domingo, 10 de novembro de 2019

Em mau estado

Em mau estado

Não há Estado de Direito onde o poder militar quer definir o destino judicial


Janio de Freitas

  • “Lula livre” se insere em momento muito particular da difícil batalha pela democracia na América Latina.
    O povo chileno explode como uma bomba de retardamento contra a opressão econômica, e inovações justiceiras são inevitáveis. No Equador, o eleitorado traído de Lenín Moreno tomou-lhe as forças e cobra a dívida multissecular.
    Na Argentina renasce uma ideia de solidariedade latino-americana contra a sufocação imposta pelas políticas econômicas elitistas. O México reencontra com López Obrador uma concepção de soberania real e sentido de democracia. Esse tabuleiro parecia ter uma casa reservada para Lula, em lugar estratégico.

    Até onde permanecerá a liberdade de Lula é a primeira incógnita que sua nova condição propõe. Não só pela combinação de pendências judiciais e má disposição de parte do Ministério Público e do Judiciário quanto a esses processos, e outros imagináveis.
    O bolsonarismo, no Congresso e fora dele, teve uma derrota que afinal lhe contrapõe um obstáculo na paisagem política, até aqui verdejante, da sua perspectiva.
    Além disso, duas manifestações (duas até a elaboração deste texto) transmitem a contrariedade do segmento militar com a nova situação que também o derrota. A liberdade de Lula tem inimigos ativos.
    O comentário do vice e general Hamilton Mourão ao restabelecimento do princípio constitucional da presunção de inocência, até que completado o trâmite do processo penal, foi claro na mensagem e no destinatário: “O Estado de Direito é um dos pilares da nossa civilização, assegurando que a lei seja aplicada igualmente a todos, mas hoje, 8 de novembro de 2019, cabe perguntar: onde está o Estado de Direito no Brasil? Ao sabor da política?”.
    A resposta é simples: o Estado de Direito está no texto da Constituição. Só nele, em letras. E não em qualquer outra parte mais. Não há Estado de Direito onde um general (Eduardo Villas Bôas) pressiona e intimida a corte suprema do país, contra decisão com eventual benefício a um político preso —por deduzido e improvado crime comum, não por tentativa ou golpe contra a Constituição, como tantos já fizeram aqui tantas vezes.
    Nem há Estado de Direito onde o mesmo porta-voz, colhido o efeito desejado na primeira investida, volta à mesma pressão intimidatória antes de nova decisão da corte maior.
    Não pode haver Estado de Direito onde o poder militar, poder armado, pretende definir o destino judicial e cívico de um político. Não ao sabor da Constituição. “Ao sabor da política?” Não. Ao sabor da força das armas, fornecidas pelo restante da população para a defesa da nação —esta fusão fascinante de povo, Constituição, leis, território, cultura, costumes, história—, e não só do capital privado.
    No Estado de Direito em vão procurado pela pergunta acabamos de saber que ao começar o ano já eram 13,5 milhões os miseráveis, 50% a mais sobre os 9 milhões de quatro anos antes.
    Diz o levantamento que são pessoas vivendo com menos de R$ 145 por mês. Menos de. Dispõem em média, portanto, no máximo R$ 4,83 por dia. Como comem, essas pessoas? Como se aguentam por todo um dia, por todos os dias, com a miséria de comida a que têm acesso? É insuportável pensar nisso. É insuportável pensar no tratamento dado aos pedintes, no descaso com esses farrapos de vida. Não vivem em Estado de Direito, estão condenados ao estado de miséria.
    ​Bolsonaro proíbe a queima do maquinário de mineradores clandestinos na Amazônia. Já está claro: há um pedido dele para formulação de medida que legalize essa atividade. No Estado de Direito não se legalizaria o crime. Tanto mais por haver indícios fortes de que o controle dessa mineração está em milícias, com policiais e ex-policiais, não sediadas só na Amazônia. É o novo poder em expansão. Contra o direito do Estado e o Estado de Direito.
    Na sessão do Supremo que reconheceu a Constituição e contrariou os defensores, na dura acusação do decano Celso de Mello, prática “própria de regime autoritário e autocrata”, Dias Toffoli puxou uma rodada de informações e considerações, muito impressionantes, sobre a criminalidade, a impunidade e a situação prisional no Brasil.
    Mas não precisariam ser todos tão caudalosos. Bastaria lembrar que nem o clamor público, interno e internacional, foi capaz de vencer a barragem entre o assassinato de Marielle e Anderson e o que seria a investigação honesta do crime, seus antecedentes e envolvimentos pessoais: corrupção, milícias, vários crimes, poder, todos vasculhados e revelados.
    Sem o Estado de Direito, o que viceja é o Estado de direita.
    Janio de Freitas

    Não se trata de esquerda ou direita, mas do que é certo e do que é errado


    Não se trata de esquerda ou direita, mas do que é certo e do que é errado

    O ex-ministro Eugênio Aragão escreve sobre o Lula pós-Curitiba. Enquanto as elites "querem um Lula, quieto, que 'tenha aprendido' com o opróbio que sofreu", ele colocará diante do país o "confronto ético entre o que é certo e o que é errado"
    (Foto: Reuters)
    O tom do Ex-Presidente Lula, ao sair do cárcere a que foi condenado, muito longe da imparcialidade, pelo atual ministro da Justiça Sérgio Moro, deixou claro que lutará por sua inocência. Só soltá-lo não basta. Quer de volta sua honra interesseiramente vilipendiada por aqueles que, como admite Bolsonaro, só chegaram ao poder porque tiraram o líder popular de cena – com a mãozinha imprescindível de Moro.
    Forças do centro e da centro-direita do espectro político, por outro lado, têm recorrentemente demonstrado incômodo com os discursos de Lula. Dizem que a “radicalização” e o “esquerdismo” só servirão para fortalecer Bolsonaro, agregando em sua volta as turbas antipetistas. Querem um Lula, quieto, que “tenha aprendido” com o opróbio que sofreu. Pretendem-no um eunuco no espaço politico, um placebo, um bibelô para ser admirado por uns, mas largado na vitrina das preciosidades do canto da sala.
    O discurso de que “radicalizar” seria um tiro no próprio pé do PT vem acompanhado de cínicas comparações entre Lula e Bolsonaro, como se fossem dois lados de uma mesma moeda, que teria que ser lançada ao lago, para a razão, o centro, prevalecer.
    Não. Lula e Bolsonaro nada têm em comum. Bolsonaro é precisamente um fruto da perda de rumo do tal centro, que, radicalizando, ele sim, o processo político, foi a força motriz do golpe parlamentar contra Dilma Rousseff, apoiado nas midiáticas devassas travestidas de investigações da Operação Lava-Jato. Foi Aécio Neves que, não aceitando o resultado das eleições, fez coro com o protofascismo tupiniquim. Se as forças que o apoiavam, no establishment, nas instituições e na política, pensavam que poderiam tungar a soberania popular e se eternizar na cadeira que não lhes pertencia, erraram redondamente: quando os atores da política institucionalizada se digladiam, ganham os da anti-política, as vozes do esgoto, da falta de ética, que esbravejam sem nada terem a perder. “Wenn sich zwei streiten, freut sich der Dritte“ - diz o provérbio alemão (quando dois brigam, regozija-se o terceiro).

