quarta-feira, 28 de novembro de 2018

O risco da repetição de um erro de Dilma



O risco da repetição de um erro de Dilma -


PEDRO CAFARDO

Talvez o time de economistas do novo governo, com um pouco mais de humildade, devesse olhar para a história recentíssima do imbróglio brasileiro e para fatos do século XX. Arma-se, com o beneplácito quase geral da intelectualidade, um governo Bolsonaro ultraliberal em matéria de política econômica. Isso significa, em resumo, que haverá rigorosa austeridade, corte implacável de gastos, forte contenção de salários e demissão de servidores públicos, além de provável aumento de impostos e crédito oficial absolutamente contido.
A tônica, pelo menos nos primeiros anos do novo governo, deve ser o ajuste fiscal. Incutiu-se no inconsciente coletivo da sociedade brasileira a ideia de que o mais grave problema nacional do século XXI é o déficit público, que deve ser combatido a qualquer preço. É possível até que o próprio presidente eleito, Jair Bolsonaro, não concorde com parte do que se pretende fazer.
Teriam Paulo Guedes, futuro ministro da Economia, e seus assessores lido os alertas de Paul Krugman, o economista americano ganhador do Prêmio Nobel de 2008? Em artigo publicado pelo "New York Times" e depois em entrevista a Felipe Carneiro, de "Veja", ele discorreu sobre "erros" - cometidos pelo Brasil - que alimentaram a crise que ainda não terminou.
Paul Krugman alertou para erros cometidos pelo Brasil em 2015
Por mais curioso que possa parecer, o time de Guedes está a caminho de repetir equívocos cometidos por Dilma Rousseff (PT) após sua reeleição, em 2014. Durante aquela campanha, na qual superou o adversário Aécio Neves (PSDB) por pequena margem de votos, Dilma garantiu que não haveria arrocho às custas dos mais pobres e que benefícios trabalhistas não seriam reduzidos. "Nem que a vaca tussa" foi a expressão usada por ela para assegurar que não haveria mudanças nas políticas adotadas no primeiro mandato (2011-2014).
Reeleita, Dilma elevou tributo incidente sobre gasolina, operações financeiras e cosméticos. Além disso, fez modificações em normas trabalhistas, entre outras, no seguro-desemprego e vetou a correção da tabela do Imposto de Renda, o que atingiu a classe média. Essas medidas e outras que a oposição chamou de "estelionato eleitoral" - e que teriam sido adotadas por Aécio, caso tivesse vencido a eleição - foram tomadas pelo ministro da Fazenda que ela nomeou, Joaquim Levy, técnico ligado ao mercado financeiro e nem de longe defensor das promessas feitas por Dilma na campanha.
O erro cometido por Dilma no início do segundo mandato, em 2015, é apontado por Paul Krugman: "A resposta do Brasil à recessão foi uma surpresa para mim. Eu não esperava um aperto repentino da política monetária e um movimento brusco em direção à austeridade fiscal".
O economista cita a experiência do Canadá, que enfrentou a mesma crise com a receita clássica: afrouxamento das políticas monetária e fiscal quando a economia se contrai, para evitar perda muito forte do produto, e aperto quando melhora e cresce acima da capacidade, para segurar a inflação. O Brasil, em 2015, andou na contramão - apertou no momento em que a economia se contraía. O discurso que sustentava essa escolha era o seguinte: com a austeridade, a confiança de consumidores e empresários aumentaria, os investimentos voltariam e a atividade e o emprego promoveriam a retomada do crescimento.
Deu errado, como também fracassou política semelhante adotada pela Europa pós-2008. Para enfrentar a crise, a União Europeia impôs aos países-membros rigorosa disciplina fiscal, que agravou a recessão e resultou em "rebeldia" de nações, como a da Itália, fato que pode forjar turbulência numa Europa já desgastada pelo Brexit.
A mesma "fé na confiança" sustenta expectativas da equipe de Bolsonaro - a redução do déficit fiscal por meio de medidas austeras rigorosas deve restaurar a confiança, estimular investimentos e mover a atividade econômica. Esse tipo de confiança, porém, é um sentimento volátil. Esvai-se rapidamente se não for impulsionado com investimento público, financiamento oficial e privado e juros civilizados.
Nada sobre esses impulsos se viu ou ouviu até agora nas propostas e intenções do novo time econômico. Um sinal pouco alentador é a nomeação de Joaquim Levy para a presidência do BNDES, sigla, é bom lembrar, de Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Trata-se, portanto, de uma entidade estatal, fundada há 66 anos e que se caracteriza pela oferta de recursos para promover o crescimento. Economista brilhante, Levy é conhecido como "mão de tesoura", muito habilidoso para cortar despesas e pouco para fazer gastos. Com ele, o BNDES certamente terá atuação discreta e jogará na retranca, como tem feito no governo Michel Temer.
Não se está aqui a dizer que o problema do déficit público não existe. Existe, é grave e precisa ser combatido. O que propõem economistas como Krugman é que o país não tente outra vez liquidá-lo a golpes de machado. É urgentíssimo encontrar uma forma de reduzir o déficit da Previdência Sociale do setor público, mas isso só pode funcionar se for feito de forma gradual.
Pode-se argumentar que a recuperação econômica já está a caminho, com avanço do PIB estimado em 1,4% neste ano e 2,5% em 2019. Contra esse argumento vale mencionar John Kenneth Galbraith, economista americano, nascido no Canadá, que se notabilizou, entre outras coisas, por críticas à "sabedoria convencional" dos economistas ortodoxos nos EUA. Em um trecho de seu monumental "A Era da Incerteza", ele diz como a ortodoxia retardou a recuperação americana da Grande Depressão:
"Em 1937, a recuperação da Grande Depressão vinha morosamente a caminho: a produção e os preços subiam, embora o desemprego ainda fosse apavorante. Os homens de "sensatez" agora já impunham seu valor", escreveu. "Começavam a agir no sentido de reduzir as despesas, aumentar os impostos e equilibrar o orçamento federal. Os poucos keynesianos protestaram; nossas vozes foram abafadas no alarido do aplauso ortodoxo. À medida que o orçamento caminhava para o equilíbrio, a recuperação dava uma parada. Houve então um novo e horrível colapso, uma retração dentro da depressão. Era exatamente como Keynes havia previsto."
Pedro Cafardo é editor-executivo. - Valor

