sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Santayana e os espinhos sangrentos da “primavera árabe

Santayana e os espinhos sangrentos da “primavera árabe” | TIJOLAÇO



É longo como uma aula.


E é cheio de conteúdo como seria uma aula magnífica.


Poucas vezes pôde-se ler, em português, uma análise mais lúcida do
que está acontecendo no planeta, nesta  “guerra ao terror” que, afinal,
transformou o terror em algo quase onipresente no cenário mundial.


Mas o terror e os protestos contra o terror, como quase tudo neste mundo desigual não é igual entre os homens.


E como quase tudo neste planeta, é criado e manipulado.


Tomo emprestada, portanto, a grande lição de Santayana e a transmito
aos leitores, num período em que minha situação pessoal não me tem
permitido escrever com regularidade.


O terror, o Ocidente e a semeadura do caos

Há alguns dias, terroristas franceses, ligados, aparentemente, à
Al Qaeda, atacaram a redação do jornal satírico parisiense Charlie
Hebdo, em represália pela publicação de caricaturas sobre o profeta
Maomé.



Doze pessoas foram assassinadas, entre elas alguns dos mais
famosos cartunistas e intelectuais do país, e dois cidadãos de origem
árabe, um deles, estrangeiro, que trabalhava há pouco tempo na
publicação, e um membro das forças de segurança que estava nas
imediações.



Logo em seguida, houve, também, outro ataque, a um supermercado
kosher na periferia de Paris, em que 4 judeus franceses e estrangeiros
morreram.



Dias depois, milhões de pessoas, e personalidades de vários
países do mundo, se reuniram nas ruas da capital francesa, para
protestar contra o atentado, e se manifestar contra o terrorismo e pela
liberdade de expressão.



Na mesma primeira quinzena de janeiro, explodiram carros-bomba, e
homens-bomba, também ligados a grupos radicais islâmicos, no Líbano
(Beirute), na Síria (Aleppo), na Líbia (Benghazi), e no Iraque
(Al-Anbar), com dezenas de mortos, em sua maioria civis.



Mas, como sempre, não seria normal esperar que algum destes fatos
tivesse a mesma repercussão do atentado em Paris, capital de um país
europeu, ou que a alguém ocorresse produzir cartazes e neles escrever Je
suis Ahmed, ou Je suis Ali, ou Je suis Malak, Malak Zahwe, a garota
brasileira, paranaense, de 17 anos, que morreu na explosão de um
carro-bomba, junto com mais 4 pessoas (20 ficaram feridas), no dia 2 de
janeiro, em Beirute.



No entanto, os homens, mulheres e crianças, mortos, todos os
dias, no Oriente Médio e no Norte da África, são tão frágeis e
preciosos, em sua fugaz condição humana, quanto os que morreram na
França, e vítimas dos mesmos criminosos, criados pela onda de
radicalização e rápida expansão do fundamentalismo islâmico, nos últimos
anos.



Raivosas, autoritárias, intempestivas, numerosas vozes se
alçaram, em vários países, incluído o Brasil, para gritar – em
raciocínio tão ignorante quanto irascível – que o terrorismo não tem que
ser “compreendido” e, sim, “combatido”.



Os filósofos e estrategistas chineses ensinam, há séculos, que
sem conhecê-los, não é possível vencer os eventuais adversários, nem
mudar o mundo.



Além disso, não podemos, por aqui, por mais que muitos queiram
emular os países “ocidentais”, em seu ardoroso “norte-americanismo” e
“eurocentrismo”, esquecer que existem diferenças históricas, e de
política externa, entre o Brasil, os EUA, e países da OTAN como a
França.



Podemos dizer que Somos Charlie, porque defendemos a liberdade e a
democracia, e não aceitamos que alguém morra por fazer uma caricatura,
do mesmo jeito que não podemos aceitar que uma criança pereça
bombardeada pela OTAN no Afeganistão ou na Líbia, ou porque estava de
passagem, no momento em que explodiu um carro-bomba, por um posto de
controle em Aleppo, na Síria.



Mas é preciso lembrar que, ao contrário da França, nunca
colonizamos países árabes e africanos, não temos o costume de fazer
charges sobre deuses alheios em nossos jornais, não jogamos bombas sobre
países como a Líbia, não temos bases militares fora do nosso
território, não colaboramos com os EUA em sua política de expansão e
manutenção de uma certa “ordem” ocidental e imperial, e, talvez, por
isso mesmo – graças a sábia e responsável política de Estado, que inclui
o princípio constitucional de não intervenção em assuntos de outros
países – não sejamos atacados por terroristas em nosso território.



As raízes dos atentados de Paris, e do mergulho do Oriente Médio
na maior, e, com certeza, mais profunda tragédia de sua história, não
está no Al Corão ou nas charges contra o Profeta Maomé, embora estas
últimas possam ter servido de pretexto para ataques como o que ocorreu
em Paris.



Elas começaram a se tornar mais fortes, nos últimos anos, quando o
“ocidente”, mais especificamente alguns países da Europa e os EUA,
tomaram a iniciativa de apoiar e insuflar, usando também as redes
sociais, o “conto do vigário” da Primavera Árabe em diversos países, com
a intenção de derrubar regimes nacionalistas que, com todos os seus
defeitos, tinham conquistado certo grau de paz, desenvolvimento e
estabilidade para seus países nas últimas décadas.



Inicialmente promovida, em 2011, como “libertária”,
“revolucionária”, a Primavera Árabe iria, no curto espaço de três anos,
desestabilizar totalmente a região, provocar massacres, guerras civis,
golpes de Estado, e alcançar, por meio da intervenção militar direta e
indireta da OTAN e dos EUA em vários países, a meta de tirar do poder, a
qualquer custo, regimes que lutavam para manter um mínimo de
independência e soberania em suas relações com os países mais ricos.



Quando os EUA, com suas “primaveras” – que não dão flores, mas
são fecundas em crimes e cadáveres – não conseguem colocar no poder um
governo alinhado com seus interesses, como na Ucrânia e no Egito, jogam
irmão contra irmão e equipam com armas, explosivos, munições,
terroristas, bandidos e assassinos para derrubar quem estiver no comando
do país.



O objetivo é destruir a unidade nacional, a identidade local, o
Estado e as instituições, para que essas nações não possam, pelo menos
durante longo período, voltar a organizar-se, a ponto de tentar
desafiar, mesmo que em pequena escala, os interesses norte-americanos.



Foi assim que ocorreu com a intervenção dos EUA e de aliados
europeus como a Itália e a França – contra a recomendação de Brasil,
Rússia, Índia e China, no Conselho de Segurança da ONU – no Iraque, na
Líbia e na Síria.



Durante décadas, esses países – com quem o Brasil tinha, desde os
anos 1970, boas relações – viveram sob relativa estabilidade, com a
economia funcionando, crianças indo para a escola, e diferentes etnias,
religiões e culturas, dividindo, com eventuais disputas, o mesmo
território.



Estradas, rodovias, sistemas de irrigação, foram construídos –
também com a ajuda de técnicos, operários e engenheiros brasileiros –
com os recursos do petróleo, e países como o Iraque chegavam a importar
automóveis, como no caso de milhares de Volkswagens Passat fabricados no
Brasil, para vender aos seus cidadãos de forma subsidiada.



Na Líbia de Muammar Kadafi, segundo o próprio World Factbook da
CIA, 95% da população era alfabetizada, a expectativa de vida chegava,
para os homens, segundo dados da ONU, a 73 anos, e a renda per capita e o
IDH estavam entre os maiores do Terceiro Mundo, mas esses dados nunca
foram divulgados normalmente pela imprensa “ocidental”.



Pode-se perguntar a milhares de brasileiros que estiveram no
Iraque, que hoje têm entre 50 e 70 anos de idade, se, naquela época,
sunitas e xiitas se matavam aos tiros pelas ruas, bombas explodiam em
Basra e Bagdá todos os dias, como explodem hoje, a qualquer momento,
também em Trípoli ou Damasco, ou milhares de órfãos tentavam atravessar
montanhas e rios sozinhos, pisando nos restos de outras crianças, mortas
em conflitos incentivados por “potências” estrangeiras, ou tentavam
sobreviver caçando, a pedradas, ratos por entre escombros das casas e
hospitais em que nasceram.



São, curdos, xiitas, sunitas, drusos, armênios, cristãos maronitas, inimigos?


Antes, trabalhavam nos mesmos escritórios, viviam nas mesmas
ruas, seus filhos frequentavam as mesmas salas de aula, mesmo que eles
não tivessem escolhido, no início, viver como vizinhos.



Assim como no caso de hutus e tutsis em Ruanda, e em inúmeras
ex-colônias asiáticas e africanas, as fronteiras dos países do Oriente
Médio foram desenhadas, na ponta do lápis, ao sabor da vontade do
Ocidente, quando da partilha do continente africano por europeus,
obedecendo não apenas ao resultado de Conferências como a de Berlim, em
1884, mas também à máxima de que sempre se deve “dividir para comandar”,
mantendo, de preferência, etnias de religiões e idiomas diferentes
dentro de um mesmo território ocupado pelo colonizador.



Eram Saddam Hussein e Muammar Kadafi, ditadores? É Bashar Al Assad, um déspota sanguinário?


Quando eles estavam no poder, não havia atentados terroristas em seus países.


E qual é a diferença deles e de seus regimes, para os líderes e
regimes fundamentalistas islâmicos comandados por xeques e emires, na
mesma região, em que as mulheres – ao contrário dos governos seculares
de Saddam, Kadafi e Assad – são obrigadas a usar a burka, não podem sair
de casa sem a companhia do irmão ou do marido, se arriscam a ser
apedrejadas até a morte ou chicoteadas em caso de adultério, e não há
eleições, a não ser o fato de que esses regimes são dóceis aliados do
“ocidente” e dos EUA?



Se os líderes ocidentais viam Kadafi como inimigo, bandido,
estuprador e assassino, por que ele recebeu a visita do
primeiro-ministro britânico Tony Blair, em 2004; do Presidente francês
Nicolas Sarkozy – a quem, ao que tudo indica, emprestou 50 milhões de
euros para sua campanha de reeleição – em 2007; da Secretária de Estado
dos EUA, Condoleeza Rice, em 2008; e do primeiro-ministro italiano
Silvio Berlusconi em 2009?



Por que, apenas dois anos depois, em março de 2011 – depois de
Kadafi anunciar sua intenção de nacionalizar as companhias estrangeiras
de petróleo que operavam, ou estavam se preparando para entrar na Líbia
(Shell, ConocoPhillips, ExxonMobil, Marathon Oil Corporation, Hess
Company) esses mesmos países e os EUA, atacaram, com a desculpa de criar
uma Zona de Exclusão Aérea sobre o país, com 110 mísseis de cruzeiro,
apenas nas primeiras horas, Trípoli, a capital líbia, e instalações do
governo, e armaram milhares de bandidos – praticamente qualquer um que
declarasse ser adversário de Kadafi – para que o derrubassem, o
capturassem e finalmente o espancassem, a murros e pontapés, até a
morte?



