quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Mauro Santayana explica os mecanismos do golpe



Por Mauro Santayana, em seu blog
(Do blog com equipe) – Inspirados pelo livro de 1937, de Dale Carnegie, “Como fazer amigos e influenciar pessoas”, e por personagens recentes de nossa história, subitamente elevados à condição de celebridades, ousamos, como no caso do Pequeno Manual do Grande Manuel, nos aventurar no atrativo mercado das obras de auto-ajuda, em 15 passos (três a mais que os alcoólatras anônimos) com o tema “Como manter uma colônia ou eliminar um concorrente”.
Sem mais preâmbulos, vamos à receita:
1 – Comece por cortar a sua possibilidade de financiamento, apoiando a criação de leis que impeçam o seu endividamento, mesmo que ele tenha uma das menores dívidas públicas entre as 10 maiores economias do mundo e centenas de bilhões de dólares em reservas internacionais, que você esteja devendo muito mais do que ele com relação ao PIB, e que ele seja o seu quarto maior credor individual externo.
2 – Apoie, por meio de uma mídia comprada cooptada ideologicamente e também de entrevistas de “analistas” do “mercado”, estudos e “relatórios” de “consultorias de investimento” controladas a partir de seu país e da pressão de agências de classificação de risco, às quais você não daria a menor bola, um discurso austericida, privatista e antiestatal para a economia do seu concorrente.
3 – Com isso, você poderá retirar das mãos dele empresas e negócios que possam servir de instrumento para o seu desenvolvimento econômico e social, inviabilizar o seu controle sobre o orçamento público, e eliminar a sua liberdade de investimento em ações estratégicas que possam assegurar um mínimo de independência e soberania em médio e longo prazo.
Companhias estatais são perigosas e devem ser eliminadas, adquiridas ou controladas indiretamente.
Elas podem ser usadas por governos nacionalistas e desenvolvimentistas (que você considera naturalmente hostis) para fortalecer seus próprios povos e países contra os seus interesses.
4 – Aproveite o discurso austericida do governo fantoche local para destruir o seu maior banco de fomento à exportação e ao desenvolvimento, aumentando suas taxas de juro e obrigando-o a devolver ao Tesouro, antecipadamente, centenas de bilhões em dívidas que poderiam ser pagas, como estava estabelecido antes, em 30 anos, impedindo que ele possa irrigar com crédito a sua economia e apoiar o capital nacional, com a desculpa de diminuir – simbólica e imperceptivelmente – a dívida pública.
5 – Estrangule a capacidade de ação internacional de seu adversário, eliminando, pela diminuição da oferta de financiamento, o corte de investimentos e a colocação sob suspeita de ações de desenvolvimento em terceiros países, qualquer veleidade de influência global ou regional.
Com isso, você poderá minar a força e a permanência de seu concorrente em acordos e instituições que possam ameaçar a sua própria hegemonia e posição como potência global, como o é o caso, por exemplo, da UNASUL, do Conselho de Defesa da América do Sul, do BRICS ou da Organização Mundial do Comércio.
6 – Induza, politicamente, as forças que lhe são simpáticas a paralisar, judicialmente – no lugar de exigir que se finalizem as obras, serviços e produtos em andamento – todos os projetos, ações e programas que puderem ser interrompidos e sucateados, provocando a eliminação de milhões de empregos diretos e indiretos e a quebra de milhares de acionistas, investidores, fornecedores, destruindo a engenharia, a capacidade produtiva, a pesquisa tecnológica, a infraestrutura e a defesa do país que você quer enfraquecer, gerando um prejuízo de dezenas, centenas de bilhões de dólares em navios, refinarias, oleodutos, plataformas de petróleo, sistemas de irrigação, submarinos, mísseis, tanques, aviões, rifles de assalto, cuja produção será interrompida, desacelerada ou inviabilizada, com a limitação, por lei, de recursos para investimentos, além de sucessivos bloqueios e ações e processos judiciais.
7- Faça a sua justiça impor, implacavelmente, indenizações a grandes empresas locais, para compensar acionistas residentes em seu território.
Se as ações caírem, quem as comprou deve ser bilionariamente compensado, com base em estórias da carochinha montadas com a cumplicidade de “relatórios” “produzidos” por empresas de “auditoria” oriundas do seu próprio país-matriz, mesmo aquelas conhecidas por terem estado envolvidas com numerosos escândalos e irregularidades.
Afinal, no trato com suas colônias, o capitalismo de bolsa, tipicamente de risco, não pode assumir nada mais, nada menos, do que risco zero.
8 – Concomitantemente, faça com que a abjeta turma de sabujos – alguns oriundos de bancos particulares – que está no governo, sabote bancos públicos que não estão dando prejuízo, fechando centenas de agências e demitindo milhares de funcionários, para diminuir a qualidade e a oferta de seus serviços, tornando as empresas nativas e o próprio governo cada vez mais dependentes de instituições bancárias – que objetivam primeiramente o lucro e cobram juros mais altos – privadas e internacionais.
9 – Levante suspeitas, com a ajuda de parte da imprensa e da mídia locais, sobre programas e empresas relacionadas à área de defesa, como no caso do enriquecimento de urânio, da construção de submarinos, também nucleares, e do desenvolvimento conjunto com outros países – que não são o seu – de caças-bombardeios.
Abra no território do seu pseudo concorrente escritórios de forças “policiais” e de “justiça” do seu país, para oferecer ações conjuntas de “cooperação” com as forças policiais e judiciais locais.
Você pode fazer isso tranquilamente – oferecendo até mesmo financiamento de “programas” conjuntos – passando por cima do Ministério das Relações Exteriores ou do Ministério da Justiça, por exemplo, porque pelo menos parte das forças policiais e judiciais do seu concorrente não sabem como funciona o jogo geopolítico nem tem o menor respeito pelo sistema político e as instituições vigentes, que são constantemente erodidas pelo arcabouço midiático e acadêmico – no caso de universidades particulares – já cooptados, ao longo de anos, por você mesmo.
Seduza, “treine” e premie, com espelhinhos e miçangas – leia-se homenagens, plaquinhas, diplomas, prêmios em dinheiro e palestras pagas – trazendo para “cursos”, encontros e seminários, em seu território, com a desculpa de “juntar forças” no combate ao crime e ao “terrorismo” e defender e valorizar a “democracia”, jornalistas, juízes, procuradores, membros da Suprema Corte, “economistas”, policiais e potenciais “lideranças” do país-alvo, mesmo que a sua própria nação não seja um exemplo de democracia e esteja no momento sendo governada por um palhaço maluco, racista e protofascista com aspirações totalitárias.
10 – Arranje uma bandeira hipócrita e “moralmente” inatacável, como a de um suposto e relativo, dirigido, combate à corrupção e à impunidade, e destrua as instituições políticas, a governabilidade e as maiores empresas do seu concorrente, aplicando-lhes multas bilionárias, não para recuperar recursos supostamente desviados, mas da forma mais punitiva e miserável, com base em critérios etéreos, distorcíveis e subjetivos, como o de “danos morais coletivos”, por exemplo.
11 – Corte o crédito e arrebente com a credibilidade das empresas locais e o seu valor de mercado, arrastando, com a cumplicidade de uma imprensa irresponsável e apátrida, seus nomes e marcas na lama, tanto no mercado interno quanto no internacional, fazendo com que os jornais, emissoras de TV e de rádio “cubram” implacável e exaustivamente cada etapa de sua agonia, dentro e fora do país, para explorar ao máximo o potencial de destruição de sua reputação junto à opinião pública nacional e estrangeira.
