terça-feira, 16 de setembro de 2014

Meu voto em Dilma

SQN

Meu voto em Dilma


Luiz Carlos Bresser-Pereira
Em 1988 fui um dos fundadores do Partido da Social Democracia Brasileira
e sempre votei em seus candidatos à presidência. Mas, gradualmente fui
me afastando do partido por razões de ordem ideológica, e depois da
última eleição presidencial, vendo que o partido havia dado uma forte
guinada para a direita, que deixara de ser um partido de
centro-esquerda, e que abandonara a perspectiva desenvolvimentista e
nacional para se tornar um campeão do liberalismo econômico,
desliguei-me dele. Por isso quando hoje perguntam em quem vou votar, a
pergunta faz sentido.
Vou votar pela reeleição de Dilma Rousseff, não por que seu governo
tenha sido bem sucedido, mas porque é ela quem melhor atende aos
critérios que adoto para escolher o candidato. São dois esses critérios:
quanto o candidato está comprometido com os interesses dos pobres, e
quão capaz será ele e os partidos políticos que o apoiam de atender a
esses interesses promovendo o desenvolvimento econômico e a diminuição
da desigualdade.
Dilma atende ao primeiro critério melhor do que Marina Silva e muito
melhor do que Aécio Neves. Isto nos é dito com clareza pelas pesquisas
de intenção de voto, onde ela vence na faixa dos salários mais baixos, e
reflete a preferência clara pelos pobres que os três governos do PT
revelaram. O mesmo se diga em relação ao segundo critério na parte
referente à desigualdade. O grande avanço social ocorrido nos doze anos
de governo do PT tem um valor inestimável.
Já em relação ao desafio do desenvolvimento econômico, o problema é mais
complexo. Estou convencido que Dilma conhece melhor do que seus
competidores quais os obstáculos maiores que vêm impedindo a retomada do
desenvolvimento econômico desde que, em 1994, a alta inflação inercial
foi superada. Os resultados econômicos no seu governo não foram bons,
mas isto se deveu menos a suas fraquezas e erros, e, mais, ao fato que
não teve as condições necessárias de enfrentar a falha de mercado
estrutural que está apreciando cronicamente a taxa de câmbio e
desligando as empresas competentes do país de seu mercado, e, assim, ,
está condenando a economia brasileira à quase-estagnação. Desde 1990-91 ,
ao se realizar a abertura comercial, os economistas brasileiros
(inclusive eu, naquele momento) não estávamos nos dando conta que o
imposto sobre exportações de commodities denominado “confisco cambial” –
essencial para a neutralização da doença holandesa – estava sendo
extinto. Em consequência, as empresas industriais brasileiras passavam a
ter uma desvantagem (custo maior) para exportar de cerca de 25% em
relação às empresas de outros países por razão exclusivamente cambial, e
uma desvantagem desse valor menos a tarifa de importação (hoje, em
média, de 12%) para concorrer no mercado interno com as empresas que
para aqui exportam.
A esta causa estrutural de apreciação cambial (a não-neutralização da
doença holandesa [*]) devem ser adicionadas duas políticas equivocadas
normalmente adotadas pelos países em desenvolvimento. A política de
crescimento com poupança externa (de déficit em conta-corrente) e a
política de âncora cambial para controlar a inflação apreciam o câmbio
no longo prazo. Elas são responsáveis por cerca de mais 10 pontos
percentuais de apreciação da taxa de câmbio que devem ser somados aos
25% acima referidos. Logo, a desvantagem total das empresas brasileiras
em relação às empresas de outros países que exportam para os mesmos
mercados que nós é, em média, de 35% ( 25% 10%), e a desvantagem total
em relação às empresas estrangeiras que exportam para o mercado
brasileiro é de 23% (35% - 12%). Estas duas desvantagens desaparecem nos
momentos de crise financeira, que, mais cedo ou mais tarde, decorrem
necessariamente dessa sobreapreciação.
Quando digo que a presidente não teve “condições”, estou dizendo que ela
não teve poder suficiente eliminar essa desvantagem competitiva de
longo prazo. Ela tentou: iniciou o governo fazendo um ajuste fiscal,
reduzindo os juros, e promovendo uma depreciação real de cerca de 20%.
Mas ela recebeu do governo anterior, marcado pelo populismo cambial, uma
taxa de câmbio brutalmente apreciada, de R$ 1,90 por dólar, a preços de
hoje. Por isso, a elevação da taxa de câmbio para cerca de R$ 2,28 por
dólar não foi suficiente para torná-la competitiva.
A taxa de câmbio que torna competitivas as empresas competentes
existentes no Brasil (que denomino “de equilíbrio industrial”) deve
estar em torno de R$ 3,00 por dólar. Em consequência desse fato e da
retração da economia mundial, a depreciação não foi suficiente para
levar as empresas a voltar a investir; foi, porém, suficiente para
aumentar um pouco a inflação. Diante desses dois resultados negativos,
os economistas do mercado financeiro e a mídia liberal gritaram,
mostraram erros do governo (como o controle dos preços da eletricidade e
do petróleo e a “aritmética criativa” para aumentar o superávit
primário) e assim, sob forte pressão e preocupada em não ser reeleita, a
presidente foi obrigada a recuar.
Mas não terão os outros dois candidatos mais importantes condições de
fazer o que Dilma não fez? Estou convencido que não. Não apenas porque
eles também não terão poder para enfrentar os interesses de curto prazo
dos que rejeitam a depreciação cambial porque não querem ver seus
salários e demais rendimentos diminuam e a inflação aumente, ainda que
temporariamente. Também porque seus economistas não reconhecem o
problema da doença holandesa e não são críticos das duas políticas acima
referidas. Supõem, equivocadamente, que a grande sobreapreciação
cambial existente no país é um problema de curto prazo, de “volatilidade
cambial”. Basta ler seus programas de governo.
Terá a presidente poder suficiente para mudar esse quadro caso reeleita?
É duvidoso. Ela não enfrenta apenas a oposição liberal e colonial, que é
incapaz de criticar a ortodoxia liberal e não vê os conflitos entre os
interesses do Brasil e a dos países ricos. A presidente enfrenta também a
incompetência da grande maioria dos economistas brasileiros, que,
apegados a seus livros-texto convencionais, não compreendem hoje a tese
central da macroeconomia novo-desenvolvimentista (a tendência à
sobreapreciação cíclica e crônica da taxa de câmbio) como não entendiam
entre 1981 e 1994 a teoria da inflação inercial. Naquele tempo havia
apenas oito (sim, oito) economistas que entendiam a inflação inercial.
Quantos entenderão hoje os economistas que compreendem porque, deixada
livre, a taxa de câmbio tende a ser sobreapreciada no longo prazo, só se
depreciando bruscamente nos momentos de crise de balanço de pagamentos?
Voto pela reeleição da presidente, mas já deve estar ficando claro que
não estou otimista em relação ao futuro do Brasil. Quando as elites
brasileiras não conseguem sequer identificar o fato novo (mas que já tem
23 anos) que impede que o Brasil volte a crescer de maneira
satisfatória desde 1990-91, como podemos pensar em retomar o
desenvolvimento econômico? A esquerda associada ao PT está muda,
perplexa; a direita liberal supõe que basta fazer um ajuste fiscal para
resolver o problema. Embora um ajuste fiscal forte seja essencial para a
política novo-desenvolvimentista de colocar os preços macroeconômicos
no lugar certo, apenas esse ajuste não basta. Será necessário também
baixar o nível da taxa de juros e depreciar a taxa de câmbio para que a
taxa de lucro se torne satisfatória e as empresas voltem a investir. Só
assim a economia brasileira deixará de estar a serviço de rentistas e
financistas, como está há muito tempo, e os interesses dos empresários
ou do setor produtivo da economia voltem a coincidir razoavelmente com
os interesses dos trabalhadores.
A presidente tem uma famosa dificuldade de ouvir os outros, mas é dotada
de coragem, determinação, espírito republicano e se orienta por um
padrão moral elevado. Conta, ao seu lado, com alguns políticos de boa
qualidade. Ela foi derrotada no primeiro round, mas, quem sabe, vencerá o
segundo?
[*] Nota da Redação:
"Em economia, doença holandesa (do inglês Dutch disease)
refere-se à relação entre a exportação de recursos naturais e o declínio
do setor manufatureiro. A abundância de recursos naturais gera
vantagens comparativas para o país que os possui, levando-o a se
especializar na produção desses bens e a não se industrializar ou mesmo a
se desindustrializar - o que, a longo prazo, inibe o processo de
desenvolvimento econômico.
A expressão "doença holandesa" foi inspirada em eventos dos anos 1960,
quando uma escalada dos preços do gás teve como consequência um aumento
substancial das receitas de exportação dos Países Baixos e a valorização
do florim (moeda da época). A valorização cambial acabou por derrubar
as exportações dos demais produtos holandeses, cujos preços se tornaram
menos competitivos internacionalmente, na década seguinte." (Fonte:
Wikipédia, verbete "Doença holandesa)

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Folha de S.Paulo - Mercado - A madrinha dos bancos - 11/09/2014

Folha de S.Paulo - Mercado - A madrinha dos bancos - 11/09/2014







Vinicius Torres Freire

A madrinha dos bancos

Marina e Dilma jogam para a galera e trocam insultos vazios a
respeito de quem mima a banca
A JULGAR PELA troca de acusações e insultos entre Dilma Rousseff (PT) e Marina
Silva (PSB), no próximo governo haverá choro e ranger de dentes na Paulista, na
Faria Lima e na Berrini, avenidas e rua de São Paulo que sediam bancos e
assemelhados.