Ora, são esses mesmos bandidos, que, depois de transformar, com
armas e veículos fornecidos por estrangeiros, a Líbia em terra de
ninguém, invadiram o Iraque e, agora, a Síria, e se uniram para formar o
Estado Islâmico, que pretende erigir uma grande nação terrorista
juntando o território desses três países, não por acaso os que foram
mais devastados e destruídos pela política de intervenção do “ocidente”
na região, nos últimos anos.



Foram os EUA e a Europa que geraram e engordaram a cobra que
ameaça agora devorar a metade do Oriente Médio, e seus filhotes, que
também armam rápidos botes no velho continente. Serpentes que, por
incompetência e imprevisibilidade, depois da intervenção na Líbia, a
OTAN e os EUA não conseguiram manter sob controle.



Os Estados Unidos podem, pelo arbítrio da força a eles concedida
por suas armas e as de aliados – quando não são impedidos pelos BRICS ou
pela comunidade internacional – se empenhar em destruir e inviabilizar
pequenas nações – que ainda há menos de cem anos lutavam
desesperadamente por sua independência – para tentar estabelecer seu
controle sobre elas, seu povo e seus recursos, objetivo que, mesmo
assim, nunca conseguiram alcançar militarmente.



Mas não podem cometer esses crimes e esses equívocos,
diplomáticos e de inteligência, e dizer, cinicamente, que o fizeram em
nome da defesa da Liberdade e da Democracia.



Assim como não deveriam armar bandidos sanguinários e assassinos
para combater governos que querem derrubar, e depois dizer que são
contra o terrorismo que eles mesmos ajudaram a fomentar, quando esses
mesmos terroristas, além de explodir bombas e matar pessoas em Bagdá,
Damasco ou Trípoli, todos os dias, passam a fazer o mesmo nas ruas das
cidades da Europa ou dos próprios Estados Unidos.



O “terrorismo” islâmico não nasceu agora.


Mas antes da balela mortífera da Primavera Árabe, e da Guerra do
Iraque, que levou à destruição do país, com a mentirosa desculpa da
posse, por Saddam Hussein, de armas de destruição em massa que nunca
foram encontradas – tão falsa quanto o pretexto do envolvimento de Bagdá
no ataque às Torres Gêmeas, executado por cidadãos sauditas, e não
líbios, sírios ou iraquianos – não havia bandos armados à solta,
sequestrando, matando e explodindo bombas nesses 3 países.



Hoje, como resultado da desastrada e criminosa intervenção
ocidental, o terror do Estado Islâmico, o ISIS, controla boa parte dos
territórios e da sofrida população síria, iraquiana e líbia, e, a partir
deles, está unindo suas conquistas em torno da construção de uma nação
maior, mais poderosa, e extremamente mais radical do ponto de vista da
violência e do fundamentalismo, do que qualquer um desses países jamais o
foi no passado.



O ataque terrorista à redação e instalações do semanário francês
Charlie Hebdo, e do Mercado Kosher, em Vincennes, Paris, foram crimes
brutais e estúpidos.



Mas não menos brutais, e estúpidos, do que os atentados
cometidos, todos os dias, contra civis inocentes, entre muitos outros
lugares, como a Síria, o Iraque, a Líbia, o Afeganistão.



Quem quiser encontrar as sementes do caos que também atingiram,
em forma de balas, os corpos dos mortos do Charlie Hebdo poderá
procurá-las no racismo de um continente que acostumou-se a pensar que é o
centro do mundo, e que discrimina, persegue e despreza, historicamente,
o estrangeiro, seja ele árabe, africano ou latino-americano; e no
fundamentalismo branco, cristão e rançoso da direita e da extrema
direita norte-americanas, cujos membros acreditam piamente que o Deus
vingador da Bíblia deu à “América” do Norte o “Destino Manifesto” de
dirigir o mundo.



Em nome dessa ilusão, contaminada pela vaidade e a loucura,
países que se opuserem a isso, e milhões de seres humanos, devem ser
destruídos, mesmo que não haja nada para colocar em seu lugar, a não ser
mais caos e mais violência, em uma espiral de destruição e de morte,
que ameaça a sobrevivência da própria espécie e explode em ódio,
estupidez e sangue, como agora, em Paris, neste começo de ano.

Quem sai no retrato

Quem sai no retrato -| Observatório da Imprensa | Observatório da Imprensa -



Os jornais de quinta-feira (22/1) refletem uma circunstância
corriqueira na relação da imprensa com o poder político e reproduzem o
estado de guerra que domina o ambiente midiático. As manchetes e outros
títulos de destaque nas primeiras páginas procuram exacerbar as
dificuldades da economia nacional, ao mesmo tempo em que tentam colocar o
problema de abastecimento de água em São Paulo na conta das mudanças
climáticas.
O conjunto de notícias e opiniões que os diários apresentam como a
síntese do período induz o leitor a acreditar que o Brasil é um comboio
em direção ao abismo, e que o condutor, o ministro da Fazenda Joaquim
Levy, está tomando as providências para reduzir a velocidade e desviá-lo
de volta para o trilho do desenvolvimento. A presidente da República,
responsável pela estratégia que o ministro deve administrar, é citada
quase exclusivamente no meio de declarações sobre o escândalo da
Petrobras.
Há espaço, ainda, para a fotografia do presidente reeleito da Bolívia,
Evo Morales, envergando a bata tradicional na cerimônia indígena que
antecede sua posse. Com exceção do Estado de S. Paulo, os jornais
expõem na primeira página a imagem de Morales junto a xamãs nativos,
acompanhada de textos que mal dissimulam o preconceito. No Globo, o título do conjunto é: “Dom Evo I”. Na Folha de S.Paulo, o título chega próximo da zombaria: “Pelos poderes de Evo”, diz o jornal paulista.
A imprensa não suporta essa coisa de indígena fora de reservas,
ocupando palácio de governo e resolvendo problemas centenários de seus
países.
Como se vê, há uma série de elementos a serem observados nas escolhas
dos editores. Um dos aspectos mais interessantes é o posicionamento que a
imprensa faz dos principais protagonistas da cena pública.
Evo Morales, que vai para seu terceiro mandato com um histórico de
êxitos na recuperação da economia e da autoestima dos bolivianos, é
retratado como uma aberração excêntrica, numa América Latina cuja elite
se imagina europeia. A presidente do Brasil vira personagem secundária
na crônica do poder. Por outro lado, o governador de São Paulo,
responsável direto pela crise que ameaça o bem-estar de milhões de
cidadãos, é retirado de cena quando deveria estar respondendo perguntas
incômodas, porém cruciais.
Racionamento de fato
Se a imprensa aprova as medidas anunciadas pelo governo federal, o
destaque vai para o ministro da Fazenda. Se a imprensa se vê na
contingência de reconhecer o descalabro na gestão dos recursos hídricos e
no sistema de distribuição de energia em território paulista, o foco
vai para auxiliares do segundo ou terceiro escalão. O governador Geraldo
Alckmin aparece apenas para criticar a empresa responsável pela gestão
da energia, AES Eletropaulo, numa clara manobra para criar um novo foco
de atenção e desviar do Palácio dos Bandeirantes o olhar crítico do
público.
O isolamento da presidente Dilma Rousseff no noticiário sobre medidas
econômicas (que a imprensa apoia) vem acompanhado de comentários que
amplificam supostas reações de dirigentes de seu partido às medidas
anunciadas pelo ministro da Fazenda. Assim, o leitor é induzido a pensar
que Joaquim Levy conduz a economia à revelia da presidente e contra a
orientação do partido que a reconduziu ao poder.
No caso paulista, quem vai para a frente da batalha comunicacional é o presidente da Sabesp, Jerson Kelman, que em artigo na Folha de S.Paulo
tenta convencer o cidadão de que não há racionamento de água, mas pode
vir a acontecer. Aproveita para reconhecer que a principal causa da
crise hídrica é a fartura de vazamentos na tubulação. São 64 mil
quilômetros de tubos enterrados sob o asfalto da região metropolitana,
uma extensão correspondente a uma volta e meia em torno do planeta.
O presidente da Sabesp só não explica por que seu chefe, o governador
Geraldo Alckmin, não exigiu que a empresa corrigisse essa deficiência
desde a primeira vez que ocupou o Palácio dos Bandeirantes, em 2001. E a
Folha de S.Paulo esquece que publicou no dia 12 de outubro de 2003, um domingo (ver aqui),
uma reportagem na qual alertava para o fato de que, se nada fosse feito
para reduzir as perdas, a região metropolitana só teria água até o ano
de 2010.
Nada foi feito. Tudo que sai dos mananciais do sistema Cantareira se
perde nos vazamentos. A Sabesp raciona a água, a imprensa faz o
racionamento dos fatos.
Leia também
Um caso de simpatia quase amor – L.M.C.

Às vezes você tem que ouvir o premiê da China para entender a economia do Brasil

Às vezes você tem que ouvir o premiê da China para entender a economia do Brasil



Às vezes você tem que ouvir o premiê da China para entender a economia do Brasil




Postado em 22 jan 2015

É extraordinário.


Às vezes você tem que ouvir o premiê da China para entender a
economia do Brasil, tamanha a carga de má informação e análise
tendenciosa da mídia brasileira.


Em Davos, o premiê chinês Li Keqiang definiu falou sobre a
desaceleração de seu país. Nos anos do milagre chinês, o crescimento
bateu em 14% ao ano.


Para 2015, a  expectativa é 7%. O universo treme, hoje, diante do
fantasma de uma China sem vigor suficiente para empurrar a economia
mundial.


“O arrefecimento da China é parte do ajuste da economia mundial.”


Troque a China pelo Brasil e você terá o diagnóstico da economia nacional.


É uma verdade simples e incontestável: o arrefecimento do Brasil é parte do ajuste da economia mundial.


Mas quantas vezes você viu isso?


Ao longo da campanha, com seu peculiar cinismo demagógico, Aécio disse copiosas vezes o contrário.


Era como se o Brasil fosse um caso isolado de baixo crescimento numa economia global intrepidamente aquecida.


Nesta mistificação, Aécio recebeu a contribuição milionária de colunistas econômicos como Míriam Leitão e Carlos Sardenberg.


Gosto de dizer que um dos propósitos do jornalismo é jogar luzes onde
existem sombras. O que o jornalismo econômico fez foi o inverso: mais
sombras onde já havia sombras criadas por Aécio.


Não se trata de negar erros que possam ter sido cometidos na política
econômica. Mas de assentar o debate na base a partir da qual a
discussão pode ficar séria: a economia mundial vive desde 2008 uma crise
séria, e o Brasil é parte do todo.


Num primeiro momento, depois de 2008, os países emergentes pareceram a
salvação do mundo. Mas com o correr do tempo ficou claro que não era
bem assim.


