terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Fora de Pauta | Brasilianas.Org

Fora de Pauta | Brasilianas.Org

A defesa dos Direitos Autorais Eternos: uma proposta modesta


Our copyright laws are stealing from the mouths of Charles Dickens' great-great-great-great granchildren

Na terça-feira 14, a Agência de Crimes Organizados Graves (SOCA) postou uma mensagem em RnBXclusive.com, afirmando: "Se você tiver baixado a música usando este site, você pode ter cometido uma infração penal que acarreta uma pena máxima de até 10 anos de prisão e uma multa ilimitada sob a lei britânica. "

A ameaça da SOCA é uma defesa contundente daquilo que nós prezamos neste país - o direito de um criador se beneficiar da sua propriedade intelectual, seja ela uma música, livro, filme, ou jogo. Sem essa garantia de compensação, não pode haver quaisquer novas obras criativas que estão sendo produzidos, e é por esta razão que temos continuamente aumentado termos de direitos autorais de 14-28 anos previsto pelo Estatuto de Anne , em 1710 para "a vida, mais 70 anos", hoje em dia.

No entanto, agora, como já instituimos penas como décadas de prisão e multas ilimitadas para os infratores de direitos autorais, é hora de dar o próximo passo e estender ainda mais os direitos autorais.

Imagine que você é um pai de 30 anos e você acaba de publicar um novo romance best-seller. Sob o sistema atual, se você viver até 70 anos de idade e seus descendentes tiverem filhos com a idade de 30, o autor em seu livro - e, portanto, os proventos - daria para seus filhos, netos, bisnetos, e grande- bisnetos.

Mas o que, eu pergunto, sobre seus tatara-tatara-tatara-netos? O que eles ganham? Como nossas leis podem ser tão insensíveis a ponto de negar-lhes o benefício de seu trabalho duro em nome de algum conceito abstratos como o "bem público", simplesmente porque nasceram de um século e meio depois que o livro foi escrito? Afinal, quando você escreveu o seu livro, ele saltou de sua mente totalmente formado, sem necessidade de qualquer inspiração de outros trabalhos criativos - você não deve absolutamente nada ao público.

Não, é claro que a nossa lei de direitos autorais atual é inadequada e injusta. Temos de passar aos direitos de autor eternos -- um sistema onde os direitos de autor nunca caducarão, e um mundo em que já não poderão tirar comida da boca dos descendentes de nossos criadores.

Com direitos de autor eternos, e sabendo que nossos tatara-tatara-tatara-netos seus descendentes poderão se beneficiar financeiramente os nossos esforços, sem dúvida, nos estimulará a alcançar alturas criativas maiores do que jamais visto anteriormente.

No entanto, para torná-lo inteiramente justo, Copyright Eterno deve ser aplicado retroativamente para que as gerações atuais possam se beneficiar de obras dos seus antepassados, em vez de permitir que estranhos possam rasgar sua herança.

Na verdade, com que direito a Disney e BBC começa a adaptar Alice no País das Maravilhas, Bela Adormecida, e Sherlock sem pagar os descendentes de Lewis Carroll, dos Irmãos Grimm, e Arthur Conan Doyle?

Claro que haverá alguns efeitos estranhos. Por exemplo, toda a raça judaica vai se beneficiar de seus direitos autorais eternos sobre grande parte da Bíblia, e os parentes Shakespeare receberão royalties inesperados a partir das milhares de performances e adaptações de suas peças - dinheiro merecido, acho que todos podemos concordar.

Naturalmente, vamos precisar de uma burocracia controlada pelo governo para controlar o uso de material protegido por direitos de toda a história e distribuir corretamente os royalties para os milhares de milhões de beneficiários em tempo hábil. Existem algumas desvantagens, como por exemplo, podemos esperar que inúmeros casos legais poderão surgir sobre a obra de vários criadores famosos, que, infelizmente, vão atolar nossos tribunais para o futuro indefinido, mas é um preço razoável, a fim de colocar as coisas direito.

Uma idéia ousada como Copyright Eterno inevitavelmente terá adversários que desejam ficar no caminho do progresso. Alguns afirmam que, devido obras intelectuais não são materiais, ao contrário dos bens tangíveis, e porque eles podem ser copiados sem a perda do original, não devemos tratar como autor de roubo em tudo. Eles podem até citar George Bernard Shaw, que disse: "Se você tem uma maçã e eu tenho uma maçã e nós trocamos essas maçãs, então você e eu ainda temos uma maçã cada um. Mas se você tem uma idéia e eu tenho uma idéia e nós trocamos essas idéias, então cada um de nós terá duas idéias."

Esses adversários toleram a atividade criminosa, pura e simples, e não são francamente melhores do que os próprios criminosos. Por que alguém iria querer criar novas idéias e obras intelectuais se eles não podem beneficiar-se delas para sempre? Será que devemos acreditar que as pessoas têm outras motivações além daquela puramente financeira e quantificável? E eles estão sugerindo que devemos continuar a permitir a "criadores" modernos manchar o legado de lendas como Jane Austen e de Hans Christian Andersen, com suas adaptações inúteis e sem valor, remixes e reinterpretações de Orgulho e Preconceito e A Roupa Nova do Imperador?

Em nome da transparência, eu quero apontar um problema real com Direitos Autorais Eternos, em que será difícil de aplicar, devido à natureza intrinsecamente criminosa da tecnologia digital, que permite que as informações sejam copiadas perfeitamente e instantaneamente. Na ausência de uma proibição total da tecnologia, que evidentemente seria um pouco draconiana, uma solução óbvia seria a de configurar dispositivos digitais para detectar, relatar e evitar a duplicação de material com direitos autorais. Sim, isso pode fazer com que os libertários e defensores da liberdade de expressão saiam loucos em protesto, mas um pouco de ar fresco não lhes faria mal nenhum.

Nós certamente não queremos ouvir as sugestões deles, que nos levaria ampliar a definição de "uso justo" e, terrivelmente, reduzir a termos de direitos autorais de volta para apenas uma vida, ou até menos. Não só tal ato privar nossos grande-grande-netos de seu direito de nascença, mas certamente sufocar a criatividade para a idade das trevas dos séculos 18 e 19, um tempo desesperadamente magro para a arte em que teve que se contentar com meros escrevinhadores como Wordsworth, Swift, Richardson, Defoe, Austen, Brontë, Hardy, Dickens, e Keats.

Será que realmente queremos voltar a esse mundo? Acho que não.

http://blogs.telegraph.co.uk/technology/adrianhon/100007156/infinite-cop...

Sobre a solidão

Sobre a solidão: pNesses dias de carnaval abre-se uma boa janela pa refletirmos sobre a doença da pós-modernidade: a solidão. E nada melhor que pensar nessas palavras de Chico Buarque: “Solidão não é a falta de gente para conversar, namorar, passear… isto é carência. Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar…isto é Saudade. Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe as vezes, para realinhar os pensamentos…isto é Equilíbrio. Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe compulsoriamente para que revejamos a nossa vida…isso é um princípio da natureza. Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado…isto é circunstância. Solidão é muito mais que isso. Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma.”/p

Folha de S.Paulo - Opinião - Escravos da modernidade - 21/02/2012

Folha de S.Paulo - Opinião - Escravos da modernidade - 21/02/2012

Vladimir Safatle

Escravos da modernidade

Na semana passada, a imprensa veiculou a notícia de que uma construtora servia-se de trabalho escravo.

A obra não era uma hidrelétrica na região Norte ou em algum lugar de difícil acesso, onde sempre é mais complicado descobrir o que se passa. Na verdade, a obra encontrava-se quase na esquina com a avenida Paulista.

Trata-se da reforma de um dos mais conhecidos hospitais da capital paulista, o Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Ironicamente, a empresa responsável pela obra chama-se "Racional" Engenharia.

Como não podia deixar de ser, a empresa afirmou que os trabalhadores respondiam a uma empresa terceirizada e que os dirigentes desconheciam realidade tão irracional. Este foi o mesmo argumento que a rede espanhola de roupas Zara utilizou quando foi flagrada servindo-se de mão de obra escrava boliviana empregada em oficinas terceirizadas no Bom Retiro.

É muito interessante como empresas que gastam fortunas em publicidade e propaganda institucional são tão pouco cuidadosas no que diz respeito às condições aviltantes de trabalho das quais se beneficiam por meio do truque tosco da terceirização. Quando se contrata uma empresa terceirizada, não é, de fato, complicado averiguar as reais condições a que trabalhadores estão submetidos, se seus turnos são respeitados e se seus alojamentos são decentes.

Há de se perguntar se tal desenvoltura não é resultado da crença de que ninguém nunca perceberá o curto-circuito entre imagens institucionais modernas, requintadas, "racionais", e sistemas medievais de exploração.

No fundo, essa parece ser mais uma faceta de um velho automatismo brasileiro de repetição: discursos cada vez mais elaborados e modernos, práticas cada vez mais arcaicas. Afinal, tal precariedade foi feita em nome de novas práticas trabalhistas, mais flexíveis e adaptadas aos tempos redentores que, enfim, chegaram.

Não mais a rigidez do emprego e do controle dos sindicatos, mas a leveza do paraíso da terceirização, onde todos serão, em um horizonte próximo, empresas. Cada trabalhador, um empresário de si mesmo.

