiotas úteis

Quem esteve nas ruas entendeu que não há negociação com este governo

O fato será lembrado. A primeira grande ação nacional contra o governo do sr. Bolsonaro, envolvendo manifestações comparáveis ao que vimos em junho de 2013, foi feita pelos estudantes e universitários em ao menos 170 cidades.
Nada poderia ser mais explícito. Há uma juventude que, desde as ocupações de 2011 —passando por 2013, pelas ocupações dos secundaristas em 2016 e pelas várias mobilizações dois últimos dois anos—, aparece como o principal motor de revolta e descontentamento.
São anos de mobilizações constantes, de capacidade de articulação e de expressão clara de recusa às prioridades e à brutalidade do Estado brasileiro. Quando o sr. Bolsonaro evidenciou a face mais primária de sua violência, chamando-os de “idiotas úteis”, ele acabou por mostrar qual é o verdadeiro inimigo número um de seu governo.

Seu grupo sabe que há uma geração forjada no fogo das ruas que paulatinamente se constitui como sujeito coletivo de um processo possível de transformação radical. O desgoverno que hoje tomou de assalto o Planalto apareceu exatamente como a tentativa desesperada de impedir que tal emergência ocorra. Ela irá apenas acelerá-la.
Contra a transformação, os velhos métodos estão de volta. Nos últimos dias, vimos a já previsível enxurrada de imagens fake de “anarquia sexual” e de “balbúrdia” nas escolas e universidades. Alguém deveria dar livros de Wilhelm Reich para esse pessoal ler.
Desde os anos 1930, sabemos que todo fascismo mobiliza o ressentimento daqueles que fazem de tudo para não serem afetados pela circulação da sexualidade. Como se a sexualidade livre fosse colocar o corpo social em estado de degenerescência e degradação.
Não por outra razão, os nazistas, além que criarem termos como o famoso “bolchevismo cultural”, criaram também o “bolchevismo sexual” —que este governo irá rapidamente ressuscitar. Podem apostar.
Mas, além do método afetivo via WhatsApp, há ainda o método “racional”. Ele consiste em baixar a voz e dizer: “Veja bem, números são números. Não há dinheiro, mas se a reforma da Previdência passar, tudo volta ao normal”. É nessas horas que fica claro o que o governo quis dizer quando vira para a população e a chama de “idiota”. Porque é necessário uma certa limitação de raciocínio para acreditar em algo dessa natureza.
Primeiro, ninguém mostrou número algum, cálculo algum para chegar no valor de 30% de corte nas universidades. Começou-se cortando 30% de três universidades que pretensamente estariam a produzir “balbúrdia”, mas quando ficou evidente que era uma pressão política contra certos reitores, o Ministério da Educação saiu-se com a generalização do corte. Como se vê, tudo com um profissionalismo impressionante.
Segundo, porque o conto de que o crescimento virá com a reforma da Previdência é tão seguro quanto aquela história de que basta o impeachment para reaquecer imediatamente a economia ou de que, diminuindo impostos para empresários, eles voltariam a investir com seu “espírito animal”.
Você pauperiza a população, retira-lhe direitos e garantias, transfere renda para setores que preferirão o investimento seguro do rentismo, descapitaliza o Estado e depois não sabe por que a economia não cresce. Isso não funcionou em lugar algum do mundo e não funcionará aqui.
De toda forma, o jogo enfim começou. As manifestações não terminaram na quarta-feira. Elas apenas começaram, e com força. Quem esteve nas ruas entendeu que não há negociação alguma com este governo, que o sr. Bolsonaro não age como presidente, mas como chefe de gangue, com lógica e modos de chefe de gangue que procura surfar no ressentimento de seus recrutas.
O destino do Brasil era passar por uma polarização radical. Isso estava explícito desde as eleições de 2014. Um polo só havia se configurado. Agora, virá o segundo.
Vladimir Safatle

Quando a mídia se associa a Bolsonaro para vender a Previdência


Lalo: Quando a mídia se associa a Bolsonaro para vender a Previdência e destruir a Venezuela