    Durmam com isso: Bolsonaro é o Doutor Jekyll do simpático Mr. Hyde da moderação centrista. Tem muito mais em comum com os apascentadores hipócritas que querem Lula de boca fechada, do que com o PT que tacham de “radical”. Foram esses fariseus que romperam com a ordem constitucional de 1988, um frágil pacto político engendrado com a maestria de gente do tope de Ulysses Guimarães, Severo Gomes e Jarbas Passarinho, entre tantos. Não têm moral para reclamar de “radicalização” depois que incendiaram seu playground.
    As forças incomodadas pelo apelo de Lula por justiça, pela legítima indignação com a maquinação que o tirou das eleições presidenciais, se dão muito bem com seu alter-ego fascista. Quando promoveu a maior desapropriação de direitos da classe trabalhadora, elas estavam lá, aplaudindo e apostando no mercado futuro, especulando com a riqueza nacional para fazer ganhos de um capital que é social. Como Lula pode ser igual a Bolsonaro? O que o Dr. Jekyll tirou, Lula quer repor!
    O incêndio social em vários países latino-americanos, cada um com suas particularidades e dinâmica próprias, deveriam servir de lição aos que querem calar Lula: a receita de cortar na carne das políticas públicas de distribuição de riqueza não serve para repor a gordura perdida pelos agentes financeiros com a crise global. A saída está em ousar mais democracia, como dizia Willy Brand ao colocar a mão à palmatória pelas atrocidades alemãs da Segunda Guerra.
    Mais democracia é mais inclusão. Somente assim, o mercado se recuperará. Mais inclusão é mais demanda. Mais inclusão é melhor infraestrutura. Mais inclusão é redução de custo de produção. Mais inclusão é investimento e não déficit fiscal! A receita viável para a recuperação do Brasil tem gosto de fel apenas para os míopes que insistem na riqueza rápida às custas de sua sustentabilidade ou para os que estão com os miolos fritos pelo lança-chamas de parvoíces disseminadas por um caçador de ursos da Virgínia que, nas horas vagas, gosta de filosofar sobre a coprologia.
    O simpático Mr. Hyde dado a conselhos a Lula tem que colocar na sua cabeça que a luta do Ex-Presidente por direitos nada tem de subversivo. É uma luta por valores universais, compartilhados por um mundo que se transformou à custa de muito sangue inocente derramado. O devido processo legal e o julgamento justo são conquistas culturais que protegem a todos nós de um estado que não se contém. E se ele não se contém com Lula, não se contém com ninguém. Michel Temer que o diga.
    Não se trata, aqui, na nova etapa de lutas que se inicia com o discurso do maior líder popular na história republicana, de conflito entre esquerda e direita, mas, muito mais profundo do que isso, do confronto ético entre o que é certo e o que é errado. E nesse, como no jogo de xadrez, só há peças brancas e pretas. Não existem cinzas: seus cinquenta tons podem servir para atiçar a libido, mas não para construir uma Nação.

    terça-feira, 5 de novembro de 2019

    Entenda a estratégia da mídia de acuar, mas não derrubar Bolsonaro,

    Entenda a estratégia da mídia de acuar, mas não derrubar Bolsonaro, por Luis Nassif

    Seria bom que os jornais se cercassem de analistas mais sofisticados para entender os desdobramentos da tática utilizada, para eles próprios
    No domingo, já havia alertado para a estratégia da mídia no post “A conspiração para acuar Bolsonaro e entronizar Guedes”. A estratégia consiste em acuar Bolsonaro, “acelerar o carro e, depois, recuar, com ele à beira do abismo”, mantendo “Bolsonaro acuado, enfraquecido, mas no poder. E fortalecer a ideia de Paulo Guedes e de suas reformas como âncora do governo”, dizia.
    Em artigos anteriores, notei a mudança de cobertura da mídia em relação à economia, passando a destacar pequenos pontos positivos visando criar um sentimento de otimismo nos seus leitores.
    Era só conferir a primeira página do Valor, do Estadão, de O Globo e, especialmente, da Folha, cuja estratégia editorial consiste em se candidatar a ser o braço do novo-velho mercado, de legitimá-lo com pautas morais modernas, defesa da retórica do politicamente correto, enquanto tenta legitimar, na outra ponta, o desmonte final das políticas sociais.
    As últimas de Paulo Guedes são:
    1. Desvinculação dos gastos sociais tanto na União quanto em estados e municípios.
    2. Antes disso, inclusão de inativos nos gastos obrigatórios de saúde e educação.
    Nos dois casos, significará reduzir sensivelmente o orçamento da saúde e educação que, antes das medidas, já se mostram insuficientes para o atendimento básico da população.
    O editorial de hoje da Folha, de apoio a Guedes, rasga a fantasia.
    Por trás dessas estratégias, há um personagem pouquíssimo analisado, ou analisado apenas de maneira genérica, mas que se constitui, hoje em dia, na maior força de influência da mídia: os banqueiros de investimento.
    Os novos tempos, de Internet, novas tecnologias, competição com redes sociais e outros veículos de mídia, passaram a exigir injeções maciças de capital nos grupos de mídia.
    O modelo seguido pelos grupos brasileiro foi do australiano Rupert Murdoch que saiu de seu país, captou dinheiro no mercado, e passou a comprar toda sorte de veículos em várias partes do mundo, montando redes sociais, adquirindo de tabloides ingleses até o vetusto The Wall Street Journal.
    É nesse ambiente que sobressaem as figuras de dois banqueiros polêmicos, Daniel Dantas, do Opportunity, e André Esteves, do Pactual. Foi só ganhar expressão econômica, para o XP caminhar na mesma direção.
    Nas disputas das telefônicas, Dantas acenou com parcerias com a Abril e o Estadão, chegou a integrar o conselho consultivo de ambos, mas não abriu as burras.
    Esteves foi mais eficiente. Com o BTG-Pactual, antes dele o Pactual, se tornando líder do mercado de lançamento de ações, foi banqueiro essencial para a capitalização da UOL, em uma das manobras mais ousadas do período. Com a operação, conseguiu poder de vida e de morte sobre jornalistas críticos, obtendo a demissão de alguns deles. Hoje em dia, também mantém influência total sobre a Veja.
    É a história mais significativa para se entender o paradigma do poder financeiro no país, e que será contada em algum momento.
    A UOL se transformou na operação mais bem sucedida dentre todos os jornais, especialmente depois que lançou o sistema de pagamentos, montou uma mega capitalização na Bolsa de Nova York e, agora, ambiciona se transformar em banco online. Para se tornar banco, precisa da aprovação do Banco Central de Paulo Guedes.
    O mesmo acontece com as Organizações Globo, em seu trabalho infrutífero de lançar plataformas de streaming para concorrer com Netflix, Apple e Google.
    Por aí se entende o morde-assopra da mídia com Bolsonaro e a apologia de um sem-noção como Guedes.
    A ombudsman da Folha matou a charada, no importante alerta que fez no domingo passado. O preço pago pelo liberalismo poderá ser o de consolidar uma ditadura no país. Valeria a pena? Outros articulistas têm alertado, tanto nas páginas da Folha como de O Globo, sobre esse risco. Bolsonaro evidentemente procura o golpe. Uma melhoria do ambiente econômico – ainda que artificial – o fortaleceria de forma irreversível.
    Seria bom que os jornais se cercassem de analistas mais sofisticados para entender os desdobramentos dessa tática, não para o país que, aparentemente não está no seu foco de interesses, mas para eles próprios. O principal adversário de qualquer ditador é a imprensa.
    Mas pode ser que, para esses grupos, o jornal já tenha cumprido sua missão, de catapultá-los para projetos bem mais ambiciosos.

    domingo, 3 de novembro de 2019

    Deem uma chance ao presidente, investiguem-no!

    Deem uma chance ao presidente, investiguem-no!


     Marcelo Uchoa,

    O colunista e membro do Juristas pela Democracia, Marcelo Uchoa, relatou as inúmeras suspeitas que pesam sobre Jair Bolsonaro acerca do caso Marielle Franco e questionou: "O que mais o presidente do Brasil precisa fazer para conseguir ser investigado no caso das execuções da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes?"
     
    O que mais o presidente do Brasil precisa fazer para conseguir ser investigado no caso das execuções da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes? Por que motivo as autoridades competentes insistem em não honrá-lo com a investigação?
    O presidente sempre foi opositor radical das ações políticas da vereadora, reiteradamente destilando ódio aberto contra suas bandeiras. Nem ele nem os filhos políticos jamais negaram aversão pela líder negra, feminista, LGBTQI, defensora dos direitos humanos, postura diametralmente inversa à afinidade que construíram com figuras acusadas de participação em milícias do Rio de Janeiro, para as quais sempre direcionaram comendas, ovações públicas, lotações em gabinetes funcionais, dentre reiteradas provas de amizade.
    O presidente vive no mesmo condomínio de um dos principais suspeitos de assassinar a vereadora, havendo um de seus filhos supostamente namorado com a filha deste possível assassino.
    Segundo divulgado em matérias que exploraram as circunstâncias do inquérito policial sobre o assassinato, o porteiro do condomínio em serviço no dia do crime afirmou, por duas vezes, que pouco antes da execução um dos suspeitos esteve no residencial solicitando entrada com destinação à casa do presidente. Disse, ainda, que a entrada às dependências foi autorizada pessoalmente pelo “Seu Jair”. Ali, o primeiro suspeito teria se encontrado com o segundo suspeito, vizinho do presidente.
    Na noite da repercussão do escândalo, um presidente visivelmente descompensado anunciou em vídeo que não iria renovar a concessão da principal emissora de televisão veiculadora da notícia. No meio-tempo, informou que destacaria o Ministro da Justiça para acionar a Polícia Federal, a fim de que intervisse na investigação.
    Horas depois, outro filho do presidente, que é frequentemente apontado como porta-voz para assuntos controversos de redes sociais, apareceu com arquivo de registros de áudios do interfone da portaria na data da execução, demonstrando não haver registro de entrada do visitante suspeito de assassinato na casa do presidente. O sol nem se punha quando o Ministério Público do Rio de Janeiro, em celeridade ímpar, antecipou-se aos fatos e concedeu coletiva de imprensa pontuando, com base em perícia, que o porteiro havia mentido em seus depoimentos. O Ministro da Justiça, por sua vez, em conduta de questionáveis legalidade e moralidade, já peticionara ao Ministério Público Federal para que intervira na operação investigativa, com o escopo de aferir se houve ilícito no depoimento do porteiro, naturalmente coagindo-lhe.
    No dia posterior, notícias deram conta de que a perícia que embasou a coletiva de imprensa do Ministério Público estadual nos áudios do interfone, que contraditava os depoimentos do porteiro, foi realizada supersonicamente após a veiculação das denúncias jornalísticas. Àquela altura, já tinham vindo à tona relatos de que a promotora coordenadora do grupo ministerial teria sido fiel apoiadora da candidatura do presidente nas últimas eleições, crítica voraz de postulações de oposição. Era tal o envolvimento emocional da acusadora que ela seria compelida a acatar sugestão de afastamento do caso.
    Por fim, questionado diretamente sobre as divergências das informações de entrada em seu condomínio no dia da execução, o presidente assumiu publicamente que recolheu os arquivos de áudio do interfone condominial antes de periciados pelas autoridades competentes para evitar que fossem adulterados. Ou seja, subtraiu do crivo da investigação prova cabal para aferição das circunstâncias do crime que, consequentemente, lhe comprometia. Se todo este roteiro de elementos não servir para que o presidente seja submetido à investigação no âmbito das apurações dos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes que fique claro que será uma grande injustiça com ele, que tanto tem realizado para integrar o rol de investigados.