Que essa flexibilidade tenha aberto as portas para uma vulnerabilidade que remete trabalhadores à pura e simples escravidão, isto não retiraria em nada o brilho da ideia. Pois apenas os que temem o risco e a inovação poderiam querer ainda as velhas práticas trabalhistas. Pena que o novo tenha uma cara tão velha.

Pena também que, como os gregos mostrem a cada dia, quem paga o verdadeiro preço do risco sejam, como dizia o velho Marx, os que já perderam tudo.

VLADIMIR SAFATLE escreve às terças-feiras nesta coluna.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O médico do Brasil | Carta Capital

O médico do Brasil | Carta Capital

Há três meses, o humorista Danilo Gentili lançou em seu programa uma pseudocampanha chamada “Brasil Sem Drauzio Varella”. Era uma alusão irônica ao quadro “Brasil Sem Cigarro”, do programa Fantástico, da TV Globo, no qual o médico fazia uma campanha contra o tabagismo. “Essa mania de ficar enchendo o saco dos outros, dizendo o que as pessoas devem ou não fazer. É isso que me deixa doente”, vociferou. A blogosfera, atenta a polêmicas, dividiu-se. Parte saiu em defesa do doutor, como um rapaz que deixara de fumar havia um mês por causa dele ou uma menina que emagrecera, graças a ele. Outros como Gentili, diziam que o doutor passara dos limites ao ditar regras de saúde na tevê. Mas em um ponto o consenso era total: Drauzio assumira o papel de médico geral da nação, à frente de uma quixotesca batalha pela saúde nacional – como se o País fosse um indivíduo doente sem informação. Por que justamente ele personificara esse pai-de-todos, ao colocar sobre as próprias costas questões de saúde que deveriam ser enfrentadas por meio de políticas do poder público?

Drauzio Varella

“O governo se acomoda. E milhares de meninas morrem por ano por não ter informação sobre aborto”, diz o homem de 1,85 metro de altura, 68 anos e 80 quilos que parecem menos na camisa simples como seus gestos, enquanto se ajeita no sofá em busca de uma posição menos incômoda. “Metade da população está acima do peso e não se fala disso. Os negros morrem mais de diabetes e não se alerta para isso.” As mãos discursam no ar, professor que já foi, a explicar o óbvio para uma plateia sedenta. A solução brilha nos olhos. “O Estado precisa esclarecer a população. Hoje falta mais informação que remédio. Honestamente, é como se o Sistema Único de Saúde (SUS) nunca tivesse sido implantado no Brasil.”

Do alto da autoridade de quem cansou de encontrar senhores idosos que nunca viram um especialista na vida, analfabetos quase cegos de catarata sem conhecer nem o nome da doença facilmente curável e mulheres com mais de cinco filhos ignorantes da chance de uma laqueadura gratuita pelo SUS, Drauzio, qual um porta-voz das carências médicas do País, diz que o peso de não aproveitar o acesso aos meios de comunicação conquistado por ele é grande demais. “Televisão é uma armadilha. Você entra, faz a sua parte, e todos acham que é importante demais para parar. Racionalmente, eu devia parar. Mas não posso. Virou um compromisso com a nação.” Um compromisso assumido da forma mais heterodoxa possível.

Leia também:
Marcos Coimbra: As eleições e a Copa do Mundo

Voluma de lixo no carnaval carioca diminui 59% no primeiro dia
Sudão do Sul: Luta por sobrevivência humana marca o novo país

Era 1967, quando se formou em medicina, já com a calva anunciando o domínio sobre o futuro personagem. O jovem Drauzio Varella sonhava enveredar pelo caminho da saúde pública. “Mas ser sanitarista àquela época era complicado.” Recém-casado, acabou especializando-se em moléstias infecciosas. Tornou-se oncologista. E, em 1983, quando foi a Nova York fazer um estágio em imunologia, viu-se no epicentro do que era pintado como a epidemia gay. Ao ouvir da boca de amigos homossexuais que nunca pegariam a doença, estacou. “Senti que sabia de uma tragédia e precisava fazer alguma coisa.” No Brasil, o governo de João Figueiredo não se interessou pelo assunto. Mas a Aids o traria de volta ao domínio da saúde pública, mas pelo tortuoso caminho da mídia. “Aqui é o doutor Drauzio Varella.” Assim dizia a voz, naturalmente confiável, que ganhou o rádio e a boca dos brasileiros no começo dos anos 1980. Tudo por obra de um homem que entraria para a história do jornalismo – mas cujo mérito se conta pela metade. Drauzio agora repara a dívida.

De volta ao Brasil, “enlouquecido” com as possibilidades devastadoras daquela doença misteriosa, o jovem doutor escreveu um artigo no jornal O Estado de S. Paulo. O texto abriu espaço para uma entrevista na Rádio Jovem Pan, do então diretor Fernando Vieira de Mello, que o convidou a gravar vinhetas sobre o tema. O doutor relutou o quanto pôde. Temia a repercussão entre os pares. “Naquela época, médico sério não aparecia no rádio ou na tevê.” Vieira foi assertivo. Era importante para a população, não para sua carreira. Assim deu as primeiras lições ao futuro médico mais midiático da história nacional. “Aqui é o doutor Drauzio Varella”, diria então a vinheta criada por ele, seguida do conselho de prevenção, paternal às vezes, agressivo, outras, mas sempre fluido. A simplicidade do vocabulário e o tom pausado do discurso, conquistados em 20 anos como professor do cursinho Objetivo, deram à voz grave uma clareza quase mística, por dez anos a fio. Um dia, vaticinou Vieira de Mello, certo outra vez, num corredor da Jovem Pan: ele “acabaria na tevê”.

Drauzio não queria dar rosto à voz. Desde 1997 como colaborador de CartaCapital, onde discorria sobre temas caros à saúde nacional, o doutor seguiu a atender os detentos do Carandiru, maior e mais polêmica cadeia do Brasil, bem longe das telas. Em 1999, tudo mudou. O relato da experiência rendeu o best seller Estação Carandiru, que vendeu mais de 450 mil cópias, foi transformado em filme e o impulsionou a mais um degrau na fama: o de bom escritor, vencedor, inclusive, do Prêmio Jabuti. Provam-no outros nove livros seus, como Por um Fio, no qual trata de forma delicada sobre o enfrentamento de doenças terminais – e que vendeu outras 200 mil cópias.

Mas foi depois do Carandiru que o rosto magro e calvo acabou por ganhar o Brasil. Ciente da imagem de bom moço advinda da publicidade do livro, a Globo o convidou para apresentar uma série sobre o corpo humano comprada da BBC e o encarregara de apresentá-la. O sucesso foi instantâneo. Drauzio começou a ser parado na rua para consultas relâmpagos por um exército de carentes de informação em saúde. E a Globo quis mais. “Eu não queria perder a privacidade, virar uma figura pública”, lembra. Até que passou a assinar uma coluna na Folha de S.Paulo com dicas sobre higiene e saúde e receber da Globo outra proposta. “É importante para a população”, teriam dito. “Eles ficaram loucos com a audiência”, complementa Drauzio. E lá foi ele fazer uma série sobre primeiros socorros, a primeira de mais de 30. Hoje ele grava até três delas por ano, com a qual tem contrato de exclusividade e onde recebe (“bem”) pelo que faz.

O que explica como uma única pessoa conseguiu, em termos de opinião pública, se transformar na maior autoridade médica do País, à frente de campanhas sobre tabagismo, aborto, higiene. É surgir um tema complexo e urgente ignorado pela inépcia do poder público e lá está Drauzio a dar conselhos e a responder dúvidas. “Existe realmente um vácuo em termos de informação em saúde que ele preenche”, diz Raphael Aguiar, especialista em saúde pública e educação e coordenador técnico da Universidade Aberta do SUS. “Como o Drauzio é uma entidade abstrata e carismática que surge sempre na televisão, com linguagem acessível, a pessoa não se sente pressionada. Ela ouve, presta atenção. É mais motivador do que uma campanha.”

O Ministério da Saúde oferece informações, até nos seus sites. Mas há problemas de linguagem. “Conheço gente que ouve que deve tomar uma colher de chá de remédio após o almoço e não toma por não ter colher de chá ou não ter almoçado.” Um paciente, explica Aguiar, deixa o consultório lembrando, em média, 60% das orientações do médico. Uma semana depois, a taxa cai para 15%. Certa vez, conta, ele viu num ambulatório um cartaz alertando para a doença celíaca, rara no País, e incentivando quem lesse a procurar um médico. Ao questionar o governo sobre a demanda desnecessária que recairia sobre o SUS, ouviu a seguinte resposta: fora pressão do lobby da associação dos celíacos. “Comunicação é um problema do SUS. Ele não é eficiente em informar as pessoas. O que o governo precisa fazer é ouvir a população sobre suas demandas reais e estabelecer uma política que promova essas informações.”