12 – Dificulte, pelo caos instalado nas instituições, que lutam entre si em uma demoníaca fogueira das vaidades por mais poder e visibilidade, e pela prerrogativa de fechar acordos de leniência, o retorno à operação de empresas afastadas do mercado.
Prenda seus principais técnicos e executivos – incluídos cientistas envolvidos com programas de defesa – forçando-os a fazer delações sem provas, destruindo a sua capacidade de gestão, negociação financeira, de competição, em suma, no âmbito empresarial público e privado.
13 – Colha o butim resultante de sua bem sucedida estratégia de destruição da economia de seu concorrente, adquirindo, com a cumplicidade do governo local – que jamais teve mandato popular para isso – fabulosas reservas de petróleo e dezenas de empresas, entre elas uma das maiores companhias de energia elétrica do mundo, ou até mesmo uma Casa da Moeda, a preço de banana e na bacia das almas.
14 – Impeça a qualquer preço o retorno ao poder das forças minimamente nacionalistas e desenvolvimentistas que você conseguiu derrubar com um golpe branco, há algum tempo atrás, jogando contra elas a opinião pública, depois de sabotar seus governos por meio de simpatizantes, com pautas-bomba no Congresso e manifestações insufladas e financiadas de fora do tipo que você já utilizou com sucesso em outros lugares, em ações coordenadas de enfraquecimento e destruição da estrutura nacional local, como no caso do famigerado, quase apocalíptico, esquema da “Primavera Árabe” ou a tomada do poder na Ucrânia por governos de inspiração nazista.
15 – Finalmente, faça tudo, inclusive no plano jurídico, para que se entregue a sua colônia a um governo que seja implacável contra seus inimigos locais e dócil aos seus desejos e interesses, a ser comandado de preferência por alguém que já tenha batido continência para a sua bandeira ou gritado com entusiasmo o nome de seu país publicamente.

Os africanos que propuseram ideias iluministas antes de Locke e Kant



RESUMO Os ideais mais elevados de Locke, Hume e Kant foram propostos mais de um século antes deles por Zera Yacob, um etíope que viveu numa caverna. O ganês Anton Amo usou noção da filosofia alemã antes de ela ser registrada oficialmente. Autor defende que ambos tenham lugar de destaque em meio aos pensadores iluministas.
*
Os ideais do Iluminismo são a base de nossas democracias e universidades no século 21: a crença na razão, na ciência, no ceticismo, no secularismo e na igualdade. De fato, nenhuma outro período se compara à era do Iluminismo.
A Antiguidade é inspiradora, mas está a um mundo de distância das sociedades modernas. A Idade Média é mais razoável do que sua reputação sugere, mas ainda assim é medieval. A Renascença foi gloriosa, mas em grande medida graças ao seu resultado: o Iluminismo. O romantismo veio como reação à era da razão, mas os ideais dos Estados modernos não se expressam em termos de romantismo e emoção.
Segundo a história mais contada, o Iluminismo tem origem no "Discurso do Método" (1637), de René Descartes, continuou por cerca de um século e meio com John Locke, Isaac Newton, David Hume, Voltaire e Kant e terminou com a Revolução Francesa, em 1789 —talvez com o período do terror, em 1793.
Mas e se a história estiver errada? E se o Iluminismo puder ser associado a lugares e pensadores que costumamos ignorar? Tais perguntas me assombram desde que topei com o trabalho de um filósofo etíope do século 17: Zera Yacob (1599-1692), também grafado Zära Yaqob.
Yacob nasceu numa família pobre numa propriedade agrícola perto de Axum, a lendária antiga capital do norte da Etiópia. Como estudante, ele impressionou seus professores e foi enviado a uma nova escola para estudar retórica ("siwasiw" em ge'ez, a língua local), poesia e pensamento crítico ("qiné") por quatro anos.
Em seguida, estudou a Bíblia por dez anos em outra escola, recebendo ensinamentos dos católicos e dos coptas, bem como da tradição cristã ortodoxa, majoritária no país.
Na década de 1620, um jesuíta português convenceu o rei Susenyos a converter-se ao catolicismo, que não tardou a virar religião oficial da Etiópia. Seguiu-se uma perseguição aos livres-pensadores, mais intensa a partir de 1630. Yacob, que nessa época lecionava na região de Axum, havia declarado que nenhuma religião tem mais razão que outra —e seus inimigos o denunciaram para o rei.
Yacob fugiu, levando apenas um pouco de ouro e os Salmos de Davi. Viajou para o sul, para a região de Shewa, onde se deparou com o rio Tekezé.
Ali encontrou uma área desabitada com uma "bela caverna" no início de um vale. Construiu um muro de pedra e viveu nesse local isolado para "encarar apenas os fatos essenciais da vida", como Henry David Thoreau descreveria uma vida também solitária, dois séculos mais tarde, em "Walden" (1854).
Por dois anos, até a morte do rei, em setembro de 1632, Yacob permaneceu na caverna como ermitão, saindo apenas para buscar alimentos no mercado mais próximo. Na caverna, ele alinhavou sua nova filosofia racionalista.
Ele acreditava na primazia da razão e afirmava que todos os seres humanos, homens e mulheres, são criados iguais. Yacob argumentou contra a escravidão, criticou todas as religiões e doutrinas reconhecidas e combinou essas opiniões com sua crença pessoal em um criador divino, asseverando que a existência de uma ordem no mundo faz dessa a opção mais racional.
Em suma: muitos dos ideais mais elevados do Iluminismo foram concebidos e resumidos por um homem que trabalhou sozinho em uma caverna etíope de 1630 a 1632.
LIVROS
A filosofia de Yacob, baseada na razão, é apresentada em sua obra principal, "Hatäta" (investigação). O livro foi escrito em 1667 por insistência de seu discípulo, Walda Heywat, que escreveu ele próprio uma "Hatäta" de orientação mais prática.
Hoje, 350 anos mais tarde, é difícil encontrar um exemplar do trabalho de Yacob. A única tradução ao inglês foi feita em 1976 pelo professor universitário e padre canadense Claude Sumner. Ele a publicou como parte de uma obra em cinco volumes sobre a filosofia etíope, que foi lançada pela nada comercial editora Commercial Printing Press, de Adis Abeba.
O livro foi traduzido ao alemão e, no ano passado, ao norueguês, mas ainda é basicamente impossível ter acesso a uma versão em inglês.
A filosofia não era novidade na Etiópia antes de Yacob. Por volta de 1510, "The Book of the Wise Philosophers" (o livro dos filósofos sábios) foi traduzido e adaptado ao etíope pelo egípcio Abba Mikael. Trata-se de uma coletânea de ditados de filósofos gregos pré-socráticos, Platão e Aristóteles por meio dos diálogos neoplatônicos, e também foi influenciado pela filosofia arábica e as discussões etíopes.
Em sua "Hatäta", Yacob critica seus contemporâneos por não pensarem de modo independente e aceitarem as palavras de astrólogos e videntes só porque seus predecessores o faziam. Em contraste, ele recomenda uma investigação baseada na razão e na racionalidade científica, considerando que todo ser humano nasce dotado de inteligência e possui igual valor.
Longe dele, mas enfrentando questões semelhantes, estava o francês Descartes (1596-1650). Uma diferença filosófica importante entre eles é que o católico Descartes criticou explicitamente os infiéis e ateus em sua obra "Meditações Metafísicas" (1641).
Essa perspectiva encontra eco na "Carta sobre a Tolerância" (1689), de Locke, para quem os ateus não devem ser tolerados.
As "Meditações" de Descartes foram dedicadas "ao reitor e aos doutores da sagrada Faculdade de Teologia em Paris", e sua premissa era "aceitar por meio da fé o fato de que a alma humana não morre com o corpo e de que Deus existe".