Também os emergentes passaram a sofrer: China, Brasil, Índia e Rússia.


Na raiz da crise iniciada em 2008 estava a ressaca do thatcherismo, a
doutrina conservadora da premiê britânica Margaret Thatcher.


Moda nos anos 1980, e copiado no Brasil na década seguinte por FHC, o
thatcherismo defendia coisas como a desregulamentação do mercado
financeiro.


Entregues à própria ganância, os grandes bancos do mundo foram fazendo operações cada vez mais arriscadas.


Uma hora a realidade se impôs e a festa acabou.


A quebra espetacular e em dominó de muitos daqueles bancos foi a senha para a crise que pôs de joelhos a economia global.


No Brasil, a ortodoxia thatcherista ressurgiu no debate graças a Armínio Fraga, o ex-futuro ministro da economia de Aécio.


Fraga é Thatcher desde antes de nascer.


O eleitorado disse não ao thatcherismo. Disse 54 milhões de vezes
não. Mas Dilma parece não ter achado bem isso, ainda que vitoriosa com
uma campanha que negava a ortodoxia, e colocou Joaquim Levy para
comandar a economia.


Este é um bom debate: por que essa concessão ao conservadorismo econômico batido nas urnas?


Mas, enquanto for invocada a falácia do
“Brasil-estagnado-num-mundo-próspero-e-feliz”, estaremos condenados a
debates que apenas emburrecem os que os levam a sério.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Demorou ...

Demorou para Francisco ser atacado pela imprensa

Demorou para Francisco ser atacado pela imprensa

 Postado em 17 jan 2015

 por : Paulo Nogueira



 Francisco está certo e eles errados

Francisco está certo e eles errados

Finalmente a mídia começou a criticar o Papa Francisco.

Demorou, visto que o papa representa o exato oposto daquilo pelo que se batem os donos das grandes empresas jornalísticas.

Desde o primeiro momento de seu pontificato, Francisco tomou o partido dos pobres. Em quase todos os seus pronunciamentos, ele investe contra a desigualdade social.

Francisco captou magistralmente o Zeitgeist, o espírito do tempo. Com sua pregação vigorosa e ainda assim bem humorada pela igualdade ele retirou o Vaticano das sombras da irrelevância em que sucessivos papas inoperantes o atiraram.

O motivo encontrado pela mídia para atacá-lo foram suas declarações sobre os limites da liberdade de expressão, no rastro do caso do jornal Charlie Hebdo.

Evidentemente, Francisco está certo e seus críticos errados.

A liberdade de expressão tem limites. Isso não significa aprovar o massacre dos cartunistas, como aliás fez questão de dizer Francisco.

Mas que há limites, isso é inegável.

Há cem anos, aproximadamente, o juiz americano Oliver Wendell Holmes, da Suprema Corte, colocou isso brilhantemente.

Você não pode gritar fogo num auditório cheio e depois alegar liberdade de expressão, escreveu Holmes. (Outra frase de Holmes que colide com nossos barões da sonegação: “Imposto é o preço que pagamos por uma sociedade civilizada.”)

Hoje, na maior parte dos países ocidentais desenvolvidos, você pode ser enquadrado como defensor do terrorismo caso diga ou escreva certas coisas.

Indo para o mundinho cotidiano das redações das companhias jornalísticas brasileiras, a liberdade de expressão de cada jornalista significa a concordância com a essência das ideias dos donos.

É uma regra não escrita, e não admitida pelos colunistas, mas é perfeitamente entendida, respeitada, acatada e seguida.

É o chamado colunismo patronal, ou chapa branca, ou pelego. Ironicamente, os colunistas patronais são aqueles que mais lançam acusações contra jornalistas independentes do mundo digital.

É como se estivessem olhando o espelho. Sua função é defender os interesses econômicos dos patrões e amigos.

O papa já manifestou desprezo por este tipo de mídia. Ele sabe quanto ela contribuiu para a desigualdade econômica, da qual tira um proveito indecente.

Francisco é uma voz poderosa contra tudo isso. Por isso é atacado. Quanto mais ele for atacado, melhor ele estará fazendo o precioso trabalho de combater a iniquidade que envergonha o Brasil e, de forma geral, a humanidade.

Que venham mais pancadas contra ele por parte dos colunistas patronais, portanto.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Por que há tragédias e mortes que dão audiência e outras não? -

Por que há tragédias e mortes que dão audiência e outras não? - Cotidiano - Cotidiano

Por que há tragédias e mortes que dão audiência e outras não?

Leonardo Sakamoto

Mantive,
durante anos, na sala do meu escritório uma capa da revista Time
retratando centenas de corpos espalhados no chão de Ruanda, vítimas do
genocídio perpetrado pela maioria hutu contra a minoria tutsi em 1994.
Nela, pessoas procuram por parentes e aves procuravam por almoço.

O
título era algo como “Este é o início dos últimos dias, o apocalipse'' –
talvez uma tentativa de chamar a atenção dos Estados Unidos e Europa
para o massacre através de um elemento simbólico que está no alicerce de
sua fundação: o julgamento final do Novo Testamento.

Mas não era o
começo do fim, apenas mais um expurgo – tanto que, após os 800 mil
mortos em Ruanda, tivemos tempo de matar mais 400 mil no Sudão.

Essa
capa era um lembrete para me empurrar para fora da zona de conforto. E
também uma verdade incômoda. Em 1998, quando estava cobrindo a guerra
pela independência de Timor Leste, onde o exército indonésio matou – de
bala ou de fome – mais de 30% da população da ilha, um vendedor me
disse, ao saber de onde eu era, que ficava feliz pelo Brasil, visto como
um grande irmão lusófono, apoiar a luta.

Não tive coragem de
dizer a ele que o meu país nem sabia de sua existência e que se aqueles
mauberes pardos vivessem ou morressem, praticamente nenhuma ruga de
preocupação seria produzida. Duvido que entre vocês, leitores, muitos
tenham ouvido falar do Massacre do Cemitério de Santa Cruz, em Dili,
capital de Timor. Imagine quantos massacres mais, mundo afora, acontecem
invisíveis.

Por que relatamos tão pouco mortes nesses locais? A
discussão faz parte de alguns debates acalorados em jornalismo. Isso é
de interesse público? Do nosso público? As pessoas se interessam em
saber sobre isso? Como as pessoas vão se interessar sobre isso se não as
informamos com a devida importância? É possível ter opinião formada
(não preconceito de internet) sobre aquilo do qual nunca se ouviu falar?
Enfim, “Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque
vende mais''?

Some-se a isso alguns elementos. Na teoria, a
Declaração Universal dos Direitos Humanos diz que todos temos direito à
dignidade por termos nascido humanos. Na prática, a vida de não brancos
vale menos que a vida de brancos. E a vida de ricos vale mais que a vida
de pobres. E as das mulheres menos que as dos homens. Simples assim. Se
essa vida for de religião que cause estranhamento aos olhos ocidentais,
pior ainda.

Outro elemento é a justificativa cultural, de que
mortes em Nova Iorque, Roma, Paris e Londres causam mais impacto porque
estão mais “próximas'' de nós. Elas aconteceriam no mesmo “caldo
cultural'' em que estamos inseridos, com o qual temos uma histórica
troca e convivência mútua e através do qual construímos nossa sociedade.

Sabemos
quem são e como vivem e trabalham os moradores dessas cidades. E, a
partir desse conhecimento, geramos empatia: nos projetamos no outro,
entendemos a sua dor e conseguimos até senti-la.

Sim, mas se
dividimos elementos simbólicos com a “metrópole'' também temos elos com
as outras “colônias'', que passaram por processos históricos semelhantes
aos nossos e, como nós, têm que pagar, até hoje, seus tributos. Seus
problemas econômicos e sociais são semelhantes e, não raro, suas dores
também. Mas damos as costas ao Sul e nos projetamos apenas ao Norte,
sonhando, talvez um dia, em sermos reconhecidos como parte da mesma
civilização ocidental do qual não fazemos parte.

Não é inato um
jovem brasileiro se interessar mais por Miami do que por La Paz. Ele
aprende isso. Da mesma forma que aprende que a África, boa parte da
América Latina e o Sul da Ásia são locais em que a vida não vale muita
coisa, em que selvagens se matam desde sempre, como se as marcas da
colonização e os processos políticos e econômicos globais, somados à
ignomínia dos seus líderes locais, não valessem de nada.

Se eles tivessem oportunidade de conhecer o outro, as coisas seriam diferentes.

Uma
menina-bomba, com cerca de dez anos de idade, teria se explodido, neste
sábado (10), levando 20 pessoas consigo em um mercado na cidade de
Maiduguri, norte da Nigéria, área de atuação do Boko Haram – milícia
fundamentalista que deturpa os ensinamentos do islamismo em sua luta por
poder. Ganhou pouca atenção no noticiário.

Da mesma forma, provavelmente você nunca ouviu falar de Ricky.

Tive
o prazer de conhecê-lo há alguns anos. Sua história é incrível. Ele foi
raptado e escravizado quando criança pelo Exército de Resistência do
Senhor, em Uganda – um grupo fundamentalista que deturpa os ensinamentos
do cristianismo em sua luta por poder, liderado por Joseph Kony, que se
dizia porta-voz de Deus. Os meninos passavam por lavagem cerebral para
se tornar soldados e, as meninas, para servir de escravas sexuais. Ele
conseguiu fugir, graduou-se e criou a Friends of Orphans, uma
organização não-governamental que luta para reintegrar esses jovens à
sociedade.

Disse-me que não há como alguém conhecer uma criança
que foi escravizada para matar e morrer e aquilo não mudar a vida dessa
pessoa definitivamente. Porque o relato levaria a perceber que todos
aqueles que matam em nome de Alá ou Jeová, na verdade, não acreditam
neles. E que mesmo esses “combatentes'' não são bestas-feras, mas
pessoas transformadas em máquinas de guerra. Às vezes em nome daquilo
que enche o tanque de nossos carros, às vezes em nome daquilo que brilha
em dedos e pescoços.

Entramos na rede e, em um pé de página, a
Anistia Internacional denuncia que os açougueiros do Boko Haram podem
ter matado centenas, em sua maioria mulheres, crianças e idosos, na
Nigéria. Falta braços para apurar e checar a informação ocupados com
outros assuntos . Alguns importante e que também são de interesse
público. Outros, nem tanto.

Temos afinidade com aquilo que nos é
mais próximo ou que desperta determinados sentimentos. Entendo que a
libertação de 150 escravos que sangram na Amazônia para produzir boi que
muitos nem sabem como vira bife choca menos que o resgate de um jovem
sequestrado em nossa cidade.

