Numa hora em que tantas pessoas prestam atenção na blogueira cubana Yaoni Sanchez, também é muito relevante discutir o SOPA e o PIPA.
São situações parecidas mas, estranhamente, nem todos se comovem da mesma forma, como se não tivessem percebido ou não quisessem perceber que se trata do mesmo problema, numa escala muito mais grave e ameaçadora. A repressão sofrida pela blogueira é injusta e merece repúdio. Mas o SOPA e o PIPA representam uma ameaça concreta à liberdade em países que se orgulham de garantir direitos democráticos a seus cidadãos, coisa que o regime dos irmãos Castro nunca disse que pretendia fazer depois que tomou o poder, em 1959. Os projetos de controle da internet representam um risco grave e imediato. Isso ficou claro ontem, nos protestos que envolveram diversos sites no mundo inteiro. O efeito não tardou. Pelo menos 18 senadores americanos já retiraram seu apoio ao projeto. O risco dele ser aprovado não acabou mas tornou-se menor. Barack Obama já disse que não irá assinar nenhuma lei que implique em criar censura na internet. Em sua coluna de hoje, em O Globo, Cora Ronai explica: se os projetos de lei em discussão no Congresso americano forem aprovados, “a rede com que colaboramos e que se formou graças ao conteúdo produzido e compartilhado por nós mesmos se transformaria numa estufa censurada, onde só se encontraria o que passasse pelo crivo da industria americana.”
Outro autor que compara o SOPA à uma censura é Ethevaldo Siqueira, colunista especializado em tecnologia do Estadão e insuspeito de qualquer antipatia por empresas privadas. Ele recorda que, caso o SOPA venha ser aprovado, poderá “se transformar em péssimo exemplo dos EUA para o mundo, inspirando muitos países a adotar formas semelhantes “de censura, de repressão e bloqueio de sites, hoje só praticadas pela China, Irã, Coréia do Norte, Cuba e poucos outros países.” Traduzindo: longe de ser um risco apenas para o cidadão americano, essas leis ameaçam o espaço de comunicação e cidadania que a internet ajudou a criar ao longo de 20 anos. Considerando o domínio americano nas inovações tecnológicas — há uma década o New York Times definiu a internet como uma colonia dos EUA — não há dúvida que toda medida tomada em Washington terá reflexos imediatos no mundo inteiro. Não estamos falando de países periféricos nem fechados. Mas do maior PIB mundial, com um imenso poder de retaliação e capacidade de impor interesses. Uma das forças por trás dos leis em debate é o cinema americano, que retira uma fatia enorme de suas receitas do mercado externo. Outra força é a industria de comunicações, que faz movimentos na mesma direção. O que está em questão é a natureza profunda da Internet.
Se há algo de revolucionário na Internet, o SOPA e o PIPA representam Termidor, a reação conservadora, que pretende restaurar uma ordem que deixou de fazer sentido neste universo.
Criada por cientistas que procuravam um espaço para facilitar o avanço do conhecimento, sendo muito utilizada por militares nos primeiros anos, a internet não é um produto de empresas privadas nem nasceu sob a lógica do lucro. É obra de millhões de cidadãos que todos os dias acessam sites, trocam mensagens, defendem idéias. Nasceu sob a lógica dos espaços públicos e continua assim. Nos primórdios, recebeu uma imensa carga de recursos do Estado americano, graças a visão de Al Gore, o vice de Bill Clinton que enxergou muita coisa à frente do titular.
O resultado é que a internet serve a economia de mercado — e como! — mas não se confunde com ela. É muito maior. Tem outra natureza.
Nem tudo que ali circula é mercadoria, o que tem vantagens e desvantagens. Começando pela desvantagem: seu trabalho pode ser divulgado, expropriado e até falsificado e você não vai receber nada por isso. Outra desvantagem: dificilmente poderá se defender mesmo que sofra uma acusação injusta. E terá de contar com advogados caros e competentes se quiser impedir a divulgação de uma informação que possa prejudicá-lo no YOUTUBE.
Concluindo pela vantagem: num mundo definido como sociedade da informação e do conhecimento, a internet cumpre um papel indispensável pelo seu caráter universal, aberto e descontrolado. Sem querer abusar de uma palavra que às vezes parece tão gasta, ajudou o mundo a se tornar mais democrático. Para muitas pessoas, o principal exercício de cidadania acontece ali. Os governos não mandam na internet. Nem as grandes corporações. Todos podem usá-la, disputar audiência, tentar criar monopolios, ganhar dinheiro e até enriquecer.
Mas é preciso respeitar uma regra básica, do espaço de liberdade. A internet é nossa grande praça pública, aquele lugar das sociedades contemporâneas que não existe mais nas cidades nem nas ruas — mas no computador. Não é magia mas até parece. O esforço para criar controles oficiais na internet é tipico de ditaduras. O esforço para transformá-la num espaço da iniciativa privada também. Num caso, sacrifica-se a liberdade em nome de uma ideologia. No outro, sacrifica-se a liberdade me nome da propriedade. Quem perde é a humanidade. Como é fácil de entender, no fim das contas o resultado é o mesmo. Não sou um fanático do individualismo contemporâneo. Mas vivemos num tempo de autonomia para os indivíduos, que têm espaço para seu pensamento, sua existencia, suas escolhas fundamentais e secundárias, sua capacidade de reagir.
É um movimento profundo, maior do que os profetas de todas as escolas de pensamento político do século XX poderiam imaginar. Numa sociedade de grandes monopólios econômicos e super podres poderes políticos, a internet é nosso lugar de respiro e resistência. Ninguém nos impede de ler o blogueiro que apreciamos, de xingar o blogueiro inconveniente, de espalhar opinião muito pessoal e manifestar aquela raiva que não paramos de sentir. Ninguém tem o direito de destruir a internet. Enquanto não houver uma ideia para corrigir seus defeitos sem ameaçar essa liberdade, é bom para todos nós que ela continue assim.
A lógica é mais ou menos recorrente. O tempo da história nacional é muito mais longo que o prazo do mandato dos governantes. Decisões estratégicas levam anos para se consolidar, mostrar sua lógica, ganhar corações e mentes. O reconhecimento se dá através da história, não de imediato.
Já os governantes pavimentam sua gestão por marcas próprias, pessoais, que sejam captadas imediatamente pelo eleitorado e pela opinião pública.
Em alguns momentos, casa o discurso com o rompimento de paradigmas. Foi assim quando Vargas (assessorado pelo Sr. Crise) rompeu com a inércia financeira da República Velha; quando JK completou o ciclo da indústria de base estatal com a atração de multinacionais; quando Fernando Collor brandiu o discurso da abertura e da desregulamentação que rompeu com a inércia pós-Geisel; e quando Lula desfraldou a bandeira das políticas sociais universalistas, civilizando a irracionalidade fiscal pós-Marcílio Marques Moreira.
Mas ainda não existe no país nem governantes nem grupos de inteligência capazes de definir políticas de longo prazo, institucionalizadas, casando pragmatismo e ações estratégicas, como fizeram os fundadores nos Estados Unidos do século 19.
E se o governante não consegue identificar os fatores portadores de futuro para a etapa seguinte, ou o país fica estagnado nas conquistas do período anterior; ou desanda.
Com Lula encerra-se um ciclo relevante, de início de políticas sociais inclusivas, formação de um mercado interno parrudo, de consumo de massa, uma melhor articulação nos investimentos públicos através do PAC (Programa de Aceleração do Cresciment). Dilma Rousseff teve papel relevante na montagem desse modelo.
Agora, como conceito essa etapa se completou, exigindo apenas continuidade na consolidação.
Dilma se conferiu o papel de consolidar desse modelo, aprimorando as ferramentas gerenciais, reduzindo a margem de manobra da fisiologia. É necessário, mas não suficiente. Se ela não tirar os olhos do dia-a-dia fará um governo morno, mas não um salto à altura da obra de seu antecessor.
É necessário que o círculo próximo da presidência disponha de estrategistas que, apontando o futuro, tire os olhos da presidente da análise exclusiva do dia-a-dia.
Mercado interno robusto é um ativo relevante, mas não é auto-sustentável. É ponto de partida, não de chegada. Pode-se gerar processos de desenvolvimento com políticas sociais inclusivas - que alargam o mercado consumidor - ou com moeda apreciada - que ilude o eleitor.
