sábado, 9 de junho de 2012

Carta: sócio acusa Gilmar de desvio e sonegação

Carta: sócio acusa Gilmar de desvio e sonegação

Carta: sócio acusa Gilmar de desvio e sonegação

Na edição da Carta que chega essa semana às bancas, Leandro Fortes publica estarrecedora reportagem:
Cobras e lagartos – disputa empresarial – em um processo judicial conturbado, Inocêncio Coelho, ex-sócio de "Gilmar Dantas" no IDP – Instituto Brasiliense de Direito Público – acusa o ex-Supremo Presidente Supremo de “desvio de dinheiro e sonegação” de impostos.
O título da capa é sugestivo: “Fraude na escolinha do professor Gilmar”.
Fraude.
Sonegação.
Desvio.
Desvio de conduta, também, porque um Ministro da Suprema Corte não pode ser empresário – só pode ser professor.
Tudo pronto para um impeachment!
Está tudo lá na estarrecedora reportagem de Leandro Fortes, que já tinha identificado as impressões digitais da Globo nas operações do Carlinhos Cachoeira.
A história que Leandro conta essa semana mostra que Inocêncio Mártires Colho, último Procurador da República do regime militar, entrou na Justiça contra Gilmar, porque:
– Gilmar atacava o cofre da empresa sob a alegação de que precisava custear festas familiares e fazia retiradas significativas;
– atacava o cofre na esperança de cobrir depois, com “acertos futuros”- o que jamais acontecia e, portanto, praticava o que se chama de “evasão fiscal”;
– Gilmar queria uma “vantagem diferenciada” na empresa, porque se cansou de ser o “garoto propaganda” do IDP;
– será que isso explica a obsessão pelos holofotes da Globo, essa “vantagem diferenciada”?;
– apavorado com o processo judicial do ex-sócio, Gilmar contratou o segundo advogado mais poderoso do Brasil – Sergio Bermudes, aquele que aparece no processo de impeachment que o Dr Piovesan movia e move contra Gilmar (o primeiro é Márcio Thomaz Bastos, cujo escritório move, em nome de Daniel Dantas, uma ação contra Mino Carta);
– da Alemanha, na edificante companhia do amigão Demóstenes Torres, Gilmar conseguiu “trancar” o litígio com Inocêncio e submetê-lo a um providencial “segredo de Justiça”. Viva o Brasil!
– segundo auditoria contratada no litígio, as “remunerações extras” – eufemismo usado pelos auditores para se referir a “retiradas ilegais” – do ex-Supremo chegavam a 14%(!) da receita bruta – não há negocio capitalista que resista a tal voracidade;
– eram pagamentos “feitos por fora”, ou seja, sem recolhimento de impostos
Os sócios fizeram um acordo para encerrar o litígio judicial.
E ministro (ou ex-Ministro) do Supremo “indenizou” Inocêncio em 8 milhões e um Real – onde um ministro do Supremo consegue esse dinheiro, Ministro Celso de Mello, decano da Casa?
Onde?
Onde um Ministro do Supremo levanta R$ 8 milhões?
Leandro Fortes já demonstrou de forma irrefutável – e por isso mereceu ações judiciais movidas pelo ex-Ministro Supremo do Supremo – que o IDP só existe porque:
– recebeu um terreno do notável governador de Brasília, Joaquim Roriz, outra Catão do Cerrado, com um desconto camarada de 80%;
– e obteve um empréstimo no Banco do Brasil do fundo de “para estimular a produção em zonas rurais”.
Quanto tempo dura Gilmar no Supremo?
Ministro Ayres Britto, o senhor permitirá que este “empresário” se sente ao seu lado e vote o mensalão?
É este o Catão de Mato Grosso que denunciou a chantagem do Nunca Dantes – chantagista que ele não processou?
Ele pode continuar a “desonrar a Magistratura”, como previram dois brasileiros íntegros, Joaquim Barbosa e Dalmo Dallari?
A reportagem de Leandro Fortes deveria ser dedicada a Fernando Henrique Cardoso.
Paulo Henrique Amorim
No Conversa Afiada

Presidente uruguaio vive em chácara e doa 90% do salário - O Globo

Presidente uruguaio vive em chácara e doa 90% do salário - O Globo

Governante mais pobre das Américas, Mujica é um ex-guerrilheiro tupamaro

Correspondente
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O presidente uruguaio José Mujica recebe o barbeiro na chácara onde vive, como fazia antes de ser eleito
Foto: Agência El Universal
O presidente uruguaio José Mujica recebe o barbeiro na chácara onde vive, como fazia antes de ser eleito Agência El Universal
BUENOS AIRES — A presidente Cristina Kirchner anunciou esta semana a decisão de transferir para pesos um depósito bancário de US$ 3 milhões, na tentativa de convencer os argentinos a pouparem em moeda nacional. Com um patrimônio estimado em US$ 15 milhões, ela é uma das mulheres mais ricas do país e integra a lista de presidentes milionários da região, como o chileno Sebastián Piñera. Do outro lado do Rio da Prata, o uruguaio José “Pepe” Mujica, o chefe de Estado mais pobre do continente, vive em condições de austeridade e conserva o mesmo patrimônio que possuía quando chegou ao poder, em 2010: uma humilde chácara a 20 quilômetros de Montevidéu e um fusca modelo 1987, avaliado em US$ 1.925. Mujica doa 90% dos US$ 12.500 que recebe mensalmente a programas sociais.


Quando o Uruguai recuperou sua democracia, em 1985, Mujica, um ex-guerrilheiro tupamaro, saiu da prisão e disse que todos em seu país deviam aprender a “viver como pobres”. E foi o que ele fez. Junto com sua companheira, a senadora e também ex-tupamara LuciaTopolansky — que, ao contrário do presidente, pertencia a uma família de classe alta — mudou-se para a chácara e construiu uma vida simples.
Na semana passada, Mujica, de 77 anos, foi notícia no Uruguai por ter saído sozinho para comprar uma tampa de privada. Na volta para casa, o presidente foi visto pelos jogadores do Huracán del Paso de la Arena, um time local, que o chamaram para comer um churrasco e conversar. E lá foi Mujica, com a tampa de privada debaixo do braço.
— A simplicidade do presidente não é pose — contou o jornalista do “El País” Eduardo Delgado. — Participei de várias viagens presidenciais, e todos fomos com Mujica em aviões de companhias comerciais e em classe econômica.
Em entrevista ao semanário “Búsqueda”, realizada durante a campanha eleitoral de 2009, o presidente explicou sua teoria. Para ele, viver como pobre é a única maneira de libertar-se das pressões da sociedade de consumo.
“Temos de escapar da escravidão que impõe a dependência material, que é uma das coisas que mais roubam tempo na sociedade contemporânea”, filosofou então Mujica. “Se você se deixa arrastar pelas pressões da sociedade de consumo, não existe dinheiro que alcance, não tem fim, é infinito”.
Além de doar seu salário, Mujica destina parte do dinheiro restante a pagar tratamentos de saúde para uma de suas irmãs, que sofre de esquizofrenia, segundo confirmaram pessoas que há muitos anos convivem com o presidente. Em sua chácara, a única mudança desde que se tornou presidente foi a construção de uma casinha para os seguranças. Com certa aversão ao protocolo, Mujica teve de aceitar, também, roupas novas. Mas sempre preservando seu estilo informal, que não inclui, até hoje, o uso de gravata.
— Já jantei na casa do presidente, e até a comida é muito simples: é uma típica família de classe média baixa — contou um jornalista uruguaio, que pediu para não ser identificado.
O jeito Mujica de ser é bem visto por muitos uruguaios, mas questionado pelas classes mais altas, que têm certa dificuldade em aceitar um presidente que fala e vive como um homem do campo. Ainda com dois anos e meio de governo pela frente, Mujica tem 52% de aprovação popular, segundo pesquisa do instituto Data Medida. Já seu vice, Danilo Astori, um economista moderado e com um estilo bem mais sofisticado, obteve 60% de avaliação positiva.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

COMISSÃO NACIONAL: EXCESSO DE VERDADE FAZ MAL À SAÚDE | Revista ConsciênciaNet: acesse a sua.

COMISSÃO NACIONAL: EXCESSO DE VERDADE FAZ MAL À SAÚDE | Revista ConsciênciaNet: acesse a sua.

Comissão Nacional: Excesso de Verdade Faz Mal à Saúde
Carlos Alberto Lungarzo
Prof. Tit. (r) Univ. Est. Campinas, SP, Br.
6 de junho de 2012
A Comissão Nacional da Verdade (CNV) do Brasil, instalada oficialmente em maio de 2012, passou desde 2010 por diversas transformações. Todas elas foram impostas pelos militares que não queriam sentir-se “difamados”.
Algumas dessas modificações mudaram totalmente o sentido do projeto.  A mais grave foi eliminar o termo repressão e restringir o objetivo da CNV a “examinar” as violações aos DH ocorridas no país. Isto permite que alguns pretendam investigar “todos os lados”, o que significa deixar tudo como está. Essa proposta abre a política do vale tudo, que pode ser expressada assim:
Alguns militares podem ter sido culpados de crimes, mas muito mais foram os guerrilheiros, os intelectuais, os sindicalistas, as mulheres estupradas, as crianças torturadas para coagir seus pais, e até os fetos de mulheres grávidas assassinadas.
Outro problema é o imenso período para investigar: 1946 a 1988. Será que vão investigar Dutra, Vargas, Quadros, Jango e outros? Aliás, o prazo de dois anos é considerado insuficiente, mas também é verdade que em outros países foram menores.
O número de membros é pequeno: 7 pessoas, das quais uma tem competência teórica e ativa em DH (Paulo Sérgio Pinheiro) e outra possui dedicação histórica à defesa de presos políticos: Rosa Maria Cardoso da Cunha.
Os outros são: um juiz que exige investigar as vítimas, um ex-procurador inimigo da genética e do aborto de anencefálicos, uma psico-jornalista, e dois juristas que já foram ministros.
Dito seja de passagem, o projeto dos direitos humanos é de natureza ética e social, e tem pouca relação com decorar códigos ou citar latinismos. Por sinal, esta CNV não se atribui a tarefa de julgar, o que faz desnecessária a sobrecarga de juristas. Em resumo, 72% da comissão se especializa em bacharelismo confessional, política conservadora e generalidades.
Apesar de tudo isto, a CNV é muito melhor que o silêncio, o que explica o apóio dado a ela por fortes figuras internacionais. Aliás, não é impossível (embora seja improvável) obter resultados substantivos.