Nenhuma das duas quer ter parte com o demo financeiro; se acusam de serem
madrinhas ou afilhadas da banca. Logo, imagina-se que as candidatas proponham
providências, mesmo que idióticas, em relação a lucros, juros, serviços e
dimensão dos bancos.



Só que não.



Para começo de conversa, qual exatamente o problema da petista e da pessebista
com os bancos? Lucros e juros altos, pelo que se depreende dos xingamentos
entre as candidatas.



O lucro dos bancos aumentou muito nos anos Lula, nos anos petistas? É
verdade. Em boa parte porque o crédito, o total de dinheiro emprestado, cresceu
bem, de um quarto do PIB no início de Lula 1 para mais da metade do PIB sob
Dilma.



A lucratividade (rentabilidade) dos bancos cresceu? A conta aí é mais
enrolada, mas o retorno dos bancos foi alto sob Lula, com picos na metade da
primeira década, aparentemente caindo um pouco nos primeiros anos Dilma, quando
rentabilidades e crescimentos em geral foram menores ou decrescentes, para onde
quer que se olhe.



A rentabilidade dos bancos é muito alta em geral? É. Mas a rentabilidade da
grande empresa no Brasil é muito alta, por vezes tanto quanto a dos bancos. Por
que ninguém reclama do lucro das montadoras, que a gente aliás desconhece?



Além de passar carraspanas públicas nos bancos privados, o que Dilma fez a
respeito de lucros, juros etc? Mandou os bancos públicos baixarem juros, de
modo a aumentar a concorrência. Os juros caíram um pouco, por um tempo, mas
continuam a aberração brasileira de sempre. Não dá para limitar preços e lucros
no grito.



Dilma propôs cobrar mais impostos sobre o lucro dos acionistas dos bancos
(ou, por falar nisso, sobre mais ricos em geral)? Não. Marina também não. De
resto, foi do governo petista por um tempão. Um partido dito de esquerda ficou
uma dúzia de anos no poder e quase não disse palavra sobre a reforma social da
tributação (social ou qualquer outra, aliás).



A rentabilidade da grande empresa no Brasil porque o custo do capital é alto
(juros altos) e porque a competição é pequena (a economia ainda é fechada à
concorrência externa e há muito oligopólio). Dilma e Marina acham que há cartéis
da banca? Sugerem medidas para aumentar a proteção do cliente impotente diante
de organizações-mamute? Não.



Os juros poderiam cair um tanto se o governo, num dia de são Nunca, não
pedisse emprestado mais de 3% do PIB por ano, o que faz porque tem deficit
(deixe-se, por ora, o refinanciamento da dívida velha, várias vezes maior). Com
uns R$ 150 bilhões sobrando na mão (dinheiro que o governo toma emprestado
anualmente), a banca teria de rebolar para fazer o dinheiro render. Mas Dilma
acha que fazer superavit primário decente prejudica o povo.



Em suma, Marina e Dilma jogam para a galera; fazem de banqueiros os párias
morais desta campanha com base em preconceitos medievais ("usura") em
vez de lançarem um debate sério sobre lucros, impostos e juros.

 


Bosi tem 11 razões para apoiar Dilma

Bosi tem 11 razões para apoiar Dilma | Conversa Afiada

Bosi tem 11 razões
para apoiar Dilma

Porque Dilma respeita a liberdade de imprensa !

Sugestão do amigo navegante CAFÉ DO BODE









O professor Alfredo Bosi, autor de clássicos como “A Dialética da
Colonização”, “Ideologia e Contra Ideologia”, e o best-seller “História
Concisa da Literatura Brasileira”, além de editor da publicação
“Estudos Avançados”, do Instituto de Estudos Avançados, da USP, formulou
onze motivos para votar em  Dilma:




POR QUE VOTO EM DILMA PARA PRESIDENTE:


- Porque Dilma já destinou 75% dos recursos do pré-sal para a Educação


- Porque Dilma já destinou 25% dos recursos do pré-sal para a Saúde


- Porque Dilma está desativando o programa de construção de usinas nucleares


- Porque Dilma cuidou do setor energético para impedir um novo apagão


- Porque , apesar das dificuldades
econômicas, Dilma  aumentou o número de empregos formais e está evitando
os males do desemprego


- Porque Dilma criou o programa Mais Médicos, que já está atendendo cerca de 50 milhões de cidadãos, a maioria de baixa renda


- Porque Dilma apoiou grandes programas de acesso de milhões de jovens aos cursos superiores


- Porque Dilma manteve o programa Bolsa Família e criou o projeto Minha Casa Minha Vida


-  Porque a política internacional
do seu governo é corajosa, independente, amiga da paz e aberta aos
países em desenvolvimento e aos subdesenvolvidos.


- Porque a sua personalidade é firme, coerente e equilibrada, como se espera de uma presidente da República.


- Porque Dilma respeita a liberdade de imprensa.


Alfredo Bosi

(Professor Emérito de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo)



domingo, 7 de setembro de 2014

Já vimos esse filme...

Delação de Costa é batata “quentíssima” para o PSB, para Marina e para a midia

Delação de Costa é batata “quentíssima” para o PSB, para Marina e para a mídia | TIJOLAÇO | 

Os jornais estão cheios de dedos diante deste escândalo provocado
pela estranhíssima “delação premiada” de Paulo Roberto Costa, ex-diretor
da Petrobras.


Porque a ninguém mais ela atinge em cheio que a Eduardo Campos, tão
próximo e devedor de Costa que este chegou a arrolá-lo como testemunha
de defesa, do que só desistiu após complexas negociações – imagine-se
quais – entre os advogados de ambos, segundo testemunha o insuspeito
 Lauro Jardim, na Veja.


Não é delírio imaginar que Costa, ao ver que não seria defendido pelo
governo Dilma, tenha se voltado para pressionar Campos, tanto que o
juiz do caso, Sérgio Moro, estranhou seu arrolamento como testemunha de
defesa e tentou bloquear sua convocação, da qual o ex-diretor “desistiu” provisoriamente.


Muito menos que tenha sido a morte de Campos – e, com isso, o
desaparecimento daquele que Costa havia apontado como seu defensor – que
tenha levado o ex-diretor a negociar o possível em sua situação
desesperadora.


Além das relações pessoais entre ambos, há as com o PSB – o candidato a senador em Pernambuco, Fernando Bezerra, tem um irmão, cunhada e sobrinho na lista de Alberto Youseff –  e com o dirigentes do PP e com Sérgio Cabral, aliados de Aécio.


De todos, inclusive os petistas, é Dilma Roussef quem tem uma prova,
fornecida por seus próprios adversários, como se lê na revista Época na
edição da penúltima semana de março:
A presidente Dilma Rousseff, que não gostava de Costa, tentava
derrubá-lo desde o começo de seu governo. Encontrava resistências de
todos os políticos, mesmo indiretamente, de Lula. Conseguiu apeá-lo
apenas em 2012, para desespero da base aliada.”


É muito difícil tratar de política quando as coisas começam a se
inscrever no Código Penal,  porque tudo toma a forma do que não é.


E você passa a contar apenas com raciocínio e intuição, para ver
sinais estranhos no ar, como o que este blog destacou aqui, há uma
semana, quando começavam os depoimentos de Costa: “Merval pede que não abandonem Aécio. Avisa que algo pode “abalar Marina”.


Será Paulo Roberto Costa o segundo jatinho de Campos, do qual a providência – como ela própria diz – não terá como desembarcar?


Isso pode destruir a ascensão de Marina sem, porém, ter força para
ressuscitar Aécio, e este temor fica claro no “conselho” que o mesmo Merval dá a Aécio hoje, com uma comparação – será? – entre a lista de Costa e o caso Lunus, que derrubou Roseana Sarney:


Aécio estaria fazendo o mesmo esforço inútil que o tucano José
Serra fez em 2002, destruindo, com sucesso, as candidaturas de Roseana
Sarney e Ciro Gomes para depois ser derrotado por Lula no segundo turno.
Há no entorno do PSDB quem defenda uma “renúncia branca” de Aécio, que
deveria se dedicar mais à eleição de Minas para garantir seu cacife
político.