O bom aproveitamento desse ativo exige a elaboração de estratégias. Sejam quais forem os caminhos, não podem desviar-se do objetivo principal: fortalecer a produção e o emprego internos.
Por fortalecer não se entende meras medidas protecionistas. O protecionismo dos anos 80 legou uma indústria acomodada, provinciana, sem condições de competitividade. Significa estratégias que induzam à competição com produtos importados.
Enquanto não se tem a musculatura, garante-se a competitividade através de um câmbio competitivo. Depois, políticas públicas induzem à busca da gestão, da inovação, das modelagens de venda, das parcerias, do adensamento da cadeia produtiva.
Dilma ainda não se deu conta de que seu governo precisa ir muito além do que meramente consolidar os ganhos da etapa anterior.
Um artigo recente no jornal italiano “Corriere della Sera” discutia a natureza da investigação científica. O escritor Angelo Panebianco argumentou que a ciência é por definição antidogmática porque ela atua por tentativa e erro e está baseada no princípio da falibilidade, que sustenta que o conhecimento humano nunca é absoluto e está num fluxo constante. A ciência só se torna dogmática, diz Panebianco, no contexto de certas simplificações jornalísticas que transformam o que era meramente uma hipótese prudente em “verdades” estabelecidas.
Mas a ciência também se arrisca a ser dogmática quando não consegue questionar o paradigma aceito por uma determinada cultura ou época. Quer as ideias estejam baseadas nas de Darwin, de Einstein ou Copérnico, todos os cientistas seguem um paradigma para eliminar teorias que saem de sua órbita – como a crença de que o Sol gira em torno da Terra.
Como podemos conciliar a necessidade de paradigmas da comunidade científica com o fato de que a verdadeira inovação só acontece quando alguém consegue lançar dúvidas sobre as ideias dominantes do momento? Será que a ciência não se comporta de forma dogmática quando se entrincheira atrás dos muros de um determinado paradigma para defender seu poder e rotula como heréticos todos aqueles que desafiam sua autoridade?
A questão é importante. Será que os paradigmas sempre devem ser defendidos ou desafiados? Uma cultura (entendida como sistema de costumes e crenças herdados e compartilhados por um determinado grupo) não é meramente uma acumulação de dados; é também o resultado da filtragem desses dados. Qualquer cultura é capaz de descartar o que não considera útil ou necessário – a história da civilização é construída sobre informações que foram enterradas e esquecidas.
Em seu conto “Funes el Memorioso” de 1942, Jorge Luis Borges conta a história de um homem que se lembra de tudo: cada folha de uma árvore, cada rajada de vento, cada sabor, cada sentença, cada palavra. Mas por esse mesmo motivo Funes é um completo idiota, um homem imobilizado por sua incapacidade de selecionar e descartar. Nós dependemos de nosso subconsciente para esquecer. Se temos um problema, sempre podemos ir a um psicanalista para recuperar quais memórias nós descartamos por engano. Felizmente, todo o resto foi eliminado. Nossa alma é o produto da continuidade dessa memória seletiva. Se todos nós tivéssemos almas como a de Funes, seríamos desalmados.
Uma cultura opera de forma semelhante. Seus paradigmas, que são constituídos pelas coisas que nós preservamos e por nossos tabus em relação ao que descartamos, resultam de compartilhar essas enciclopédias pessoais. É sobre o pano de fundo dessa enciclopédia coletiva que travamos nossos debates. Para que uma discussão seja compreendida por todos, precisamos começar a partir dos paradigmas existentes, mesmo que apenas para mostrar que eles não são mais válidos. Sem a rejeição do paradigma ptolomaico então dominante, o argumento de Copérnico de que a Terra girava em torno do Sol teria sido incompreensível.
Hoje a internet é como Funes. Como uma totalidade de conteúdo, não filtrado nem organizado, ela oferece a qualquer um a capacidade de criar sua própria enciclopédia ou sistema de crenças. Num contexto como este, uma pessoa pode simultaneamente acreditar que a água é composta de hidrogênio e oxigênio e que o Sol gira em torno da Terra. Teoricamente, é concebível que um dia possamos viver num mundo no qual existam 7 bilhões de paradigmas diferentes, e a sociedade seria então reduzida ao diálogo fraturado de 7 bilhões de pessoas todas falando uma língua diferente.
Felizmente, essa noção é meramente hipotética, mas o argumento em si só é possível precisamente porque a comunidade científica se baseia nas ideias comuns compartilhadas, sabendo que para derrubar um paradigma é preciso primeiro que exista um paradigma a ser derrubado. A defesa desses paradigmas pode levar ao dogmatismo, mas o desenvolvimento do novo conhecimento é baseado exatamente nessa contradição. Para evitar conclusões apressadas, eu concordo com o cientista citado no artigo de Panebianco: “Eu não sei. É um fenômeno complexo; terei que estudá-lo.”
Será que é tão ofensivo ter um ancestral em comum com outros primatas, como os chimpanzés?
Ao menos nos EUA, a evidência é indiscutível. Em uma pesquisa do grupo Gallup na véspera do aniversário de 200 anos do nascimento de Charles Darwin, no dia 12 de fevereiro de 2009, apenas 39% dos americanos responderam que "acreditam na teoria da evolução".
Não há dados semelhantes no Brasil, mas imagino que os números sejam semelhantes ou piores.
A mesma pesquisa relaciona o resultado com o nível educacional dos respondentes. Apenas 21% das pessoas com ensino médio completo ou menos acreditam na evolução. O número sobe para 53% nos graduados e 74% em quem tem pós-graduação.
Outra variável investigada foi a relação do resultado com frequência à igreja. Dos que acreditam em evolução, 24% vão a igreja semanalmente, 30% ao menos uma vez por mês e 55% nunca vão. Quanto mais crente, maior a desconfiança em relação à teoria de Darwin.
Por outro lado, a evidência em favor da evolução também é indiscutível. Ela está no registro fóssil, datado usando a emissão de partículas de núcleos atômicos radioativos. Rochas de erupções vulcânicas (ígneas) enterradas perto de um fóssil contêm material radioativo. O mais comum é o urânio-235, que decai em chumbo-207.
Analisando a razão entre o urânio-235 e o chumbo-207 numa amostra de rocha ígnea e sabendo a frequência com que o urânio emite partículas (em 704 milhões de anos, a quantidade de urânio numa amostra cai pela metade), cientistas obtêm uma medida bastante precisa da idade do fóssil. Por exemplo, os dinossauros desapareceram há 65 milhões de anos.
A evidência em favor da evolução aparece também na resistência que bactérias podem desenvolver contra antibióticos. Quanto mais se usam antibióticos, maior a chance de que mutações gerem bactérias resistentes. Esse tipo de adaptação por pressão seletiva pode ser investigado no laboratório, sujeitando populações de bactérias a certas drogas e monitorando modificações no seu código genético.
Posto isso, pergunto-me por que a evolução causa tanto problema para tanta gente. Será que é tão ofensivo assim termos tido um ancestral em comum com outros primatas, como os chimpanzés?
A nossa descendência é ainda muito mais dramática: se formos mais para o passado, todos os animais que existem descenderam de um único ancestral, o Último Ancestral Universal Comum (na sigla Luca, em inglês), que provavelmente era um ser unicelular.
Essa desconfiança do conhecimento científico é muito estranha, dada a nossa dependência dele no século 21. (De onde vêm os antibióticos e iPhones?) O problema parece estar ligado ao Deus-dos-Vãos, a noção de que quanto mais aprendemos sobre o mundo, menos Deus é necessário. Os que interpretam a Bíblia literalmente veem nisso uma perda de rumo. Se Deus não criou Adão e Eva e se não nos tornamos mortais após a "queda do Paraíso", como lidar com a morte?
Uma teologia que insiste em contrapor a fé ao conhecimento científico só leva a um maior obscurantismo. Mesmo que não acredite em Deus, imagino que existam outras formas de encontrar Deus ou outros caminhos em busca de uma espiritualidade maior na vida.
MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor de "Criação Imperfeita". Facebook: http://goo.gl/93dHI
Milhões de pessoas veem absolutamente limitado o seu acesso a um elemento tão inquestionável do patrimônio histórico internacional e o uso do grande discurso das liberdades fica restrito àqueles que possam permitir-se pagar por ele.