Não há dúvida no governo de que a promoção de saúde via educação popular é fundamental para permitir o melhor uso do SUS. Tanto que o Conselho Nacional de Saúde recriou, em 2005, a Comissão Intersetorial de Comunicação e Informação em Saúde, exatamente para fomentar tais políticas. “A área de saúde deveria ter um espaço maior garantido por lei na tevê aberta. Mas, enquanto isso não acontece, é louvável ter iniciativas que levem informações às pessoas”, diz Maria de Lourdes Rodrigues, coordenadora-adjunta da comissão. “Um exemplo é o programa que o SUS oferece de tratamento para parar de fumar. Nem todo mundo sabe disso. E muitos descobrem nesses programas.”

Com tanta unanimidade nacional, o nome surgiu como natural candidato a um cargo público. Em 2005, o então ministro das Relações Institucionais Jaques Wagner procurou-o para um convite. Lula o queria como ministro da Saúde. Mas ele disse não. Não seria a chance perfeita de trazer para a discussão pública as chagas que conhecia de cor, colhidas nos rincões mais carentes do País que visitara na esteira da mídia? “Num cargo como esse há pressões políticas e concessões. E eu não sei fazer esse jogo”, defende-se, citando o exemplo de Adib Jatene, médico de carreira exemplar que foi ministro duas vezes e acabou deixando o de Fernando Henrique Cardoso após perder a ilusão a respeito das possibilidades concretas da cobiçada pasta de orçamento bilionário. “Eu teria de fechar meu consultório, meu site, parar minhas colunas, meus programas de tevê. E tudo para fazer algo que não sei? Jamais.” Drauzio diz ser raramente procurado pelo governo. “Mas tento fazer o meu trabalho em consonância com as possibilidades deles.” Não há mais informação disponível, argumenta, porque o Estado não tem estrutura para atender tanta gente. “As mulheres com mais de 40 anos devem fazer mamografia. Mas o Ministério da Saúde vai mandar todas fazerem o exame amanhã no SUS? Não tem como.” Falta de investimento em saúde não é tudo. Ao elencar os maiores problemas em termos de políticas públicas de saúde, Drauzio não hesita: planejamento familiar está no topo. Numa de suas séries televisivas, ele entrou na sala de milhões de brasileiras para ensinar quais são os métodos anticoncepcionais. “Só nasce criança pobre neste País. Se você encontrar uma mulher presa, de 25 anos, sem filhos, ou ela é gay ou infértil. Mais filhos arruínam a vida dessas pessoas.” Drauzio suspira. Meses depois, quando a van da Globo parava em um posto de saúde da periferia para produzir mais um programa, um enxame de mulheres rodeou o doutor. Uma delas implorou por uma laqueadura. “Por que não se faz uma campanha explicando que a laqueadura é um direito a todas as mulheres com mais de 25 anos e dois filhos? Por medo de ser eugenista, claro. E por medo dos religiosos.” Ateu convicto, ele aponta a Igreja como dona do monopólio da informação, algoz de uma “ditadura moral que faz o governo calar”. Drauzio não se calou. O programa foi um sucesso. “Mas que eu tomei pancada desses demógrafos e padres, tomei.”

Filho de uma família humilde do Brás, bairro operário de São Paulo, Drauzio soube que queria ser médico desde pequeno, ao ver o padecimento da mãe por uma doença degenerativa que povoou sua memória infantil. Ficou órfão aos 4 anos. Aos 22, dava aulas em um cursinho com outros colegas, no que viria a ser o Objetivo, império da educação privada que hoje pertence ao ex-sócio João Carlos Di Genio. É ele quem patrocina, indiretamente, o projeto de pesquisa de antibióticos que leva Drauzio à Amazônia todo mês. Pai de duas filhas do primeiro casamento, e hoje marido da atriz Regina Braga sua rotina nunca foi pacata. Acorda por volta das 5 horas da manhã para correr (participou de várias maratonas). Às segundas, pela manhã, atende as detentas da Penitenciária Feminina. À tarde, grava para a tevê. Terças, quartas e quintas dedica-as aos pacientes de câncer em seu consultório, no terceiro andar de um prédio em frente ao Hospital Sírio-Libanês, do qual faz parte do staff. Às sextas, volta aos estúdios.

Sobra ainda, nas 24 horas diárias, espaço para uma faceta que completa a esfera de influência ímpar. Sempre que pode, Drauzio sobe do terceiro ao 15º andar para falar a 40 mil pessoas por dia, da sala com estúdio e laptops onde mais de cinco pessoas alimentam seu site. Assim ele ergueu silenciosamente, com dinheiro do próprio bolso, um pequeno monumento à promoção gratuita de informações sobre saúde. O www.drauziovarella.com.br começou tímido, com entrevistas com especialistas e dicas de prevenção. E acabou se transformando numa fonte de consulta para 1 milhão de pessoas por mês. Há artigos, entrevistas, vídeos, notícias e, mais acessada que tudo, uma “enciclopédia de saúde”, repleta de verbetes explicativos com informações sobre sintomas, diagnóstico, tratamento e prevenção, que cobre de doenças sexualmente transmissíveis a arroto, de botulismo a erisipela, secundados pelo lembrete: “Procure um médico”.

Sobre os limites de sua atuação quase oracular, de sua assertividade clínica que beira, para alguns, a intromissão nas liberdades individuais, Drauzio não titubeia. “O Estado precisa fazer muito mais para proteger o cidadão do mal de terceiros.” Defrontado com a opinião de filósofos de direita como Denis Rosenfield, para quem o Estado, “ao tentar disciplinar a vida dos cidadãos”, acaba por “impor a sua noção de bem”, ele leva a mão à cabeça. Prepara-se para responder. O telefone toca. Ele atende, muda o horário de um compromisso, dá instruções sobre outro. E retorna exatamente ao ponto do raciocínio que parou. “É burrice dizer que o Estado vai interferir na liberdade individual ao fornecer informações sobre saúde. O livre-arbítrio é um direito, assim como é um direito saber os males que o cigarro ou a obesidade fazem.”

Para quem fumou por 19 anos e perdeu primos e um irmão de câncer e doenças cardiovasculares, a frase choca mais. “Eu não tenho ilusão de que consiga mudar comportamentos. Mas quem fala uma bobagem dessas não percebe que milhões de pessoas que não têm informação alguma podem precisar daquele conselho para viver.” Com o dedo em riste, o médico extraoficial da nação desempenha impecavelmente o papel a ele atribuído pelas pessoas nas ruas das periferias, nas redes sociais e nos barcos da Amazônia. “Se o Estado não dá conta, qualquer ajuda é bem-vinda. Ter 50 milhões de pessoas, a maioria sem acesso a nada, prestando atenção na tevê, ali, em você, é um privilégio.” Ninguém pode acusar Drauzio Varella de não aproveitá-lo

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Folha de S.Paulo - Ilustrada - Para Carr, internet atua no comércio da distração - 18/02/2012

Folha de S.Paulo - Ilustrada - Para Carr, internet atua no comércio da distração - 18/02/2012

Para Carr, internet atua no comércio da distração

Autor de "A Geração Superficial" analisa a influência da tecnologia na mente

Segundo jornalista americano Nicholas Carr, a internet pode ser capaz de homogeneizar as fronteiras culturais

ELISANGELA ROXO
DE SÃO PAULO

O jornalista americano Nicholas Carr acredita que a internet não estimula a inteligência de ninguém.

Ele fez um apanhado teórico sobre a superficialidade que a web provoca no livro "A Geração Superficial - O que a Internet Está Fazendo com os Nossos Cérebros", lançado agora no Brasil pela Agir.

Na obra, o autor explica descobertas científicas sobre o funcionamento do cérebro humano e teoriza sobre a influência da internet sobre nossa forma de pensar.

Graças a este livro, Carr se tornou referência quando o assunto é oposição aos avanços e às possibilidades criadas pela internet.

Para ele, a rede torna o raciocínio de quem navega mais raso, além de fragmentar a atenção de seus usuários.

Mais: Carr afirma que há empresas obtendo lucro com a recente fragilidade da nossa atenção.

"Quanto mais tempo passamos on-line e quanto mais rápido passamos de uma informação para a outra, mais dinheiro empresas de internet, como Google e Facebook, fazem", avalia.

"Essas empresas estão no comércio da distração e são experts em nos manter cada vez mais famintos por informação fragmentada em partes pequenas. É claro que elas têm interesse em nos estimular e tirar vantagem da nossa compulsão por tecnologia."

A crítica de Carr começou com o artigo "O Google Está nos Deixando Mais Burros?", publicado em 2008 na revista "The Atlantic Review". A repercussão foi tamanha que a história virou livro.

FRONTEIRAS

No ano passado, a obra figurou entre as mais vendidas nos EUA e foi finalista da categoria de não ficção do Prêmio Pulitzer, o "Oscar literário". O livro foi traduzido para mais de 20 línguas.

Segundo Carr, a internet, com seu alcance ilimitado, pode ser uma ameaça às fronteiras culturais.

"Nosso uso de tecnologia é influenciado por normas sociais e culturais. Mas, a longo prazo, a tecnologia tende a homogeneizar tudo. Ela já começa a apagar as diferenças culturais e estimula um uso padrão em todo o lugar", ressalta Carr.

"Acho que, ultimamente, a internet é usada de forma igual, com efeitos semelhantes, independentemente do lugar e da cultura."

OFF-LINE

Para tentar recuperar o raciocínio perdido, o próprio jornalista resolveu se desconectar um pouco.