Drácula no Banco de Sangue

Setores militares se sentiram inconformados por não ter sido chamados para integrar a Comissão, mas o ministro da defesa tentou os consolar com um argumento típico de diplomatas:
“A presença de militares na comissão não é uma reivindicação. O Brasil não é feito de civis e militares. Ele [o Brasil] é feito do povo brasileiro”, disse o ministro. (Vide)
Ora, se o Brasil é feito pelo povo, então também é feito pelos militares, que, obviamente, são parte do povo. Se o governo pretende uma comissão eclética, deveria incluir algum militar. Todavia, se colocasse um militar deveria também nomear uma vítima, para manter o equilíbrio. Aliás, o ministro parece ter sentido medo de dizer claramente que “não se pode colocar um membro da família Drácula para cuidar do banco de sangue”. O medo é um mal começo para uma entidade que se propõe analisar crimes horrendos, cometidos pela mais poderosa das castas.
Os que têm medo demais não devem meter-se com caras que usam sabres e bazucas. Para eles, seria melhor estimular outras instituições públicas, como a Bolsa-Família.

Jumentos de Tróia

Antes de começar seu funcionamento, alguns dos membros da CNV mostraram que traziam guerreiros ocultos, mas estes não eram gregos, como os que abriram as portas da cidade de Tróia para o ataque helênico.
Um magistrado que integra a CNV provocou a indignação do Comitê Paulista da Memória, Verdade e Justiça (CPMVJ). No começo das atividades, definiu o objetivo da Comissão com uma expressão que passou despercebida para muitos. Ele disse:
“É o compromisso do Brasil com a sua história, com o seu passado, com o esclarecimento da verdade. Uma chance de se reconciliar.”
(Grifo meu. Vide)
Numa sociedade dividida por guerra civil e genocídio, onde um grupo se propõe aniquilar parte do outro (como No Brasil) ou a totalidade (como na Argentina), levantar o princípio de reconciliação significa equalizar algozes e vítimas, torturadores e torturados, mutilados e mutiladores, atiradores e alvos. É dizer aos sobreviventes: “Vocês são quase tão bons quanto os soldados que estupraram vossas filhas e meteram vossos filhos no pau-de-arara. Não sejam vingativos e aceitem esta pechincha: serão tolerados de novo pelas gloriosas FFAA, se ficarem calados.”
A não reconciliação não implica revanchismo nem ódio. Apenas mostra um mínimo de saúde mental, uma repulsa ao cinismo, à hipocrisia e à covardia. Nunca conheci alguém que fizesse cafuné aos algozes de seus filhos, mas se isto acontecer é necessário lhe oferecer toda a assistência psiquiátrica possível.
O CPMVJ denunciou a parcialidade deste juiz, que atuou na Corte Interamericana de Direitos Humanos (CorIDH) contra o direito dos familiares dos assassinados pelos militares. Portanto, ele não cumpre a condição de ser isento, como exige a lei.
Entre a bagagem de outros cavalos de Tróia estão os que afirmam a impossibilidade de revisar a Lei de Anistia. A CPMVJ deixa transparecer que o governo instalou esta Comissão apenas porque estava sendo julgado como réu pelo direito internacional. (Vide)
Quanto a Lei de Anistia, observemos o seguinte: é verdade que o STF considerou estupro, tortura, genocídio e outras atrocidades como crimes políticos, por causa do qual ganhou enorme repúdio internacional. Mesmo assim, os carrascos estão protegidos por esta lei. Isso não pode ser modificado. Entretanto, qualquer parlamento democrático pode derrogar uma lei, e criar outra que não proteja atrocidades.

Investigar Tudo

O juiz membro da CNV tirou novos coelhos de sua cartola. Disse que “Toda violação dos direitos humanos será investigada,” se referindo à necessidade de apurar também as “violações” aos DH cometidas pela guerrilha. (sic)
O bacharelismo faz confundir palavras com coisas. A expressão Direitos Humanos, na forma em que foi definida pelas Nações Unidas após a 2ª Guerra, é um termo técnico que indica os direitos básicos da pessoa humana (à vida, à integridade física e psíquica, à liberdade, à dignidade e outros).
A defesa desses direitos consiste na ação, jurídica, política ou de outra índole, contra os setores que possuem impunidade para violá-los, ou seja: o Estado e as forças paraestatais (parapoliciais, jagunços, corporações, empresas, igrejas apoiadas pelo estado, e outros).
Neste sentido específico, bem conhecido, “direitos humanos” não são o mesmo que “todos os direitos onde os agentes envolvidos são seres humanos”. Se assim fosse, salvo os direitos dos animais (atualmente muito estudados), todos os direitos seriam humanos.
Estacionar em local reservado é violar o direito de alguém (um humano, claro!), que era proprietário da vaga invadida. Um comerciante  viola o direito econômico (também humano), quando dá 10 centavos a menos no troco. A crença de que os direitos humanos são “qualquer coisa”, parece provir de uma confusão semântica dos leguleios ou, para sermos mais exatos, da simulação de que não estão entendendo seu significado, para fazer com que os algozes levem a melhor parte.
Isto me fez lembrar o prefeito de uma cidade do NO do México, que fez arrancar todas as árvores da prefeitura e mandou os funcionários estudar suas raízes. Explicou assim sua decisão: “Hoje, a profe de meu filho lhe mandou encontrar a raiz quadrada”.
Nenhuma comissão pode pesquisar as violações aos DH de pessoas sem poder, que estão fora dos setores dominantes, por razões bem simples:
1)    A Violação aos DH só pode ser feita de maneira sistemática por um aparato organizado, como a Inquisição, a Polícia, os Exércitos, os mercenários armados, etc., etc., etc.  As forças públicas podem matar, numa hora de bombardeio, tantas pessoas como um grupo particular, digamos al-Qai’dah, mata numa década.
Um particular que mata outro numa briga qualquer, por razões x ou y, está violando o direito dessa pessoa a viver, mas não é um violador dos DH no sentido do direito humanitário. A palavra “humano” é tão confusa para este magistrado da CNV, como a palavra “raiz” para o prefeito mexicano.
2)    As Comissões de Verdade, Justiça, Memória, etc., por simples definição, não são formas paralelas da polícia, do Detran, ou da Guarda Municipal. Elas são totalmente especializadas e têm como única e absoluta função investigar os crimes cometidos pelos agentes do Estado, apurando sua intensidade, gravidade, autoria, circunstâncias e punibilidade.
Além destas duas, há numerosas razões de mérito sobejamente sabidas: o diferente papel do estado e do indivíduo, a total desproporção entre os supostos crimes das vítimas e as aberrações dos carrascos, e o fato óbvio de que qualquer violação supostamente cometida pelas vítimas foi retaliada com penas atrozes muito além do mais aberrante código penal. Observem que não estamos falando nada sobre a superioridade de uma ideologia sobre outra.

Dividir os Brasileiros

Os algozes e seus marqueteiros temem que as investigações dividam os brasileiros. Ou seja, bizarramente, eles supõem que tortura e massacre mantêm a unidade!
O assunto da divisão da sociedade pretensamente criada pelas Comissões de Verdade foi explorado em todos os países que tiveram genocídios, para impedir que estes fossem apurados, e sempre coloca a mesma descerebrada ladainha.
A resposta a esta charada é trivial. A sociedade já está dividida. É óbvio que os torturadores e assassinos de centenas de pessoas indefensas estão em outra parte da divisão que aquelas que arriscaram suas vidas (e, às vezes, as perderam), para salvar seus companheiros. Um hierarca do DEOPS está bem no outro extremo da divisão que alguém alvejado pelo chumbo militar, quando participava da captura de um embaixador que financiava tormentos e massacres.
Aliás, coitada a sociedade sem diversidades! Isso só poderia ser bom num planeta perfeito, se existisse. Mas, mesmo assim, exigir essa unidade sugere o fetichismo nacionalista: por arte de mágica, é suficiente traçar uma fronteira num mapa, para que todos os que estão dentro sejam iguais.  A Unidade, pregada pelos fascistas e imperialistas é um eufemismo para um termo bem mais exato: totalitarismo.
O ex-ministro de defesa reconheceu que a CNV tinha sido negociada com os militares, e que foi prometido a eles que se investigariam os crimes dos “dois lados”. Ou seja, esta Comissão, como tantas outras, foi criada para acalmar as vítimas e não ofender os vitimadores. Entretanto, se surgir uma autêntica viligância popular, com ajuda internacional, a atividade da CNV pode tornar-se séria.
Lembremos que a CONADEP da Argentina foi criada como um simples espantalho. De 12 membros, apenas um, o filósofo Gregório Klimovsky (1922-2009), tinha tido contínua participação na defesa dos DH, mas não a nível internacional. Os outros eram politiqueiros, leguleios, líderes religiosos, e até colaboradores da ditadura. Apesar disso, o estado conseguiu, 27 anos depois, punir mais do 1% dos algozes, e quase 10% dos altos quadros.
Se não houver outras consequências, pelo menos, a CNV já está gerando consciência e ação política em muitos jovens, que se manifestam contras as atrocidades cometidas antes de seu nascimento. Ao mesmo tempo, surgem comissões estaduais e, como componente muito original, propõe-se a formação de uma CV para a Universidade de São Paulo, uma instituição que foi o celeiro dos ideólogos do fascismo na região.
Outro fato importante é que os blogues de ódio já manifestam seu medo. Eles dizem: “a esquerda vai difundir mentiras, que, após muito martelar, vão ser aceitas como verdades.”
Curiosamente, nós não temos esse medo. Eles podem falar as suas “verdades” e nós ficaremos contentes de que tenham podido expressar-se. Apenas veremos se a sociedade as engole.