Por Juan Luis Sánchez [20.01.2012 06h30]
Tradução de Idelber Avelar
Tente procurá-lo no Google e você custará a encontrá-lo. Tente pedi-lo a museus, centros de pesquisa política ou escolas de pensamento americanas e eles lhe dirão que não, que não está online em nenhum lugar mas que, em todo caso, você pode comprá-lo por US$ 10 na loja. E se você comprar o DVD e fizer o upload à Internet para que outros o possam ver, a sua conta de usuário pode ser suspensa.
O discurso “I have a dream”, de Martin Luther King, um dos mais importantes da história dos direitos civis, tem direitos autorais e cães de guarda dispostos a protegê-lo com zelo: a discográfica EMI chegou a um acordo em 2009 com os herdeiros de King para encarregar-se de que ninguém use esse material sem passar pela caixa registradora. Em novembro de 2011, parte da discográfica foi comprada por outra gigante, a Sony Music Enterteinment (SME), que assumiu o trabalho, por exemplo, de retirar da Internet os fragmentos do discurso que vários usuários haviam subido, sem intenção de lucro. Como este: veja o que acontece se você apertar o play.
A rede se move mais rápido que a estrutura que a persegue – e que agora tenta rearmar-se com iniciativas legais como SOPA ou PIPA – e há várias cópias do vídeo que sobrevivem no YouTube, à espera de que chegue a suspensão. Este vídeo funciona, no momento em que estamos escrevendo isto:
A potência histórica do discurso de Martin Luther King em 1968 ante centenas de milhares de pessoas nas escadarias do monumento a Lincoln, em Washington, DC, vai muito além do texto; é um discurso áudio-visual. Uma pessoa que não saiba muito inglês ou não seja um conhecedor da história política americana provavelmente não reconheceria o discurso ao lê-lo--exceto, talvez, quando chegue à parte do "I have a dream ..." - e, no entanto, apenas com o tom de voz bíblico de King, com as imagens da área da lagoa abarrotada, muita gente saberia reconhecer do que se trata. Porque o discurso de Martin Luther King é um ícone político e áudio-visual em todo o mundo. E, claro, isso é rentável.
Entretanto, a família King, através da EMI-Sony, autorizou outros usos do discurso do pai das liberdades civis dos negros dos Estados Unidos: para um comercial da Alcatel, por exemplo. Fazendo caixa com isso, é claro.
De forma que projetar, subir à Internet, remixar ou fazer qualquer uso do discurso de King, no formato que seja, é ilegal, exceto se caminhamos dentro das fronteiras da versão americana do “direito à citação” ou se chegamos a um acordo com os herdeiros. Desta forma, milhões de pessoas veem absolutamente limitado o seu acesso a um elemento tão inquestionável do patrimônio histórico internacional e o uso do grande discurso das liberdades fica restrito àqueles que possam permitir-se pagar por ele.
The Wikipedia blackout is over — and you have spoken.
More than 162 million people saw our message asking if you could imagine a world without free knowledge. You said no. You shut down Congress’s switchboards. You melted their servers. Your voice was loud and strong. Millions of people have spoken in defense of a free and open Internet.
For us, this is not about money. It’s about knowledge. As a community of authors, editors, photographers, and programmers, we invite everyone to share and build upon our work.
Our mission is to empower and engage people to document the sum of all human knowledge, and to make it available to all humanity, in perpetuity. We care passionately about the rights of authors, because we are authors.
SOPA and PIPA are not dead: they are waiting in the shadows. What happened in those 24 hours, though, is extraordinary. The Internet has enabled creativity, knowledge, and innovation to shine, and as Wikipedia went dark, you've directed your energy to protecting it.
We’re turning the lights back on. Help us keep them shining brightly.
Ao longo desta semana está sendo travada uma batalha sobre a Internet, envolvendo dois controversos projetos de lei no Congresso dos Estados Unidos, mas que impactariam sobre a web global. De um lado estão empresas de cinema e música, de outro portais de busca, redes sociais e movimentos de protesto ativos na rede (charge acima). O conflito é sobre diferentes modelos de negócios e as transformações em direitos autorais provocadas pela Internet, mas também a respeito da liberdade de expressão e dos novos modos pelos quais cidadãos e associações estão aprendendo a usar os recursos da web.
Os dois projetos de lei são Stop Online Piracy Act (SOPA) e Protect IP Act (PIPA). O primeiro ainda está em discussão, o segundo seria votado na próxima semana, mas talvez seja adiado pela força dos protestos. Ambos são voltados para o combate à pirataria e para a proteção da propriedade intelectual. No contexto da Internet, isso significa sobretudo restrições à possibilidade de baixar filmes, músicas, textos etc. Os métodos propostos vão do bloqueio de sites à suspensão de anúncio, podendo incluir até prisão de usuários.
O vídeo abaixo foi feito por opositores do PIPA. Embora se possa criticar algumas interpretações dos efeitos do projeto, ele sintetiza bem os principais temas em discussão:
As duas leis foram redigidas pelo deputado Lamar Smith (Republicano do Texas), presidente do Comitê Judiciário da Camâra. Foram apoiadas por outros parlamentares, incluindo muitos democratas, e surgiram de pressões de gravadoras e estúdios de Hollywood, o tipo de empresa que mais tem perdido com as chances que as pessoas têm de baixar seus produtos de graça na Internet. Naturalmente, elas querem restringir esse tipo de prática. O problema é que há outras firmas para quem os lucros estão exatamente nesse potencial de compartilhamento gratuito de conteúdo da rede, em geral pela venda de anúncios para quem usa seus serviços, que nada custam. São sites de busca como o Google, de referência como a Wikipedia, de vídeos como o You Tube e redes sociais como Facebook e Twitter.
Um tema particularmente explosivo é que os distintos modelos de negócios para a Web se interpolam com liberdade de expressão e direitos civis e políticos. Os projetos de lei exigem que os provedores monitorem a atividade dos usuários, como os sites que eles visitam, e ninguém sabe qual seria o limite desse tipo de vigilância, em particular nas redes sociais – só o Facebook tem mais de 500 milhões de participantes, o que cria enormes problemas sobre como controlar e censurar todo o material que postam diariamente. São questões que haviam sido levantadas pelo caso Wikileaks e que continuam no ar. O deputado Smith tem um histórico sombrio com respeito aos meios de comunicação, tendo proposto multas para “transimissões indecentes” e advogando controle dos sites que as pessoas visitam e do que fazem na rede.
Como era de se esperar, a própria Internet se mostrou um excelente meio de protesto e mobilização, principalmente pelo chamado “blecaute” – cerca de 10 mil sites, incluindo gigantes como a Wikipedia, colocaram-se parcialmente fora do ar, com sinais de luto e mensagens de protesto, solicitando aos usuários que entrem em contato com seus deputados e senadores. A pressão se fez sentir e vários parlamentares estão retirando apoio aos dois projetos.
Ontem, o FBI tirou do ar o Megaupload, um dos principais portais de compartilhamento. Seu fundador foi preso. Manifestantes reagiram derrubando a página do Departamento de Justiça, e da gravadora Universal.
Sob o título "Uma democracia desinformada", o artigo a seguir é de autoria de Marco Túlio de Carvalho Rocha, Procurador do Estado de Minas Gerais (*).
Inicia-se novo período eleitoral. Mais uma vez o povo escolherá seus representantes para governar e legislar. Ao cabo do processo, o sentimento geral continuará a ser, com raras exceções, o de que não se é representado pelos indicados nas urnas.
Diante desse paradoxo os mais instruídos são tentados a culpar a baixa educação do povo pelas más escolhas, como se a má representação política fosse o ônus que temos de suportar por estarmos no mesmo barco com a “ralé”.
Culpar a “patuleia” pelos desacertos da política pressupõe que as elites intelectuais ou econômicas possuem condições melhores de escolha, por serem mais bem informadas.
Em que medida as escolhas políticas das elites brasileiras podem ser consideradas melhores do que as da maioria menos instruída? Em que medida a elite intelectual brasileira é politicamente bem informada?
Uma boa informação política pressupõe boa formação cultural e acesso a uma imprensa livre. Há mais, no entanto. Educação e imprensa são meios que produzem informação, mas que não produzem o conteúdo da informação. Este provém de agentes políticos ou de meios oficiais de fiscalização e de controle.
A Constituição assegurou as condições formais, normativas, para a realização da democracia e o trânsito da informação política. Garantiu a separação dos Poderes, a liberdade de imprensa e a de expressão, as prerrogativas da magistratura e a autonomia do Ministério Público.