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Kennedy Alencar: a vergonha da Justiça. Ou a falta dela



Kennedy Alencar: a vergonha da Justiça. Ou a falta dela


Demolidor o comentário de Kennedy Alencar, hoje, em seu blog.
Ops, desculpe… Demolidor não é uma boa definição, porque nada cai no Brasil por vergonhoso e imoral.
Senão o Judiciário já teria desmoronado.

Doutores, é vergonha ou crime de responsabilidade?

O ministro Luiz Fux acabou ontem com o auxílio-moradia numa decisão simultânea à sanção do presidente Michel Temer ao aumento dos salários dos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal).
Vergonha é a palavra educada para descrever uma confissão explícita de fisiologia política.
Depois de manter durante por cerca de quatro anos uma liminar que permitia a farra do auxílio-moradia para todos os integrantes da magistratura e do Ministério Pública, Fux entendeu que o benefício não fazia mais sentido após o reajuste de 16,35% que será dado aos ministros do STF e que vai ter efeito cascata sobre as contas públicas.
Mais: o benefício só parará de ser pago quando o contracheque engordar com o aumento arrancado dos cofres públicos.
Fux e o presidente do STF, Dias Toffoli, fizeram acordo com Temer e os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE).
Um integrante do meio jurídico de Brasília avalia que um entendimento desse tipo é crime de responsabilidade.
É algo que vai além da tradicional troca de favores.
É mais do que é dando que se recebe praticado com frequência em Brasília.
No ano que vem, o salário dos ministros do STF subirá de R$ 33,7 mil para R$ 39,2 mil.
Magistrados e integrantes do MP se preparam para obter a mesma vantagem.
Em troca desse mimo num momento de grave crise fiscal, Fux determinou o fim do auxílio-moradia de R$ 4,3 mil.
O Brasil não é mesmo para amadores.
Lobbies corporativos profissionais abocanham fatias do orçamento público sem o menor pudor.
Defendem privilégios num momento econômico em que as contas públicas estão arrebentadas.
Os mais pobres, mais uma vez, pagarão a conta.
Esse exemplo clássico de patrimonialismo que aconteceu ontem em Brasília é uma forma de corrupção, doutores.

sábado, 24 de novembro de 2018

A Batalha da Fumaça



A Batalha da Fumaça, por Wilson Luiz Müller

 
A Batalha da Fumaça
 
por Wilson Luiz Müller
 
Está se desenhando, com essas indicações ideológicas ao Ministério de Bolsonaro, uma estratégia de combate mais abrangente contra a parcela mais organizada e crítica da sociedade civil. A disputa ideológica deve ocupar uma centralidade no regime bolsonariano e servir de cortina de fumaça para encobrir o que realmente interessa do ponto de vista econômico.
 