Os cuidados com as jogadas da revista Veja

Os cuidados com as jogadas da revista Veja

Os cuidados com as jogadas da revista Veja




Jornal GGN



É sempre útil ter cautela com a embalagem que Veja usa para embrulhar suas “denúncias”.
No final da tarde de sexta-feira, depois da primeira matéria da Agência
Estado sobre o suposto depoimento de Paulo Roberto Costa, o comentário
geral era que a revista Veja divulgaria todo o depoimento e a lista de
políticos citados (que chegava a 62).
A revista estimulou o boato, antecipando para as 18h a divulgação da
capa da semana.  Uma capa genérica, sem nomes. O texto anunciava que
eles viriam na edição impressa, junto com informações exclusivas sobre o
“esquema de corrupção da Petrobras”.
Mais uma vez, Veja vendeu o que não tinha, ou muito mais do que tinha.
Quanto a nomes, dois ex-governadores, a governadora Roseana, o ministro
Lobão, um ex-ministro do PP, oito parlamentares e o tesoureiro do PT. Os
suspeitos de sempre.
A revista não traz as prometidas informações sobre negociatas na
Petrobras. O único exemplo mencionado é uma notícia requentada sobre uma
operação de debêntures, que supostamente envolveria a Postalis (e que
não se realizou porque os supostos autores foram presos).
Sobrou a embalagem. Sobrou? Veja não mostra papel, não mostra vídeo, não
mostra um indício sequer de que botou a mão na massa. Tanto quanto o
Estado e a Folha, ouviu um relato sobre o depoimento. A revista não cita
fontes, reais ou fictícias. Não ousa escrever que “teve acesso ao
depoimento”. Sequer recorre ao surrado “uma fonte ligada às
investigações”.
Veja blefa, mais uma vez. Mas alguém conversou sexta-feira com a revista
e com os portais, e vendeu um prato requentado.  E quase
simultaneamente, o Valor  informava sobre mais um advogado que deixava a
defesa de Paulo Roberto. Assim, de repente, sem explicações.
Um advogado à solta, neste momento, é conveniente para ocultar e lançar
pistas falsas sobre a fonte do vazamento. Fonte criminosa, posto que a
delação corre em sigilo.
A bola está com a direção da PF, com o PGR e com o ministro Teori, que podem dar um basta nesses vazamentos seletivos.

Delação premiada dá sobrevida e Aécio vai à luta

Delação premiada dá sobrevida e Aécio vai à luta

Delação premiada dá sobrevida e Aécio vai à luta

 blog Balaio do Kotscho,









Conseguiram. A quatro semanas da eleição, quando tudo parecia
caminhar para uma disputa acirrada entre Dilma e Marina no segundo
turno, com Aécio fora do jogo, sendo abandonado até pelos aliados, um
fato novo provocou outra reviravolta no cenário. Com isso, a candidatura
tucana sai da UTI e vai à luta novamente.


Desde sexta-feira, quando saíram as primeiras revelações nos portais,
não se fala de outra coisa no país: quais serão as consequências na
campanha presidencial da delação premiada feita por Paulo Roberto Costa,
ex-diretor da Petrobras, que está preso em Curitiba, no Paraná?


Os três candidatos reagiram de formas bem diferentes à nova
configuração do quadro, que desde já coloca as denúncias de corrupção na
Petrobras no centro do debate nesta reta final de campanha.


Embora até aqui não tenham sido apresentadas provas de nada contra o
ministro Edison Lobão, os ex-governadores Sergio Cabral e Eduardo
Campos,  a atual governadora Roseana Sarney, e os presidentes da Câmara,
Henrique Eduardo Alves, e do Senado, Renan Calheiros, além de uma penca
de parlamentares da base aliada do governo Dilma, só a volta do tema da
Petrobras às manchetes já causa mudanças nas campanhas dos
presidenciáveis.


Num primeiro momento, a presidente Dilma Rousseff, candidata à
reeleição, sabendo que vai ser o principal alvo dos ataques, fechou seu
time na defesa e só disse que está esperando "dados oficiais" para tomar
"todas as providências cabíveis, mas não posso fazer isso com base
apenas em especulações". Surpreendida mais uma vez, a presidente pediu
informações ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e convocou uma
reunião de emergência ainda na noite de sexta-feira.


Marina Silva preferiu ficar no meio de campo trocando passes: com o
nome de Eduardo Campos também na lista dos beneficiários, a candidata do
PSB espera o melhor momento de atacar sua principal adversária, sem
saber ainda quais novas revelações serão feitas nos próximos dias. "Não
queremos ver o Eduardo morrer duas vezes", limitou-se a dizer. Aliados
de Marina alegam que o envolvimento de Eduardo no caso não tem
fundamento.


Já Aécio Neves, que não tinha mais nada a perder, quase 20 pontos
atrás de suas duas adversárias, parecia outra pessoa no sábado.
Revigorado pela delação premiada, aguardada  ansiosamente, junto com os
colunistas amigos, que há dias soltavam notinhas ameaçadoras, o
ex-governador mineiro foi logo ao ataque sem pensar duas vezes. "O
Brasil acordou perplexo com as mais graves denúncias de corrupção da
nossa história recente. Está aí o mensalão 2", foi logo comemorando. Sem
bandeiras e sem rumo, sem mais ter o que falar ou propor, Aécio agora
ganhou de bandeja pelo menos um discurso.


O curioso é que, até agora, como costuma acontecer nestes casos, só
foram publicados nomes de possíveis corrompidos denunciados pelo
ex-diretor, mas nenhum de empresas, as prováveis corruptoras e seus
dirigentes, já que não há quem se venda se não houver alguém que compre.
Como o processo corre em segredo de Justiça e as gravações de áudio e
vídeo dos interrogatórios feitos com Paulo Roberto Costa estão guardadas
num cofre forte, para saber o que realmente existe e quem tem culpa no
cartório, vamos ter que esperar pela análise do ministro Teori Zavascki,
do STF, que poderá ou não aceitar a delação premiada.


Aconteça o que acontecer, é disso que vamos ficar falando até o dia 5
de outubro, deixando em segundo plano os projetos de governo e as
discussões sobre o futuro do país. Pobre país.


Vida que segue.

Rodrigo Vianna: Aécio comemora o novo escândalo da “Veja”

Rodrigo Vianna: Aécio comemora o novo escândalo da “Veja” « Viomundo - O que você não vê na mídia

Rodrigo Vianna: Aécio comemora o novo escândalo da “Veja”

publicado em 7 de setembro de 2014 às 13:55
carta-capital-2006


Aécio comemora escândalo da “Veja”: segundo avião a cair sobre a campanha?


“O escândalo da Petrobras – que nesse momento serve aos
interesses de Aécio Neves – mostra a necessidade de uma Reforma Política
urgente. PSDB, PT, PSB, PP, PMDB: todos parecem usar meios ilegítimos
de financiar suas campanhas. Constituinte Já!



por Rodrigo Vianna, no Escrevinhador


Primeiras impressões sobre o escândalo da Petrobrás: éruim para a base aliada de Dilma (não necessariamente para a presidenta), mas é também desastroso para a imagem de Marina Silva.
A ”nova” política é jogada na lama, ao lado de petistas,
peemedebistas (e de tucanos e demos; mas estes serão poupados nas
manchetes de Veja, Globo etc).


Eduardo Campos – ex-candidato do PSB, apontado como um “santo” da
“nova” política – estaria na lista  (aliás, que lista? Não apareceu um
documento até agora). Fica claro que se trata de uma operação para trazer Aécio Neves de volta ao jogo da eleição.


Não se conhecem muitos detalhes da denúncia. O que se sabe: Paulo
Roberto da Costa (ex-diretor da Petrobras nas gestões Lula e Dilma)
teria fornecido - em depoimento “secreto”, que vazou de forma seletiva, e
até agora sem provas - detalhes de um esquema criminoso de
financiamento político. Delação premiada, arrancada a fórceps. Mais um
escândalo de boca de urna.


Atenção: apure os ouvidos e abra bem os olhos, porque nos próximos
dias “Veja” e “Globo” tentarão transformar um caso (que se for
comprovado é grave, mas que estranhamente “vaza” a 30 dias da eleição)
em ferramenta política a favor do PSDB.


Claro que não vou defender aqui ninguém, de partido nenhum, que tenha
recebido propina. Nem quem se alie a doleiro e a esquemas criminosos –
ainda que o faça em nome da “luta política”. Nada disso. Mas tenho o
dever de lembrar: a “Veja” nunca fez (e jamais fará) capa a mostrar os
esquemas de financiamento de campanha do PSDB (ainda mais a 30 dias da
eleição): a Alstom, os trens em São Paulo, o Robson Marinho, os tucanos
de Aécio (parceiros antigos do Mensalão do PSDB – que segue impune em
Minas). Nada disso surge nas capas de revista ou nas manchetes do JN da
Globo.


As listas da “Veja” (se é que são verdadeiras) indicam um (entre
dezenas) de esquemas privados de financiamento de campanha. Por
“coincidência”, a maior parte dos parlamentares e governadores citados
agora pertence à base aliada do governo. Mas se recorremos à própria
Veja, descobrimos que “Fornecedores da Petrobras sob suspeita financiaram campanha de 121 parlamentares em atividade”: nessa lista aqui há também tucanos, demos, gente do PPS e até o vice de Marina, Beto Albuquerque.


