sábado, 11 de março de 2017

Revolução francesa no Brasil

Revolução francesa no Brasil

Revolução francesa no Brasil

A
eleição de 2018 pode ser a derrubada da Bastilha. Mas as sirenes da
história impõe requisitos inéditos para isso.

por: Saul Leblon






reprodução




Limada
pelo bisturi conservador, a espantosa violência econômica imposta à
população brasileira nesse momento é confinada no calendário dos eventos
pré-golpe.


Algo que ‘passou’, martelam autoridades e seus autofalantes de aluguel e fé.

‘Culpa da Dilma’, sintetiza o decano da indignação seletiva da Folha, cuja argúcia econômica foi apurada em Davos.

É
assim que o colunismo isento esclarece uma nação afogada em desemprego
recorde, cuja indústria retrocedeu ao tamanho de 2009, o investimento
foi empurrado ao nível mais baixo em vinte e dois anos e a renda per
capital diminuiu 9% em relação a 2014, amarrotando o consumo no patamar
de 2011.


‘Culpa da Dilma’...
Uma guerra aberta de interesses naquela que talvez seja a transição de
ciclo de desenvolvimento mais profunda vivida pelo país, em meio à
deriva da ordem neoliberal no mundo, condensada na maior crise do
capitalismo depois de 1929, reduzida a isso.


Para
consertar ‘ a culpa da Dilma’ é preciso, primeiro, ‘purgar a
imundícia’, diz o martelete especializado em divulgar a economia como um
sistema hidráulico em equilíbrio, desde que dissociado da carne humana
enervada nos esqueletos dos pobres.


A
expressão é emprestada do presidente norte-americano Herbert Hoover,
que ocupou a Casa Branca nos primeiros quatro anos da quebradeira
iniciada em outubro de 1929.


O
esfarelamento econômico e social, então, era encarado pelo
contemplativo Hoover como uma ação autolimpante dos mercados, da qual o
Estado deveria manter distância.


O povo norte-americano foi salvo da faxina suicida por Franklin Roosevelt.

Quatro
anos depois de Hoover deixar uma sociedade convulsionada por
acampamentos de desemprego que acossavam a Casa Branca e precisavam ser
contidos pelo Exército, seu sucessor desativou a engrenagem infernal da
autorregulação dos mercados.


Trocou-a
por um poderoso programa de obras públicas e controle estatal do
mercado de dinheiro, logrando tirar a economia das mãos dos coveiros e
os chefes de famílias do cemitério do desemprego.



No caso brasileiro a ordem dos fatores alterou dramaticamente a soma do produto.

Aqui, ‘Herbert’ veio depois de ‘Franklin’.

Esse
instalou com a determinação de ‘purgar’ um ciclo de traços
rooseveltianos, ainda que imperfeitos, porque borrados de juros altos,
liberdade para a conta de capitais, câmbio valorizado e, sobretudo, seu
pecado capital: descaso com o papel fiador dos assalariados, do qual o
criador do New Deal norte-americano nunca se descuidou.


Mesmo
acusado de comunista pelo colunismo isento da época, Roosevelt não
abriu mão de promover a sindicalização em massa dos trabalhadores que
recuperaram seu emprego no New Deal.


Só assim o líder democrata resistiu a Wall Street e aos viúvos dos mercados desregulados.

No
Brasil, todo o aparato público, incluindo-se o judiciário e o
legislativo, mas também a mídia e os sindicatos dos patrões,
condensam-se no jato de um imenso wap de desinformação, ‘desinfecção’ e
des-emancipação, sem o contraponto organizado dos  principais alvos do
wap regressivo.


É disso que trata a faxina em curso.

Não de recuperar.

Mas de produzir ruínas.

Para soterrar com elas o pacto social desenhado na Carta de 1988.

E impor no seu lugar outro, oposto, sem a devida consulta à sociedade.

Na
linha do jato desinfetante encontram-se o pleno emprego, a maior
participação dos assalariados no fluxo da renda (mas não no estoque), o
espraiamento dos direitos sociais, a multiplicação das oportunidades
ascensionais pela educação, as iniciativas de afirmação cidadã e os
instrumentos endógenos de comando do desenvolvimento, como o pré-sal, o
BNDES, o banco dos Brics  e a Unasul.


Enfim,
a ‘imundícia’ toda que aguçou um conflito de classes protelado,
inicialmente, por um desequilíbrio fiscal e monetário decorrente da
elevada taxa de juro paga pelo Estado para tomar emprestado aquilo que
deveria ser taxado.


Era uma
corrida contra o tempo hipotecada na hipótese de uma recuperação
saneadora do comércio internacional, que afinal não veio.


Os efeitos colaterais dessa corrida para frente assumiriam,assim, contornos de novos círculos de ferro  cada vez mais estreitos.

Inclua-se
aí o custo desindustrializante do real valorizado para atenuar outra
expressão da escalada do conflito, a inflação, mitigada com importações.


