segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Na era da globalização, o que deveríamos ler? - 03/01/2011 - UOL Notícias - NYT - Umberto Eco

Na era da globalização, o que deveríamos ler? - 03/01/2011 - UOL Notícias - NYT - Umberto Eco:



Mesmo nos atendo somente à tradição ocidental, quais são os livros que as pessoas deveriam ler?

“O Cânone Ocidental” de Harold Bloom define o cânone literário como “a escolha de livros em nossas instituições de ensino”, e sugere que a verdadeira questão que ele suscita é: “o que o indivíduo que ainda deseja ler deveria tentar ler, a essa altura da História?” E ele observa que, na melhor das hipóteses, dentro do tempo de uma vida é possível ler somente uma pequena fração do grande número de escritores que viveram e trabalharam na Europa e nas Américas, sem contar aqueles de outras partes do mundo. Mesmo nos atendo somente à tradição ocidental, quais são os livros que as pessoas deveriam ler? Não há dúvidas de que a sociedade e a cultura ocidentais foram influenciadas por Shakespeare, pela “Divina Comédia” de Dante, e – voltando atrás no tempo – por Homero, Virgílio e Sófocles. Mas será que somos influenciados por eles porque os lemos de fato em primeira mão?

Isso lembra o argumento de Pierre Bayard, em “Como Falar Sobre Livros que Você Não Leu”, de que não é essencial ler de fato um livro de capa a capa para entender sua importância. Por exemplo, é nítido que a Bíblia teve uma profunda influência tanto sobre a cultura judaica como sobre a cristã no Ocidente, e mesmo sobre a cultura de não-crentes – mas isso não significa que todos aqueles que foram influenciados por ela a tenham lido do começo ao fim. O mesmo pode se dizer sobre os escritos de Shakespeare ou James Joyce. É necessário ter lido o Livro dos Reis ou o Livro dos Números para ser uma pessoa culta ou um bom cristão? É necessário ter lido Eclesiastes, ou basta simplesmente saber em segunda mão que ele condena a “vaidade das vaidades”?

Sendo assim, a questão do cânone não é homóloga à do currículo escolar, que representa o conjunto de obras que um estudante deverá ter lido ao fim de seus estudos. Hoje o problema é mais complicado do que nunca e, durante uma recente conferência literária internacional em Mônaco, houve um debate sobre o lugar do cânone na era da globalização. Se roupas de marca “europeias” são produzidas na China, se usamos computadores e carros japoneses, se até em Nápoles comem hambúrgueres em vez de pizza – resumindo, se o mundo encolheu a dimensões provincianas, com estudantes imigrantes em todo o mundo pedindo para aprender sobre suas próprias tradições – então como será o novo cânone?

Em certas universidades americanas, a resposta veio na forma de um movimento que, mais do que “politicamente correto”, é politicamente estúpido. Como temos muitos estudantes negros, algumas pessoas sugeriram ensinar-lhes menos Shakespeare e mais literatura africana. Uma ótima piada à custa de todos aqueles jovens destinados a saírem pelo mundo sem entender referências literárias universais como o solilóquio do “ser ou não ser” de Hamlet – e, portanto, condenados a permanecerem à margem da cultura dominante. Se tanto, o cânone existente deveria ser expandido, e não substituído. Como foi sugerido recentemente na Itália, a respeito de aulas semanais de religião nas escolas, os estudantes deveriam aprender algo sobre o Corão e os ensinamentos do Budismo, bem como sobre os Evangelhos. Assim como não seria mau se, além de suas aulas sobre a civilização grega antiga, os estudantes aprendessem algo sobre as grandes tradições literárias árabe, indiana e japonesa.

Não faz muito tempo, fui a Paris para participar de uma conferência entre intelectuais europeus e chineses. Foi humilhante ver como nossos colegas chineses sabiam tudo sobre Immanuel Kant e Marcel Proust, sugerindo paralelos (que poderiam estar certos ou errados) entre Lao Tsé e Friedrich Nietzsche – enquanto a maioria dos europeus entre nós mal conseguia ir além de Confúcio, e muitas vezes com base somente em análises em segunda mão.

Hoje, no entanto, esse ideal ecumênico esbarra em certas dificuldades. Você pode ensinar a jovens ocidentais a “Ilíada” porque eles ouviram algo sobre Heitor e Agamêmon, e porque seus rudimentos de cultura incluem expressões como “o julgamento de Páris” e “calcanhar de Aquiles” (embora em um recente exame de admissão de uma universidade italiana um candidato tenha pensado que o termo “calcanhar de Aquiles” se referia a uma doença, como cotovelo de tenista). Ainda assim, como conseguir fazer com que esses estudantes se interessem pelo poema épico sânscrito “O Mahabharata”, ou pelos poemas dos “Rubaiyat de Omar Khayyam” de forma que essas obras permaneçam em suas memórias? Será que realmente podemos adaptar o sistema educacional a um mundo globalizado quando a vasta maioria dos ocidentais cultos ignora totalmente que, para os georgianos, um dos maiores poemas na história literária é “O Cavaleiro na Pele de Pantera” de Shota Rustaveli? Quando acadêmicos não conseguem nem concordar se, na versão georgiana original, o cavaleiro do poema está na verdade usando uma pele de pantera e não de tigre ou de leopardo? Chegaremos sequer a esse ponto, ou continuaremos simplesmente a perguntar: “Shota o quê?”
Tradução: Lana Lim

Umberto Eco


Umberto Eco é professor de semiótica, crítico literário e romancista. Entre seus principais livros estão 'O Nome da Rosa' e o 'Pêndulo de Foucault'.

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domingo, 2 de janeiro de 2011

Blog de Ricardo Noblat: colunista do jornal O Globo com notícias sobre política direto de Brasília - Ricardo Noblat: O Globo

Blog de Ricardo Noblat: colunista do jornal O Globo com notícias sobre política direto de Brasília - Ricardo Noblat: O Globo: "Lula e seu povo



Lula quebra o protocolo e vai ao encontro do povo - Foto: / Domingos Peixoto - O Globo



Roberto Maltchik, Fábio Fabrini e Jailton de Carvalho, O Globo

Em seus últimos momentos como presidente da República, Lula quebrou alguns protocolos. Após a cerimônia da passagem da faixa presidencial para Dilma Rousseff, ao descer a rampa do Palácio do Planalto, Luiz Inácio Lula da Silva atravessou a pista e, acompanhado da mulher, Marisa Silva, foi encontrar-se com a multidão que o aguardava atrás de uma grade.

Por cerca de cinco minutos, foi abraçado, tocado e fotografado. Precisou sair rapidamente, antes que sua presença causasse ainda mais confusão.

Inicialmente, Lula até que seguiu o protocolo da solenidade. Diferentemente do que alguns esperavam, ele não discursou, para não nublar o dia de brilho de Dilma. Porém, ao descer a rampa, decidiu não entrar no carro oficial com dona Marisa, como estava programado.

Atravessou a avenida em direção à Praça dos Três Poderes para cumprimentar pessoas que, desde cedo, enfrentando a chuva, esperavam por uma última oportunidade de tirar uma foto com ele.

Quando Lula chegou ao pé da rampa, os seguranças anteviram que o ex-presidente iria em direção ao povo e logo fizeram uma corrente em volta dele para acompanhá-lo. O público o aguardava com as mãos para cima e gritava 'Lula, guerreiro do povo brasileiro'.

O ex-presidente, descabelado, suado e esmagado entre seguranças e repórteres, cumprimentou as pessoas que se apertavam na grade da segurança uma a uma. Em certo momento, não conteve o choro.