Yacob, pelo contrário, propõe um método muito mais agnóstico, secular e inquisitivo —o que também reflete uma abertura ao pensamento ateu. O quarto capítulo da "Hatäta" começa com uma pergunta radical: "Tudo que está escrito nas Sagradas Escrituras é verdade?" Ele prossegue pontuando que todas as diferentes religiões alegam que sua fé é a verdadeira:
"De fato, cada uma delas diz: 'Minha fé é a certa, e aqueles que creem em outra fé creem na falsidade e são inimigos de Deus'. (...) Assim como minha fé me parece verdadeira, outro considera verdadeira sua própria fé; mas a verdade é uma só".
Assim, ele deslancha um discurso iluminista sobre a subjetividade da religião, mas continua a crer em algum tipo de criador universal. Sua discussão sobre a existência de Deus é mais aberta que a de Descartes e talvez mais acessível aos leitores de hoje, como quando incorpora perspectivas existencialistas:
"Quem foi que me deu um ouvido com o qual ouvir, quem me criou como ser reacional e como cheguei a este mundo? De onde venho? Tivesse eu vivido antes do criador do mundo, teria conhecido o início de minha vida e da consciência de mim mesmo. Quem me criou?".
IDEIAS AVANÇADAS
No capítulo cinco, Yacob aplica a investigação racional a leis religiosas diferentes. Critica igualmente o cristianismo, o islã, o judaísmo e as religiões indianas.
Ele aponta, por exemplo, que o criador, em sua sabedoria, fez o sangue fluir mensalmente do útero das mulheres, para que elas possam gestar filhos. Assim, conclui que a lei de Moisés, segundo a qual as mulheres são impuras quando menstruam, contraria a natureza e o criador, já que "constitui um obstáculo ao casamento e a toda a vida da mulher, prejudica a lei da ajuda mútua, interdita a criação dos filhos e destrói o amor".
Desse modo, inclui em seu argumento filosófico a perspectiva da solidariedade, da mulher e do afeto. E ele próprio viveu segundo esses ideais.

Depois de sair da caverna, pediu em casamento uma moça pobre chamada Hirut, criada de uma família rica. O patrão dela dizia que uma empregada não estava em pé de igualdade com um homem erudito, mas a visão de Yacob prevaleceu. Consumada a união, ele declarou que ela não deveria mais ser serva, mas seu par, porque "marido e mulher estão em pé de igualdade no casamento".
Contrastando com essas posições, Kant (1724-1804) escreveu um século mais tarde em "Observações sobre o Sentimento do Belo e do Sublime" (1764): "Uma mulher pouco se constrange com o fato de não possuir determinados entendimentos".
E, nos ensaios de ética do alemão, lemos que "o desejo de um homem por uma mulher não se dirige a ela como ser humano, pelo contrário, a humanidade da mulher não lhe interessa; o único objeto de seu desejo é o sexo dela".
Yacob enxergava a mulher sob ótica completamente diferente: como par intelectual do filósofo.
Ele também foi mais iluminista que seus pares do Iluminismo no tocante à escravidão. No capítulo cinco, Yacob combate a ideia de que "possamos sair e comprar um homem como se fosse um animal". Assim, ele propõe um argumento universal contra a discriminação:
"Todos os homens são iguais na presença de Deus; e todos são inteligentes, pois são suas criaturas; ele não destinou um povo à vida, outro à morte, um à misericórdia e outro ao julgamento. Nossa razão nos ensina que esse tipo de discriminação não pode existir".
As palavras "todos os homens são iguais" foram escritas décadas antes de Locke (1632-1704), o pai do liberalismo, ter empunhado sua pena.

E a teoria do contrato social de Locke não se aplicava a todos na prática: ele foi secretário durante a redação das "Constituições Fundamentais da Carolina" (1669), que concederam aos homens brancos poder absoluto sobre seus escravos africanos. O próprio inglês investiu no comércio negreiro transatlântico.
Comparada à de seus pares filosóficos, portanto, a filosofia de Yacob frequentemente parece o epítome dos ideais que em geral atribuímos ao Iluminismo.
ANTON AMO
Alguns meses depois de ler a obra de Yacob, enfim tive acesso a outro livro raro: uma tradução dos escritos reunidos do filósofo Anton Amo (c. 1703-55), que nasceu e morreu em Gana.
Amo estudou e lecionou por duas décadas nas maiores universidades da Alemanha (como Halle e Jena), escrevendo em latim. Hoje, segundo o World Library Catalogue, só um punhado de exemplares de seu "Antonius Guilielmus Amo Afer of Axim in Ghana" está disponível em bibliotecas mundo afora.
O ganês nasceu um século após Yacob. Consta que ele foi sequestrado do povo akan e da cidade litorânea de Axim quando era pequeno, possivelmente para ser vendido como escravo, sendo levado a Amsterdã, para a corte do duque Anton Ulrich de Braunschweig-Wolfenbüttel —visitada com frequência pelo polímata G. W. Leibniz (1646-1716).
Batizado em 1707, Amo recebeu educação de alto nível, aprendendo hebraico, grego, latim, francês e alemão —e provavelmente sabia algo de sua língua materna, o nzema.
Tornou-se figura respeitada nos círculos acadêmicos. No livro de Carl Günther Ludovici sobre o iluminista Christian Wolff (1679-1754) —seguidor de Leibniz e fundador de várias disciplinas acadêmicas na Alemanha—, Amo é descrito como um dos wolffianos mais proeminentes.
No prefácio a "Sobre a Impassividade da Mente Humana" (1734), de Amo, o reitor da Universidade de Wittenberg, Johannes Gottfried Kraus, saúda o vasto conhecimento do autor, situa sua contribuição ao iluminismo alemão em um contexto histórico e sublinha o legado africano da Renascença europeia:
"Quando os mouros vindos da África atravessaram a Espanha, trouxeram com eles o conhecimento dos pensadores da Antiguidade e deram muita assistência ao desenvolvimento das letras que pouco a pouco emergiam das trevas".
O fato de essas palavras terem saído do coração da Alemanha na primavera de 1733 ajuda a lembrar que Amo não foi o único africano a alcançar o sucesso na Europa do século 18.
Na mesma época, Abram Petrovich Gannibal (1696-1781), também sequestrado e levado da África subsaariana, tornava-se general do czar Pedro, o Grande, da Rússia. O bisneto de Gannibal se tornaria o poeta nacional da Rússia, Alexander Pushkin. E o escritor francês Alexandre Dumas (1802-70) foi neto de uma africana escravizada e filho de um general aristocrata negro nascido no Haiti.
Amo tampouco foi o único a levar diversidade e cosmopolitismo a Halle nas décadas de 1720 e 1730. Vários alunos judeus de grande talento estudaram na universidade. O professor árabe Salomon Negri, de Damasco, e o indiano Soltan Gün Achmet, de Ahmedabad, também passaram por lá.
CONTRA A ESCRAVIDÃO
Em sua tese, Amo escreveu explicitamente que havia outras teologias além da cristã, incluindo entre elas a dos turcos e a dos "pagãos".
Ele discutiu essas questões na dissertação "Os Direitos dos Mouros na Europa", em 1729. O trabalho não pode ser encontrado hoje, mas, no jornal semanal de Halle de novembro de 1729, há um artigo curto sobre o debate público de Amo. Segundo esse texto, o ganês apresentou argumentos contra a escravidão, aludindo ao direito romano, à tradição e à razão.
Será que Amo promoveu a primeira disputa legal da Europa contra a escravidão? Podemos pelo menos enxergar um argumento iluminista em favor do sufrágio universal, como o que Yacob propusera cem anos antes. Mas essas visões não discriminatórias parecem ter passado despercebidas dos pensadores principais do iluminismo no século 18.