O que se faz com esse material normativo é o xis da questão.
Os grandes protagonistas do desvelamento da realidade política brasileira têm sido, nos últimos vinte anos, a Polícia Federal, o Ministério Público e, principalmente, membros desgarrados do staff político que, de vez em quando, vêm a público dar com a língua nos dentes.
Essas forças acabaram por empurrar a batata quente da informação ao Judiciário. Este, por sua cúpula, serviu-se de toda espécie de estratégias e de argumentos em defesa do status quo e da impunidade. Como resultado da reação de setores da sociedade civil e visando a aplacá-los, criou-se o CNJ. O olho da atual crise do Judiciário é formado por ações conservadoras e pelas reações que estas suscitam. Por isso mesmo a atual crise é séria e tende a durar.
Se, por um lado, a informação política brota escassamente de meios oficiais, de outro, a imprensa sobrevive às custas das verbas oficiais de publicidade, alinha-se aos grupos políticos dominantes e silencia.
Eis o sistema de desinformação que assola o País, do qual dificilmente escapamos nós, os ávidos leitores de jornais.
(*) O autor é mestre e doutor em Direito Civil pela UFMG
Coca-cola Zero. Sukita Zero. Fanta Light. Dolly Guaraná. Dolly Guaraná Diet. Fanta Laranja. Sprite Zero. Sukita. Oito bebidas e duas substâncias altamente nocivas ao ser humano. Na Coca-cola Zero, está o ciclamato de sódio, um agente químico que reconhecidamente faz mal à saúde. Nos outros sete refrigerantes, está o benzeno, uma substância potencialmente cancerígena.Essa é a mais recente descoberta que vem sendo publicada na mídia e que só agora chega aos ouvidos das maiores vítimas do refrigerante: os consumidores. A pergunta que vem logo à mente é: “por que só agora isso está sendo divulgado?”. E, pior: “se estes refrigerantes fazem tão mal à saúde, por que sua venda é permitida?”.
Nos Estados Unidos da América, a Coca-cola Zero já é proibida pelo F.D.A. (Federal Drugs Administration), mas sua venda continua em alta nos países em desenvolvimento ou não desenvolvidos, como os da Europa Oriental e América Latina. O motivo é o baixo custo do ciclamato de sódio (10 dólares por quilo) quando comparado ao Aspartame (152 dólares/Kg), substância presente na Coca-cola Light. O que isso quer dizer? Simplesmente que mesmo contendo substância danosa à saúde, a Coca Zero resulta num baixo custo para a companhia, tendo por isso uma massificação da propaganda para gerar mais vendas.
Não basta o cigarro?
E a ironia não para por aí. Para quem se pergunta sobre os países desenvolvidos, aqui vai a resposta: nos Estados Unidos, no Canadá, no Reino Unido e na maioria dos países europeus, a Coca-cola Zero não tem ciclamato de sódio. A luta insaciável pelos lucros da Coca-cola Company são mais fortes nos países pobres, até porque é onde menos se tem conhecimento, ou se dá importância, a essa informações.
No Brasil, o susto é ainda maior. Uma pesquisa realizada pela Pro Teste – Associação Brasileira de Defesa do Consumidor – verificou a presença do benzeno em índices alarmantes na Sukita Zero (20 microgramas por litro) e na Fanta Light (7,5 microgramas). Já nos refrigerantes Dolly Guaraná, Dolly Guaraná Diet, Fanta Laranja, Sprite Zero e Sukita, o índice de benzeno estava abaixo do limite de 5 microgramas por litro.
Só para se ter uma idéia, o benzeno está presente no ambiente através da fumaça do cigarro e da queima de combustível. Agora, imagine isso no seu organismo ao ingerir um dos refrigerantes citados. Utilizado como matéria-prima de produtos como detergente, borracha sintética e náilon, o benzeno está relacionado a leucemias e ao linfoma. Contudo, apesar de seus malefícios, o consumo da substância não significa necessariamente que a pessoa terá câncer, pois cada organismo tem seu nível de tolerância e vulnerabilidade. Corantes e adoçantes
Na mesma pesquisa da Pro Teste, constatou-se que as crianças correm um grande risco, pois foram encontrados adoçantes na versão tradicional do Grapette, não informados no rótulo. Nos refrigerantes Fanta Laranja, Fanta Laranja Light, Grapette, Grapette Diet, Sukita e Sukita Zero, foram identificados os corantes amarelo crepúsculo, que favorece a hiperatividade infantil e já foi proibido na Europa, e o amarelo tartrazina, com alto potencial alérgico.
Enquanto a pesquisa acusa uma urgente substituição dos corantes por ácido benzóico, por exemplo, a Coca-cola, que produz a Fanta, defende-se dizendo que cumpre a lei e informa a presença dos corantes nos rótulos das bebidas. A AmBev, que fabrica a Sukita, informou que trabalha “sob os mais rígidos padrões de qualidade e em total atendimento à legislação brasileira”.
Por fim, a Refrigerantes Pakera, fabricante do Grapette, diz que a bebida pode ter sido contaminada por adoçantes porque as duas versões são feitas na mesma máquina e algum resíduo pode ter ficado nos tanques.
Quando será o fim dessa novela e da venda dos refrigerantes que contém substâncias nocivas à saúde, ninguém sabe. Mas enquanto os fabricantes deixam a ética e o respeito ao cidadão de lado em busca do lucro exacerbado, você tem a liberdade de decidir entre tomar esse veneno ou preservar a qualidade do seu organismo. Agora, é com você!
Será que o Google enfim amadureceu? O cuidado com que a empresa vem tratando a tecnologia de reconhecimento facial parece confirmar essa tese. Basta compará-lo ao Facebook que, tendo apresentado sua tecnologia de reconhecimento facial em junho, se viu apanhado em uma onda mundial de rejeição às suas propostas devido a preocupações com privacidade. No entanto, o Google foi mais afortunado: algumas semanas atrás, a companhia revelou tecnologia para identificar amigos em fotos postadas na sua rede social Google + --e quase ninguém reparou.
As reações diferentes são fáceis de explicar: o Facebook instalou esse recurso para todos os usuários sem pedir sua permissão, enquanto o Google tornou sua ferramenta opcional. O Facebook agora talvez esteja adotando essa abordagem mais polida: o recente acordo entre a empresa e a Comissão Federal do Comércio norte-americana estipula que todas as futuras mudanças nos controles de privacidade existentes requererão autorização dos usuários.
A web parece estar abandonando a mentalidade da opção compulsória, característica dos brutamontes mandões --ou seja, "sabemos que vocês vão adorar esse recurso, e por isso ele será habilitado automaticamente-- em troca da mentalidade de adesão voluntária que caracteriza os diplomatas mais habilidosos --"ei, veja só como é bacana esse novo recurso-- mas só se você estiver interessado". Como demonstra a adesão do Facebook ao "compartilhamento sem fricção", uma coisa é nos forçar a compartilhar aquilo que estamos ouvindo alterando sem nossa permissão os controles de privacidade em nossas páginas; já convencer os usuários de que essa é a coisa certa --e bacana-- a fazer é questão bem diferente. A primeira atitude é uma ofensa. A segunda, uma causa de celebração.
E no entanto, o triunfo da adesão voluntária não é bem o que parece. Embora seja certamente menos coerciva, a adesão voluntária ainda faz com que a tecnologia subjacente --no caso, a de reconhecimento facial-- pareça normal e aceitável. Mas as companhias de tecnologia não reconhecem o fato. "A decisão cabe totalmente aos usuários. O que importa é dar mais controle aos usuários. Não os estamos forçando a nada --as pessoas podem optar por ficar de fora". Essa retórica morna de "dar poder ao usuário" vem sendo a base do evangelho do Vale do Silício há décadas. Tem por base uma crença ingênua em que tecnologias são apenas ferramentas e que seu impacto é instrumental. Assim, se os usuários desejam usar a ferramenta X para executar a tarefa Y, a única coisa que precisa ser debatida é a desejabilidade da tarefa Y. Que a adoção ampla da ferramenta X possa deflagrar um inesperado efeito Z é algo que jamais incomoda aos instrumentalistas, ou se o faz, eles simplesmente descartam o fator como algo de incalculável.
