domingo, 12 de outubro de 2014

DILMA MG

Dilma mostra a munição que pretende usar

Dilma mostra a munição que pretende usar contra Aécio nos debates; tucano se defende, mas pela metade « Viomundo - O que você não vê na mídia

Dilma mostra a munição que pretende usar contra Aécio nos debates; tucano se defende, mas pela metade

publicado em 12 de outubro de 2014 às 3:00
diretor


Acima, imagem reproduzida pelos Amigos do Presidente Lula; abaixo, do Tijolaço


radio


Da Redação


O tucano Aécio Neves defendeu-se neste sábado de acusação feita pela
petista Dilma Rousseff, de que foi nomeado aos 25 anos diretor da Caixa
Econômica Federal, durante o governo Sarney.


A nota oficial da Coligação Muda Brasil diz:


A candidata Dilma Rousseff deveria respeitar mais a inteligência dos brasileiros e o nível da campanha eleitoral.


Sem conseguir explicar porque nomeou e manteve Paulo Roberto
Costa e outros diretores suspeitos na Petrobras, tenta atacar os
adversários com denúncias infundadas, de 30 anos atrás.



O senador Aécio Neves foi nomeado para a diretoria da Caixa Econômica em 1985, de maneira transparente para todo o pais.


Desempenhou o cargo por cerca de um ano com a mesma competência e
integridade que marcaram sua passagem por outros cargos públicos. Ao
contrário dos indicados no governo Dilma.



E, ao contrário da candidata, que fez toda a sua vida através da
ocupação de cargos por indicação política, o senador possui 30 anos de
atividades exercidas sempre por delegação do povo.
Porém, em sua nota oficial, como notou o blog Amigos do Presidente Lula,
o candidato do PSDB omitiu que quando foi nomeado seu primo, Francisco
Dornelles, do PP, era ministro da Fazenda. Sarney herdou a presidência
com a morte do avô de Aécio, Tancredo Neves.


A nota também não tratou da emissora de rádio cuja concessão Aécio obteve por decisão de Sarney.


Abaixo, o discurso em que a candidata petista explicitou a munição
que pretende usar contra o adversário nos debates da reta final do
segundo turno.

https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=lYD2FFFKvCk





Leia também:


Urariano Mota responde aos preconceituosos e racistas





Presidente do PSB apoia Dilma

Presidente do PSB apoia Dilma em nota e diz que partido trai luta de Campos - Notícias - UOL Eleições 2014

Leia abaixo a íntegra da carta aberta:

"Mensagem aos militantes do PSB e ao povo brasileiro

A
luta interna no PSB, latente há algum tempo e agora aberta, tem como
cerne a definição do país que queremos e, por consequência, do Partido
que queremos. A querela em torno da nova Executiva e o método patriarcal
de escolha de seu próximo presidente são pretextos para sombrear as
questões essenciais. Tampouco estão em jogo nossas críticas, seja ao
governo Dilma, seja ao PT, seja à atrasada dicotomia PT-PSDB –
denunciada, na campanha, por Eduardo e Marina como do puro e exclusivo
interesse das forças que de fato dominam o país e decidem o poder.


Ao
aliar-se acriticamente à candidatura Aécio Neves, o bloco que hoje
controla o partido, porém,  renega compromissos programáticos e
estatutários, suspende o debate sobre o futuro do Brasil, joga no lixo o
legado de seus fundadores – entre os quais me incluo – e menospreza o
árduo esforço de construção de uma resistência de esquerda, socialista e
democrática.


Esse caminhar tortuoso contradiz a
oposição que o Partido sustentou ao longo do período de políticas
neoliberais e desconhece sua própria contribuição nos últimos anos,
quando, sob os governos Lula dirigiu de forma renovadora a política de
ciência e tecnologia do Brasil e, na administração Dilma Rousseff,
ocupou o Ministério da Integração Nacional.      


Ao
aliar-se à candidatura Aécio Neves, o PSB traiu a luta de Eduardo
Campos, encampada após sua morte por Marina Silva, no sentido de
enriquecer o debate programático pondo em xeque a nociva e artificial
polarização entre PT e PSDB. A sociedade brasileira, ampla e
multifacetada, não cabe nestas duas agremiações. Por isso mesmo e,
coerentemente, votei, na companhia honrosa de Luiza Erundina, Lídice da
Mata, Antonio Carlos Valadares, Glauber Braga, Joilson Cardoso, Kátia
Born e Bruno da Mata, a favor da liberação dos militantes.     


Como
honrar o legado do PSB optando pelo polo mais atrasado? Em momento
crucial para o futuro do país, o debate interno do PSB restringiu-se à
disputa rastaquera dos que buscam sinecuras e recompensas nos desvãos do
Estado. Nas ante-salas de nossa sede em Brasília já se escolhem os
ministros que o PSB ocuparia num eventual governo tucano. A tragédia do
PT e de outros partidos a caminho da descaracterização ideológica não
serviu de lição: nenhuma agremiação política pode prescindir da primazia
do debate programático sério e aprofundado. Quem não aprende com a
História condena-se a errar seguidamente.       


Estamos
em face de uma das fontes da crise brasileira: a visão pobre, míope,
curta, dos processos históricos, visão na qual o acessório toma a vez do
principal, o episódico substitui o estrutural, as miragens tomam o
lugar da realidade. Diante da floresta, o medíocre contempla uma ou
outra árvore. Perde a noção do rumo histórico.       


Ao
menosprezar seu próprio trajeto, ao ignorar as lições de seus
fundadores – entre eles João Mangabeira, Antônio Houaiss, Jamil Haddad e
Miguel Arraes –, o PSB renunciou à posição que lhe cabia na construção
do socialismo do século XXI, o socialismo democrático, optando pela
covarde rendição ao statu quo. Renunciou à luta pelas reformas que podem
conduzir a sociedade a um patamar condizente com suas legítimas
aspirações.


Qual o papel de um partido socialista no
Brasil de hoje? Não será o de promover a conciliação com o capital em
detrimento do trabalho; não será o de aceitar a pobreza e a exploração
do homem pelo homem como fenômeno natural e irrecorrível; não será o de
desaparelhar o Estado em favor do grande capital, nem renunciar à
soberania e subordinar-se ao capital financeiro que construiu a crise de
2008 e construirá tantas outras quantas sejam necessárias à expansão do
seu domínio, movendo mesmo guerras odientas para atender aos
insaciáveis interesses monopolísticos.       


O papel
de um partido socialista no Brasil de hoje é o de impulsionar a
redistribuição da riqueza, alargando as políticas sociais e promovendo a
reforma agrária em larga escala; é o de proteger o patrimônio natural e
cultural; é o de combater todas as formas de atentado à dignidade
humana; é o de extinguir as desigualdades espaciais do desenvolvimento; é
o de alargar as chances para uma juventude prenhe de aspirações; é o de
garantir a segurança do cidadão, em particular aquele em situação de
risco; é o de assegurar, através de tecnologias avançadas, a defesa
militar contra a ganância estrangeira; é o de promover a aproximação com
nossos vizinhos latino-americanos e africanos; é o de prover as
possibilidades de escolher soberanamente suas parcerias internacionais. É
o de aprofundar a democracia.      


Como presidente do
PSB, procurei manter-me equidistante das disputas, embora minha opção
fosse publicamente conhecida. Assumi a Presidência do Partido no grave
momento que se sucedeu à tragédia que nos levou Eduardo Campos; conduzi o
Partido durante a honrada campanha de Marina Silva. Anunciados os
números do primeiro turno, ouvi, como magistrado, todas as correntes e
dirigi até o final a reunião da Comissão Executiva que escolheu o
suicídio político-ideológico.


Recebi com bons modos a
visita do candidato escolhido pela nova maioria. Cumprido o papel a que
as circunstâncias me constrangeram, sinto-me livre para lutar pelo
Brasil com o qual os brasileiros sonhamos, convencido de que o apoio à
reeleição da presidente Dilma Rousseff é, neste momento, a única
alternativa para a esquerda socialista e democrática. Sem declinar das
nossas diferenças, que nos colocaram em campanhas distintas no primeiro
turno, o apoio a Dilma representa mais avanços e menos retrocessos, ou
seja, é, nas atuais circunstâncias, a que mais contribui na direção do
resgate de dívidas históricas com seu próprio povo, como também de sua
inserção tão autônoma quanto possível no cenário global.


Denunciamos
a estreiteza do maniqueísmo PT-PSBD, oferecemos nossa alternativa e
fomos derrotados: prevaleceu a dicotomia, e diante dela cumpre optar. E a
opção é clara para quem se mantém fiel aos princípios e à trajetória do
PSB.
O Brasil não pode retroagir.


Convido todos,
dentro e fora do PSB, a atuar comigo em defesa da sociedade brasileira,
para integrar esse histórico movimento em defesa de um país
desenvolvido, democrático e soberano. 


Rio de Janeiro, 11 de outubro de 2014.

Roberto Amaral"

Uma eleição de muitos - 12/10/2014 - Janio de Freitas - Colunistas - Folha de S.Paulo

Uma eleição de muitos - 12/10/2014 - Janio de Freitas - Colunistas - Folha de S.Paulo

Uma eleição de muitos














As subidas e descidas da Bolsa e do dólar, a cada pesquisa ou a cada
boato da eleição presidencial, mostram bem o que é a chamada "elite
financeira" brasileira. E, por extensão, atingem a alardeada ética da
imprensa, da TV e das rádios.