David Hume (1711-76), por exemplo, escreveu: "Tendo a suspeitar que os negros, e todas as outras espécies de homem em geral (pois existem quatro ou cinco tipos diferentes), sejam naturalmente inferiores aos brancos". E acrescentou: "Nunca houve nação civilizada de qualquer outra compleição senão a branca, nem indivíduo eminente em ação ou especulação".
Kant levou adiante o argumento de Hume e enfatizou que a diferença fundamental entre negros e brancos "parece ser tão grande em capacidade mental quanto na cor", antes de concluir, no texto do curso de geografia física: "A humanidade alcançou sua maior perfeição na raça dos brancos".
Na França, o mais célebre pensador iluminista, Voltaire (1694-1778), não só descreveu os judeus em termos antissemitas, como quando escreveu que "todos eles nascem com fanatismo desvairado em seus corações"; em seu ensaio sobre a história universal (1756), ele afirmou que, se a inteligência dos africanos "não é de outra espécie que a nossa, é muito inferior".
Como Locke, Voltaire investiu dinheiro no comércio de escravos.
CORPO E MENTE
A filosofia de Amo é mais teórica que a de Yacob, mas as duas compartilham uma visão iluminista da razão, tratando todos os humanos como iguais.
Seu trabalho é profundamente engajado com as questões da época, como se vê em seu livro mais conhecido, "Sobre a Impassividade da Mente Humana", construído com um método de dedução lógica utilizando argumentos rígidos, aparentemente seguindo a linha de sua dissertação jurídica anterior. Aqui ele trata do dualismo cartesiano, a ideia de que existe uma diferença absoluta de substância entre a mente e o corpo.
Em alguns momentos Amo parece se opor a Descartes, como observa o filósofo contemporâneo Kwasi Wiredu. Ele argumenta que Amo se opôs ao dualismo cartesiano entre mente e corpo, favorecendo, em vez disso, a metafísica dos akan e o idioma nzema de sua primeira infância, segundo os quais sentimos a dor com nossa carne ("honem"), e não com a mente ("adwene").
Ao mesmo tempo, Amo diz que vai tanto defender quanto atacar a visão de Descartes de que a alma (a mente) é capaz de agir e sofrer junto com o corpo. Ele escreve: "Em resposta a essas palavras, pedimos cautela e discordamos: admitimos que a mente atua junto com o corpo graças à mediação de uma união natural. Mas negamos que ela sofra junto com o corpo".
Amo argumenta que as afirmações de Descartes sobre essas questões contrariam a visão do próprio filósofo francês. Ele conclui sua tese dizendo que devemos evitar confundir as coisas que fazem parte do corpo e da mente. Pois aquilo que opera na mente deve ser atribuído apenas à mente.
Talvez a verdade seja o que o filósofo Justin E. H. Smith, da Universidade de Paris, aponta em "Nature, Human Nature and Human Difference" (natureza, natureza humana e diferença humana, 2015): "Longe de rejeitar o dualismo cartesiano, pelo contrário, Amo propõe uma versão radicalizada dele".
Mas será possível que tanto Wiredu quanto Smith tenham razão? Por exemplo, será que a filosofia akan tradicional e a língua nzema continham uma distinção cartesiana entre corpo e mente mais precisa que a de Descartes, um modo de pensar que Amo então levou para a filosofia europeia?
Talvez seja cedo demais para sabermos, já que uma edição crítica das obras de Amo ainda aguarda ser publicada, possivelmente pela Oxford University Press.
COISA EM SI
No trabalho mais profundo de Amo, "Treatise on the Art of Philosophising Soberly and Accurately" (tratado sobre a arte de filosofar com sobriedade e precisão, 1738), ele parece antecipar Kant. O livro trata das intenções de nossa mente e das ações humanas como sendo naturais, racionais ou de acordo com uma norma.
No primeiro capítulo, escrevendo em latim, Amo argumenta que "tudo é passível de ser conhecido como objeto em si mesmo, ou como uma sensação, ou como uma operação da mente".
Ele desenvolve em seguida, dizendo que "a cognição ocorre com a coisa em si" e afirmando: "O aprendizado real é a cognição das coisas em si. E assim tem sua base na certeza da coisa conhecida".
Seu texto original diz "omne cognoscibile aut res ipsa", usando a noção latina "res ipsa" como "coisa em si".
Hoje Kant é conhecido por seu conceito da "coisa em si" ("das Ding an sich") em "Crítica da Razão Pura" (1787) —e seu argumento de que não podemos conhecer a coisa além de nossa representação mental dela.
Mas é fato sabido que essa não foi a primeira utilização do termo na filosofia iluminista. Como diz o dicionário Merriam-Webster no verbete "coisa em si": "Primeira utilização conhecida: 1739". Mesmo assim, isso foi dois anos depois de Amo ter entregue seu trabalho principal em Wittenberg, em 1737.
À luz dos exemplos desses dois filósofos iluministas, Zera Yacob e Anton Amo, talvez seja preciso repensarmos a Idade da Razão nas disciplinas da filosofia e da história das ideias.
Na disciplina da história, novos estudos comprovaram que a revolução mais bem-sucedida a ter nascido das ideias de liberdade, igualdade e fraternidade se deu no Haiti, não na França. A Revolução Haitiana (1791-1804) e as ideias de Toussaint L'Ouverture (1743""1803) abriram o caminho para a independência do país, sua nova Constituição e a abolição da escravidão.
Em "Les Vengeurs du Nouveau Monde" (os vingadores do novo mundo, 2004), Laurent Dubois conclui que os acontecimentos no Haiti foram "a expressão mais concreta da ideia de que os direitos proclamados na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, eram de fato universais".
Nessa linha, podemos indagar se Yacob e Amo algum dia serão elevados à posição que merecem entre os filósofos da Era das Luzes.
*
Este texto foi publicado originalmente no site Aeon.
DAG HERBJORNSRUD, 46, é historiador de ideias e fundador do SGOKI (Centro de História Global e Comparativa de Ideias), em Oslo.
CLARA ALLAIN é tradutora.

Alicerces institucionais degeneraram até nenhum mais funcionar


janio de freitas
Colunista e membro do Conselho Editorial da Folha, é um dos mais importantes jornalistas brasileiros. Analisa as questões políticas e econômicas. Escreve aos domingos e quintas-feiras.

Alicerces institucionais degeneraram até nenhum mais funcionar







O grau de tensão e incerteza em que estão, à direita e à esquerda, os politicamente menos alienados dá ao chamado julgamento de Lula a sua verdadeira face: o ato judicial é só um trecho da superfície de um fluxo profundo, no qual se deslocam as bases da ideia que o país fazia de si mesmo. Nos últimos três anos, os alicerces institucionais criados na Constituinte de 1988, para garantir o futuro sempre desejado, degeneraram até à situação em que nenhum mais funciona como prescrito.
O Brasil se reconhece como um país corrupto, dotado de um sistema político apodrecido; injusto e perigoso. É assim o Brasil das conversas que se reproduzem a todo tempo, em todos os lugares.
Este país que decai de onde nunca esteve, mas imaginava estar, se vê jogado com brutalidade em um turbilhão veloz de fatos sucessivos, sem controle e sem sequer presumir aonde podem levar. Executivo, Legislativo e Judiciário não se entendem nem o mínimo exigido pelas urgências. O primeiro, por imoralidade; o segundo, por ignorância e indecência; o terceiro, por fastio de presunção projetada, de cima para baixo.