Mas todos sabem o que é uma criança. É
duro, portanto, imaginar que não desperte sentimentos. Talvez isso
ocorra por banalização dessa violência. Talvez por um ato de fuga
consciente ou inconsciente diante da crença na incapacidade de fazer
qualquer coisa para resolver o problema – mesmo que a indignação com a
história de vida daquela criança africana possa te levara a ajudar na
melhoria da qualidade de vida das crianças que estão ao seu lado.

Talvez
a resposta resida no fato de que uma criança nua, exausta e com olhar
perdido numa cama na beira de estrada depois de uma hora de sexo forçado
ou coberta de sangue após um dia de confronto armado ou explodida em
mil pedaços após um ataque suicida não é uma coisa fofa de se ver. Pelo
contrário, para muitos é tão repugnante a ponto de transferirem a culpa
pelo ocorrido para a própria vítima que “se deixou ficar naquela
situação deplorável''.

A discussão não é apenas sobre a distante
África, mas também sobre as periferias de nossas cidades que ficam logo
ali. Em São Paulo, no Rio e em tantas outras, há uma matança de jovens,
negros e pobres – segundo as estatísticas do poder público. Mas desde
que seu sangue não respingue nos outros, tudo bem.

Não estou
comparando tragédias pelo número de mortes, uma vez que uma única morte
pode compor uma tragédia. Mas a indignação por algo não exclui a
indignação por outra coisa. E jogar para baixo do tapete os incômodos
que também dizem respeito a todos nós, não fazem eles desaparecerem.

Portanto,
busquem informação na internet para além de sua zona de conforto. E
exijam de nós, jornalistas, que tenhamos coragem de oferecer
informação que as pessoas não querem ler a despeito da audiência, da
circulação e de outras formas de “medir'' o interesse público.

Por
fim, dei de presente a capa da revista para uma amiga que estava em
seus primeiros passos no jornalismo. Não que eu não precise mais do
lembrete, a ética é o exercício diário da memória. Mas aquilo é muito
forte para ficar na memória de uma pessoa só. Torço para que a geração
dela, inspirada em nossos erros e acertos, seja melhor que a nossa.

Em tempo: Há boas coberturas com olhar brasileiro sobre essas regiões do planeta. Sem demérito aos demais colegas, destaco as reportagens sobre a epidemia de ebola em Serra Leoa, tocadas pela repórter especial Patrícia Campos Mello e pelo repórter fotográfico Avener Prado, ambos da Folha de S.Paulo.

Protegidos por Deus?

EUA e Israel: protegidos por Deus? — CartaCapital

Entrevista

EUA e Israel: protegidos por Deus?

O elo bíblico entre EUA e Israel explica a ligação entre Washington e
Tel-Aviv. A previsível vitória da direita nas próximas eleições
americanas reforça a perspectiva

por Gianni Carta



publicado
15/12/2014 06:21


Inspirados pelo livro do Êxodo, os protestantes
americanos cimentaram paralelos entre a fuga dos judeus do Egito e a
dos puritanos da Inglaterra. Na origem, a fundação da Igreja Anglicana
por Henrique VIII: pretendia casar-se com Ana Bolena, mas o divórcio lhe
era negado pela religião católica. Somente um século depois os
puritanos ingleses, inconformados com a criação forçada de uma igreja
que entendiam herética, partiram para a América do Norte. Em
Le Protestantisme Évangélique Nord-Américain en Mutation
(Publisud, 2014, 277 págs., 24 euros), o professor de história e
civilização americana Mokhtar ben Barka, da Universidade de
Valenciennes, contrapõe, talvez pela primeira vez de forma detalhada, a
diferença entre os evangélicos conservadores, eleitores de Jimmy Carter,
Ronald Reagan e George W. Bush, e os evangélicos de esquerda, eleitores
de Barack Obama em 2008. Os primeiros são conservadores teológica e
politicamente. Por sua vez, os evangélicos de esquerda são progressistas
do ponto de vista político, mas conservadores no que toca à teologia.
Obama foi o candidato ideal em 2008, após o fracasso total de W. Bush.
Resta saber, porém, se os evangélicos de esquerda terão algum peso na
próxima presidencial nos EUA. O balanço dos dois mandatos de Obama,
deixa claro Ben Barka, é bastante fraco.
CartaCapital:
Por que os Estados Unidos cultivam esse mito de ser um país abençoado
por Deus e, portanto, têm uma ligação com Israel? Além do Brasil, que
também é abençoado por Deus...
Mokhtar ben Barka: Essa
ligação com Israel tem uma explicação teológica, política e
estratégica. Para a direita evangélica, Israel sempre foi considerado
como parte do cenário do fim do mundo.
CC: O Apocalipse?
MBB:
Sim. Jesus vai voltar a Jerusalém. As batalhas do fim dos tempos, e o
combate final entre o bem e o mal, Armagedom, acontecerão lá. A vitória
será de Cristo. O que os evangélicos conservadores não dizem aos judeus é
que terão de se converter ao cristianismo, ou perecerão. No entanto, a
própria esquerda israelense se incumbe de colocar os crentes judeus a
par desse importante detalhe. A esquerda israelense, diga-se, é contra o
partido de direita Likud. Ao contrário do Likud e da direita
evangélica, a esquerda evangélica é favorável à paz entre israelenses e
palestinos. Portanto, posiciona-se contra os evangélicos conservadores. A
esquerda israelense tem ligações com a esquerda evangélica.
CC: E qual é o aspecto estratégico dessa visão de que os Estados Unidos são um país abençoado por Deus?
MBB: O acesso ao
petróleo no Oriente Médio, especialmente no Iraque e na Arábia Saudita.
Após a queda do Império Otomano no fim da Primeira Guerra Mundial, a
Grã-Bretanha e a França eram as duas potências dominantes. No entanto,
esses países já não tinham os meios para cuidar da região. Não fossem os
EUA, a União Soviética os substituiria. Os Estados Unidos preencheram o
vazio. E o argumento político dos EUA para apoiar Israel é de que é a
única democracia na região.
CC: Mas
quando Benjamin Netanyahu declara Israel Estado Judeu, nos perguntamos
se o premier não quer relegar árabes israelenses, um quarto da
população, a cidadãos de segunda classe.
MBB:
Isso é evidente. Segundo essa lógica, o cidadão árabe israelense se
torna de segunda classe. Essa é uma equação irrefutável e implacável.
Árabes israelenses são de fato excluídos.
CC: Essa medida parece tão arrogante quanto a crença de que os Estados Unidos são um país escolhido por Deus?
MBB:
É pretensão. Por que Deus deve abençoar os EUA? Dois: é arrogante dizer
“somos abençoados por Deus e, sendo assim, podemos impor nossos
valores”. Isso é chamado de “excepcionalismo americano”. É errado, é
estúpido. O problema dessa crença nos EUA é sua forte convicção. Remonta
ao século XVII, com a chegada dos primeiros puritanos. Tratava-se de
cristãos, perseguidos na Inglaterra, após o nascimento da Igreja
Anglicana. Assim, esses cristãos ao fugir da Inglaterra, comparavam-se
aos hebreus do Êxodo. Por isso os EUA são chamados de “a nação
escolhida”. Assim, os puritanos ingleses estabeleceram paralelos entre
eles e os hebreus, que, em busca da Terra Prometida, atravessaram o
Deserto do Sinai quando expulsos do Egito.
CC: A Bíblia é muito importante para compreender os Estados Unidos.
MBB: A
Bíblia e a religião têm importância essencial na compreensão e leitura
da história dos EUA. E, desse fundo puritano, nasce a ideia de que a
América, por ser uma nação escolhida, tem o dever de ser modelo para os
outros. Ler os discursos de George W. Bush é como ler os sermões dos
primeiros puritanos. Há uma semelhança extraordinária.
CC: De que forma os acontecimentos do século XX marcam o país?
MBB: Os
EUA são a única superpotência, após o colapso do comunismo. Eles são a
primeira potência militar, política e econômica. E a história lhes dá
razão, porque é preciso não esquecer: os EUA salvaram o mundo nas duas
guerras mundiais. Se eles não marcassem presença, não sei onde
estaríamos. Tudo isso reforçou essa noção de superioridade, de povo
excepcional. Mas será que a China em breve não assumirá a posição dos
EUA?
CC: No
seu livro, o senhor diz que os evangélicos se aproximaram de Israel
somente após a Guerra dos Seis Dias, em 1967. Motivo: foi o ano em que
Israel conquistou Jerusalém. Mas por que apenas em 1967, se levarmos em
conta que Israel e a Palestina são lugares bíblicos?
MBB: Para os
evangélicos americanos, a vitória era sinônimo de cumprir a profecia
bíblica sobre a vinda do Messias. Profecia presente no livro do
Apocalipse, no de Daniel, no de Ezequiel, onde jaz Gog e Magog, a
batalha entre as forças do bem e do mal, e a vitória do bem. Voltamos
sempre à Bíblia para dizer que essa vitória confirma a tendência e o
movimento rumo à vitória de Israel contra os árabes. Há sempre essa
transposição bíblica na prática. Trata-se de passos rumo ao fim dos
tempos, um cenário escatológico. A direita conservadora evangélica é
pessimista. Vamos para o fim do mundo, rumo à guerra, à morte. É um
cenário sombrio.
CC: A esquerda evangélica não é sombria.
MBB:
De fato, a perspectiva da esquerda evangélica é otimista. Falam em
progresso. Progressistas devem lutar, é preciso encontrar melhores
situações, temos de ajudar, curar. Jimmy Carter, em seu livro Palestine: Peace Not Apartheid,
quer colocar um fim a esse massacre: israelenses e palestinos precisam
chegar a um acordo. Para os conservadores, o conflito precisa piorar. O
fogo deve devorar tudo. Os conservadores evangélicos detestavam até o
ex-primeiro-ministro Ariel Sharon. Disseram que Deus o havia punido com
um AVC porque ele retirou colonos israelenses da Faixa de Gaza. Para
eles, qualquer resolução vai contra o cenário do fim do mundo.
CC: Barak
Obama parece acreditar na solução de dois Estados, mas não faz nada
contra a colonização da Cisjordânia. Foi diplomaticamente cauteloso por
ocasião do recente massacre de palestinos em Gaza. Por que não reagiu
durante as provocadoras visitas de políticos da legenda direitista Likud
na Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém?
MBB:
O conflito israelo-palestino é um dos pontos negros da presidência de
Obama. No início, queria agir. Conseguiu fazer Mahmoud Abbas, presidente
da Autoridade Palestina, e Ehud Olmert, então premier israelense,
dialogarem. No entanto, um grande problema para Obama foi a eleição logo
após a dele, de Netanyahu, este determinado a enfrentá-lo. O ódio entre
os dois homens causou o fracasso de Obama. Obama não pode fazer nada,
porque o Partido Republicano domina o Senado e o Congresso. Em termos de
política externa, o presidente americano tem mais poder. Mesmo assim,
suas iniciativas são bloqueadas pelos republicanos. A meu ver, Obama é
uma decepção. A política dele para o Oriente Médio é um fracasso total. E
fiquei surpreso após a absolvição de um policial branco em novembro que
matou Michael Brown, um adolescente afro-americano desarmado, em
Ferguson, no Missouri. Obama esteve completamente ausente. Há quem diga:
“Não é o papel do presidente estar presente em cada morte”. Mas existe
uma visibilidade mínima, um mínimo de testemunho.
CC: Por que essa ausência de Obama?
MBB: Outro ponto
fraco dele é não ser afro-americano ou branco. Isso lhe custou caro. Ele
não quis cair na armadilha de afro-americano de “movimento dos direitos
civis”, da década de 1960. Mas Obama também não é branco. Quando se
apresentou candidato presidencial, os afro-americanos não deram a mínima
para ele. Motivo? Não tinha antepassados escravos. Não pertencia à
comunidade negra. É um mestiço. Os afro-americanos o apoiaram mais
tarde. O fato de que ele não fez nada durante o evento Ferguson e outros
mostram que a sua posição é muito frágil.
CC: Mas o senhor diz que Obama tem as mãos amarradas.
MBB: Além da
oposição dos republicanos, do Tea Party, e de assuntos estratégicos,
econômicos e financeiros, ele lida com o lobby judaico. Nenhum candidato
pode fazer campanha sem um discurso ao Aipac. O Aipac é muito forte
financeiramente porque mobiliza o eleitorado judaico: 80% deles vão às
urnas. Além de ter se beneficiado do dinheiro do lobby
judeu, recebeu apoio de Wall Street. Por isso, Obama não foi capaz de
regular Wall Street. O fracasso do Partido Democrata na próxima eleição
presidencial é garantido
.
*Reportagem publicada originalmente na edição 830 de CartaCapital, com o título "Protegidos por Deus?"