Fechou suas contas no Facebook e no Twitter e mantém apenas a atualização de um blog pessoal.

Carr afirma não ter interesse em voltar para nenhuma das duas redes sociais. Ele as considera fontes de "limitação do pensamento".

Apesar disso, o autor aderiu recentemente à nova rede social do Google, o Google+, que diz ter achado "muita chata".

"Entrei porque escrevo sobre tecnologia e quero entender esse serviço. Apesar de não ser tão banal quanto o Facebook, espero poder encerrar logo minha conta."

A GERAÇÃO SUPERFICIAL

AUTOR Nicholas Carr
EDITORA Agir
TRADUÇÃO Mônica Gagliotti Fortunato Friaça
QUANTO R$ 49,90 (312 págs.)

Folha de S.Paulo - Ciência - Vírus assassinos e medo da ciência - 19/02/2012

Folha de S.Paulo - Ciência - Vírus assassinos e medo da ciência - 19/02/2012
Marcelo Gleiser
Vírus assassinos e medo da ciência
Iniciativa de interromper a pesquisa sobre o H5N1 e a circulação livre dos resultados é alarmante
No final de janeiro, cientistas de vários países assinaram uma moratória de 60 dias cessando certos tipos de experimentos genéticos envolvendo o vírus H5N1, que causa a gripe aviária. Sei que estamos em ritmo de Carnaval, mas achei o assunto importante, mesmo nesta época de hedonismo puro.
O vírus H5N1, comumente encontrado em aves selvagens, raramente afeta humanos e não é transmitido facilmente. Porém, quando afeta, sua eficiência é alta: das 500 vítimas registradas, metade faleceu.
A interrupção das pesquisas foi necessária após um grupo da Holanda mostrar que, quando geneticamente modificado, o vírus pode ser transmitido entre ferrets, mamíferos que fazem o papel de cobaias. O grupo holandês queria demonstrar que devemos ter cuidado: pequenas mudanças podem transformar o vírus numa doença letal e altamente contagiosa, com potencial de causar uma pandemia catastrófica. Ao aprender mais sobre o vírus, poderíamos nos preparar melhor caso ele venha a se transformar.
Os resultados levantam uma série de questões sobre a natureza da pesquisa científica e o seu controle. Tanto que a OMS (Organização Mundial da Saúde) organizou uma conferência às pressas na semana passada com alguns especialistas.
Parece enredo de filme: acidente em laboratório permite que o vírus escape e comece a infectar a população, matando milhões.
Na imaginação pública, é o mito do doutor Frankenstein, o cientista que, mesmo agindo com a melhor das intenções, cria um monstro assassino que foge do seu controle. (Ao menos na versão de Hollywood, mais popular do que a original de Mary Shelley, uma exploração brilhante da ciência de ponta de sua época -início do século 19- e dos limites do poder que temos sobre as forças da natureza).
Quando cientistas veem necessidade de censurar o trabalho de outros cientistas podemos ter certeza de que o debate será ferrenho. Afinal, um dos aspectos mais essenciais da ciência acadêmica é justamente sua abertura: qualquer um pode ter acesso aos dados e à metodologia usada, de modo que os resultados possam ser replicados, testados e, em geral, melhorados.
A iniciativa de interromper a pesquisa e a livre circulação dos resultados é alarmante. Será que esse tipo de pesquisa deve ser proibido? Será que deve ser relegado a laboratórios ultrasseguros, como os que guardam amostras de varíola ou ebola? Será que salvaguardas podem ser implementadas de modo que detalhes-chave sejam revelados apenas para pesquisadores selecionados? E quem decide que pesquisadores são esses? Isso me lembra a paranoia durante o Projeto Manhattan, que criou a bomba atômica na Segunda Guerra. O medo de espionagem quase destruiu a carreira de J. Robert Oppenheimer. Imagine só as teorias de conspiração que surgirão a partir do vírus.
Da bomba atômica deveríamos aprender que a pesquisa nunca anda para trás. Uma descoberta nunca é esquecida. Por outro lado, não devemos equacionar a ciência com a caixa de Pandora. No caso do H5N1, a pesquisa que estuda como o vírus pode ser transmitido entre humanos é o melhor modo de entendê-lo. Ou, caso ocorra, de como criar uma imunização eficiente.

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor de "Criação Imperfeita". Facebook: goo.gl/93dHI


A NOTICIA:

Estudos sobre gripe aviária ficam secretos por enquanto, diz OMS
Criação de mutação do vírus H5N1 transmissível entre mamíferos causou temor de bioterrorismo DA ENVIADA ESPECIAL A VANCOUVER
Uma reunião da OMS (Organização Mundial da Saúde) decidiu que os dois polêmicos estudos que criaram formas mais contagiosas do vírus da gripe aviária (H5N1) devem ser publicados na íntegra. Quando isso vai acontecer, porém, é um mistério.
A decisão da OMS diz que, antes da publicação, é preciso fazer uma ampla discussão sobre todos os riscos envolvidos na divulgação dos detalhes da pesquisa.
Os 22 especialistas que debateram a questão durante dois dias não apresentaram um prazo para isso. Ou seja: essas informações seguem em segredo, por enquanto.
O debate começou quando o NSABB (Conselho Científico para a Biossegurança Nacional), do governo dos Estados Unidos, pediu que as revistas "Science" e "Nature" não publicassem os artigos sobre a pesquisa na íntegra.
Cientistas dos EUA e da Holanda conseguiram fazer com que uma cepa do vírus tivesse mutações que o tornaram transmissível entre mamíferos. O H5N1 só é transmitido entre aves ou, raramente, de aves para humanos.
Na opinião do editor da revista "Science", Bruce Alberts, a opção por publicar os artigos na íntegra no futuro é acertada. Em entrevista ontem na reunião da AAAS (Sociedade Americana para o Progresso da Ciência), ele afirmou que a questão da segurança é importante, mas que não seria fácil replicar os resultados das pesquisas.
"Apesar de a metodologia estar toda ali, não é uma coisa simples de fazer. Você precisa de cientistas especializados e do material adequado."
 

As enchentes e a “falta de planejamento”

As enchentes e a “falta de planejamento”

Verão no sudeste, tempo de chuvas. Sistematicamente, também, tempo de enchentes, casas desabando, pessoas desabrigadas e, às vezes, até mortes. Certamente, neste momento, se discutem soluções, se anunciam investimentos e novas regulações, se buscam culpados… Neste debate, a “falta de planejamento das cidades” sempre aparece como a grande responsável pelos desastres.

As “ocupações irregulares precárias, que não obedecem à lei” e a “falta de fiscalização” aparecem como sinônimos dessa tal “falta de planejamento”. Como se tivéssemos um sistema de ordenamento territorial ótimo, mas que é desobedecido pelas classes sociais mais pobres, que ficam construindo favelas e ocupando locais indevidos. Se seguirmos essa lógica, imediatamente, identificamos os dois culpados pelas tragédias: os “invasores” e os “políticos”, que não fiscalizam. Nada mais equivocado e simplista!

Em primeiro lugar, porque no Brasil simplesmente não existe, nem nunca existiu, um sistema de ordenamento territorial. O que existem são regras setoriais (meio ambiente, patrimônio, urbanismo) que não dialogam entre si e, muito menos, com os sistemas de financiamento do desenvolvimento urbano. Os planos diretores que, teoricamente, deveriam cuidar desta tarefa de ordenar o território, ou são mera expressão dos interesses econômicos dos setores envolvidos diretamente na produção da cidade, ou simplesmente não regulam nem definem os investimentos em cidade nenhuma do país. Além do mais, os planos diretores são municipais, sendo que muitas das nossas cidades são aglomerados ou regiões metropolitanas.

A expansão das cidades, ou seja, as novas áreas que vão sendo abertas para ocupação urbana, NUNCA foi planejada em nosso país. Os loteamentos foram sendo aprovados sempre no caso a caso, quando o proprietário da gleba decidia loteá-la. E nunca existiram programas ou recursos para que os municípios ou Estados produzissem ”cidade” antes de esta chegar.

O que existem são recursos para construir casas, escolas, praças de esporte, investir em água e esgoto, mas nunca “tudo junto ao mesmo tempo agora”. Finalmente, quem pensa que ocupações de áreas não aptas para urbanizar, como várzeas de rios e encostas, são “privilégio” dos pobres, está enganado. Em muitas cidades (vejam a várzea do Tietê, em São Paulo) este é um modelo disseminado…

No ano passado, logo após as chuvas que devastaram a região serrana do Rio de Janeiro, no início do ano, além de vários locais em Niterói e na cidade do Rio, em abril, a presidência da República encomendou aos ministérios uma Medida Provisória para tratar justamente do tema do ordenamento territorial. Em outubro, finalmente, o governo federal editou a Medida Provisória 547 (link), determinando a formulação de um cadastro nacional de municípios onde ocorreram eventos deste tipo nos últimos 10 anos, tornando obrigatório para os municípios cadastrados a realização de mapas de risco, planos de contingência e utilização de carta geotécnica para aprovação de loteamentos.