As altas por euforia e as quedas por desalento eleitoral são reações
falsas. A Bolsa não espera mais do que um punhado de horas para provar a
falsidade. E o faz do modo mais objetivo e inequívoco. Já no dia
seguinte, a queda é sufocada por subidas, ou o inverso. Mas o motivo
alegado para a reação na véspera não cessou, sendo frequente que até
aumentasse, com resultados mais fortes do que o esperado das pesquisas e
pelos boatos.





A eleição presidencial é transformada em pretexto, pelos manipuladores
da Bolsa, para provocar os movimentos de alta e de baixa que alimentam o
jogo especulativo, com as valorizações e depreciações de papéis que não
precisam ser mais do que artificiosas. É o tal cassino, catedral do
capitalismo que gira em torno de lucros com juros e renda de ações, não
de produção. O capitalismo brasileiro.





Na imprensa, na TV e nas rádios, os movimentos da Bolsa a pretexto da
eleição ganham o seu papel de influência eleitoral. As quedas e as
subidas recebem destaque de fatos relevantes quando se prestam a
significar repulsa por determinado candidato. Se a subida ou queda não
trouxer tal possibilidade, a Bolsa terá o seu noticiário habitual.





Eleição presidencial no Brasil pós-ditadura não se decide entre
candidatos e respectivos partidos. Integram a disputa os candidatos, os
partidos, a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e até a Bolsa
de Valores. Imprensa, TV e rádios também, claro, mas em outro diapasão,
porque participam das eleições como de tudo mais o tempo todo.





Registre-se a nota social, aliás, do Judiciário como debutante na
disputa eleitoral, em par com o Ministério Público (também chamado de
Procuradoria da República). Daí resultou a interessante coincidência, no
calendário, entre o primeiro turno eleitoral e a delação premiada sob
um novo sistema: o de sigilo judicial com alto-falante. E, ainda melhor,
esta outra obra do acaso, que foi o primeiro depoimento judicial de um
delator, com o previsível vazamento, logo no primeiro dia da disputa de
segundo turno.





Já que as coincidências estão aí, convém repor no seu lugar aquela com
que Fernando Henrique prova continuar querendo que se esqueça o que
disse, por escrito ou de viva voz. Em entrevista a Mário Magalhães e a
Josias de Souza, para o UOL, disse ele que "o PT está fincado nos menos
informados, que coincide de serem os mais pobres".





Não há como negar a interpretação de que a frase atribui o voto no PT a
inferioridades culturais e sociais, não existentes nos eleitores de
outros partidos. Ninguém, portanto, entre os muitos que viram na frase
uma divisão preconceituosa do eleitorado, mentiu sobre a autoria, a
própria frase e o seu sentido, como Fernando Henrique os acusa com
virulência. O blog do Mário Magalhães ainda remete para a entrevista.





Entre o Bolsa Família e a Bolsa de Valores, há mais do que uma disputa eleitoral entre os mal informados e os bem deformados.

sábado, 11 de outubro de 2014

Nada une tão fortemente como o ódio - nem o amor, nem a amizade, nem a admiração. (Anton Tchekhov)

Servidor público: segundo turno PT ou PSDB | Congresso em Foco

Servidor público: segundo turno PT ou PSDB | Congresso em Foco

Servidor público: segundo turno PT ou PSDB

Radiografia mostra, na visão de
Antonio Augusto de Queiroz, a forma que petistas e tucanos se
relacionaram com o serviço público de 1994 para cá















Antônio Augusto de Queiroz

Para possibilitar uma reflexão sobre as posturas do PT e do
PSDB em relação aos servidores públicos, tendo em vista a disputa no
segundo turno da eleição presidencial, levantamos alguns dados e
informações sobre a postura desses dois partidos no trato com o
funcionalismo federal no período em que governaram o País.


O primeiro aspecto a destacar diz respeito à forma de se relacionar com os servidores dos dois partidos.


Nos governos do PSDB no plano federal, a lógica foi “desregulamentar
direitos e regulamentar restrições”, e sem qualquer diálogo com as
entidades de servidores. Nos governos do PT houve uma mudança no padrão
de relação, saindo de uma relação autoritária para um sistema de
diálogo, ainda que com os conflitos próprios das negociações coletivas.


O segundo aspecto trata da reposição de pessoal, via concurso
público, para manter a máquina pública funcionando e atendendo à
população.


Nesse quesito parece evidente que enquanto os governos do PSDB
promoveram um verdadeiro desmonte, com extinção de órgãos e substituição
do concurso pela terceirização, o governo do PT fez o contrário, ou
seja, recompôs alguns órgãos e fez concursos regularmente para
praticamente todas as áreas de governo, embora tenha mantido um volume
bastante elevado de terceirizações e de cargos comissionados.


O terceiro aspecto se refere à comparação em termos de ganhos salariais nos dois governos.


Nos governos do PSDB, ao longo dos oito anos, não houve política
salarial, mas uma lógica de concessão de abonos e reajustes
diferenciados, e limitado a determinados grupos de servidores, que
resultaram em enorme arrocho salarial, a ponto de que nem mesmo os
setores contemplados tiveram reposta a inflação ou o poder de compra dos
salários.


Nos governos do PT, embora desde 2004 tenha sido deixada de lado a
revisão geral anual prevista no art. 37, X da Constituição, ocorreram de
forma sistemática reestruturações remuneratórias com aumento real para
todos os servidores, ainda que com disparidades de tratamento bastante
expressivas entre servidores em situações análogas. A mesa de negociação
permaneceu em funcionamento no Ministério do Planejamento, Orçamento e
Gestão, e mesas setoriais foram estabelecidas para debater questões
específicas relativas a ministérios, autarquias e fundações. Mesmo não
tendo havido aumento real ou mesmo a reposição da perda inflacionária no
período posterior à reestruturação, nenhum servidor recebeu abaixo da
inflação ao longo dos 12 anos. O governo Dilma não concedeu reajustes em
2011 e 2012, e os reajustes previstos para 2013, 2014 e 2015 são
inferiores à inflação acumulada em seu governo.


O quarto ponto cuida dos cortes de direitos dos servidores, aposentados e pensionistas nos dois governos.


Nos governos do PSDB, houve as reformas administrativa e
previdenciária, além da supressão ou redução de 50 direitos e vantagens
dos servidores, a desvinculação dos reajustes dos civis dos reajustes
dos militares e a burla ou quebra da paridade, com uma política de
gratificação salarial que prejudicou enormemente os aposentados e
pensionistas do serviço público. Veja no box (abaixo) a lista dos cortes anteriores às reformas.


Especificamente na reforma administrativa, a mudança tucana resultou:


1) no fim do Regime Jurídico Único;


2) na possibilidade de redução salarial, limitando a irredutibilidade ao vencimento básico;


3) na disponibilidade com remuneração proporcional;


4) no fim da estabilidade do servidor;


5) na desvinculação dos reajustes dos militares dos servidores civis;


6) na ampliação de dois para três anos do estágio probatório;


7) no fim da isonomia; e


8) na previsão de regulamentação da greve por lei ordinária.


No caso da reforma da previdência, as mudanças tucanas resultaram:


1) na transformação do tempo de serviço em tempo de contribuição;


2) na exigência de idade mínima de 60 anos para homens e 55 para
mulheres como requisito para aposentadoria de futuros servidores;


3) na exigência, para os servidores em exercício que estavam na regra
de transição, acréscimo (pedágio) de 20% ou 40% do tempo que faltava
para se aposentar com a idade mínima de 53 anos para homens e 48 para
mulheres, além do tempo de contribuição, respectivamente de 35 e 30 anos
para os sexos masculino e feminino;


4) na possibilidade de implantação do regime privado de previdência
complementar, com a conseqüente eliminação da aposentadoria integral
para os futuros servidores; e


5) no fim das aposentadorias especiais.


Nos governos do PT, também houve mudanças, porém limitadas aos
seguintes aspectos previdenciários, sem alcançar a reforma
administrativa:


1. instituição da cobrança de contribuição de inativos, de 11% sobre a
parcela que excede ao teto do INSS, lembrando que o PSDB já tinha
instituído isso e com percentual de até 25%, mas o STF havia declarado
inconstitucional;


2. instituição do redutor na pensão de 30% sobre a parcela que excede
ao teto do INSS, lembrando que a reforma proposta pelo PSDB, mas
rejeitada pela Câmara, propunha redução de 30% sobre a totalidade do
provento da aposentadoria e das pensões;


3. ampliação do tempo de contribuição como condição para fazer jus à aposentadoria integral;


4. instituição da previdência complementar por meio de lei ordinária,
que já estava prevista na reforma previdenciária do PSDB, porém
condicionada à aprovação de lei complementar. Diferencial importante,
porém, é a “natureza pública” da entidade fechada de previdência
complementar para servidores públicos, enquanto, na abordagem do PSDB,
seria permitida até mesmo a compra de planos de previdência privada em
seguradoras.