Pensamento único e destruição do futuro. O papel da mídia nessa coisa toda
Imprensa se associa ao governo Bolsonaro para mentir sobre a Previdência, a Venezuela ou a apologia à violência. E se torna protagonista do atraso civilizatório
por Lalo Leal, na Rede Brasil Atual
Nem nos golpes contra Getúlio Vargas, em 1954, e Jango, em 1964, vimos a mídia tão unida como agora.
E desta vez não é para depor um presidente, mas para arruinar um país.
Trato da destruição da previdência social, assumida como projeto prioritário do atual governo e encampada sem restrições pelos meios de comunicação.
Chegam a ser constrangedores os raros momentos em que um convidado de um programa de TV foge da linha oficial da emissora.
As expressões dos apresentadores beiram o pânico, a contenção imposta ao entrevistado é evidente e seu nome, com toda certeza, retirado da lista da produção.
No entanto esses momentos são raros.
A regra é de que todos rezem pela mesma cartilha.
O objetivo é inculcar na população a ideia de que sem implodir os direitos dos trabalhadores, garantidos pela atual Previdência, o país irá à falência.
O sucesso dessa estratégia pode ser visto em depoimentos de pessoas, futuras vítimas dessa política, defendendo as pretensas “reformas”.
Sou testemunha disso.
Se nos chamados programas de debates, que de debates não têm nada, ainda ocorrem descuidos dos produtores, no noticiário a linha oficial é rigorosamente cumprida.
Discordâncias podem resultar em demissões.
Seria ingênuo admitir a possibilidade de que esses funcionários das emissoras, sem dúvida escolarizados, não conheçam os inúmeros trabalhos existentes mostrando a falácia da tal reforma.
Só que uma referência a eles pode representar o fim do emprego. E isso não ocorre só com a TV.
Vale para o rádio e para os meios impressos.
Outro exemplo notável do pensamento único veiculado pela mídia brasileira é a cobertura a respeito da situação da Venezuela.
Apesar das sucessivas eleições realizadas nos últimos anos, a mídia brasileira decidiu que lá vigora um regime ditatorial e o presidente da República, eleito democraticamente, é chamado de ditador.
Inúmeras horas de transmissão de rádio e TV, páginas e mais páginas de jornais e revistas são usadas para desqualificar o governo e exaltar golpistas que surgem periodicamente, impulsionados por interesses externos.
Há casos extravagantes.
Correspondentes baseados em Buenos Aires ou Nova York falam sobre acontecimentos ocorridos em Caracas.
Revelam muito mais as suas opiniões e as de seus patrões sobre o que ocorre na Venezuela do que informam.
Outro dia foi possível saber o que ocorre naquele país, não através desses correspondentes, mas de uma jornalista entrevistada pela FoxNews.
Ela surpreendeu o apresentador revelando fatos até então escamoteados pela emissora estadounidense.
Vozes como essa passam longe da mídia brasileira.
Apologia ao crime
Mas o pensamento único não se restringe a esses fatos evidentes.
Há questões mais sutis como a da violência, tratada hoje como programa de governo.
Na mídia ela aparece como algo intrínseco à sociedade brasileira, quase sempre desvinculada de suas causas estruturais, pobreza, abandono, desigualdade.
Na televisão assume ares de espetáculo mórbido capaz de alavancar índices elevados de audiência.
Explorada por apresentadores histriônicos incentivadores de mais violência.
Não por acaso gestos simulando armas na última campanha eleitoral foram recebidos com naturalidade por parcela considerável da população.
A possibilidade aberta pelo governo ao permitir o porte legal de armas para quase 20 milhões de pessoas decorre desse longo processo de embrutecimento da sociedade através da mídia.
Não se trata de um fenômeno recente.
Nos primórdios da televisão, O Homem do Sapato Branco, interpretado por Jacinto Figueira Junior, já apelava para o grotesco no trato de supostos pequenos contraventores.
Nas últimas décadas esse tipo de programa espalhou-se pelo país alçando ao estrelato figuras como Ratinho ou Wagner Montes.
Personagens semelhantes apareceram em inúmeras cidades brasileiras enraizando a ideia de que a violência necessita de valentões para combatê-la e, claro, de muitas armas.
Se dessa forma a apologia ao crime disfarçada de informação já era um incentivo à barbárie, com o aval do governo os limites da decência se ampliaram.
A Rede Bandeirantes deixou de lado qualquer prurido de sensatez e colocou no ar um editorial apoiando o decreto que praticamente libera o porte de armas no país.
Fez isso com dupla motivação: adular um governo do qual depende financeiramente para sobrevier e fortalecer o uso da violência para defender os seus próprios interesses, especialmente no campo.
Para reverter o embrutecimento existente na sociedade brasileira, gerado pelo secular processo de escravização de pessoas sequestradas na África, seria necessário um longo programa civilizatório de cunho político-cultural.
Nesse sentido a Constituição de 1988 foi um alento.
Apontava-se para uma sociedade mais justa e humanizada.
Indicava-se um futuro um pouco mais promissor que passou a ser sistematicamente destruído a partir do golpe de 2016.
Com o apoio aberto e incondicional da mídia unificada.