Mas
também a asfixia do investimento público e privado no tríplice garrote
do juro alto, dos subsídios inúteis ao investimento produtivo num
ambiente rentista e do desequilíbrio progressivo nas contas externas.


Não, senhores colunistas, não estamos diante do cqd ‘da culpa da Dilma’.

O nome disso é luta de classes.

Condicionada,
no caso, por uma correlação de forças na qual a desorganização popular,
de um lado, e a reengenharia midiática, de outro, engessariam o poder
de iniciativa do governo.


A distinção é preciosa.

Não tanto para expor ao sol a toxidade da narrativa conservadora.

Mas,
sobretudo, para evidenciar os desafios –graúdos--  no passo seguinte da
luta pela construção de uma verdadeira democracia social no país.


‘A culpa da Dilma’, na verdade, camufla dois incômodos com uma só cajadada.

De
um lado, releva a força determinante da sabotagem golpista, que semeava
a ingovernabilidade já em 2013 para colher frutos nas urnas de 2014
--ou fora delas, se necessário, como foi.


De
outro, dribla a fragilidade crucial decorrente da ausência de
organização popular compatível com a transição de ciclo de
desenvolvimento vivida pelo país.


Mais que isso.

Coloca
as forças progressistas diante de uma realidade histórica com a qual
tem evitado se defrontar, mas que não poderá mais postergar na corrida
para 2018.


Não é uma referência nova: 1964 já o havia demonstrado.

Mas se reafirmou agora com virulência dos rebotes históricos, para sacudir a memória adormecida.

Ao
primeiro sinal de aguçamento da disputa pela riqueza, a elite
brasileira recusa-se terminantemente a discutir soluções coletivas para
os gargalos da sociedade e do seu desenvolvimento.


Opta pelo golpe em defesa do interesse unilateral.

Os fatos são autoexplicativos, mas não custa rememorar o abc dos mandatos históricos em nosso tempo.

A
verdade é que mesmo aquelas tarefas denominadas genericamente de
‘revolução democrática’, constituídas basicamente da universalização do
acesso aos marcos da civilização, não tem mais sujeito histórico nas
elites.


A liderança do
processo terá que ser assumida por uma frente política solidamente
capilarizada em organização popular de base, aliada a blocos de
identidades minoritárias, assentada em respostas à emergência climática,
à desigualdade alarmante nas esferas da riqueza e da tecnologia,
abraçada a novas formas de viver e de produzir e fortemente comprometida
em traduzir tudo isso numa desassombrada estratégia de inovação em
políticas públicas que, de fato, democratize  e valorize o bem comum.


Ou isso, ou a queda da Bastilha nunca ocorrerá por essas bandas.

Partidos
progressistas de massa e comitês de base espalhados por todo o país, se
existissem de fato, teriam impedido a reengenharia midiática de acuar a
nação na encruzilhada da falsa disjuntiva que hoje opõe a purga de
direitos ao caos econômico.


Houvesse
a organização requerida,  a alternativa crível ao desmonte seria a
taxação fiscal da riqueza, não a privação adicional cobrada da pobreza.


É
a consciência desse fio da navalha que explica a virulência recessiva
imposta à sociedade brasileira nesse momento, como um instrumento
funcional de desmobilização política e desarticulação ideológica
enfeixadas no grito de guerra conservador: ‘Culpa da Dilma’.


Ou
seja, um dos mais violentos programas de ‘des-emancipação’ social  já
registrados em tempos de paz e por um período tão longo de duas décadas
seguidas.


‘Significa que toda uma futura geração está condenada, o que é inaceitável’.

É
assim que o relator das Nações Unidas para Pobreza Extrema, Philip
Alston, qualificou a PEC do Teto, em dezembro do ano passado, antes
ainda dos desdobramentos atuais nas esferas da previdência e pensões
rurais, do salário mínimo e dos direitos trabalhistas (pela
terceirização).


Só uma
recessão diluviana poderia escorar um projeto de poder dessa natureza,
atado a vinte anos de concordata social, durante os quais os detentores
da riqueza –e agora do poder— avocam-se a prerrogativa de desativar todo
o aparato de direitos sociais e trabalhistas arduamente acumulados pelo
povo brasileiro desde Vargas.


A
abrangência e a brutalidade do que está em curso corresponde a uma
ruptura do pacto da sociedade --sem consulta-la, repita-se-- o que
dificilmente se completará sem atingir o núcleo duro das garantias
individuais, as liberdades civis e os direitos políticos.


Os
liberais que hoje se oferecem à barganha com o golpe, incluindo-se um
pedaço da classe média que supõe assim garantir suas ‘liberdades’
individuais, rapidamente serão afrontados pela violência de uma lógica
que tem na ganância do mercado, sobretudo financeiro, o único
compromisso sagrado de liberdade a preservar.