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A fonte de sucesso de Lula, por Jânio de Freitas | Brasilianas.Org

A fonte de sucesso de Lula, por Jânio de Freitas | Brasilianas.Org: "dom, 02/01/2011 - 11:30
Jose de Almeida Bispo

Até o Jânio, salvo falta de entendimento da minha parte, trilha pelo velho jargão do preconceito do 'nordestino esperto', o João Grilo ou, como prefere a intelectualidade paulista, Macunaíma. Pessoal, o Lula de 1º de janeiro de 2011 é o mesmo do 'Lula sem censura' (Vozes, 1981), livreto que comprei à época pra ajudar D. Marisa a por arroz na mesa em tempo bicudos de prisões, demissões, cerceamento de liberdade do operário que chegou a Presidente. Tudo direto ao ponto. É claro que Lula não iria tentar reinventar a roda. Ele nunca deixou dúvidas: comida na mesa; emprego na carteira. Também, a direitona escravagista, embriagada com suas manias de poder extremo e todos os vícios que a este se agrega sempre achou que Lula tem apego ao poder tal qual eles tem; daí, achar que a escolha de um quadro sabidamente dos melhores, e a liberdade para que este quadro funcionasse teria sido 'intuição'. Lula é político. Sabe-se não economista, engenheiro de petróleo, operador da bolsa (se o fosse, seria rico) ou professor universitário. Não é um 'fominha' pelo holofote, pelo poder, e é isso que acaba por atraí-los. É óbvio que a intuição é parte da inteligência humana.
ela que advém as grandes idéias depois racionalizadas, mas, me incomoda, sobremaneira, essa cantilena dos preconceituosos em achar Lula o 'instintivo', o jumento falante de Balaão. Sinceramente! Desse jeito, com essa 'magnificiência' intelectual o PT chega a ser PRI (tóc! toc! na madeira).

Viva o Brasil, que, apesar de ser o último a abolir oficialmente a escravidão foi o primeiro a por um operário no poder (sem esquemas da CIA e do Opus Dei pra derrubar um império enferrujado).

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Folha de S.Paulo - Gilberto Dimenstein: Um brinde à saúde - 02/01/2011

Folha de S.Paulo - Gilberto Dimenstein: Um brinde à saúde - 02/01/2011: "30% dos estudantes de SP ficam 'altos' pelo menos uma vez por mês e o crack já está em todo o país


NADA PREOCUPA TANTO o brasileiro como a saúde pública, segundo recente pesquisa do Datafolha: é generalizado o descontentamento com a dificuldade de acesso ao serviço e com a sua qualidade. Mesmo assim, por incrível que pareça, a saúde mereceu um brinde nas festas de fim de ano. Foi aí que colhi algumas das melhores notícias do ano.
À primeira vista, parece estranho afirmar isso, afinal, como mostrou a repórter Cláudia Collucci nesta Folha, um paciente com câncer chega a esperar até seis meses por uma radioterapia. É algo como esperar horas por bombeiros quando uma casa está pegando fogo.
Basta, porém, ler algumas das últimas informações divulgadas para ver a dimensão de certas conquistas, resultado de décadas de mobilização, que nasceram de experiências localizadas em alguns municípios e depois disseminadas. Segundo números do Ministério da Saúde, vem caindo o número de mortes associadas ao fumo. As pessoas já fumam menos. Há menos mortes por doenças do coração porque há mais cuidado com a alimentação e mais preocupação com a prática de exercícios físicos.
Quem conhece o poder da indústria do tabaco sabe o que significam essas conquistas. Portanto, valeu o brinde aos educadores da saúde.



Pesquisa da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) mostrou queda no número de fumantes e no consumo de álcool e drogas entre os estudantes do Brasil. Apesar dos patamares ainda indecentemente altos, há batalhas vitoriosas nessa guerra. Mas o perigo continua: 30% dos estudantes da cidade de São Paulo ficam 'altos' pelo menos uma vez por mês e o crack já está em todo o país.
A preocupação é tão grande que o futuro secretário da Saúde de São Paulo, Giovanni Cerri, prometeu fazer da educação contra o abuso de álcool prioridade de sua gestão. Uma de suas medidas será a disseminação de uma experiência feita com jovens da favela de Heliópolis, que, com a ajuda de especialistas em saúde pública, foram treinados para falar à sua comunidade sobre os perigos da dependência química.



Os números divulgados em dezembro indicam que continua a cair a mortalidade infantil, resultado das políticas de educação, do atendimento às gestantes e do saneamento básico. Aumentou ainda mais a expectativa de vida do brasileiro. Além disso, ocorreu redução acentuada da gravidez precoce, embora a situação continue crítica.
Poucas coisas são tão socialmente devastadoras como a gravidez precoce, que subtrai da mãe a chance de prosperar e condena o filho à vulnerabilidade, mantendo o círculo vicioso da miséria.
Reduzir a gravidez na adolescência significou vencer as barreiras de preconceitos, distribuir contraceptivos na rede pública e convencer as jovens de que, até a idade adulta, é melhor cuidar dos estudos do que de um filho.



Outra notícia importante foi a queda da taxa geral de homicídios no país, segundo relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, fruto da combinação do esforço da polícia com ações comunitárias e educacionais.
São Paulo serviu de laboratório para as metrópoles ao reduzir em extraordinários 70% sua taxa de assassinatos. O homicídio já está quase saindo da condição de epidemia na cidade, segundo padrões da OMS (Organização Mundial de Saúde), o que se explica pelo policiamento comunitário, pelas mudanças demográficas, pelo uso de mais inteligência na repressão e pelas ações educativas de desarmamento, estas uma iniciativa da sociedade (do movimento Sou da Paz).
Há registros de queda acentuada em Recife. A cidade do Rio virou o maior exemplo de ação de segurança graças a uma aliança entre os governos federal, estadual e municipal, apoiados pela sociedade.



Com a continuidade do crescimento econômico, o envelhecimento da população e a evolução da escolaridade, além, é claro, dos programas de saúde pública, todos aqueles indicadores não vão parar de melhorar.
A boa notícia (má para os governantes) é que a pressão por melhores serviços só vai aumentar. E não vai custar barato, afinal a agenda do brasileiro está cada vez mais sofisticada. Será por muito tempo uma das três prioridades dos brasileiros ao lado de educação e segurança.
Mas, enquanto isso, dá para comemorar algumas conquistas que custaram muito esforço de um punhado de gente inovadora.



PS- Sugiro aos futuros governantes, a começar da presidente Dilma, que vejam os resultados de experiências em municípios (como SP e Sorocaba) que aplicaram projetos de saúde preventiva aos estudantes. Não só melhoraram o desempenho escolar deles mas evitaram gastos futuros. Gasta-se pouco e economiza-se muito.

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Folha de S.Paulo - Vinicius Torres Freire: Refinamentos desnecessários - 02/01/2011

Folha de S.Paulo - Vinicius Torres Freire: Refinamentos desnecessários - 02/01/2011: "Projeto petista de exploração do pré-sal defende alguns nacionalismos econômicos que podem ser ineficientes