Os pesos e as medidas dos mensalões, por Murillo de Aragão - Ricardo Noblat: O Globo

Os pesos e as medidas dos mensalões, por Murillo de Aragão - Ricardo Noblat: O Globo

Os pesos e as medidas dos mensalões, por Murillo de Aragão

Nunca na história deste país, como diz Lula, o STF esteve tão exposto aos humores da mídia e às pressões ditas “populares” em torno de julgamentos.
O recente julgamento da Lei do Ficha Limpa é um exemplo, com ministros acuados pela repercussão de suas opiniões e um julgamento moroso que deixou diversos políticos em clima de incerteza e manteve resultados eleitorais pendentes de confirmação.
Agora temos uma situação esdrúxula gerada pela proximidade do julgamento de um dos casos conhecidos como “mensalão”. Vários aspectos são merecedores de profunda reflexão. Uma das reflexões possíveis aponta para uma grave questão: crimes semelhantes sendo tratados de forma distinta.
A razão desse sério desvio reside na pressão da mídia. Infelizmente, em um país ainda em construção, onde a mídia de qualidade existe apenas para poucos, não é de estranhar que muitos, ao invés de noticiar, busquem “editorializar” o noticiário de modo a influir no curso dos acontecimentos.
Considerando que tal situação é do amplo conhecimento, juízes, em especial do STF, deveriam estar mais do que blindados para tentativas de manipulação e de influências indevidas no curso de processos. Sejam elas quais forem.
No caso dos mensalões, vemos uma distinção no tratamento de crimes assemelhados. Tal distinção revela quanto exposto está o STF às pressões midiáticas para agilizar ou retardar as investigações e, até mesmo, dar tratamento desigual a assuntos iguais.
Por exemplo, o conhecido mensalão mineiro, que envolve políticos do PSDB, caminha lentamente ao largo da lupa da mídia e razoavelmente incólume das pressões indignadas. Na semana passada, a audiência do caso quase passou despercebida da atenção geral.
Comparando-se os dois mensalões, percebem-se fortes incongruências no tratamento de denúncias e de acusações semelhantes.
O mensalão mineiro tramita morosamente desde 1998 e foi desmembrado. Políticos com mandato estão sendo julgados no STF; pessoas sem mandato estão sendo julgadas na primeira instância. Isso significa que, além da lentidão no andamento do processo, houve um desmembramento que beneficia – justamente – quem não é autoridade com o duplo grau de jurisdição. Nada disso ocorreu no mensalão do PT, cuja eclosão se deu em 2005, isto é, sete anos depois de iniciado o processo de Minas Gerais!
Porém, os achados da Polícia Federal no caso do mensalão mineiro são tão extravagantes quantos os encontrados no mensalão do PT, e que serão comprovados no mensalão candango.
Em tempo: antes que me acusem de querer minimizar as condutas identificadas nas investigações dos mensalões, devo dizer que tenho convicção de quem em ambos os casos houve condutas ilegais passíveis de condenação política e judicial. Não tenho dúvidas quanto aos malfeitos; tenho dúvidas acerca das responsabilidades dos nomes aventados.
Preocupa-me, no entanto, que, no afã de se fazer justiça, se atropele o estado de direito, não se reconheçam direitos básicos de ampla defesa e deixe de existir um ambiente saudável para o julgamento de tão importantes questões. Não pode haver dois pesos e duas medidas.

Murillo de Aragão é cientista político

segunda-feira, 4 de junho de 2012

A pressa de Ayres no mensalão

A pressa de Ayres no mensalão

A pressa de Ayres no mensalão

Da Folha de S. Paulo
Novo presidente da corte quer acelerar julgamento para ter tempo de decidir outras questões em seu curto mandato
Ministro tem recebido críticas de colegas por querer julgar um caso relevante por semana antes de se aposentar
FELIPE SELIGMAN
DE BRASÍLIA
Pouco mais de um mês após assumir a presidência do STF (Supremo Tribunal Federal), Carlos Ayres Britto já precisou entrar em campo duas vezes para apaziguar os ânimos de colegas e enfrentou resistências de alguns deles, principalmente relativas ao julgamento do mensalão.
Os ministros reagiram, por exemplo, à proposta feita por ele de separar um mês na agenda da corte para julgar o caso e decidiram que o julgamento não ocorrerá em todos os dias da semana. Assim, a análise da ação deve levar dois meses para terminar.
Para Ayres, o ideal seria o tribunal fazer uma força-tarefa e resolver a questão do mensalão em três ou quatro semanas, liberando mais tempo de seu curto mandato de sete meses para outros assuntos. Ele deixará a corte em novembro, quando completará 70 anos.
A maioria de seus colegas, porém, foi contra. O relator da ação, Joaquim Barbosa, afirmou não ter condições físicas de participar de sessões diárias e que durem o dia inteiro por conta de seus problemas de coluna.
Ayres também queria usar o recesso de julho para analisar o caso. Da mesma forma, ouviu dos colegas que isso seria inviável. Alguns deles, como Marco Aurélio e Barbosa, já avisaram que têm compromissos e até viagens marcadas para o período de férias.
Para que o julgamento seja marcado, Ricardo Lewandowski precisa apresentar sua revisão do relatório da ação feito por Barbosa, o que deve ocorrer até o fim do mês.
Ayres chegou a oferecer a convocação de até três juízes penalistas para auxiliá-lo. Lewandowski, contudo, não gostou e avaliou a proposta como uma "indevida pressão" sobre sua autonomia.
AGENDA INTENSA
Ministros ouvidos pela Folha também se queixam da vontade do novo presidente de julgar semanalmente um caso relevante. Um deles disse que não é prudente colocar na pauta "uma final de Copa por semana".
No primeiro mês de Ayres como presidente da corte, o STF julgou, por exemplo, a constitucionalidade das cotas raciais e resolveu conflito de décadas entre índios e fazendeiros no sul da Bahia.
Ayres, no entanto, tem enfrentado problemas de falta de quórum -é preciso ao menos oito ministros no plenário para julgamentos de questões constitucionais- e, em pelo menos três ocasiões, teve que interromper julgamentos já iniciados.
A principal razão para isso é o fato de a ministra Cármen Lúcia, nova presidente do TSE, ter decidido iniciar as sessões da corte eleitoral às 19h e, por isso, não tem ficado até o final dos julgamentos no Supremo. Saindo mais cedo, ela acaba obrigando outros dois ministros que também também são integrantes do TSE a acompanha-la.
Fora os problemas relacionados a julgamentos, Ayres também já teve de atuar como bombeiro em duas ocasiões. A primeira aconteceu no primeiro dia de sua presidência, quando os colegas Cezar Peluso e Joaquim Barbosa trocaram farpas públicas.
Na última semana, ele novamente teve de entrar em campo, desta vez pedindo que Gilmar Mendes baixasse o tom nas críticas ao ex-presidente Lula. Em um movimento de bastidor, combinou com os colegas que o tribunal não deveria entrar na polêmica, transformando o caso em um "entrevero pessoal".

Decifrando os movimentos de Gilmar

Decifrando os movimentos de Gilmar

Decifrando os movimentos de Gilmar

Autor: 
A última edição da Carta Capital, matéria de Cynara Menezes, liquida de vez com o factoide Veja-Gilmar, meramente juntando a lógica com as diversas versões apresentadas por Gilmar.
Primeiro, desmascara o teatro da indignação de Gilmar com o encontro. Ela não se coaduna com uma espera de 30 dias, sem sequer comentar o episódio com seus colegas de Supremo. A revista mostra que o único comentário foi com o presidente Ayres Brito, na 4a feira anterior à capa da Veja. E teria sido uma conversa informal, papo de cafezinho, sem nenhuma dramaticidade.
Depois, alinhava as diversas versões de Gilmar, mostrando o festival de contradições. A reportagem da revista sustentava que Nelson Jobim não ouviu toda a conversa; em uma das inúmeras entrevistas, o próprio Gilmar garante que sim.
Na versão da revista, houve pressão explícita de Lula para adiar o mensalão. Na entrevista de Manaus, Gilmar diz que houve uma breve menção ao mensalão que ele (trinta dias depois) intuiu ter sido pressão.
É certo que houve intriga da pesada de duas experientes jornalistas - uma da TV Globo, outra da Globonews. Mas se fosse tão fácil levar Gilmar no bico, ele não teria chegado aonde chegou.
O mais provável é que sua estratégia tenha sido montada rapidamente, depois do Ministro Ricardo Lewandovski, do STF, ter assumido as rédes da Operação Monte Carlo e liberado as chamadas gravações de conversas fortuitas não incluídas no relatório da PF.
É curioso também como mudou o comportamento da velha mídia em relação a Lewandovski - alvo de uma quebra de sigilo, quando filmadas as mensagens que trocava com uma colega, em uma sessão do Supremo. Agora, é tratado com deferência. A mudança se deve ao poder de que Lewandovski se viu revestido.
Agora, por sua posição no caso, tem poderes quase absolutos. Coube a ele quebrar o sigilo de todo mundo em Goiás. Pode convocar a Polícia Federal, pedir informações, quebrar sigilos.
Além da reportagem da Veja, mudou completamente o comportamento de Gilmar em relação ao Ministério Público Federal e ao próprio mensalão. De uma hora para outra criou caso com Lewandovski, pressionando-o a apressar o relatório.
Do mesmo modo, depois de qualificar o MPF como "milícias" - na Operação Satiagraha -, de repente tomou as dores do Procurador Geral Roberto Gurgel
Se o relatório tivesse sido entregue no prazo pelo qual a mídia pressionava, o julgamento começaria no dia 5 de junho. E, aí, adeus CPI do Cachoeira. Todos os jornais e a Rede Globo centrariam fogo no julgamento do mensalão, abafando completamente a CPI.
Por aí é possível entender a agonia de Gilmar, pressionando pelo relatório de Leeandovski.
Celso Melo e Marco Aurélio Melo já se manifestaram contra essa pressão da velha mídia. E consideraram que a pressão procura transformar o julgamento quase em um rito sumário, prejudicando o direito de defesa. Celso de Melo já opinou que a criação de um mutirão para acelerar o relatório comprometeria o rito legal da corte.