A novidade mais interessante, entretanto, que vai além da questão do risco, é que TODOS os municípios serão obrigados a desenvolver um plano de expansão toda vez que ampliarem o seu perímetro urbano, criando uma nova zona urbana ou de expansão urbana. Nenhum loteamento poderá ser aprovado nesse novo perímetro enquanto não houver esse plano. Além de identificar as áreas de risco, esse plano precisa identificar também as áreas que devem ser protegidas do ponto de vista do patrimônio ambiental e cultural, definir todas as diretrizes e demarcar as áreas que serão utilizadas para a instalação de infraestrutura, sistema viário, equipamentos públicos etc. O plano precisa também prever zonas de habitação de interesse social nessas áreas.

A iniciativa é importante? Sim, é fundamental! Entretanto, se não incidir em questões que hoje sabotam a existência de um sistema de ordenamento territorial, esta vai virar mais uma regulação inútil, emaranhada com as demais… e aí, dá-lhe mais enchentes e desabamentos!

Texto publicado originalmente no Yahoo! Colunistas

Por uma Carta das Responsabilidades Universais

Por uma Carta das Responsabilidades Universais

Por uma Carta das Responsabilidades Universais



Redes, grupos de trabalho, seminários, encontros e conferências estão surgindo nas diferentes regiões do mundo para alimentar os debates na perspectiva de Rio+20.




Projeto de Carta das Responsabilidades Universais


A Carta da ONU e a Declaração Universal dos Direitos Humanos são os dois pilares éticos e políticos da comunidade internacional. Desde já faz sessenta anos, eles têm permitido a criação de instituições e de regras internacionais, fazendo com que seja mais humana a vida internacional. Ainda hoje, eles são insuficientes para gerar as nossas interdependências e proteger a integridade do planeta, cujo futuro depende de nós.

A necessidade de um terceiro pilar ético da comunidade internacional, acompanhando a Carta da ONU e a Declaração Universal dos Direitos Humanos, tem sido reconhecida faz mais de quarenta anos. Têm acontecido já múltiplas tentativas nesse sentido. Nenhuma delas tem atingido o sucesso. Um longo trabalho intercultural e inter-religioso tem demonstrado que as noções de responsabilidade e de co-responsabilidade se acham no coração da ética e do direito do século XXI, sendo então, a base desse pilar. Essas experiências expõem as dificuldades do exercício, mas também, permitem ter uma visão do conjunto das dificuldades que se tem que confrontar. O trabalho de elaboração e do inicio do debate da Carta das Responsabilidades Universais se alimenta de todas essas experiências.

Tem dois tipos de desafios: os critérios a serem respeitados pelo texto de ética «universal »; a maneira de conseguir colocar a sua introdução no debate internacional, para logo depois, atingir à sua adoção pela comunidade internacional. Isso é o fruto de quinze anos de trabalho. O Rio+20 chega nesse processo num momento específico, e a iniciativa do governo do Brasil torna-se decisiva.



1.– Os critérios de o terceiro pilar

a) Um texto de ética universal tem que estar arraigado na consciência das sociedades. A ética não se decreta. É o resultado de uma longa historia. As pessoas simples têm que reconhecer a legitimidade de um texto, já que ele aparece como um eco dos seus corações e das suas vidas.

b) Um texto tem que ter um alcance universal, se aplicando em diferentes escalas, desde a vida individual até a governança mundial, desde as crianças até os Estados ou as empresas multinacionais, se aplicando também em todos os setores da vida, da economia e das relações internacionais, da ciência e do meio ambiente. Daí que os textos específicos demais quanto a um setor, como os rascunhos da Carta da Terra elaborados durante a Cúpula da Terra de 1992, não tiveram sucesso. Um texto de ética universal tem que poder se traduzir logo em convenções internacionais aplicadas em setores particulares (desde a biodiversidade até os paraísos fiscais) e ele se torna a sua base.

c) Um texto de ética universal tem que ser o fruto de um diálogo inter-religioso e inter-cultural. Passou já aquele tempo quando a ação determinada de um pequeno grupo de pessoas animadas por René Cassin e Eleanor Roosevelt podia transformar um conceito elaborado em Ocidente num principio universal, a Declaração Universal dos Direitos Humanos; um princípio de ética universal tem que achar um eco nas diferentes culturas, condição por uma parte, para ele ser aceito por uma comunidade internacional multipolar, e condição também para ele ter um alcance prático.

d) O texto tem que enunciar princípios éticos gerais e não só enumerar preceitos normativos; trata-se do corolário da sua generalidade; confrontado à diversidade das situações e aos dilemas éticos da vida real, onde as normas morais entram em contradição e onde precisamos priorizar e escolher, ele tem que propor formas para a escolha; quando o texto confrontar a diversidade das atividades, ele tem que permitir elaborar para cada uma delas princípios mais precisos, ou seja, códigos deontológicos. Porém, o princípio ético é o fundamento do código, ele não é o código mesmo.

e) Segundo o indicado na expressão « terceiro pilar », o texto tem que ter uma base durável e sólida, a partir da qual ele possa elaborar, ao longo do tempo, um edifício diversificado: regras de direito internacional, convenções internacionais aplicadas nos setores os mais variados, códigos de deontologia profissional, programas de educação, contratos, etc. À semelhança dos preâmbulos das constituições, ele tem que exprimir de uma maneira perene os fundamentos do « viver juntos ». Para o texto poder ser durável, ele tem que ser curto e não só fazer alusão aos problemas que tem que se resolverem no imediato, mas ele tem que falar das categorias de problemas achados em diferentes épocas.

f) As rações de apresentá-lo hoje têm a ver com uma mudança profunda de nossas sociedades, com um novo estado da humanidade que tem que durar. Eis o caso da interdependência planetária, do impacto das ciências e da tecnologia, da necessidade de voltar compatível o bem-estar de todas as pessoas e a preservação da integridade do planeta.

g) Um texto geral não é só uma vaga declaração de intenção que todo mundo aceita, porém sem comprometer ninguém. Os princípios éticos têm que demonstrar que eles inspiram -numa multidão de situações concretas- uma mudança do comportamento, que essa mudança resulta de uma inquietação ética individual – o desejo que os atos sejam coerentes com as convicções-, de um acordo contratual –tal o caso dos códigos éticos adotados por uma instituição ou uma profissão- ou de regras de direito derivadas de um princípio ético- como as regras e os tribunais de justiça derivados dos direitos humanos-.

h) Na transposição de regras de direito, um princípio ético tem que poder seguir três caminhos: a transposição dentro dos direitos nacionais; a criação de um direito internacional dotado das suas próprias instâncias e dos seus próprios mecanismos de sanção; a criação de uma tonalidade cultural que seja favorável para a emergência de uma jurisprudência internacional, que circule de uma esfera jurídica para outra.

O processo de trabalho que acabou num anteprojeto de Carta das Responsabilidades Universais foi inspirado diretamente pela analise desses critérios, e acreditamos que a idéia de responsabilidade, de uma parte, e a sua tradução num projeto de texto, de outra parte, se apresentam como uma resposta satisfatória para todas essas exigências. De uma maneira específica, os dez anos da prática do debate e das traduções concretas do principio das responsabilidades nas diferentes culturas e nas diferentes profissões, têm permitido verificar certa quantidade dessas especificações.


2. As condições de uma adoção de um terceiro pilar pela Comunidade internacional

a) A adoção de um texto fundamental pela comunidade internacional é o resultado de um processo. Uma etapa essencial do processo tem a ver com colocar na agenda internacional a idéia do texto – a necessidade dele- e de um projeto de texto – a concretização de uma resposta possível para essa necessidade-. Esta é a etapa que temos que atravessar na ocasião do Rio+20.

b) A legitimidade de um projeto de texto se deduz segundo três considerações: é o fruto de um processo de trabalho intercultural; responde satisfatoriamente às especificações que têm sido enunciadas; implica a sociedade e não é só o produto de intercâmbios diplomáticos.

c) A função de um comitê formado por altas personalidades é aquela de afirmar de uma maneira audível e crível diante dos governos, diante das sociedades e diante das transmissoras mediáticas, a absoluta necessidade de esse terceiro pilar. Sem uma consciência compartilhada de essa necessidade e de essa urgência, o processo do andamento do texto dentro do mais profundo da negociação internacional será interrompido no seu andamento mesmo. O comitê de altas personalidades representa uma forma de consciência moral universal capaz de proclamar a necessidade de atingir um resultado.

d) A função do seminário de juristas internacionais de setembro de 2011 é dupla: manifestar o caráter internacional e intercultural do processo de elaboração; verificar que o processo de texto respeite as especificações enunciadas e, de maneira particular, que ele satisfaça à necessidade de propor uma nova fonte do direito internacional e um eco para as tentativas de evolução, que estão indo já nesse sentido.

e) As reflexões éticas têm também que envolver a sociedade, daí a importância da Cúpula dos povos que antecede a Cúpula dos chefes de Estado. Durante essa cúpula dos povos, as questões éticas têm que ser abordadas, mas também os impasses atuais relacionados com a fragilidade das regulações internacionais e do direito internacional. O formato e a agenda dessa cúpula dos povos fazem parte da estratégia do conjunto.

f) Um país importante tem que ter a iniciativa de apresentar esse assunto na agenda da Cúpula, de impô-lo diante das diplomacias que preparam hoje uma cúpula sem consistência e que não ameaça nenhum interesse nacional. Segundo diversas rações, só o Brasil se encontra numa posição favorável para esta iniciativa para o Rio+20.

g) Logo depois dos debates que terão lugar no Rio+20, um grupo de países terá que iniciar o processo para atingir à adoção de um texto na Assembléia Geral das Nações Unidas. Vários tipos de grupos podem ser previstos.