“Vem aí outro Jânio Quadros?” Até parece, mas capitão Bolsonaro é coisa muito pior



“Vem aí outro Jânio Quadros?” Até parece, mas capitão Bolsonaro é coisa muito pior

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No dia 29 de dezembro de 2018, três dias antes da posse de Bolsonaro, escrevi uma coluna na página 2 da Folha com este título:
“Vem aí outro Jânio Quadros?”.
Diante do desastre ferroviário do governo Bolsonaro, como diria Mino Carta, em menos de cinco meses já tem muita gente comparando estes dois presidentes, mas isso é injusto.
Jânio também tinha jeito de maluco, mas era professor, um homem culto.
Antes ser de eleito presidente, foi prefeito e governador de São Paulo e, em seu governo, contou com ministros muito competentes e respeitados.
Bolsonaro é completamente tosco, um ignaro, militar expulso do Exército por indisciplina, que durante sete mandatos foi um deputado do baixo clero, completamente inexpressivo, dedicado a xingar seus adversários e defender a ditadura e a tortura. E seu ministério é uma piada, um circo de horrores.
O que, afinal, eles tinham em comum?
Foi o que escrevi no texto da véspera da posse:
“Jânio não era um homem de partido, não pertencia a nenhum clã político, combatia a velha política, andava em mangas de camisa, encarava o moralismo autoritário e fez da vassoura seu símbolo numa campanha baseada no combate à corrupção”.
As semelhanças terminavam aí. Mas agora surge outro replay, como está no subtítulo da coluna:
“Após surgir como um furacão, ele jogou tudo para o alto e afundou o país”.
É o que está prestes a acontecer novamente.
Em lugar da vassoura, Bolsonaro faz arminha com os dedos, ameaça metralhar os adversários, tem chiliques quando fala com a imprensa e não faz a menor ideia de para onde está indo.
Temo que, como Jânio, ele também esteja pensando em fechar o Congresso num autogolpe para voltar nos braços do povo.
Se não deu certo com Jânio, que era muito mais preparado do que ele, e acabou indo no seu Fusquinha para Santos, onde embarcou num navio cargueiro para a Inglaterra, agora um surto autoritário desses só pode acabar em tragédia.
Estamos falando de algo que aconteceu quase 60 anos atrás, e parece que o Brasil não aprendeu nada.
Elegemos outro doido varrido, um ex-militar ressentido, que só quer se vingar dos seus superiores, e de todos os que se colocarem no seu caminho para cumprir as leis e defender a democracia.
Jânio podia ser louco, mas não rasgava dinheiro, ao contrário desse idiota inútil, que está destruindo o país, para combater o “comunismo” que só existe na imaginação dele.
Além disso, o vice de Jânio era João Goulart, um democrata trabalhista, que queria fazer as reformas de base e defender o patrimônio e a soberania nacionais, na contramão do entreguismo do capitão Jair Bolsonaro, disposto a oferecer o Brasil de porteira fechada.
As lições do passado deveriam servir para não repetirmos os mesmos erros, mas agora é tudo muito pior.
Dá até saudade dos tempos alucinados de Jânio Quadros e dos seus bilhetinhos. Era tudo muito mais engraçado.
Esse pessoal boçalnariano não tem graça nenhuma. Além de medíocres, são todos figurinhas tristes.
Quem será capaz de parar este trem fantasma desgovernado?
Vida que segue.

terça-feira, 14 de maio de 2019

O que se sabe sobre o ataque de hackers ao WhatsApp e o que fazer para se proteger