EM 2010, o Brasil terá o segundo maior deficit na balança comercial de combustíveis desde 2000. Isto é, o valor das importações de combustíveis, basicamente petróleo e derivados, será maior que o das exportações. No ano de 2008, de bom crescimento econômico e de explosão do preço do barril de petróleo, o deficit foi maior.
Problema? Hoje em dia, não. Mas os governos petistas têm alguma implicância com deficit na balança de combustíveis e, mais importante, com o fato de o Brasil exportar combustíveis de 'baixo valor agregado' (petróleo bruto) e importar produtos refinados.
O deficit na balança de combustíveis já foi ameaça econômica grave no Brasil. Entre 1980 e 1982, o valor da importação de combustíveis equivalia a quase metade do valor de todas as exportações. Havia, pois, um risco claro de asfixia nas contas externas também devido ao custo do petróleo (e, claro, devido ao endividamento externo e à desordem econômica da época).
Desde meados dos anos 1990, a importação de combustíveis tem ficado entre 9% e 15% do valor total das exportações. As flutuações se devem, claro, ao preço do petróleo, ao consumo de combustíveis, ao ritmo do PIB, à quantidade e ao preço do total das exportações.
Mas o país produz cada vez mais petróleo e álcool combustível. Ainda pode recorrer a outras fontes renováveis de energia. Não houve drama 'macroeconômico' quando o barril chegou perto de absurdos US$ 150, em 2008. Nos anos 1970, a alta do petróleo ajudou a quebrar o Brasil.
Ainda assim, os governos petistas preocupam-se com a 'qualidade' da balança de combustíveis. Com a eventual abundância do pré-sal, querem fazer que o país não apenas seja grande produtor e, talvez, exportador líquido de petróleo como vendedor de produtos de 'maior valor agregado' (refinados).
Por isso, fizeram a Petrobras engolir um projeto de investimentos em refinarias que, nos corredores, o pessoal da empresa não considera econômico. E para o país, interessa?
Produzir bens de 'maior valor agregado' nem sempre é interessante. O capital despendido em refinarias poderia ter retorno maior em outro investimento. Tecnologicamente, não é um progresso fazer refinarias. Talvez em termos estratégicos, 'de segurança nacional', não depender muito de energia importada talvez fosse relevante, mas esse risco parece muito remoto. Enfim, não sabemos nem quando haverá petróleo bastante para exportar.
A Petrobras vai investir em pesquisa de materiais, métodos de exploração e equipamentos para fazer o pré-sal. Isso é um avanço. Vai encomendar serviços, equipamentos, navios, plataformas, sondas. Se não houver reserva de mercado improdutiva, isso será um avanço e vai impulsionar a indústria nacional.
Decerto, nem sempre o setor privado faz a melhor alocação de capital, 'investe melhor'. Basta ver os desastres das bolhas da década passada. Mas dirigir investimentos demais, via Estado, também dá em besteira, em uso menos produtivo de capital escasso.
Refinarias, trem-bala, estádios da Copa, nada disso deve melhorar a produtividade geral da economia brasileira, de resto faminta de investimentos em outras áreas e já enfrentando deficit externos devido à insuficiência de poupança.

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Folha de S.Paulo - Janio de Freitas: A fonte do sucesso - 02/01/2011

Folha de S.Paulo - Janio de Freitas: A fonte do sucesso - 02/01/2011: "Ocorreu uma inovação decisiva, quase estritamente intuitiva, que veio a fazer o sucesso de Lula e do seu governo: a imaginação

A APROVAÇÃO espetacular da presidência de Lula se explica, é claro, pelo uso que fez dos instrumentos de governo, mas daí decorre uma indagação menos óbvia e mais interessante: o que levou a esse uso que se diferenciou do mesmismo governamental brasileiro?
Os dois mandatos de Lula são de presidentes e de governos que têm muito pouco em comum. Não foi por falta de memória que a caracterização do governo Lula como mero continuísmo, tão insistente no primeiro mandato, nunca mais foi repetida no segundo. Continuísmo que não era, como mal se defendiam os petistas, uma incompreensão da crítica nem, tampouco, uma contingência incontornável.
Era a escolha de um presidente e um governo temerosos dos setores dominantes, inseguros da resistência para manter-se no poder, e por isso decididos a apegar-se à cartilha do mesmismo governamental. Um estado muito evidente na contradição entre os ares serviçais voltados para o empresariado forte, em especial o financeiro, e a fúria desabafada por Lula, nas falas ao povão, contra 'as elites desse país'.
O convencionalismo do governo Lula confirmou-se na disputa pela reeleição. Geraldo Alckmin não era um competidor difícil, carecia de presença nacional e sustentava uma candidatura cujo único possível atrativo era a oposição a Lula. O qual, além do mais, mesmo valendo-se de facilidades e de meios de propaganda do governo, tal como Fernando Henrique em sua reeleição, teve uma vitória muito pouco expressiva. Ainda há pouco se veio a saber, pelo WikiLeaks, que a derrota de Lula chegou a ser temida em seu círculo.
De qualquer modo, a vitória pareceu dar a Lula alguma confiança mais. Embora não suficiente para encorajá-lo a fazer um governo menos preso aos legados históricos e aos recentes -um país a serviço do setor financeiro privado, com o serviço público devastado, um ou outro programinha social para maquiar a face real, a inexistência de soberania nas relações internacionais, e o mais que se sabe.
Nesse vago andar, não seria apenas por acaso a junção de Guido Mantega, Dilma Rousseff e Celso Amorim em torno de Lula e, desde aí, a criação de um sentido para o governo. Lula conquistou, sem o cerceio do duo de regentes conservadores Antonio Palocci/Henrique Meirelles, o estímulo para a segurança pessoal e a redefinição de sua presidência. Afinal formava-se a unidade no centro de decisões do governo.
A velha ideia de crescimento conjugado a combate à inflação enfim teve a sua oportunidade. Nada a ver com o petismo, nada das modificações estruturais e das reformas institucionais que, antes, se esperariam de Lula. Mas ocorreu uma inovação decisiva, quase estritamente intuitiva, que veio a fazer o sucesso de Lula e do seu governo: a imaginação.
Uma das características do Brasil é a falta de imaginação política e, com ela, de imaginação governamental. O exemplo extremo, nesse sentido, é o governo Fernando Henrique, em que 'o intelectual no Poder' só se afastou do roteiro mediocremente tradicional para submeter-se, e ao país, às diretrizes externas do neoliberalismo, feitas de muitos interesses e escassas ideias.
Aderido à proposta de crescimento, o governo Lula adotou (até por necessidade) uma dose razoável de imaginação, e agiu em função dela. O PAC, Programa de Aceleração do Crescimento, é o exemplo mais apropriado. Não compõe um plano de ação, atira-se para todos os lados, mas deu o sentido de ação governamental a enfrentar buracos negros que, em seus variados gêneros, jamais viam ultrapassado o limite das palavras vazias, ou carregadas só de demagogia.
Geração de energia, retorno à indústria naval, transposição do São Francisco, estímulo a novas siderúrgicas, força total à Petrobras -fartas quantidade e variedade de iniciativas que criaram o clima de país em reelaboração. Nesse conjunto caótico do PAC, a urbanização de favelas juntou-se a programas como o Minha Casa, Minha Vida, o gigantismo do Bolsa Família e vários outros para grupos sociais e atividades pouco ou nada assistidos. Combinados, deram ao governo a face de poder voltado para o povo sempre sem governo. A imaginação deu frutos, a Lula e seu governo e, como melhoria das condições de vida, a grande parte da população.
Comparada à inovação nas relações exteriores, tanto políticas como comerciais, a ação interna foi ideologicamente moderada. Hoje se tem certeza, pelo WikiLeaks, de que a aqui tão criticada mediação no problema Irã foi a pedido dos Estados Unidos. Se esse episódio merece revisão, outros, como a insistência malsucedida para ingresso no Conselho de Segurança da ONU e a 'aliança estratégica' com o governo francês de Nicolas Sarkozy, continuam deploráveis. Mas o governo imaginou ações que conquistaram uma nova inserção internacional do Brasil e lhe deram a voz de nação. A importância dessa novidade é tão grande que ainda não pode ser percebida na plenitude, como realizadora de nova configuração do país e mesmo do mundo. A imaginação deu frutos.
A própria candidatura de Dilma Rousseff foi o exercício de uma liberação imaginativa, de sentido político, imposta por Lula em uma exibição definitiva da autoconfiança e da autenticidade que lhe faltaram no primeiro mandato. E outra vez a imaginação deu frutos.
O Brasil merece que Dilma Rousseff os reproduza e aprimore.

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Dilma toma posse: “Sou a presidenta de todos os brasileiros” « CartaCapital

Dilma toma posse: “Sou a presidenta de todos os brasileiros” « CartaCapital: "O Brasil tem, oficialmente, uma mulher no comando. Dilma Rousseff tomou posse na tarde deste sábado 1 em Brasília. A presidenta assinou o termo de posse no Congresso Nacional às 15h. Apesar da forte chuva que caiu na capital federal, milhares de pessoas aguardaram na Esplanada dos Ministérios para acompanhar a transmissão do cargo. A passagem da presidenta em carro aberto, no entanto, precisou ser cancelada por conta do temporal. Ela fez o percurso no Rolls Royce presidencial, mas com a capota fechada.

Após o cortejo inicial, a presidenta e o vice, Michel Temer, chegaram ao Congresso Nacional, entrando pela chapelaria, devido à chuva. Recepcionados pelo presidente do Senado, José Sarney, e da Câmara, Marco Maia, eles eram aguardados pelos convidados, entre eles, autoridades estrangeiras como Hugo Chávez, presidente da Venezuela, e Felipe de Bourbon, príncipe das Astúrias.