No entanto, esse tipo de raciocínio desconsidera o fato de que as tecnologias, além de servirem a suas funções imediatas, também causam efeitos ecológicos --na verdade, transformam ambientes, ideologias, usuários, relações de poder e outras tecnologias. Assim, embora carros possam ser uma maneira de chegar do Ponto A ao Ponto B, ninguém deveria se concentrar apenas nesse aspecto e desconsiderar o que a cultura do automóvel mais ampla pode estar causando em termos de qualidade e até mesmo modos de vida nas cidades, índices de poluição ou estatísticas de mortalidade. O foco nos usos imediatos de um artefato --quer seja de adesão compulsória ou voluntária- parece ser uma má maneira de resolver o "problema do carro".
Da mesma forma, presumir que uma dada tecnologia não é problemática porque seus usuários podem desativá-la parece pouco sensato. Por que deveríamos descartar a possibilidade de que, assim que número suficiente de pessoas opte por usá-la, a adoção coletiva dessa tecnologia possa transformar dramaticamente o ambiente social, fazendo da opção de não usá-la algo pouco desejável, ou até impossível? Considere os espaços públicos na Califórnia: assim que número suficiente de californianos optaram por usar o carro, algo mudou --tanto em termos de infraestrutura pública quanto de normas- e isso fez da Califórnia um ambiente nada propício a viver sem carro. O carro continua a nos levar do Ponto A ao Ponto B, mas será que nossa qualidade de vida não seria muito melhor se tivéssemos tentado antecipar seus efeitos colaterais e desenvolver uma visão mais multifacetada da tecnologia automobilística?
Agora, voltando ao tema das tecnologias automatizadas de reconhecimento facial, eis o que sabemos: é fácil usá-las para fins abusivos. Um serviço de busca que identifique nomes de pessoas com base em suas fotos seria muito popular junto aos ditadores, sempre ávidos por reprimir os protestos populares. Também sabemos que a tecnologia de reconhecimento facial já conquistou espaço em muitas áreas. É uma maneira popular de proteger celulares e laptops e evitar uso não autorizado. É usada em muitos consoles de videogame para criar uma experiência de jogo mais personalizada. Também é utilizada para identificar --em tempo real!-- o número de frequentadores de cada sexo em um bar. E a lista é muito mais longa.
Usos aparentente inócuos como esses estimularam o surgimento de uma nova geração de empresas que buscam usos novos para essa tecnologia --nem todos inócuos, e muitos dos quais antevistos por seus críticos. Quando o público geral acordar, a tecnologia terá, é claro, se incorporado de tal forma à nossa cultura que será tarde demais para fazer alguma coisa. Em certo sentido, estamos lidando com um processo mais sinistro que a noção popular de um "efeito borboleta" --a ideia de que uma borboleta batendo as asas no Brasil pode deflagrar um tornado no Texas. Talvez o melhor nome seja "efeito Palo Alto": um usuário despreocupado em Palo Alto que decida optar pelo uso da tecnologia de reconhecimento facial do Google termina fortalecendo um ditador em Damasco. Por que "sinistro"? Porque o usuário de Palo Alto, ao contrário da borboleta, pode antecipar o que virá --mas prefere não fazê-lo.
O que se pode fazer? Bem, podemos impor essa carga ética aos usuários de Internet e sensibilizá-los quanto às consequências posteriores (ainda que indiretas) de suas escolhas. Existem muitos precedentes quanto a isso. As crescentes preocupações quanto à desigualdade econômica, mudança do clima e mão-de-obra infantil resultaram no movimento de "consumo ético", que tenta levar o consumidor a considerar as ramificações éticas de seu comportamento no mercado.
Da mesma forma, por que não pensar em aplicar conceitos semelhantes ao nosso envolvimento com a Internet? O que seria necessário para uma "navegação ética" ou "rede social ética"? Jamais usar sites que empreguem técnicas de reconhecimento facial? Recusar fazer negócios com empresas de Internet que cooperem com a Agência Nacional de Segurança (NSA), [a organização que cuida da espionagem eletrônica norte-americana]? São escolhas que teremos de fazer se não desejamos que a Internet seja uma área isenta de ética. Afinal, o uso irrefletido da tecnologia, assim como o consumo irrefletido, não cria bons cidadãos.
Mas as companhias de Internet também precisam fazer sua parte. É claro que o Google e o Facebook são diferentes das grandes empresas rapaces que exploram trabalhadores rurais e crianças. Nenhuma delas está criando ferramentas de vigilância que poderiam ser usadas por ditadores. O que elas fazem, porém, é ajudar a criar uma infraestrutura técnica e ideológica para que essa cultura surja de maneira aparentemente natural. Isso não oferece argumentos fortes em favor da regulamentação --mas abre as portas a ativismo cidadão, boicotes e, se tudo mais falhar, desobediência civil.
As companhias de Internet sabem perfeitamente que têm responsabilidades. No começo do ano, Eric Schmidt, presidente do conselho do Google, classificou a tecnologia de reconhecimento facial como "sinistra" e expressou preocupação quanto a ela. Mas sua companhia acaba de endossar essa tecnologia --ainda que com a cláusula de adesão voluntária. O Google imagina que isso o proteja de acusações de comportamento antiético; afinal, a decisão cabe ao usuário. Mas será que nos deixaríamos persuadir se as companhias petroleiras alegassem que, se você se preocupa com a mudança do clima, não deveria dirigir um Humvee? Talvez não. É por fingirem não saber como esse triste filme acaba que as companhias de tecnologia cometem seu maior deslize ético.
TRADUÇÃO DE PAULO MIGLIACCI
Evgeny Morozov é pesquisador-visitante da Universidade Stanford e analista da New America Foundation. É autor de "The Net Delusion: The Dark Side of Internet Freedom" (a ilusão da rede: o lado sombrio da liberdade na internet). Tem artigos publicados em jornais e revistas como "The New York Times", "The Wall Street Journal", " Financial Times" e "The Economist". Lançará em 2012 o livro "Silicon Democracy" (a democracia do silício). Escreve às segundas-feiras, a cada quatro semanas.
O presidente do Banco Central leva o título pelo que fez de melhor: ficar longe dos refletores
Faz muito tempo, um general (Jorge de Sá Pinho) foi promovido e um curioso perguntou a Ernesto Geisel quem era ele. O ex-presidente respondeu: "É um grande general. A prova disso é que você não sabe quem é".
Em um ano, Alexandre Tombini tornou-se o primeiro presidente do Banco Central cuja notoriedade não rivaliza com a do elenco da novela das oito. Fala pouco, aparece menos e não exerce função de mestre-pensador da ciência econômica com paramentos de tutor do governo.
Funcionário de carreira do banco, com uma breve passagem pelo FMI, Tombini assumiu uma diretoria do BC em 2006. Pouco se sabia dele, salvo que tinha uma relação crispada com o líder da área conservadora do Copom, Afonso Bevilaqua. Numa entrevista, recusou-se a mencionar quem são seus economistas ou escritores prediletos. Informou apenas que tem mulher (americana, cujo nome não achou necessário revelar), dois filhos e torce pelo Internacional.
Em agosto, depois de ter patrocinado cinco altas da taxa de juros, de 10,75% para 12,50%, o BC os baixou para 12%. O "mercado", seja lá o que isso significa, esperava que ela ficasse estável. Quando os baixou, foi vassalagem ao Planalto. Colaram em Tombini o rótulo da subserviência imprudente.
Em sua defesa, saltou o professor Delfim Netto: "A indignada e quase raivosa reação de alguns analistas, que se supõem portadores da 'verdadeira' ciência monetária, (...) revela que, para eles, a sacrossanta "independência" do Banco Central só é reconhecida quando esse decide de acordo com os conselhos que eles, paciente, gratuita e patrioticamente, lhe dão todos os dias".
Afinal, como Delfim já dissera, "o Brasil é o ultimo peru disponível com farofa para a mesa dos especuladores".
A crise europeia agravou-se, a economia americana continua patinando e a providência revelou-se certa. O BC fez em 2011 o que deveria ter feito em 2008. Tombini estava certo, mas continuou longe dos refletores.
Cético desde sempre e para sempre, trago aqui meus desejos situados acima de toda possibilidade para 2012
As coisas que podem ser alcançadas, mude ou não o calendário, não precisam de tantos votos e pedidos na passagem de ano. O impossível desejado, aí sim, vale empenhar uma esperança contra a sua própria certeza. Cético desde sempre e para sempre, por natureza e convicção, trago aqui, para abordar 2012, meus desejos situados acima de toda possibilidade. Poderiam ser milhares, mas os três selecionados já sobrecarregam de desesperança as vãs esperanças.