Segundo WhatsApp, ataque teve 'número seleto de usuários' e usou recurso de chamada de voz do app


  • Pessoas usam o aplicativo WhatsApp nos celulares - Dado Ruvic/Reuters
     
    Dave Lee
    BBC News Brasil 
     
    O WhatsApp informou que hackers conseguiram instalar um software com sistema de vigilância remoto em telefones celulares e outros dispositivos usando uma vulnerabilidade no programa de mensagens instantâneas.
    O ataque, descoberto neste mês, tinha como alvo "um número seleto" de usuários e foi orquestrado por um "ator cibernético avançado", de acordo com a companhia.
    Segundo WhatsApp, ataque teve 'número seleto de usuários' e usou recurso de chamada de voz do app; jornal britânico diz que empresa israelense de segurança que oferece sistemas de espionagem esteve por trás de ataque.
    Na sexta-feira passada, a empresa, que pertence ao Facebook, lançou um patch para corrigir a falha de segurança.
    O jornal britânico Financial Times informou que o software usado no ataque foi desenvolvido pela empresa de segurança israelense Grupo NSO. A companhia negou, no entanto, estar por trás do programa.
    Na segunda-feira, o WhatsApp pediu a seus 1,5 bilhão de usuários para atualizar o aplicativo como precaução adicional.

    Como eles usaram a falha de segurança?

    Os hackers usaram o recurso de chamada de voz do WhatsApp para ligar para o dispositivo dos alvos do ataque.
    Mesmo que ligação não fosse atendida, o software era instalado e, de acordo com o Financial Times, a chamada desaparecia do histórico do telefone.
    O WhatsApp disse à BBC que sua equipe de segurança foi a primeira a identificar o problema e compartilhou as informações com grupos de direitos humanos, alguns provedores de segurança cibernética e o Departamento de Justiça dos EUA.
    "O ataque tem todas as características de ser de uma empresa privada que supostamente trabalha com governos para criar programas de espionagem que assumem as funções do sistema operacional do telefone", disse o WhatsApp em uma nota à imprensa publicada na segunda-feira.
    A empresa também publicou um alerta para especialistas de segurança, descrevendo a falha como "uma vulnerabilidade devido ao estouro de buffer na função de chamada que permitia a execução de um código por meio do envio de uma série de pacotes SRTCP para o telefone alvo".

    Quem está por trás do programa?

    O Grupo NSO é uma empresa israelense que foi identificada no passado como "traficante de armas cibernéticas".
    Seu principal programa, o Pegasus, pode coletar dados privados de um dispositivo, incluindo o que o microfone e a câmera do dispositivo captam, assim como sua localização.
    Em comunicado, a NSO disse que é "uma empresa de tecnologia registrada e autorizada por agências do governo com o único objetivo de combater o crime e o terrorismo".
    "A empresa não opera os sistemas que fornece e, após um rigoroso processo de seleção, são as agências de inteligência e de polícia que determinam como usam a tecnologia para apoiar suas missões de segurança pública."
    "Investigamos denúncias plausíveis ​​de uso indevido e, se necessário, agimos, incluindo a possibilidade de cancelar o sistema", acrescentou.
    "Sob nenhuma circunstância a NSO estaria envolvida na operação ou identificação de alvos para sua tecnologia, que é operada exclusivamente por agências de inteligência e segurança, a NSO não usaria ou não poderia usar sua tecnologia unilateralmente contra qualquer pessoa ou organização."

    Quem eram os alvos?

    De acordo com o WhatsApp, é muito cedo para saber quantos usuários foram afetados por esta vulnerabilidade, embora tenha sinalizado que se trata de um grupo muito seleto.
    Segundo as estatísticas mais recentes do Facebook, o WhatsApp tem cerca de 1,5 bilhão de usuários.
    A organização de direitos humanos Anistia Internacional, que disse ter sido alvo no passado de programas criados pelo Grupo NSO, temia há muito tempo que um ataque como este seria possível.
    "Eles são capazes de infectar seu telefone sem você fazer nada", afirmou Danna Ingleton, vice-diretora do programa de tecnologia da Anistia Internacional.
    Ingleton acredita que há evidências de que essas tecnologias estão sendo usadas por vários governos para manter ativistas e jornalistas importantes sob vigilância.
    "É necessário exigir uma prestação de contas para isso, não pode continuar sendo um velho oeste", avalia.
    Nesta terça-feira, será realizada uma audiência em Tel Aviv sobre uma petição da Anistia Internacional para que o governo de Israel retire a licença da NSO para exportar seus produtos.