Proposta para uma Carta das responsabilidades universais

Preambulo

Nós, Representantes dos Estados Membros das Nações Unidas, reunidos no Rio de Janeiro na Cúpula do Planeta, em junho de 2012



Constatando

• -1- que a amplidão e a irreversibilidade das interdependencias que foram criadas entre os seres humanos, entre as sociedades e entre a humanidade e a biosfera constituem uma situação radicalmente nova na história da humanidade, transformando-a de modo irreversivel em uma comunidade de destino;

• -2- que a busca infinita de modos de vida e de desenvolvimento atuais, acompanhada de uma tendencia a limitar suas proprias responsabilidades, é incompativel com a harmonia entre as sociedades, a preservação da integridade do planeta e a salvaguarda dos interesses das gerações futuras;

• -3- que a amplidão das mudanças hoje necessárias está fora do alcance de cada um de nós e implica no empenho de todas as pessoas e de todas as instituições públicas ou privadas;

• -4- que as modalidades juridicas, politicas e financeiras de direção e de contrôle das instituições publicas e privadas, em particular aquelas cujo impacto é mundial, não as incita a assumir plenamente suas responsabilidades, e até as incita à irresponsabilidade;

• -5- que a consciencia de nossas responsabilidades partilhadas face ao planeta é uma condição de sobrevivencia e um progresso para a humanidade;

• -6- que nossa co-responsabilidade, além dos interesses legítimos de nossos povos, é de preservar nosso planeta único e fragil, evitando que desequilibrios maiores provoquem catastrofes ecológicas e sociais que afetem todos os povos da terra;

• -7- que a consideração do interesse alheio e da comunidade, a reciprocidade entre seus membros são os fundamentos da confiança mútua, de um sentimento de segurança e do respeito à dignidade de cada um e da justiça;

• -8- que a proclamação e a busca de direitos universais não basta para regular nossas condutas, os direitos sendo inoperantes quando nenhuma instituição tem a capacidade de garantir sozinha suas condições de aplicação;

• -9- que estas constatações necessitam a adoção de principios éticos comuns inspirando nosssas condutas e nossas regras bem como as de nossos povos


Nós adotamos, em nome de nosso povos, a presente Carta das Responsabilidades universais e

Nós nos comprometemos:

• a dela fazer o fundamento de nossos comportamentos e de nossas relações;

• a divulgá-la para todos os setores da sociedade;

• a levá-la em conta e a colocá-la em prática no Direito internacional e nos Direitos nacionais

Principios da responsabilidade universal

1. O exercicio por cada um de suas responsabilidades é a expressão de sua liberdade e de sua dignidade de cidadão da comunidade mundial;

2. Cada ser humano e todos em conjunto teem uma co-responsabilidade para com os outros, com a comunidade próxima e distante, e para com o planeta, na proporção de seus haveres, de seu poder e do saber de cada um.

3. Esta responsabilidade implica em considerar os efeitos imediatos ou diferidos de seus atos, de evitar ou de compensar os danos, tenham eles sido provocados ou não voluntariamente, que eles afetem ou não sujeitos de direito . Ela se aplica a todos os setores da atividade humana e em todas as escalas de tempo e de espaço.

4.Esta responsabilidade é imprescritivel, a partir do momento em que o dano for irreversivel.

5. A responsabilidade das instituições, tanto públicas como privadas, quaisquer que sejam as regras que as rejam, não exonerará de responsabilidade seus dirigentes e reciprocamente.

6. A posse ou o desfrute de um recurso natural induz a responsabilidade de gerá-lo para o proveito do bem comum.

7. O exercicio de um poder, não obstante as regras pelas quais ele for concedido, não será legítimo se o seu detentor não responder por seus atos diante daqueles e daquelas sobre os quais exerce tal poder, acompanhado das regras de responsabilidade à altura do poder de influencia exercido.

8. Ninguém pode se exonerar de sua responsabilidade em nome de sua incapacidade se não tiver feito o esforço de se unir a outros, ou em nome de sua ignorancia, se não tiver feito o esforço de se informar

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Quarto Poder: Como funciona o tratamento de movimentos sociais nas redações

Quarto Poder: Como funciona o tratamento de movimentos sociais nas redações
Dez regras da grande imprensa ao abordar movimentos sociais

Por Osvaldo da Costa, na Adital

Convenções básicas (quem não cumprir está sujeito à demissão):

1ª) Toda ocupação de terra deve ser chamada de invasão
Ao invés de usar o termo adotado pelos movimentos sociais, "ocupação" – manifestação de pressão para o cumprimento da Constituição pelo Estado e denúncia da existência de latifúndios –, é mais eficiente para o objetivo de defesa do princípio da propriedade privada a utilização da palavra "invasão" – tomar para si pela força algo que não lhe pertence.

Dessa maneira, implicitamente, estamos dizendo que discordamos dessa prática e a consideramos ilegal, e conseguimos gerar a sensação de pânico generalizado em todos os donos de propriedade, sejam elas rurais e produtivas, ou até mesmo propriedades urbanas.

Observação: essa regra não é generalizável. Para os casos em que os Estados Unidos invadem países, destroem a infra-estrutura e matam a população, deve-se utilizar o termo "ocupação".

2ª) Regra do efeito dominó: fale só do maior para bater em todos
O acordo da grande imprensa é manter somente o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na pauta dos noticiários, e evitar sempre que possível falar da existência de outros movimentos sociais. Para isso, quando se tratar de movimentos do campo, basta usar sempre a expressão genérica "movimento dos sem-terra", ou falar dos "sem-terra", sem mais detalhes.

Se a pauta exigir o detalhamento do movimento, recomenda-se associá-lo sempre ao alvo principal, com expressões como "movimento dissidente do MST".

Essa regra ainda colabora para a desunião entre os movimentos, pois os menores se incomodam pela invisibilidade e pelo fato de terem suas ações relacionadas sempre ao MST.

3ª) Reforma Agrária deve ser tratada como questão de polícia
Movimentos sociais e reforma agrária devem, sempre que possível, ser tratados na página policial, no caso de jornais impressos, e no bloco do crime e dos desastres, no caso dos telejornais.

Caso não seja possível enquadrá-los na seção policial ou em espaço próximo, use títulos para editorias que lembrem o belicismo, como "campo minado". Não importa o que diga sua matéria, os títulos devem falar por ela, mesmo que não tenham relação com o conteúdo. Use tons sensacionalistas e fatalistas.

4ª) Nunca divulgue os artigos progressistas da Constituição Federal
Os artigos da Constituição Federal que tratam da função social da terra, que integram o código agrário – 184 a 191 – nunca devem ser mencionados em reportagens sobre os movimentos sociais, para evitar a compreensão de que a ação de invasão de terras pode ter algum respaldo legal.

É sempre recomendável lembrar da lei de Segurança Nacional e da necessidade de uma legislação contra o terrorismo no Brasil. O termo "Estado de Direito" é ideal para isso. Considere qualquer manifestação uma afronta ao Estado de Direito, mesmo que ele seja apenas o Direito do Estado.

Se falar do Estado de Direito e suprimir os artigos progressistas da Constituição não for suficiente, convém colocar as reportagens próximas à cobertura de ações terroristas ou, levantar a suspeita de que há relação do movimento social com uma organização terrorista ou guerrilheira estrangeira.

Conjunto de regras para serem selecionadas e aplicadas conforme a conjuntura exigir:

5ª) Levante a bola para o oportunista de plantão
Não é verdade que o papel da imprensa é apurar a verdade dos fatos. Todo aspirante deve saber que a imprensa tem poder para gerar os fatos.

Além disso, apurar fatos implica em sair da sua cadeira e nem todos eles podem ser apurados por telefone. Basta fazer uma reportagem suspeitando de algo, e procurar um oportunista que queira protagonizar a indignação pública para a suspeita ganhar dimensão de notícia.

Sempre há alguém à disposição esperando para se deslumbrar com as luzes dos holofotes. O exemplo bem sucedido mais recente foi o caso da requentada pauta da suspeita da legalidade do financiamento público para cooperativas da reforma agrária, em que o presidente do Superior Tribunal Federal (STF) desempenhou o papel de porta-voz da bancada ruralista, dando respaldo para a suspeita, e de quebra, aproveitando para atacar o governo federal.

Se não houver ninguém do Judiciário ou algum deputado, não importa, qualquer um, sem nunca ter ido a um assentamento ou acampamento pode ser transformado em "especialista" em questão agrária: sociólogos, filósofos e até jornalistas.

6ª) Nem sempre devemos apurar os dois lados da notícia
Quando já conseguimos incutir um pré-julgamento na opinião pública sobre o caráter marginal das ações dos movimentos sociais, podemos reforçar essa opinião entrevistando somente o lado agredido pelas ações, as vítimas dos movimentos. Fica implícita a informação de que, como os integrantes dos movimentos são foras da lei, quem deve escutá-los é a polícia e o poder judiciário. Se ainda assim tiver que ouvi-los, seja breve e descontextualize a frase.