Paralelamente à votação da reforma da previdência do governo do PT
foi aprovada a chamada PEC paralela, que suavizou os efeitos perversos
da reforma original, e mais recentemente foi aprovada outra PEC
restabelecendo a integralidade no caso de aposentadoria por invalidez.


O quinto aspecto diz respeito ao que o governo do PT deixou de propor
ou de implementar e o governo do PSDB propôs que fosse feito em
prejuízo do servidor.


Nos governos do PSDB foi proposto o Projeto de Lei Complementar (PLP)
nº 248/98, já aprovado na Câmara e no Senado, aguardando apenas a
votação no plenário da Câmara de duas emendas do Senado, que disciplina a
perda de cargo público por insuficiência de desempenho do servidor
público estável, regulamentando o artigo  41, §1º, III, que prevê a
demissão em decorrência de desempenho insuficiente do servidor, e o
artigo 247 da Constituição, que determina o estabelecimento de critérios
e garantias especiais para a perda do cargo pelo servidor integrante de
carreira exclusiva de Estado.


Pelo projeto, que o governo do PT não teve interesse em aprovar, os
servidores poderiam ser demitidos se tivessem duas avaliações
insuficientes em dois anos consecutivos ou três ao longo de cinco anos.
Aprovou e implementou a Lei Rita Camata, incorporada na Lei de
Responsabilidade Fiscal, que limitou o gasto com pessoal a 50% da
receita líquida corrente, no caso da União, e a 60%, no caso dos estados
e municípios.


Os tucanos, por meio da Lei 9.801/99, previram e autorizaram a perda
de cargo público por excesso de despesa, regulamentando o § 4º do art.
169 da Constituição, mas no governo do PT não houve uma só demissão com
esse fundamento. Além disso, também aprovaram a Lei 9.962/00, prevendo
quebra do Regime Jurídico Único e autorizando a contratação na
administração pública pela CLT, mas o governo do PT não contratou
ninguém pelo novo sistema, embora tenha adotado, para a gestão de
hospitais públicos, o modelo da empresa pública (Ebserh), onde o regime é
celetista e não há estabilidade.


A contribuição previdenciária dos servidores, nas três gestões do PT
se manteve em 11%, enquanto a Lei 9.783/98, elaborada na gestão do PSDB,
declarada inconstitucional pelo STF, previa contribuição de até 25%.


O sexto e último ponto trata do que os servidores de suas entidades devem exigir dos candidatos à Presidência da República.


Nesse quesito, é importante registrar que a diferença de estilo e
método, que vigorou nos governos tucanos e petistas, podem ser alterada,
para uma direção ou para outra, daí a importância e a necessidade de
exigir compromisso dos candidatos no sentido de que:


a) Instituirá e cumprirá uma política salarial, que assegure a
preservação do poder de compra dos salários e atenda ao princípio da
isonomia (salário igual para trabalho igual);


b) Não desmontará o Aparelho de Estado, seja substituindo contratação
por terceirização, seja substituindo órgãos estatais por Organizações
Sociais, Serviços Sociais Autônomos ou ONGs na prestação de serviços
públicos;


c) Valorizará a meritocracia, priorizando o servidor de carreira para
a ocupação de cargos comissionados, inclusive regulamentando o art. 37,
V, da Constituição para limitar as situações de livre provimento;


d) Regulamentará a Convenção 151 da OIT e respeitará seus enunciados,
mantendo mesas permanentes de negociação com as entidades de
servidores;


e) Não insistirá na votação dos projetos de lei que limitam ainda
mais a despesa com pessoal em relação à despesa com pessoal da receita
corrente líquida nem reduzirá seus percentuais.


Todos sabemos que o próximo presidente, independentemente de quem
venha ser o eleito, fará um forte ajuste no gasto público, promovendo
reformas impopulares, como previdenciária e administrativa, e terá que
reajustar as tarifas públicas, especialmente de energia e combustíveis,
represadas em razão da política anticíclica adotada pelo atual governo
para amenizar os efeitos da crise sobre o país. A dúvida é sobre o
alcance e intensidade do ajuste e como será feito, se preservando os
programas sociais, os direitos dos trabalhadores, dos servidores, dos
aposentados e dos pensionistas, e sem vender patrimônio ou transferir
para os mais pobres a conta das crises internacionais.


Estes são os dados, informações e análises que gostaria de deixar
para a reflexão dos servidores e suas entidades. Embora a reprodução das
propostas e métodos não seja automática, os governos não costumam
abandonar suas ideias sobre o papel do Estado, especialmente quando a
equipe econômica mantém o mesmo perfil das gestões anteriores.


Levantamento do Diap sobre os mais de 50 direitos e vantagens dos servidores reduzidos ou suprimidos durante o Governo FHC





  1. Investidura – não havia previsão de provimento de
    quaisquer cargos com estrangeiros, exceto nas universidades e institutos
    de pesquisa. A partir de então admitiu-se a possibilidade de provimento
    de cargos por estrangeiro, desde que fora dessas áreas, de acordo com
    as normas e os procedimentos do RJU.
  2. Interinidade – o ocupante de cargo de confiança
    fica autorizado, interinamente, a exercer cumulativamente outro cargo de
    confiança vago, sem prejuízo das atribuições do que atualmente ocupa,
    devendo, entretanto, optar pela remuneração de um deles durante o
    período de interinidade.
  3. Ingresso e desenvolvimento de carreira – foram
    excluídas as formas de ascensão e acesso, em face de terem sido
    declaradas inconstitucionais. O governo retirou em 1995 o projeto de lei
    que fixava as diretrizes para os planos de carreira.
  4. Posse – fixou-se em trinta dias o prazo para posse,
    eliminando a possibilidade de prorrogação desse prazo, exceto para quem
    esteja impedido, cuja contagem se inicia a partir do término do
    impedimento.
  5. Exercício – foi reduzido de 30 para 15 dias o prazo
    para o servidor empossado entrar em exercício, contado da posse. A
    regra também valeu para cargo de confiança. O não cumprimento do prazo
    implica a exoneração do cargo ou, na hipótese de função de confiança, a
    anulação do ato de designação.
  6. Dedicação exclusiva – o servidor ocupante de cargo
    em comissão ou função de confiança que trabalhava em regime integral e
    dedicação exclusiva ficou sem direito a qualquer adicional ou vantagem
    quando convocado no interesse da Administração Pública.
  7. Cargo em comissão no estágio probatório – foi
    autorizado o exercício de cargo em comissão ou funções de direção,
    chefia ou assessoramento por servidor em estágio probatório,
    condicionando sua liberação para outro órgão ao exercício de cargo de
    Direção ou Assessoramento Superior (DAS), de níveis 6, 5 e 4 ou
    equivalente.
  8. Transferência – o artigo que previa o instituto de transferência foi revogado em razão da declaração de inconstitucionalidade.
  9. Readaptação – aumentou a exigência para readaptar,
    em cargo de atribuições afins, servidor que tenha sofrido limitação
    física ou mental. Foram acrescidos como requisitos: o nível de
    escolaridade e a equivalência de vencimentos. Na hipótese de
    inexistência de cargo vago, o servidor exercerá suas atribuições como
    excedente à lotação; até o surgimento de vaga.
10. Formas de exoneração e dispensa – as hipóteses
de exoneração de cargo e de dispensa de função poderiam ser previstas,
independentemente da aprovação do sistema de carreiras.


11. Remoção para acompanhar cônjuge – a remoção para
acompanhar o cônjuge ou companheiro no caso de deslocamento ficou
restrita à condição de ambos serem servidores públicos.


12. Substituição – o pagamento por substituição em função de direção e chefias passa a ocorrer quando a substituição for superior a trinta dias.


13. Reposição ao erário – ampliou-se de 10% para 25%
da remuneração os descontos em favor da União, ou integral, quando
constatado pagamento indevido no mês anterior. Retornou-se ao limite de
10% em 2000, por medida provisória.


14. Ajuda de custo – ficou vedado o pagamento duplo
de ajuda de custo, a qualquer tempo, no caso de o cônjuge ou
companheiro, que detenha também a condição de servidor, vier a ter
exercício na mesma localidade.


15. Servidor em débito – fixou-se em sessenta dias o
prazo para quitação de débito do servidor demitido, exonerado ou que
tiver sua aposentadoria ou disponibilidade cassada, ou para o servidor
cuja dívida seja superior cinco vezes sua remuneração.


16. Reposição de valor decorrente de liminar cassada
– foi fixado em 30 dias o prazo para devolução integral dos valores
percebidos pelo servidor em razão de decisão liminar que seja cassada ou
revista posteriormente.


17. Incorporação de gratificação – proibiu-se a
incorporação de gratificação – quintos e décimos – para os servidores
ativos e também aos proventos de aposentadoria, transformando as
vantagens já incorporadas em vantagem pessoal e desvinculando-a dos
cargos ativos.


18. Adicional por tempo de serviço – transformou-se o anuenio em quinquênio, limitando-o ao máximo de 35%, sendo logo em seguida extinto.


19. Conversão de 1/3 de férias – ficou proibida a venda de 1/3 de férias, vedando-se conversão de 10 dias em pecúnia.


20. Licença-prêmio – foi extinta a licença-prêmio de
três meses por cada cinco anos de exercício ininterrupto, como prêmio
de assiduidade. Em seu lugar, instituiu-se a licença para participar de
curso de capacitação, a critério da Administração Pública.