O apicultor, quando quer melar as colmeias (roubar o mel), usa um fumigador para fazer bastante fumaça antes de começar o serviço. As abelhas interpretam isso como uma ameaça de incêndio ao seu ninho. Para se precaverem contra a fome iminente, decorrente do incêndio, enchem-se de mel antes de ensaiar uma possível fuga. Com o abdômen entumecido, não conseguem mais comprimir os músculos que acionam o ferrão da defesa. E o apicultor pode colher o mel sem ser atacado.
 
Para a plateia (no caso os consumidores de mel), importa muito como esse fato é apresentado. Se o apicultor propagandear que ele utiliza de ardil enganoso para roubar o mel das abelhas, mostrando cruamente seus métodos, talvez muitos consumidores de mel sentissem nojo do apicultor, podendo até deixar de consumir mel. Então esse fato é apresentado como a colheita do mel. Com esse singelo arranjo conceitual, o mel passa a ser um produto do trabalho do apicultor. E a abelha... bem, ela tem ferrão e convém manter uma boa distância dela.
 
O pano de fundo do novo governo é propiciar um novo ciclo de acumulação do grande capital para gerar crescimento econômico concentrado na mão de poucos. A forma mais rápida para atingir esse objetivo é vender a preço de banana nossas riquezas e nossas estatais mais lucrativas estratégicas. Outro ponto é alavancar o bilionário negócio dos fundos de pensão e previdência privada. Ambos aspectos são obsessão e especialidade do Paulo Guedes. Esses dois temas vão oferecer grande resistência da sociedade organizada. Então o ideólogo do novo regime, Olavo de Carvalho, indica esses ministros ideológicos para, junto com o clã Bolsonaro, atuarem como fumigadores para travar a batalha da fumaça contra os terríveis marxistas incrustados na máquina pública, coisa que eles lograram grande êxito até a vitória eleitoral.
 
Enquanto isso, ao fundo, a turma do Paulo Guedes faz o trabalho do apicultor, que é o que interessa de fato e trará os resultados concretos para a turma toda que sustentará o novo governo. 
 
A escolha não é burrice como se apressaram a comentar os analistas da grande mídia. Olavo de Carvalho e os estrategistas mais inteligentes usaram muito bem os temas incompreendidos pela sociedade, atribuindo-lhes uma origem e uma importância fora da sua base real, transformando premissas virtuais em realidades fáticas. É a luta de Dom Quixote contra moinhos de vento - transfigurados em monstros terríveis na imaginação fértil do personagem de Cervantes -  para o palco da disputa ideológica.
 
Assim, a falta de estrutura histórica das nossas escolas e universidades para propiciar um ensino de qualidade, foi transfigurado no problema do aparelhamento pelos esquerdistas, que passou a ser o novo problema real. A premissa nasce como tese na cabeça dos ideólogos da direita e lentamente vai sendo transformada em problema real para afastar a discussão sobre os fatos reais.
 
A turma do Bolsonaro não está preocupada em resolver o problema da qualidade de ensino nas escolas públicas, uma vez que a maioria dos seus eleitores passa longe do ensino público. 
 
Agora no governo, eles sabem que tudo isso não poderá ser resolvido, pois teriam que atacar os problemas reais, e soluções verdadeiras levam tempo para dar resultado. 
 
A turma do Bolsonaro tem dois grandes objetivos com a batalha ideológica na educação: (i) ocupar o centro do debate para desviar atenção dos temas espinhosos para o governo; (ii) manter parte da sua base social atuante na defesa do governo, vez que dificilmente terão ânimo para defender o governo para tirar direitos ou entregar estatais lucrativas.
 
Daí porque haverá sempre algum tema secundário, ou fictício, em que os pitbull do Bolsonaro irão partir para o ataque, fazendo com que sua base social se mobilize para defesa do tema como se fosse um caso de vida ou morte. Constatada a insignificância, inventarão outro tema.
 
Na educação encontra-se o campo mais fértil para a estratégia bolsonariana. Todos acompanham, mas muito poucos tem dados concretos para avaliar o que é real e o que é fictício. Há além disso uma grande insatisfação com a qualidade da educação. 
 