A presidenta iniciou seu mandato com um discurso no plenário do Congresso. Dilma começou enaltecendo as mulheres e o fato de ser a primeira a ocupar a presidência da República: “Hoje será a primeira vez que a faixa presidencial cingirá o ombro de uma mulher. Sinto uma imensa honra por essa decisão do povo brasileiro. Sei que meu mandato deve incluir a tradução mais generosa dessa ousadia do voto popular. Meu compromisso supremo é honrar as mulheres, proteger os mais frágeis e governar para todos”

Emocionada, Dilma falou sobre Lula: “Venho para consolidar a obra transformadora do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com quem tive a mais vigorosa experiência política da minha vida”. A presidenta afirmou que Lula foi “um presidente que mudou a forma de governar e levou o povo brasileiro a confiar mais em si mesmo e no próprio país”, e foi muito aplaudida ao lembrar do ex-vice-presidente José Alencar, internado em São Paulo para mais um episódio de sua luta contra o câncer: “Que exemplo de coragem e de amor à vida nos dá esse homem.”

Sobre o futuro, Dilma declarou que o país vive um dos melhores períodos da vida nacional, mas que é preciso manter a estabilidade econômica, controle rígido da inflação e combate ao desequilíbrio externo para que a situação se mantenha. Ela também prometeu incentivos ao setor privado de pequeno porte e afirmou que não fará “a menor concessão” em relação ao protecionismo econômico dos países ricos.

A presidenta também defendeu reformas e austeridade na máquina pública. “É tarefa indeclinável e urgente uma reforma com mudanças na legislação para fazer avançar nossa jovem democracia. Faremos um trabalho permanente e continuado para melhorar a qualidade do gasto público”. Dilma também citou o desafio de conduzir a exploração do petróleo da camada pré-sal: “O pré-sal é nosso passaporte para o futuro, mas só o será realmente se produzir uma síntese de avanço tecnológico, avanço ambiental e avanço social.”

A questão social, que tanto marcou os discursos de posse de Lula, foi trazida por Dilma: “A luta mais obstinada do meu governo será pela erradicação da pobreza extrema e a criação de oportunidades para todos. Uma expressiva mobilidade social ocorreu nos dois mandatos do presidente Lula, mas ainda existe pobreza a envergonhar nosso país e a impedir a nossa afirmação plena como povo desenvolvido. Não vou descansar enquanto houver brasileiros sem alimentos à mesa”.

A respeito das relações externas, a presidenta mencionou fortalecimento das relações entre os países latino-americanos, do Mercosul e da Unasul. Citou as relações com África, Oriente Médio, Europa e Ásia. Por último, ressaltou a importância da relação com os Estados Unidos e afirmou que continuará mantendo um bom diálogo com Washington.

Encaminhando-se para o fim do discurso, Dilma fez um apelo à participação de todos os níveis de governo e setores da sociedade na condução do governo. “O destino de um país não se resume à ação de seu governo. Ele é o resultado do trabalho e da ação transformadora de todos os brasileiros e brasileiras”. Com a voz embargada, a presidenta “estendeu a mão” aos partidos de oposição e aos segmentos que não a apoiaram na campanha eleitoral. “A partir deste momento, sou a presidenta de todos os brasileiros.”

A lembrança dos companheiros de luta contra a ditadura foi muito aplaudida no Congresso: “Eu dediquei toda a minha vida à causa do Brasil. Entreguei minha juventude ao sonho de um país justo e democrático. Suportei as adversidades mais extremas. Não tenho qualquer arrependimento, tampouco ressentimento ou rancor. Muitos da minha geração que tombaram pelo caminho não podem compartilhar a alegria deste momento. Divido com eles a alegria desta conquista e rendo-lhes minha homenagem. Esta às vezes dura caminhada me fez valorizar e amar muito mais a vida”

Dilma encerrou o discurso citando Guimarães Rosa: “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa,sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.

Assim, tomou posse a primeira mulher a ocupar a cadeira de presidente da República Federativa do Brasil.

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sábado, 1 de janeiro de 2011

O DIREITO DE SONHAR, Eduardo Galeano (*) | Fernando Massote

O DIREITO DE SONHAR, Eduardo Galeano (*) | Fernando Massote: "O DIREITO DE SONHAR, Eduardo Galeano (*)

Política Nacional | 31 de dezembro de 2010 | Envie para um amigo

Tente adivinhar como será o mundo depois do ano 2000. Temos apenas uma única certeza: se estivermos vivos, teremos virado gente do século passado. Pior ainda, gente do milênio passado.

Sonhar não faz parte dos trinta direitos humanos que as Nações Unidas proclamaram no final de 1948. Mas, se não fosse por causa do direito de sonhar e pela água que dele jorra, a maior parte dosdireitos morreria de sede. Deliremos, pois, por um instante. O mundo, que hoje está de pernas para o ar, vai ter de novo os pés no chão.

Nas ruas e avenidas, carros vão ser atropelados por cachorros.

O ar será puro, sem o veneno dos canos de descarga, e vai existir apenas a contaminação que emana dos medos humanos e das humanas paixões.

O povo não será guiado pelos carros, nem programado pelo computador, nem comprado pelo supermercado, nem visto pela TV. A TV vai deixar de ser o mais importante membro da família, para ser tratada como um ferro de passar ou uma máquina de lavar roupas.

Vamos trabalhar para viver, em vez de viver para trabalhar.

Em nenhum país do mundo os jovens vão ser presos por contestar o serviço militar. Serão encarcerados apenas os quiserem se alistar.

Os economistas não chamarão de nível de vida o nível de consumo, nem de qualidade de vida a quantidade de coisas.

Os cozinheiros não vão mais acreditar que as lagostas gostam de ser servidas vivas.

Os historiadores não vão mais acreditar que os países gostem de ser invadidos.

Os políticos não vão mais acreditar que os pobres gostem de encher a barriga de promessas.

O mundo não vai estar mais em guerra contra os pobres, mas contra a pobreza. E a indústria militar não vai ter outra saída senão declarar falência, para sempre.

Ninguém vai morrer de fome, porque não haverá ninguém morrendo de indigestão.

Os meninos de rua não vão ser tratados como se fossem lixo, porque não vão existir meninos de rua. Os meninos ricos não vão ser tratados como se fossem dinheiro, porque não vão existir meninos ricos.

A educação não vai ser um privilégio de quem pode pagar por ela.

A polícia não vai ser a maldição de quem não pode comprá-la.

Justiça e liberdade, gêmeas siamesas condenadas a viver separadas, vão estar de novo unidas, bem juntinhas, ombro a ombro.

Uma mulher - negra - vai ser presidente do Brasil, e outra - negra - vai ser presidente dos Estados Unidos. Uma mulher indígena vai governar a Guatemala e outra, o Peru.

Na Argentina, as loucas da Praça de Maio vão virar exemplo de sanidade mental, porque se negaram a esquecer, em tempos de amnésia obrigatória.

A Santa Madre Igreja vai corrigir alguns erros das Tábuas de Moisés. O sexto mandamento vaiordenar: “Festejarás o corpo”. E o nono, que desconfia do desejo, vai declará-lo sacro. A Igreja vai ditar ainda um décimo-primeiro mandamento, do qual o Senhor se esqueceu: “Amarás a natureza, da qual fazes parte”. Todos os penitentes vão virar celebrantes, e não vai haver noite que não seja

vivida como se fosse à última, nem dia que não seja vivido como se fosse o primeiro.