    De super-herói a lacaio

    De super-herói a lacaio

    Moro precisa mais de Bolsonaro do que o contrário, e o presidente sabe disso

    Joel Pinheiro da Fonseca

    A passagem de Sergio Moro pelo Ministério da Justiça em sua caminhada para o Supremo prometia ser a marcha triunfal rumo à coroação.
    Primeiro, institucionalizar o combate à corrupção tal como feito pela Operação Lava Jato. Na sequência, sentar-se na mais alta corte do país para não deixar os corruptos impunes. Agora, graças aos tropeços políticos, o trajeto parece mais um longo corredor polonês de humilhações. E de destino incerto.
     
     Moro se apequena diariamente em sua relação com o governo do qual topou participar. Teve sua indicação de Ilona Szabó para o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária vetada pelo presidente, pela qual teve de pedir desculpas públicas.
    Aceitou o papelão de tirar foto com o ex-ministro Vélez Rodríguez e anunciar a "Lava Jato da Educação". Mantém um silêncio constrangedor sobre as fortes evidências de corrupção que circundam a família Bolsonaro.
    Tem sido sumariamente ignorado quando o assunto é liberar as armas de fogo (o decreto mais recente foi anunciado publicamente antes mesmo do parecer do Ministério da Justiça).
    E agora observou o governo abrir mão da promessa de manter o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) sob sua alçada para facilitar a aprovação da reforma administrativa junto ao Congresso.
    Moro precisa mais de Bolsonaro do que o contrário. Para virar ministro, largou a magistratura. Se sair do governo sem uma cadeira do STF, fica sem nada e com a reputação manchada não só pelo fracasso de sua gestão como pela subserviência e parcialidade demonstradas. Bolsonaro sabe disso. E é por isso que em todas as ocasiões em que apoiar seu superministro lhe custa alguma coisa, opta por desautorizá-lo.
    Dizer em público que indicará Moro para o STF é balançar na frente do ministro a recompensa prometida; lembrá-lo de que todas as humilhações terão valido a pena lá na frente. Mas 2020 está longe. Se Moro em cinco meses foi de superministro e herói nacional a uma figura apagada e diminuída, será que nesse ritmo ele dura mais um ano e meio?
    E, se durar, será aceito pelo Senado? Rejeitar um indicado para o Supremo seria inédito, indicaria o estágio terminal da crise entre Executivo e Legislativo. Nos dias que correm, já não é impensável.
    Assim, Moro vai engolindo todos os sapos que o governo lhe apresenta, e ainda tem que fazer cara de quem gostou. Tem que trilhar um caminho difícil entre a subserviência e a insubordinação. A cada passo em falso, perde estatura.
    A outra possibilidade seria abraçar de vez a política e se lançar candidato. Mas se quiser manter sua força perante a opinião pública terá que demonstrar força e não servilismo.
    Bolsonaro usou a bandeira anticorrupção para crescer politicamente sem jamais fazer nada pela causa. A realidade de seu gabinete (e de seus filhos) parece mostrar um político imerso na pequena corrupção da política brasileira e talvez com vínculos ainda mais sórdidos.
    Moro continuará em silêncio, para não desagradar o chefe que não lhe concede o mesmo respeito e cujas propostas populistas dificultam seu trabalho?
    Ou fará jus à reputação que construiu ao longo de anos de perseguição implacável --e de alto grau técnico-- à corrupção no país? Melhor arriscar tudo e permanecer um herói do que aceitar tudo e se transformar no lacaio abjeto de um projeto de poder inescrupuloso.