7º) Não deve existir noção de historicidade, nem de causa e conseqüência em nossas reportagens
Não abordar as razões da ação dos movimentos sociais, evitar a divulgação da nota à imprensa. Não importa há quanto tempo às famílias estejam acampadas, quais promessas foram feitas pelo governo, se a terra é do banqueiro que saqueou os cofres públicos ou do coronel que vive do trabalho escravo. Se detenha nas conseqüências da ação.

8°) Dramatização da repercussão das ações dos movimentos sociais
Retire o foco das motivações estruturais e causas históricas e centre a abordagem nas conseqüências para os indivíduos donos ou empregados das propriedades invadidas ou atacadas.

– fale do prejuízo econômico para o proprietário, e se possível faça uma entrevista com o mesmo ou com um familiar próximo para mostrar a comoção da família diante do ataque bárbaro. É importante mostrar o estado de choque emocional, e o ideal é que a pessoa esteja chorando.

– surte grande efeito a entrevista com trabalhadores da fazenda ou da empresa. O maior exemplo é o caso da ação no horto da multinacional Aracruz no Rio Grande do Sul, em que uma técnica de laboratório se fez passar por pesquisadora e, em prantos (!), afirmou que a destruição das mudas de eucalipto acabou com mais de vinte anos pesquisa.

Nesse caso, as reportagens conseguiram colocar os movimentos sociais como contrários à ciência e ao desenvolvimento tecnológico, evitando a pauta concreta da ação, que se centrava na expansão ilegal das terras da empresa e na depredação da natureza com o monocultivo de eucalipto.

9ª) Campanha de desmoralização permanente dos movimentos sociais
É sempre bom manter semanalmente pautas de desgaste aos movimentos sociais, mesmo que não haja uma ação que renda manchete. Nesses casos, a regra é trabalhar com associação, encaixando uma reportagem que fale sobre um movimento após ou entre matérias que falem, por exemplo, de casos de corrupção no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), venda de terra e desmatamento em assentamentos da Amazônia Legal, etc.

Bata nas mesmas teclas, insista nas mesmas teses permanentemente, mesmo que elas já tenham sido usadas antes. Insista, por exemplo, que o MST irá romper com o Governo Lula desta vez, mesmo que o movimento afirme e demonstre desde o primeiro dia de governo que nunca esteve atrelado.

E quando não for possível tomar como alvo os movimentos sociais, vale mirar nas bandeiras de luta deles, alegando estarem ultrapassadas, deslegitimando-as como parte da solução atual para os problemas do país. Nesse caso, pode-se até reconhecer o valor histórico que bandeiras como reforma agrária cumpriram no Brasil e em outros países, mas deve-se usar essa manobra apenas para recusar essas propostas no presente.

10ª) É fundamental saber manipular a dimensão subjetiva do telespectador ou do leitor
Não é apenas com a manipulação dos fatos e com a edição das entrevistas que podemos influenciar na interpretação que os nossos consumidores farão. Na TV, a expressão facial e o tom de voz dos repórteres, dos comentaristas e, sobretudo, dos âncoras, é determinante. A adoção do semblante sério e do tom de voz grave deve indicar a importância do tema.

Além da performance dos jornalistas como atores, é recomendável que o pano de fundo do cenário também traga imagens que gerem medo e desconfiança. O exemplo do Jornal Nacional é o mais ilustrativo: para falar da reforma agrária e dos movimentos que lutam por ela: aparece uma cerca rompida e três vultos disformes – "afinal não são pessoas, são sombras" –, empunhando ferramentas de trabalho como se fossem armas, numa ação de invasão da propriedade (e da casa do espectador).

Carta Maior - Gilson Caroni Filho - Mensalão: o grotesco midiático se anuncia

Carta Maior - Gilson Caroni Filho - Mensalão: o grotesco midiático se anuncia

DEBATE ABERTO

Mensalão: o grotesco midiático se anuncia

À medida em que se aproxima o julgamento do processo que a imprensa chama de "escândalo da mensalão", velhos expedientes são reeditados sem qualquer cerimônia que busque manter a aparência de jornalismo sério.

A manchete do jornal O Globo, em sua edição de 15 de fevereiro de 2012 ("Marcos Valério é o primeiro condenado do Mensalão"), não deixa dúvidas quanto ao espetáculo que dominará páginas e telas depois do carnaval: à medida em que se aproxima o julgamento do processo que a imprensa chama de "escândalo da mensalão", velhos expedientes são reeditados sem qualquer cerimônia que busque manter a aparência de jornalismo sério.

A condenação do publicitário por crimes de sonegação fiscal e falsificação de documentos públicos seria, mesmo que não surjam provas de conduta delituosa por parte dos réus, a senha para o STF homologar a narrativa midiática e não ficar maculado pela imagem de "pizza" que uma absolvição inevitavelmente traria à mais alta corte do país. Essa é a intimidação diária contida em artiguetes e editoriais.

Como destaca Pedro Estevam Serrano, em sua coluna para a revista Carta Capital, "o que verificamos é a ocorrência constante de matérias jornalísticas em alguns veículos que procuram nitidamente criar um ambiente de opinião pública contrária aos réus, apelando a matérias mais dotadas da verossimilhança dos romances que à verdade que deveria ser o mote dos relatos jornalísticos". Os riscos aos pilares básicos do Estado Democrático de Direito são nítidos na empreitada. Serrano alerta para o objetivo último das corporações:

"E tal comportamento tem intenção política evidente, qual seja procurar criminalizar o PT e o governo Lula, pois ao distanciar o julgamento de sua concretude por relatos abstratos e simbólicos o que se procura pôr no banco dos réus não são apenas as condutas pessoais em pauta mas sim todo um segmento político e ideológico."

A unificação editorial em favor da manutenção dos direitos do CNJ em votação de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) não revela apenas preocupação com o indispensável controle externo do poder judiciário, mas o constrangimento necessário de juízes às vésperas de um julgamento que envolve, a construção política mais cara à mídia corporativa. No lugar do contraditório, a imposição de uma agenda. Ocupando o espaço da correta publicidade dos fatos, a recorrente tentativa de manipulação da opinião pública. A trama, no entanto, deve ser olhada pelo que traz de pedagógico, explicitando papéis e funções no campo jornalístico.

O pensamento único, para o ser, não basta ser hegemônico; tem que ser excludente. Não apenas de outros pensamentos, mas do próprio pensar. Parafraseando Aldous Huxley, "se o indivíduo pensa, a estrutura de poder fica tensa". Na verdade, na sociedade administrada não pode haver indivíduo. Apenas a massa disforme, cujo universo cognitivo e intelectivo é, de alto a baixo, subministrado pelos detentores do poder social. É nessa crença que se movem articulistas, editores e seus patrões.

Em um sistema de dominação é essa, e nenhuma outra,, a função da "mídia": induzir o espírito de manada, o não-pensar, o abrir mão da razão e aderir entusiasticamente à insensatez programada pelos que puxam os cordões. Os fracassos recentes não nos permitem desdenhar do capital simbólico que as corporações ainda detêm para defender os seus interesses e o das frações de classe a ela associadas.

Nesse processo, o principal indutor é o "Sistema Globo", que o falecido Paulo Francis, antes de capitular, apropriadamente crismou como "Metástase", pois de fato suas toxinas se espalham por todo o tecido social. Seus carros-chefe, que frequentemente se realimentam reciprocamente, são o jornal da classe média conservadora e, principalmente, o Jornal Nacional, meticulosamente pautado "de [William] Bonner para Homer [Simpson]" que, de segunda a sábado, despeja ideologia mal travestida de notícia sobre dezenas de milhões de incautos

E o que "deu" no Jornal Nacional "pauta" desde as editorias dos jornais impresso-, O Globo por cima e o Extra por baixo- e das revistas, "da casa" ou de uma "concorrência" cujo único objetivo é ser ainda mais sensacionalista e leviana. Algumas vezes, o movimento segue o sentido inverso: uma publicação semanal produz a ficção que só repercute graças à reprodução da corporação.

Os outros instrumentos de espetaculosidade complementam o processo, impondo suas versões de pseudo-realidade: o Fantástico, ersatz dominical do JN; as novelas "campeãs de audiência", com seus "conflitos" descarnados e suas "causas sociais" oportunisticamente selecionadas como desconversa; e, culminando, o Big Brother Brasil, a celebração máxima da total vacuidade.

Processo análogo vem sendo usado, há mais de duas décadas, para esvaziar e despolitizar a política, reduzindo-a às futricas de bastidores, ao "em off" e aos "papos de cafezinho"; e, em época eleitoral, à corrida de cavalões das pesquisas de intenção de voto que ocupam as manchetes, o noticiário, as colunas – ah, as colunas! – e até mesmo a discussão supostamente acadêmica. A não menos velha desconversa nacional: olha todo mundo pra cá, e pela minha lente, para que ninguém olhe pra lá.