    quarta-feira, 30 de outubro de 2019

    Tá difícil ser presidente no Brasil

    Tá difícil ser presidente no Brasil

    O pobre leão está sozinho contra um exército de carniceiros
    A vida não está fácil pra Bolsonaro, esse leão cercado por hienas de todo lado. O pobre felino está sozinho contra um exército de carniceiros, dentre os quais a ONU, o STF e a Jovem Pan. Seu único amigo, um leão de nome Conservador Patriota (que nome pra um leão), parece ter se esquecido dele. É assim que o presidente está se sentindo —ou pelo menos é assim que ele diz no Twitter que está se sentindo, o que dá mais ou menos no mesmo. Ou não. Talvez seja assim que o seu filho acha que ele tá se sentindo, o que dá mais ou menos no mesmo, porque deve ter sido ele que disse pro  filho que se sentia assim. 
    Desde que Bolsonaro postou esse vídeo, todo cidadão brasileiro se perguntou a mesma coisa: o que foi que eu fiz de errado pra não estar entre as hienas? Gosto de tudo no vídeo. Gostei de descobrir que ele acha que está sendo perseguido pela Jovem Pan, de que ele acha que a ONU quer comer sua carniça, de que ele vê o eleitor patriota e conservador como um leão macho e imponente que há de surgir no horizonte.
    O sujeito está no cargo mais alto do país, goza de cartão corporativo infinito e foro privilegiado, e ainda assim vê a si mesmo como um pobre felino em extinção, abandonado por todos. Peço que faça um esforço pra imaginar como se sente Natália, do Piauí, medalhista da Olimpíada de Matemática, que ganha R$ 100 por mês do MEC e deve ter sua bolsa cortada.
    A única palavra que me vem à cabeça é um conceito caro ao presidente: vitimismo. Nada mais adequado pra classificar sua estratégia do que essa palavra que o próprio costuma usar contra o movimento negro, feminista ou LGBT. Afinal a mulher que denuncia o marido está sendo vitimista. O negro que quer reparação histórica pela escravidão tá fazendo mimimi. Quem reclama de homofobia num dos países que mais mata homossexuais tá sendo coitadista.
    Só quem sofre mesmo, ao que parece, é o homem branco, hétero, rico, idoso e amigo de miliciano. Ninguém conhece a dor de não poder indicar o filho para uma embaixada, ninguém entende o sofrimento da sua esposa que não pode nem receber R$ 40 mil do motorista sem levantar suspeita, ninguém imagina o sofrimento de ter o vizinho de condomínio preso sob acusação de assassinato de uma vereadora, que por acaso era sua inimiga política. 
    Se tá difícil ser cidadão no Brasil, imagina ser presidente. Não dá tempo de postar foto de biquíni.
     
    Publicado em Gregório Duvivier|Folha de São Paulo

    segunda-feira, 21 de outubro de 2019

    Roma

    Roma

    É o prenúncio da segunda idade das trevas
    Para você que, como eu, teme o fim do Estado laico e o avanço do fundamentalismo cristão; para você que se sente como uma patrícia da Roma Antiga, devota de Epicuro, que escuta o estrondo do Vesúvio do jardim de Herculano, aconselho assistir ao documentário “The Family” (Netflix), sobre uma organização conhecida como The Christian Mafia.
    De Bill Clinton aos Bush pai e filho, de Reagan a Nixon, de Carter a Obama, passando por Trump, nenhum dos presidentes americanos deixou de marcar presença no National Prayer Breakfast, evento anual dessa congregação sem nome, com enorme influência política nos Estados Unidos e no mundo.
    Idealizada durante a depressão americana da década de 1930 por Abraham Vereide, um imigrante norueguês bem relacionado, a irmandade nasceu da reunião de 19 empresários de Seattle, preocupados com o levante sindical que paralisou a cidade, exigindo melhores condições de trabalho.
    Vereide acreditava que o clima de guerrilha instaurado nas ruas era fruto de um plano satânico executado pelos sindicalistas. Para salvar a sociedade do demônio encarnado nos operários era necessário não só o uso da força, como o uso da força em nome de Deus.
    O prefeito e o governador eleitos na crise sairiam desse grupo cristão de homens de bem, massacrariam o movimento sindical, erradicando a esquerda do estado de Washington.
    Durante a Guerra Fria, Vereide convenceu o presidente Eisenhower a encarar a luta contra o império comunista ateu como uma guerra santa, investindo na criação de um exército de líderes cristãos, formado para ocupar postos de comando estratégico no governo.
    Oitenta anos depois, a ideia se transformaria numa irmandade empenhada em difundir um cristianismo forte, sem igreja, capaz de congregar republicanos e democratas para orarem em nome de interesses comuns.
    O problema do cristianismo, afirmava Vereide, foi ter se dedicado à plebe, esquecendo-se dos homens de pulso firme, capazes de restaurar a lei e a ordem.
    Se todos amarem o cordeiro, quem amará o lobo? E com um lobo ao seu lado, os cordeiros obedecerão. Concentre-se no lobo, diz a mensagem, e mostre a ele o grandioso poder da fé.
    Quando Vereide morreu, Doug Coe assumiu a liderança da confraria, empenhando-se em torná-la invisível. “Quanto mais invisível for a organização, mais poder ela terá”, dizia o homem mais prestigioso de Washington, de quem nunca se ouvia falar.
    Desde então, a Family tem praticado uma “diplomacia discreta”, como define Bush pai em discurso no National Prayer Breakfast, “para não dizer secreta”.
    Admirador da paixão cega despertada por Hitler, Mao e Mussolini, e da fidelidade alcançada pela Camorra, Coe inicia uma ofensiva espiritual para além da fronteira, enviando congressista para a Europa, a ex-União Soviética, a África e a América Latina.
    “Esqueça tudo o que você sabe sobre o cristianismo”, aconselha um dos membros, “Cristo não veio à Terra pelos puros, mas sim pelos doentes, pelos condenados pela justiça e pelos investigados por seus crimes. Não que a irmandade apoie essas ações, mas, por amor,  é nosso dever aproximar os homens maus de Jesus.”
    E enquanto evangeliza e perdoa os lobos pecadores, com apoio financeiro da NRA, a confraria defende a moral e os bons costumes para a massa de cordeiros fracos.
    Na Romênia, a Family influenciou o referendo para mudar a constituição que reconhece o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Na genocida Uganda, o missionário enviado não só fez o general ditador assassino e homofóbico Yoweri Museveni chorar, ao dizer que Jesus o amava, como semeou o preconceito que fez florescer políticos como David Bahati, autor do projeto de lei que defende a pena de morte para homossexuais. “Eu não quero matá-los”, declara o parlamentar, “quero apenas curá-los”.
    E em nome de Jesus e dos escolhidos, das crianças, da família e da moralidade, abrem-se, debaixo dos panos, as portas da luxúria econômica do livre mercado de petróleo, minério, armas e afins.
    Morte ao secularismo. Que se cumpra a missão de Paulo nas escrituras, a de levar a palavra de Cristo aos reis, em prol dos interesses do Estado.
    Cheira a teoria conspiratória, mas que a série explica, em parte, a ascensão do poderio evangélico no Brasil e a devoção do lobo Messias, isso ela explica.
    Trump, Putin, Gaddafi, Museveni, Jair… enquanto a alcateia de eleitos se locupleta, resta a nós, cordeiros, suportar com resignação as Damares, os Araújos e Weintraubs do Ministério Supremo da Fé.
    É a queda do Império Romano e o prenúncio da segunda idade das trevas.