    Governo contrata milionários para defender reforma da Previdência

    Governo contrata milionários para defender reforma da Previdência




    Juca Guimarães (Brasil de Fato)A reforma da Previdência proposta pelo governo Jair Bolsonaro (PSL) – em discussão no Congresso por meio da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 06/19 – será defendida em uma campanha publicitária protagonizada por sete apresentadores populares da TV.
    Com renda mensal média estimada em R$ 1,37 milhão – sem considerar o lucro das empresas próprias, outras propagandas e comissões –, os comunicadores milionários que a agência de propaganda Artplan contratou estão numa faixa salarial que é 50 vezes maior que a média da população 1% mais rica do país, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
    Segundo o portal Meio & Mensagem, a campanha será veiculada em todas as grandes emissoras abertas de alcance nacional (SBT, Record, RedeTV e Band), com exceção da Globo. O custo total será de R$ 40 milhões.
    Milton Neves, um dos nomes confirmados para fazer parte da ação de marketing do governo, revelou em sua rede social que o cachê é de R$ 500 mil. Além dele, que tem salário estimado em R$ 1,3 millhão, os outros comunicadores contratados, e suas respectivas rendas mensais estimadas, são: Ratinho (R$ 3 milhões), Rodrigo Faro (R$ 3 milhões), Datena (R$ 1 milhão), Ana Hickmann (R$ 700 mil), Luciana Gimenez (R$ 500 mil) e Renata Alves (R$ 100 mil).
    Um trabalhador brasileiro que recebe R$ 998 por mês teria que trabalhar por 114 anos para acumular um valor igual a média mensal de renda dos sete apresentadores que farão a campanha.
    “Nenhum deles faz jornalismo na prática. Eles são apresentadores de programas de entretenimento. Eles vendem para os telespectadores deles. Eles vendem produtos, vendem ideia, vendem imagem, vendem ilusão, vendem a verdade. Eles não passam de camelôs eletrônicos. São vendedores que aproveitam o seu espaço, o seu programa, para vender todos os tipos e qualquer produto. Pagou, eles vendem. Foi o que o governo fez. O governo pagou e eles vão vender a ideia que a reforma da Previdência é a melhor coisa para o brasileiro”, disse Edney Almeida, pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisas Urbanos (NEPUR) e doutor em sociologia urbana, mídia e sociedade.
    Durante o governo Michel Temer (MDB), a partir de 2016, também foram autorizadas despesas no valor total de R$ 183 milhões para propaganda, pesquisas e sites de apoio à reforma da Previdência. Na época, o governo desistiu da proposta por conta do desgaste político causado pelas acusações e gravações do empresário Joesley Batista, dono da JBS, contra o ex-presidente.
    A secretaria de comunicação do governo Federal e a Artplan foram procuradas pelo Brasil de Fato, porém não comentaram sobre a campanha até o fechamento da matéria.

    Insânia, fanatismo, agiotagem ou tudo junto e misturado


    Insânia, fanatismo, agiotagem ou tudo junto e misturado


    Artur Araújo
    Artur Araújo é consultor político e de gestão pública e privada, administrador hoteleiro e ex-Diretor da EMBRATUR

    Ler que o PIB vai diminuir e que, por conta disso, os austericidas vão cortar ainda mais o gasto público evoca uma coleção cansada de metáforas.
    São os loucos de Einstein, que cometem infinitamente os mesmos erros crendo que "dessa vez o resultado vai ser outro". Estado que "não gasta" é Estado que vai ficar sem arrecadar imposto, porque retira demanda, reduz o PIB e não tem de quem cobrar imposto. Sem arrecadar, corta orçamento e realimenta circularmente o processo, na insana esperança de que mais do mesmo resulte em diferente.
    Ou são os praticantes de um culto fanático, para o qual as evidências empíricas não têm importância ou incidência algumas. Os manuais bíblicos de macroeconomia vodu-de-branco dizem que assim deve ser feito; eles lêem, recitam os encantamentos até à autohipnose e põem em prática a liturgia da destruição de produção, empregos, salários e consumo.
    A terceira imagem é dos shylocks de circo mambembe. Para garantir recursos de cobertura do pagamento dos juros mais escorchantes entre todos os países, passam a faca nos serviços públicos, na conservação e expansão da infraestrutura do país e nos programas de redistribuição de renda e de atendimento social à população.
    O ingrediente usurário é decisivo, porque é concretização do interesse material real da ínfima minoria que vive de agiotagem.
    Ironicamente, o caminho religioso e oligofrênico que os liberais adotam, para atingir esse objetivo antissocial e demagógico, comprovadamente gera efeito exatamente oposto ao pretendido.
    Cortam gasto do Estado, levam a economia à paradeira, colapsam a arrecadação tributária, reduzem a capacidade de pagamento do serviço da dívida pública e têm que começar tudo de novo.
    Pelo caminho por que transita esse Moloch austericida ficam as famílias pauperizadas, as ruínas das empresas falidas, um Estado incapacitado e uma Nação sangrando em vida.
    Chega disso! Chegou a hora de empacotar agiotas, xamãs e doidos em embrulho bem amarradinho e remetê-los via FedEx para Miami, seu habitat natura