Os ideólogos de Bolsonaro sabem como que a investida enfrentará grande resistência nas instituições de ensino, pois, pela primeira vez, agentes do Governo atuarão claramente para impor uma ideologia nas escolas. Eles desejam e contam com essa resistência. É o que provará o quanto estavam certos na sua cruzada moralista, pois a quantidade de esquerdistas incrustados será muito maior do que seria possível imaginar se a a batalha não tivesse sido levada adiante. A mesma tentará dar coesão na base social de apoio, para que não aconteça, como no romance de Cervantes, do fiel escudeiro Sancho Pança ficar olhando sem entender as razões do nobre cavalheiro atacar com sua lança os moinhos de vento. Com o tempo dirão que o serviço não poderá ser concluído em apenas um mandato, já que o PT está há décadas dominando o setor público.
 
O objetivo da turma do Bolsonaro não é apenas fazer uma disputa ideológica nas escolas e universidades, o que seria legítimo. O que pretendem é impor a sua ideologia e suprimir a dos antagonistas, uma vez que não são ingênuos a ponto de acreditar que é possível um ambiente asséptico e imune a ideologias.
 
Por compreenderem a personalidade contrafóbica de Bolsonaro, os ideólogos de direita se conectaram com a maneira como funciona a mente do presidente eleito.
 
Para o contrafóbico, o medo - e a consequente necessidade de um porto seguro - ocupa o centro de sua visão de mundo. E a forma de enfrentar seu medo é partir para o ataque para não correr o risco de ser atacado. Isso faz com que seu comportamento seja  irracional, uma vez que a maior parte dos riscos vislumbrados é irreal, assumindo realidade por conta de suas fobias mentais. 
 
Bolsonaro não conseguirá governar sem atacar “inimigos”. É nesse ponto que está a importância dos ideólogos anti-esquerda no governo. Eles farão o trabalho que Bolsonaro está acostumado a fazer, mas que não pode continuar fazendo enquanto presidente. E se ninguém fizer esse trabalho, é como se o governo Bolsonaro não tivesse razão de ser, pelo menos não do ponto de vista bolsonariano. 
 
Outro aspecto que demonstra a valorização do medo como centro da estratégia bolsonariana é o entrosamento visceral do novo governo com as correntes religiosas fundamentalistas e arcaicas. Essas terão um papel auxiliar na difusão da nova ideologia reinante, ou seja, ajudarão a irradiar medo e fumaça. E se todas as medidas preventivas falharem, e se a população acordar do transe e se insurgir contra as manobras diversionistas enquanto o país é saqueado, ainda haverá segurança no apoio militar.
 
A ideia do fumigador é jogar muita fumaça nos olhos de Eremildo  e seus amigos para criar um cenário permanente de medo ante o perigo eminente. Com os olhos embaçados de fumaça não terão energia nem inteligência para enxergar a ação predatória ao fundo, focada nos temas realmente de interesse. 
 
Sim, no fundo trata-se de dinheiro, como sempre. Quem pensou que se tratava de patriotismo e de moralidade, pode ir mudando de chip, esse pelo jeito já deu pra bola.
 
Pode alguém argumentar que todo bicho, mais cedo ou mais tarde, tira aprendizados sobre a estratégia do predador e muda seu comportamento. As abelhas infelizmente (nem tanto para os apreciadores de mel) não aprendem nunca. Todas as vezes que o fumigador exala fumaça, elas correm para se empanturrar para minimizar o risco de morrer de fome depois do incêndio.
 
Por mais que a sociedade humana tenha semelhanças com uma colmeia, aprendemos sempre com nossos erros e com os ardis dos inimigos. Resta saber se isso acontecerá dessa vez antes ou depois da colheita final do mel.
 
Wilson Luiz Müller - Servidor Público Federal aposentado


quinta-feira, 22 de novembro de 2018

É possível governar sem ideologia?



É possível governar sem ideologia, como promete Bolsonaro?