    quinta-feira, 17 de outubro de 2019

    Como Bolsonaro está arruinando os planos de Steve Bannon

    Como Bolsonaro está arruinando os planos de Steve Bannon

    "Jair Bolsonaro está prevenindo a modificação comportamental dos usuários das redes sociais para o que Bannon trabalha", escreve a advogada Liana Cirne Lins, professora da UFPE. "O retrato de Dorian Gray é tão assustador que as pessoas estão se tornando menos persuadíveis e suscetíveis ao tomarem Bolsonaro como referência de um futuro à espreita"

    Por caminhos tortuosos, Bolsonaro se transformou em garoto propaganda às avessas.
    Sim, Bolsonaro vai salvar o mundo. Mas naturalmente não pelo que ele tem de bom, se é que tem, mas pelo que tem de péssimo, bufão e ignominioso.
    Bolsonaro é a caricatura, exagerada, patética e monstruosa, dos políticos caricatos da extrema-direita do mundo todo.
    Mas antes de tudo, Bolsonaro é um produto de Steve Bannon. Ele não é um fato isolado na geopolítica, mas uma peça num mosaico que vinha sendo cuidadosamente construído, através da metodologia que levou décadas para ser desenvolvida, tendo como laboratório eleições em países pobres, e que culminou com a aprovação do Brexit com a campanha "Leave.EU", a eleição de Trump, a campanha "Do So!" em Trinidad & Tobago e, enfim, a eleição de Bolsonaro.
    Em síntese apertada, a metodologia consiste no armazenamento de dados pessoais sobre nossos perfis psicológicos e pessoais, por meio do Facebook, do Google e de aplicativos correlatos, como nos mostra o excelente documentário 'Privacidade Hackeada'. Esses dados foram vendidos para a Cambridge Analytica, que desenvolveu o algoritmo e a tecnologia que vinha definindo, com muito sucesso, a política e a economia do mundo contemporâneo.
    Estamos falando da indústria mais lucrativa do mundo, já que o ativo mais valioso do mundo não é o petróleo ou produto do gênero. É o banco de dados que fornecemos (in)voluntariamente através das redes sociais, sem fazer a menor ideia do quanto isso nos custa do ponto de vista particular e, menos ainda, do ponto de vista coletivo, político, econômico e social.
    A metodologia é simplesmente impressionante.
    Com nossa geolocalização, a equipe de Steve Bannon consegue fazer um mapa extremamente preciso, dispondo de nossos perfis psicológicos, nossa faixa etária e todas as informações necessárias para alterar nosso comportamento.
    Nas palavras da Cambridge Analytica, o Santo Graal da comunicação é obter a modificação comportamental dos usuários das redes sociais.
    Naturalmente, é mais fácil fazer isso com o grupo de indivíduos classificados como persuadíveis ou suscetíveis, ou seja, pessoas que podem mudar sua inclinação política de modo mais fácil.
    Logo, o grupo alvo da Cambridge Analytica era o grupo considerado apático, ou seja, o grupo de pessoas a princípio indiferentes à política.
    E como funciona a metodologia de uso de nossos dados pessoais? Depois de identificar quem são as pessoas do grupo suscetível a ter seu comportamento modificado por propaganda e mapeado pela geolocalização, eles iniciam propriamente a campanha.
    Trump gastava um milhão de dólares por dia com anúncios de facebook. Mas não eram anúncios da campanha de Trump. Eram sobretudo anúncios da campanha antissistema. Cada pessoa era bombardeada por conteúdos desenvolvidos exclusivamente para ela, voltados a deixá-la mais suscetível a mudar seu comportamento.
    A campanha de Trump associou Hillary Clint ao sistema. Ou seja, a tudo que estava errado. Ao sistema financeiro, ao sistema político velho, ultrapassado e corrupto. E o encerramento da campanha obviamente se dava com a apresentação de Trump como solução salvacionista contra "tudo o que está aí".
    O mesmo enredo foi utilizado com Bolsonaro e com a campanha antipetista. Nós vimos isso acontecer com nossas famílias e amigos. Nós vimos "pessoas normais" acreditarem em mamadeira de piroca, que o Brasil era comunista, que tudo era culpa do PT. O PT foi associado com tanto sucesso ao sistema - o que é um paradoxo, já que foi um governo minimamente trabalhista e inclusivo numa história de séculos de dominação oligarca - que a maioria do povo preferiu votar num candidato assumidamente estúpido, preconceituoso, radical e despreparado, porque ele era “antissistema” (sic).
    Segundo a previsão dos especialistas, a metodologia desenvolvida ainda teria o poder de influenciar eleições e comportamentos pelos próximos dez anos, no mínimo, funcionando para ascensão de programas de extrema direita baseados no ódio, no racismo, na homotransfobia, na misoginia, xenofobia, na erradicação de direitos trabalhistas, privatização de empresas estatais e outras agendas neoliberais e neofascistas.
    Entretanto, depois de consecutivas vitórias de Steve Bannon - em síntese, aprovação do Brexit no referendo popular, eleição de Trump, eleição de Macri, eleição de Bolsonaro - seguia firme para a eleição de Salvini, na Itália e a consolidação do Brexit, pelas mãos do primeiro-ministro conservador, Boris Johnson.
    Entretanto, Bannon não contava com Bolsonaro. Não teve capacidade para imaginar que estava atuando para colocar no poder alguém capaz de deixar de receber um ministro de relações exteriores para cortar o cabelo, chamar a primeira dama de outro país de feia, tecer sua própria versão do “l’Etat c’est moi” com "Eu ganhei, porra! Johnny Bravo ganhou!", negar as queimadas na Amazônia, mandar o povo defecar dia sim, dia não, em ironia à crise ambiental, mandar recados grosseiros para líderes dos países do G7, entre uma lista interminável de falsidades, equívocos e constrangimentos jamais vistos em um chefe de governo, como, inclusive, acentuou Macron em conversa flagrada pela imprensa: não é postura de um presidente.
    Bolsonaro é o retrato de Dorian Gray: ignóbil, perverso, bufão, imbecil e incompetente.
    Eleito pelo voto democrático do povo brasileiro.
    O resultado, trágico, está porém provocando um contraponto inesperado. Bolsonaro está revertendo a série de vitórias de Bannon.
    Bolsonaro está prevenindo a modificação comportamental dos usuários das redes sociais para o que Bannon trabalha.
    O retrato de Dorian Gray é tão assustador que as pessoas estão se tornando menos persuadíveis e suscetíveis ao tomarem Bolsonaro como referência de um futuro à espreita.
    E como disse a amiga Elika Takimoto, enquanto alguns brasileiros se preocupam em não virar a Venezuela, o mundo inteiro está preocupado em não virar o Brasil.
    Essa é a mensagem de Bolsonaro para o mundo. E essa mensagem é rápida. É certeira. É eficaz. Ela é racional, mas sobretudo emocional. As pessoas sofrem de um sentimento inequívoco de vergonha alheia ao verem o resultado do voto antissistema.
    O cenário pós-Bolsonaro trouxe para Bannon derrotas significativas e alguns avanços para a humanidade.
    Salvini derrotado na Itália. Boris Johnson, na Inglaterra, sofrendo consecutivas derrotas, vê o Brexit escapulindo. Macri caminhando para uma derrota estrondosa na Argentina. John Bolton, conselheiro de segurança nacional, nacionalista e belicista, principal interlocutor entre os governos Trump e Bolsonaro, foi demitido do governo Trump na semana passada. E o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, encontra-se em minoria e fracassa em seu intento de continuar governando Israel à frente de uma maioria parlamentar sólida.
    Por caminhos tortuosos, Bolsonaro se transformou em garoto propaganda às avessas.
    Um Midas coprólogo, que tudo o que toca vira - perdoem a vulgaridade da linguagem presidencialesca - merda.
    A extrema direita está murchando como a virilidade do machão na água gelada."