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Jornalismo desencapado

Por Washington Araújo em 29/05/2012 na edição 696
A reportagem de Veja desta semana é um primor de fios desencapados, mas inofensivos, uma vez que nestes não transita eletricidade real, capaz de impactar ou dar um choque. Informa que Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal, teria recebido pressão do ex-presidente Lula, em reunião realizada no dia 26 de abril de 2012, no escritório do ex-ministro Nelson Jobim, também ex-presidente do STF, para adiar o julgamento do processo do chamado mensalão. Mas deixa de informar que o anfitrião do encontro, Nelson Jobim, nega o conteúdo da conversa. Em frases curtas, em bom português, sem uso de metáforas, condicionais ou figuras de linguagem, Jobim colocou uma pá de cal no mais novo escândalo levado às bancas pela revista carro-chefe da Editora Abril, a mesma que, pelo andar da carruagem, deverá ter seu proprietário, Roberto Civita, e seu preposto na sucursal de Brasília, Policarpo Junior, como depoentes na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que investiga o submundo do crime comandado pelo bicheiro Carlinhos Cachoeira.
O que diz Jobim, em notícia publicada no insuspeito O Estado de S.Paulo?
1. “O quê? De forma nenhuma, não se falou nada disso.”
2. “O Lula fez uma visita para mim, o Gilmar estava lá. Não houve conversa sobre o mensalão.”
3. “Tomamos um café na minha sala. O tempo todo foi dentro da minha sala, o Lula saiu antes, durante todo o tempo nós ficamos juntos.”
4. “Na conversa foram tratadas apenas questões genéricas, institucionais. Em nenhum momento Gilmar e o ex-presidente estiveram sozinhos ou falaram na cozinha do escritório.”
Qual foi a parte desses quatro tópicos que o leitor medianamente informado não conseguiria entender? Nenhuma. Todas são claras, assertivas, afirmativas, peremptórias.
Condições normais
A revista faz uso das habituais tintas do escândalo para alcançar seu maior intento: desqualificar a CPMI do Cachoeira, retirando sua legitimidade para investigar a fundo o teor de mais de 200 grampos conseguidos de forma legal e que têm como interlocutores próceres do esquema Cachoeira (bicheiro, arapongas, chantagistas, delinquentes) e o principal executivo de sua sucursal em Brasília, o jornalista Policarpo Junior. E, em assim procedendo, requentar a curiosa tese esposada na capa de sua edição nº 2271, de 18/4/2012, com o seguinte texto: “Mensalão – A cortina de fumaça do PT para encobrir o maior escândalo de corrupção da história do país”.
A revista informa o que seria um encontro de três pessoas, três personalidades com currículos vistosos: Nelson Jobim, o anfitrião do encontro, ex-deputado federal, ex-ministro do STF, ex-ministro da Defesa; Luiz Inácio Lula da Silva, ex-líder sindical, ex-deputado federal e ex-presidente da República; Gilmar Mendes, ministro e ex-presidente do STF. Não soa no mínimo estranho que dos três presentes ao encontro, a revista haja encampado como verdade única e inatacável, beirando a infalibilidade, o relato do ministro Gilmar Mendes? Por que optou por omitir a seus leitores o relato da mesma reunião feito pelos dois outros personagens? E o que ganha Gilmar Mendes, salvo se “vacinar” contra possíveis descobertas de grampos comprometedores envolvendo sua pessoa, o senador Demóstenes Torres e os personagens que vicejam no lodaçal criado por Cachoeira?
A resposta é simples: os relatos de Jobim e de Lula contradizem frontalmente a versão de Mendes. Não seria sensato esperar que uma publicação semanal, tradicional e com a tiragem de Veja, antes de alçar o assunto à sua editoria de escândalos tivesse o cuidado de ouvir os outros dois personagens? Falta de tempo não foi: a reunião ocorreu em 26 de abril e a revista passou a circular exatamente um mês depois, em 26 de maio. O que a revista da Abril não conseguiu apurar em 30 dias, O Estado de S.Paulo conseguiu em menos de 48 horas. O que nos leva a concluir que existe aqui um descompasso muito gritante para ser descartado sumariamente se nos propomos a produzir crítica da mídia. É o que chamo de jornalismo fundado em “informação desinformada”, aquele tipo de jornalismo que privilegia apenas a tese que deseja defender, independente se esta é fundada na verdade ou não passa de manobra diversionista, dessas que se impõem como contraponto a assunto incômodo.
E o assunto incômodo não é outro: a CPMI do Cachoeira não pode ofuscar o chamado escândalo do mensalão. Chega a ser patético imaginar que os assuntos possam interagir em condições normais de temperatura e pressão.
Debate milenar
A temperatura do mensalão se encaminha para seu ato final, dentro dos próximos meses – no mais tardar, no primeiro semestre de 2013. A temperatura da CPMI ainda tem muito espaço para entrar em ebulição: faltam os depoimentos dos governadores Marconi Perillo, Agnelo Queiroz e Sérgio Cabral, dos empresários Fernando Cavendish e Roberto Civita, do jornalista Policarpo Junior, do senador Demóstenes Torres e dos procuradores da República Roberto Gurgel e Claudia Sampaio Isto apenas para começar, porque até o momento a CPMI não conseguiu agregar nada de valor investigativo ao que já foi produzido pela Polícia Federal antes da instalação da Comissão.
A pressão sobre o mensalão, segundo a visão do ministro Gilmar Mendes potencializada por Veja, provém do ex-presidente Lula em favor dos 38 personagens a serem julgados pela Corte Suprema. A pressão sobre a CPMI provém da revista Veja, mas não é bem sobre a CPMI – antes, é sobre alguns dos ministros do Supremo Tribunal Federal em sua tarefa de julgar o mensalão. A reportagem da revista apresenta de forma inusitada suspeitas quanto à isenção dos seguintes ministros:
1. José Antonio Dias Toffoli, quando afirma que o ex-presidente Lula está convencido de que Toffoli “tem de participar do julgamento”. Para a revista, Toffoli deveria se declarar impedido por já ter advogado para o Partido dos Trabalhadores no passado;
2. Carmem Lúcia, quando afirma que o ex-presidente Lula falaria para o ex-ministro Sepúlveda Pertence “cuidar dela”, pois segundo Veja Pertence teria sido o responsável por sua indicação para o STF;
3. Ricardo Lewandowski, quando a revista atribuiu a seguinte frase ao ex-presidente Lula: “Ele só iria apresentar o relatório no semestre que vem, mas está sofrendo muita pressão”. Fica claro, óbvio, que ao atribuir tal frase ao ex-presidente da República, Veja assume seu papel de contrapressão, bem ao estilo: se Lula pressiona Lewandowski a não entregar seu relatório este ano, Veja o pressiona a fazê-lo já.
Aguardemos, nas edições subsequentes, quais os próximos ministros do STF a serem pressionados por Veja. Enquanto isso, nossa grande imprensa sempre tão pródiga em elogiar ritos e costumes europeus, seja em questões de política, comportamento, cultura ou de jornalismo, parece esquecer que o jornal inglês News of The World foi obrigado a encerrar suas atividades empresariais e jornalísticas por denúncias bem menos graves do que as que envolvem Carlinhos Cachoeira e o chefe da sucursal de Veja em Brasília. E que seu chefe, o capo midiático Rupert Murdoch, mesmo contando mais de 80 anos de idade, tem sido chamado a depor em várias instâncias investigativas. E por assim proceder não se ouviu uma única frase condenando a convocação de Murdoch ou invocando qualquer arranhão à liberdade de imprensa na velha Albion.
A diferença entre os casos é que, aqui, embora exista profusão de grampos conectando o esquema de Carlinhos Cachoeira com o jornalista de Veja Policarpo Junior, não existe, ao menos até o momento, qualquer jornalista da Abril indiciado em crimes. A revista alega em sua defesa que “até o delegado da Polícia Federal viu nos grampos não mais que relações entre jornalista e sua fonte”. Pois bem, a pergunta inescapável é: “Será o policial a pessoa mais qualificada para discernir entre o que seria uma ‘relação criminosa’ e uma ‘relação entre jornalista e sua fonte’?”
O debate milenar sobre a validade da máxima “os fins não justificam os meios” não pode ser interditado. É que, não importa a atividade humana, continua vedado o uso de meios espúrios para se atingir objetivos, sejam estes de natureza empresarial, política ou... jornalística.
***
[Washington Araújo é jornalista e escritor; mantém o blog http://www.cidadaodomundo.org]

A imprensa líquida de Zygmunt Bauman - Comentário para o programa radiofônico do OI, 4/6/2012 | Observatório da Imprensa | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito

A imprensa líquida de Zygmunt Bauman - Comentário para o programa radiofônico do OI, 4/6/2012 | Observatório da Imprensa | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito

A imprensa líquida de Zygmunt Bauman

Por Luciano Martins Costa em 04/06/2012 na edição 696
Comentário para o programa radiofônico do OI, 4/6/2012