    segunda-feira, 13 de maio de 2019

    EUA provam que procuradores da Lava Jato cometeram crime de lesa-pátria



    EUA provam que procuradores da Lava Jato cometeram crime de lesa-pátria



    O Procurador Daniel Kahn, do Departamento de Justiça [DoJ] dos EUA, chefia a área de investigação de corrupção fora dos EUA.
    A existência da "área de investigação de corrupção fora dos EUA" seria algo esdrúxulo não fosse o papel que a potência imperial se autoproclama [ao estilo Juan Guaidó], de xerife internacional; de Nação que concede a si mesma o direito à jurisdição extraterritorial para concretizar seus interesses geopolíticos, militares ou econômicos onde quer que seja.
    O procurador do DoJ mantém operoso relacionamento com os procuradores da Lava Jato. Em entrevista publicada pelo jornal Estado de São Paulo sábado, 11/5/2019 [aqui], Daniel Kahn fez revelações que provam que operadores da Lava Jato cometeram crime de lesa-pátria.
    O procurador dos EUA não poupa elogios à "cooperação" da turma da Lava Jato e expressa sua gratidão por isso: "[...] estamos muito, muito gratos pela oportunidade de trabalhar com os brasileiros". Ele também enaltece a submissão total dos capachos de Curitiba: "Tem sido uma das parcerias mais fortes que poderíamos ter com uma autoridade estrangeira".
    Em tom positivo, Daniel Kahn afirma que "A confiança entre nossos países é algo que se desenvolve trabalhando juntos pelo tempo que temos trabalhando juntos e vendo que ambos estamos trabalhando pelas razões certas". Beatriz Bulla, a Correspondente do Estadão que entrevistou o funcionário estadunidense esqueceu-se de esclarecer qual o significado para a afirmação de que o DoJ e a Lava Jato estão "trabalhando pelas razões certas".
    O procurador dos EUA deixa claro que instruções judiciais e procedimentos legais das investigações são descumpridos e manipulados. O funcionário norte-americano revela inclusive que o DoJ escolhe o procurador brasileiro mais "adequado" para executar os serviços em cada caso. É uma espécie de Guantánamo da Lava Jato:
    "O que é útil no relacionamento, em termos de aspecto positivo, é: como temos um relacionamento bom e forte, podemos chamá-los e dizer se há evidências do que estamos procurando e vice-versa. O que geralmente isso permite é agilizar o processo de obtenção da prova do que se feita de uma maneira mais formal. O bom disso é que, se pudermos ter uma conversa antecipada, podemos começar reunir informalmente a coleta de provas e, em seguida, quando enviamos a solicitação formal, podemos encaminhá-la a um promotor específico no Brasil e eles podem encaminhá-la a um promotor específico aqui. Então, isso funciona muito bem".
    Perguntado sobre os motivos para o DoJ atuar na Lava Jato, o funcionário norte-americano citou os interesses nacionais – dos EUA, naturalmente:
    "Sempre que estamos analisando um caso, temos de determinar quais são os interesses dos EUA. Então, se olharmos para a própria Petrobrás, é uma empresa brasileira de petróleo, com funcionários brasileiros trabalhando para ela, que estava sendo usada para pagar várias autoridades brasileiras, mas a própria Petrobrás também é uma empresa de capital aberto nos EUA. Há vários acionistas americanos comprando ações da Petrobrás sob falsos pretextos e vítimas de fraudes que estavam sendo realizadas".
    Daniel Kahn confia na continuidade da "cooperação" com a turma titular da Lava Jato:
    "O lado positivo é que em nosso país os promotores são promotores de carreira, por isso não mudamos de governo para governo. Minha impressão é de que pelo menos os promotores com os quais estamos lidando permaneceram constantes durante o período. Assim, mesmo onde possa haver mudanças em certas posições de liderança, ainda mantemos o forte relacionamento com os promotores que estamos trabalhando nos casos do dia a dia.
