domingo, 17 de maio de 2015

A imprensa apoia Dilma

A imprensa apoia Dilma | Observatório da Imprensa –



A imprensa apoia Dilma

Por Luciano Martins Costa em 15/05/2015 | 0 comentários
Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 15/5/2015

A sexta-feira (15/5) marca um ponto de inflexão no noticiário
político, no qual se pode perceber que há uma mudança na narrativa da
imprensa sobre os efeitos da disputa entre o Executivo e o Congresso
Nacional. Também é possível que se trate de uma reversão na parábola
desenhada pelos acontecimentos em Brasília, com a redução das tensões e
alguma acomodação nas próximas semanas.


As duas figuras de geometria analítica, comumente usadas no controle
de risco em comunicação, se referem a uma tendência natural das crises,
que costumam se comportar, metaforicamente, como um objeto lançado para o
alto: se responder apenas à força inercial, o objeto vai em algum
momento atingir o ápice da parábola e começar a cair. Se houver uma
força adicional capaz de dar novo impulso a ele, o objeto irá sofrer uma
inflexão no ponto de exaustão da força inicial, em que se começa a
curva descendente, e receberá novo impulso, retomando a ascensão com uma
curva inversa, para cima.


O fato que determina esse momento curioso da nossa crônica política é
a aprovação, pela Câmara dos Deputados, de uma emenda que extingue, na
prática, o fator previdenciário no cálculo das aposentadorias.


O tema é bastante explorado pelos diários de circulação nacional, com
boas reportagens, análises variadas e um ponto em comum: em maior ou
menor grau, os jornais condenam a decisão e mobilizam seus colunistas
para questionar o que chamam de irresponsabilidade do Legislativo.


O sistema proposto pelos deputados, chamado de fórmula 85/95, garante
aposentadoria integral para os homens que se aposentarem quando a soma
da idade com o tempo de contribuição atingir 95 e as mulheres alcançarem
o número 85 na mesma conta.


Embora o assunto envolva uma alta complexidade, que inclui as
perspectivas de longevidade das próximas gerações, a composição de renda
das famílias e outros fatores, é consenso entre os analistas que a
iniciativa vai causar um grande impacto nas despesas do governo com a
previdência social.


A imprensa observa que o custo será insignificante nos primeiros
quatro anos, porque as pessoas tenderão a adiar a aposentadoria para se
beneficiar da nova regra, assegurando um benefício maior no longo prazo.
Mas os textos assumem que o sistema previdenciário sofrerá um choque de
mais de R$ 40 bilhões na primeira década.


Lula é o alvo


O leitor curioso e atento se perguntaria: por que a mídia tradicional
se mostra tão preocupada com o futuro, e ao mesmo tempo incentiva uma
crise política que afeta as chances de desenvolvimento do Brasil?


Da mesma forma, o que explicaria, para além das picuinhas
partidárias, o fato de que boa parte da oposição votou contra seus
interesses de longo prazo e parte da aliança governista contrariou seu
discurso tradicional de defesa do trabalhador para se opor à proposta?


Os jornais exploram o sinal invertido entre petistas e tucanos, e
surpreendem ao tomar o partido da presidente Dilma Rousseff nessa
questão.


Uma razão pode estar no fato de que, até mesmo quando imersa até os
ossos na disputa partidária, a imprensa precisa definir um limite para
as ações populistas dos presidentes da Câmara e do Senado, que jogam
para a plateia para fugir dos holofotes da Operação Lava Jato. Em algum
momento há de se impor a responsabilidade nesse cenário que um
articulista do Estado de S. Paulo chama de “clima de bundalelê”.


Para os pouco afeitos à nova linguagem jornalística, convém registrar
que a expressão “bundalelê” representa a atitude provocativa de alguém
que exibe as nádegas em público, como ocorreu na quarta-feira (13/5) em
que foi votada a medida provisória que define as regras da pensão por
morte.


Até o Jornal Nacional, da Globo, mostrou rapidamente o ativista da Força Sindical, de camisa preta (ver aqui a cena que acontece aos 30 segundos do vídeo) tirando as calças e mostrando o traseiro aos deputados.


O fato de os principais jornais do país, que têm investido no
desgaste da imagem da presidente Dilma Rousseff, definirem um limite
para as diatribes da dupla que dirige o Congresso Nacional precisa ser
visto sob diversos ângulos.


Um deles é a percepção de que, apesar da crise política, o governo já
aprovou as medidas básicas destinadas a conter os gastos públicos, e o
Brasil volta a receber novos investimentos, o que pode reacender a
economia em curto prazo. A outra razão é menos nobre: o principal alvo
da imprensa não é a atual presidente da República, que, mal ou bem, vem
retomando as rédeas do governo. O projeto da mídia tradicional é atingir
a reputação do ex-presidente Lula da Silva, para minar suas chances
caso venha a se candidatar em 2018.


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