"A questão ideológica é tão, ou mais grave, que a corrupção no Brasil. São dois males a ser combatido (sic). O desaparelhamento do Estado, e o fim das indicações políticas, é o remédio que temos para salvar o Brasil", escreveu no Twitter o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) no início de outubro, ainda durante a campanha presidencial.
De lá pra cá, a promessa de governar "sem ideologia" aparece constantemente em falas de Bolsonaro e de seus futuros ministros. Paulo Guedes, que comandará a área econômica, por exemplo, já disse que "não seremos prisioneiros de relações ideológicas". Ele incluiu a frase em uma resposta a uma jornalista argentina sobre o Mercosul (bloco que reúne Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) - e acrescentou que o bloco não será prioridade da próxima administração.
Tereza Cristina, após ser anunciada para a pasta da Agricultura, também defendeu o fim da "indústria da multa" e do "viés ideológico" que vê hoje na ações de fiscalização do Ministério do Meio Ambiente contra fazendeiros.
O futuro chanceler Ernesto Araújo, por sua vez, escreveu em seu blog o texto "Ideologia não, ideias sim", em que critica o que vê como "marxismo escancarado" de governos anteriores e defende que um "saudável pragmatismo deve substituir a ideologia".
Tuíte de BolsonaroDireito de imagemREPRODUÇÃO/TWITTER
Image captionEm tuíte, presidente eleito comparou 'questão ideológica' à corrupção no Brasil
Mas, afinal, é possível governar sem ideologia? Na visão de intelectuais estrangeiros ouvidos pela BBC News Brasil, todo governo possui alguma forma de linha ideológica que pauta escolhas na hora de implementar políticas públicas - e isso não é necessariamente negativo ou positivo.
"Algumas pessoas fantasiam que é possível governar fora ou acima de ideologia, mas isso não é realista. Governar é fazer escolhas sobre resultados políticos (a serem alcançados) e, portanto, deve ser guiado por alguma noção do que é desejável politicamente. Não há nada intrinsecamente errado com um governo guiado por ideologia", afirmou o cientista político Anthony Pereira, diretor do Brazil Institute, da universidade King's College (Reino Unido).
"Bolsonaro tem uma ideologia de direita rígida, socialmente conservadora e economicamente liberal", avalia o professor.

O que é ideologia?

"Não há política não ideológica", afirmou também à reportagem Michael Freeden, professor de ciência política na Universidade de Oxford (Reino Unido) e autor do livro Ideologia, Uma Breve Introdução (sem edição no Brasil).
Ele define ideologia como "modos (padrões) de pensar politicamente que todos temos" e que se agrupam "em famílias de ideias". Segundo o professor, as diferentes ideologias "competem" na política com objetivo de apoiar ou criticar políticas públicas e formas de organização coletiva.
Ficou confuso? Vejamos uma exemplo concreto de Freeden. "Se, digamos, questões sobre a austeridade ou a regulamentação dos bancos estão em evidência, diferentes ideologias tentarão vencer o debate apelando às virtudes da iniciativa privada, ou à necessidade de transparência pública e prestação de contas, ou à maior redistribuição de riqueza", escreveu o professor em um artigo sobre o tema.

A partir desse exemplo, é possível entender como uma indicação "técnica" e "não partidária" - de um economista para comandar o Ministério da Fazenda, por exemplo - continua sendo ideológica, na medida em que representa um determinado ponto de vista sobre como governar.
O filósofo americano Jason Stanley, professor da Universidade de Yale (EUA) e autor do livro Como o Fascismo Funciona (com previsão de lançamento em dezembro no Brasil) - ressalta que há diferentes definições para o conceito de ideologia.
Para alguns teóricos, ele tem um senso negativo. Nessa pespectiva, explica o professor, "uma ideologia é um conjunto de práticas que favorecem o interesse próprio de um partido, fato que é mascarado de maneiras sutis ou não tão sutis".
Essa é a acusação que Bolsonaro com frequência direciona aos governos petistas de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) e Dilma Rousseff (2011-2016). Em um vídeo divulgado em julho, por exemplo, quando repudiou a decisão do desembargador do TRF-4 Rogério Favreto de soltar o ex-presidente, o então candidato do PSL disse que "todas as instituições estão aparelhadas" pelo PT.
Uma outra definição para ideologia, que Stanley prefere e se aproxima da defendida por Michael Freeden, é "descritiva". Ela entende ideologia como "um ponto de vista sobre o que se deve fazer" que "se associa a um conjunto de práticas" para implementar essas percepções.
Segundo o filósofo, é "certamente possível" governar sem ideologia se considerarmos o senso negativo, de instrumentalização do governo para favorecer um partido. No entanto, ele diz, é "impossível" governar sem ter um ponto de vista ideológico sobre como governar.
"Minha preocupação com aqueles que afirmam governar 'não-ideologicamente' é que eles tipicamente se envolvem em ideologia nesse sentido negativo. Eles promovem a pretensão de governar não-ideologicamente como uma maneira de mascarar um governo que favorece seus próprios interesses", afirma Stanley.