Na prática, o escândalo de boca de urna da “Veja” pode ser um segundo avião a desabar sobre a campanha presidencial.


Agora se entende porque Aécio vinha
chamando Marina de “PT2″ nos últimos dias. E porque mervais e outros
quetais pediam que “ainda” não se abandonasse Aécio (afinal, Marina
“poderia ter problemas logo adiante”). Sabiam que a cavalaria
Abril/Globo viria para salvar o exército tucano em frangalhos.


Aécio estava emparedado pela polarização Dilma/Marina, desde a queda
do avião de Eduardo Campos. Começava a se consolidar um debate sobre
dois projetos para o Brasil: PT/Lula/Dilma x Marina/PSB/Rede (com nacos
do tucanato migrando para essa segunda turma). Nesse momento, a heróica e
destemida “Veja” aparece para colocar Aécio de novo no páreo. E tenta
trazer de volta a pauta da escandalização (sem provas, por enquanto).


De novo, repito: isso não quer dizer que as gravíssimas denúncias não
devam ser investigadas. Mas é evidente que, como acontece desde 2006, a
“Veja” vai jogar em tabelinha com a “Globo”. Aguardem 10 minutos
diários de “repercussão” do caso no JN: hoje, segunda, terça… e até o
dia 5.


A Dilma agora vai-se arrepender de ter ido preparar omeletes com Ana
Maria Braga. Ah, a falta de apetite petista para o confronto. Ah, que
saudades de Brizola…


Em 2006, eu trabalhava na Globo (era repórter especial), e vi de perto o moralismo seletivo praticado pela emissora.
Ao lado de outros colegas jornalistas, me insurgi internamente quando a
Globo (a duas semanas do primeiro turno) botou todo seu peso na
investigação dos “aloprados petistas” (claro, deviam ser investigados),
mas recusou-se a investigar as denúncias contra Serra contidas no
dossiê de um lobista chamado Vedoim.


Quando saí da emissora, poucos meses depois, publiquei uma carta em que contava detalhes do episódio. E questionava a direção de Jornalismo, sob comando de Ali Kamel.


CartaCapital também publicou uma capa mostrando como a Globo manipulou o noticiário às vésperas do primeiro turno em 2006… Vale a pena ler – aqui.


Em 2014, mais uma vez, a turma do moralismo seletivo não está
preocupada com o Brasil. O moralismo de ocasião é só uma ferramenta
daqueles setores desesperados com uma eleição que transformava
PSDB/Globo/Veja em coadjuvantes absolutos.


Mas o escândalo mostra também a necessidade de uma Reforma Política
urgente. PSDB, PT, PSB, PMDB: todos (ou pelo menos partes importantes
dos principais partidos) parecem usar meios ilegítimos de financiar suas
candidaturas. Muitas vezes, o poder econômico banca as campanhas e se
transforma em dono dos mandatos.


Mais um argumento para se defender a necessidade de uma Reforma Politica para proibir doações privadas em campanhas.


Constituinte já!


É preciso proibir as doações de empresas a campanhas (como pede a OAB, em ação bloqueada no STF, por um pedido de vistas de Gilmar Mendes - sempre ele).


Abaixo o moralismo seletivo de Veja/Globo e dos tucanos!


Investiguemos todos os escândalos, inclusive os que atingem amigos da
velha mídia: Serra/PSDB de São Paulo, Aécio/PSDB de Minas (o aeroporto
de Cláudio é fichinha perto do que há por lá), Marina/PSB/Rede.


E que o PT explique como quer “reformar” o Brasil pedindo dinheiro
(legal ou ilegalmente) de gente  que quer qualquer coisa, menos reformas
no Brasil…


domingo, 31 de agosto de 2014

Lula na Casa Civil ?

Carta Maior prega Lula como chefe da Casa Civil de Dilma | Brasil 24/7

Em texto que retrata
a influência de líderes religiosos, como Silas Malafaia, na política
brasileira e na postura da candidata a presidente da República Marina
Silva (PSB), Saul Leblon, de Carta Maior, prega que a presidente Dilma
Rousseff e o PT enxerguem que, em eventual segundo mandato da
presidente, requererá "um chefe de Casa Civil dotado ao mesmo tempo de
inexcedível sintonia com a Presidenta Dilma , e de incontrastável
representatividade popular. Essa referência existe. Seu nome é Lula"


31 de Agosto de 2014 às 15:00






247 - Em texto que retrata a influência de líderes
religiosos, como Silas Malafaia, na política brasileira e na postura da
candidata a presidente da República Marina Silva (PSB), Saul Leblon, de
Carta Capital, expõe a proximidade e o conservadorismo dos de direita
com os princípios religiosos e exemplifica ainda a campanha de José
Serra (PSDB) para a Prefeitura de São Paulo em 2012. Saul vê os mesmos
vícios de Malafaia, de Marco Feliciano (PSC) e cia. encampados na figura
de Marina.


Por fim, o editorialista de Carta Capital prega que Dilma e o PT
enxerguem que, em eventual segundo mantado da presidente, requererá "um
chefe de Casa Civil dotado ao mesmo tempo de inexcedível sintonia com a
Presidenta Dilma , e de incontrastável representatividade popular. Essa
referência existe; já funciona de fato como líder político do campo
progressista; deveria ser oficializado desde já na nova estrutura de um
segundo governo Dilma. Seu nome é Lula".


Leia abaixo a íntegra do editorial de Saul Leblon.


Ousar e vencer ou entregar o Brasil aos mercados passivamente?


Silas Malafaia, pastor e radialista evangélico, de larga audiência no
Rio de Janeiro, é um símbolo exclamativo daquilo que se convenciona
chamar um estereótipo.


Certas características nele são tão acentuadas que mais se assemelha a um personagem de desenho animado.


Mas Malafaia é de verdade.


E personifica um dos mais buliçosos marcadores do extremismo conservador nos ciclos eleitorais brasileiros.


Malafaia é velho conhecido no ramo do palanque de rebanho.


Com a retórica adestrada na radiofonia da fé, o pastor evangélico se
notabiliza como uma ferramenta implacável no exorcismo de gays e
lésbicas; na condenação do aborto e da educação sexual; na demonização
de petistas, esquerdistas e libertários em geral.


Não necessariamente nessa ordem, mas com essa vivacidade. Sempre em
nome da pureza da sociedade, dos costumes e do que mais se engata a esse
comboio.


Em 2012, já descendo a ladeira do seu moderado escrúpulo, na largada
do 2º turno em São Paulo quando foi derrotado por Fernando Haddad, Serra
importou o animador cirúrgico para reforçar a musculatura na hora do
vale tudo na disputa.
Silas Malafaia desembarcou na cidade festejado então em manchete graúda do caderno de política da'Folha de SP', em 10/10/2012.


Assim:


"Líder evangélico diz que vai 'arrebentar' candidato petista -- Silas Malafaia afirma que Haddad apoia ativistas gay".


Em entrevista ao diário dos Frias, de imoderados pendores tucanos, o
bispo disse que Serra agradeceu o apoio recebido no primeiro turno,
quando fez um vídeo em que pedia votos ao candidato do PSDB e ligava
Haddad ao 'kit anti-homofobia'.


Carimbado de "kit gay" pelos evangélicos, o material consistia de uma
cartilha contra a homofobia encomendada pelo Ministério da Educação em
2011, para ser distribuída nas escolas na gestão Haddad.


A pressão da mídia e evangélicos obrigou o governo a recuar. "O
Haddad já está marcado pelos evangélicos como o candidato do 'kit gay'.
Não vamos dar moleza a ele", fuzilou Malafaia, após o encontro com
Serra.


Arrebentar a tolerância, de um lado, para resgatar o voto da 'pureza'
de outro; esse, o fundamento regressivo representado pela restauração
do filtro religioso na política.


A especialidade de Silas Malafaia está prestes a ser direcionado agora no apoio à candidata do PSB.


O bispo anunciou que apoiará Marina Silva no provável 2º turno das
eleições presidenciais deste ano, embora a tenha trocado por Serra, em
2010, quando Marina sugeriu um plebiscito sobre o aborto.


Malafaia é um estereótipo.


Como qualquer marcador, cola onde encontra aderência.


A adesão a Marina foi revelada em blog de uma revista semanal, ela
também um marcador sanguíneo dos pecados incluídos na lista de Malafaia.


No 1º escrutínio, 'para marcar posição', informa a revista, o voto do
influente bispo terá outro dono: o pastor e presidenciável Everaldo, do
PSC, -como ele e Marina, também da Assembleia de Deus, e cujo bordão
eleitoral é 'vou privatizar tudo'.


Na decisão para valer, Malafaia vai de Marina.


Outro conhecido político e pastor evangélico, o deputado federal
Marco Feliciano (PSC), envolvido recentemente em acusações de homofobia e
rompido com o governo pela falta de solidariedade dos petistas, anuncia
a mesma dobradinha.


Porém, com uma ênfase mais representativa dos dias que correm: 'no segundo turno, qualquer um, menos o PT', proclama Feliciano.