Os três são simples. Tanto que o primeiro é só o desejo de uma pergunta alheia, que pode mesmo ser silenciosa. Não importaria se a fizesse uma autoridade paulista em nível estadual ou municipal.
É necessária uma explicação preliminar. Embora a riqueza paulista, algumas das favelas de São Paulo estão entre as mais desumanas nas milhares de favelas espalhadas pelo Brasil. Igualam-se, porém, às suas vizinhas menos degradantes nesta peculiaridade: em nenhum outro lugar as favelas são tão atingidas por incêndios como as de São Paulo.
A sequência é assombrosa. Ainda que não para os jornais, que nem se dispõem a substituir uma vulgaridade em suas primeiras páginas (estarei sendo redundante?) por documentos fotográficos da pobreza e da miséria incandescentes, literalmente como o inferno em vida.
A naturalidade com que os poderes públicos acompanham a sequência única de incêndios corresponde à rotina do fogo e da destruição. Vão os bombeiros, "o fogo é muito forte", "estamos tomando todas as providências", depois o rescaldo, as carcaças de fogões e de algumas geladeiras, o chão calcinado -pronto. Agora é aguardar o incêndio seguinte, para que tudo seja igual.
O desejo impossível é, então, o de que em 2012 alguma autoridade estadual ou municipal, sem furtar de seu tempo mais do que rápidos segundos, de repente se fizesse esta pergunta: "Por que será que há tantos incêndios de favelas aí pela Grande São Paulo?" Por que será?
Neste final de ano, o Rio ganhou dois presentes extraordinários. Aliás, extraordinário seria qualquer presente para a cidade que há muito tempo deixara de receber algum. O prefeito Eduardo Paes, cuja administração dinâmica injeta novidades valiosas e variadas em grande parte da cidade, adotou duas decisões muito muito inovadoras.
Uma: estudar a adoção de bondes modernos na região central da cidade e algumas adjacências. A outra: transferências da finalidade de lojas no Leblon (por ora, aí) não dependerão só das exigências burocráticas, mas de uma aprovação especial. Assim será evitado que livrarias, o comércio tradicional e serviços essenciais à vida de bairro continuem desaparecendo, devorados por mais agências bancárias e farmácias, já em número sufocante.
O desejo versão 2012: prefeitos e governadores admitirem não pensar em metrôs, só por serem obras de fácil (e aparente) justificação e alta rentabilidade para os bolsos próprios e alheios. E se interessarem pelo estudo de bondes modernos, tão menos custosos e de tanta eficiência para o público, como provam as deliciosas Amsterdã e San Francisco, entre outras. E ainda o estudo da ONU sobre transporte urbano, que qualificou o bonde moderno como o melhor em todos os sentidos.
Por fim, Marco Aurélio Villa, professor de história da Universidade Federal de São Carlos e colaborador de jornais, escreve que o best-seller "A privataria tucana", do repórter Amaury Ribeiro Jr., "foi produzido nos esgotos do Palácio do Planalto".
Aí há duas possíveis metáforas e uma informação. As primeiras são "nos esgotos" e o próprio historiador e professor de história. É a informação que justifica o desejo inalcançável: ver provar-se, por qualquer meio inequívoco, que "A privataria tucana" "foi produzido" no Palácio do Planalto, mesmo que na garagem ou no abrigo das emas.
Como os desejos impossíveis não impedem os realizáveis, agradeço a cada leitor a presença de sua leitura, mesmo que por uma só vez, e espero que seja protegido pela sorte em 2012.
O escritor e semiólogo Umberto Eco vive com sua mulher em um apartamento duplo no segundo e terceiro andar de um prédio antigo, de frente para o palácio Sforzesco, o mais vistoso ponto turístico de Milão. É como se Alice Munro morasse defronte à Canadian Tower em Toronto, Hakuri Murakami instalasse sua casa no sopé do monte Fuji, ou então Paulo Coelho mantivesse uma mansão na Urca, à sombra do Pão de Açúcar. "Acordo todo dia com a Renascença", diz Eco, referindo-se à enorme fortificação do século XV. O castelo deve também abrir os portões pela manhã com uma sensação parecida, pois diante dele vive o intelectual e o romancista mais famoso da Itália.
Um dos andares da residência de Eco é dedicado ao escritório e à biblioteca. São quatro salas repletas de livros, divididas por temas e por autores em ordem alfabética. A sala em que trabalha abriga aquilo que ele chama de "ala das ciências banidas", como ocultismo, sociedades secretas, mesmerismo, esoterismo, magia e bruxaria. Ali, em um cômodo pequeno, estão as fontes principais dos romances de sucesso de Eco: O nome da rosa (1980), O pêndulo de Foucault (1988), A ilha do dia anterior (1994), Baudolino (2000), A misteriosa chama da rainha Loana (2004) e O cemitério de Praga. Publicado em 2010 e lançado com sucesso no Brasil em 2011, o livro provocou polêmica por tratar de forma humorística de um assunto sério: o surgimento do antissemitismo na Europa. Por motivos diversos, protestaram a igreja católica e o rabino de Roma: aquela porque Eco satirizava os jesuítas ("são maçons de saia", diz o personagem principal, o odioso tabelião Simone Simonini), este porque as teorias conspiratórias forjadas no século XIX - como o Protocolo dos sábios do Sião - poderiam gerar uma onda de ódio aos judeus. Desde o início da carreira, em 1962, como autor do ensaio estético Obra aberta, Eco gosta de provocar esse tipo de reação. Mesmo aos 80 anos, que completa em 5 de janeiro, parece não perder o gosto pelo barulho. De muito bom humor, ele conversou com Época durante duas horas sobre a idade, o gênero que inventou - o suspense erudito -, a decadência europeia e seu assunto mais constante nos últimos anos: a morte do livro. É de pasmar, mas o maior inimigo da leitura pelo computador está revendo suas posições - e até gostando de ler livros... pelo iPad que comprou durante sua última turnê americana.
ÉPOCA - Como o senhor se sente, completando 80 anos? Umberto Eco - Bem mais velho! (Risos.) Vamos nos tornando importantes com a idade, mas não me sinto importante nem velho. Não posso reclamar de rotina. Minha vida é agitada. Ainda mantenho uma cátedra no Departamento de Semiótica e Comunicação da Universidade de Bolonha e continuo orientando doutorandos e pós-doutorandos. Dou muita palestra pelo mundo afora. E tenho feito turnês de lançamento de O cemitério de Praga. Acabo de voltar de uma megaexcursão pelos Estados Unidos. Ela quase me custou o braço. Estou com tendinite de tanto dar autógrafos em livros.
ÉPOCA - O senhor tem sido um dos mais ferrenhos defensores do livro em papel. Sua tese é de que o livro não vai acabar. Mesmo assim, estamos assistindo à popularização dos leitores digitais e tablets. O livro em papel ainda tem sentido? Eco - Sou colecionador de livros. Defendi a sobrevivência do livro ao lado de Jean-Claude Carrière no volume Não contem com o fim do livro. Fizemos isso por motivos estéticos e gnoseológicos (relativo ao conhecimento). O livro ainda é o meio ideal para aprender. Não precisa de eletricidade, e você pode riscar à vontade. Achávamos impossível ler textos no monitor do computador. Mas isso faz dois anos. Em minha viagem pelos Estados Unidos, precisava carregar 20 livros comigo, e meu braço não me ajudava. Por isso, resolvi comprar um iPad. Foi útil na questão do transporte dos volumes. Comecei a ler no aparelho e não achei tão mau. Aliás, achei ótimo. E passei a ler no iPad, você acredita? Pois é. Mesmo assim, acho que os tablets e e-books servem como auxiliares de leitura. São mais para entretenimento que para estudo. Gosto de riscar, anotar e interferir nas páginas de um livro. Isso ainda não é possível fazer num tablet.