21. Licença para mandato classista – passam a ser
liberados, sem direito a remuneração, para exercício de mandato
classista em sindicato, federação ou confederação, um servidor por
entidade com até 5.000 associados, dois para entidades com entre 5.001 e
30.000 associados e três para entidade com mais de 30.000 filiados.


22. Contagem de tempo para aposentadoria
revogou-se o parágrafo único do art. 101 da Lei 8.112/90, que
arredondava para um ano o período superior a 180 dias para efeito de
aposentadoria, em decorrência de declaração de inconstitucionalidade
pelo STF.


23. Acúmulo de remuneração – proibiu-se o acúmulo de remuneração com proventos de aposentadoria.


24. Acúmulo de cargos – proibiu-se a acumulação de
cargos em comissão, exceto interinamente, vedando a remuneração pela
participação em órgãos de deliberação coletiva.


25. Rito sumário – foi instituído o rito sumário
para apuração e punição do servidor que acumular cargo ou emprego,
fixando em cinco dias o prazo para defesa a partir da citação.


26. Aposentadoria por invalidez – passou a ser
exigida junta médica oficial que deve caracterizar a incapacidade e a
impossibilidade de readaptação do servidor em outro cargo.


27. Acréscimo de remuneração na aposentadoria – foi
revogado o art. 192 da Lei º 8.112, que permitia ao servidor com tempo
para aposentadoria integral passar para a inatividade com a remuneração
do padrão da classe imediatamente superior àquela em que se encontra
posicionado.


28. Demissão de não-estáveis – ficou autorizada a
demissão dos servidores contratados sem concurso entre outubro de 1983 e
1998, mediante indenização de uma remuneração por ano de serviço.


29. Servidores do Banco Central – os funcionários do
Banco Central do Brasil foram enquadrados como servidores públicos
estatutários, em decorrência de decisão do STF.


30. Gratificações de localidade e de interinidade
foram extintas as gratificações especiais de localidade, devidas a
servidores em exercício em zonas inóspitas ou de precárias condições de
vida. Quem já recebia mantém o direito como vantagem pessoal
transitória.


31. Auxílio-alimentação – o tíquete refeição e alimentação foi transformado em pecúnia, sem garantia efetiva de correção.


32. Servidor candidato a cargo eletivo
restringiu-se para 90 dias o período de afastamento remunerado do
servidor que vier a concorrer a cargo eletivo, contrariando a Lei
Complementar nº 64/90.


33. Licença para acompanhar parente doente – o
direito à licença remunerada ficou restrito para prestar assistência a
familiares enfermos de 90 para 30 dias, prorrogáveis por mais 30 dias.
Limitou-se a licença sem remuneração para esta finalidade.


34. Limite máximo de remuneração (teto) – reduziu-se
o limite máximo de vencimentos de 90 para 80% da remuneração do
Ministro do Estado, estabelecendo-se a exclusão, para efeito do cálculo
do limite máximo de remuneração a que se refere o inciso II do artigo 37
da Constituição, das parcelas relativas à diferença de vencimentos
nominalmente identificada decorrente de enquadramentos e os décimos
incorporados.


35. Programa permanente de PDV, instituído como forma de pressionar o servidor a deixar o serviço público.


36. Disponibilidade com remuneração proporcional ao tempo de serviço, criado como decisão unilateral dos governantes.


37. Incentivo à licença não remunerada superior a três anos.


38. Redução de jornada com redução proporcional de salário.


39. Regulamentação restritiva das chamadas carreiras exclusivas de Estado, que reúne no máximo 8% dos servidores por esfera de governo.


40. Adoção do contrato de emprego no serviço público, perdeu-se o direito à estabilidade e à aposentadoria integral.


41. Redução das despesas com pessoal, criada
mediante a Lei Rita Camata, e depois pela Lei de Responsabilidade
Fiscal, que fixou no máximo em 50% das receitas líquidas correntes para
gasto com servidores públicos federais.


42. Criação do limite prudencial de gastos com pessoal
(95% do limite permanente) com o fim de impedir a reestruturação de
carreiras, a concessão de vantagens e a contratação de pessoal quando
ultrapassado esse limite.


43. Adoção da previdência complementar no serviço público,
garantindo aposentadoria pelo Tesouro apenas até R$ 3.916,20, sendo
facultado ao servidor ingressar na previdência complementar na parcela
da remuneração que exceda a este valor.


44. Tentativa de elevar a contribuição previdenciária dos servidores para até 25%, com efeito confiscatório, a qual foi rejeitada pelo STF por meio de liminar na Adin 2010.


45. Desvinculação da remuneração de ativos e inativos
em cerca de 20 carreiras no serviço público, criando Gratificações de
Desempenho que não foram concedidas aos inativos e pensionistas daquelas
carreiras.


46. Condicionou a aposentadoria integral nas mesmas carreiras a 5 anos de exercício
com o recebimento da Gratificação de Desempenho e criou a figura da
reversão ao cargo antes ocupados para permitir que servidores
aposentados há menos de 5 anos voltem ao trabalho para poderem então
aposentar-se daqui a 5 anos com proventos integrais.


47. Limitação da despesa com aposentados e pensionistas a 12% da receita corrente líquida, a fim de reduzir os gastos com aposentados.


48. Proibição da concessão de liminares ao servidor público
sem garantias reais, ou seja, só obrigando o governo a pagar ganhos
judiciais de servidores após a decisão definitiva da Justiça.


49. Proibição da concessão de tutela antecipada em ações que envolvam remunerações e proventos de servidores públicos.


50. Restrição da substituição processual das entidades sindicais em ações contra o governo aos filiados residentes na área de jurisdição da vara ou tribunal.


51. Autorização do serviço voluntário, mediante contrato de adesão, sem qualquer remuneração por serviço prestado a entes governamentais.


52. Negação da data-base dos servidores, deixando-os sem o reajuste devido, inclusive por força de dispositivo constitucional.


53. Aumento do valor do imposto de renda sobre o rendimento assalariado, em função da não correção da tabela progressiva do IRPF, mesmo sem reajuste dos vencimentos.


54. Proibição da contagem de tempo rural para efeito de aposentadoria urbana, especialmente no serviço público.




Sobre o autor


Antônio Augusto de Queiroz
* Jornalista, analista
político, diretor de documentação do Departamento Intersindical de
Assessoria Parlamentar (Diap), idealizador e coordenador da publicação
Cabeças do Congresso. É autor dos livros
Por dentro do processo decisório – como se fazem as leis e Por dentro do governo – como funciona a máquina publica.

A pauta das inguinorãças

A pauta das inguinorãças -

A pauta das inguinorãças


Por Luciano Martins Costa em 08/10/2014 na edição 819
Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 8/10/2014















Há um mito generalizado segundo o qual a imprensa faz a narrativa dos
fatos mais relevantes de seu tempo. Essa crença ainda sustenta o poder
de influência que tem os profissionais de jornalismo a serviço das
empresas de comunicação hegemônicas, e de certa forma explica o fato de a
mídia tradicional ainda controlar quase toda a agenda pública. Por esse
motivo, análises genéricas, platitudes e mesmo contrafações grosseiras
acabam sendo aceitas como verdadeiras por grande parte da população.
Esse efeito é mais perceptível nos grandes aglomerados urbanos, onde
uma ideia, por mais estúpida que seja, pode se espalhar e se afirmar
como sensata e verdadeira com muita rapidez. No contexto de insegurança e
ansiedade em que vivem as populações das grandes cidades, é natural que
a visão de mundo seja mais suscetível às pregações negativistas do que
às mensagens otimistas. O ambiente opressivo que marca o cotidiano
dificulta a percepção de sinais de melhoria no médio e longo prazos e
aumenta o peso do mal-estar.
Trata-se de dois aspectos do campo comunicacional que raramente são
observados em suas interações: a propensão das pessoas a supervalorizar
as dificuldades do dia a dia e a ação manipuladora da mídia diante de
fatos que aumentam a ansiedade e a sensação de insegurança. Esses dois
elementos, somados e interconectados, explicam em boa parte as reações
massivas a determinadas ideias e interpretações superficiais, ou mesmo a
manipulações da realidade.
Veja-se, por exemplo, como a defesa da pena de morte predominou na
sociedade brasileira durante décadas, alimentada pelo discurso de boa
parte da mídia sobre a impossibilidade de recuperação dos delinquentes. A
narrativa típica do jornalismo omite dados estatísticos e elementos que
permitiriam entender a complexa questão da reincidência e, portanto,
impede que a população imagine outras soluções que não a da execução
sumária dos suspeitos. O resultado é a popularidade de frases
emblemáticas como “a solução é a Rota nas ruas”, que celebrizou o
notório deputado Paulo Maluf.
Analfabetismo midiático
A Rota – sigla das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, tropa de impacto
da Polícia Militar de São Paulo – sempre foi símbolo da truculência
policial. São incontáveis as vítimas que seus integrantes produziram na
periferia da região metropolitana, entre as quais uma grande porcentagem
de jovens sem relação com o crime, executados simplesmente por serem
negros ou pardos em circunstância que o arbítrio do policial considerou
suspeita.
Com a mesma superficialidade é tratada a questão da maioridade penal,
que passou transversalmente pela campanha eleitoral deste ano e, como
foi citado neste Observatório, desapareceu subitamente do
noticiário. Por quê? Porque aconteceu um assalto na Universidade de São
Paulo, do qual participaram algumas crianças, uma delas aparentando nove
anos de idade.
Em vez de aprofundar o debate, a imprensa escondeu o assunto, evitando
que se questionasse a ideia equivocada, que parece convencer grande
número de brasileiros, segundo a qual basta prender adolescentes que os
índices de violência vão se reduzir.
A mesma coisa se pode dizer sobre a criminalização do aborto: muitos
brasileiros acham que autorizar o procedimento em clínicas regulares, em
casos específicos, é o mesmo que apoiar ou estimular o aborto.
Da mesma forma, a superficialidade com que se trata o problema das
drogas mantém na agenda uma ideia difusa segundo a qual basta legalizar o
comércio de maconha que imediatamente se irá desmanchar o poder das
quadrilhas de traficantes.
A lista das platitudes não tem fim e mostra de que maneira a mídia
funciona como um entrave ao crescimento da consciência social dos
indivíduos. Embora possa parecer leviandade, pode-se demonstrar que o
leitor típico de jornais tem todas as características do analfabeto em
mídia, ou seja, quanto mais fiel é o leitor, menos capaz ele se torna de
ler criticamente o noticiário.
A media illiteracy, expressão em inglês utilizada para definir a
incapacidade de interpretar a mensagem midiatizada, é uma
característica das classes médias urbanas. É nesse terreno de
meias-verdades e preconceitos que se concentra o poder da mídia.
Como diria o poeta Manoel de Barros, é preciso encarar as inguinorãças e desinventar a imprensa.