Quanto menor o espaço para discordância, mais ideológico é o governo'

Para Barbara Weinstein, professora de história da América Latina e do Caribe na New York University (EUA) e especializada em Brasil, o discurso adotado por Bolsonaro de que governará "acima da ideologia" serve como "uma tentativa extrema de naturalizar suas posições ideológicas".
"E nisso ele é auxiliado por movimentos evangélicos de direita que consideram suas posições como 'dadas por Deus' e, portanto, fora de questão, mesmo que violem a Constituição Brasileira de 1988", acrescenta.
Na sua avaliação, os governos do PT foram claramente ideológicos, mas "mais flexíveis e centristas" do que as diretrizes do partido antes de assumir a Presidência. Nesse sentido, ela considera que a administração de Bolsonaro tende a ser ainda mais ideológica que os governos anteriores, na medida em que parece pouco aberta a posições divergentes.
Durante a campanha, Bolsonaro chegou a dizer que "esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria", recorda a professora. Depois de eleito, ele afirmou que se referia à cúpula do PT e do PSOL e que a mensagem era de que "quem desrespeitar a lei sentirá o peso da mesma contra a sua pessoa". Justificou também a declaração como sendo um "desabafo" de campanha.
"Todo governo é ideológico e isso não é em si algo bom ou ruim. Precisamos perguntar quão rígidas ou extremas são as posições ideológicas do governo e, em uma democracia, até que ponto os cidadãos que não concordam com as posições ideológicas do governo têm o direito de discordar. Quanto menor o espaço para discordância, mais ideológico é o governo", argumenta.
Para Weinstein, o movimento Escola sem Partido, que Bolsonaro apoia contra o que ele considera doutrinação nas escolas, é "extremamente ideológico". Ela ressalta que todo professor parte, em algum grau, de sua própria visão de mundo, quando decide o que vai ensinar e como.
"É o Escola sem Partido e seu esforço para policiar as salas de aula que representam uma ameaça à liberdade acadêmica e à credibilidade das instituições educacionais brasileiras no país e no exterior", critica.
"Há um número inestimável de fatos históricos. A própria seleção de quais fatos apresentar (em sala de aula) é um ato de interpretação", ressalta a historiadora.

Virada na política externa

Na área de relações internacionais, Bolsonaro prometeu em seu programa de governo um "novo Itamaraty", que se reaproximaria de países "preteridos por razões ideológicas" nos governos anteriores.
"Deixaremos de louvar ditaduras assassinas e desprezar ou mesmo atacar democracias importantes como EUA, Israel e Itália", diz ainda o documento.
Bolsonaro tem sido especialmente crítico da proximidade que as gestões do PT mantiveram com Cuba e Venezuela, dois governos autoritários. Na última semana, o governo cubano decidiu encerrar sua participação no programa Mais Médicos em razão das novas exigências feitas pelo presidente eleito, o que pode levar à saída de cerca de 8.000 médicos de áreas pobres do país.
Já sua promessa de transferir a embaixada de Israel de Tel-Aviv para Jerusalém - seguindo decisão do presidente americano, Donald Trump, e contrariando orientação da ONU - já gerou expectativa de retaliação de países árabes às exportações brasileiras.
"Uma aproximação com Estados Unidos (por simpatia a Trump) e Israel (por afinidade evangélica com o país) é tão ideológica quanto a abordagem de Lula e Dilma sobre Cuba e Venezuela", respondeu por email à reportagem a argentina Claudia Zilla, diretora em Berlim do grupo de pesquisa Américas na Fundação Ciência e Política (SWP).
Nenhuma parte pode reivindicar a representação pura e completa do interesse nacional, isso é sempre uma construção de uma posição ideológica. Portanto, havia conteúdo ideológico na política externa de Lula e Dilma - e esse será, sem dúvida, também o caso da política externa de Bolsonaro", acrescentou.
As estatísticas oficiais brasileiras mostram que as exportações cresceram para todos os continentes durante os 13 anos do PT, embora com mais força para Ásia (618% de alta na comparação entre 2015 com 2012) e Oriente Médio e América do Sul (ambos acima de 300%).
Para Anthony Pereira, da universidade King's College, a política externa petista adotou um mix de que vai da ideologia ao pragmatismo.
"A ideia da diplomacia Sul-Sul (que priorizava países emergentes e em desenvolvimento), por exemplo, reflete o fato de que, a partir do início dos anos 2000, as relações comerciais do Brasil com a Ásia, especialmente com a China, cresceram. A diplomacia brasileira estava refletindo os padrões do comércio", ressalta.