ÉPOCA - Apesar dessas melhorias, o senhor ainda vê a internet como um perigo para o saber? Eco - A internet não seleciona a informação. Há de tudo por lá. A Wikipédia presta um desserviço ao internauta. Outro dia publicaram fofocas a meu respeito, e tive de intervir e corrigir os erros e absurdos. A internet ainda é um mundo selvagem e perigoso. Tudo surge lá sem hierarquia. A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. O excesso de informação provoca a amnésia. Informação demais faz mal. Quando não lembramos o que aprendemos, ficamos parecidos com animais. Conhecer é cortar, é selecionar. Vamos tomar como exemplo o ditador e líder romano Júlio César e como os historiadores antigos trataram dele. Todos dizem que foi importante porque alterou a história. Os cronistas romanos só citam sua mulher, Calpúrnia, porque esteve ao lado de César. Nada se sabe sobre a viuvez de Calpúrnia. Se costurou, dedicou-se à educação ou seja lá o que for. Hoje, na internet, Júlio César e Calpúrnia têm a mesma importância. Ora, isso não é conhecimento.
ÉPOCA - Mas o conhecimento está se tornando cada vez mais acessível via computadores e internet. O senhor não acha que o acesso a bancos de dados de universidades e instituições confiáveis estão alterando nossa noção de cultura? Eco - Sim, é verdade. Se você sabe quais os sites e bancos de dados são confiáveis, você tem acesso ao conhecimento. Mas veja bem: você e eu somos ricos de conhecimento. Podemos aproveitar melhor a internet do que aquele pobre senhor que está comprando salame na feira aí em frente. Nesse sentido, a televisão era útil para o ignorante, porque selecionava a informação de que ele poderia precisar, ainda que informação idiota. A internet é perigosa para o ignorante porque não filtra nada para ele. Ela só é boa para quem já conhece – e sabe onde está o conhecimento. A longo prazo, o resultado pedagógico será dramático. Veremos multidões de ignorantes usando a internet para as mais variadas bobagens: jogos, bate-papos e busca de notícias irrelevantes.
ÉPOCA - Há uma solução para o problema do excesso de informação? Eco - Seria preciso criar uma teoria da filtragem. Uma disciplina prática, baseada na experimentação cotidiana com a internet. Fica aí uma sugestão para as universidades: elaborar uma teoria e uma ferramenta de filtragem que funcionem para o bem do conhecimento. Conhecer é filtrar.
ÉPOCA - O senhor já está pensando em um novo romance depois de O cemitério de Praga? Eco - Vamos com calma. Mal publiquei um e você já quer outro. Estou sem tempo para ficção no momento. Na verdade, vou me ocupar agora de minha autobiografia intelectual. Fui convidado por uma instituição americana, Library of Living Philosophers, para elaborar meu percurso filosófico. Fiquei contente com o convite, porque passo a fazer parte de um projeto que inclui John Dewey, Jean-Paul Sartre e Richard Rorty - embora eu não seja filósofo. Desde 1939, o instituto convida um pensador vivo para narrar seu percurso intelectual em um livro. O volume traz então ensaios de vários especialistas sobre os diversos aspectos da obra do convidado. No final, o convidado responde às dúvidas e críticas levantadas. O desafio é sistematizar de uma forma lógica tudo o que já fiz...
ÉPOCA - Como lidar com tamanha variedade de caminhos? Eco - Estou começando com meu interesse constante desde o começo da carreira pela Idade Média e pelos romances de Alessandro Manzoni. Depois vieram a Semiótica, a teoria da comunicação, a filosofia da linguagem. E há o lado banido, o da teoria ocultista, que sempre me fascinou. Tanto que tenho uma biblioteca só do assunto. Adoro a questão do falso. E foi recolhendo montes de teorias esquisitas que cheguei à ideia de escrever O cemitério de Praga.
ÉPOCA - Entre essas teorias, destaca-se a mais célebre das falsificações, O protocolo dos sábios de Sião. Por que o senhor se debruçou sobre um documento tão revoltante para fazer ficção? Eco - Eu queria investigar como os europeus civilizados se esforçaram em construir inimigos invisíveis no século XIX. E o inimigo sempre figura como uma espécie de monstro: tem de ser repugnante, feio e malcheiroso. De alguma forma, o que causa repulsa no inimigo é algo que faz parte de nós. Foi essa ambivalência que persegui em O cemitério de Praga. Nada mais exemplar que a elaboração das teorias antissemitas, que viriam a desembocar no nazismo do século XX. Em pesquisas, em arquivos e na internet, constatei que o antissemitismo tem origem religiosa, deriva para o discurso de esquerda e, finalmente, dá uma guinada à direita para se tornar a prioridade da ideologia nacional-socialista. Começou na Idade Média a partir de uma visão cristã e religiosa. Os judeus eram estigmatizados como os assassinos de Jesus. Essa visão chegou ao ápice com Lutero. Ele pregava que os judeus fossem banidos. Os jesuítas também tiveram seu papel. No século XIX, os judeus, aparentemente integrados à Europa, começaram a ser satanizados por sua riqueza. A família de banqueiros Rotschild, estabelecida em Paris, virou um alvo do rancor social e dos pregadores socialistas. Descobri os textos de Léo Taxil, discípulo do socialista utópico Fourier. Ele inaugurou uma série de teorias sobre a conspiração judaica e capitalista internacional que resultaria em Os protocolos dos sábios do Sião, texto forjado em 1897 pela polícia secreta do czar Nicolau II.
ÉPOCA - O senhor considera os Procotolos uma das fontes do nazismo? Eco - Sem dúvida. Adolf Hitler, em sua autobiografia, Minha luta, dava como legítimo o texto dos Protocolos. Hitler tomou como verdadeira uma falsificação das mais grosseiras, e essa mentira constitui um dos fundamentos do nazismo. A raiz do antissemitismo vem de muito antes, de uma construção do inimigo, que partiu de delírios e paranoias.
ÉPOCA - O personagem de O cemitério de Praga, Simone Simonini, parece concentrar todos os preconceitos e delírios europeus do século XIX. Ele é ao mesmo tempo antissemita, anticlerical, anticapitalicas e antissocialista. Como surgiu na sua mente alguém tão abominável? Eco - Os críticos disseram que Simonini é o personagem mais horroroso da literatura de todos os tempos, e devo concordar com eles. Ele também é muito divertido. Seus excessos estão ali para provocar riso e revolta. No romance, Simonini é a única figura fictícia. Guarda todos os preconceitos e fantasias sobre um inimigo que jamais conhece. E se desdobra em várias personalidades: durante o dia, atua como tabelião falsificador de documentos; à noite, traveste-se em falso padre jesuíta e sai atrás de aventuras sinistras. Acaba virando joguete dos monarquistas, que se opõem à unificação da Itália, e, por fim, dos russos. Imaginei Simonini como um dos autores de Os protocolos dos sábios do Sião.
ÉPOCA - A falsificação sobre falsificações permitida pela ficção tornou o livro controverso. Ele tem provocado reações negativas. O senhor gosta de lidar com polêmicas? Eco - A recepção tem sido positiva. O livro tem feito sucesso sem precisar de polêmicas. Quando foi lançado na Itália, ele gerou alguma discussão. O L'osservatore Romano, órgão oficial do Vaticano, publicou um artigo condenando os ataques do livro aos jesuítas. Não respondi, porque sou conhecido como um intelectual anticlerical - e já havia discutido com a igreja católica no tempo de O nome da rosa, quando me acusaram de atacar a igreja. O rabino de Roma leu O cemitério de Praga e advertiu em um pronunciamento que as teorias contidas no livro poderiam se tornar novamente populares a partir da obra. Respondi a ele que não havia esse perigo. Ao contrário, se Simonini serve para alguma coisa, é para provocar nossa indignação.
ÉPOCA - Além de falsário, Simonini se revela um gourmet. Ao longo do livro, o senhor joga listas e listas de receitas as mais extravagantes, que Simonini comenta com volúpia. O senhor gosta de gastronomia? Eco - Eu sou MacDonald's! Nunca me incomodei com detalhes de comida. Pesquisei receitas antigas com um objetivo preciso: causar repugnância no leitor. A gastronomia é um dado negativo na composição do personagem. Quando Simonini discorre sobre pratos esquisitos, o leitor deve sentir o estômago revirado.