O bordão é o mesmo empunhado pelos operadores de outra confissão de
fé arrebatada: a do mercado financeiro, que aspira à multiplicação
bíblica do pão e do peixe na forma dinheiro.


O vertedouro desse sortido aluvião de intolerância e cobiça é a
proposta de higienizar 'a velha política', apresentada ora como uma
instância devassa de uma sociedade pia; ora como uma interferência suja
na pureza lógica do maquinismo rentista.


A purgação desses pecados uiva na fogueira programática mais
festejada da praça nesse momento. Das labaredas emana o espírito santo
de um Banco Central autônomo ; de um mercado financeiro independente e
de um moralismo a salvo dos incréus.


Todos abrigados da ingerência do Estado belzebu e das liberdades democráticas e individuais.


O tucano Aécio Neves, no debate da Bandeirantes, ao criticar Marina
Silva, que se autonomeia a semente dessa 'nova política' (a limpa),
acabou na verdade reiterando a falsa disjuntiva.


Aécio trocou a dualidade higiênica de Malafaia e assemelhados pelo maniqueísmo da 'boa e a má política'.


Boa política para o candidato do PSDB era a política de Tancredo
...Naturalmente não a de Vargas, não a de Morales, não a de Chávez, não a
de Lula.


A ideia de uma salubridade externa à história que deve ser tomada
como referência limpa e boa na construção da sociedade é um daqueles
mantras aos quais se agarram os interesses dominantes de todos os
tempos.


Pode assumir a forma de uma religião (leia o indispensável artigo de
Katarina Peixoto; nesta pág). Ou a da judicialização da 'velha e má'
política. Ou ainda encarnar no monopólio de um dispositivo midiático que
se avoca a prerrogativa de um Bonaparte, a emitir interditos e sanções
em defesa dos interesses que nomeia como 'a ordem'.


O mercadismo rentista, o fanatismo religioso, assim como o barbosismo
togado ou o bonnerismo midiático sempre tiveram dificuldade em se
expressar através de um palanque unitário que emprestasse carisma a um
credo excludente em seus próprios termos.


Agora parece que não mais, graças à ascensão desse super-bonder chamado 'nova política'.


Trata-se de um retrofit da desgastada terceira via.


Retro, do latim "movimentar-se para trás" e fit do inglês, adaptação, ajuste.


O termo emprestado da arquitetura adequa-se à descrição da
candidatura sensação nesse momento que os mais entusiasmados, a partir
de dados do Datafolha, enxergam em escalada irreversível rumo a
Brasília.


O retrofit é recomendável quando um edifício chega ao fim de sua vida
útil, oferecendo-se como opção para corrigir o desgaste e a decadência
do longo tempo de uso, todavia sem alterar seus alicerces e estruturas
de sustentação.


É mais barato e funcional.


No caso da política, o retrofit consiste em vender como novo a velho
ardil conservador que evoca uma ordem natural naquilo que cabe ao
conflito democrático resolver: ou seja, as escolhas inerentes à luta
pelo desenvolvimento da economia e da sociedade.


Objetivamente, a candidatura Marina Silva é um retrofit do neoliberalismo e da terceira via.


Não qualquer retrofit , mas o estuário do higienismo político
diuturnamente inoculado no imaginário brasileiro pelo intercurso de
mídia, togas e elites nos últimos anos.


O desafio de vida ou morte do campo progressista nesse momento é
restaurar a transparência dos dois campos em confronto na sociedade
brasileira, dissimulados sob o xale da 'nova política'.


O calcanhar de aquiles do retrofit conservador é o antagonismo entre a
maquiagem da fachada e de alguns equipamentos e a rigidez dos pilares e
colunas estruturais.


Num edifício isso é contornável com algum jogo de decoração.


Numa sociedade pode ser insuportável.


A participação soberana e democrática da população nas decisões sobre
o desenvolvimento frequentemente evoca mudanças que colidem com as
velhas estruturas que a 'nova política' visa preservar.


Marina Silva afirma apoiar o decreto de Dilma, demonizado pela elite que a festeja, da Política Nacional de Participação Social.


Como, porém, se a mesma Marina defende, por exemplo, a independência
sagrada do Banco Central em relação à democracia e ao governo?


Como, se terceiriza aos operadores do mercado a hegemonia plena sobre
a fixação de um dos principais preços da economia: a taxa de juros?
(Leia esclarecedor artigo de Paulo Kliass sobre esse tema; nesta pág).


Marina e seus formuladores defendem a mesma autonomia em relação a
outro preço estratégico: o câmbio, que segundo eles, deve flutuar
livremente. E abjuram, em relação ao salários (o terceiro preço decisivo
no capitalismo) , a política de valorização do salário mínimo adotada
pelos governos petistas –da qual Dilma avisa que não abdicará.


É justo perguntar: assim encapsulada a economia nas mãos do mercado, o
que sobra então à participação social endossada por Marina Silva?


O Brasil, desde 2003 –com todas as limitações e contradições
intrínsecas a um governo de base heterogênea-- tem figurado aos olhos do
mundo como uma da estacas de resistência à retroescavadeira ortodoxa
que demole e tritura direitos sociais e soberania econômica urbi et
orbi.


Essa resistência criou um dos maiores mercados de massa do mundo numa demografia de 202 milhões de habitantes.


Não há dúvida de que isso se fez às custas de afrontar a lógica de
uma globalização financeira cujo colapso apenas acentuou sua natureza
intrinsicamente excludente.


O assoalho macroeconômico brasileiro range e ruge sob o peso da
inadequação entre a emergência desse protagonista de massa, que
constitui a nova força motriz da economia, e estruturas pensadas para
atender a 1/3 da população mais rica.


A solução da 'nova política' é reconduzir a agenda do desenvolvimento
aos fundamentos estritos de sua autorregulação pelas forças dos
mercados globais.


Higienizar 'a sujeira' do intervencionismo em todas as frentes.


Com as consequências sociais sabidas. E a dose de repressão
necessária que faz do endosso de Marina à participação social pouco mais
que um retrofit na palavra simulacro.


Não é uma acusação eleitoreira; é uma operação em marcha promovido por massas de forças ferozes.


Curto e grosso: está em jogo colocar o Estado esfericamente na mira
dos jagunços de gravata de seda italiana e Rolex, dos quais Neca do Itaú
é só a face elegante, para que façam o serviço sangrento.


Sobrepor o interesse privado aos da sociedade implica capturar o sistema democrático integralmente para o mesmo fim.


É uma operação de potencial lucrativo tão elevado que ao mercado
compensa tolerar o xale dissipador de Marina Silva –desde que o
bangue-bangue da faxina econômica esteja liberado às mãos e bicos que
dão conta do serviço.


Não é só uma sucessão presidencial, portanto.


Estamos diante de um divisor histórico do desenvolvimento brasileiro.


Ao aluvião de malafaias, rentistas e bem intencionados --seduzidos
estes pelo glamour da 'nova política', não basta contrapor o exaustivo
balancete publicitário do que se conquistou nestes últimos 12 anos.


É importante, mas não é suficiente.


É forçoso contrapor à 'nova política' aquilo que a desnuda e afronta.


É urgente dizer pelo que se luta e contra quem se trava a batalha dos próximos dias e noites.


Essa é uma batalha entre a democracia social e as forças regressivas do galeão malafaico-rentista.


É preciso escancarar a contradição entre o retrofit messiânico e as estruturas calcificadas que ele maquia.


Contrapor , enfim, ao galope conservador um salto efetivo da democracia participativa em um novo governo Dilma.


Tornar esse salto palpável aos olhos da população requer um símbolo
de magnetismo equivalente às tarefas que essa agenda encerra em termos
de negociação de pactos, metas, concessões, salvaguardas e organização.


Um novo governo estruturado em torno dessa renegociação do
desenvolvimento requer um chefe de Casa Civil dotado ao mesmo tempo de
inexcedível sintonia com a Presidenta Dilma , e de incontrastável
representatividade popular.


Essa referência existe; já funciona de fato como líder político do
campo progressista; deveria ser oficializado desde já na nova estrutura
de um segundo governo Dilma.


Seu nome é Lula.

Um em dois - Janio de Freitas

BLOG DO SARAIVA



O tiro que, há 60 anos, Getúlio Vargas
deu no próprio coração para salvar as riquezas nacionais parece pronto a
ser disparado, agora contra elas.


Quis criar liberdade nacional na
potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa
esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma,
disse Vargas, ao explicar as razões de seu gesto.


O ódio à ideia de que o Brasil venha a
ser independente ressurge, agora que mal começa a jorrar o tesouro de
petróleo da camada do pré-sal.


Pelas mãos dos inimigos de sempre da
soberania e do progresso nacional mas, também, mal disfarçado numa  capa
primária de “ecologia” hipócrita, que encapuza os verdadeiros motivos:
hoje como sempre ter o apoio político de um sistema de comunicação
antinacional.


Janio de Freitas, em artigo primoroso na Folha de S. Paulo,
neste e em outros temas, expõe como são siamesas as de Aécio Neves as
propostas de Marina Silva no seu “programa de Governo” – neste momento
em revisão pelo senhor Silas Malafaia.




