Bebianno enfrentou o esquema das milícias em hospital e pode ser esta a real razão de ter caído em desgraça.
Por Joaquim de Carvalho
A fritura do ministro Gustavo Bebianno
pode esconder um problema ainda mais grave do que a liberação de
dinheiro do Fundo Partidário para o esquema de laranja em Pernambuco.
O titular da Secretaria Geral da
Presidência bateu de frente com o esquema de milicianos que operaria no
Hospital Federal de Bonsucesso, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.
Desde antes da posse de Bolsonaro, o
ex-presidente do PSL já tinha alardeado que uma das prioridades do
governo seria acabar com o controle dos milicianos no hospital.
”Chega ao ponto de as pessoas que
precisam de tratamento terem de pegar senha com milicianos, que
determinam quem vai ser atendido ou operado”, disse ele, em entrevista
ao Estadão, publicada em 20 de dezembro.
Na época, não tinha sido revelada a
relação da família Bolsonaro com as milícias da Zona Oeste, onde o
ex-assessor de Flávio Bolsonaro tinha grande influência.
O caso teve repercussão depois que o
Ministério Público do Rio de Janeiro deflagrou a operação que levou
milicianos à prisão, em janeiro.
Soube-se então que um dos líderes da
milícia, o ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega, estava
presente no gabinete de Flávio na Assembléia Legislativa do Rio de
Janeiro.
A mãe e a mulher de Adriano tinham sido assessoras de Flávio, com salário em torno de 6 mil reais.
Adriano e um dos comparsas, o major
Ronald Paulo Alves Pereira, também tinham sido homenageados por Flávio,
com diploma de mérito, e um deles recebeu a Medalha Tiradentes, uma das
maiores honrarias concedidas pelo Legislativo do Estado.
De fato, depois de posse de Bolsonaro, o
Ministério da Saúde interveio no hospital, e Bebianno estava na linha de
frente desse movimento.
Um vídeo postado na internet mostra
Bebianno na cabeceira da mesa de uma reunião entre representantes do
governo federal e a diretoria interina do hospital.
“Eu gostaria de dizer para o senhor que há duas maneiras de fazer as coisas. Uma é pela dor. A outra é pelo amor”, afirmou.
Olhando no olho do diretor Paulo Roberto Cotrim de Souza, batendo na mesa, ele afirmou:
“Nós não vamos nos intimidar com ameaças
veladas, com discursos contrários ao nosso trabalho. Nós esperamos que o
senhor tenha liderança suficiente, tenha sensatez suficiente, para
passar esse espírito ao corpo médico lá do hospital, porque nós vamos
entrar no hospital e nós vamos fazer o trabalho que precisa ser feito.
Aqueles que colaborarem estarão conosco. Quem não colaborar não estará
conosco, e eles responderão pelos seus atos, inclusive criminalmente. A
Polícia Federal estará dentro do Hospital de Bonsucesso, o Exército
Brasileiro estará dentro do hospital de Bonsucesso, a Consultoria
Fagundes estará dentro do hospital de Bonsucesso, os hospitais estarão
dentro do hospital, tudo isso para fazer um trabalho que pode ser muito
harmônico e feliz para todo mundo. Agora, quem vier com gracinha, com
ameaça, a Presidência da República está diretamente interessada no
assunto, nós não vamos arredar o pé do Hospital do Bonsucesso, e nós
vamos fazer o que tem que ser feito. Então o senhor, por favor, transmita
esse meu recado ao Doutor Baltazar, eu até vou fazer uma visita ao
hospital qualquer hora dessas, e vou dizer isso para ele. Está certo? Eu
quero ver quem vai ter peito de peitar a Presidência da República, e o
trabalho que está sendo feito. Se tiver que haver confronto, sangue na
camisa, como disseram lá, ameaçando as pessoas que estiveram lá — ‘oh,
tome cuidado para não sair daqui com sangue na camisa, aqui é uma região
muito perigosa’ —, isso foi dito lá. Então, eu pago para ver,
pessoalmente, como pessoa física, como representante da Presidência da
República, eu gostaria de contar com sua colaboração para que o hospital
pudesse progredir assim como todos os outros progredirão, essa
conversinha fiada, de cafajeste do Rio de Janeiro, não vai prosperar
conosco, nós não vamos nos intimidar.”
É cedo para afirmar que existe alguma
relação entre essa ofensiva do governo federal comandada por Bebianno e o
processo de fritura dele, mas esta é uma hipótese que não se deve
descartar.
A indignação de Bolsonaro com o esquema
de laranjas do PSL não faz sentido se se considerar que, antes da
denúncia vazada à Folha de S. Paulo sobre da existência de uma
candidatura de fachada em Pernambuco, já era de conhecimento público
outro caso, em Minas Gerais, que envolve o ministro do Turismo, Marcelo
Álvaro Antônio.
No caso mineiro, o ministro foi até
prestigiado. Marcelo Álvaro Antônio foi exonerado para tomar posse da
Câmara e renomeado no dia seguinte, sem que a família Bolsonaro tenha se
movimentado.
Pelo contrário. Marcelo recebeu até elogios da Casa Civil e contou com o silêncio do ministro da Justiça, Sergio Moro.
Bebianno é um dos membros do governo federal mais articulados com o que se poderia chamar de sociedade civil organizada.
Ex-sócio de um grande escritório de
advocacia no Rio, tem vínculos com a cúpula do Poder Judiciário tanto do
Estado do Rio de Janeiro quanto em Brasília.
Os jornalistas da velha imprensa têm em
Bebianno uma fonte privilegiada, uma das poucas, em um governo que se
destaca por ter ministros sem prestígio público, como Damares Alves,
Ricardo Vélez, Ernesto Araújo e Ricardo Salles.
Bebianno está sendo responsabilizado por
ato em que tem a menor culpa, no caso dos laranjas, já que é evidente
que a formação da chapa eleitoral está sob controle das lideranças
estaduais — no caso de Minas, o ministro Marcelo Álvaro Antônio, e no
caso de Pernambuco, o deputado federal Luciano Bivar.
Bebianno pode ter pisado em um território
proibido no governo Bolsonaro, ao declarar guerra aos esquemas de
milicianos que vendiam atendimento em um hospital público.
Se se quiser entender esse episódio, é preciso olhar com lupa para a ação das milícias na Saúde Pública.
Pode estar aí a razão do rompimento dos Bolsonaros com o ex-homem de confiança do presidente da república.
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