     Liana Cirne Lins, professora da UFPE.

    quarta-feira, 16 de outubro de 2019

    Prisão em segunda instância: como distorcer os números

    Prisão em segunda instância: como distorcer os números


    As expectativas sobre a retomada ou não da vigência do inc. LVII do art. 5º da CF, objeto de deliberação do Plenário do Supremo Tribunal Federal, têm ricocheteado no problema sobre a eficácia do direito fundamental à presunção de não culpabilidade e alcançam também questões de ordem estatística. Afinal, caso o Supremo Tribunal Federal declare novamente como eficaz a presunção de não culpabilidade, proscrevendo novamente a execução provisória da pena a partir do julgamento da causa pelas instâncias ordinárias, quantas pessoas serão soltas?
    O estardalhaço que se formou, portanto, sobre o cenário de “prisões abertas” de forma generalizada não se firma em nenhum dado disponível
    O Estado de Minas fez um levantamento (em abril de 2018), a partir do Painel do Banco Nacional de Monitoramento de Prisões, do Conselho Nacional de Justiça, alegando que esse número seria de 22 mil presos.[1] O site O Antagonista[2], em postagem recente, fala em 169 mil, a partir do mesmo banco de dados do CNJ que teria sido acessado pela publicação mineira. O número postado pelo Antagonista não destoa do retratado pela Veja (os mesmos 169 mil), em reportagem publicada em dezembro de 2018.[3]
    Temos dois levantamentos considerados “precisos” sobre população carcerária: o primeiro é o banco de dados do Infopen, ligado ao Departamento Penitenciário Nacional do Ministério da Justiça, que teve o seu último relatório divulgado em junho de 2017.
    O segundo é decorrente de atividade do Conselho Nacional de Justiça, a partir do Banco Nacional de Monitoramento de Prisões, sistema que é alimentado pelos órgãos do poder judiciário em todo o Brasil como instrumento de organização e gestão dos mandados de prisão expedidos por qualquer razão (prisão preventiva, temporária, execução provisória, execução definitiva etc).
    Cada forma de “contagem” tem seus percalços. Enquanto o Infopen recebe informações diretamente vinculadas ao que é repassado pelas próprias unidades prisionais (que, em tese, estão contando os presos de forma presencial), o BNMP é um sistema que não tem acesso direto ao preso, mas ao mandado de prisão (cumprido ou não cumprido) alusivo a quem ingressa ou sai do sistema.
    O primeiro teria, em tese, a garantia de uma imagem real do cenário; o segundo tem a suposta vantagem da integração informatizada entre documento e estatística.
    O primeiro depende da eficácia da contagem em estabelecimentos precários e muitas vezes arruinados e o segundo depende da eficácia do treinamento dado aos funcionários do Poder Judiciário em todo o país, além de fatores como a exata correspondência entre a existência de um mandado cumprido e um ser humano preso pelas exatas razões descritas no mandado.
    O primeiro sistema tem uma história e a sua idade trouxe experiência e problemas. O segundo ainda é muito recente e sua implantação ainda vai enfrentar desafios previstos e imprevistos.
    Ocorre que, num e noutro, o preso que ingressa no sistema prisional porque foi atingido pela execução provisória causada pelo esgotamento da instância ordinária não é objeto de contagem específica.
    A divisão feita nos relatórios do Ministério da Justiça fala em presos provisórios sem condenação e presos sentenciados, sem indicação se a execução da pena é a definitiva ou provisória.
    No CNJ, a novidade é a indicação de presos em “execução provisória” da pena, que em 6 de agosto de 2018 (data do encerramento do levantamento, que não contava com números do Rio Grande do Sul) seriam 148 mil.
    Ocorre que, mesmo falando em presos condenados em “Execução Provisória”, o universo de pessoas que podem ser atingidas pela eventual alteração do posicionamento do STF precisaria ser definido de forma particularmente precisa. Para que o número correto ou estimado de pessoas sujeitas atingidas com o fim da execução da pena em segunda instância seja definido seria necessário que:
    (a) fossem retratados presos fora das hipóteses de prisão preventiva;
    (b) contabilizados apenas os presos que não estão cumprindo pena que tenha transitado em julgado e
    (c) não consideradas as execuções provisórias de presos que tiveram sua situação convertida para fins de facilitar o acesso aos direitos de progressão, remição etc.
    Enfim: a conta teria que ser feita sobre as prisões exclusivamente executadas porque o acusado estava solto até o recurso de apelação e passou a ficar preso porque, mantida a condenação, recorreu ao STJ e/ou ao STF. Não há nenhum levantamento, entretanto, com esse nível de filtragem.
    Fora isso, a contagem de presos cumprindo pena em “execução provisória” dá margem a erros.
    Muito antes do STF suspender o direito de recorrer em liberdade até o trânsito em julgado dos recursos aos tribunais superiores, milhares de presos optavam por requerer a expedição de guia de execução provisória para que fossem desde logo garantidos os direitos relativos, por exemplo, à remição de pena pelo trabalho (pois é comum o estabelecimento para presos provisórios não ter condições de assegurar atividades laborais) ou à mudança de regime prisional (situação que ocorre comumente em presos provisórios que passam presos preventivamente tanto tempo que, quando são sentenciados, tem direito à mudança de regime).
    Essas peculiaridades compõem um fator de elevada complexidade para a aferição correta do impacto do posicionamento do STF tomado a partir de 2016 e, provavelmente, a fonte do grande alarme produzido sobre o número de presos “que seriam soltos” a partir da eventual mudança de posicionamento do STF se deve ao fato de que as execuções provisórias de pena decorrerem, em sua esmagadora maioria, da conversão, em favor do réu, de prisões preventivas que não eram revogadas quando o processo chegasse na fase de sentença.
    Por fim, caso o número apocalíptico de 169 mil pessoas fosse objeto de soltura em caso de mudança na jurisprudência do Supremo, seria de se imaginar que, só em virtude do cenário decisório de 2016, o mesmo número de presos teria ingressado no sistema prisional brasileiro entre fins de 2016 e fins de 2019, algo como um aumento de 56 mil prisões em três anos.
    Um implemento dessa monta, só nesse tipo de prisão, representaria um fator de colapso do sistema a um ponto ainda mais insuportável do que o atual. Afinal, segundo estatísticas do próprio Infopen, nem mesmo a explosão de 2014 para 2015 (622 mil presos para 698 mil) chegaria aos pés de um incremento de presos levando em conta todo o tipo de prisão, somada a essa em decorrência do esgotamento dos recursos ordinários.
    O estardalhaço que se formou, portanto, sobre o cenário de “prisões abertas” de forma generalizada não se firma em nenhum dado disponível e, assim como outras especulações baseadas no repúdio às liberdades públicas, representa a tentativa de usar a irracionalidade para prestigiar uma política de encarceramento contrária ao projeto democrático plasmado na Constituição de 1988.
    [1] https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2018/04/16/interna_politica,951891/fim-da-prisao-apos-segunda-instancia-pode-tirar-22-mil-da-cadeia.shtml
    [2] https://www.oantagonista.com/brasil/fim-da-prisao-em-segunda-instancia-vai-libertar-ao-menos-169-mil-presos/
    [3] https://veja.abril.com.br/politica/decisao-de-marco-aurelio-atinge-quase-1-4-dos-presos-no-brasil/

     é sócio do Oliveira Campos & Giori Advogados.

    Quem alimenta os jacarés quer ser comido por último

    Quem alimenta os jacarés quer ser comido por último

    Gregorio Duvivier

    'Há quem alimente os crocodilos na esperança de ser comido por último', dizia Churchill sobre aqueles que queriam negociar com o nazismo