A consciência, por incompleta e adulterada que seja, está nos inundados de incerteza inquietante. São os que sabem que o julgamento, em si, representa pouco. O seu âmago não é judicial. É político. O que dele resultará não será um novo passo no direito, mas, por certo, andamentos com influência direta no processo político e institucional. O que, por sua vez, vai desaguar no fluxo das conturbações modificadoras. Se para detê-lo, desviá-lo ou acelerá-lo, é a incerteza que continua.
Gente de casa
Foi preciso uma advertência sobre seu risco de ser processado para que Michel Temer enfim admitisse o afastamento dos quatro vice-presidentes da Caixa postos sob suspeita por investigações policiais e da própria Caixa. Mas a Procuradoria da República no Distrito Federal quer mais, quer o necessário: o afastamento definitivo dos vices e a ocupação desses cargos técnicos por pessoas com habilitação específica, não mais testas-de-ferro de políticos abandidados.
E a própria Caixa vai pedir o afastamento do seu presidente, Gilberto Occhi, que não era alheio às irregularidades praticadas, por corrupção e política, nas vice-presidências.
A relutância de Temer é compreensível. Trata-se de gente do bando.
Ainda que tardia
À primeira vista, impressiona o pedido do Ministério Público Federal de que Eduardo Cunha receba pena de 387 anos. Mas o doleiro Alberto Youssef por exemplo, foi sentenciado a mais de 120 anos e está livre no mundo. É a generosidade dos discípulos de Madre Tereza na Lava Jato.
Youssef, é verdade, fez "acordo" de delação para ser premiado, e Cunha o tem recusado. Com o que sabe, porém, e seu competidor Lúcio Funaro ignorava, Eduardo Cunha pode negociar delação e prêmio quando quiser. Por exemplo, ao que consta, sobre negociantes de armas. 

FELIZ ANO VELHO

FELIZ ANO VELHO

por Fernando de Barros e Silva
O eventual banimento de Lula da disputa pela via da Justiça é um divisor de águas, diante do qual a democracia dificilmente sairá ilesaILUSTRAÇÃO: NADIA KHUZINA_2017
“As portas da aeronave foram fechadas com atraso por motivos operacionais, alheios à nossa vontade.”
A voz que chega pelo sistema de som do avião é impessoal e suave, como manda o protocolo. Não há pedido de desculpas, não há – sobretudo isso – responsabilidades. Os motivos do atraso são “operacionais” e “alheios à nossa vontade”. Estamos num mundo em que as coisas acontecem, ou deixam de acontecer, sem que ninguém tenha culpa. Estamos no Brasil.
Passageiro frequente da ponte aérea Rio-São Paulo há seis anos, desde que comecei a trabalhar na piauí, devo ter ouvido essa ladainha da comissária de bordo algumas dezenas de vezes. Não saberia dizer a partir de que momento essas explicações que nada explicam grudaram na minha mente.
O fato é que a cada atraso passei a esperar, com certo prazer infantil, o momento em que a empresa encena dar satisfações ao cliente. Desde então, enquanto a moça uniformizada se desincumbe de seu script, do assento eu vou recriando mentalmente os meus próprios pronunciamentos: “O país chegou a essa situação por motivos operacionais, alheios à nossa vontade”; “Estamos nessa merda infinita por motivos operacionais, alheios à nossa vontade.” E por aí eu decolo, com pequenas variações, a depender do humor do dia (e do tamanho do atraso).
 Quando pensei neste texto, antes que o Judiciário se pronunciasse sobre a data do julgamento de Lula, o primeiro título que me ocorreu foi “2018, o golpe que não terminou”. No entanto, embora me agradasse (a ponto de eu insistir em anunciá-lo aqui, depois de tê-lo abandonado), ele logo me pareceu condescendente com Lula e com o PT. Ele diz a verdade. Mas não diz toda a verdade.
Começo pela ressalva: com a narrativa do golpe, os petistas pretendem transformar Lula no verdadeiro “isentão” do país. Foi com essa alcunha que a militância do partido carimbou e perseguiu nas redes sociais os que não foram às ruas ou hesitaram em defender Dilma publicamente durante o impeachment. Como se alguém simpático à esquerda não tivesse o direito de ter dúvidas nem razões de sobra para estar perplexo com o desassombro com que se roubou o Estado nos governos do PT.
Isento, segundo o Houaiss, pode ser o sujeito “neutro, imparcial, que não se deixa seduzir”. Mas pode ser também aquele que “se encontra eximido, livre, desembaraçado, limpo de culpa”, coisa que Lula talvez imagine ser quando, por exemplo, diz desconfiar das acusações contra Sérgio Cabral, como fez recentemente.
A despeito disso, desde a destituição “mandrake” de Dilma Rousseff, o que de certa forma está no horizonte das intenções de todos que dela participaram, ou quase todos, é a inviabilização política de Lula. É esse o ponto de fuga do quadro que passou a se desenhar em 2015 e a questão decisiva que se coloca para o país na sucessão presidencial.
Óbvio que o PIB e as forças verde-amarelas que em torno dele se organizaram queriam, antes de tudo, se livrar do pesadelo que Dilma e seu governo passaram a representar para o país. A economia quebrou, a presidente não tinha, na verdade nunca teve, capacidade mínima de articulação política, os escândalos da “petrolândia” começaram a jorrar por todos os lados logo depois da reeleição – tudo isso é sabido. Mas, para além desse pesadelo, havia um fantasma. Foi também contra ele – esse fantasma ancestral, anterior à crise dilmista – que muita gente de bem se insurgiu.
Em 2016, enfim, o Brasil consumou algo no mínimo inusitado: o impeachment de um ex-presidente.
Tal extravagância ficou visível no próprio dia em que o impedimento de Dilma foi ratificado pelo Senado, quando Renan Calheiros, então presidente da Casa, inventou aquela gambiarra institucional, mandando às favas a Constituição: Dilma perdia o mandato, mas não os direitos políticos. Uma vez defenestrada a presidente, os direitos políticos que passavam a importar, ou que importava cassar, não eram os dela, mas os do cara. Não que esse raciocínio estivesse na cabeça dos senadores. Não é assim que funciona. Estou sugerindo apenas que o truque de Calheiros se ilumina se for pensado como um sintoma, como ensina Freud.
Que a saída de Dilma tenha paradoxalmente dado sobrevida ao fantasma é algo que a crônica política vem repetindo faz algum tempo, com razão. O ônus do desastre econômico foi transferido para os bucaneiros do PMDB e seus agregados – a estrada ficou livre para que Lula se reinventasse, ou, antes, buscasse reatar os pontos entre o presente e suas origens: como um saltimbanco, ele passou a percorrer o país no papel de vítima das elites e animador das massas estropiadas. Embora o número seja velho, isso ele sabe fazer.
É evidente também que a ressurreição de Lula está ligada à total ausência já não digo de popularidade, mas de empatia deste governo. Com exceção dos editorialistas do Estadão, ninguém gosta de Michel Temer. O governo que ele comanda é obsceno. Primeiro, pelas razões sabidas: escolham entre o jogo de malas de Geddel e a mala com rodinhas de Rocha Loures, o mordomo do mordomo deste filme de terror. Mas é obsceno também pela razão que o torna palatável aos olhos do mercado. A agenda liberal patrocinada por Temer só seria legítima com o lastro do voto. Nas atuais circunstâncias, ela serve de âncora para um governo espúrio, que troca sua impunidade pelos serviços e favores que vai prestando no atacado aos donos do dinheiro, ao mesmo tempo que barganha no varejo com os picaretas de sempre do Congresso. Parece simplista? Eu gostaria que fosse mais complexo. (Não estou sugerindo que o país não precise de reformas. Pessoas de esquerda e sensatas que entendem de economia – são poucas – não ignoram a necessidade de que as regras da Previdência sejam alteradas, para dar um exemplo.)