(*) - Eduardo Galeano, El derecho de soñar, l997

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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Observatório da Imprensa - Repórteres Sem Fronteiras - Folha processa blog por danos morais - 28/12/2010

Observatório da Imprensa - Repórteres Sem Fronteiras - Folha processa blog por danos morais - 28/12/2010: "Folha processa blog por danos morais

Por Repórteres Sem Fronteiras em 28/12/2010

Um mês após seu lançamento, o blog independente Falha de S.Paulo, que parodia o maior diário do Brasil, a Folha de S.Paulo, enfrenta um processo aberto pelo diário por 'uso indevido de marca', devido à semelhança entre os dois nomes e ao logotipo do blog. Não satisfeito depois de ter conseguido o encerramento do site, o jornal iniciou um novo processo contra seus autores e reclama agora uma indenização financeira por danos morais. No entanto, parece pouco provável que o mais importante diário do país possa efetivamente ser lesado por um blog independente.

O blog, gerido por Lino e Mário Ito Bocchini, troçava sobretudo da insistência com que o jornal atacava Dilma Rousseff, candidata vitoriosa da última eleição presidencial e chefe de Estado a partir de 1º de janeiro de 2011. Como lembram os dois irmãos no seu site: 'A internet teve peso inédito na campanha eleitoral, que terminou com a vitória da candidata de Lula (Dilma Rousseff). A atuação de centenas de blogs foi especialmente importante porque, em sua maioria, eles apoiaram a candidata de esquerda (Dilma Rousseff) e, por outro lado, praticamente toda a mídia convencional (rádio, TVs, jornais e revistas) defendeu fortemente o candidato de oposição, José Serra.'

A família Frias, proprietária do jornal, dispõe de meios para pagar as despesas do processo. O mesmo não sucede com os irmãos Bocchini (um é jornalista e o outro designer), que se encontram, devido à ação judicial, em graves dificuldades financeiras. Eles não têm possibilidades de se defenderem eficazmente desse processo, totalmente ignorado pela mídia tradicional, controlada por um punhado de famílias influentes.

Personalidades condenam censura e processo

Essas ações, que procuram asfixiar financeiramente um meio de comunicação, ilustram uma nova forma de censura. O desfecho desse caso poderia constituir um precedente perigoso em matéria de direito à caricatura, parte integrante da liberdade de expressão e de opinião. É por esse motivo que solicitamos à direção de a Folha de S.Paulo que renuncie a esse combate desigual e desista do processo contra o blog dos irmãos Bocchini. Esse gesto contribuiria para a reputação do diário, que mostraria assim seu apego à livre circulação de ideias, opiniões e críticas, garantidas pela Constituição Federal de 1988. A mídia deve aceitar estar exposta à crítica pública como qualquer outro poder ou instituição.

Os dois irmãos já criaram um site alternativo. Várias personalidades, entre as quais o ex-ministro da Cultura Gilberto Gil, gravaram mensagens de vídeo em que condenam a censura e o processo aberto pela Folha.

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Matéria do Globo sobre investimentos incorre em erro grosseiro | Agência T1

Matéria do Globo sobre investimentos incorre em erro grosseiro | Agência T1: "Matéria do Globo sobre investimentos incorre em erro grosseiro
Enviada em 29 de dezembro de 2010imprimir - enviar para um amigo

Matéria de capa de O Globo de hoje (29/12/2010) incorre em erro grosseiro ao passar uma ideia ao leitor de que é possível pagar todos os recursos orçamentários no ano da sua vigência.

A manchete de que “Governo só investiu 26% do previsto no ano todo” erra duas vezes:

. Ao desconsiderar que é impossível a total execução financeira dos investimentos, no ano do seu orçamento. Portanto, a conta certa são os 26% do orçamento de 2010 MAIS o Restos a Pagar executado relativo a 2009, porque é assim que funciona a Administração Pública. Quando, no texto, leva isso em consideração, o montante chega a 58,6%. Não quero discutir se é muito ou pouco, já que é pouco relevante, pela explicação abaixo.

. Ao desconsiderar a importância da execução física, que é o que interessa aos usuários e aos contribuintes. A estes pouco importa se o governo já pagou ou se pagará no futuro. O importante é que parte ou toda a obra tenha sido executada.

Para correto esclarecimento aos nossos leitores, reafirmamos: é impossível a qualquer governo, de qualquer partido, pagar todo o investimento previsto, no ano do seu orçamento.

Vamos aos fatos:

Grande parte dos investimentos autorizados no orçamento anual é de obras. Como funciona o processo, até o seu pagamento?

. A obra é contratada e um empenho é feito pelo administrador. O empenho representa a previsão de gasto, em geral, a cada ano da obra.

. A obra é iniciada e, a cada mês, é feita a medição dos serviços realizados. A empresa apresenta um relatório e a fiscalização atesta ou não as quantidades apresentadas.

. Uma vez atestada a medição, a fatura vai para liberação para pagamento. É o que se chama liquidação. A liquidação representa a seguinte posição da administração pública: “devo não nego, pagarei quando puder”.

. Se a obra estiver contemplada no PAC, o “quando puder” ocorre mais cedo do que das demais que não estão.

. Ainda assim, entre a execução física da obra e o seu pagamento decorre um tempo necessário de tramitação de, no mínimo, dois meses.

. Logo, tudo o que foi executado após o início de novembro somente será pago no ano seguinte, via rubrica Restos a Pagar.

Então, como queríamos demonstrar, é impossível pagar as obras e serviços realizados nos meses de novembro e dezembro no ano de vigência do orçamento. É assim no governo federal, nos governos estaduais e nas prefeituras. Idem no Judiciário e Legislativo.

***

Além dessa tramitação legal (e lógica) da administração pública, que não pode pagar o todo ou parte da obra não executada, há as situações normais de contingenciamento, que normalmente ocorrem no início do ano e que são uma precaução necessária da administração pública, diante da incerteza natural de que as receitas ocorrerão conforme a previsão quando se votou o orçamento.

Assim, todo governo (federal, estadual e municipal), contingencia (ou “corta”, como a imprensa gosta de escrever) recursos para evitar que os gestores (das obras e serviços) autorizem gastos cuja receita possa não ser atingida no tempo certo. Ou seja, o empenho é para o ano todo mas a receita entra mês a mês. Tem que haver, portanto, sincronia entre a entrada de dinheiro nos cofres públicos e a respectiva saída.

Como conseqüência disso, ocorre uma corrida para gastar o autorizado nos últimos três meses do ano, quando já se tem uma visão mais segura do fluxo financeiro. Ainda nestes últimos dias do ano estarão sendo pagos elevados volumes de obras realizadas.

Concluímos propondo ao jornal O Globo - e à excelente jornalista Regina Alvarez, que não faria a tal manchete - que toda vez que avaliar o desempenho de um governo leve em conta as informações apresentadas acima, enfatizando o mais importante (a execução física) e falando corretamente sobre a execução orçamentária e financeira.

José Augusto Valente - Diretor Técnico do T1

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"єuร" єм тяคиรє: Lula - A potência do sensível

"єuร" єм тяคиรє: Lula - A potência do sensível: "Lula - A potência do sensível
O primeiro operário a chegar à presidência da república é, também, o maior governante da história do Brasil. A afirmação pode, sim, parecer audaciosa, precipitada e - como muitos dizem por aí - vulgar. Ora, mas o “vulgar” em questão, é um termo adotado por uma elite microscópica que há oito anos tenta impor termos desproporcionais e descabidos para macular a imagem do “ex”-operário que tornou-se, democraticamente, presidente do Brasil. A suma maioria – ou seja, o povo – prefere a afirmação de um fato concreto, o fato de Luís Inácio Lula da Silva ter sido sim o melhor, mais sensível e, por isso, mais popular presidente da história desse país.