Feliz ajuste fiscal — CartaCapital

Feliz ajuste fiscal — CartaCapital

Análise/Belluzzo

Feliz ajuste fiscal

A identidade fugidia do patrimonialismo no Brasil hoje pode ser desvendada na fiscalidade

por Luiz Gonzaga Belluzzo



publicado
11/01/2015 08:20

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, manifestou sua rejeição ao
patrimonialismo. O ministro utilizou o conceito para designar a
concessão de incentivos, subsídios e favorecimentos a determinados
setores da economia.


Na raiz da rejeição, está a concepção da economia competitiva:
povoado por indivíduos racionais e otimizadores, o mercado, sem favores
ou barreiras, tem a virtude de gerar os incentivos adequados ao
crescimento econômico e para a elevação do bem-estar da comunidade.
Nessa visão, mesmo com a economia resvalando para a recessão, o
equilíbrio intertemporal das contas públicas é condição para o
crescimento econômico saudável. É o que tenta há cinco anos a Europa da
senhora Merkel.


Vamos ao patrimonialismo. O leitor certamente conhece o livro de Raymundo Faoro, Os Donos do Poder,
uma aventura intelectual na busca do desvendamento das raízes
patrimonialistas da sociedade e do Estado no Brasil. O livro de Faoro
não é de fácil leitura. A obra não investiga apenas os caminhos e
descaminhos do patrimonialismo brasileiro. Avança, sim, na perquirição a
respeito das origens luso-colonial-mercantilistas do patrimonialismo
nativo. No fim do percurso encontra a encruzilhada weberiana: o
patrimonialismo tupiniquim junta-se ao fenômeno universal do
“patrimonialismo capitalista”.


O capitalismo realmente existente na Inglaterra liberal do século XIX
surgiu das entranhas dos privilégios mercantis. No século XVIII, às
vésperas da Revolução Industrial, diz Eric Hobsbawm, a Inglaterra era
comandada pela aristocracia enriquecida na esfera financeira e
mercantil. Prevaleciam os grandes comerciantes, banqueiros e negociantes
de dinheiro, concentrados em Londres. Os industriais manchesterianos
auferiam rendimentos muito inferiores àqueles obtidos pelos mercadores e
financistas. Ainda mais ricos e influentes do que os empresários da
indústria eram os que se valiam de privilégios e sinecuras: soldados,
magistrados, todos incluídos na rubrica de “offices in profit of the crown”.


Os privilégios sobreviveram à Revolução Industrial. Metamorfoseados
no poder da finança internacionalizada da City londrina, decretaram o
destino econômico da Inglaterra, logo suplantada pela escalada das
industrializações retardatárias. Os retardatários usaram e abusaram de subsídios e privilégios:  protecionismo nos Estados Unidos, dirigisme na França e íntimas ligações entre o chanceler Bismarck, a burocracia Junker e o banqueiro-lobista Bleichröder, na Alemanha.


No Brasil, o patrimonialismo capitalista vestiu muitas máscaras ao
longo da história, mas hoje sua identidade fugidia pode ser desvendada
na fiscalidade. Vamos enveredar pela estrutura tributária e de gasto
para entender o caráter regressivo e concentrador dos juros de agiota
sobre dívida pública.


Entre 1995 e 2011, o Estado brasileiro transferiu para os detentores
da dívida pública, sob a forma de pagamento de juros reais, um total
acumulado de 109,8% do PIB. Se avançarmos até 2014, essa transferência
de renda e riqueza chega a 125% do PIB. Isso significa atirar ao colo
dos detentores de riqueza financeira, ao longo de 19 anos, um PIB anual,
mais um quarto. É pelo menos curioso que os idealizadores do
“impostômetro” não tenham pensado na criação do “jurômetro”.


É possível alinhavar algumas cifras para apontar os perdedores e
ganhadores do jogo. Para tanto, vou recorrer ao excelente estudo da
professora Lena Lavinas,  A Long Way from Tax Justice: The brazilian case.


Nesse caso, como em outros, há brasileiros e brasileiros. Em 2011, a
carga tributária bruta chegou a 35,31% do PIB. No Brasil os impostos
indiretos, como o IPI e o ICMS, representam 49,22% do total da carga
tributária. Como se sabe, esses impostos incidem sobre os gastos da
população na aquisição de bens e serviços, independentemente do nível de
renda. Pobres e ricos pagam a mesma alíquota para comprar o fogão e a
geladeira, mas o Leão “democraticamente” devora uma fração maior das
rendas menores. Os chamados encargos sociais representavam 25,76% da
carga total e o ônus estava, então, distribuído entre empregados e
empregadores.


Já o Imposto de Renda contribui com parcos 19,02% para a formação da
carga total, enquanto os impostos sobre o patrimônio são desprezíveis,
sempre empenhados a beneficiar a riqueza imobiliária e financeira dos
mais ricos. As estimativas sobre a distribuição da carga tributária
bruta por nível de renda mostram que ,enquanto os que ganham até dois
salários mínimos recolhem ao Tesouro 53,9% da renda, os que ganham acima
de 30 mínimos contribuem com 29,0%. “A quem tem, mais se lhe dará, e
terá em abundância; mas, ao que quase não tem, até o que tem lhe será
tirado.” Feliz ajuste fiscal.

sábado, 10 de janeiro de 2015

O combate ao crime organizado nas demandas judiciais de saúde

O combate ao crime organizado nas demandas judiciais de saúde

O combate ao crime organizado nas demandas judiciais de saúde




            A denúncia recente de fraude em cirurgias para
implantação de próteses ortopédicas, jocosamente apelidada de “Máfia
Mais Próteses”, é mais um dentre inúmeros escândalos na saúde pública ao
longo de décadas.


            Reproduzimos abaixo trecho de relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) datado de 2013, que faz um alerta:





 “o Estado do Rio Grande do Sul lidera o ranking nacional de
judicialização da saúde pública, com 74 mil processos e 1.900 novas
ações ajuizadas todos os meses. “Dentre as demandas, é cada vez maior o
número de ações impetradas visando ao fornecimento de remédios
gratuitos. Por trás desse número expressivo, existiriam redes mafiosas
que promovem o uso irracional de medicamentos. "Nunca se tomou tanto medicamento desnecessário e em doses tão exageradas",
afirmou o assessor técnico da área de Saúde da [Federação das
Associações de Municípios do Rio Grande do Sul] FAMURS, Leonildo
Mariani, com base em dados da Organização Mundial da Saúde;


                   de acordo com um estudo da Procuradoria Geral do
Estado (PGE), 44% dos 128 mil atendimentos prestados pelo SUS no RS
foram realizados por força de decisão judicial. Entre os efeitos
negativos da judicialização da saúde está o aumento dos gastos públicos.
Foi citado como exemplo o município de Júlio de Castilhos, onde 300
ações representaram um custo de R$ 40 mil para a prefeitura. Com o mesmo
valor, o município poderia oferecer remédios para 14 mil pacientes por
meio da Farmácia Popular;



                   outro exemplo emblemático se refere a um único
remédio contra artrose que representou um gasto de R$ 2,4 milhões para o
governo gaúcho, que foi citado pelo Procurador da PGE Lourenço
Orlandini, segundo o qual "o juiz acaba liberando um medicamento sem eficácia comprovada e fora da lista oficial". Outra informação agrava ainda mais esse cenário: em outros casos, constatou-se que, após a compra, os remédios não são distribuídos por falta de procura dos pacientes [grifo nosso]. Em julho deste ano, o governo já contabilizava 28 mil caixas em estoque;


                   o alto índice de processos seria resultado da ação
de organizações criminosas, compostas por médicos, advogados,
empresários e até pacientes. "Há laboratórios que pressionam os pacientes a entrar na justiça para buscar um medicamento", alertou o Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado Pedro Poli;


                   segundo o Desembargador do Tribunal de Justiça
Rogério Leal, essas organizações constituem uma máfia da saúde pública, verbis:


                   "Criam-se demandas artificiais de medicamentos
por meio de ações judiciais para que determinadas pessoas repassem
esses medicamentos para uma rede de distribuição de produtos fármacos no
mercado negro."



                   a judicialização envolve outras áreas relevantes, como acesso a internações, cirurgias e consultas.(...)


                   essa matéria vem causando preocupação em nível
nacional, tanto que o Conselho Nacional de Justiça, por meio da
Resolução CNJ nº 107/2010, criou o Fórum Nacional do Judiciário para
monitorar as demandas de assistência à saúde. No âmbito desse Fórum,
foram instituídos Comitês Executivos Estaduais, constituídos por membros
das Justiças Federal e Estadual, dos Ministérios Públicos Federal e
Estadual e das Defensorias Públicas Federal e Estadual, por gestores da
área da Saúde e por representantes dos prestadores de serviços públicos e
privados e da sociedade civil;


            no Rio Grande do Sul foi firmado acordo de cooperação
técnica pela Defensoria Pública do Estado, pelo Ministério Público
Estadual, pela Secretaria de Saúde do Estado, pelo Tribunal de Justiça
do Estado, pela Procuradoria Regional da União – 4ª Região, pela
Procuradoria Geral do Estado, pela Federação das Associações de
Municípios do Estado e pelo Conselho Regional de Medicina do Estado. O
referido acordo visou estabelecer medidas que deem efetividade aos
ditames constitucionais, por meio da adoção de metodologia de
planejamento e gestão sistêmicas com foco na saúde.”