Os pobres e ignorantes não sabem votar? — CartaCapital

Os pobres e ignorantes não sabem votar? — CartaCapital

Os pobres e ignorantes não sabem votar?

A onda de preconceito de classe e racismo geográfico mostra uma grande
dificuldade em admitir outras razões para o voto. Mas classes sociais
votam por razões distintas

por Wilson Gomes



publicado
09/10/2014 14:48,


última modificação
09/10/2014 14:58

Elza Fiúza/ Agência Brasil
Santinhos-sao-jogados-no-chao-de-locais-de-votacao-em-Brasilia-foto-Elza-Fiuza-Agencia-Brasil_201410050001.jpg
Santinhos espalhados pelo chão de uma zona eleitoral no Núcleo Bandeirante, em Brasília
Tem
sido assim desde, pelo menos, 2006. Basta o PT vencer uma eleição
presidencial para a nossa fábrica social de diagnósticos e explicações
começar a funcionar com força total. Jornalistas, comentaristas de
política, pessoas nos bares da vida e nos botecos das redes sociais
digitais, e até
FHC, contrariados
ou intrigados com o que as urnas disseram, todos passam compulsivamente
a “explicar” como pode ter sido possível tamanho contrassenso, tal
violação da lógica e das evidências, erro de tal proporção e tantas
consequências. O raciocínio de base é sempre o mesmo: a) a maioria dos
eleitores fez escolhas diferentes da minha; b) escolhas divergentes da
minha são erradas; c) quem foi esse insensato, irresponsável,
desqualificado, inocente útil, desvalido a cometer tamanho desvario?



Neste ano, notei a inauguração de
outro veio argumentativo, desta vez a respeito do resiliente voto tucano
em São Paulo, que provavelmente deve intrigar o Brasil inteiro. A lista
dos deméritos do governador é enorme: provocou a fúria das massas nas,
agora elevadas à glória dos altares, “manifestações de junho”; “a
polícia de Alckmin” barbarizou jornalistas e manifestantes naquela e em
outras ocasiões; o seu governo conseguiu fazer com que os paulistanos
temessem a falta de água como sertanejos do semiárido.



Como é que depois de tudo isso ele é
reeleito de forma consagradora? Estarão os paulistas hipnotizados? São
antipetistas tão fanáticos que votariam até em Lúcifer - desde que ele
tucanasse -, não importa as consequências?



A base do argumento é a mesma: eu sei
que X não merece ser eleito, por N razões; mas X é eleito; logo, algum
erro moral ou intelectual há nessa decisão de eleger X.



O site UOL abriu a usina de
explicações ontem com “Dilma vence nos sete Estados com menor renda
média”. As garotas e garotos do canal GloboNews, com o luxuoso auxílio
dos meninos descolados do Manhattan Connection, deixavam entender, sem
disfarce, que “o Nordeste” é a única força capaz de impedir que Aécio
cumpra a sua sentença, ser presidente do Brasil, que SP estava fazendo,
com entusiasmo, a sua parte para recolar o cosmo no seu lugar, mas tinha
uma Bahia de votos no meio do caminho.



No Twitter, no Facebook e no WhatsApp
as explicações eram as mesmas desde 2006, com poucas variações. As
alternativas são as de sempre: a) Dilma vence onde o IDH é menor; b)
Dilma só vence acima do trópico de Capricórnio (sim, Sílvio Romero, não
há civilização que preste entre os Trópicos); c) Dilma só ganha por
causa do Nordeste; d) Dilma só vence por causa dos ferrados, vendidos à
dinheirama que o Bolsa Família - esta fábrica de preguiçosos e
acomodados, esta usina de dependência que, em vez de eliminar a pobreza
faz com que ela se perpetue para que o PT nunca mais perca eleições -
distribui; e) Dilma vence apenas em estados com baixo consumo de
proteína e com menor estatura média da população.



Um amigo muito querido no WhatsApp
disparou, em dasalento, que deixará "esta merda de país" assim que for
possível, que não aguenta mais ver os analfabetos e desdentados
decidindo as eleições presidenciais.



Vou chamar o raciocínio à base de
tudo de silogismo Oliveira Vianna. Premissa maior: Só ferrados, famintos
e ignorantes votam em Dilma. Premissa menor: Ferrados, famintos e
ignorantes são inferiores a nós. Conclusão: Dilma é eleita apenas com o
voto dos inferiores. Depois de exercício tão consistente de lógica,
estamos autorizados a vociferar a nossa fúria mediante o racismo
geográfico (então nordestino, baiano, paraíba etc. voltam a ser
palavrões), o preconceito de classe (miseráveis e ignorantes dependentes
do Bolsa Família) e na atribuição de inferioridades e vulnerabilidades
aos outros (a mídia paralisa o cérebro dos pobres, todo mundo sabe
disso, abrindo a brecha para João Santana entrar e inocular o veneno
petista diretamente no hipocampo). Nessas três coisas, nós, os
brasileiros, somos muito bons.



O problema com esse raciocínio é que
ele tem grande dificuldade de admitir outras razões para o voto,
diferente das que eu adoto para a minha própria decisão. As minhas são
razões, as dos outros, não. Quanto mais longe de mim é o outro (a outra
classe social, a outra região do país), cognitivamente, politicamente ou
moralmente, menos ele tem razões: ele age por instintos, interesses,
necessidades. Nunca racionalmente. Racionais como “nós”.



Peguemos os pobres, onde se resume
toda a questão. Se os pobres votam no PT, o fazem porque são
vulneráveis, ignorantes, não têm discernimento? Para os petistas
tatuados os pobres são vulneráveis à mídia e ao capitalismo, que os leva
pelo nariz como são levados os boi de arrasto. Para a classe média
antipetista, os pobres são vulneráveis ao marketing político e às
esmolas que o PT distribui no lugar remoto onde eles vivem, chamado,
alternativamente de “as favelas”, “os grotões” ou “o Nordeste”.



Basta admitir que os pobres têm, sim,
boas razões para o seu voto e todo esse edifício de argumentos montados
para a conveniência da classe média cai por terra. A teoria poderia,
naturalmente, ser diferente. É bastante admitir que diferentes classes
sociais votam por diferentes razões. Todas legítimas.



Vem cá, é razoável esperar que os
31,7% dos brasileiros que vivem com R$ 150 de renda per capita por mês
votem por razões diferentes de nós, da classe média, ou não? Não é que
os pobres votem em Dilma porque não usam a razão. Os pobres votam em
Dilma porque têm lá as suas muito justificadas razões. Os pobres são tão
inteligentes que sabem que as razões de voto da classe média não podem
ser as suas razões de voto. São pobres, não são burros. Burro é o cara
de classe média que acha que tanto o rico quanto o pobre devem votar
pelas suas mesmas razões. Burro e autocentrado.



O PSDB decidiu que as pessoas devem
votar em Aécio por causa da corrupção do PT e do baixo crescimento
econômico. Para mim, é um bom argumento. Aécio vai insistir nos "pecados
capitais" de Dilma: crescimento anêmico da economia, inflação e
incapacidade de conter corrupção. Para mim, são bons argumentos. Ainda
mais que não sou petista e a minha simpatia pelo partido está em
acentuado declínio. Mas, se eu ganhasse R$ 150 por mês para cada pessoa
que sustento na minha família, esse argumento não me diria NADA. São,
pois, ótimos argumentos para a classe média, crescentemente antipetista.
E para os outros? O PSDB vai dizer o quê? "Vamos conversar?". Rá.