A história é conhecida e demonstra as varias facetas de um homem que dedicou a vida a um país, a um povo, a causas que, em comum, tiveram (e ainda têm) a vontade de tornar digna a existência dos que estão a margem dos processos que ao longo da história – por motivos diversos, sejam eles contingentes ou intencionais - fizera inúmeras vítimas. Vítimas de um processo de esquecimento dos afetos, do sensível, de sentimentos que devem ser (e são), sim, próprios também à política e seus modos de atuação. Lula tem por mérito maior não apenas o fato de ser o primeiro presidente operário, ou ainda o fato de ter conseguido eleger a primeira mulher presidenta da história do Brasil - fatos esses que são em si, obviamente, significativos e de importância simbólica enorme e desempenham funções efetivas. O maior legado deste homem é, no entanto, ter despertado a potência do sensível e não tê-la feito fracassar. Governar com destreza é saber tratar cada questão de acordo com as particularidades que a envolvem, é sentir-se próximo e afetado pelos problemas mais urgentes dessa questão. Lula mostrou-se grande por mostrar-se afetuoso. A potência de agir foi um imperativo, uma escolha e uma maneira pela qual procurou conduzir sua existência de homem do povo, que é e sempre foi. Lula deu sentido às idéias e as trabalhou, em grande parte, com alegria. A alegria de quem soube potencializar ações para distribuir afetos. E aqui, chamamos “afeto” o que Deleuze definiu a partir de Espinosa; o que, em termos gerais, significa que

(...) há o tempo todo idéias que se sucedem em nós, e de acordo com essa sucessão de idéias, nossa potência de agir ou nossa força de existir é aumentada ou é diminuída de uma maneira contínua, sobre uma linha contínua, e é isso que nós chamamos afeto [affectus], é isso que nós chamamos existir. (DELEUZE,Gilles)

Espinosa nos mostrou o quanto os afetos estão vinculados ao corpo político, e mais ainda, mostrou, também, como as mudanças provenientes desses estados afetivos podem nos levar a situações distintas. A força da existência política se dá em grande parte a partir dos bons encontros, mas, sobretudo, a partir das boas escolhas. Lula conseguiu fazer com que o coração da política brasileira voltasse a bater, e deu vida sensível a um corpo-político marcado pelo horror e ferido gravemente por uma elite assassina, covarde e cruel que sempre teve nojo do povo. A elite do embrutecimento, dos moralismos degradantes e conservadores.
Esse país aprendeu importantes lições nesses últimos oito anos. Lições buscadas, por Lula, no seio dos grandes setores populares, em meio a trabalhadores, ao povo. Essas lições, no entanto, são apenas os primeiros passos para a incessante aprendizagem que seguirá. O Brasil, agora, parece mais possível do que antes.

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O império do consumo « CartaCapital

O império do consumo « CartaCapital: "O império do consumo
Envolverde 30 de dezembro de 2010 às 11:25h




Esta ditadura da uniformização obrigatória impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar. Por Eduardo Galeano

Por Eduardo Galeano

A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todo lado as suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.

O sistema fala em nome de todos, dirige a todos as suas ordens imperiosas de consumo, difunde entre todos a febre compradora; mas sem remédio: para quase todos esta aventura começa e termina no écran do televisor. A maioria, que se endivida para ter coisas, termina por ter nada mais que dívidas para pagar dívidas as quais geram novas dívidas, e acaba a consumir fantasias que por vezes materializa delinquindo.

Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efémera, que se esgota como se esgotam, pouco depois de nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem tréguas, no mercado. Mas para que outro mundo vamos mudar-nos?

A explosão do consumo no mundo atual faz mais ruído do que todas as guerras e provoca mais alvoroço do que todos os carnavais. Como diz um velho provérbio turco: quem bebe por conta, emborracha-se o dobro. O carrossel aturde e confunde o olhar; esta grande bebedeira universal parece não ter limites no tempo nem no espaço. Mas a cultura de consumo soa muito, tal como o tambor, porque está vazia. E na hora da verdade, quando o estrépito cessa e acaba a festa, o borracho acorda, só, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos partidos que deve pagar.

A expansão da procura choca com as fronteiras que lhe impõe o mesmo sistema que a gera. O sistema necessita de mercados cada vez mais abertos e mais amplos, como os pulmões necessitam o ar, e ao mesmo tempo necessitam que andem pelo chão, como acontece, os preços das matérias-primas e da força humana de trabalho.

O direito ao desperdício, privilégio de poucos, diz ser a liberdade de todos. Diz-me quanto consomes e te direi quanto vales. Esta civilização não deixa dormir as flores, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores são submetidas a luz contínua, para que cresçam mais depressa. Nas fábricas de ovos, as galinhas também estão proibidas de ter a noite. E as pessoas estão condenadas à insônia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de pagar. Este modo de vida não é muito bom para as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA consomem a metade dos sedativos, ansiolíticos e demais drogas químicas que se vendem legalmente no mundo, e mais da metade das drogas proibidas que se vendem ilegalmente, o que não é pouca coisa se se considerar que os EUA têm apenas cinco por cento da população mundial.

“Gente infeliz os que vivem a comparar-se”, lamenta uma mulher no bairro do Buceo, em Montevideo. A dor de já não ser, que outrora cantou o tango, abriu passagem à vergonha de não ter. Um homem pobre é um pobre homem. “Quando não tens nada, pensas que não vales nada”, diz um rapaz no bairro Villa Fiorito, de Buenos Aires. E outro comprova, na cidade dominicana de San Francisco de Macorís: “Meus irmãos trabalham para as marcas. Vivem comprando etiquetas e vivem suando em bicas para pagar as prestações”.

Invisível violência do mercado: a diversidade é inimiga da rentabilidade e a uniformidade manda. A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todo lado as suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.

O consumidor exemplar é o homem quieto. Esta civilização, que confunde a quantidade com a qualidade, confunde a gordura com a boa alimentação. Segundo a revista científica The Lancet, na última década a “obesidade severa” aumentou quase 30% entre a população jovem dos países mais desenvolvidos. Entre as crianças norte-americanas, a obesidade aumentou uns 40% nos últimos 16 anos, segundo a investigação recente do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado.

O país que inventou as comidas e bebidas light, os diet food e os alimentos fat free tem a maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar só sai do automóvel par trabalhar e para ver televisão. Sentado perante o pequeno écran, passa quatro horas diárias a devorar comida de plástico.

Triunfa o lixo disfarçado de comida: esta indústria está a conquistar os paladares do mundo e a deixar em farrapos as tradições da cozinha local. Os costumes do bom comer, que veem de longe, têm, em alguns países, milhares de anos de refinamento e diversidade, são um patrimônio coletivo que de algum modo está nos fogões de todos e não só na mesa dos ricos.

Essas tradições, esses sinais de identidade cultural, essas festas da vida, estão a ser espezinhadas, de modo fulminante, pela imposição do saber químico e único: a globalização do hambúrguer, a ditadura do fast food. A plastificação da comida à escala mundial, obra da McDonald’s, Burger King e outras fábricas, viola com êxito o direito à autodeterminação da cozinha: direito sagrado, porque na boca a alma tem uma das suas portas.

O campeonato mundial de futebol de 98 confirmou-nos, entre outras coisas, que o cartão MasterCard tonifica os músculos, que a Coca-Cola brinda eterna juventude e o menu do MacDonald’s não pode faltar na barriga de um bom atleta. O imenso exército de McDonald’s dispara hambúrgueres às bocas das crianças e dos adultos no planeta inteiro. O arco duplo desse M serviu de estandarte durante a recente conquista dos países do Leste da Europa. As filas diante do McDonald’s de Moscou, inaugurado em 1990 com fanfarras, simbolizaram a vitória do ocidente com tanta eloquência quanto o desmoronamento do Muro de Berlim.

Um sinal dos tempos: esta empresa, que encarna as virtudes do mundo livre, nega aos seus empregados a liberdade de filiar-se a qualquer sindicato. A McDonald’s viola, assim, um direito legalmente consagrado nos muitos países onde opera. Em 1997, alguns trabalhadores, membros disso que a empresa chama a Macfamília, tentaram sindicalizar-se num restaurante de Montreal, no Canadá: o restaurante fechou. Mas em 1998, outros empregados da McDonald’s, numa pequena cidade próxima a Vancouver, alcançaram essa conquista, digna do Livro Guinness.

As massas consumidoras recebem ordens num idioma universal: a publicidade conseguiu o que o esperanto quis e não pôde. Qualquer um entende, em qualquer lugar, as mensagens que o televisor transmite. No último quarto de século, os gastos em publicidade duplicaram no mundo. Graças a ela, as crianças pobres tomam cada vez mais Coca-Cola e cada vez menos leite, e o tempo de lazer vai-se tornando tempo de consumo obrigatório.

Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas muito pobres não têm cama, mas têm televisor e o televisor tem a palavra. Comprados a prazo, esse animalejo prova a vocação democrática do progresso: não escuta ninguém, mas fala para todos. Pobres e ricos conhecem, assim, as virtudes dos automóveis do último modelo, e pobres e ricos inteiram-se das vantajosas taxas de juros que este ou aquele banco oferece.

Os peritos sabem converter as mercadorias em conjuntos mágicos contra a solidão. As coisas têm atributos humanos: acariciam, acompanham, compreendem, ajudam, o perfume te beija e o automóvel é o amigo que nunca falha. A cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados.

As angústias enchem-se atulhando-se de coisas, ou sonhando fazê-lo. E as coisas não só podem abraçar: elas também podem ser símbolos de ascensão social, salvo-condutos para atravessar as alfândegas da sociedade de classes, chaves que abrem as portas proibidas. Quanto mais exclusivas, melhor: as coisas te escolhem e te salvam do anonimato multitudinário.

A publicidade não informa acerca do produto que vende, ou raras vezes o faz. Isso é o que menos importa. A sua função primordial consiste em compensar frustrações e alimentar fantasias: Em quem o senhor quer converter-se comprando esta loção de fazer a barba? O criminólogo Anthony Platt observou que os delitos da rua não são apenas fruto da pobreza extrema. Também são fruto da ética individualista. A obsessão social do êxito, diz Platt, incide decisivamente sobre a apropriação ilegal das coisas. Sempre ouvi dizer que o dinheiro não produz a felicidade, mas qualquer espectador pobre de TV tem motivos de sobra para acreditar que o dinheiro produz algo tão parecido que a diferença é assunto para especialistas.

Segundo o historiador Eric Hobsbawm, o século XX pôs fim a sete mil anos de vida humana centrada na agricultura desde que apareceram as primeiras culturas, em fins do paleolítico. A população mundial urbaniza-se, os camponeses fazem-se cidadãos. Na América Latina temos campos sem ninguém e enormes formigueiros urbanos: as maiores cidades do mundo e as mais injustas. Expulsos pela agricultura moderna de exportação, e pela erosão das suas terras, os camponeses invadem os subúrbios. Eles acreditam que Deus está em toda parte, mas por experiência sabem que atende nas grandes urbes.

As cidades prometem trabalho, prosperidade, um futuro para os filhos. Nos campos, os que esperam veem passar a vida e morrem a bocejar; nas cidades, a vida ocorre, e chama. Apinhados em tugúrios [casebres], a primeira coisa que descobrem os recém chegados é que o trabalho falta e os braços sobram.

Enquanto nascia o século XIV, frei Giordano da Rivalto pronunciou em Florença um elogio das cidades. Disse que as cidades cresciam “porque as pessoas têm o gosto de juntar-se”. Juntar-se, encontrar-se. Agora, quem se encontra com quem? Encontra-se a esperança com a realidade? O desejo encontra-se com o mundo? E as pessoas encontram-se com as pessoas? Se as relações humanas foram reduzidas a relações entre coisas, quanta gente se encontra com as coisas?

O mundo inteiro tende a converter-se num grande écran de televisão, onde as coisas se olham mas não se tocam. As mercadorias em oferta invadem e privatizam os espaços públicos. As estações de ônibus e de comboios, que até há pouco eram espaços de encontro entre pessoas, estão agora a converter-se em espaços de exibição comercial.

O shopping center, ou shopping mall, vitrine de todas as vitrines, impõe a sua presença avassaladora. As multidões acorrem, em peregrinação, a este templo maior das missas do consumo. A maioria dos devotos contempla, em êxtase, as coisas que os seus bolsos não podem pagar, enquanto a minoria compradora submete-se ao bombardeio da oferta incessante e extenuante.

A multidão, que sobe e baixa pelas escadas mecânicas, viaja pelo mundo: os manequins vestem como em Milão ou Paris e as máquinas soam como em Chicago, e para ver e ouvir não é preciso pagar bilhete. Os turistas vindos das povoações do interior, ou das cidades que ainda não mereceram estas bênçãos da felicidade moderna, posam para a foto, junto às marcas internacionais mais famosas, como antes posavam junto à estátua do grande homem na praça.

Beatriz Solano observou que os habitantes dos bairros suburbanos vão ao center, ao shopping center, como antes iam ao centro. O tradicional passeio do fim de semana no centro da cidade tende a ser substituído pela excursão a estes centros urbanos. Lavados, passados e penteados, vestidos com as suas melhores roupas, os visitantes vêm a uma festa onde não são convidados, mas podem ser observadores. Famílias inteiras empreendem a viagem na cápsula espacial que percorre o universo do consumo, onde a estética do mercado desenhou uma paisagem alucinante de modelos, marcas e etiquetas.

A cultura do consumo, cultura do efêmero, condena tudo ao desuso mediático. Tudo muda ao ritmo vertiginoso da moda, posta ao serviço da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje a única coisa que permanece é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durar, resultam ser voláteis como o capital que as financia e o trabalho que as gera.

O dinheiro voa à velocidade da luz: ontem estava ali, hoje está aqui, amanhã, quem sabe, e todo trabalhador é um desempregado em potencial. Paradoxalmente, os shopping centers, reinos do fugaz, oferecem com o máximo êxito a ilusão da segurança. Eles resistem fora do tempo, sem idade e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do espaço, para além das turbulências da perigosa realidade do mundo.

Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efêmera, que se esgota como esgotam, pouco depois de nascer, as imagens que dispara a metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem tréguas, no mercado. Mas a que outro mundo vamos nos mudar? Estamos todos obrigados a acreditar no conto de que Deus vendeu o planeta a umas quantas empresas, porque estando de mau humor decidiu privatizar o universo?

A sociedade de consumo é uma armadilha caça-bobos. Os que têm a alavanca simulam ignorá-lo, mas qualquer um que tenha olhos na cara pode ver que a grande maioria das pessoas consome pouco, pouquinho e nada, necessariamente, para garantir a existência da pouca natureza que nos resta.

A injustiça social não é um erro a corrigir, nem um defeito a superar: é uma necessidade essencial. Não há natureza capaz de alimentar um shopping center do tamanho do planeta.
Envolverde

Envolverde é uma revista digital que aborda assuntos ligados ao Meio ambiente, Educação e Sustentabilidade. É vencedora do 6º. Prêmio Ethos de Jornalismo na Categoria Mídia Digital.

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Morte por Capes « CartaCapital

Morte por Capes « CartaCapital: "Morte por Capes
Thomaz Wood Jr. 26 de outubro de 2010 às 11:14h

Avaliações sobre a pesquisa científica em Administração no Brasil costumam chegar a uma triste conclusão: nossa produção é periférica e metodologicamente fraca

A afirmação de que a pesquisa científica é essencial para o progresso material e para a melhora das condições de vida de um país é axiomática. As nações desenvolvidas criaram gigantescos aparatos, verdadeiras usinas de ideias, para identificar grandes questões, realizar estudos e gerar conhecimento e patentes. As nações em desenvolvimento correm em busca do tempo perdido.

As ciências contam hoje com sofisticados sistemas de pesquisa, compostos de laboratórios, eventos acadêmicos, agências de financiamento, publicações científicas e um exército bem formado de pesquisadores. O campo da Administração, ciência adolescente entre os pares mais maduros, vem se desenvolvendo rapidamente. Não lhe faltam fenômenos a explicar e questões práticas a resolver. Afinal, o mundo gira, a economia roda e as empresas mudam.

Aos olhos de um visitante estrangeiro, o campo da pesquisa científica em Administração no Brasil é pujante. Os programas de mestrado e doutorado contam-se às dezenas. Os eventos científicos reúnem centenas de convivas. Os periódicos especializados multiplicam-se. Os números são celebrados.

