sábado, 2 de fevereiro de 2013

Você pensa que é livre. Mas, na verdade, livre é o gato laranja

Você pensa que é livre. Mas, na verdade, livre é o gato laranja

Você pensa que é livre. Mas, na verdade, livre é o gato laranja



Todos os dias, às 17h, um gato alaranjado atravessa o telhado em frente à janela da minha sala no escritório. Tranquilo, devagar, despreocupado. Mas firme – como não poderia deixar de ser com um bichano de estirpe. Não sei qual o seu destino. Entregar-se a sevícias com a amante? Cair na farra com outros bigodes do bairro? Ou perpetrar algum ato ilícito? – até porque é impossível alguém ser tão pontual para um compromisso honesto. Nem as carolas, que corriam atrás do padre na igreja do bairro onde cresci chegavam tão pontualmente para a Ave Maria.
Enfim, o gato exala liberdade, provocando inveja neste que vos escreve. Sentimento agravado pelo fato da minha janela ser ornamentada com grades chumbadas pelo proprietário do imóvel, separando o caminho do gato e o meu. “Humano patético”, deve pensar o sacripanta.

Gato laranja, dia 28 de janeiro
Liberdade é uma bela abstração. Na prática, fazemos nossas escolhas dentro de uma faixa de possibilidades previamente determinada pela sociedade ou pelo grupo hegemônico. Somos livres, mas para optar pelas alternativas “a”, “b”, “c” ou “d”. Boa parte das vezes, se escolhermos “nenhuma das anteriores”, o gongo soa e uma cara de repreensão coletiva nos constrange.
Você acha, por exemplo, que exerce liberdade de escolha ao optar por um canal a cabo só porque há centenas de outros a dispor? Pense bem: quem colocou os canais lá? São todas as opções de assuntos e tipos possíveis? Todos os discursos presentes na sociedade estão representados?
Para falar a verdade, nem sua vida lhe pertence. Se, prontamente, pensou algo do tipo “Ah, claro que não, maldito herege! Ela pertence a Deus”, por favor, tome estes cinco reais e vá comprar balas para o tio lá na esquina, ok? Enquanto isso, converso com a mamãe e o papai. Afinal de contas, mesmo em sofrimento atroz, você não é livre para colocar seu ponto final.
Como a vida nos entrega uma miríade de opções pré-moldadas, vamos nos acostumando a considerar que elas são as únicas possibilidades. Nos acomodamos nessa zona de conforto. Não é o Ocidente que vem repetindo há dois mil anos que bem-aventurados os mansos porque eles herdarão a terra? Para o versículo, adotamos a interpretação de cobaia, ou seja, quem não questiona, será recompensado. Agora ou depois. Se é que existe depois.

Gato laranja, dia 29 de janeiro
Enfim, vale sempre lembrar que inovação dentro do sistema é reforma, não revolução, ao contrário do que alguns revolucionários de shopping acreditam fazer. Defender transformações, dentro de parâmetros pré-estalecidos. Buscar mudar o mundo e ser, ao mesmo tempo, o “empregado do mês”. Educados, enquadrados, embutidos, que não precisaram descobrir o que queriam ser quando crescer. Isso foi escolhido para eles.
É claro que possibilitar a ação livre de seres pensantes e contestadores pode colocar em risco a própria estrutura montada para que tudo funcione do jeito em que está. Pessoas assim, que – com espírito de grupo e coletivamente – discutem, debatem, discordam, mudam e criam opções além daqueles oferecidas, em tese, seriam úteis para uma sociedade. Mas, na realidade, são vistas com desconfiança e chamadas de mal-educadas. Subversivas. O capeta.
No jornalismo, a recompensa de cumprir o que o poder político ou econômico espera de nós pode vir na forma de dinheiro, de poder e da vaidade de ter os dois. Do contrário, não raro, colegas são vítimas de censura, ostracismo e danação – que tende a vir na forma de processos criminais ou civis.
Fico me perguntando como é que alguns fuinhas que se intitulam jornalistas se prestam a um papelzinho vergonhoso de publicar versões de grandes corporações sem checar antes a informação? Por glória, por dinheiro ou por medo, o fato é que – ao adotarem esse comportamento de vassalagem profissional – parecem cumprir o que se espera deles. Que não saiam do prumo.
Não estou falando de um caso específico, mas de um pacote que me incomodou muito esses dias. Será que esse pessoal, depois de um dia cheio de “trabalho”, não tem nenhum pesadelo à noite? Do tipo, ser tragado por cimento, afogado em óleo de automóvel, envenenado em pesticida ou enforcado em linha de transmissão?
Para eles, deve ser revoltante ver um gato laranja caminhando livre para onde quiser e tendo a rotina que escolheu. Uma perda de tempo! Se dependesse do julgamento desse pessoal, o gato teria liberdade de se deslocar para onde quisesse, sim. Mas do lado de cá das grades.

Gato laranja, dia 30 de janeiro

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