Um em dois

Janio de Freitas

O catatau dado como programa de
governo de Marina Silva e do PSB, mas que contraria tudo o que PSB
defendeu até hoje, leva a uma originalidade mais do que eleitoral: na
disputa pela Presidência, ou há duas Marinas Silvas ou há dois Aécios
Neves. As propostas definidoras dos respectivos governos não têm
diferença, dando aos dois uma só identidade. O que exigiu dos dois
candidatos iguais movimentos: contra as posições refletidas nas críticas
anteriores de Marina e contra a representação do avô Tancredo Neves
invocada por Aécio.


Ao justificar sua proposta para a
Petrobras, assunto da moda, diz Marina: “Temos que sair da Idade do
Petróleo. Não é por faltar petróleo, é porque já estamos encontrando
outras fontes de energia”. Por isso, o programa de Marina informa que,
se eleita, ela fará reduzir a exploração de petróleo do pré-sal.


Reduzir o pré-sal e atingir a
Petrobras no coração são a mesma coisa. Sustar o retorno do investimento
astronômico feito no pré-sal já seria destrutivo. Há mais, porém.
Concessões e contratos impedem a interferência na produção das empresas
estrangeiras no pré-sal. Logo, a tal redução recairia toda na Petrobras,
com efeito devastador sobre ela e em benefício para as estrangeiras.


Marina Silva demonstra ignorar o que é
a Idade do Petróleo, que lhe parece restringir-se à energia. Hoje o
petróleo está, e estará cada vez mais, por muito tempo, na liderança das
matérias-primas mais usadas no mundo. Os seus derivados estão na
indústria dos plásticos que nos inundam a vida, na produção química que
vai das tintas aos alimentos (pelos fertilizantes), na indústria
farmacêutica e na de cosméticos, na pavimentação, nos tecidos, enfim,
parte do homem atual é de petróleo. Apesar de Marina da Silva. Cuja
proposta para o petróleo significaria, em última instância, a carência e
importação do que o Brasil possui.


A Petrobras é o tema predileto de
Aécio Neves nos últimos meses. Não em ataque a possíveis atos e autores
de corrupção na empresa, mas à empresa, sem diferenciação. Que seja por
distraída simplificação, vá lá. Mas, além do que está implícito na
candidatura pelo PSDB, Aécio Neves tem como ideólogo, já anunciado para
principal figura do eventual ministerial, Armínio Fraga — consagrado
como especialista em aplicações financeiras, privatista absoluto e
presidente do Banco Central no governo Fernando Henrique, ou seja,
quando da pretensão de privatizar a Petrobras.


A propósito, no debate pela TV
Bandeirantes, Dilma Rousseff citou a tentativa de mudança do nome
Petrobras para Petrobrax, no governo Fernando Henrique, e atribuiu-a à
conveniência de pronúncia no exterior. Assim foi, de fato, a ridícula
explicação dada por Philipe Reichstuhl, então presidente da empresa. Mas
quem pronuncia o S até no nome do país, com States, não teme o S de
Petrobras. A mudança era uma providência preparatória. Destinava-se a
retirar antes de tudo, por seu potencial gerador de reações à
desnacionalização, a carga sentimental ou cívica assinalada no sufixo
“bras”.


Ainda a propósito de Petrobras, e
oportuno também pelo agosto de Getúlio, no vol. “Agosto – 1954″ da
trilogia “A Era Vargas”, em edição agora enriquecida pelo jornalista
José Augusto Ribeiro, está um episódio tão singelo quanto sugestivo.
Incomodado com o uso feroz da TV Tupi por Carlos Lacerda, o general
Mozart Dornelles, da Casa Civil da Presidência, foi conversar a respeito
com Assis Chateaubriand, dono da emissora. Resposta ouvida pelo general
(pai do hoje senador e candidato a vice no Rio, Francisco Dornelles):
se Getúlio desistisse da Petrobras, em criação na época, o uso das tevês
passaria de Lacerda para quem o presidente indicasse. De lá para cá, os
diálogos em torno da Petrobras mudaram; sua finalidade, nem tanto.


De volta aos projetos de governo,
Marina e Aécio desejam uma posição brasileira que, por si só, expressa
toda uma política exterior. Pretendem o esvaziamento do empenho na
consolidação do Mercosul, passando à prática de acordos bilaterais. Como
os Estados Unidos há anos pressionam para que seja a política geral da
América do Sul e, em especial, a do Brasil.


Em política interna, tudo se define,
igualmente para ambos, em dois segmentos que condicionam toda a
administração federal e seus efeitos na sociedade. Um, é o Banco Central
dito independente; outro, é a prioridade absoluta à inflação mínima
(com essa intenção, mas sem o êxito desejado, Armínio Fraga chegou a
elevar os juros a 45% em 1999) e contenção de gastos para obter o
chamado superavit primário elevado. É prioridade já conhecida no Brasil.


Pelo visto, Marina e Aécio disputam para ver quem dos dois, se eleito, fará o que o derrotado deseja.

sábado, 30 de agosto de 2014

Partido político, um negócio melhor que tráfico de drogas

Partido político, um negócio melhor que tráfico de drogas, por J. Carlos de Assis | GGN

Pastor Everaldo, aquele que se for eleito presidente vai vender a
Petrobrás para combater a corrupção, comprou no próprio nome o
PSC-Partido Social Cristão por R$ 20 milhões, a pedido e financiado pelo
então governador Garotinho, que queria ter uma legenda auxiliar na sua
candidatura à Presidência. Os dois brigaram algum tempo depois e o
pastor ficou com o partido apenas para si na condição formal de
vice-presidente. É negócio como poucos no Brasil. O investimento inicial
foi dinheiro desviado de obras públicas e, no caso do PSC, dá um
retorno só de Fundo Partidário a pequena fortuna de R$ 32 milhões
anuais.


De dois em dois anos, nos períodos de eleição, a fortuna partidária
cresce exponencialmente. Pastor Everaldo, como os donos de todos os
partidos que se coligam em eleições proporcionais ou majoritárias, vende
“seu” tempo de televisão para o líder da coligação. Às vezes a
negociação não se completa por causa da ganância. De fato, Pastor
Everaldo pediu ao PT R$ 20 milhões para se coligar com Dilma. A proposta
foi recusada porque pareceu um excesso. (Aliás, R$ 20 milhões foi o que
o PT na eleição de 2004 havia prometido a Roberto Jefferson, que disse
ter recebido apenas R$ 4 milhões. A cobrança da diferença gerou um
transtorno que veio a ser nacionalmente conhecido como mensalão!)


Indignado com a recusa do PT em comprar “seu” tempo na televisão para
a disputa majoritária, o bravo pastor decidiu ele mesmo, a despeito de
nunca ter tido cargo eletivo, lançar-se candidato nada menos do que à
Presidência da República. Isso não diminui em nada sua renda. É que ele
não tem só o Fundo Partidário e a venda de legenda para candidatura
majoritária como fonte de renda pessoal na qualidade de dono absoluto do
partido. O tempo de televisão é vendido também em todo o país para as
eleições majoritárias e proporcionais locais, e parte da receita,
milhões, vem para a presidência.



E não é só isso. O presidente do PSC em nível municipal contribui com
R$ 5 mil para o presidente da legenda no nível estadual. No Estado do
Rio, isso representa R$ 450 mil por mês. Desses, R$ 100 mil são
encaminhados religiosamente para o presidente nacional, a saber, para o
pastor Everaldo. E ainda não é só isso. Com o dinheiro do Fundo
Partidário e da venda da legenda para a propaganda eleitoral, o partido
nos últimos anos fez um considerável patrimônio imobiliário para suas
sedes e outros serviços. Tudo está em nome do presidente ou de laranjas.
O dinheiro reflui para o caminho certo, na forma de aluguéis, mês a
mês.


Alguém poderá perguntar: como um presidente de partido em nível
municipal consegue R$ 5 mil mensais para alimentar as caixas estadual e
nacional? Muito simples, ensina o pastor Everaldo: nas eleições, os
partidos “emitem” dinheiro, ou seja, bônus para contribuição por parte
de empresas e pessoas físicas os quais podem ser abatidos do imposto de
renda. Talvez você pergunte qual seria o interesse maior de uma empresa
ou de uma pessoa física em contribuir para um partido em época de
eleição, mesmo abatendo essa contribuição no imposto. Elementar, meu
caro Watson. Como o bônus é deduzido do imposto de renda, nada impede
que o “doador” compre 100 e o partido lhe devolva 50 na forma de dedução
do imposto de forma a que ele embolse pessoalmente os outros 50 sacado
diretamente do imposto pago ou a pagar.