Na situação atual, acho que os pobres
é quem têm mais motivos de queixa do que nós da classe média, afinal é
só nas eleições que eles contam mais que nós. Nos intervalos, mandamos
nós. Em suma, nós é que atrapalhamos o voto deles, não eles o nosso. A
GloboNews acha que o Nordeste é o que atrapalha a vitória de Aécio. Ué,
não é SP quem atrapalha a vitória de Dilma?



O que os eleitores dos tucanos no Sul, Sudeste, Nordeste etc. precisam entender é que se os pobres contam eleitoralmente, precisam
contar também como cidadãos. Como a democracia nos obriga a reconhecer
nos pobres ao menos os mesmos direitos eleitorais que temos, o PSDB tem
um nó a desatar. Enquanto os tucanos acharem que as razões de voto dos
distritos financeiros e industriais de SP, Rio, Minas etc. têm que ser
as mesmas dos 50 milhões de brasileiros pobres, terá um problema.



Do jeito que a coisa anda, ou os tucanos acabam com a pobreza,
ou a pobreza acaba com os tucanos. Ou, de tanto bater na tecla, quem
sabe, convençam os pobres de que o PT inventou a corrupção e que se
deita toda noite com ela. Continuem tentando, quem sabe?



Pobre não é raça, não é casta, não é
natural. Pobre é circunstancial. Ponha todo mundo na classe média e aí
prioridades e urgências eleitorais da classe média poderão ser
generalizadas. Não quer que as razões eleitorais de gente dependente de
bolsa esmola, com baixa escolarização e mal nutrida atrapalhem e
perturbem a sua cristalina decisão de voto, puxando o resultado para o
lado que eles pendem? A solução é simples: acabe com a pobreza e
universalize a educação. Enquanto isso, aceite que eles terão diferentes
razões para as suas escolhas eleitorais ou desista da democracia. Ou
continuemos a nos divertir com o preconceito social e o racismo
geográfico que as más explicações e os falsos diagnósticos nos
autorizam. São escolhas.



* Wilson Gomes é professor e pesquisador da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia.

Jornalismo de torcida, decisão de Marina, dinheirama apreendida…

Jornalismo de torcida, decisão de Marina, dinheirama apreendida…

Jornalismo de torcida, decisão de Marina, dinheirama apreendida…

Mário Magalhães

Mesmo
que daqui a poucas horas a candidata derrotada Marina Silva (PSB) venha
a declarar seu apoio a Aécio Neves (PSDB) no segundo turno da eleição
presidencial, o jornalismo já colheu novo vexame com a precipitação de
dar como certo o anúncio da ex-senadora até a quinta-feira. O endosso ao
senador não ocorreu, embora na segunda e na terça já fosse alardeado e
festejado _com exceções. No mínimo, o tom era de favas contadas.

Os fatos contradisseram o noticiário contaminado por torcida. Não é novidade.

Durante
anos, acumularam-se informações sobre a troca da candidata Dilma
Rousseff (PT) por seu antecessor e padrinho Luiz Inácio Lula da Silva.

Deu no que deu.

Mais
tarde, na quadra em que a renúncia do tucano à disputa reforçava a
perspectiva de triunfo de Marina _e fracasso de Dilma_ já no primeiro
turno, a plantação foi sobre a iminente desistência do neto de Tancredo.

Deu no que deu.

Ainda
houve quem tratasse como definida a passagem de Marina, até certo
momento tida como a concorrente com mais chances de bater a petista,
para o mata-mata final.

Deu no que deu.

Enganos como esses não ocorrem por má-fé, mas pela transformação do jornalismo em propaganda, ainda que involuntária.

Um exemplo mais objetivo?

Caso
1) Às vésperas do primeiro turno, um colaborador de candidato a
deputado vinculado a certa candidatura presidencial é preso com R$ 102
mil.

Caso 2) Poucos dias depois do primeiro turno, colaborador de
campanha de candidato a governador vinculado a determina candidatura
presidencial é preso com R$ 116 mil.

Muito ou pouco graves,
merecedores ou não de títulos garrafais e manchetes _pode ser que sim,
pode ser que não_, os episódios são parecidos.

A virtude do equilíbrio jornalístico recomenda tratamento, senão igual, o que é difícil, ao menos semelhante.

O que aconteceu?

A primeira apreensão de dinheiro foi sufocada no noticiário, que lhe deu atenção diminuta.

A segunda virou um escândalo monumental, para compor o cenário “mar de lama''.

É assim o jornalismo de torcida: conforme os personagens e os interesses, os brados pela decência têm mais ou menos decibéis.

Não custa registrar: o deputado do caso 1 é Bruno Covas, do PSDB de Aécio.

O candidato do caso 2 é Fernando Pimentel, governador eleito pelo PT de Dilma.

Parece
que viajamos num túnel do tempo e caímos em 1954. A imprensa era
acentuadamente partidária, e nas mesmas proporções atuais: a esmagadora
maioria com a oposição, a minoria com o governo.

Por sorte, em 2014 tudo será resolvido com o voto popular, e não com um golpe de Estado e uma bala no peito.

Aécio ganhou rádio do Sarney com 25 anos



Aécio ganhou rádio do Sarney com 25 anos

Charge de Frank Maia para A Notícia (Joinville SC)

Charge de Frank Maia para A Notícia (Joinville SC)

Charge de Frank Maia para A Notícia (Joinville SC)

Altamiro Borges: Como enfrentar a onda conservadora?

Altamiro Borges: Como enfrentar a onda conservadora?

Como enfrentar a onda conservadora?


Por Valter Pomar, em seu blog:



A "onda conservadora" é um tema presente em muitas análise das eleições 2014.



Presente, especialmente, naqueles analistas que superestimaram os
aspectos progressistas das manifestações de junho de 2013, minimizando o
fato delas não serem homogêneas nem organizadas e, principalmente,
terem produzido uma reação por parte da direita política e midiática,
seja para "interpretar" seu significado, seja para neutralizar eventuais
desdobramentos positivos.



Presente, também com destaque, nas preocupações
daqueles que subestimaram os nossos adversários nas eleições
presidenciais de 2014, acreditando em vitória no primeiro turno e outras
quimeras do estilo.



Presente com força, finalmente, naqueles que destacam o que ocorreu no
legislativo (redução do número total de deputados da esquerda e eleição
bem-votada de porta-vozes da pior direita), minimizando o resultado que
obtivemos na eleição presidencial, contra quase tudo e contra quase
todos (e inclusive contra alguns da mal denominada base aliada).



Isto posto, a onda conservadora existe, suas raízes vem de 2003 e não
pode ser subestimada. Tampouco superestimada, sob pena de pessimismo,
derrotismo e desmobilização, na linha da profecia auto-anunciada.



A respeito, recomendo ler o texto "Onda conservadora", de Guilherme Boulos (reproduzo na íntegra ao final).



Segundo Boulos, o "último domingo revelou eleitoralmente um fenômeno que
já se observava ao menos desde 2013 na política brasileira: a ascensão
de uma onda conservadora. Conservadora não no sentido de manter o que
está aí, mas no pior viés do conservadorismo político, econômico e
moral. Uma virada à direita. Talvez, o recente período democrático
brasileiro não tenha presenciado ainda um Congresso tão atrasado como o
que foi agora eleito. O que já era ruim ficará ainda pior".



Boulos nota que São Paulo, que foi o berço das mobilizações de junho de
2013, foi também base fundamental desta virada a direita. "Contradição?
Nem tanto": "Por um lado, as jornadas de junho expressaram uma descrença
de que as transformações populares se darão por dentro destas
instituições. Foram sintoma de uma aguda crise urbana, traduzida no tema
da mobilidade. E deixaram um legado positivo com o crescimento das
mobilizações populares, ocupações e greves no último período. Esta
vertente esquerdista de junho talvez tenha se manifestado eleitoralmente
–além da votação no PSOL– pelo aumento das abstenções e votos
inválidos. Neste ano somaram 29,03%, mais do que os 26,93% do primeiro
turno de 2010 e do que os 26,79% que definem a média das eleições
brasileiras desde 1994".



Aqui há um ponto que eu gostaria de destacar. Nas atuais condições
históricas, uma estratégia socialista deve combinar ruas e urnas,
mobilização social e presença institucional, movimentos e partidos.



A descrença em transformações "por dentro" das instituições, se conduzir
à abstenção eleitoral e a invalidar os votos, se for acompanhada de um
movimentismo "sem partido", não vai conduzir a transformação alguma.



Mutatis mutandis, a ideia de transformação "por dentro", se não for
combinada com a mobilização social, tampouco conduzirá à transformação.
Por isto, aliás, é que devemos apontar que o esquerdismo e a esquerda
moderada cometem erros simétricos.



Voltemos a Boulos: "junho teve outra vertente, que deixou rescaldos mais
marcantes. A direita saiu do armário". (...) "Isso tudo se sintetizou
num antipetismo feroz que correu o país. As ofensas a Dilma em estádios
da Copa apenas repetiram o cântico que foi ecoado nas ruas meses antes".



Sim, este é o fato, a direita saiu do armário. Mas por qual motivo este fato ocorreu?



Na minha opinião, por motivos similares aos da eleição de Tancredo &
Sarney no Colégio Eleitoral, depois das Diretas Já; e aos da eleição de
Paulo Maluf prefeito de São Paulo, logo depois do movimento pela ética
na política conhecido como Fora Collor.