  • Na semana passada uma crônica minha publicada aqui nesta Folha foi parar numa prova do tradicional colégio Loyola, de BH. Não foi a primeira vez que professores escolheram uma crônica deste iletrado. Já fui parar no Enem de 2017, na Uerj, em 2015 —e nas escolas construtivistas toda semana. Do meu lado, fico feliz de ver um texto meu figurando numa prova que eu não passaria.
    Alguns pais, ao que parece, reclamaram. Até aí tudo bem: a democracia é uma delícia, diria Ciro. Toda escola que se preze tem pais reclamando na porta. Esquisito mesmo foi o diretor cancelar a prova por causa disso. Pelo que entendi, é um novo conceito de “colégio à la carte”, onde os pais escolhem o que o filho vai ouvir lá dentro.
    “Oi, eu queria que a prova do meu filho viesse sem darwinismo, pode ser?”
    “Claro, senhor. Vou servir um criacionismo bem passado.”
    “Obrigado, é que lá em casa a gente é alérgico à teoria da evolução.”
    A justificativa conseguiu tornar ridículo o que era só bizarro. Segundo o diretor, a crônica falava do governo Bolsonaro e “mostrava apenas um lado”. E continuou: “Teria que ter um texto do outro lado e não tinha”. Talvez esperasse, ao lado da minha crônica, a de um bolsonarista. Pra começar, não vai ser fácil encontrá-lo. Não me ocorre nenhum cronista que defenda este governo.
    E além disso: fiquei curioso pra entender esse método de ensino simétrico. Imagino que, pra cada texto do abolicionista Joaquim Nabuco, a escola contraponha o texto de um escravista —pra que o aluno possa escolher um lado. Pra cada romance do comunista Jorge Amado, a escola há de contrapor um livro do integralista Plinio Salgado. Imagino que a escola estude tanto as canções de protesto do período militar quanto a biografia de Brilhante Ustra —afinal, não se pode ser parcial e tudo na vida tem dois lados.
    A verdade é que não acho que o diretor esteja sendo sincero em sua conciliação com o outro lado. “Há quem alimente os crocodilos na esperança de ser comido por último”, dizia Winston Churchill em 1940, sobre aqueles que queriam negociar com o nazismo. Todos os ambientes, hoje, estão cheios de supostos conciliadores: pessoas que fingem buscar a ponderação, mas só estão com medo de perder a cabeça.
    Esquecem que não se negocia com um jacaré faminto. Quando o outro lado é o fascismo ecocida, quando o outro lado aplaude a tortura e nega a mudança climática, quando o outro lado é abertamente miliciano, genocida e autocrático, a simetria com o outro lado não se chama conciliação. Chama covardia mesmo.
     
    Gregorio Duvivier
    É ator e escritor. Também é um dos criadores do portal de humor Porta dos Fundos.

    terça-feira, 15 de outubro de 2019

    Fala aos moços

    Fala aos moços

    de Darcy Ribeiro

    Sou um homem de causas. Vivi sempre pregando e lutando, como um cruzado, pelas causas que me comovem. Elas são muitas, demais: a salvação dos índios, a escolarização das crianças, a reforma agrária, o socialismo em liberdade, a universidade necessária. Na verdade, somei mais fracassos que vitórias em minhas lutas, mas isto não importa. Horrível seria ter ficado ao lado dos que nos venceram nessas batalhas.
    Tudo que diz respeito ao humano, suas vidas, suas criações, me importam supremamente. Dentro do humano, o povo brasileiro, seu destino é o que mais me mobiliza. Nele, a ínvia indianidade brasileira, que consegue milagrosamente sobreviver. Mas, sobretudo, a massa de gente nossa, ainda em fusão, esforçando-se para florescer numa nova civilização tropical, mestiça e alegre.
    Acho que aprendi isso, ainda muito jovem, com os antigos comunistas.
    Imbatíveis em sua predisposição generosa de se oferecerem à luta, por qualquer causa justa, sem mais querer que o bem geral. Estou certo de que a dignidade, e até o gozo de viver que tenho, me vêm dessa atitude básica de combatente de causas impessoais. Tanto, que me atrevo a recomendar duas coisas aos jovens de hoje.
    Primeiro, que não respeitem seus pais, porque estão recebendo, como herança, um Brasil muito feio e injusto, por culpa deles. Minha também, é claro. Segundo, que não se deixem subornar por pequenas vantagens em carreirinhas burocráticas ou empresariais pelo dinheirinho ou dinheirão que poderiam render.
    Mais vale ser um militante cruzado, acho eu.
    Vejo os jovens de hoje esvaziados de juventude, enquanto flama, combatividade e indignação. Deserdados do sentimento juvenil de solidariedade humana e de patriotismo e de orgulho por nosso povo.
    Incapacitados para assumir as carências dos brasileiros como defeitos próprios e sanáveis de todos nós. Ignorantes de que o atraso, a fome e a pobreza só existem e persistem, entre nós, porque são lucrativos para uma elite infecunda e cobiçosa de patrões medíocres e de políticos corruptos.
    Afortunadamente, podemos nos orgulhar de muitos jovens brasileiros que são o semen de nosso povo sofredor. Sem eles, nossa Pátria estaria perdida. É indispensável, porém, ganhar a totalidade da juventude brasileira para si mesma e para o Brasil. O dano maior que nos fez a ditadura militar, perseguindo, torturando e assassinando aos jovens mais ardentemente combativos da última geração, foi difundir o medo, promover a indiferença e a apatia. Aquilo de que o Brasil mais necessita, hoje, é de uma juventude iracunda, que se encha de indignação contra tanta dor e tanta miséria. Uma juventude que não abdique de sua missão política de cidadãos responsáveis pelo destino do Brasil, porque sua ausência é imediatamente ocupada pela canalha.
    Talvez eu veja tanto desencantamento, onde o que há é apenas o normal das coisas ou o sentimento do mundo que corresponde às novas gerações. Talvez seja assim, mas isso me desgosta muito. Desgosta, principalmente, porque sinto no fundo do peito que é obra da ditadura militar tamanha juventude abúlica, despolitizada e desinteressada de qualquer coisa que não corresponda ao imediatismo de seus interesses pessoais. É por isso que não me canso de praguejar e xingar, exaltado, dizendo e repetindo obviedades.
    Sobretudo, quando falo à gente jovem em pregações sobre valores que considero fundamentais e que não ressoam neles como eu quisera.
    Primeiro de tudo, o sentimento profundo de que esse nosso paísão descomunal e esse povão multitudinário, que temos e somos, não nos caiu ao acaso, nem nos veio de graça. É fruto e produto de séculos de lutas e sacrifícios de incontáveis gerações. O território brasileiro é do tamanho que é graças à obsessão portuguesa de fronteira, impressa neles por um milênio de resistência, para não serem absorvidos pela Espanha, como ocorreu com todos os outros povos ibéricos. Desde os primeiros dias de nosso fazimento estava o lusitano preocupadíssimo em marcar posses, gastando nesse esforço gerações de índios e caboclos que nem podiam compreender que nos faziam.
    Meu apego apaixonado pela unidade nacional começa pela preservação desse território como a base física em que nosso povo viverá seu destino. Encho-me da mais furiosa indignação contra quem quer que manifeste qualquer tendência separatista. Acho até que não poderia nunca ser um ditador, porque mandaria fuzilar quem revelasse tais pendores.
    Outro valor supremo, e até sagrado, que quero comunicar à juventude, é o sentimento de responsabilidade pelo atroz processo de fazimento de nosso povo, que custou a vida e a felicidade de tantos milhões de índios caçados nas matas e de negros trazidos de África, para serem desgastados no moinho brasileiro de gastar gente. Nós viemos dos zés-ninguém gerados pela índia prenhada pelo invasor ou pela negra coberta pelo amo ou pelo feitor. Aqueles caboclos e mulatos, já não sendo índios nem africanos e não sendo também admitidos como europeus, caíram na ninguendade. A partir desta carência de identificação étnica é que plasmaram nossa identidade de brasileiros.
    Fizeram-no um século depois, quando, através dos insurgentes mineiros, tomamos consciência de nós brasileiros como um povo em si, aspirando existir para si.
    Surgimos, portanto, como um produto “inesperado e indesejado do empreendimento colonial que só pretendia ser uma feitoria. A empresa Brasil se destinava era a prover o açúcar de adoçar boca de europeu, o ouro de enricá-los e, depois, minerais e quantidades de gêneros de exportação.
    Éramos, ainda somos, um proletariado externo aqui posto para servir ao mercado mundial. Criá-lo foi a façanha e a glória das classes dominantes brasileiras, cujo empenho maior consistia, e ainda consiste, em nos manter nessa condição.
    Foi sobre esse Povo-Nação, já constituído e levado à independência com milhões de caboclos e mulatos, que se derramou a avalancha européia quando seus trabalhadores se tornaram descartáveis e disponíveis para a exportação como imigrantes. Os melhores deles se identificaram com o povo antigo da terra e até se tornaram indistinguíveis de nós, por sua mentalidade, língua, cultura e identificação nacional. Ajudaram substancialmente a modernizar o país e a fazê-lo progredir, gerando uma prosperidade ampliada, a inda que muito restrita, e que beneficiou principalmente aos recém-vindos.
    É de lamentar, porém, que vez por outra surja, entre eles, uns idiotinhas alegando orgulhos de estrangeiridade. O fazem como se isso fosse um valor, mas principalmente porque estão predispostos seja a quebrar a unidade nacional em razão de eventuais vantagens regionais, seja a retornarem eles mesmos para outras terras, como fizeram seus avós. Afortunadamente, são uns poucos. Com um pito se acomodam e se comportam.
    Compreendem, afinal, que não há nesse mundo glória maior que participar da criação, aqui, da civilização bela e justa que havemos de ser.
    Tal como ocorreu com nossos antepassados, hoje, o Brasil é nossa tarefa, essencialmente de vocês, meus jovens. A história está a exigir de nós que enfrentemos alguns desafios cruciais que, em vão, tentamos superar há décadas. Primeiro que tudo, reformar nossa institucionalidade para criar aqui uma sociedade de economia nacional e socialmente responsável, a fim de alcançarmos uma prosperidade generalizada a todos os brasileiros. O caminho para isso é desmonopolizar a propriedade da terra, tirando-a das mãos de uma minoria estéril de latifundiários que não plantam nem deixam plantar. Eles são responsáveis pelo êxodo rural e o crescimento caótico de nossas cidades e, conseqüentemente, pela Fome do povo brasileiro. Fome absolutamente desnecessária, que só existe e só se amplia porque se mantém uma ordem social e um modelo econômico compostos para enriquecer os ricos, com total desprezo pelos direitos e necessidades do povo.
    Simultaneamente, teremos de derrubar o corpo de interesses que nos quer manter atados, servilmente, ao mercado mundial, exigindo privilégios aos estrangeiros e a privatização das empresas que dão ser e substância à economia nacional, para manter o Brasil como o paraíso dos banqueiros. Não se trata de criar aqui nenhuma economia autárquica, mesmo porque nascemos no mercado mundial e só nele sobreviveremos.
    Trata-se é de deixar de ser um reles proletariado externo para ser um povo que exista para si mesmo, ocupado primacialmente em promover sua própria felicidade.
    Essas lutas só podem ser travadas com chance de vitória desmontando a ordem política e o sistema econômico vigentes. Seu objetivo expresso é preservar o latifúndio improdutivo e aprofundar a dependência externa para manter uma elite rural esfomeadora e enriquecer um empresariado urbano servil a interesses alheios. Todos eles estão contentes com o Brasil tal qual é. Se não anularmos seu poderio, eles farão do Brasil do futuro o país que corresponda aos interesses dos países que nos exploram.
    Nestas singelas proposições se condensa para mim o que é substancial da ideologia política que faz dos brasileiros, brasileiros dignos. Tais são o zelo pela unidade nacional, o orgulho de nossa identidade de povo que se fez a si mesmo pela mestiçagem da carne e do espírito; a implantação de uma sociedade democrática onde imperem o direito e a justiça para todos; a democratização do acesso à terra para quem nela queira morar ou cultivar; a criação de uma economia industrial autônoma como o são todas as nações desenvolvidas.
    Eis o que peço a cada jovem brasileiro: repense estas idéias, reavalie estes sentimentos e assuma, afinal, uma posição clara e agressiva no quadro político brasileiro.
    *Agosto de 1994