O que estou contando é a história relativa a apenas um partido.
Foi-me relatada por quem a ouviu diretamente do pastor Everaldo. Não lhe
direi o nome, por enquanto, podendo revelá-lo em juízo na hipótese de o
pastor Everaldo me processar por difamação. Quanto aos demais partidos,
disse o que afirmou Marx em outro contexto: não investiguei os
detalhes, mas de te fabula narratur (a fábula trata também de
ti). Sim, porque todas as complexas negociações de alianças envolvendo
36 partidos políticos existentes no país, em época de eleição, é um
festival inacreditável de patifarias com privatização de dinheiro
público que acaba por financiar barbaridades inacreditáveis em tempo
pago pelo povo para se fazer, por exemplo, a “promessa” em tempo
nacional de televisão de vender a Petrobras.


Insista-se. O tempo de televisão que esses mercadores de legenda
vendem uns para os outros é bancado diretamente pelo povo, pois as
emissoras (e rádios) cobram as maiores tarifas pelo tempo de horário
nobre transcorrido na propaganda eleitoral e as rebatem diretamente do
imposto de renda. Aliás, é justamente porque isso se tornou uma fonte
fácil de negócios da mídia, em horário nobre apresentado como
“gratuito”, que praticamente não existe na imprensa crítica a esse
sistema absolutamente imoral. É esse sistema espúrio, não o voto
obrigatório, não a escolha entre parlamentarismo e presidencialismo que
deveria ser visado numa reforma partidário. A rigor, teria que ser
extinto, em nome da moralidade política brasileira. Do jeito que está é
uma indecência, um acinte ao povo, e um estupro contra a democracia
brasileira. Muitos se perguntam, ingenuamente, por que temos 36 partidos
políticos no Brasil. A resposta é simples: porque ter partido, quando
transformado em propriedade privada fora do controle de um diretório
autêntico, dá a seus donos mais dinheiro que tráfico de drogas, sem os
inconvenientes da ilegalidade.


J. Carlos de Assis - Economista, doutor em Engenharia de
Produção pela Coppe/UFRJ, professor de Economia Internacional da UEPB,
autor de mais de 20 livros sobre economia política brasileira.


A difícil tarefa diante de Dilma

Celulares na mão, jovens empurram Marina; a difícil tarefa diante de Dilma « Viomundo - O que você não vê na mídia

Celulares na mão, jovens empurram Marina; a difícil tarefa diante de Dilma

publicado em 26 de agosto de 2014 às 20:06
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pesquisa publicada no Estadão


por Luiz Carlos Azenha


Primeiro, as advertências: em 2012, por um bom tempo, Celso Russomano
acreditava estar a caminho de se eleger prefeito de São Paulo.


Recuando um pouco mais no tempo, nos anos 80, em São Paulo, eu
participei pessoalmente de um dos maiores vexames já dados no Brasil por
uma empresa de pesquisas. Da redação da Folha de S. Paulo, na
Barão de Limeira, anunciei pessoalmente, ao vivo, na TV Manchete, o
resultado da pesquisa de boca-de-urna do Datafolha que dava vitória de
Fernando Henrique Cardoso sobre Jânio Quadros na disputa pela Prefeitura
de São Paulo. Jânio venceu com 4% de vantagem. Narrei este episódio aqui.


O que quero dizer é que os quadros eleitorais são altamente fluidos e
que as pesquisas de opinião, pelo menos as que não são feitas de má fé,
também erram muito. Para ler sobre um pesquisa maldosa, de encomenda, feita para influenciar as eleições na Venezuela, clique aqui.


Dito isso, é preciso considerar que o Brasil é um país extremamente
provinciano. Todas as mais importantes emissoras de televisão do país
estão sediadas no eixo São Paulo-Rio de Janeiro. Assim é com os grandes
jornais. Com a academia, menos agora, mas USP, Unicamp e PUC do Rio
continuam ocupando um espaço desigual na formulação do pensamento
econômico. Os jornalistas dos aquários, porta-vozes dos patrões, formam
uma imensa panela, que fica exposta quando a Veja publica uma resenha elogiosa do livro de um jornalista da Globo, que retribui convidando o jornalista da Veja para uma entrevista na TV.


Todos pontuam desde estes supostos centros irradiadores de opinião
como se não houvesse mais Brasil. Outro Brasil. Muitos Brasis.


O ex-presidente Lula entendeu isso. Derivou da constatação a política
adotada por ele de distribuir para um maior número de veículos, de todo
o país, a publicidade oficial. Foi resultado disso, também, a ênfase
dele e, posteriormente, de Dilma, nas entrevistas às rádios do interior.


O erro dos estrategistas do Planalto foi não considerar que havia e
continua existindo uma matriz a partir da qual as notícias se disseminam
em território nacional: Organizações Globo, grupos Folha, Abril e
Estadão, muitas vezes atuando de forma conjunta. Como já escrevi
anteriormente — nadando contra a corrente, diga-se — as redes sociais
aumentaram, não diminuiram o poder destes grupos. Eles foram capazes,
por seu alcance, de mobilizar milhões de usuários das redes sociais para
reproduzir seu conteúdo, de graça. O contraponto da blogosfera também
se fortaleceu, mas em menor escala.


Há mais de dez anos estas grandes corporações investem no discurso
antipolítica. Este discurso as fortalece, na medida em que os barões da
mídia podem extrair maiores concessões da iniciativa privada e de todos
os poderes da República. Como? Por exemplo, atacando uma empresa que se
negue a fazer campanhas publicitárias. Atacando um governo que contrarie
interesses dos patrocinadores.Promovendo mutirões investigativos — como
o que assistimos contra a Petrobras — com o objetivo de obter lucro
direto ou indireto com a privatização do patrimônio público.


“Política é corrupção, todos os políticos são corruptos, o Congresso
deveria ser bombardeado” — estas ideias foram incorporadas quase que
naturalmente ao discurso dos brasileiros. O objetivo original do
consórcio midiático era, naturalmente, tirar do poder governos voltados
para reduzir a imensa desigualdade social do Brasil — ainda que cheios
de defeitos, montados sobre alianças esdrúxulas e com uma boa dose de
corrupção.


É fundamental, aqui, considerar o tratamento desigual dado aos casos
de corrupção: os mensalões do DEM e do PSDB, hoje, nem parece que
aconteceram, assim como o bilionário desfalque do trensalão em São
Paulo, sem considerar casos mais graves e remotos, como a criminosa
privatização da Companhia Vale do Rio Doce.


O fenômeno de Marina Silva é caudatário disso. Ela é a papisa da
antipolítica, que inclui mas não abrange apenas o antipetismo. A essa
altura, o fenômeno é semelhante à onda que levou Jânio Quadros a
derrotar o favorito pelo controle da Prefeitura de São Paulo, que
descrevi acima. Naquela ocasião, FHC contava com apoio majoritário e
algumas vezes escandaloso da mídia. Jânio não dava entrevistas à Globo,
por exemplo. Abertamente com ele, só a rádio Jovem Pan, que promovia
pesquisas não científicas, com entrevistas de pessoas nas ruas.
Pesquisas que, naturalmente, apontavam o petebista como provável
vencedor.


Ou seja, foi uma onda do boca-a-boca, fora dos meios de comunicação
convencionais, quase um protesto contra o partido que pretendia submeter
São Paulo “ao candidato da Sorbonne”, como dizia Jânio, quando ele era
produto legítimo do bairro de classe média baixa da Vila Maria.


Em 2010, eu estava em Manaus na véspera do primeiro turno das
eleições presidenciais, quando ainda havia dúvidas se Dilma venceria ou
não no primeiro turno. Estava em um lugar público quando testemunhei
jovens engajados em levar a eleição para o segundo turno. Todos falavam
em Marina. Era uma espécie de onda, de febre de última hora.


Em minha opinião, “fenômenos” como as manifestações de 2013 e ondas
eleitorais como a deste momento continuam pegando de surpresa os
próprios partidos, os “especialistas” e a “opinião publicada” por conta
da desconexão entre os Brasis a que me referi acima.


A mídia que nos “forma e informa”, com seus repórteres e articulistas
extremamente concentrados no eixo do Rio-São Paulo-Brasília, não
conhece ou demora a reconhecer o país dos jovens brasileiros, conectados
entre si por seus telefones celulares e facebooks, mas desconectados de
partidos, sindicatos e outras instituições.


Cerca de 35% do eleitorado brasileiro tem menos de 30 anos de idade. É
gente que não experimentou a ditadura militar na pele, tem vaga
lembrança da inflação descontrolada dos tempos de José Sarney no
Planalto, não viveu o desastre resultante da aventura de Fernando Collor
e seu Partido da Reconstrução Nacional (PRN).  É gente que, ainda que
tenha tirado proveito dos programas sociais do governo Lula — que
reduziram a desigualdade e promoveram o consumismo — fez isso de forma
despolitizada, em contato com as eleições quando muito através daquela
“chatice” que consideram a propaganda eleitoral obrigatória, de dois em
dois anos.


Estes jovens são politicamente voláteis, querem mudanças e, por conta
da habilidade com as redes sociais, exercem uma influência sobre o
eleitorado que nunca exerceram no passado. Na casa de dona Irla, em
Itapajé, no interior do Ceará — modesta, de três cômodos, que sempre
teve TV mas só agora tem geladeira de verdade — são os filhos conectados
à internet que trazem as informações para dentro de casa, para os mais
velhos da família. São eles que ensinam os pais a lidar com o celular e a
montar uma página no Facebook. São eles que trocam mensagens, links,
indicam vídeos e dizem que o filho do Lula é o dono da Friboi.