A saber: toda vez que há uma grande mobilização de massas com um sentido
progressista, há uma reação. E se a mobilização de massas não tem
organização, homogeneidade e desdobramentos, a reação terá maior êxito
em "domesticar" seu significado.



Boulos acrescenta algo muito importante: "Alguns petistas ainda não
compreenderam. Pensaram estar lidando com uma segunda versão do
movimento "Cansei". E por isso são incapazes de entender o que ocorreu
no último domingo. Aécio ganhou no Campo Limpo, Itaquera, Jardim São
Luis, Ermelino Matarazzo e Sapopemba. Elite?"



Novamente, este é o fato: o anti-petismo penetrou setores populares. Não
é apenas um fenômeno da "classe média tradicional" e do grande
empresariado. Mas que setores populares são anti-petistas? E por quais
motivos?



Arrisco a seguinte explicação, evidentemente incompleta e parcial: há um
fenômeno "geracional", há um fenômeno "social" e um fenômeno
"político-ideológico".



"Geracional": a nova classe trabalhadora (por idade ou por tempo de
carteira) não pensa da mesma forma que a "velha" classe trabalhadora e
não tem os mesmos vínculos e opiniões com o PT.



"Social": o fenômeno de ascensão social via consumo tende a gerar um
comportamento social que mimetiza a "velha classe média" no que ela tem
de pior. Risco que não é levado em devida conta por quem acha que nosso
objetivo é criar um "país de classe média".



"Político-ideológico": nos últimos 12 anos, a direita reforçou seus
aparatos de comunicação, cultura e educação. E a esquerda, na melhor das
hipóteses, fez muito menos do que deveria e poderia.



Os três fenômenos citados estão presentes, de forma combinada, em todo o
país. E estão na base da popularização do anti-petismo. Contudo, por
quais motivos as eleições conduziram a resultados regionalmente tão
contrastados?



Entre outros motivos, na minha opinião, porque...



1) os aspectos positivos do que fizemos nestes 12 anos impactaram de maneira regionalmente desigual;



2) a correlação de forças e a influência da hegemonia da classe
dominante também são diferentes de região para região. Em São Paulo, por
exemplo, há um peso maior do grande empresariado e dos setores médios
tradicionais;



3) finalmente, porque se é verdade que em nosso discurso faltou
politização/polarização de classe, também é verdade que em nosso
discurso esteve presente uma politização/polarização digamos "regional".




Este terceiro aspecto vale para nós, mas também para a direita. Aliás,
este é um tema que não aparece na análise de Boulos: o anti-petismo de
base popular (assim como, no passado, o anti-varguismo etc.) é mais
forte em determinadas regiões do país, como São Paulo.



Sigamos adiante com Boulos: "o que o PT teimou em não compreender é que o
modelo de governo que adotou nos últimos doze anos chegou ao
esgotamento. Junho de 2013 foi um sintoma disso. O pacto social
construído por Lula em 2002 não funciona mais. A ideia de que todos os
interesses são conciliáveis, de que todos podem ganhar, depende do
crescimento econômico e da desmobilização das forças sociais".



Para ser preciso, desde 2005 setores importantes do PT vem apontando
para o esgotamento da estratégia (não apenas do "modelo de governo")
baseado em mudanças sem rupturas, baseado na ampliação das políticas
públicas mas não em reformas estruturais etc.



Hoje, arrisco dizer que parte importante do PT já se convenceu de que é
preciso outra estratégia, embora haja opiniões diametralmente opostas
sobre o que seria esta outra estratégia.



Mas... os setores que são majoritários na direção nacional do PT não se
convenceram da necessidade de mudar a estratégia a tempo de incidir nas
eleições de 2014. Pesou nesta postura, na minha opinião, uma visão
equivocada acerca do cenário em que esta eleição se daria. Mas, desde
que perceberam qual o cenário real, vem havendo uma tentativa de
ajustar, senão a estratégia, pelo menos a tática.



Esta tentativa, como Boulos aponta, dá espaço preferencial para "uma
retórica semelhante à de 2006 contra Alckmin, dos de baixo contra os de
cima", sendo que "a eficácia [desta retórica] pode não ser a mesma".



Qual a alternativa? "Apontar o rumo de transformações populares para o
próximo mandato", opção que nas palavras de Boulos pode causar problemas
com aliados de centro e direita.



O desafio, resumidamente, está em saber trocar a roda do carro, com o carro andando.



*****
Onda conservadora

09/10/2014


Guilherme Boulos

O
último domingo revelou eleitoralmente um fenômeno que já se observava
ao menos desde 2013 na política brasileira: a ascensão de uma onda
conservadora. Conservadora não no sentido de manter o que está aí, mas
no pior viés do conservadorismo político, econômico e moral. Uma virada à
direita.
Talvez, o recente período democrático brasileiro não tenha
presenciado ainda um Congresso tão atrasado como o que foi agora
eleito. O que já era ruim ficará ainda pior. O pântano de partidos
intermediários, cujo único programa é o fisiologismo, cresceu
consideravelmente. A bancada da bala e os evangélicos fundamentalistas
tiveram votações expressivas em vários Estados do país.


O deputado mais votado no Rio Grande do Sul foi Luis Carlos Heinze,
que recentemente defendeu a formação de milícias rurais para exterminar
indígenas. No Pará, foi o delegado Eder Mauro. Em Goiás, o delegado
Waldir, com um pitoresco mote de campanha que associava seu número
(4500) com "45 do calibre e 00 da algema". No Ceará foi Moroni Torgan,
ex-delegado e direitista contumaz. No Rio de Janeiro, ninguém menos que
Jair Bolsonaro, que há muito deveria estar preso e cassado por apologia
ao crime de tortura.

Isso sem falar da cereja do bolo, São Paulo,
que desde 1932 orgulha-se em ser a vanguarda do atraso. Alckmin foi
reeleito com quase 60% de votos. Serra suplantou facilmente Suplicy e,
tal como em 2010, não teve pudores em recorrer ao conservadorismo mais
apelativo. Desta vez, com a redução da maioridade penal como bandeira. O
deputado federal mais votado foi Celso Russomano e o terceiro, o pastor
homofóbico Marco Feliciano. Dois coronéis, Telhada e Camilo,
conseguiram vagas na Assembleia Legislativa.

Como não falar numa
onda? Onda que teve como crista a surpreendente votação de Aécio Neves
para a presidência, que ficou apenas 8% atrás de Dilma quando todos os
institutos de pesquisa apontavam o dobro de diferença. De São Paulo
levou –direto para o aeroporto de Cláudio– 4 milhões de votos de
vantagem em relação a Dilma.

São Paulo, que foi o berço das mobilizações de junho de 2013. Contradição? Nem tanto.

Por
um lado, as jornadas de junho expressaram uma descrença de que as
transformações populares se darão por dentro destas instituições. Foram
sintoma de uma aguda crise urbana, traduzida no tema da mobilidade. E
deixaram um legado positivo com o crescimento das mobilizações
populares, ocupações e greves no último período. Esta vertente
esquerdista de junho talvez tenha se manifestado eleitoralmente –além da
votação no PSOL– pelo aumento das abstenções e votos inválidos. Neste
ano somaram 29,03%, mais do que os 26,93% do primeiro turno de 2010 e do
que os 26,79% que definem a média das eleições brasileiras desde 1994.

Mas
junho teve outra vertente, que deixou rescaldos mais marcantes. A
direita saiu do armário. Passou a adotar abertamente um discurso mais
ousado e raivoso. Os velhinhos do Clube Militar tiraram a poeira das
fardas para defender uma reedição de 64. Homofóbicos, racistas e
elitistas passaram a falar sem pudores de suas convicções. Isso tudo se
sintetizou num antipetismo feroz que correu o país. As ofensas a Dilma
em estádios da Copa apenas repetiram o cântico que foi ecoado nas ruas
meses antes.

E não foi só a elite. Alguns petistas ainda não
compreenderam. Pensaram estar lidando com uma segunda versão do
movimento "Cansei". E por isso são incapazes de entender o que ocorreu
no último domingo. Aécio ganhou no Campo Limpo, Itaquera, Jardim São
Luis, Ermelino Matarazzo e Sapopemba. Elite?

O que o PT teimou em
não compreender é que o modelo de governo que adotou nos últimos doze
anos chegou ao esgotamento. Junho de 2013 foi um sintoma disso. O pacto
social construído por Lula em 2002 não funciona mais. A ideia de que
todos os interesses são conciliáveis, de que todos podem ganhar, depende
do crescimento econômico e da desmobilização das forças sociais.

O
que temos hoje é o contrário. Uma sociedade muito mais polarizada e uma
economia beirando a recessão. A mágica de agradar a todos acabou e o
povo sente necessidade de mudanças. Quem teve força política para
capitanear o discurso da mudança não foi a esquerda, mas a direita. O
sentimento é difuso e despolitizado, por isso pôde ser encarnado
farsescamente pelo PSDB após o declínio de Marina Silva.

Este
segundo turno será um divisor de águas. A burguesia brasileira
provavelmente se alinhará em bloco com Aécio Neves, seu candidato puro
sangue. Se o PT quiser disputar o discurso direitista com Aécio corre
grave risco de ser derrotado e ainda sair desmoralizado para uma
eventual oposição a partir de 2015.