Consultas processuais nos sites dos Tribunais de Justiça comprovam a
existência de milhares de ações em primeira e segunda instância para
obrigar Estados e Municípios a fornecerem - geralmente em caráter de
urgência - medicamentos, suplementos nutricionais, próteses, cadeiras de
rodas e equipamentos médicos, ou a realizarem exames diagnósticos e
cirurgias de média e alta complexidade, além de internações em leitos de
UTI privados até surgir vaga num hospital do SUS.


O que pouca gente fica sabendo é o desfecho de muitas dessas ações.
Como “quem pode manda e quem tem juízo obedece”, a secretaria de saúde -
não raro após espernear na esfera administrativa e ter todos os
recursos negados pela Justiça - cumpre a sentença judicial, até sob pena
de multa pecuniária ou prisão do titular da pasta. Adquire com dinheiro
do povo o remédio ou outro item solicitado na ação. Porém, muitos
doentes e familiares nem vão buscar o produto, que acaba encalhado num
almoxarifado, e sequer respondem às convocações do serviço social.
Procurados, alguns vizinhos até informam que a família do paciente se
mudou para outro estado ou sumiu.


No site do TCU estão publicados diversos documentos de auditoria
apontando falhas no gerenciamento da assistência farmacêutica no SUS,
tais como falta de informatização e mau planejamento do tipo e
quantidade dos remédios a serem adquiridos pelo estado ou município.
Abundam casos em que os auditores identificam brechas para desvio de
recursos públicos ou seu desperdício com medicamentos cuja validade
expira antes que sejam usados.


Infelizmente ainda há médicos e cirurgiões dentistas que trabalham no
SUS e trocam receitas de clínicas privadas por receituário do serviço
público. Angariam a simpatia da clientela dando-lhe o direito de pedir à
secretaria de saúde o fornecimento gratuito de remédio que sequer
consta das listas oficiais, baseadas nos Protocolos Clínicos e
Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde. Diante da negativa da
secretaria, o paciente ingressa com ação judicial. Claro que há
profissionais não fazem isso de má fé, mas porque não têm o hábito de
estudar e receitam os remédios que os propagandistas de indústrias
farmacêuticas levam ao seu conhecimento, sem nem lerem a bula do que
estão receitando.


Num Brasil que não aguenta esperar mais para ter um SUS de qualidade e
discute como melhorar o financiamento do Sistema, é essencial aumentar a
eficiência da gestão de saúde nos estados e municípios e intensificar
os mecanismos de controle, através dos Tribunais de Contas e do
Departamento Nacional de Auditoria do SUS (Denasus).


A colaboração da população, denunciando fraudes ao Ministério
Público, à polícia e às ouvidorias das três esferas de governo, é peça
chave nesse processo.


Aos profissionais de saúde cabe se conscientizarem e reciclarem os
conhecimentos científicos antes de prescrever medicamentos. A pressão da
indústria farmacêutica induz os profissionais a receitarem mais do que o
necessário, e a propaganda de remédios na mídia incentiva os pacientes a
pedirem para tomar remédios de que ouviram falar. Mas o saber
científico, a honestidade intelectual e o bom senso do médico é que
sempre devem prevalecer.


Racionalizar a oferta de medicamentos e a realização de exames e
tratamentos no SUS não apenas economiza recursos públicos, mas também
reduz o risco de efeitos colaterais e complicações que podem causar a
morte ou sequelas permanentes no paciente. E a vida humana não tem
preço.


O que todos queremos é que a apuração da responsabilidade e
consequente punição exemplar da máfia das próteses ortopédicas sejam o
capítulo final da corrupção e de outras ações criminosas na saúde
pública. Que comece agora a indispensável era do Mais Ética.


Aracy P. S. Balbani é médica. CRM-SP 81.725


Da Tragédia à Farsa, por Zizek

Da Tragédia à Farsa, por Zizek

Da Tragédia à Farsa, por Zizek



Eu quero desenvolver uma linha de raciocínio muito simples e linear
sobre um ponto: por que na nossa economia a caridade não é mais apenas
uma idiossincrasia de alguns caras legais, mas o constituinte básico da
nossa economia.


Gostaria de começar com o futuro do assim chamado "Capitalismo
Cultural", a forma do capitalismo hoje em dia, e então mostrar como a
mesma coisa se aplica à economia no sentido mais estrito do termo.


Principalmente, se nos velhos tempos - por "velhos tempos" refiro-me a
algo bem preciso, antes da transformação do capitalismo pós-68 naquilo
que geralmente chamamos de capitalismo cultural pós-moderno preocupado
com a ecologia, e por aí vai. O que mudou?


O que mudou é que antes dessa época havia uma simples (mais ou menos
simples) oposição entre "aqui é o consumo, você compra, você especula
etc, etc ..." e aquilo que ficava mais "acima", o que você faz por uma
sociedade como ... como Soros.



Ele é ainda do velho tipo, eu afirmo.


Para simplificar, de manhã ele pega o dinheiro, de tarde ele devolve
metade do dinheiro para caridade, para o apoio a causas, etc.


Mas argumenta-se que, hoje em dia, a tendência crescente do
capitalismo é juntar as duas dimensões num construto único e idêntico.


De forma que quando você compra algo, o seu dever anti-consumista de
fazer algo pelos outros, pelo meio-ambiente, etc, já vem incluído.


Se vocês acham que estou exagerando, dêem uma volta na esquina, e entrem em alguma loja da Starbucks.


Vocês verão como eles lhes dizem explicitamente, e eu cito a campanha deles, "Não é apenas aquilo que você está comprando,"


"É a causa que você está comprando." E então eles descrevem para vocês, ouçam:


"Quando você compra no Starbucks, independentemente de você se aperceber ou não,"


"você está comprando algo maior de que apenas uma xícara de café,"


"você está comprando uma ética do café"


"Através do nosso programa Starbucks Planeta Comum,"


"nós adquirimos mais café do que qualquer outra empresa no mundo baseado em um comércio justo"


"garantindo que os agricultores que cultivaram as sementes recebam um preço justo pelo seu duro trabalho"


"E nós investimos e melhoramos as práticas de plantio de café e comunidades"


"É um bom karma do café"


"E uma parte do preço do café Starbucks ajuda a decorar o ambiente com mobília confortável, etc, etc"


Isso é o que eu chamo de Capitalismo Cultura na sua essência.


Você não compra apenas um café, você compra o próprio ato do consumo.
Você compra a própria redenção por ser um consumidor. Você faz algo
para melhorar o meio-ambiente, você faz algo para ajudar crianças
famintas na Guatemala, você fal algo para reestabelecer o sentido
comunitário aqui e acolá, etc, etc.


Isto ... de novo ... eu poderia continuar como o ...quase absurdo
exemplo que é o chamado Tom's Shoes, uma empresa americana cuja fórmula é
"1 para 1".


Eles dizem que para cada par de sapatos que você compra com eles,
eles dão um para alguma nação africana, etc, etc, de forma que você
saiba que "1 para 1", um ato de consumo mas, incluído nele, você paga
para ser redimido por fazer algo de bom pelo meio-ambiente etc, etc


Isto ... isto cria uma espécie de ... como posso dizer ... de super-investimento semântico, ou fardo.


Não se trata de comprar apenas uma xícara de café, mas de preencher,
ao mesmo tempo, uma série de mandamentos éticos, etc, etc. E, de novo,
esta lógica, penso eu, está, hoje em dia, quase universalizada, como ...
sejamos honestos .... Quando você vai a uma loja, provavelmente você
prefere comprar maçãs orgânicas.


Por que? Seja honesto consigo mesmo.


Eu não acho que você realmente acredite que aquelas maçãs que custam o
dobro do preço das velhas maçãs geneticamente modificadas "que todos
adoramos", que elas sejam realmente melhores.


Eu afirmo que aí nós somos cínicos, céticos, mas isso faz você se
sentir melhor "Faço algo pela nossa Mãe Terra, pelo nosso planeta, etc,
etc". Você compra isso tudo. Então a minha questão é que este
interessante curto-circuito em que o próprio ato egóico de consumo já
contém o preço do seu oposto.


Baseado nisso tudo, acho que devemos voltar ao velho e bom Oscar
Wilde que ainda é o que melhor descreveu esta lógica da caridade


Deixem-me citar apenas algumas páginas do início do seu "A alma do
homem moderno sob o socialismo", onde ele diz que, abre-aspas,


"é muito mais fácil ter simpatia pelo sofrimento,"


"do que ter simpatia pelo pensamento"


"As pessoas vêm-se cercadas de uma pobreza hedionda,"


"por uma feiúra hedionda, por uma fome hedionda."


"É inevitável que elas sejam fortemente afetadas por tudo isto"


"De acordo com admiráveis, mas mal-direcionadas intenções,"


"Elas, de forma muito séria e sentimental,"


"atribuem-se a tarefa a si próprias de remediar os males que vêem"


"Mas os seus remédios não curam a doença,"


"Elas apenas a prolongam"


"Na verdade, os seus remédios são parte da doença"


"Elas tentam resolver o problema da pobreza,"


"por exemplo, mantendo os pobres com vida"


"ou no caso de uma escola muito avançada,"


"entretendo os pobres"


"Mas isto não é uma solução"


"É um agravamento da dificuldade"


"O objetivo correto é tentar reconstruir a sociedade"


"de uma tal forma que a pobreza seja impossível"


"e que as virtudes altruístas tenham conseguido realmente evitar o desvio deste objetivo"


"Os piores donos de escravos são aqueles que são bons para os seus escravos"


"e que assim impedem que o núcleo do sistema seja percebido por aqueles que sofrem com ele"


"e entendido por aqueles que o contemplam"


"A caridade degrada e desmoraliza"


"É imoral usar a propriedade privada"


"de forma a aliviar os males horríveis que resultaram da instituição da propriedade privada"


Acho que estas linhas são mais atuais que nunca. Por mais bonito que
possa parecer, rendimento básico, ou este tipo de trato com os ricos não
é a solução. Há para mim um outro ... por causa de uma série de
problemas ... Vejo aqui um outro problema. De novo, isto é para mim a
última tentativa desesperada para fazer o capitalismo caminhar para o
socialismo


"Não descartemos o mal"


"Vamos fazer o próprio mal trabalhar para o bem"


Lembrem-se, vocês não são velhos o suficiente, eu sou.