Chegamos, enfim, ao ano da eleição. E chegamos com Lula na condição de cabra marcado para morrer. Não nas urnas, em outubro, onde seria aceitável vê-lo ganhar ou perder, mas bem antes, pelas mãos dos três desembargadores da 8ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em Porto Alegre.
Como se sabe, os magistrados marcaram o julgamento para 24 de janeiro, encurtando os prazos que eles mesmos vinham observando para examinar os autos nas decisões relativas ao petrolão. A não ser no caso de uma surpresa, o TRF-4 deverá confirmar a sentença do juiz Sérgio Moro, que condenou Lula a nove anos e seis meses de prisão no rumoroso caso do tríplex do Guarujá. Também é quase certo que haverá divergências entre os três juízes no que tange à dosimetria da pena (quanto de cana, em que condições etc.), mas o fundamental é que, condenado em segunda instância, Lula estará inelegível pela Lei da Ficha Limpa.
A partir daí, sob o aspecto legal, sua candidatura ainda pode seguir respirando por aparelhos. Lula e o PT terão à disposição uma série de recursos judiciais que, em tese, caso não surja uma nova manobra para encurtar de vez a novela, lhes permitirão formalizar a candidatura à Presidência a partir de 20 de julho, conforme manda o calendário eleitoral. O imbróglio passaria então para as mãos do Tribunal Superior Eleitoral e até, possivelmente, do Supremo Tribunal Federal, sem que se possa dizer com absoluta certeza que estará decidido antes do primeiro turno da eleição, em 7 de outubro.
Tudo somado, Lula se parece com o Malandro de Chico Buarque: O cadáver do indigente/é evidente que morreu/e no entanto ele se move/como prova o Galileu.
Aos olhos dos seguidores de Sérgio Moro, o ex-presidente já é faz tempo um presunto, de pé junto, e com chulé, mas ainda falta combinar isso com o povo. Quando se olha para a pesquisa de intenções de votos do Datafolha divulgada no início de dezembro, além do fato de Lula liderar a corrida presidencial em todos os cenários, em primeiro e segundo turnos, o que chama a atenção é a faixa do eleitorado que quer vê-lo no Planalto mais uma vez. Os mais pobres, para resumir.
Entre os que têm renda familiar mensal de até dois salários mínimos (1 930 reais, equivalente a praticamente metade da população brasileira), Lula alcança 47% das preferências. No Nordeste, hoje ele seria eleito no primeiro turno – tem até 58% das intenções de voto na região, a depender do cenário analisado.
O cientista político André Singer destacou esse corte de classe numa de suas colunas recentes na Folha, intitulada “Lulismo e antilulismo”. A rejeição a Lula, lembrou Singer, que em março de 2016, às vésperas do impeachment de Dilma, chegou a ser encampada por 49% da população mais pobre, hoje refluiu para 27% nessa mesma faixa de renda, enquanto entre os mais ricos ela permanece altíssima, na casa dos 63%. A conclusão de Singer é que “rara vez o popular e o antipopular se confrontaram com tanta nitidez na história do país”.
Singer seria o primeiro a admitir que tem lado nesse confronto. Mas todo mundo, em alguma medida, tem lado – ninguém é neutro em matéria de política. A questão reside, muito mais, na maneira de lidar com isso. Digamos que a distinção que importa no debate intelectual se dá entre, de um lado, as pessoas que dizem o que pensam e pensam o que dizem, e, de outro, aquelas acostumadas a subordinar o que dizem e o que pensam a conveniências políticas ou missões partidárias. É isso, basicamente, que distingue um intelectual de um ideólogo. É isso, para não fugir do ringue, que diferencia André Singer de Marilena Chaui – ainda que ambos sejam quadros oficialmente vinculados ao PT. Fim da digressão.
A constatação de que Lula está encarnado no campo popular – e que isso deve significar alguma coisa pouco trivial num país com abismos de classe tão colossais – faz com que seu provável banimento da disputa eleitoral pela via da Justiça seja uma espécie de divisor de águas, diante do qual a democracia brasileira dificilmente sairá ilesa.
Isso não passou despercebido a comentaristas políticos que nada têm a ver com o PT. Dias antes que o TRF-4 se pronunciasse sobre a data do julgamento, Roberto Pompeu de Toledo escrevia em sua coluna na revista Veja: “Quem quer ver Lula derrotado deve torcer para que o seja nas urnas. Lula impedido será um fantasma a assombrar não apenas a eleição, mas o mandato presidencial que se seguirá.” Dias depois, com o julgamento já marcado, Demétrio Magnoli perguntava em sua coluna na Folha: “Estamos dispostos a subordinar os direitos políticos do eleitorado de Lula a um veredito provisório de três juízes federais do Rio Grande do Sul, sobre o qual pesará a suspeita (fundada ou não) de atropelo dos prazos judiciais costumeiros?”
O alvo de Magnoli era a Ficha Limpa, para ele incompatível com democracias vigorosas, nas quais “só uma sentença definitiva exclui o condenado da arena eleitoral”. É como se a lei criada para sanear a política representasse antes um vício, uma espécie de tutela indevida do Judiciário sobre o eleitor, traduzindo mais uma vez – agora digo eu – um sentimento arraigado na elite brasileira: a demofobia. “O brasileiro não sabe votar” – quantas vezes ouvimos (ou dissemos) isso?
Nem Pompeu de Toledo nem, muito menos, Magnoli são suspeitos de simpatia por Lula, o que nas atuais circunstâncias é uma razão a mais para prestar atenção ao que dizem. Ao mesmo tempo, parecem estar alertando para o risco iminente de algo que, na verdade, já aconteceu. O país ingressou num ponto sem volta, e não há no horizonte boa solução para o nó político-institucional em que se meteu.
Posso ouvir o coro dos legalistas se apressando em dizer que, pelo contrário, as instituições estão funcionando muito bem. Afastamos uma presidente seguindo todos os ritos constitucionais, atravessamos até aqui a pior recessão da história brasileira sem desordem social, julgamos e prendemos (não nessa ordem, mas isso é detalhe) os grandes responsáveis pela corrupção sistêmica do Estado, gente que até pouco tempo era protegida pela impunidade, essa sim uma mácula que nos envergonhava como nação. Tudo isso dentro da mais absoluta normalidade. Sendo assim, é uma coincidência infeliz que o senhor Luiz Inácio Lula da Silva esteja na iminência de se tornar inelegível, mas, embora tenha gosto em blasfemar, a ponto de se comparar a Jesus Cristo, ele é apenas um filho da República e, como qualquer outro cidadão, não está acima da lei. Sua constrangedora situação nada mais é do que o resultado casual da interação virtuosa entre diferentes esferas de Poder (a Polícia, o Ministério Público, a Justiça, o calendário eleitoral) num regime democrático funcionando a pleno vapor.
Os legalistas de fato têm um ponto. Eu gostaria de viver nesse país que eles descrevem.
A aeromoça reaparece nos meus voos mentais para dizer, com a mesma serenidade protocolar, que algo deu errado, mas ninguém é culpado por isso: “A democracia brasileira está sendo asfixiada por motivos operacionais, alheios à nossa vontade.”
Em 1989, Mario Amato entrou involuntariamente para o anedotário da política nacional. O então presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo falava muito sério quando se dirigiu a uma plateia de 120 lideranças do mundo corporativo: “Se Lula ganhar as eleições, aqui o número de empresários que fugiriam não seria menor do que 800 mil.” Corria o mês de outubro, estávamos a pouco mais de trinta dias do primeiro turno, e o número de virtuais fugitivos que saiu da cabeça alarmada do empresário fazia alusão à Revolução dos Cravos, em 1974, quando se estima que 80 mil empresários abandonaram Portugal. O êxodo na antiga colônia seria dez vezes maior.