A entrevista do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, levada ao ar no domingo (3/6) pela TV Cultura de São Paulo, ajuda a interpretar certas características da imprensa contemporânea em seu esforço por manter alguma relevância diante do cenário de dissolução de velhos paradigmas que marcaram a sociedade até o fim do século passado.
Evidentemente, o ponto mais instigante de suas reflexões, no que se refere ao objeto de nossas observações, é a possível interpretação sobre as mudanças que a imprensa precisa enfrentar no contexto que o pensador chama de “modernidade líquida”. Num ambiente em que, segundo ele, tudo se torna fluido, diluem-se também antigos elementos concretos de conexão, que se tornam inconstantes e instáveis. A imprensa, como outras instituições sólidas, tende a se desmanchar.
O pensamento de Bauman oferece um interessante arcabouço conceitual para o entendimento de certas características que podem ser facilmente observadas na imprensa tradicional. Um deles é sua tendência a se apropriar do poder, que se dissociou rapidamente da política com a redução do papel do Estado, a ascensão do individualismo e a colonização do espaço público por instituições privadas.
Entidades “líquidas”
Essa constatação permite compreender, por exemplo, por que razão a atividade jornalística, praticada sobre a plataforma de entidades privadas, se comporta como detentora de atribuições típicas do antigo poder político.
Assim como, na esfera do Estado, indivíduos organizados em partidos políticos exercem na verdade o papel de defensores de interesses privados, a imprensa, instalada no ambiente privado, invade áreas que historicamente sempre pertenceram à esfera pública, para exercer um poder típico da política.
É nessa mudança de campos, aliás, que a imprensa tenta reinstalar sua antiga hegemonia sobre a sociedade, criticamente abalada pelo advento das novas tecnologias digitais, que dissolvem aquilo que antigamente se chamava mídia. Para isso, ela precisa se apropriar de valores e crenças fundamente arraigados no imaginário humano e que ainda compõem o conjunto de laços formadores de comunidades.
Embora o sentido dessa palavra tenha se corrompido ao longo do tempo, principalmente em função da colonização do espaço comum pelo jogo do consumo, o ser humano ainda depende desses vínculos de comunidade para sobreviver e se sentir seguro.
Embora pareça um truísmo por representar aquilo que para muitos é apenas uma verdade banal, a expressão “partido da imprensa golpista”, pode, então, ser analisada em termos mais complexos. Não se trata, evidentemente, de um partido formalmente constituído, mas de uma “instituição líquida” que se solidifica conforme se evidencia o interesse comum de seus integrantes em atuar como uma forma de poder no campo político.
O exercício da política também é influenciado pelo estado “líquido” das entidades sociais, e claramente se pode perceber como muitos protagonistas desse jogo agem de maneira fluida entre os escaninhos do poder, em grupos que não têm necessariamente uma sigla em comum, na defesa de seus interesses. Foi assim na constituição do poder exercido para consolidar o projeto de flexibilização da legislação de proteção ambiental.
Vozes amplificadas
Reportagem do Estado de S.Paulo sobre o comportamento dos diversos grupos durante a votação do Código Florestal, publicada na segunda-feira (4/6), mostra, por exemplo, que os integrantes da chamada Frente Parlamentar Ambiental votaram de acordo com os propósitos da bancada ruralista.
Muitos deles integram simultaneamente os dois grupos de poder, apesar do conflito evidente entre as duas propostas.
Assim, além de desfazer o tecido da organização partidária, essa fluidez também desmancha o próprio conceito tradicional de política, transformando todas as ações em jogadas isoladas conduzidas por um conjunto de interesses específicos.
Nesse cenário, a imprensa também dissimula a verdadeira motivação privada de suas ações sob o manto do “interesse público”, assumindo o papel de um “partido político líquido” cujos integrantes não precisam assinar uma ficha de filiação – basta que demonstrem afinidade total com o conjunto ideológico que pode ser lido no noticiário e no opiniário dos meios controlados pelas grandes empresas de comunicação.
No campo político não partidário, esse contexto ainda é visto com olhos do século 20, o que dificulta a organização de ações mais efetivas contra o poder “liquefeito” das forças conservadoras, empenhadas em mitigar os efeitos das mudanças sociais.
As chamadas forças progressistas, que supostamente deveriam atuar em favor das mudanças, demonstram clara repulsa às tecnologias que amplificam a voz dos indivíduos e abrem os espaços para a livre manifestação política. Forma-se, dessa maneira, o quadro das complexidades que parecem escapar entre nossos dedos.

Folheando para trás -   Comentário para o programa radiofônico do OI, 1/6/2012 | Observatório da Imprensa | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito

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Folheando para trás

Por Luciano Martins Costa em 02/06/2012 na edição 696

Comentário para o programa radiofônico do OI, 1/6/2012

O ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes desapareceu das primeiras páginas dos jornais na sexta-feira (1/6). Folheando a semana para trás, o leitor atento há de ficar atônito. Nem mesmo o ingresso do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na polêmica criada com a acusação de Mendes, de que se sentiu chantageado pelo ex-presidente Lula da Silva, foi suficiente para manter aceso o interesse da imprensa no acontecimento bizarro.
Então tudo aquilo não tinha o menor sentido? Onde foi parar, de repente, a absoluta credibilidade do ministro da Suprema Corte?
Em lugar das manchetes ruidosas, os jornais publicam sobre o assunto, além de uma frase de FHC, dita durante palestra a empresários na China, apenas uma declaração de Lula, feita em entrevista a um programa popular de televisão, segundo a qual “quem inventou a história que prove”. Aquilo que era manchete desde a segunda-feira, a partir de uma declaração de Gilmar Mendes à revista Veja, se desvanece no ar.
Os jornais teriam se convencido, de uma hora para outra, de que o ministro da Suprema Corte mentiu, exagerou, equivocou-se? Essa possibilidade transparece no editorial publicado nesta sexta-feira pela Folha de S. Paulo, no qual há uma clara condenação da atitude de Gilmar Mendes.
Criticando genericamente alguns episódios que provocaram crises no Supremo Tribunal Federal ao longo da última década, o jornal paulista afirma que a reunião cujo teor suscitou a controvérsia da semana foi uma impropriedade cometida pelos três protagonistas: o ex-presidente Lula da Silva, o ministro do STF Gilmar Mendes e o ex-ministro Nelson Jobim, anfitrião do encontro.
Mas as palavras mais pesadas caem do lado de Gilmar Mendes: o jornal pondera que ele não deveria ter buscado essa exposição, “em face da conjuntura politicamente aquecida pela vizinhança da CPI do caso Cachoeira, centrada na figura de um senador com quem o ministro Gilmar mantinha relacionamento próximo o bastante para aceitar caronas de avião”.
O que a Folha está declarando, implicitamente, é que o ministro do Supremo Tribunal Federal tem explicações a dar sobre suas relações diretas ou indiretas com o bicheiro e que o entrevero que provocou ao acusar o ex-presidente Lula não o exime dessa responsabilidade.
O jogo virou
Não se pode adivinhar o que a Folha tem em seus arquivos que possa comprometer um ministro do Supremo Tribunal Federal e se sua direção vai ou não autorizar a publicação. Mas, a julgar pelo tom do editorial, pode-se afirmar que essa decisão saiu das mãos do editor de Política do jornal, se é que ele algum dia teve autonomia para tratar desse tipo de assunto.
Como afirmou este observador durante a semana, trata-se de mais um episódio patético que começa em crise e termina em anedota (ver aqui e aqui). Mas, ao contrário de alguns casos anteriores, a imprensa não pode agora simplesmente virar as costas e fingir que nada aconteceu.
O ministro Gilmar Mendes colecionou desafetos em número e valor suficientes dentro do próprio Supremo Tribunal Federal para poder escapar da “insinuação escrachada” no editorial da Folha de S. Paulo sobre suas relações com o senador Demóstenes Torres.
Observe agora o leitor a mudança de rumo na lógica do episódio: se de fato o ex-presidente Lula da Silva tentou negociar um adiamento no julgamento do caso chamado “mensalão” em troca de blindar o ministro do Supremo com relação ao caso Demóstenes-Cachoeira, a própria imprensa tratou de romper o véu e acusar diretamente o ministro Gilmar Mendes – não em declarações de terceiros, mas em editorial! –  de manter com o senador acusado “relacionamento próximo o suficiente para aceitar caronas de avião”. Se houve, como disse o ministro do STF, uma chantagem para mantê-lo fora do caso Demóstenes-Cachoeira, o episódio acaba por lança-lo diretamente no fogo.
Virado o jogo, o que fazer, então, dos dias anteriores, que o leitor revisita quando resolve folhear os jornais para trás? Onde foram parar todas aquelas fichas apostadas na versão do ministro, agora que o seu movimento acaba por colocá-lo oficialmente entre os suspeitos de “relacionamento inapropriado” com alguém que é acusado de corrupção, formação de quadrilha e outras delinquências?
Já não se trata agora da credibilidade da imprensa, mas do respeito que se deve à Suprema Corte de Justiça.

Nem Noblat respeita Gilmar “Dantas” | Maria Frô

Nem Noblat respeita Gilmar “Dantas” | Maria Frô

Nem Noblat respeita Gilmar “Dantas”

junho 1st, 2012 by mariafro

Quem me chamou a atenção foi Marcel Moreira que, igualmente, fez os prints e encaminhou as imagens.
A coisa tá muito feia para o lado dos rincões dos Mendes, Noblat pela segunda vez chama Gilmar Mendes de Gilmar Dantas, o ato falho é freudiano:


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junho 3rd, 2012 by mariafro
Respond