Como éramos malucos há trinta, quarenta anos atrás sonhando com o socialismo com uma face humana


Da forma como está hoje, o mais radical horizonte da nossa imaginação
é o capitalismo global com uma face humana. Temos as regras básicas do
jogo acrescentamos a elas um pouco mais de humanidade, mais, mais
tolerância, mais benefícios, etc, etc


Primeiro, a minha atitude aqui é dar ao Diabo o que ao Diabo pertence
e reconheçamos que nas últimas décadas, pelo menos, até recentemente,
pelo menos na Europa Ocidental, quero dizer, não estou de papo furado,


Não pensem que em algum momento da história da humanidade, um
percentual relativamente alto da população viveu em relativa liberdade,
bem-estar, segurança, etc, etc. Eu vejo isto como uma ameaça gradual,
mas nem por isso menos séria.


Quando eu dei a entrevista para Hard Talk, ontem o cara, otário, que é
um cara brilhante, não é apenas um otário qualquer, ele disse-me: "Mas
você é basicamente misantropo". Eu disse-lhe "Sim!", eles louvam a nação
britânica.


"Você sabe muito bem que há um certo tipo de misantropia" que é muito
melhor como atitude social do que este otimismo profundamente caridoso.


Acho que uma mistura de uma leve - não uma pesada - tendência apocalíptica deixem-me chamar-lhe de ... como dizem ... soft


Gianni Vatimmo fala de pensamento soft. Eu não concordo com ele mas
eu chamaria tendência apocalíptica soft. Não é 2012, nós sabemos, mas
nós estamos chegando a um certo ponto zero.


As coisas estão, infelizmente, [ ... ] ecologicamente, socialmente
com novos apartheids, etc, estamos chegando a um certo ponto -
biogenética, etc - onde ... eu não estou dizendo, é óbvio, não sou um
idiota que será um retorno ao velho partido leninista de forma alguma.
De novo, estou certo aqui: a experiência comunista do século XX foi foi
uma mega, mega - do ponto de vista ético, político, econômico, etc -
catástrofe.


Eu apenas estou dizendo que se os velhos valores caridosos do
liberalismo - eu os amo, mas ... - a única forma de os salvar é fazer
algo mais


Sabem o que estou dizendo?


Não sou contra a caridade, meu Deus! Num sentido abstrato, claro, é melhor do que nada.


Apenas estejamos cientes de que há um elemento de hipocrisia aí de
uma forma que, e não duvido de gente que o conheceu de que Soros é um
cara honesto mas há um paradoxo, ele conserta com a mão direita o que
estragou com a esquerda


É tudo o que digo. Por exemplo, claro que devemos ajudar as crianças,
é horrível ver uma criança cuja vida está arruinada por não poder pagar
uma operação que custa 20 dólares.


Mas a longo prazo, como teria dito Oscar Wilde, se você apenas opera a
criança, então ela vai viver um pouco melhor, mas na mesma situação que
o produziu.


Tradução: Gustavo Lapido Loureiro

Os efeitos dos juros internacionais

Os efeitos dos juros internacionais nos preços dos ativos

Os efeitos dos juros internacionais nos preços dos ativos




Algumas explicações financeiras para entender os efeitos das taxas de
juros internacionais nos preços dos ativos. Ou, porque qualquer ameaça
de aumento dos juros chacoalha os mercados.


As grandes bolhas especulativas decorrem da volatilidade dos ativos. A
riqueza financeira não é uma medida em si, mas em comparação com os
ativos reais adquiridos..


Suponha uma economia em equilíbrio e uma empresa com histórico de
vendas. Torna-se relativamente fácil precifica-la (isto é, definir seu
valor). Basta estimar o fluxo futuro de resultados, a rentabilidade que o
comprador espera para definir uma faixa preço.


A especulação ocorre quando se perdem esses referenciais.


***


No grande jogo financeiro internacional, há três espécies de ativos-alvo:


1.      As empresas tradicionais, com histórico de receitas e relativa previsibilidade em relação aos fluxos futuros.


2.      Os commodities, alimentos, minérios etc.


3.      As empresas da nova tecnologia, sem parâmetros de desempenho, porque muito novas e atuando em áreas sem histórico.


***


Teoricamente, o primeiro grupo seria aquele para investimentos mais previsíveis.



Uma das formas de precificar uma empresa é através do fluxo de caixa descontado ou de um múltiplo dos resultados anuais.


Suponha a empresa A:


1.      Fatura 10 por ano.


2.      O preço da empresa é de 10 vezes seu resultado anual, ou 100.


3.      O custo de oportunidade é de 10% ao ano.


4.      Ao final de dez anos, o  investidor revende a empresa pelo preço que pagou.


Para que, nesse período, seu investimento renda 10% ao ano, o preço a
ser pago será de 100. Ou seja, aplica 100, durante dez anos recebe 10
por ano de resultados e ao final do período revende a empresa por 100.


Se o custo de oportunidade (representado pela remuneração em dólar
dos títulos públicos dos EUA) cair para 5%, o investidor se disporá a
pagar 139 pela fábrica – 39% de valorização apenas pela redução dos
juros de 10% para 5% ao ano. Com as taxas de juros caindo para 1% ao
ano, o preço da empresa saltará para 185.


***


Suponha que, com os novos controladores, a empresa aumente em 20%
seus resultados no primeiro ano e em 8% ao ano nos anos seguintes –
possibilidade razoável, especialmente, em processos de fusão e
incorporação.


Mantidas as demais hipóteses, o valor  potencial da empresa saltaria para 295.


***


Ou seja, com a extrema liquidez internacional, com a profusão de
novos mecanismos permitindo a ampliação da alavancagem (capacidade de
tomar recursos), com os ganhos de escala decorrentes de fusões e
incorporações, mesmo o segmento mais conservador – as empresas em
atividade – sofrerem valorizações extraordinárias.


Apenas o efeito-juros produziu uma enorme bolha de ativos mesmo em mercados mais conservadores – como o imobiliário.


***


Agora, lenta e penosamente, a economia mundial está retornando aos
trilhos originais. Cada aumento de juros provocará uma redução
proporcional nos valores de ativos. A queda desses ativos impactará as
garantias bancarias, em alguns casos obrigando os investidores a
queimarem seus investimentos.


Esse processo foi nítido na crise de 2008. Mas não resolveu o
problema da inflação de ativos. Agora tenta-se, com mais cuidado,
promover uma nova rodada deflação que não leve de todo a economia
mundial.

domingo, 4 de janeiro de 2015

O três em um do Lula em Guarujá, 25 anos depois

O três em um do Lula em Guarujá, 25 anos depois « Viomundo - O que você não vê na mídia

O três em um do Lula em Guarujá, 25 anos depois

publicado em 4 de janeiro de 2015 às 12:59
raridades


por Luiz Carlos Azenha


Se você falar num “três em um” numa rodinha de jovens muitos vão
fazer cara de paisagem. É o mesmo que falar em óleo de fígado de
bacalhau, DKV ou Olivetti.


Em 1989 ter um “três em um” em casa era símbolo de status.
Especialmente aqueles que vinham acompanhados de grandes caixas de som.
Vitrola, toca-fitas e rádio, tudo num mesmo aparelho!


Eu morava, então, em Nova York. Era correspondente da TV Manchete.


Testemunhei um momento histórico, via satélite. A Globo colocou ao
vivo o sinal do debate presidencial entre Lula e Fernando Collor para
ser visto na cidade. Se não me engano, foi num restaurante da rua 46,
então a rua dos brasileiros em Manhattan, hoje tomada por comerciantes
coreanos.


Durante o debate, Collor “acusou” Lula de um pecado imperdoável para
um operário “igualzinho a você” — era o slogan utilizado pela campanha
de Lula: ter um “três em um” sofisticado.


O simbolismo era inescapável: o dirigente sindical teria dirigido as
grandes greves do ABC em busca de vantagens pessoais. Era um
aproveitador. Nos bastidores, dizia-se também que Lula tinha abandonado a
cachaça e aderido ao uísque importado, como se isso fosse um crime
lesa-Pátria.


Na época, ninguém perguntou se Collor também tinha “três em um” em
casa. Logo ele, filhinho de papai da oligarquia alagoana! Era o máximo
da desfaçatez.


Lembrei-me do episódio ao receber, por e-mail, os links de várias reportagens de O Globo e da Folha sobre o triplex do Lula em Guarujá.


O ex-presidente declarou pagamentos feitos à cooperativa responsável pelo imóvel em 2006. Disse ao imposto de renda ter pago R$ 47.695,38 até então. O valor total foi quitado em 2010.


Em nota, o instituto Lula falou em “suposto apartamento”,
já que o ex-presidente nunca ocupou o imóvel e nem assumiu oficialmente
a propriedade. Esclareceu que a primeira dama Marisa Letícia comprou
uma cota do prédio em 2005, da Bancoop, paga em prestações. O casal não
decidiu ainda se fica com o imóvel.



Para turbinar a notícia, a Folha cita
corretores não identificados que avaliaram o apartamento em R$ 1,5
milhão. Minha sugestão é que o Otavinho compre o imóvel por este preço.
Dinheiro certamente não é problema para o dono da Folha. Nem para os bilionários irmãos Marinho, tão interessados no caso.



marinho


Independentemente da “avaliação” da Folha estar ou não
correta, é óbvio que o imóvel é compatível com a renda de um presidente
que cumpriu oito anos de mandato, pagou em prestações e hoje viaja o
mundo dando palestras.


A questão aqui é outra: por que sabemos tudo sobre o apartamento de
Lula e absolutamente nada sobre os imóveis de Fernando Henrique Cardoso,
Geraldo Alckmin e Aécio Neves? Em nome de quem está o apartamento que
Aécio ocupa em Belo Horizonte, por exemplo? FHC tem mesmo um apartamento na avenue Foch, em Paris?


A explicação é simples e repetitiva: dois pesos, duas medidas.


Vinte e cinco anos depois, com a perspectiva de Lula se candidatar em 2018, o “três em um” se tornou “triplex”.


É bala na agulha para enredar o ex-presidente com uma das acusadas na
Operação Lava Jato, a empreiteira OAS, que concluiu as obras do
edifício em Guarujá.


O ex-presidente deve estar acostumado.


Em 1989, na reta final da campanha, a ex-namorada de Lula, Miriam
Cordeiro, apareceu no Jornal Nacional e na campanha de TV de Fernando
Collor acusando Lula de ter sugerido a ela que abortasse a filha Lurian,
além de falar mal dos negros.


O jornal O Globo chegou a produzir um editorial justificando a baixaria, intitulado O Direito de Saber. Trecho:


Até que anteontem à noite surgiu nas telas, no horário do
PRN, a figura da ex-mulher de Lula, Miriam Cordeiro, acusando o
candidato de ter tentado induzi-la a abortar uma criança filha de ambos,
para isso oferecendo-lhe dinheiro, e também de alimentar preconceitos
contra a raça negra.


A primeira reação do público terá sido de choque, a segunda é a
discussão do direito de trazer-se a público o que, quase por toda parte,
se classificava imediatamente de ‘baixaria’.