    Falta uma oposição real no Brasil, que imponha outra agenda no debate público


    Falta uma oposição real no Brasil, que imponha outra agenda no debate público

    Produzir sua própria oposição, definir as modalidades de sua própria resistência é a forma mesma de um “poder perfeito




    Temer na convenção na qual o PMDB voltou a sigla original MDB.
    Temer na convenção na qual o PMDB voltou a sigla original MDB.Filipe Cardoso (PMDB Nacional)
    Uma das mais astutas peças da engenharia política colocada em operação pela ditadura militar consistiu na produção de sua própria oposição. Dificilmente encontraremos uma ditadura que, logo ao ser implementada, não anulou toda a oposição, mas na verdade criou seu próprio partido de oposição. Ou seja, o MDB é um produto da ditadura, talvez seu produto mais impressionante. O que demonstrava como, desde o início, tratava-se de uma ditadura que não se via como uma operação de intervenção cirúrgica, mas como um movimento de reformulação profunda da vida nacional feito para durar mesmo depois do seu fim.
    Produzir sua própria oposição, definir as modalidades de sua própria resistência é a forma mesma de um “poder perfeito”. Pois o poder se exerce não exatamente quando definimos as normas a serem seguidas. Ele se exerce principalmente quando definimos as margens, quando organizamos as posições e as formas de resistência que os descontentes poderão ocupar. Um poder perfeito é aquele que é, ao mesmo tempo, a norma e a resistência.

    Assim, ao definir as condição de sua própria oposição, ou seja, ao construir o próprio ator que a sucederia depois de seu término, a ditadura brasileira encontrou uma maneira de fazer, da Nova República, apenas a ocasião de seu próprio desdobramento. Como se disse várias vezes antes, o MDB era sobretudo um modelo de paralisia, uma forma de travar as lutas e dinâmicas de conflitos sociais próprios à realidade brasileira. Esta paralisia acabou por levar a Nova República ao colapso e, ironia maior da história, ao restabelecimento de novos representantes do setor mais violento da ditadura militar.
    Um processo similar está em curso atualmente, a saber, as forças em torno do governo, ou que um dia giraram em torno do governo, estão a construir sua própria oposição. Neste sentido, é digno de nota a maneira com que o espaço da oposição é atualmente ocupado, principalmente, por antigos aliados, por apoiadores ocasionais ou ainda por atores de espectros políticos próximos àquele assumido pelo governo. Isto é parte fundamental de uma operação de restrição e gestão do horizonte de debate nacional. Não por acaso, o discurso oposicionista começa a se configurar como um discurso de crítica à política ambiental, às “derrapadas” do governo, a sua “insensibilidade” para com setores historicamente violentados, mas que sempre termina por lembrar: “embora tudo isto ocorra, sua política econômica é boa”. Como se estivéssemos a ver a gestação de novos candidatos a gerentes de uma política econômica aparentemente consensual, a despeito de seus resultados catastróficos. Assim, da mesmo forma como em Aristóteles a atualidade é a situação atual mais a soma de seus possíveis, constrói-se paulatinamente horizonte dos possíveis deste atual governo.

    Como a outra face necessária dessa moeda, vemos desenhar-se no Brasil um tipo de movimento que parece querer repetir o que se passou na Itália nas últimas décadas. Desde o fim da Segunda Guerra, a Itália despontou como um país de esquerda em ebulição. O maior partido comunista da Europa, movimentos autonomistas extremamente dinâmicos e contestadores, movimentos sociais múltiplos. No entanto, não há sequer sombra disto atualmente. Simplesmente não há mais esquerda italiana. O que aconteceu?
    Se quisermos fazer a arqueologia de Bolsonaro chegaremos necessariamente a Silvio Berlusconi, certamente o primeiro da série de líderes populares de extrema-direita que dão o tom da política mundial. Quando Berlusconi emergiu, todo o resto do espectro político foi paulatinamente se configurando em enormes “frentes de resistência”. Ou seja, a política se resumiu a Berlusconi e as resistências a ele. Essas grandes frentes, no entanto, quando conseguiam desalojá-lo não eram capazes de realmente governar. Pois não havia nada que os uniam a não ser a recusa a Berlusconi. Principalmente, tais frentes tendiam a anular as forças de esquerda no interior de dinâmicas gerenciais de poder. Sem espaço para impor suas dinâmicas de ruptura, a esquerda era convocada à responsabilidade de sustentar governos com a paralisia das coalizões heteróclitas. Assim, no interior desta dinâmica de frente ampla, todos se enfraqueceram, pois a única força política real era Berlusconi. A única força política real, que pregava a ruptura, estava fora da frente. Todo o resto era a expressão da ordem, de uma ordem que ninguém queria mais. O resultado final demonstrou-se absolutamente inefetivo. Quando Berlusconi enfim caiu em definitivo, seu lugar foi ocupado não por atores dessa frente ampla, mas por alguém ainda pior que ele, alguém cujas simpatias fascistas eram ainda mais evidentes, a saber, Matteo Salvini. Mesmo fora do governo depois de uma manobra desastrada, Salvini permanece o político mais popular da Itália, prestes a retornar ao poder na próxima eleição.
    Isto apenas demonstra como, em política, resistir é perder. Resistir é apenas confessar que não é você quem controla a agenda política, quem tem a força de produzir a agenda. Você simplesmente responde negativamente a uma agenda decidida por outro. A política de frente ampla, de todos contra Bolsonaro será impotente diante de uma “oposição consentida” que está a ser gestada atualmente e que visa garantir a proliferação de atores dispostos a perpetuar as políticas do atual governo, apenas com diferentes graus de temperatura e pressão.
    Neste ponto fica claro o que falta a uma oposição real no Brasil. Falta-lhe a capacidade de impor no debate público os tópicos de outra agenda. Quando a finada Margareth Thatcher estabeleceu seu braço de ferro contra os mineiros britânicos em greve, ela durante meses repetia o mantra: “Não há alternativa”. O que sempre foi a estratégia clássica do autoritarismo neoliberal, a saber, querer vender a ideia de que o “remédio amargo” é o único remédio (diga-se de passagem, amargo apenas para alguns, pois há sempre os que lucram muito com o amargor de outros). Mas mostrar a existência de alternativas, impor outra agenda, não pode em absoluto significar tentar reeditar o que já foi tentado.
    Por exemplo, em seus últimos trabalhos, o economista Thomas Piketty mostrou aquilo que muitos críticos da política econômica do governos petistas já perceberam: que não houve política de combate à desigualdade realmente eficiente. Seus estudos mostram como a participação, na renda total, dos 1% mais ricos cresceu no período do antigo governo e que o crescimento da renda das classes mais pobres foi, na verdade, feita em detrimento da faixa entre os 50% mais pobres e os 10% mais ricos, ou seja, em detrimento da classe média. Já havíamos percebido a ineficácia da política em questão quando ficou claro que tudo o que ela havia conseguido produzir fora levar o índice Gini (que mede a desigualdade) aos patamares do início dos anos sessenta. Agora, fica claro em números como ela foi também uma política de preservação e crescimento dos ganhos da elite rentista brasileira, devido à ausência de qualquer reforma fiscal que de fato transferisse a conta para os setores mais ricos da sociedade. Tirar as consequências das ilusões de “todos ganhando” que alimentou as políticas anteriores é condição necessária para que possa aparecer uma oposição que faz minimente jus ao seu nome. Há um longo debate a ser feito que, infelizmente, continuamos a nos recusar a fazer enquanto “resistimos”.