ÉPOCA - Qual o sentido de escrever romances hoje em dia? O que o atrai no gênero? Eco - Faz todo o sentido escrever ficção. Não vejo como fazer hoje narrativa experimental, como James Joyce fez com Finnegan's Wake, para mim a fronteira final da experimentação. Houve um recuo para a narrativa linear e clássica. Comecei a escrever ficção nesse contexto de restauração da narratividade, chamado de pós-modernismo. Sou considerado um autor pós-moderno, e concordo com isso. Vasculho as formas e artifícios do romance tradicional. Só que procuro introduzir temas que possam intrigar o leitor: a teoria da comédia perdida de Aristóteles em O nome da rosa; as conspirações maçônicas em O pêndulo de Foucault; a imaginação medieval em Baudolino; a memória e os quadrinhos em A misteriosa chama; a construção do antissemitismo em O cemitério de Praga. O romance é a realização maior da narratividade. E a narratividade conserva o mito arcaico, base de nossa cultura. Contar uma história que emocione e transforme quem a absorve é algo que se passa com a mãe e seu filho, o romancista e seu leitor, o cineasta e seu espectador. A força da narrativa é mais efetiva do que qualquer tecnologia.
ÉPOCA - Philip Roth disse que a literatura morreu. Qual a sua opinião sobre os apocalípticos que preveem a morte da literatura? Eco - Philip Roth é um grande escritor. A contar com ele, a literatura não vai morrer tão cedo. Ele publica um romance por ano, e sempre de boa qualidade. Não me parece que nem o romance nem ele pretendem interromper a carreira (risos).
ÉPOCA - Mas por que hoje não aparecem romancistas do porte de Liev Tolstói e Gustave Flaubert? Eco - Talvez porque ainda não os descobrimos. Nada acontece imediatamente na literatura. É preciso esperar um pouco. Devem certamente existir Tolstóis e Flauberts por aí. E têm surgido ótimos ficcionistas em toda parte.
ÉPOCA - Como o senhor analisa a literatura contemporânea? Eco - Há bons autores medianos na Itália. Nada de genial, mas têm saído livros interessantes de autores bastante promissores. Hoje existe o thriller italiano, com os romances de suspense de Andrea Camilleri e seus discípulos. No entanto, um signo do abalo econômico italiano é que é mais possível um romancista viver de sua obra literária, como fazia (Alberto) Moravia. Hoje romance virou uma atividade diletante. É diferente do que ocorre nos Estados Unidos, aindaum polo emissor de ótima ficção e da profissionalização dos escritores. Além dos livros de Roth, adorei ler Liberdade, de Jonathan Franzen, um romance de corte clássico e repleto de referências culturais. A França, infelizmente, experimenta uma certa decadência literária, e nada de bom apareceu nos últimos tempos. O mesmo parece se passar com a América Latina. Já vão longe os tempos do realismo fantástico de García Márquez e Jorge Luis Borges. Nada tem vindo de lá que me pareça digno de nota.
ÉPOCA - E a literatura brasileira? Que impressões o senhor tem do Brasil? O país lhe parece mais interessante hoje do que há 30 anos? Eco - O Brasil é um país incrivelmente dinâmico. Visitei o Brasil há muito tempo, agora acompanho de longe as notícias sobre o país. A primeira vez foi em 1966. Foi quando visitei terreiros de umbanda e candomblé - e mais tarde usei essa experiência em um capítulo de O pêndulo de Foucault para descrever um ritual de candomblé. Quando voltei em 1978, tudo já havia mudado, as cidades já não pareciam as mesmas. Imagino que hoje em dia o Brasil esteja completamente transformado. Não tenho acompanhado nada do que se faz por lá em literatura. Eu era amigo do poeta Haroldo de Campos, um grande erudito e tradutor. Gostaria de voltar, tenho muitos convites, mas agora ando muito ocupado... comigo mesmo.
ÉPOCA - O senhor foi o criador do suspense erudito. O modelo é ainda válido? Eco - Em O nome da Rosa, consegui juntar erudição e romance de suspense. Inventei o investigador-frade William de Baskerville, baseado em Sherlock Holmes de Conan Dolyle, um bibliotecário cego inspirado em Jorge Luis Borges, e fui muito criticado porque Jorge de Burgos, o personagem, revela-se um vilão. De qualquer forma, o livro foi um sucesso e ajudou a criar um tipo de literatura que vejo com bons olhos Sim, há muita coisa boa sendo feita. Gosto de (Arturo) Pérez-Reverte, com seus livros de fantasia que lembram os romances de aventura de Alexandre Dumas e Emilio Salgari que eu lia quando menino.
ÉPOCA - Lendo seus seguidores, como Dan Brown, o senhor às vezes não se arrepende de ter criado o suspense erudito? Eco - Às vezes, sim! (risos) O Dan Brown me irrita porque ele parece um personagem inventado por mim. Em vez de ele compreender que as teorias conspiratórias são falsas, Brown as assume como verdadeiras, ficando ao lado do personagem, sem questionar nada. É o que ele faz em O Código Da Vinci. É o mesmo contexto de O pêndulo de Foucault. Mas ele parece ter adotado a história para simplificá-la. Isso provoca ondas de mistificação. Há leitores que acreditam em tudo o que Dan Brown escreve - e não posso condená-los.
ÉPOCA - O que vem antes na sua obra, a teoria ou a ficção? Eco - Não há um caminho único. Eu tanto posso escrever um romance a partir de uma pesquisa ou um ensaio que eu tenha feito. Foi o caso de O pêndulo de Foucault, que nasceu de uma teoria. Baudolino resultou de ideias que elaborei em torno da falsificação. Ou vice-versa. Depois de escrever O cemitério de Praga, me veio a ideia de elaborar uma teoria, que resultou no livro Costruire il Nemico (Construir o Inimigo, lançado em maio de 2011). E nada impede que uma teoria nascida de uma obra de ficção redunde em outra ficção.
ÉPOCA - Quando escreve, o senhor tem um método ou uma superstição? Eco - Não tenho nenhum método. Não sou com Alberto Moravia, que acordava às 8h, trabalhava até o meio-dia, almoçava, e depois voltava para a escrivaninha. Escrevo ficção sempre que me dá prazer, sem observar horários e metodologias. Adoro escrever por escrever, em qualquer meio, do lápis ao computador. Quando elaboro textos acadêmicos ou ensaio, preciso me concentrar, mas não o faço por método.
ÉPOCA - Como o senhor analisa a crise econômica italiana? Existe uma crise moral que acompanha o processo de decadência cultural? A Itália vai acabar? Eco - Não sou economista para responder à pergunta. Não sei por que vocês jornalistas estão sempre fazendo perguntas (risos). Talvez porque eu tenha sido um crítico do governo Silvio Berlusconi nesses anos todos, nos meus artigos de jornal, não é mesmo? Bom, a Itália vive uma crise econômica sem precedentes. Nos anos Berlusconi, desde 2001, os italianos viveram uma fantasia, que conduziu à decadência moral. Os pais sonhavam com que as filhas frequentassem as orgias de Berlusconi para assim se tornarem estrela da televisão. Isso tinha de parar, acho que agora todos se deram conta dos excessos. A Itália continua a existir, apesar de Berlusconi.
ÉPOCA - O senhor está confiante com a junção Merkozy (Nicolas Sarkozy e Angela Merkel) e a ascensão dos tecnocratas, como Mario Monti como primeiro ministro da Itália? Eco - Se não há outra forma de governar a zona do Euro, o que fazer? Merkel tem o encargo, mas também sofre pressões em seu país, para que deixe de apoiar países em dificuldades. A ascensão de Monti marca a chegada dos tecnocratas ao poder. E de fato é hora de tomar medidas duras e impopulares que só tecnocratas como Monti, que não se preocupa com eleição, podem tomar, como o corte nas aposentadorias e outros privilégios.
ÉPOCA - O que o senhor faz no tempo livre? Eco - Coleciono livros e ouço música pela internet. Tenho encontrado ótimas rádios virtuais. Estou encantado com uma emissora que só transmite música coral. Eu toco flauta doce (mostra cinco flautas de variados tamanhos), mas não tenho tido tempo para praticar. Gosto de brincar com meus netos, uma menina e um menino.
ÉPOCA - Os 80 anos também são uma ocasião para pensar na cidade natal. Como é sua ligação com Alessandria? Eco - Não é difícil voltar para lá, porque Alessandria fica a uns 100 quilômetros de Milão. Aliás foi um dos motivos que escolhi morar por aqui: é perto de Bolonha e de Alessandria. Quando volto, sou recebido como uma celebridade. Eu e o chapéu Borsalino, somos produção de Alessandria! Reencontro velhos amigos no clube da cidade, sou homenageado, bato muito papo. Não tenho mais parentes próximos. É sempre emocionante.