domingo, 18 de novembro de 2018

Já se vê que Bolsonaro faz o que se pode esperar dele



Já se vê que Bolsonaro faz o que se pode esperar dele


Jânio de Freitas

A ruptura do acordo com Cuba não foi motivada pelo governo Temer


O governo Bolsonaro já começou. Para o mundo, foi assim reconhecido quando o Egito cancelou a visita de um ministro brasileiro, não em represália ao governo Temer, mas à hostilidade de Bolsonaro ao mundo muçulmano.
No plano interno, a ruptura do acordo com Cuba e com a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), para médicos cubanos suprirem a carência médica pelo Brasil afora, não foi motivada pelo governo Temer. Deu-se por exigências de Bolsonaro contrárias à continuidade do convênio e hostis a Cuba e à Opas.
Por esses primeiros passos de governante, já se vê que Bolsonaro tem uma qualidade: não decepciona. Faz o que se pode esperar dele. No caso, para autenticidade ainda maior, foi uma providência que castiga "o lombo" (no dizer de Bolsonaro) dos mais necessitados. 
 
São os 24 milhões que contam com médicos cubanos. Entre eles, as populações de numerosos municípios que dispuseram de um médico pela primeira vez. Não o terão por muito tempo.
Se há em torno de 2.000 vagas no Mais Médicos, que jamais conseguiu contratar o esperado número de brasileiros, é vazio o anúncio de concurso para 9.000 substitutos dos médicos cubanos. 
A única possibilidade estaria em aumento substancial dos quase R$ 12 mil de salário, o que não entra no orçamento de 2019 nem na cabeça de Paulo Guedes. 
E a saúde pública não figurou na campanha de Bolsonaro, como não há conhecedores da área no pessoal que faz a alegada montagem de um governo.
O aumento é outro. Substancial, sim, 16% para os juízes. Dele beneficiário, assim como sua filha, o ministro Luiz Fux espera que Temer o assine, em vez do veto por muitos cobrado, para afinal dar fim ao auxílio-moradia também dos juízes. Ou, sem o aumento, nada extinguirá. Se as aparências não traem, há uma imoralidade imortal nesse dá cá, toma lá. Outra vez, sem que se possa falar em decepção.
Com moradia própria e recebedor do auxílio para aluguel, Sergio Moro perde isso que não é só privilégio e não receberá o aumento que é. Antecipou, de janeiro para amanhã, a troca de poderes para tê-los maiores e sobre mais gente. A antecipação explicada: "Houve quem reclamasse que eu (...) não poderia sequer participar do planejamento de ações do futuro governo", mesmo em férias. 
A suscetibilidade a uma crítica fica mais interessante se lembrado que Moro estava sob avaliação do Conselho Nacional de Justiça, pela divulgação, seis dias antes das eleições, de um velho depoimento de Antonio Palloci prejudicial a Fernando Haddad.
Há a expectativa de que Moro venha a ter cedo, no Ministério da Justiça, papel semelhante ao que adotou na Lava Jato. Por ora, está só com o ministro Luís Roberto Barroso o exame do uso empresarial das redes sociais na campanha, em favor de Bolsonaro.
O assunto é grave, não só por causa de Bolsonaro. As respostas artificiosas dos aplicativos a Barroso sugerem a existência de problemas. E WhatsApp, Facebook, Google, Twitter e Instagram já se envolvem com tentativa de obstrução da Justiça, levando Barroso a exigir respostas sérias.
Se o ministro do Supremo e do Superior Eleitoral der ao caso a importância comprovada nos EUA, é provável que a Polícia Federal entre nas investigações. Sob a orientação ministerial de Moro. O risco de decepção poderia ser apenas com Barroso.
Janio de Freitas
Jornalista e membro do Conselho Editorial da Folha.