Lula passou para o segundo turno, mas perdeu a Presidência para Fernando Collor, como se sabe. Os empresários não fugiram da pátria amada, mas muita gente quebrou e teve a vida arruinada logo a seguir, quando o Caçador de Marajás decidiu confiscar a poupança dos brasileiros a fim de debelar a inflação. Deu tudo errado, é claro.
Em 1989 eu era um novato, iniciando a carreira de jornalista como redator do  caderno Ilustrada, na Folha. Foi a minha primeira eleição presidencial e, ao mesmo tempo, a última de que participei apenas como espectador, sem envolvimento profissional.
Três anos depois, quando Collor sofreu o impeachment, eu editava na página 3 do jornal a seção Tendências/Debates, que àquela época ainda se beneficiava do prestígio de ter sido um catalisador da chamada “sociedade civil” (jargão dos anos 70, em oposição ao poder militar) durante a democratização.
Na véspera da votação da Câmara que afastaria o presidente, lembro de uma conversa telefônica com Roberto Jefferson, então líder da tropa de choque collorida, de quem iríamos publicar um artigo para dar voz aos que estavam sendo derrotados. Eu não o conhecia pessoalmente, e a conversa não deve ter durado muito. O que retive dela foi a insistência com que Jefferson dizia que o presidente estava sendo vítima de uma imensa injustiça, que deputados haviam sido comprados para derrubá-lo, que estava em curso uma grande armação – frases essas seguidas sempre de perguntas que solicitavam o meu assentimento: “Você não concorda comigo, Barros?”, “Não acha isso também, Barros?”, “Não tem conhecimento disso, Barros?” Junto com a voz de tenor eu escutava um ruído esquisito – nhec, nhec, nhec –, que, justa ou injustamente (até hoje não sei), concluí ser um grampo feito por ele. Desliguei com a nítida sensação de que havia sido gravado por um aparelho rudimentar de um vilão desesperado, como se fosse um agente da polícia política da Alemanha Oriental às vésperas da queda do Muro de Berlim.
Tudo isso pertence a um passado remoto que desencavo da memória sem muito método. Não tenho dúvida de que o impeachment de Collor representou um momento de fortalecimento da democracia e de grande vitalidade da imprensa brasileira. E que hoje acontece mais ou menos o contrário. Vivemos uma espécie de exaustão da democracia e de fragilização do jornalismo.
Entre aquele momento e o atual muita coisa mudou. A partir do Plano Real e da eleição de Fernando Henrique Cardoso, em 1994, o Brasil ingressou num período virtuoso que durou pelo menos até 2010, quando Lula elegeu sua sucessora. O descarrilamento desse ciclo dourado – no qual parecia que havíamos começado a pagar uma dívida social de séculos e a construir pelo menos um arremedo de país decente – desfaz um conjunto imenso de ilusões a respeito de nossas possibilidades como nação.
Os anos 80 do jaquetão de Sarney reencarnaram nas mesóclises de Temer. Os sinais de retrocesso estão em toda parte. Um amigo mais otimista e mais atento aos indicadores sociais me alerta, no entanto, para o fato de que o veredicto histórico sobre a natureza e a extensão do estrago atual ainda está em aberto. Pode não ser tão ruim. Pode melhorar logo mais adiante. Ele deve estar certo. Nossos desastres afinal nunca são definitivos. Mas não consigo afastar a convicção de que o revés atual expôs o que há de cronicamente inviável no país.
Depois de quase trinta anos, o espírito de Mario Amato voltou a se manifestar. Quando ficou claro que Jair Bolsonaro estava descolando dos demais candidatos para assumir o segundo lugar nas pesquisas, e que Lula, ao mesmo tempo, consolidava sua liderança, começaram a pipocar na tevê, nas redes sociais, nas revistas e nos jornais sinais de alerta sobre a ameaça que um e outro representam para o futuro. Com desvantagem para Lula. Fico com a sensação incômoda de que está se formando um consenso tácito, uma espécie de entendimento implícito de que, a despeito do resultado da Justiça, Lula não pode ser candidato.
O patriarca dessa mentalidade, da qual temos hoje, como tivemos em 1989, uma espécie de eco diluído, é Carlos Lacerda, autor da famosa formulação contra Getúlio Vargas em 1950: “Não pode ser candidato. Se for, não pode ser eleito. Se eleito, não pode tomar posse. Se tomar posse, não pode governar.”
Em novembro, a Folha publicou uma reportagem intitulada “Mercado flerta com agenda reformista de Bolsonaro”. Em matérias desse tipo, raramente essa entidade – o mercado – está representada por gente graúda do PIB, que não perde tempo com isso. Quem costuma falar em nome do mercado são profissionais do “médio clero” de agências e bancos de investimento, para quem aparecer é uma forma de acumular prestígio junto à clientela.
Pois bem, nessa reportagem, um desses porta-vozes da banca dizia que, “pela conversa com os investidores, o Lula hoje é um problema. Pode ser disruptivo”. Bolsonaro, completava, “tenderia a causar um estresse menor”. Uma pesquisa realizada pela XP Investimentos, apresentada no texto como “a maior corretora independente do país”, corroborava o vaticínio de que entre o ex-presidente petista e o discípulo do coronel Brilhante Ustra, o primeiro seria mais danoso ao ambiente de negócios – ou mais “disruptivo”, para repetir a expressão que sintetiza o tamanho da encrenca.
No mesmo mês, a revista Veja trouxe uma capa com os rostos de Lula e Bolsonaro cortados pela metade, um em cada extremo da página. No centro, a manchete: “A POLÍTICA QUE ASSUSTA.” Atrás das letras vermelhas, havia uma silhueta pontilhada e, dentro dela, o enunciado: “Com Lula e Bolsonaro liderando as pesquisas, ganha fôlego a busca por nomes de centro, como Luciano Huck e Henrique Meirelles.” E que fôlego!
Dias antes que o próprio Huck, comparando-se a Ulisses – não o do PMDB, mas o de Homero –, viesse anunciar ao mercado, na página 3 da Folha, que havia resistido ao canto das sereias e desistia de sua aventura à Presidência, o Estadão parecia apostar todas as suas fichas na candidatura do apresentador do Caldeirão. No dia 18 de novembro, a colunista Eliane Cantanhêde anunciava: “Huck é para valer.” Dizia, entre outras coisas, que “Huck não é um Silvio Santos e tem a USP no DNA”, discorrendo a seguir sobre a filiação do rapaz.
Cinco dias depois, em 23 de novembro, o jornal estampava na primeira página, em manchete: “Aprovação a Huck dispara e atinge 60%, mostra pesquisa.” Seria uma bomba, se uma bomba fosse. Lendo o texto que mereceu o principal destaque da edição, ficamos sabendo que não se tratava de uma pesquisa de intenção de voto, mas da resposta à seguinte questão: “Agora vou ler o nome de alguns políticos e gostaria de saber se o(a) senhor(a) aprova ou desaprova a maneira como eles vêm atuando no país.” Huck, que não é político, bombou. Pergunto se essa operação não pode ser enquadrada na categoria das fake news. O jornalismo profissional não está ameaçado apenas pela selvageria das redes sociais.
No dia 27 de novembro, Luciano Huck publicou a sua carta de renúncia, deixando o Estadão órfão, por assim dizer. Seu artigo “No rumo” vale um minuto de atenção. Huck não é político, mas escreve como um. O tom da peça é piegas, confessional, autocomplacente, repleto de boas intenções e lugares-comuns. “Carrego desde sempre, genuinamente, enorme paixão e curiosidade pelo outro”; “Gosto muito de gente. Sempre gostei”; “Sinto na pele o pulso das ruas”; “Ando há anos e anos por lugares ricos, paupérrimos, super ou subdesenvolvidos, em guerra, centros moderníssimos de saber, cantos absolutamente esquecidos pelo desenvolvimento. Sempre atrás da mesma coisa: gente boa.”