    PF vira mamulengo de milícia.


    PF vira mamulengo de milícia. 

    Por Luis Costa Pinto





    Do Facebook do jornalista Luís Costa Pinto, a crua tradução do noticiário da expedição punitiva da PF sobre Luciano Bivar, o agora inservível presidente do PSL.

    O episódio que transcorre esta manhã, busca e apreensão na casa do presidente do PSL Luciano Bivar, representa a ascensão mais súbita e mais grave na escalada fascista, antidemocrática e antiinstitucional por que passa o Brasil.
    Antes de seguir, necessário separar de joio de trigo e nesse enredo não há trigo, só joio.
    Bivar tem extenso prontuário como usufrutuário de situações que tangenciam crimes – eleitorais, de colarinho branco, de chantagem, entre outros passeios pela floresta de capítulos dos códigos civil e criminal. Mas, como sempre teria de ser, o Estado não poderia pôr o aparato policial contra um inimigo de quem o conduz qual manobrista de marionete.
    O Estado Democrático de Direito não pode servir de fantoche para um pretenso autocrata nascente travestido de paladino da moral. E é isso o que Bolsonaro pretende parecer ser.
    Bivar não escapa ileso de um baculejo da Polícia Federal e do Ministério Público seja em sua vida política, na vida privada ou em seus negócios empresariais.
    Contudo, o conveniente e descarado cronograma da PF chefiada pelo ex-juiz e protofascista Sérgio Moro, empreendendo buscas e apreensões contra o ex-aliado e hoje grande desafeto político do presidente que escorrega na ladeira do descrédito público, parece – e é – uma agenda persecutória indigna de uma democracia.
    Bolsonaro precisa provar que desconhecia a operação de hoje já há uma semana, quando advertiu a um dos patetas que foram tirar foto com ele diante do Alvorada a necessidade de conservar distância de Bivar. À luz dos acontecimentos desta manhã, é óbvio que o presidente da República fora informado pelo seu títere da Justiça que a polícia política sob seu comando faria o que fez.
    Chama-se Operação Guinhol, diz a PF, porque seria nome decorrente do Teatro de Bonecos. Na verdade, como se dá no Recife, cidade onde há larga tradição desse tipo de manifestação cultural e artística, o batismo é de fato Operação Mamulengo. E o boneco conduzido ao sabor das vontades de seu mestre (despreparado, inculto, abusivo e escroque, mas “mestre”) é a própria Polícia Federal.
    A PF se converteu numa DINA chilena, numa KGB soviética, numa Gestapo nazista, num FBI de J. Edgar Hoover.

    sábado, 12 de outubro de 2019

    Governo retira R$ 1 trilhão do povo para entregar aos bancos

    Governo retira R$ 1 trilhão do povo para entregar aos bancos

    Por Maria Lucia Fattorelli / Publicado em 26 de agosto de 2019
    Desde a apresentação da PEC 6/2019, da reforma da Previdência, ao Congresso, o ministro Guedes vem repetindo que o objetivo dessa PEC seria combater privilégios e “economizar” R$ 1 trilhão nos gastos com a Seguridade Social. Em momento algum os tais “privilégios” foram devidamente explicados pelo Governo, que em suas exposições considera “ricos” aqueles que se aposentam com cerca de R$ 2.231,00.
    Mais de 80% do referido trilhão que será cortado com a PEC 6/2019 sairá dos mais pobres do Regime Geral de Previdência Social (RGPS), ou seja, de aposentadorias, pensões e benefícios do INSS, cuja imensa maioria está abaixo de dois salários mínimos. A tabela constante da última página da Exposição de Motivos da PEC 6/2019, assinada por Guedes mostra isso.
    E para onde irá esse trilhão que será subtraído principalmente dos mais pobres, mas também de servidores públicos?
    Em evento realizado no Banco Central, o próprio ministro Guedes confessou que o trilhão irá para os bancos: “Precisamos de 1 trilhão para ter potência fiscal suficiente para pagar uma transição em direção ao regime de capitalização. (…) Por isso que a gente precisa de 1 trilhão!”
    A capitalização individual foi retirada do texto da PEC 6/2019, mas diversos representantes do governo e do próprio Congresso Nacional têm afirmado que irão reapresentar o tema em outra emenda, apesar dos enormes riscos que tal modalidade representa para a população e para a economia do país, conforme alertei à Comissão Especial durante a tramitação da PEC 6 na Câmara dos Deputados.
    Ora, se Paulo Guedes realmente precisa de R$ 1 trilhão em 10 anos, por quê não busca esse valor nos realmente privilegiados banqueiros e grandes empresários que detêm isenções e benesses tributárias, remuneração diária de sua sobra e recebem os maiores juros do planeta?
    Por exemplo, em apenas 2 projetos de lei (PLP 9/2019 e PL 1981/2019) que tratam da tributação de grandes fortunas e lucros, o governo poderia arrecadar cerca de R$1,249 trilhão em 10 anos! Assim, o governo não precisaria destruir a Seguridade Social; bastaria tributar fortunas e lucros!
    Orçamento Federal Executado | Brasil Imagem: Auditoria Cidadã
     
    Outro TRILHÃO de reais já foi destinado para bancos (nos últimos 10 anos), de forma ilegal, para remunerar diariamente o dinheiro que sobra em seu caixa! Isso mesmo, o dinheiro que os bancos não conseguem emprestar (porque cobram juros elevados demais) está sendo remunerado diariamente! Em vez de acabar com essa ilegalidade, o governo enviou ao Congresso o PLP 112/2019 que, além de colocar o Banco Central acima de tudo e de todos, pretende “legalizar” a figura do Depósito Voluntário Remunerado pelo Banco Central aos bancos (tal como o PL 9.248/2017), o que na prática significa que toda a sobra de caixa dos bancos poderá ser depositada no Banco Central e este pagará juros diários aos bancos! Temos dinheiro sobrando para isso?. Portanto, o governo não precisaria destruir a Seguridade Social; bastaria para de remunerar a sobra de caixa dos bancos! Muitos outros trilhões poderiam advir como resultado da auditoria da dívida pública, com participação social, tendo em vista que só em 2018 os gastos financeiros com a chamada dívida pública consumiram R$ 1,065 trilhão do orçamento federal, além de afetar os orçamentos dos demais entes federados.
    Não faltam recursos! Temos destinado trilhões para alimentar o Sistema da Dívida (juros, prejuízos do banco central com swap cambial e outros operacionais, remuneração da sobra de caixa dos bancos etc.) e ainda temos mais de R$ 4 TRILHÕES EM CAIXA!
    Em dezembro/2018, possuíamos, por exemplo, R$ 1,27 TRILHÃO no caixa do Tesouro Nacional; R$ 1,13 TRILHÃO no caixa do Banco Central, e US$ 375 bilhões (R$ 1,453 TRILHÃO) em Reservas Internacionais. Além disso, o Brasil é a 9ª maior economia do mundo, possui imensas riquezas e potencialidades, e cerca de R$ 4 TRILHÕES líquidos!
    Nosso problema não é a falta de recursos, mas a opção de retirá-los da população para entregá-los aos bancos.

    * Maria Lúcia Fattorelli é auditora fiscal. Escreve mensalmente para o site do jornal Extra Classe.