Estes jovens foram intensamente bombardeados pela propaganda
“antipolítica” em anos recentes. Talvez não saibam absolutamente nada
sobre os planos e projetos de Marina Silva, mas pouco importa. Ela é de
origem humilde, evangélica — sinal, para muitos, de que leva a religião a
sério — e, acima de tudo, “nova”, ainda não contaminada. É o voto de
protesto. É o “Cacareco” do século 21, aquele rinoceronte do zoológico
de São Paulo que recebeu um recorde de votos para a Câmara Municipal, no
final dos anos 50.


O curioso é que, diante de tantas pesquisas qualitativas,
milionárias, Dilma apareça com estes jovens de forma quase institucional
em sua propaganda, separada por grades, embora rompa a barreira
geracional com os selfies em que posa ao lado de muitos deles. Também é
curioso que Aécio Neves, que se pretende candidato da mudança, tenha
sido mostrado em seu primeiro programa de terno escuro, distante,
oficial, como se precisasse antes de tudo provar sua seriedade.


Quando convidei petistas a refletirem profundamente sobre a irupção
das ruas em 2013 — e não a criminalizá-la, atribuindo tudo a “coxinhas” —
era justamente no sentido de tentar entender o que move estes jovens.
Com certeza, é uma resposta complexa e repleta de nuances. Talvez nem a
propaganda eleitoral, nem os debates entre os candidatos, nesta campanha
de 2014, sejam suficientes para movê-los de forma maciça em outra
direção. Duvido que muitos deles estejam na audiência.


A eleição de 2014, como alertei no primeiro parágrafo, está longe de
ser definida. Quando muito, há tendências fortes: Dilma x Marina no
segundo turno parece uma forte possibilidade.


Nos Estados Unidos, em 2008, quando Barack Obama se elegeu pela
primeira vez, as novas tecnologias foram essenciais para promover a
“mudança na qual se pode confiar”, especialmente com a arrecadação de
campanha e a arregimentação de milhares de voluntários. Obama apostou
quase todas as fichas no entusiasmo e no idealismo da molecada.
Lembro-me que Obama fez mais de um evento de campanha em que se reunia
num anfiteatro, cercado por jovens, para compartilhar ideias e sugestões
com eles. Desceu da tribuna. Arregaçou as mangas. Ouviu. A ideia era se
desfazer da tradicional hierarquia que tanto afasta os mais jovens da
política institucional. Obama certamente frustrou muitos de seus
apoiadores iniciais. Mais tarde, revelou-se mais do mesmo.


No Brasil, o que me parece extremamente curioso é que nem Dilma, nem
Aécio, que exerceram cargos executivos simultaneamente, tenham se dado
conta das mudanças que, cada um a seu jeito, ajudaram a promover no
país, mudanças que alimentaram o desejo do novo dos que foram às ruas em
2013. Como disse Lula, sabiamente, quem experimenta mudanças quer mais e
melhor. É natural.


Às vezes parece que ambos, Dilma e Aécio, se acostumaram com ou foram consumidos pela política dos bastidores.


Temos, ainda, um longo mês de campanha pela frente. Quase com
certeza, outro tanto antecedendo o segundo turno. Pelo menos hoje, Dilma
e Aécio são candidatos a reviver, do lado perdedor, 1989. Para o
Brasil, com os mesmos riscos envolvidos 25 anos atrás.

Ironia avassaladora do destino: ‘caos aéreo’ atinge Marina Silva e Aécio Neves | CartaCampinas

Ironia avassaladora do destino: ‘caos aéreo’ atinge Marina Silva e Aécio Neves | CartaCampinas

O destino e suas ironias parecem ter tomado conta das eleições
presidenciais de 2014. Depois da morte de Eduardo Campos, que causou
grande surpresa e consternação, surge uma ironia avassaladora: o caos
aéreo dos adversários de Dilma Rousseff (PT).


Durante o governo de Dilma , ela foi criticada de forma veemente pela
imprensa e pela oposição de que o Brasil viveria um ‘caos aéreo’:
riscos de acidentes, lotação dos aeroportos, atrasos nos vôos, etc.
“Imagina na Copa”, era uma espécie de slogan do caos.


A avassaladora ironia é que o caos não se comprovou e, muito pior,
são os principais adversários que agora vivem de fato em uma situação de
‘caos aéreo’.  Estão em situação embaraçosa por causa, vejam só, de
avião.


O caos de Aécio Neves (PSDB) seria a construção de não um, mas de
duas belas pistas em dois aeroportos para uso particular em cidades
próximas de suas fazendas no interior de Minas Gerais. Uma fica na
fazenda do tio avô, que pede indenização milionária do governo de Minas,
ou seja, pede indenização ao povo mineiro. Detalhe, o aeroporto tem
cadeados. É uso exclusivo.


O caos de Marina Silva (PSB) parece ainda mais grave porque foi
ocasionado após a tragédia com Eduardo Campos. A compra do avião
totalmente irregular está sendo investigada pela Polícia Federal. A
suspeita é de que o avião que caiu em Santos e havia transportado Marina
Silva algumas vezes em campanha, foi comprado com laranjas pelo próprio
Eduardo Campos e sócios de um possível caixa 2 de campanha. Eduardo Campos testou a aeronave antes de comprar, dizem vendedores.


Por essas e outras, que surpresa ainda nos reserva o destino dessa eleição?

Retoque na maquiagem — CartaCapital

Retoque na maquiagem — CartaCapital

 por Mauricio Dias







publicado
30/08/2014 02:10


Acontecimentos inesperados, como o que se vê agora com a
presidenciável Marina Silva, não são um fenômeno decorrente do acaso ou
provocado pela força do destino. A surpreendente ascensão eleitoral dela
se dá por razões explicáveis, palpáveis, criadas antes e imediatamente
após o acidente fatal com Eduardo Campos.


Não há fenômenos na política como há fenômenos na natureza.
Resgatada do ostracismo, por cálculo
político da mídia conservadora, em duas semanas ela deixou de ser a
sombra de Campos e desarrumou uma eleição que parecia arrumada.
Atropelou a candidatura do tucano Aécio Neves e ameaça ultrapassar a petista Dilma Rousseff, com quem poderá disputar o segundo turno.
Uma parte do sucesso de agora foi
plantada após a chegada dela em Brasília, em 1995, já eleita senadora
pelo PT do Acre. Foi reeleita em 2003. Sustentou um discurso
ambientalista rigoroso. Provocou confrontos internos e externos.
Finalmente, rompeu com o governo Lula e com o PT ao se demitir do
Ministério do Meio Ambiente.
Marina sempre foi contra a
comercialização da soja modificada geneticamente. E reagiu à proposta de
transposição das águas do São Francisco. A permissão para a realização
das obras só foi dada após ela ter deixado o governo. São apena
s dois exemplos.
Ao se despedir do ministério, em 2008, já
tinha planos políticos e o olho na disputa da eleição presidencial de
2010. Concorreu pelo PV e perdeu. Recusou-se a apoiar, no segundo turno,
a petista Dilma ou o tucano Serra.
Foi uma fuga clara e transparente do processo político-eleitoral.
Marina é, teoricamente, a expressão de uma política que
não existe. Prega um comportamento quase calvinista. Nesse ponto ela é
um retrocesso social.
A mídia conservadora, antigovernista, fez dela um ícone.
E, para sacudir a base de administrações petistas, passou a fazer
marcação a aliados de Lula e Dilma.
Além da sucessão de denúncias contra políticos, às vezes
com razão e outras vezes sem sustentação, a mídia agia com sinais
indiretos de que o Brasil seria melhor se não houvesse o Congresso.
Quiçá também os políticos.
O caldo disso foi a fantástica
mobilização popular nos meses de junho e julho de 2013. Se o turbilhão
de manifestantes formasse um clube, haveria na porta de entrada a
divisa: “Político não entra”. Talvez alguém acrescentasse: “Exceto
Marina”.
Embalada por essas jornadas, ela passou a pregar uma
indefinida “nova política” e, para isso, mobilizou militantes fiéis para
criar um partido novo. Fracassou. Juntou-se ao PSB e tornou-se vice na
chapa do partido.
A morte de Eduardo Campos promoveu a ascensão dela.
Após isso, ela mudou. Amenizou o discurso
político mais agressivo e negou o que chamou de “lendas” sobre posições
políticas ambientais.
Nos debates, farejando uma possível
vitória, acentua que “em todos os partidos há quadros de qualidade”.
Nesse momento é mais ardilosa do que Eduardo Campos, que satanizava
nomes já satanizados como os de José Sarney, Renan Calheiros e Fernando
Collor, entre outros.
A nova Marina age como uma velha raposa. Não dá nome aos bois.
Assim agiam os políticos matreiros nos tempos da “velha política”.