Outra alternativa que tem é
apontar o rumo de transformações populares para o próximo mandato, o que
não fez nos últimos doze anos. Fazer o combate pela esquerda. Se o
fizer, terá um preço a pagar em relação à base aliada e aos
financiadores. Dificilmente o fará.

O mais provável é que recorra
a uma retórica semelhante à de 2006 contra Alckmin, dos de baixo contra
os de cima, sem maior consequência prática. Mas o momento é outro e o
discurso da mudança está com muito mais capilaridade inclusive entre os
de baixo. A eficácia pode não ser a mesma. A onda conservadora está
vindo com força e, agora ou em 2015, obrigará o PT a reposicionar-se na
conjuntura, para lá ou para cá.

* Guilherme Boulos, 32, é formado
em filosofia pela USP, professor de psicanálise e membro da coordenação
nacional do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto). Também atua na
Frente de Resistência Urbana e é autor do livro "Por que Ocupamos: uma
Introdução à Luta dos Sem-Teto".

domingo, 5 de outubro de 2014

Segundo turno, se houver, não será contra Aécio. Será contra a mídia.

Segundo turno, se houver, não será contra Aécio. Será contra a mídia. | TIJOLAÇO | “A política, sem polêmica, é a arma das elites.”











Segundo turno, se houver, não será contra Aécio. Será contra a mídia.

4 de outubro de 2014 | 23:31 Autor: Fernando Brito
AECIODEPAPEL


Não tenho – e ninguém tem – condições de prever se haverá ou não segundo turno.


Os intervalos para os quais todas as pesquisas refluíram mostram um
quadro bem definido em suas direções, mas com intervalos tão pequenos
até a definição de uma maioria absoluta para Dilma que depende de
detalhes que fugiriam a levantamentos feitos sem qualquer suspeita de
distorção.


Explico: estes 50% são como aqueles jogos que, no futebol, chamamos
de “jogo de seis pontos”, que ocorrem quando dois times disputam uma
mesma vaga. Um por cento que se ganha, se é ganho dos adversários, vale
2%, porque se tira do “bolo” que forma a soma dos adversários.


Assim, na eleição passada, por exemplo, os 3,08% que faltaram a Dilma
para fechar na primeira rodada significariam ela ganhar 1,54% desde que
isso fosse retirado dos adversários.


Eu tenho – e não o oculto – lado e torcida, paixão mesmo.


Mas não deixo que isso transtorne meu raciocínio, tanto quanto  penso conseguir.


Por que esta euforia da direita com a possibilidade de Aécio enfrentar Dilma num segundo turno?


Como, se numa análise fria ele apenas conseguiu voltar aos patamares
que tinha antes do acidente que matou Eduardo Campos, algo em torno de
23 ou 24 por cento dos votos válidos?


Ainda que chegue a 28 ou até a 30%, terá tido um resultado inferior
ao que teve José Serra com Marina pouco mais ou menos no patamar de
2010.


Mas não é só isso.


Será um candidato que perdeu onde não poderia perder: Minas Gerais.


E feio, feio.


Num segundo turno, a solidariedade mineira a que poderia aspirar é
aquela que Otto Lara Resende, certa vez, definiu de forma mórbida.


Aécio pode ganhar em três ou quatro estados. Ou em nenhum, pois seus
números nas pesquisas de São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul e
Brasília  não permitem assegurar que isso vá acontecer.


No resto, perde longe ou muito longe.


E mesmo ali, quanto o caro amigo e a querida amiga apostaria na
solidariedade de um Geraldo Alckmin já eleito e de um Serra ressuscitado
como Senador?


Nem vamos falar da capacidade intelectual, dos negócios familiares e da imagem moral do personagem, não é?


Não apenas por isso, mas porque Marina se adonou de um eleitorado que
nada tem a ver com a elite paulista, porque aquele que se identifica
com este pensamento já migrou de volta para Aécio ou migrará amanhã, à
medida em que a ex-senadora deixa de ser uma candidata viável para a
continuação do sonho de derrubar o projeto lulista para o Brasil.


Embora ideológica e organicamente mais próxima da direita em 2014, a
expressão eleitoral de Marina Silva terminará em patamar quase idêntico
aos 20% que teve em 2010, quando também cumpriu a missão de evitar uma
vitória de Dilma no primeiro turno.


Então, quem será o adversário para valer, forte e poderoso que Dilma
Rousseff enfrentará no segundo turno, já que Aécio é um fraco adversário
e Marina muito provavelmente se imobilizará num emaranhado de falta de
organicidade e as  contradições – e  até ressentimentos, rancorosa como é
– que carrega?


Está claro que será a mídia e sua já sem limites capacidade de ser
partidarizar da pior forma possível: a de construir um noticiário
montado sobre intrigas, acusações e, numa palavra, mentiras?


É por isso que venho insistindo aqui que as pesquisas sobre este possível segundo turno são irrelevantes.


O adversário, o partido a ser batido é a mídia, não o cambaleante
PSDB que sai das urnas, no qual há mesmo grupos que não desejam que seus
adversários internos “corram o risco” de ganhar uma eleição
presidencial.


Aécio é apenas o candidato, não o adversário de verdade.

Marcelo Adnet mostra o absurdo que a Dilma fez com o Brasil

O que significa

O que significa a Bolsa de Valores desabar sempre que Dilma cresce nas pesquisas?

O que significa a Bolsa de Valores desabar sempre que Dilma cresce nas pesquisas?

Postado em 01 out 2014
A Bolsa
A Bolsa
O que significa a Bolsa de Valores desabar a cada momento que parece mais provável a vitória de Dilma?


Imagino que o BM, o Brasileiro Médio, se faça essa pergunta diante das repetidas notícias de queda na Bolsa.


A resposta é: é um problemão para quem tem dinheiro aplicado na Bolsa de Valores, uma fração insignificante da sociedade.


A Bolsa brasileira sempre foi irrelevante. Poucas empresas, ao longo dos tempos, decidiram abrir seu capital.


Na mídia, por exemplo, que não para de noticiar agora a instabilidade das ações, nenhuma grande empresa foi para a Bolsa.


A visão hostil em relação à Bolsa faz parte da cultura nacional,
pouco disposta ao risco. Fora isso, há investimentos seguros que pagam
altas – em certos momentos altíssimas – taxas de juros.


Suponha que, numa virada sensacional, a Bolsa começasse a bater recordes. Mais uma vez: não significaria nada para o BM.


O BM não come ações.


Em compensação, alguns especuladores ganhariam muito dinheiro.


Por trás do noticiário catastrofista, está uma tentativa de intimidar
o eleitor assustadiço e convencê-lo a votar no “candidato do mercado”,
Aécio.


As pesquisas mostram que o BM não é o idiota que alguns pensam que é.


Pressões baseadas no apocalipse são comuns. Numa clássica, o então
presidente da Fiesp, Mário Amatto, disse que 800 000 empresários
deixariam o país caso Lula vencesse as eleições de 1990.


O “mercado” se agitou também em 2002, diante da iminência da vitória
de Lula. Lula piscou, e disso nasceu a Carta aos Brasileiros, na qual o
PT se comprometeu a seguir a essência da política econômica de FHC.


Quer dizer: o PT abdicava, ali, de ser um partido de esquerda.
Começava um movimento que levaria o partido ao centro, ou à
centro-esquerda.


(Um efeito colateral dessa caminhada do PT rumo ao centro foi a transformação do PSDB num partido de direita.)


O terrorismo econômico de 2014 não é muito diferente do de 1989, e nem do de 2002.


O que se deseja, a rigor, é que Dilma se comprometa com uma agenda da qual o “mercado” goste.


Lula parece ter aprendido, pelo que ele fala agora, que no fundo se
trata de mais um blefe. Não era verdade que 800 mil empresários
debandariam, e nem que o Brasil entraria em colapso se não fosse seguida
a receita ortodoxa de FHC em 2002.


Mais uma vez, o que temos é o 1% sempre querendo manipular os 99%: a rigor, não é mais nem menos que isso.


Durante muitos anos, na ditadura militar e depois mesmo no governo
FHC, os brasileiros foram enganados com o argumento de que era preciso
fazer o bolo – a economia – crescer para depois distribuí-lo.


O bolo cresceu e, como mostram os dados da desigualdade, jamais foi distribuído decentemente por sucessivas administrações.


Num mundo menos imperfeito, a mídia teria cobrado duramente ações para fazer do Brasil um país menos abjetamente injusto.


Mas não.


A imprensa nunca fez do combate à iniquidade uma causa, porque se
beneficiou da desigualdade. Os donos das empresas de jornalismo acabaram
figurando entre as pessoas mais ricas do Brasil.


A melhor atitude que o BM, o Brasileiro Médio, deve tomar diante das trepidações da Bolsa é ignorá-las.


De alguma forma, pode até respirar aliviado. Nas presentes
circunstâncias, caso a Bolsa estivesse bombando, é porque – como
prometeu Aécio a um grupo de empresários no começo da sua campanha –
medidas impopulares estariam ali na esquina.


E delas ninguém escapa, salvo os suspeitos de sempre, o chamado 1%.