É chocante mesmo, lamentável que o confronto desça a esse nível, mas
nem por isso deve-se deixar de perguntar se é verdadeiro. E se for
verdadeiro, cabe indagar se o eleitor deve ou não receber um testemunho
que concorre para aprofundar o seu conhecimento sobre aquela
personalidade que lhe pede o voto para eleger-se Presidente da
República, o mais alto posto da Nação.
Que ironia!


As mesmas Organizações Globo nunca acreditaram que o eleitor
brasileiro tinha o direito de saber que Fernando Henrique Cardoso teve
um caso com uma repórter da emissora, ANTES de ser candidato pela
primeira vez ao Planalto.


Do caso teria nascido uma criança.


Ambos, mãe e filho, viveram “exilados” na Europa, uma notícia que só foi dada pela revista Caros Amigos no ano 2000! O filho, revelou muito mais tarde um exame de DNA, afinal não era, mas sempre foi tratado como herdeiro.


O brasileiro nunca teve — e provavelmente jamais terá — o direito de
saber deste logro histórico! Pelo menos não nas páginas dos jornalões e
nos telejornais da Globo.

Até quando ?

Até quando a mídia vai blindar Aécio? | TIJOLAÇO |


Até quando ?

4 de janeiro de 2015 | 12:53 Autor: Miguel do Rosário
ScreenHunter_5437 Jan. 04 12.52


Os escândalos de Aécio tem sido sistematicamente varridos para
debaixo do tapete, como aliás acontece com todo escândalo tucano.


É só aparecer um tucano na história que as rotativas, misteriosamente, param de funcionar.


Os satélites pifam.


Na campanha eleitoral, quando Aécio foi posto sob os holofotes
nacionais, vieram à tôna histórias estranhas sobre tráfico de drogas em
Claudio, aeroportos construídos em terras do tio, helicópteros cheios de
pó, ossada humana em fazendas de Claudio, milhões de reais de verba
pública aplicado em rádios da família, denúncias de policial civil.


Com exceção do aeroporto, que não conseguiu esconder, a mídia não deu nada.


Aécio perdeu a eleição, mas permaneceu com a imagem imaculada de santo.


Dilma ganhou o pleito e seus adversários a chamam de “bandida”,
apesar de não existir, mesmo após anos de perseguição, um fio de cabelo
contra ela.


Se Dilma mandasse construir, com verba pública, uma casinha de
cachorro no quintal de sua casa em Belo Horizonte, seria vendido pela
mídia como o maior escândalo político desde a invenção do fogo.


Mas vocês sabem como é o Brasil: tucano pode tudo.


Leiam o post abaixo, do Nassif. Ele fala de mais um escândalo cabeludíssimo envolvendo a família Aécio.


Por ser um escândalo de bico grande, a Globo não vai inclui-lo sob o chapéu “escândalos em série”…


Então, peço-lhes que leiam com atenção e me digam o que acham disso.
Nós, do blogs, não temos os exércitos de repórteres amestrados da grande
imprensa, mas temos uma legião de milhares de internautas
insaciavelmente curiosos, e particularmente famintos por aquilo que a
mídia nega a seus leitores: ensopado tucano.


*


A pá de cal na carreira política de Aécio

SEX, 02/01/2015 – 12:15

ATUALIZADO EM 03/01/2015 – 15:28


Luis Nassif, no jornal GGN.


A carreira política de Aécio Neves – ou ao menos suas pretensões de
voltar a se candidatar à presidência da República – terminará nos
próximos dias.


Sua declaração recente, apresentando o governador de São Paulo
Geraldo Alckmin como o próximo candidato do PSDB, foi mais que um gesto
de elegância: respondeu a uma avaliação realista do que o espera pela
frente.


Não se sabe bem o que virá da Lava Jato.


Autoridade com acesso integral ao inquérito informa o seguinte:


Não há como conter vazamentos, que partem dos advogados, delegados e
procuradores e do próprio juiz, que está dando publicidade a todos os
depoimentos. Especificamente no caso da capa da Veja, o vazamento foi do
advogado do doleiro Alberto Yousseff.


Até agora, os vazamentos foram seletivos, aliás “completamente
seletivos”, diz ele. Quando o inquérito total vier à tona, haverá
“bombas de hidrogênio”, supõe que envolvendo próceres da oposição. Não
avançou sobre quem estaria envolvido, portanto não se sabe se a bomba
atingirá Aécio ou não.


Mesmo que não atinja, o fantasma que persegue Aécio atende pelo nome de “ação penal 209.51.01.813801-0″.


Em 8 de fevereiro de 2007 foi deflagrada a Operação Norbert, visando
apurar denúncias de lavagem de dinheiro na praça do Rio de Janeiro.
Conduzida por três jovens brilhantes procuradores – Marcelo Miller,
Fabio Magrinelli e José Schetino – foi realizada uma operação de busca e
apreensão nos escritórios de um casal de doleiros do Rio de Janeiro.


No meio da operação, os procuradores se depararam com duas bombas.


A primeira, envolvia o corregedor do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, Carpena do Amorim.


Carpena foi peça central no assassinato de reputação da juíza Márcia
Cunha, trabalhando em parceria com a Folha de S. Paulo no período em que
o jornal se aliou a Daniel Dantas. Coube a Carpena endossar um dossiê
falso preparado por um lobista ligado a Dantas, penalizando uma juíza
séria.


Ao puxar o fio da meada de uma holding, os procuradores toparam com
Carpena. O caso foi desmembrado do inquérito dos doleiros, tocado pelo
Ministério Público Federal do Rio de Janeiro e resultou na condenação do
ex-juiz a três anos e meio de prisão.


O segundo fio foi puxado quando os procuradores encontraram na mesa
dos doleiros uma procuração em alemão aguardando a assinatura de Inês
Maria, uma das sócias da holding Fundação Bogart & Taylor – que
abriu uma offshore no Ducado de Lichtenstein.


Os procuradores avançaram as investigações e constataram que a
holding estava em nome de parentes de Aécio Neves: a mãe Inês Maria, a
irmã Andréa, a esposa e a filha.


Como o caso envolvia um senador da República, os três procuradores
desmembraram do inquérito principal e encaminharam o caso ao então
Procurador Geral da República Roberto Gurgel. Foi no mesmo período em
que Gurgel engavetou uma representação contra o então senador Demóstenes
Torres.


O caso parou na gaveta de Gurgel.


No próximo mês deverá ser apreciado pelo atual PGR Rodrigo Janot. Há
uma tendência para que seja arquivado. Alega-se que Aécio não seria
titular da conta – que está em nome de familiares – mas apenas
beneficiário. Certamente não se levantará a versão jabuticaba da “teoria
do domínio do fato”, desenvolvida pelo STF (Supremo Tribunal Federal).


Arquivado ou não, certamente será a pá de cal nas pretensões políticas de Aécio.


Comentário


Por Clever Mendes de Oliveira


Talvez Aécio Neves não tenha paciência para esperar


Luis Nassif,


Não gosto do Aécio Neves, mas não gosto por duas razões. Uma é que é
do PSDB. A minha resistência ao PSDB decorre do modo de fazer política
do partido que se resumia na construção da mentira de modo intelectual
para sustentar a ausência de carisma de que os próceres do PSDB sofriam.
Da falta de carisma é que se construiu frases como “o PSDB é um partido
fundado para trazer a ética para a política”, ou “o PSDB é um partido
fundado para tirar o fisiologismo da política” ou “governo bom o povo
põe, governo ruim o povo tira”, ou “a inflação é o mais injusto dos
impostos, pois recai sobre os mais pobres”.


A segunda razão diz respeito ao fato que Aécio Neves conseguiu
transformar-se em um político carismático. Não sou contra o político
carismático desde que o carisma ajude o político a se desenvolver como
político, principalmente galgando cargos de executivo, e desde que o
carisma seja um instrumento que facilite a interlocução do político com o
eleitor e desde que o carisma não seja utilizado para enganar o povo,
em uma condição de desprezo ou desconsideração pelo eleitor. O Aécio
Neves vem utilizando o carisma dele nessa condição. Aliás, os slogans do
partido que ainda são utilizados em campanhas do PSDB, alguns com menos
ênfase, porque serviriam para reforçar o PT, são utilizados exatamente
porque menosprezam o eleitor e sabem que esses slogans não vão ser
questionados pelo povo.


Aécio Neves percebeu que ele não precisa criar essas construções
intelectuais que dão aparência de verdade para enganar o povo. O carisma
dele assegura que as pessoas serão convencidas daquilo que ele diz
mesmo que o que ele diz não pareça fundamentado em anos de estudos
sociológicos como são os slogans de campanha do PSDB que eu relacionei
acima.


Agora, essa história de conta no estrangeiro para mim não tem o menor
valor. Não é porque eu considero que este lado de malversação de
dinheiro público é sempre uma história mal contada que só deveria sair
na mídia com a sentença transitado em julgado do Poder Judiciário. O
problema desta história de dinheiro no estrangeiro da família de Aécio
Neves é porque quem a propaga desconhece a particularidade do casamento
de Inês Maria, a mãe de Aécio Neves, com o banqueiro Gilberto Faria,
filho do fundador do Banco da Lavoura, Clemente Faria.


O Banco da Lavoura foi o maior banco do país no final da década de 40
e do Banco da Lavoura surgiram dois bancos, o Banco Real com Aloysio
Faria e que depois foi incorporado pelo ABN AAMRO que depois foi vendido
para o Santander e o Banco Bandeirantes com Gilberto Faria. Gilberto
Faria era pai de Clemente Faria Neto que faleceu em 12/07/2012 em um
acidente aéreo e era grande empresário dividindo com o irmão Gilberto
Faria Júnior a direção de um grupo empresarial que reunia cerca de 20
empresas entre elas a Minasmáquinas, revendedora de caminhões, máquinas
pesadas e automóveis de luxo da marca Mercedes-Benz, e das rádios
Alvorada, em Belo Horizonte, Sulamérica Paradiso, do Rio, e Jovem Pan,
de Santos. Além disso, Clemente Faria Neto antes do segundo casamento
dele fora casado com Ângela Gutierrez. Não é de se estranhar que o
grande empresariado brasileiro se encaminhou para apoiar Aécio Neves. E é
interessante ver que esses empresários todos investem em meios de
comunicação. O pai de Clemente Faria Neto, Gilberto Faria, padastro de
Aécio Neves era dono (ou detinha parte) da Transamérica.


Enfim, os milionários não são muito de abrir mão do dinheiro de seus
antepassados, mas os quase trinta anos de casamento da mãe de Aécio
Neves com o banqueiro Gilberto Faria e que perdurou até a morte do
banqueiro em 01/10/2008 formaram vínculo forte para permitir essas
contas ainda mais em um paraíso fiscal como é o do Ducado de
Linchestein.


O problema de Aécio Neves será permanecer durante quatro anos
apresentando atestado de bom comportamento. E não basta isso para o
sucesso dele. É preciso que o PT fracasse no segundo governo da
presidenta Dilma Rousseff.


Clever Mendes de Oliveira


BH, 02/01/2015