Silly is beautiful

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Eugênio Aragão -ex-ministro da Justiça
A glorificação da idiotice é a tática mais contundente de dominação das massas no novo Brasil. Ser cretino e espírito de porco está na moda. Ou você compartilha esse modo "cool" de ser ou você está fora. Ser petista, por exemplo, é "out": pensa demais, argumenta demais, tem valores demais – e... chora demais! Mimimi não está na moda!
Esse fenômeno, na verdade, não é novo. A felicidade-dumb já vem de longe, numa classe média consumista que adora mostrar o que tem, mais do que mostrar o que sabe.
Lembro-me de quando estava no ensino médio que, mal Jô Soares apresentava um novo número humorístico em seu "Planeta dos Homens", estavam muitos, já no dia seguinte, a imitar suas frases feitas: "o macaco tá certo!" Causava-me irritação essa chatice da recorrente reprodução acrítica do programa por um monte de gente homogeneizada pela Rede Globo. Parecia tudo papagaio.
Não se tratava, em absoluto, de um problema de gente inculta, de poucos meios para estudar. Não. Essa idiotice vinha da classe média endinheirada e se espalhava por escolas particulares, como a que eu frequentava como bolsista, clubes, praias de Zona Sul do Rio de Janeiro e sítios na serra de Teresópolis. Era a fina flor que, em plena ditadura militar, se distraía com esse humorzinho televisivo bobo, enquanto nada se falava de torturas e mortes nos porões do Dops e do Doi-Codi.
Afinal, a vida com os Alfa-Romeo Ti4, com a casa de praia em Angra dos Reis e com caríssimas viagens para o exterior era tão bela... "eu te amo meu Brasil, eu te amo... meu coração é verde, amarelo e azul...".
De lá para cá, a alienação dessa gente só piorou e se disseminou entre os pretendentes a classe emergente. A rede mundial de computadores aprimorou a homogeneização da mentalidade de espírito de porco. As redes sociais, com sua dinâmica de narcisismo virtual, provocam reações impulsivas de muitos que ali "postam", sem qualquer preocupação dialógica. Buscam apenas resposta rápida para suas imbecilidades impensadas. Quanto mais expedita a reação na rede, maior o deleite ególatra. O sonho desse tipo de cretino é provocar a onda perfeita de "shitstorm" e mensagens politicamente incorretas que causam comoção virtual têm elevado potencial de encapelar os debates. As barbaridades vão se banalizando e acabam por ingressar na cultura política do mundo real.
Existe visível efeito "spill-over" da agressividade das redes sociais no discurso do cotidiano. Parece que muitos não se dão mais conta do tamanho dos absurdos que disseminam mundo afora. Criou-se verdadeira contracultura da imbecilidade em massa. Há quem compete na propensão de escandalizar com assertivas sem pé nem cabeça. Ser racional, nesse contexto, é ser chato, é estragar a brincadeira.
Se tudo não passasse de brincadeira de mau gosto, seria um problema menor. Corrigia-se com uns puxões de orelha próprios para meninos travessos. Mas o caráter epidêmico da idiotice em rede passou a contaminar o discurso oficial, paralisando o diálogo político. Assiste-se a um general de pantufas, agora vice-presidente eleito, a elogiar o fim do trabalho de médicos cubanos no Brasil, pois seu chefe, o capitão de pantufas eleito presidente, vai entrar na história por os ter livrado do trabalho forçado, como a Princesa Isabel, que aboliu a escravidão no Brasil!
No legislativo, vê-se uma deputada com semblante irado – claramente fora de si – propor projeto de lei a proibir educação sexual nas escolas, como se fosse, ela, a secretária de ensino fundamental do Ministério da Educação. Não interessa. O debate precisa de "speed" e levar o assunto a um debate entre especialistas pedagógicos só toma tempo; melhor uma iniciativa impensada que faça marola e irrite os "liberais". Não há diálogo. Há invectiva, há ofensa e ataque.
Do mesmo modo parlapeteia o prospectivo chanceler indicado pelo presidente eleito que quer fuzilar "toda a petralhada do Acre": a mudança climática é um mito criado pelo "marxismo cultural" e a Europa é um espaço culturalmente vazio... a esquerda não quer que crianças nasçam - e coisas do gênero. Há pouco tempo atrás, um funcionário público que adotasse esse tipo de discurso na função que exercesse seria candidato certo à aposentadoria compulsória por demência. Mas hoje, na era do non-sense, um sujeito desses tem excelentes perspectivas na carreira diplomática!
Enquanto isso, os verdadeiros problemas do país são postos de lado, como mimimi de "comunistas" que perderam a vez. Vale é surfar nas ondas de "shitstorm", a movimentarem a sociedade sem rumo, como num frenesi de ódio e ranger de dentes, em marcha na direção do abismo. Políticas públicas? Para quê? Isso é torrar dinheiro para sustentar vagabundo que não quer se virar sozinho! O negócio é acabar com a "corrupção" da esquerda, com a liberdade de ensino e pesquisa, com os direitos humanos, com a igualdade de gêneros, mesmo que morram uns milhares de inocentes... afinal, não se faz omelete sem quebrar ovos!
O besteirol se tornou a arma mais mortal contra a razão e contra a democracia inclusiva. E ele tem método, pois deslegitima de modo brutal o discurso sobre direitos. É hora de reagir se quisermos minimamente conservar o humanismo construído no mundo do pós-guerra e seu senso comum de solidariedade, tolerância e responsabilidade coletiva. Do contrário, iremos em transe, feito lunáticos, para nossa destruição – e achando bom!