    Ele aposta na continuidade desse relacionamento "profícuo", por assim dizer, e sugere a existência de outras operações em outros países em "parceria" com o Partido da Lava Jato:
    "Posso dizer que ainda temos um relacionamento extraordinário com os promotores brasileiros e estamos trabalhando em vários casos em vários países e regiões. Não acho que seria surpreendente se aparecer outro caso envolvendo o Brasil. Mas além disso eu provavelmente não deveria dizer com qual país estamos trabalhando agora".
    Não é novidade que a Lava Jato foi concebida no eixo Curitiba/Brasília-Washington e é executada em coordenação fina com os Departamentos de Justiça e de Estado dos EUA, que aportam conhecimentos, estratégias e tecnologias aos funcionários públicos brasileiros envolvidos na Operação. A entrevista do procurador do DoJ deixa isso muito claro.
    Segundo as normas brasileiras, entretanto, tal "cooperação" do Partido da Lava Jato com os EUA é ilegal e inconstitucional, pois nunca existiu formalidade do Poder Executivo brasileiro, que tem a competência privativa para firmar convênios e protocolos com outros países.
    Não existe nenhum acordo formal, e tampouco mandato legal, que ampare o intercâmbio dos agentes da Lava Jato com agentes dos EUA para o fornecimento de documentos, informações, dados estratégicos e sigilosos, como processos judiciais cobertos por segredo de justiça.
    O relacionamento da Lava Jato com os EUA, portanto, é uma associação secreta e clandestina que trai os interesses nacionais e causa graves lesões ao país e à sua ordem econômica e social.
    A Lei 1.802/953, que define os crimes contra o Estado e a Ordem Política e Social, tipifica como crime:
    "Art. 26. Fornecer, mesmo sem remuneração, à autoridade estrangeira, civil ou militar, ou a estrangeiros, informações ou documentos de caráter estratégico e militar ou de qualquer modo relacionados com a defesa nacional.
    [...]
    Art. 34. É circunstância agravante, para os efeitos desta lei, quando não fôr elementar do crime:
    a) a condição de funcionário público, civil ou militar, ou de funcionário de entidade autárquica ou paraestatal;
    b) a prática do delito com ajuda, ou subsídio de Estado estrangeiro, ou organização estrangeira ou de caráter internacional.
    Parágrafo único. Constitui agravante, ou atenuante, respectivamente, a maior ou menor importância da cooperação do agente do crime, e seu maior ou menor grau de discernimento ou educação".
    É razoável supor que o agravante previsto no inciso [b] do Artigo 34 fica caracterizado no crime de desvio de R$ 2,5 bilhões das multas da Petrobrás para criar a fundação [batizada por Lula como Fundação Criança Esperança do Deltan Dallagnol] do Estado paralelo do Partido da Lava Jato.
    A Lei 7.170/1983, que define os crimes contra a segurança nacional, a ordem política e social, também explicita os crimes de lesa-pátria perpetrados pelos agentes da Lava Jato:
    "Art. 13 – Comunicar, entregar ou permitir a comunicação ou a entrega, a governo ou grupo estrangeiro, ou a organização ou grupo de existência ilegal, de dados, documentos ou cópias de documentos, planos, códigos, cifras ou assuntos que, no interesse do Estado brasileiro, são classificados como sigilosos.
    Pena: reclusão, de 3 a 15 anos.
    Parágrafo único – Incorre na mesma pena quem:
    I – com o objetivo de realizar os atos previstos neste artigo, mantém serviço de espionagem ou dele participa;
    [...]
    III – oculta ou presta auxílio a espião, sabendo-o tal, para subtraí-lo à ação da autoridade pública;
    IV – obtém ou revela, para fim de espionagem, desenhos, projetos, fotografias, notícias ou informações a respeito de técnicas, de tecnologias, de componentes, de equipamentos, de instalações ou de sistemas de processamento automatizado de dados, em uso ou em desenvolvimento no País, que, reputados essenciais para a sua defesa, segurança ou economia, devem permanecer em segredo".