Falar-se em "opinião pública", nesse cenário, é um escárnio. "Opinião" pressupõe um espaço interno, em cada indivíduo, para reflexão, ponderação, crítica e elaboração, não controlado pelo poder social. "Pública" requer que exista uma esfera pública, de discurso racional entre iguais, aberto ao contraditório e não subordinado aos ditames do "mercado" ou subministrado de fio a pavio pelo braço "midiático" do mesmo poder. Nem uma nem outra condição pode existir em ambiente que tenta subjugar "corações e mentes", induzindo-o sistemática e deliberadamente à loucura social.

Avançamos bastante, mas não nos iludamos: o que vem por aí é uma luta renhida. De um lado, o espetáculo autoritário.. E, de outro, a cidadania e o Estado de Direito como permanente construção.


Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Internet e os novos bilionários com bens alheios | Blogs OI | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito

Internet e os novos bilionários com bens alheios | Blogs OI | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Código Aberto

Internet e os novos bilionários com bens alheios

Por Carlos Castilho em 09/02/2012

Compartilhar no Facebook

A rede social Facebook acaba de lançar ações em bolsa num negócio que foi avaliado em 75 bilhões de dólares pelos investidores norte-americanos e europeus. Mas os ativos físicos da empresa criada em 2004 pelo então adolescente Mark Zuckerberg não somam nem uma fração mínima do seu valor de mercado. O que a rede Facebook tem de realmente valioso não pertence a ela, mas sim a você.

Esta é a nova lei da economia digital baseada na internet, onde o grande paradigma ainda é o Google, cujo valor de mercado girava, em 2011, em torno dos 174 bilhões de dólares. A empresa que controla o principal sistema de buscas na Web também usa como ativo mais valorizado o seu e o meu conhecimento, que entregamos de graça em troca de algum benefício como contato com amigos ou informações online.

Os chamados ativos intangíveis são hoje a mercadoria mais valorizada na economia digital, o que leva a uma reflexão sobre nosso papel como usuários e fornecedores de informações. Estamos sendo levados à condição de doadores de uma mercadoria preciosa que gera fortunas bilionárias nas mãos de outras pessoas.

A lógica convencional nos diz que, no mínimo, estamos fazendo o papel de idiotas ou otários. Mas não adianta reclamar porque na realidade estamos entrando num outro terreno lógico, onde a produção de conhecimento responsável pela inovação passou a ser o motor da economia capitalista. O conhecimento não se produz mais apenas nos laboratórios, mas nas ruas, florestas, comunidades e redes, só para citar alguns contextos mais comuns.

Todos nós colocamos diariamente na Web uma massa enorme[1]de dados, informações, fatos e conhecimentos[2], mas recebemos em troca um valor mínimo em serviços fornecidos por empresas como a Facebook e o Google. Em suma, um péssimo negócio pela matemática financeira na qual fomos educados.

As empresas já descobriram, ou pelo menos estão tentando descobrir como fazer dinheiro com informações, dados e conhecimentos alheios. Depois de constatar esta realidade, cabe a nós fornecedores dessa matéria-prima valiosa investigar como podemos ser também levados em conta num novo sistema de gestão de riquezas.

Não será uma tarefa fácil e nem rápida porque estamos começando do zero num ambiente altamente complexo e absolutamente novo. Mas já existem alguns indícios, tomados a partir de fatos isolados registrados na Web, de que a valorização, inclusive financeira, dos usuários da internet começa com o desenvolvimento da idéia da cooperação[3]. As reações de usuários do Google e Facebook a modificações nas políticas de privacidade de ambas as empresas mostram que quando eles se articulam para defender interesses ou desejos, situações imprevistas acontecem.

A cooperação parece utópica num contexto social onde fomos educados para valorizar o individualismo, mas Yochai Benkler , co-diretor do Berkman Center for Internet & Society, da Universidade Harvard , decidiu aprofundar o estudo do tema no livro The Penguin and the Leviathan: How Cooperation Triumphs over Self-Interest. O professor de direito fez uma ampla pesquisa nos estudos de neurociência e afirma no seu livro que nós somos muito mais cooperativos do que imaginamos.

Dados científicos não faltam para Benkler basear sua afirmação, mas ele mesmo reconhece que a massa de evidências e experiências sobre a cooperação entre internautas ainda precisa aumentar muito para vencer os valores culturais do individualismo entranhados no nosso dia a dia.


[2] Para esclarecer algumas dúvidas surgidas em posts anteriores: informação é um dado contextualizado (causas, conseqüências, beneficiados, antecedentes etc.) e conhecimento é um conjunto de informações geradoras de ações. As letras de um alfabeto podem ser consideradas informações. A sua organização em palavras pode indicar um conhecimento. Os dois conceitos não são unânimes porque se trata de uma questão complexa. O que é informação para uma pessoa pode ser conhecimento para outra. A definição de conhecimento é discutida desde Platão. Se desejarem, podemos discutir isto mais profundamente noutro post.

[3]A cooperação é uma relação não hierárquica entre dois ou mais indivíduos visando o desenvolvimento de uma obra coletiva. Mais detalhes, inclusive a diferença entre colaboração e cooperação, no site do psicólogo e designer digital Luciano Lobato.

Blog do Mario

Blog do Mario

Congresso Internacional do Medo

Carlos Drummond de Andrade


Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que estereliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Texto ao bispo: feridas precisam ser limpas para cicatrizar

Texto ao bispo: feridas precisam ser limpas para cicatrizar

Texto ao bispo: feridas precisam ser limpas para cicatrizar

21 Comentários »

Criei, anos atrás, o humorado Troféu Frango para premiar declarações estranhas em geral – quem é leitor deste blog já está acostumado com ele. Hoje, o Frango vai para José Benedito Simão, bispo de Assis (SP):

Presidente da Comissão pela Vida da regional Sul 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), ele disse ao jornal Estado de S. Paulo que a recém-empossada ministra da Secretaria de Política para as Mulheres, Eleonora Menicucci, “é uma pessoa infeliz, mal-amada e irresponsável”.

Isso! Não critique o discurso ou o argumento do seu adversário. Desqualifique-o! Aliás, considerando a profundidade das declarações do religioso, acho que ele poderia ter ido além. Por exemplo, dito que Eleonora tem cara de mingau, chulé no pé e não sabe fazer bola com chiclete!

“Ela é infeliz, mas ninguém precisa ficar sabendo. Seu discurso mostra que ela pode estar reabrindo feridas que estavam cicatrizando”, claramente se referindo ao quiorocó causado pelos setores conservadores – entre eles a Igreja – após o lançamento do 3o Programa Nacional de Direitos Humanos em 2010.

Para cicatrizar uma ferida, primeira é preciso abri-la, retirar toda a sujeira que se acumulou e lavá-la bem. Daí usar os medicamentos apropriados para que não ocorra nenhuma infecção, ou seja, que o problema se espalhe. Aí sim, é hora de fechá-la. O que o bispo pede é diferente. Ele quer que ninguém mexa na ferida, que há séculos produz um pus fétido na sociedade, que é a forma como tratamos o direito das mulheres ao seu próprio corpo. E como o Estado se omite em debater temas importantes, deixando para outras instituições essa responsabilidade.

Mas, afinal de contas, ele tem razão. Que história é essa de pensar que o Brasil é laico e democrático? O Brasil pertence aos pastores de Deus, aos homens e aos héteros. Ah, e aos empresários também.

Recordar é viver: críticas colocaram lado a lado setores da igreja, dos militares e do agronegócio, que possuem em suas fileiras alguns dos maiores bastiões do conservadorismo e do atraso. É realmente o país da piada pronta, como diz outro José Simão, esse muito mais engraçado. Lembra muito aqueles microcosmos de poder do Brasil profundo, presentes nas obras de Dias Gomes: o padre, o delegado e o coronel, tomando uma cachacinha na (ainda) Casa-grande e discutindo sobre os desígnios do mundo. Ou pelo menos do vilarejo.

Com tanta atitude arbitrária e antidemocrática do governo para ser criticada, a igreja vai cutucar logo a defesa dos direitos humamos, que serve para trazer um alento de civilização em nosso país de mentalidade tão tacanha. Traduzindo as reclamações da igreja: “Vemos essas iniciativas como uma forma do Estado ter independência e não seguir as regras que ajudamos a construir ao longo de centenas de anos”.

José também falou sobre as declarações de Eleonora sobre a orientação sexual de sua filha, afirmando que ela “deveria tomar mais cuidado para não dar mau exemplo para nossos adolescentes”.

Eleonora, ao deixar claro que tem orgulho de uma filha lésbica, faz um serviço à sociedade, ao mostrar que isso não deveria assustar ninguém. O bispo que deveria tomar cuidado para não dar mau exemplo aos nossos adolescentes com declarações que podem promover a homofobia e a intolerância.

Apesar de não concordar com várias posições da igreja, acredito que José não fala pelo conjunto dela. A Igreja Católica não é José Benedito Simão, nem Joseph Ratzinger. É muito mais do que isso. É também a Comissão Pastoral da Terra, por exemplo. É Pedro Casaldáliga, Henri des Roziers, Tomás Balduíno, Xavier Plassat. Há muita gente lá dentro que defende, de verdade, uma vida de dignidade.

Mas é engraçado ver alguém que tem medo do debate público. Principalmente, quando este vai revelar o anacronismo de seu próprio discurso. Quiçá sua insignificância.