“A relação siamesa entre imprensa e democracia não se ajusta, no entanto, aos 21 anos brasileiros entre 1964 e 1985, por exemplo.
Não só ao decorrer do período, mas também àquilo mesmo que lhe deu origem.
Durante os 21 anos sem nem sequer os seus mínimos componentes da democracia, a imprensa brasileira (vamos englobar assim jornais, TV, revistas e rádio) teve lucros e outros enriquecimentos maiores, muito maiores, do que em qualquer fase anterior na sua história.
A par desse benefício generalizado, quanto mais próximo e a serviço do regime antidemocrático, maior a compensação.” Janio de Freitas
Imprensa e democracia
Janio de Freitas, Folha
03/06/2012
Assim como a imprensa pode tirar a Constituição do papel, tira também o papel da Constituição
Já que o ministro Carlos Ayres Britto é do Supremo Tribunal Federal, mas não se sente sob perseguições, e muito menos imagina que queiram “destruí-lo”, acredito não haver risco em negar a ideia que faz da imprensa. E nela, sobretudo, da relação entre imprensa e democracia.
O ministro falou no 5º Congresso Brasileiro da Indústria de Comunicação, no qual também esteve o bispo Desmond Tutu. Foi o presidente da Comissão da Verdade e Reconciliação criada na África do Sul, em 1995, por Nelson Mandela.
Espera da nossa Comissão da Verdade que busque “curar as feridas de uma nação traumatizada”. A idade não lhe diminuiu a percepção nem a determinação de dizer as palavras adequadas.
Em seu tema, o ministro Ayres Britto não se limitou à esperança. Tem a convicção de que “a metáfora de que a imprensa e a democracia são irmãs siamesas não é exagerada. É, de fato, um vínculo umbilical, a ponto de que, se for cortado esse cordão, é a morte das duas -da imprensa e da democracia”.
A relação siamesa entre imprensa e democracia não se ajusta, no entanto, aos 21 anos brasileiros entre 1964 e 1985, por exemplo.
Não só ao decorrer do período, mas também àquilo mesmo que lhe deu origem.
Durante os 21 anos sem nem sequer os seus mínimos componentes da democracia, a imprensa brasileira (vamos englobar assim jornais, TV, revistas e rádio) teve lucros e outros enriquecimentos maiores, muito maiores, do que em qualquer fase anterior na sua história.
A par desse benefício generalizado, quanto mais próximo e a serviço do regime antidemocrático, maior a compensação.
Tanto a proporcionada diretamente ou indiretamente por ligação ao poder, como pela preferência publicitária por meios de comunicação identificados com o regime. Do qual a publicidade foi instrumento fundamental, talvez decisivo.
Mais importante jornal em todos aqueles anos, o “Jornal do Brasil”, como principal órgão criador de opinião pró iniciativas do regime (“milagre brasileiro”, “Brasil grande”, a designação de “terroristas” para os oposicionistas, nem todos armados, e muito mais) proporcionou o exemplo definitivo da ligação ideológica-econômica dos meios de comunicação com a antidemocracia.
Habituara-se tanto aos ganhos estupendos e fáceis com sua posição, que, vinda a democracia, foi rápido para o colapso. Não o único a seguir tal percurso.
“A censura à imprensa teve duração pequena” -é uma afirmação muito repetida sob variadas formas. E inverdadeira.
Todo o período ditatorial foi atravessado por uma modalidade de censura sem evidência pública: o afastamento, impositivo sobre as direções ou proprietários, de jornalistas profissionais.
A base da convicção “siamesa” de Ayres Britto está na ideia de que, “por ser a instância que oferta à população uma alternativa, uma explicação diferente da que o governo dá aos fatos, a imprensa tira a Constituição do papel, vitaliza a Constituição”.
Está na história: assim como a imprensa pode tirar a Constituição do papel, tira também o papel da Constituição, na sociedade e no país. A força agitadora para a preparação do golpe de 64 foi a imprensa. Com agitação diuturna.
Todos os demais agentes foram insignificantes em comparação com a imprensa, e dependentes dela. Quando ganharam significação, já a imprensa e o golpismo estavam muito à sua frente, vindo apenas a aproveitar, para a consumação do seu propósito, os múltiplos e estimulantes erros da chamada “esquerda”.
A Constituição vigente até 64 foi rasgada, muito antes, pela imprensa. A pregação de Carlos Lacerda, de brilho incomum, afrontava a democracia e, pelas leis de então, como seria pelas atuais, era crime indiscutível contra a Constituição já desde os primeiros anos 50.
E seus seguidores, só por sê-lo, puderam multiplicar a ação agitadora em jornais, TV, rádio e Forças Armadas tão sem incômodo quanto seu líder.
Se há siameses na relação de imprensa e democracia, então são trigêmeas. A imprensa tem, de um lado, a democracia e, de outro, o regime de prepotência. O que vier estará bom. E exceção na imprensa, se houver, não passa de exceção.

Homenagem ao Tédio

Homenagem ao Tédio

Homenagem ao Tédio


Deixar-se falar. Talvez tenhamos mais a dizer a nós mesmos que todos esses discursos de sucesso ou de salvação. Entediar-se
Por Maristela Bleggi Tomasini
Gosto de dispor de tempo para entediar-me à vontade. Entediar-se é fazer contato com a própria interioridade e abrir-se às nossas cismas. É romper relações com a mesmice do ambiente e entregar-se a um diálogo imaginário. É dar-se conta daquela multiplicidade de facetas tão nossas, que colocamos de lado, que não deixamos que venham à tona em um mundo que só tem tempo para desperdiçar. Entediar-se é não fugir à tristeza, é aceitar que existem, em nosso interior, dimensões escuras, estranhas aos outros e nós, mas nem por isso menos a gente mesmo. É olhar-se de frente no espelho mágico que não sabe mentir. Tédio é tempo de colar o que foi fragmentado, é tempo de arredondar os cantos lascados pela vida. Sem disfarces.
Entediar-se é ausentar-se dos outros. É tempo para ser vivido, e não para ser desperdiçado com gente que se esvazia de si, que vive de presentes. Sem passado que nos dê sentido, perde-se significado. Desaparecemos, assimilados pela opinião, compartilhando apenas o que é comunitário. A solidão aterroriza, mas não devia. Há tantas vozes disputando nossos ouvidos que não é difícil nos flagrarmos, em dado momento, a repetir alguma coisa simplesmente por repetir. Como se fôssemos obrigados a falar, mesmo sem ter nada a dizer. De algum modo, pressinto discursos que se constroem a partir do eco. Sua fonte se perdeu. Como se reflexos se tornassem autônomos. Dou com algumas imagens de mim por aí às vezes, mas nem por isso sou eu. Então percebo que é hora do culto. Que é hora de buscar conforto no tédio, na deriva de alma. Hora de imitar o flâneur, só que percorrendo minha própria interioridade.
Percebo como é difícil pensar a vida sem unidades de medida. É que antigos valores não há mais. Tudo tem preço. Instituíram-se moedas de troca que capitalizam relações entre diferentes tribos, estas que hoje se substituem às extintas classes sociais. Temos apenas faixas de consumo, cuja medida de escala é a quantidade de eletrodomésticos, de banheiros, de suítes, de metros quadrados disputados centímetro a centímetro. Também vale contabilizar maridos e mulheres que se substituem por modelos mais novos, mais adequados a um vir a ser midiático de efeito hipnótico, multiplicado pelos espelhos das vitrines, esses altares, onde os produtos, como os santos, são objeto de adoração. Cobiça e desejos nos guiam e amesquinham nossas ambições recheadas de sabores que ainda não provamos, de substâncias que ainda não tocamos, de brinquedos com que ainda não brincamos. Tudo isso nos afasta de nós, e nos aproxima de miragens que desaparecem, mal a gente consegue tocá-las. A saída é o tédio, a alternativa possível diante dessa fatalidade que se autorregula automaticamente.
Prescinde-se de valores que não sejam aqueles expressamente monetários. A atualidade nos põe preço, e isso sequer nos escandaliza, porque nosso tempo é tão-somente o tempo da emergência do sensacional, da manchete hiperbólica, da banalização de tudo. A fama e o prestígio legitimam qualquer conteúdo. Elas são a alquimia do sucesso. A ingenuidade torna-se cretina. Importa apenas o sensacional, o que pode ser taxado, comprado e vendido. Persegue-se a reparação indenizatória como forma de ajuste, numa atualidade que é sem ligação com o passado e que se vê apenas repetida no futuro, mecanicamente, produtivamente.
O presente é repetir-se, é copiar-se, é apropriar-se de experiências pré-formatadas. A atualidade traz o prêt-à-porter como traz o prêt-à-penser. Monetarizamos o valor da dor. Alguém deve pagar por nossos sofrimentos, por nossas angústias, por nossas frustrações. A Declaração Americana, desde 1948, quer que o homem alcance a felicidade. Como se ela fosse um objetivo a ser atingido. Recusar-se a tanto significa fracasso. O tédio é o refúgio dos fracassados, o exílio dos recalcitrantes, dos que desconfiam das pílulas que prometem a felicidade, o ego químico, o tesão eterno, a carne siliconada. Desconfio muito desse ambiente. Envelheço. Estranho este mundo que avança sobre a minha vida e que me convida a mudar de mim, a desviar-me de meu velho e conhecido eu, tão inadequado. Sou obsoleta. Escrevo este palavrão agora e não gosto. Mas o espelho mágico do tédio me reflete bem assim. Não consigo gostar muito dessas maravilhas todas que a gente só pode ter se comprar. Desconfio dessas coisas que nos tornam felizes, atraentes, inteligentes e que garantem nosso sucesso. Isso não me soa bem. É como perfume usado em demasia. Esses excessos são, definitivamente, faltos de elegância. O requinte costuma mostrar uma face aristocrática que é, sempre, um pouco decadente e blasé. Nada a ver com esses espetáculos pleonásticos que nos invadem a cada instante. Sem falar numa gente muito estranha que por aí.
Um garoto chinês vendeu um rim para poder comprar um iPad. Há uma jovem que investe seus melhores anos em sucessivas operações para substituir próteses mamárias por outras cada vez mais volumosas. Ela deseja ter os maiores seios do mundo. Não sei se conseguiu. Implanta-se tanta coisa no corpo! Ele está cada vez mais tatuado, colorido, transformado. Um rapaz cortou a língua, para que ela ficasse bifurcada como a de um lagarto. Descubro algo novo nisso. O tédio me faz pensar.
Ora, os artistas sempre representaram a figura humana conformada a valores de época. A rigidez das madonas medievais deu lugar às carnes rosadas da Renascença. A isso sobrevieram as sombras e os contrastes do Barroco. El Greco redimensionou as imagens, esticou as figuras para ao alto. A Arte nos conta a história dos homens, economizando palavras. Ah! Os impressionistas coloriram nossas sombras. O ser humano já perdia forma e diluía-se no fundo das telas. Aliás, desde então, fundo e forma se confundem, porque não mais se vai desvincular um do outro. Depois mudamos ainda mais. Desesperamos. Van Gogh resgata o louco. Os corpos começam a ser retorcidos. Basta folhear um livro de arte qualquer para dar-se conta disso. Na modernidade, Portinari conferiu a pés e mãos um peso excepcional, ao retratar um homem que era só força física empregada no trabalho braçal. Anita quase suprimiu a cabeça em Abaporu, um anencéfalo que sobreviveu perfeitamente bem; aliás, como muitos, até hoje.
Por que digo isso? Porque era só arte. Era uma figura humana limitada ao espaço plástico da tela ou do material tornado escultura. Era apenas faz de conta. Não passava de metáfora, de uma interpretação. A pós-modernidade inovou. Hoje é o corpo que recebe esses impactos. Não se trabalha mais a imagem em abstrato. Fazemos isso concretamente no próprio corpo-objeto. Confesso meu susto. Eu me refugio no tédio, bem aqui, entrincheirada por entre livros e velharias. De fato, olhando assim, parece que o corpo se transforma em suporte físico de manifestações só fazem sentido por muito pouco tempo. Percebo algo de assustador em tudo isso.
Por mais que essas intervenções corporais aconteçam como manifestações de ordem cultural na humanidade, historicamente, tratou-se de costumes e tradições inerentes a certos grupos humanos. Tudo tinha uma razão de ser, correspondendo a ritos de passagem. Eram formas de agir, pensar e fazer que se impunham como obrigatórias com vistas à manutenção de uma ordem social, conferindo estabilidade a um grupo. Sabemos de tatuagens tribais, pescoços alongados, lábios e orelhas alargados, mas em contexto que me parece muito diferente deste que estamos vivendo. Não se tratava do corpo pelo corpo, do corpo objeto de si, mas do corpo como identidade social. Esse viés, no entanto, se adensa na pós-modernidade, e não encontro paradigma que não seja ver aí o consumismo puro e simples. Nosso corpo se assimila a um objeto de consumo que precisa se transformar com a mesma rapidez com que sobrevém a novidade vanguardista que já nos chega como passado. As próprias tribos têm muita mobilidade. São instáveis. As modificações que se imprimem aos corpos, nem tanto. Isso indica que nosso agora é para sempre, um fim em si, como se não houvesse gerúndios, apenas particípios que se seguem uns aos outros, repetidos, reiterados, desconexos, desvinculados, que emergem como eventos.
Produzir, consumir, deixar-se assimilar corporalmente como fetiche. Percorrer o tempo esvaziando-o de significação. Ser o melhor, o maior, o mais ágil, o mais rápido, o recordista. Ser por ser. Bater um recorde qualquer. Cultura resumida a eventos descontínuos que exibem uma logomarca que vale mais que a assinatura do artista. Até livros se escrevem sozinhos na cultura do copy & past. A produção da palavra limita-se a discorrer apenas, e a criar vazios repletos de hermetismo, de pirotecnia literária, onde o efeito importa mais que o significado. Escreve-se com vistas ao utilitário. A moda se impõe também nas palavras, e elas se substituem umas pelas outras, depostas e exiladas, pela inquisição que se impõe ao nosso léxico, exigindo dele que se limite a discursos publicitários, que exercitam meramente a persuasão. O banal torna-se profundo. É preciso aplaudir e delirar, sob pena de ser decretada nossa insensibilidade. É preciso ser estúpido, para alcançar a profundidade inaudita do que é óbvio. Por isso talvez eu insista em permanecer tão superficial.
Confesso que fujo. Eu me entrego ao tédio, busco a solidão que me ensina a lidar com o tempo. Preciso fazer valer meu próprio ritmo e preservá-lo como algo profundamente individual. O meu tempo é o meu tempo, e eu gosto de conferir-me a prerrogativa de escolher como usá-lo. É um grande luxo gastar meu tempo com tédio. Saborear o meu café, sentir o cheiro de mofo de cada um dos meus livros, não fazer nada a não ser ouvir o que tenho a dizer a mim mesma.
Deixar-se falar. Talvez tenhamos mais a dizer a nós mesmos do que todos esses discursos de sucesso ou de salvação. Entediar-se. Permitir-se entristecer. Tédio é solitário, é lacônico, é modulado pelo silêncio. Nem alegre nem triste, mas existencial. Tédio é sem consolo, sem compreensão, porque nele não penetra a palavra divina que salva, nem a tentação do demônio que condena, nem a pregação do marqueteiro que quer vender aquilo que todo mundo já tem, menos a gente. Solidão é grátis. É despedida sem adeus. Sem nada. É apenas nossa presença, permanecendo ainda, não obstante todas as coisas que nunca foram aquilo que queríamos ou que pensávamos que elas fossem.
É bem quando descubro que, apesar de tudo, eu ainda sou eu.