No entanto, o sucesso aparente não resiste a um exame crítico. Avaliações sobre o estado das coisas da pesquisa científica em Administração no Brasil costumam chegar a uma triste conclusão: nossa produção é periférica, pouco informada sobre os desenvolvimentos mais recentes do campo, metodologicamente fraca e traz modesta contribuição, se alguma, para o progresso da ciência e para a prática administrativa. Vejam-se os principais periódicos internacionais da área e lá serão encontrados representantes das mais diversas nacionalidades, mas raramente um brasileiro. E se um nativo houver, será um herói solitário ou um imigrante.

Em um texto veiculado no site Administradores.com, Paulo Prochno, professor da Universidade de Maryland, põe o dedo na ferida. Sob o título “O que há de errado com a área acadêmica de Administração no Brasil”, o pesquisador lista e analisa as patologias locais. Prochno acredita que o País tem alunos e professores com bom potencial, porém, eles frequentemente desperdiçam seu talento. Outras áreas no Brasil destacam-se internacionalmente. Outros países emergentes se destacam internacionalmente. Então, o que impede a área de Administração de ter maior presença internacional?

O primeiro entrave citado por Prochno é o famoso (no meio acadêmico) “jogo dos pontinhos da Capes”, uma patologia que pode ser fatal. O pesquisador refere-se ao sistema de avaliação de programas de pós-graduação mantido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). O sistema, que é na verdade gerido por representantes dos próprios programas de pós-graduação, atribui pontos de acordo com as publicações realizadas pelos professores de cada programa. Para serem bem avaliados, os programas e seus professores precisam atingir certos patamares de pontuação.

Estabelece-se, assim, um sistema pretensamente racional, mas que na prática induz a quantidade em detrimento da qualidade. Preocupados com seus cargos, muitos professores preferem alvos fáceis – publicar em periódicos de segunda linha – a alvos difíceis – publicar em periódicos de primeira linha, que são os que realmente importam. Resultado: multiplicam-se irrelevâncias pseudoeruditas. Pior ainda: está se formando no País uma geração de burocratas da pesquisa, mais preocupados em gerar os “pontinhos” mencionados por Prochno do que em produzir conhecimento de valor. Estamos nutrindo um grupo frágil, cavernícola, incapaz de entender e explicar o mundo real. Nas escolas brasileiras, a sigla Capes, independentemente dos méritos da instituição, converteu-se em um ser mítico, usualmente citado para validar o status quo. Discute-se cada vez mais como conseguir os “pontinhos” e cada vez menos o que pesquisar e como pesquisar.

O debate convocado por Prochno não é novo ou apenas local. A irrelevância da área acadêmica de Administração tem sido alvo de avaliações críticas há bastante tempo e nos mais diversos rincões. A academia brasileira de Administração vem mudando, mas segue rumo e ritmo ditados por interesses próprios, alheia às necessidades do País e ao contexto internacional. A soma de duas doses de boas intenções com três doses de interesse próprio e uma dose de burocracia kafkiana está a perpetuar um sistema ineficaz e caro, que sobrevive iludido por índices fictícios de produtividade. Sistemas autogeridos, como se sabe, podem se tornar extremamente resistentes a mudanças. Resta aos pesquisadores locais a opção de se submeterem à lógica dos pontinhos ou procura-rem saídas pessoais, eventualmente por meio de um aeroporto, como fez o próprio Prochno.

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Blog de Ricardo Noblat: colunista do jornal O Globo com notícias sobre política direto de Brasília - Ricardo Noblat: O Globo

Blog de Ricardo Noblat: colunista do jornal O Globo com notícias sobre política direto de Brasília - Ricardo Noblat: O Globo: "Lula diz que não perdeu nada por não ler jornais

Folha.com

Em entrevista à TV Brasil, na noite desta quarta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que não perdeu nada por deixar de ler jornais e revistas durante seu mandato. Ele voltou a afirmar que a leitura matinal dos jornais lhe dá azia. Em entrevista no ano passado à revista Piauí, Lula disse que não lia notícias para não ter problemas no fígado.

'Tomei a atitude de não ficar com a raiva que eles [imprensa] pensam que eu vou ficar (...). Pensam que eu vou ler, vou ficar com azia, disse ao [ministro da Comunicação], Franklin [Martins] 'vou parar de lê-los, não vou ficar com azia. E não perdi nada', disse o presidente à TV Brasil.

Lula disse que a mídia 'exagera' e que faz denúncias muitas vezes sem provas. Por isso, afirmou, acha necessária a criação de mecanismos de controle da imprensa.

'Se for ver algumas manchetes dos jornais, esse governo não existiu (...). A imprensa se acha onipotente e que pode criticar todo mundo e eu não posso dizer que está errado (...) Responsabilidade vale para o presidente, jornalista e dono de jornal. Não posso dizer coisas sem ter que provar nada', disse.

Lula reclamou das cobranças da imprensa pela demissão de ministros e diretores de estatais ligados a escândalos de corrupção. Disse que é preciso dar chance de defesa.

'Quando tem denúncia, querem que eu mande embora logo. Sou contra a pena de morte, tem que esperar se explicar. Como alguém aceitaria trabalhar comigo se eu demitisse na primeira denuncia? É um jeito humano de me comportar, não sou hipócrita. A pessoa que cometeu erro tem chance de se recuperar. Agora, quando implica em criar confusão...', disse.

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Folha de S.Paulo - Rubem Alves: O silêncio - 28/12/2010

Folha de S.Paulo - Rubem Alves: O silêncio - 28/12/2010: "Parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia. Tenho horror a sermões. Mas me conformei

O VENTO FRIO, aos golpes, anunciava que o inverno estava se aproximando. Nuvens cinzentas cobriam os Alpes, navios que navegavam velozes. Era um velho mosteiro de freiras que praticavam o silêncio, costume abençoado que libertava as pessoas da obrigação de conversar com os vizinhos às mesas de refeições. Conversar por delicadeza quando não se quer falar e não se tem sobre o que falar é uma maldição.
Hóspede naquele mosteiro, eu deveria obedecer aos horários e participar dos eventos. Fui, então, informado de que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 6 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci. Tenho horror a sermões. Mas me conformei.
O santuário era um velho celeiro de madeira hexagonal, muito grande e escuro, sem janelas. Os arquitetos, para por luz nas sombras, abriram buracos nas paredes de madeira, cobrindo-os com vidros coloridos. A luz do sol, entrando pelos orifícios e atravessando os vidros coloridos, faziam desenhos no espaço vazio, desenhos que se deslocavam à medida em que o sol caminhava pelo céu.
Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo, ao estilo da arte bizantina.
Uns poucos bancos arranjados em 'U' definiam um espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio.
Cheguei pontualmente. Havia umas poucas pessoas. Os mosteiros não são lugares que atraiam turistas. Fiquei à espera do início da liturgia, que deveria iniciar-se suiçamente ao repicar dos sinos às 6 da manhã. Os sinos repicaram, mas a liturgia não começou.
Como nada acontecia, nenhuma reza, nenhum hino, nenhuma leitura bíblica, pus-me a examinar o espaço e as luzes que se entrecruzavam. O exercício de simplesmente ver tem o efeito de fazer parar o pensamento. Tornamo-nos só olhos. Alberto Caeiro já dizia que 'pensar é estar doente dos olhos...' Os pensamentos, produtos internos da cabeça, são perturbações que distorcem a pureza da visão.
Aí, ao misticismo do ver seguiu-se o misticismo do ouvir. O vento descia furioso das montanhas, em golpes, lufadas que torciam a estrutura de madeira, provocando aqueles ruídos típicos de navios à vela batidos pelo vento.
Ao lado do santuário havia uma plantação de macieiras nuas -o vento havia arrancado suas folhas todas e somente seus galhos pelados ficaram. Quando o vento sacudia a galharia era como se houvesse um mar enraivecido quebrando ondas. Aí os sons e as cores começaram a invocar poemas ancestrais.
'E a terra era um abismo sem forma e o vento de Deus soprava violentamente sobre a superfície das águas... E disse Deus: 'Haja luz...''
E aí meus pensamentos foram possuídos pela poesia.
Mas e a liturgia? Só depois de 20 minutos é que eu percebi que tudo já se iniciara 20 minutos antes. A liturgia era o silêncio.

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