Há um eco de Geraldo Alckmin nessas platitudes. É o governador de São Paulo quem gosta de repetir, com a voz pausada, as ênfases silábicas de professor de cursinho e sua eterna expressão de coroinha: “Governar é gostar de gente e cuidar de pessoas.” O texto de Huck, no entanto, soa tão sincero quanto o desapego que ele tem pelo dinheiro. Saímos do artigo com a sensação de que sua decisão não é irreversível. Talvez Cantanhêde seja uma visionária e Huck ainda venha a ser “para valer”.
Seja como for, é preciso um ambiente muito rebaixado para que ele possa ser alçado por alguém como Fernando Henrique Cardoso à condição de representante do “novo” na política, como ocorreu numa entrevista à Folha. Huck é um apresentador de programa de auditório da Globo, alguém que se projetou misturando entretenimento de massa com assistencialismo. Isso é velho. É conservador. É quase sempre atroz, entre outras coisas porque empresta a quem patrocina caridades uma superioridade moral problemática, que se nutre da violência social brasileira. Nessa área, eu prefiro o escracho do Chacrinha, que atirava postas de peixe sobre o auditório enquanto perguntava com deboche: “Vocês querem bacalhau?!” O teatro da humilhação pelo menos não vinha embrulhado em cordialidade nem usava a máscara do bom-mocismo.
Aojeriza aos políticos, o descrédito dos partidos, o espírito de facção que tomou conta de setores do Judiciário e do Ministério Público, a sensação aguda de que as instituições, a começar pelo Congresso, operam em causa própria e não representam aspirações coletivas nem organizam demandas da sociedade – isso tudo se soma ao recrudescimento da violência e a evidências cotidianas de que os serviços públicos funcionam muito mal, quando não estão à beira do colapso. O exemplo do Rio de Janeiro talvez seja o mais representativo do atual desmanche, até porque a cidade costuma ser uma biruta da direção em que sopra o vento em escala nacional. Alguém já disse que o Rio é um trailer do Brasil.
Jair Bolsonaro por enquanto é o beneficiário desse caldeirão. Com ele, a extrema direita deixou de ser uma força residual, a opção de uma franja da sociedade, para adquirir certa expressão e presença nacional. Numa eleição marcada por um grau exasperante de incertezas, sabemos isto: que o conservadorismo extremo jogará um papel inédito na arena política desde a redemocratização.
Ele foi gestado nas manifestações que desembocaram na queda de Dilma. Quando se visita o noticiário dos últimos anos, são recorrentes os relatos de uma certa tensão entre o movimento mais amplo pelo impeachment, em que prevalece o antipetismo por assim dizer “democrático” (com aspas mesmo), e os defensores da intervenção militar no país.
“Pedido de intervenção militar racha passeata anti-Dilma na Paulista”, diz o Estadão em 15 de novembro de 2014, logo depois da eleição; “Manifestação no Rio mistura impeachment e golpe militar”, escreve o jornal O Dia em 15 de março de 2015; “Protestos contra Dilma coincidem com a data do golpe militar AI-5”, estampa o Valor Econômico em 12 de dezembro de 2015. Os exemplos poderiam se multiplicar. Há mal-estar, há eventuais enfrentamentos, mas não há incompatibilidade plena entre a massa verde-amarela e os nostálgicos do regime autoritário. Eles se toleraram.
“Há um exagero da imprensa em relação a meia dúzia de gatos pingados que defendem a intervenção militar. É evidente que sou contra e o PSDB também”, despachou o senador Aloysio Nunes na avenida Paulista, ainda em 2014, quando Aécio Neves podia andar na rua. Os gatos pingados se multiplicaram no lusco-fusco do antipetismo. A energia social mobilizada pelo impeachment (deflagrado formalmente por Eduardo Cunha, não esqueçamos) redundou num imenso desrecalque conservador, no qual está presente uma espécie de “revanche da província, dos ratos de missa, das pudibundas, dos bacharéis em lei”, como descreveu Roberto Schwarz num ensaio de 1970 ao tratar das forças que haviam sido liberadas pelo golpe militar de 1964.
À luz disso pode-se pensar na cruzada moralista do MBL, por exemplo. Ela representa um deslocamento da fúria conservadora na direção dos costumes depois que a bandeira do combate à corrupção lhes foi subtraída, com a queda do PT – afinal, não há como defender a decência na condução da coisa pública e apoiar o governo Temer ao mesmo tempo.
Embora Jair Bolsonaro se conecte bem com esse espírito, não acredito que consiga ir muito mais longe do que já foi como candidato. Sim, eu sei que a imprensa não levou Trump a sério, que o establishment não levou Trump a sério, que seu próprio partido não o levou a sério, que ninguém acreditou naquele paspalhão – e ele é hoje o presidente dos Estados Unidos. Estava enraizado num ressentimento tão difuso quanto monumental, mas estranhamente invisível aos olhos de todos.
Tosco, meio aparvalhado, infantiloide, fascistão à moda brasileira, Bolsonaro me parece até mais crível do que Trump. Mas não consigo vê-lo como um nome viável quando a campanha afunilar. Não tem partido, não tem tempo de tevê, não terá o PIB ao seu lado, ao contrário do que diz o “mercado” ouvido pela Folha. De qualquer modo, mesmo se perder tudo daqui em diante, Bolsonaro já ganhou. Difícil, aliás, imaginar alguém mais vitorioso no processo dos últimos anos.
A aposta do PIB, até segunda ordem, será em Geraldo Alckmin. Não se sabe ainda se ele conseguirá atravessar a via Dutra, se será capaz de sensibilizar o Rio com aquele seu jeito de Pin-da-mo-nhan-ga-ba. Sua fala, no entanto, será mais mansa que a do militar boquirroto. O país não precisa de gente que cospe fogo, mas de gente que gosta de gente – e sobretudo de quem trabalha. Bolsonaro late, Alckmin faz.
Ninguém percebeu, mas a campanha do tucano à Presidência foi lançada bem antes da convenção do partido em dezembro, ao cair da tarde de um domingo de setembro, no bairro do Morumbi, em São Paulo, quando a Polícia Civil armou uma imensa cilada, com mais de 100 homens, para capturar um bando de assaltantes que aterrorizava a região. Assim que saíram do casarão que haviam acabado de assaltar, foram todos diligentemente fuzilados. A queima de fogos durou alguns minutos, dez bandidos, dez cadáveres, não sobrou ninguém para contar a história. Quem é que precisa de Bolsonaro?
“As portas da aeronave foram fechadas sem atraso, cumprindo o nosso compromisso com a pontualidade.” Ouço a aeromoça e penso que nem tudo está perdido, ao mesmo tempo que sou tomado por uma tristeza difícil de definir.
Abro então um livro que há anos prometia ler, uma das muitas lacunas e frustrações que a gente vai acumulando ao longo da vida. É Conversa na Catedral, de Mario Vargas Llosa. A cena de abertura descreve um repórter deixando a redação do jornal La Crónica, em Lima. Ele olha a paisagem em volta – “carros, edifícios desiguais e desbotados, esqueletos de anúncios luminosos flutuando na neblina, o meio-dia cinzento” – e pergunta: “Em que momento o Peru tinha se fodido?” Anda um pouco pela rua, “de mãos nos bolsos, cabisbaixo, escoltado por pedestres”, e pensa que ele era como o Peru, “também tinha se fodido em algum momento.” Mas “em qual”?
O avião acaba de decolar.
*Publicado na revista piauí