sábado, 2 de junho de 2012

De volta ao passado | Carta Capital

De volta ao passado | Carta Capital

Mino Carta

Editorial

01.06.2012 11:43

De volta ao passado

“Mino Carta é um chato, se pudesse reescreveria os Evangelhos. Inimigo do regime, Geisel o detestava, mas não tinha rabo preso.” De um depoimento de João Baptista Figueiredo, gravado em 1988 durante um churrasco amigo e divulgado após a morte do último ditador da casta fardada.

No final de 1969, esta capa foi o maior desafio de Veja à ditadura, mas já a da primeira edição dera problemas
É do conhecimento até do mundo mineral que nunca escrevi uma única, escassa linha para louvar os torturadores da ditadura, estivessem eles a serviço da Operação Bandeirantes ou do DOI-Codi. Ou no Rio, na Barão de Mesquita. E nunca suspeitei que a esta altura da minha longa carreira jornalística me colheria a traçar as linhas acima. Meu desempenho é conhecido, meus comportamentos também. Mesmo assim, há quem se abale a inventar histórias a meu respeito. Alguém que, obviamente, fica abaixo do mundo mineral.
Não me faltaram detratores vida adentro, ninguém, contudo, conseguiu provar coisa alguma que me desabonasse. Os atuais superam-se. Um deles se diz jornalista, outro acadêmico. Pannunzio & Magnoli, binômio perfeito para uma dupla do picadeiro, na hipótese mais generosa de uma farsa cinematográfica. Esmeram-se para demonstrar exatamente o que soletro há tempo: a mídia nativa prima tanto por sua mediocridade técnica quanto por sua invejável capacidade de inventar, omitir e mentir.
Afirmam que no meu tempo de diretor de redação de Veja defendi a pena de morte contra “terrorristas”, além de enaltecer o excelente trabalho da Oban. Outro inquisidor se associa, colunista e blogueiro, de sobrenome Azevedo. E me aponta, além do já dito, como um singular profissional que não aceita interferência do patrão. Incrível: arrogo-me mandar mais do que o próprio. Normal que ele me escale para o seu auto de fé. O Brasil é o único país do meu conhecimento onde os profissionais chamam de colega o dono da casa.
Não há nas calúnias que me alvejam o mais pálido resquício de verdade factual. Os textos que me atribuem para baseá-las nascem de uma mistificação. Pinçados ao acaso e fora do contexto, um somente é de minha autoria e nada diz que me incrimine. E pouparei os leitores de disquisições sobre minha repulsa visceral, antes ainda que moral, à prisão sem mandado, à tortura e à pena de morte. Quando o Estadão foi pioneiro na publicação de um artigo assinado Magnoli, limitei-me a escrever um breve texto para o site de CartaCapital, destinado a contar a história de outra peça de humorismo, escrita em 1970 por um certo Lenildo Tabosa Pessoa, redator, vejam só, do Estadão, e intitulada O Senhor Demetrio. Ou seja, eu mesmo, marcado no batismo por nome tão pesado.
A bem de minha honra, Geisel me detestava. Foto: AE
Lenildo pretendia publicar seu texto no jornal, os patrões, Julio de Mesquita Neto e Ruy Mesquita, não deixaram. Surgiu em matéria paga o retrato de um hipócrita pretensamente refinado que, como Arlequim da política, servia ao mesmo tempo Máfia e Kremlin. O senhor Demetrio, de codinome Mino. Diga-se que Lenildo encontraria eco três anos depois no programa global de um facínora chamado Amaral Neto, também identificado como Amoral Nato, que repetia Lenildo no vídeo. Como se vê, tom e letra das calúnias estão sujeitos a mudanças ideológicas.
Ao negarem espaço nas páginas da sua responsabilidade à diatribe de Lenildo, os herdeiros do doutor Julinho quiseram respeitar a memória do meu pai, que trabalhou no Estadão por 16 anos, e meu honesto e leal desempenho na criação da Edição de Esporte e do Jornal da Tarde. O Estadão, evidentemente, não é mais o mesmo. Lenildo e Amaral Neto me tinham como perigoso subversivo de esquerda. Em compensação, hoje sou acusado de ter dirigido naquele mesmo 1970 uma Veja entregue “à bajulação, subserviência e propaganda da ditadura”. É espantoso, mas a semanal da Abril em 1970 era submetida à censura exercida na redação por militares. Eu gostaria de saber o que acham os senhores Pannunzio, Magnoli e Azevedo a respeito de quem na mídia brasileira se perfilava illo tempore ao lado da ditadura. Ou seja, quase todos.
E Arci, impávido, ofereceu a cabeça de Millôr Fernandes ao ministro Golbery. Fotos: Marcelo Carnaval e Manoel Amorim/Ag O Globo
Quem, de fato foi censurado? Os alternativos, então chamados nanicos, em peso, do Pasquim a Opinião, que depois se tornaria Movimento, sem exclusão de O São Paulo, o jornal da Cúria paulistana regida por dom Paulo Evaristo Arns. A Veja, primeiro por militares, depois por policiais civis no período Médici. Com Geisel, passou a ser censurada diariamente, de terça a sexta, nas dependências da Polícia Federal em São Paulo, e aos sábados, à época dia de fechamento, na própria residência de censores investidos do direito a um fim de semana aprazível. Enquanto isso, Geisel exigia que os alternativos submetessem seu material às tesouras censórias em Brasília, toda terça-feira.
Sim, o Estadão também foi censurado e com ele o Jornal da Tarde. A punição resultava de uma briga em família. O jornal apoiara o golpe, mas sonhava com a devolução do poder a um civil, desde que se chamasse Carlos Lacerda. Este não deixava por menos nas suas aventuras oníricas. O Estadão acabou sob censura, retirada contudo em janeiro de 1975, no quadro das celebrações do centenário do jornal. Carlos Lacerda foi cassado. Diga-se que ao Estadão permitia-se preencher os espaços vagos deixados pelos cortes com versos de Camões, em geral bem escolhidos, e ao Jornal da Tarde com receitas de bolo, às vezes discutíveis. O resto da mídia não sofreu censura. Não era preciso.
Julio Neto e Ruy Mesquita não dariam espaço às calúnias de um tal de Magnoli. Fotos: Alfredo Fiaschi/AE e AE
Quando me chamam para fazer palestras em cursos de jornalismo, sempre me surpreendo ao verificar que o enredo que acabo de alinhavar é ignorado pelos alunos e por muitos professores. Acham que a censura foi ampla, geral e irrestrita. Meus críticos botões observam que me surpreendo à toa. Pois não se trata de futuros Pannunzios, Magnolis e Azevedos? No caso deste senhor Reinaldo, vale acentuar uma nossa específica diferença. Não me refiro ao fato de que eu reputo Antonio Gramsci um grande pensador, enquanto ele o define como terrorista. A questão é outra.
Ocorre que, ao trabalhar e ao fazer estágios na Europa, entendi de vez que patrão é patrão e empregado é empregado, e que para dirigir redações o profissional é chamado por causa de sua exclusiva competência. Ao contrário do que se dá no Brasil, por lá não há diretores por direito divino. Por isso, ao deixar o Jornal da Tarde para tomar o comando dos preparativos do lançamento de Veja, me senti em condições de exigir certas garantias.
No Estadão tivera um excelente relacionamento com a família Mesquita, fortalecido pela lembrança que cultivavam de meu pai, iniciador da reforma do jornal que Claudio Abramo aprofundou e completou. Gozei na casa então ainda do doutor Julinho, filho do fundador, de grande autonomia, aquela que facilitou a criação de um diário de estilo muito próprio, arrojado na diagramação, em busca de qualidade literária no texto. Estava claro, porém, que a linha política seria a da família. Com os Mesquita me dei muito bem, foram de longe meus melhores patrões, talvez os remanescentes não percebam que por eles tenho afeto, embora, saído do Estadão, não me preocupasse em mostrar que minhas ideias não coincidiam com as deles.
E Golbery, gélido, disse: "Eu não pedi a cabeça de ninguém, senhor Civita". Foto: AE
Convidado finalmente pelos Civita para a empreitada de Veja, solicitei uma liberdade de ação diversa daquela de que gozara no Jornal da Tarde. Só aceitaria o convite se os donos da Abril, uma vez definida a fórmula da publicação, se portassem como leitores a cada edição, passível de discussão está claro, mas a posteriori, quer dizer, quando já nas bancas.
Pedido aceito. A primeira Veja, espécie de newsmagazine à brasileira, foi um fracasso. Além disso, já irritou os fardados por trazer na capa a foice e o martelo. A temperatura subiu com a segunda capa, a favor da Igreja politicamente engajada. A quinta, com a cobertura do congresso da UNE em Ibiúna, foi apreendida nas bancas. E também o foi aquela que celebrou a decretação do AI-5 no dia 13 de dezembro de 1968. Tempos difíceis. Mas a edição de mais nítido desafio aos algozes da ditadura é de mais ou menos um ano depois. A chamada de capa era simples e direta: “Torturas”, em letras de forma.
A história desta reportagem começou cerca de três meses antes, com uma investigação capilar conduzida por uma equipe de oito repórteres encabeçada por Raymundo Rodrigues Pereira. Foram levantados 150 casos, três deles nos detalhes mínimos. Emílio Garrastazu Médici acabava de ser escolhido para substituir a Junta Militar e pela pena do então coronel Octavio Costa acenava em discurso, pretensamente poético ao declinar a origem do novo ditador por dizê-lo vindo do Minuano, à necessidade do abrandamento da repressão. Raymundo e eu recorremos a um estratagema, e saímos com uma edição anódina para celebrar o vento gaúcho. Falávamos da posse, da composição do ministério, do discurso. Chamada de capa: “O Presidente Não Admite Torturas”.
Ofereço este número de Veja à aguda análise de Pannunzios, Magnolis, Azevedos e quejandos. (Nada a ver com queijo.) Bajulação e subserviência estão ali expostas da forma mais redonda. Naquele momento, a mídia foi atrás de Veja, e por três dias falou-se mais ou menos abertamente de tortura. Logo veio a proibição, que Veja ignorou. Na noite de sexta-feira a reportagem da equipe de Raymundo descia à gráfica para arrolar 150 irrefutáveis casos de tortura, dos quais três em detalhes. Ao mesmo tempo, eu mandava cortar os telefones da Abril para impedir ligações de quem pretendesse interferir, autoridades, patrões e intermediários. A edição foi apreendida nas bancas, e logo desembarcou na redação a censura dos militares.
Este sim, "nosso Trotski", a Arci pediu minha cabeça e conseguiu. Foto: AE
Quando ouvi falar em distensão pela primeira vez, meados de 1972, pela boca do general Golbery, à época presidente da Dow Chemical no Brasil, pareceu-me possível alguma mudança na sucessão de Médici. De fato, Golbery, que vinha de conhecer, articulava na sombra a candidatura de Ernesto Geisel, títere sob medida para as suas artes de titereiro. Meados de 1973, assenta-se a candidatura obrigatória de Geisel. Alguns meses após, ministério em gestação, Golbery, futuro chefe da Casa Civil à revelia de Médici, me sugere uma conversa com o recém-convocado para a pasta da Justiça, Armando Falcão. Assunto: fim da censura em clima de distensão.
Conversei duas vezes com Falcão enquanto Roberto Civita entre janeiro e fevereiro de 1974 apontava em Hugh Hefner um notável filósofo da modernidade. Mal assumiu a pasta, dia 19 de março de 1974, Falcão chamou-me a Brasília para comunicar que a censura se ia naquele instante. Sublinhei: “Sem compromisso algum de nossa parte”. “Claro, claro”, proclamou, e me deu de presente seu livro de recente publicação, intitulado A Revolução Permanente. Mais tarde Golbery comentaria: “Falcão é o nosso Trotski”.
Três semanas após, a censura voltou, mais feroz do que antes. Duas reportagens causaram a costumeira irritação, fatal foi uma charge de Millôr Fernandes. Em revide, decretava-se que a censura seria executada em Brasília às terças-feiras. Fui visitar Golbery no dia seguinte, eu estava de veneta rebelde, levei meus dois filhos meninotes, e andei pela capital federal de limusine. No meu livro de próxima publicação, O Brasil, a sair pela Editora Record como O Castelo de Âmbar, descrevo assim a visita ao chefe da Casa Civil.
“A secretária do ministro, dona Lurdinha, senhora de modos caseiros, redonda rola sobre o carpete sem perder o sorriso, chega-se ao meu ouvido, murmura: “Veio também o senhor Roberto Civita, quer ser recebido mas não tem hora marcada”. Não deixo que o tempo se estique inutilmente, tomo a visão panorâmica da antessala e vejo Arci, entalado em uma poltrona com expressão perdida na paisagem da savana descortinada além das vidraças. “Que faz aqui?” E ouço meu próprio latido.
“Vici me contou que você viria, e eu gostaria…”
“Você não pediu audiência, não tem hora”, proclamo.
Ele insiste, à beira da imploração. O meu tom chama a atenção de Manuela e Gianni, encaram a cena sem entender o assunto, percebem porém que o pai está muito irritado, enquanto o outro tem jeito de pedinte. Lurdinha traz uma laranjada para as crianças e avisa que o general está à espera. Admito: “Você entra comigo, mas se compromete a não abrir a boca”. Ele promete.
Na conversa que se segue no gabinete da Casa Civil, o meu argumento é óbvio, Veja é uma revista semanal que encerra o trabalho na noite de sábado e vai às bancas às segundas-feiras, obrigá-la a submeter textos e fotos aos censores na terça significa inviabilizá-la. Pergunto a Golbery: “Os senhores pretendem que Veja simplesmente acabe?” Não, nada disso. “Então é preciso pôr em prática outro sistema.”
O chefe da Casa Civil entende e concorda. Diz: “Vá até o Ministério da Justiça, fale com Falcão, a Lurdinha já vai avisá-lo, diga a ele que vamos procurar uma saída até amanhã no máximo, a próxima edição tem de sair regularmente”.
Golbery fica de pé, hora da despedida. O general não conhecia o patrãozinho que até aquele momento cumpriu a promessa feita na antessala. E de supetão abre a boca: “General, se o senhor acha que devemos tomar alguma providência em relação ao Millôr Fernandes…”
Golbery fulminou-o: “Senhor Civita, não pedi a cabeça de ninguém”.
Poucos entenderam que o Minuano poderia despertar ciclones. Foto: Reprodução
Vici e Arci, ou seja, Victor Civita e Roberto Civita, assim se chamavam no castelo envidraçado à beira do Tietê, esgoto paulistano ao ar livre. Esse entrecho já o desenrolei em O Castelo de Âmbar sem merecer desmentido e o próprio Millôr o colocou no ar do seu blog logo após a publicação no final de 2000. Ao sair do gabinete de Golbery, eu disse a Roberto Civita “você é mesmo cretino”, como depois o definiria na conversa de despedida com o pai Victor, mas poderia dizer coisa muito pior. Quanto à minha saída da direção de Veja e de conselheiro board abriliano, descrevi o evento em editorial de poucas semanas atrás. Faço questão de salientar, apenas e ainda, que não fui demitido, e sim me demiti para não receber um único centavo das mãos de um Civita, nem que fosse a comissão pelo empréstimo de 50 milhões de dólares recebidos pela Abril da Caixa Econômica Federal, juntamente com o fim da censura, em troca da minha cabeça. A revista prontamente caiu nos braços do regime.
A partir daí, tive de inventar meus empregos para viver. Ou por outra, para viver com um salário infinitamente menor (insisto, infinitamente) do que aquele dos importantes da imprensa, e nem se fale daqueles da televisão. Ganham mais que os europeus e de muitos americanos. Em outro país, um jornalista com o meu passado não sofreria as calúnias de Pannunzios, Magnolis e Azevedos, e de vários que os precederam. Muito representativos de uma mídia que manipula, inventa, omite e mente. Observem os fatos e as mentiras da atualidade imediata, o caso criado pelo protagonismo de Gilmar Mendes e pela ferocidade delirante dos chapa-branca da casa-grande. Além do mais, há em tudo isso um traço profundo de infantilidade, um rasgo abissal, a provar o estágio primitivo da sociedade do privilégio, certa de que a senzala aplaude Dilma e Lula e mesmo assim se conforma, resignada, dentro dos seus habituais limites.
Os caluniadores são, antes de mais nada, covardes. Sentem as costas protegidas pela falta generalizada de memória, ou pela pronta inclinação ao esquecimento. Pela impunidade tradicional garantida por uma Justiça que não pune o rico e poderoso. Pelo respaldo do patrão comprometido com a manutenção do atraso em um país onde somente 36% da população conta com saneamento básico, e 50 mil pessoas morrem assassinadas ano após outro. Confiam no naufrágio da verdade factual, pela enésima vez, e que tudo acabe em pizza, como outrora se dizia, a começar pela CPI do Cachoeira e pela pantomima encenada por Gilmar Mendes. E que o tempo, vertiginoso e fulminante como sempre, se feche sobre os fatos, sobre mais uma grande vergonha, como o mar sobre um barco furado.