De
certa forma, o que se assiste hoje no Brasil, já se disse aqui, é a
viagem de volta ao cuore liberal reinante no ventre do capitalismo
selvagem dos séculos XVIII e XIX.  


O
termo ‘des-emancipação’, cunhado pelo filósofo marxista italiano,
Domenico Losurdo, descreve o moedor de carne humana em ação nesses
tempos pioneiros.


Mais que negar novos direitos, o que ressalta do bordão atual das reformas é a mesma determinação de ‘des-emancipar’.

Ou
seja, devolver ao absoluto desamparo a parcela majoritária da
sociedade, privada dos meios pelos quais se reproduziam as relações de
poder e produção no capitalismo.


É
disso que se trata no caso das reformas trabalhista e previdenciária
anunciadas pelo golpe no Brasil. O mesmo se pode dizer das consequências
da PEC 55 no acesso a direitos públicos essenciais  --a escola e a
saúde, entre  outros.


O
conjunto requer uma ruptura de ciclo histórico para se instalar. Mais
que um golpe parlamentar, o regime da ‘des-emacipação ‘ no século XXI
exige a fascistização dos instrumentos de Estado.


A
escalada policial de um Ministério Público e de um juiz que assombram a
cidadania brasileira ao subordinarem o Estado de Direito a
conveniências partidárias ilustra o calibre da espiral em marcha.


Dela
não escapará a classe média. Hoje simpática ao regime, amanhã será ela
também tragada no arrastão de direitos e escolhas individuais, pela
anemia das instituições e a desativação de sistemas regulatórios
imiscíveis com a supremacia dos mercados entregues a sua própria lógica.


A
lavagem ideológica promovida pela reengenharia midiática inocula na
sociedade a anestesiante ampola da naturalização de uma ruptura que hoje
a imobiliza, amanhã a escravizará.


A
receita do Estado mínimo suprime do arsenal público não apenas as
regulações que asseguram os diferentes espaços de escolha e liberdade,
como a estabilidade da taxa de investimento na economia.


Sem
financiamento público, grandes obras e orçamentos sociais, o futuro do
mundo do trabalho, inclusive o da classe média, insista-se, será
debulhado num angu de terceirizações, precariado e ‘bicos’, que podem
até receber denominações em inglês, mas nem por isso serão outra coisa
que não o declive social depressivo e aterrador.


Esse
é o preço oculto naquilo vendido pela mídia nesse momento como o repto
redentor ao lulopopulismo. Ou seja, uma subordinação escravizante do
desenvolvimento, da democracia, da política e demais instancias da
sociedade –inclusive a subjetividade do nosso tempo, aos impulsos
irrefletidos dos mercados ordenados pelo retorno especulativo
incompatível com a sobrevivência da economia, da sociedade e da
natureza.


A estagnação atual
nas economias ricas deveria servir de alerta ao evidenciar a falta que
faz tudo aquilo que  a democracia e o Estado cederam ao mercado nessas
sociedades nos anos de apogeu do neoliberalismo  


É
nesse deserto do real que o conservadorismo brasileiro se inspira para
golpear a democracia e reproduzir aqui receita que estrebucha no
planeta.


O que as
ressurgências do capitalismo selvagem oferecem  à classe média
brasileira agora–como o fazem os ideólogos da terceirização e da
prevalência do negociado sobre o legislado na CLT--  é a premiação do
mérito individual sobre o direito social universal.


A
platitude baseia-se na crença de que a construção da sociedade é movida
pelo interesse  egoísta extrapolado, mecanicamente, na rudimentar
ilação de que a luta individual pela felicidade leva ao fastígio
coletivo.


Aclamados
pensadores liberais, como Adam Smith, condicionavam na verdade a
centralidade do interesse próprio à irrepreensível obediência a
referências morais e religiosas.


Esse corpo moral percorreria um trilho ético rigoroso, rumo a uma comunidade de laços e valores impecavelmente compartilhados.

Nesse ambiente sacro o papel profano do Estado seria mínimo.  

No capitalismo realmente existente as coisas se dão de forma algo diversa.

Não
é difícil –aliás é muito fácil— deduzir o resultado da supremacia do
interesse egoísta em sociedades nas quais, ao lado da luta desesperada
de milhões de indivíduos desvalidos, avultam  interesses corporativos
desmesurados, sobretudo aqueles cujo produto é o dinheiro, sua
reprodução e as suas consequências.


A crise do nosso tempo é obra dessa assimetria leonina, vendida aqui como solução.

A
inexcedível capacidade das grandes corporações submeterem indivíduos
atomizados deixa pouco espaço à acomodação espontânea dos interesses
contrapostos em uma sociedade onde tudo, rigorosamente tudo, passa a ser
objeto de compra, venda e lucro.


Não há mais espaços sagrados.

Ou a regulação democrática impõe limites a sede do capital, ou a sociedade toda desidratará em servidão e catatonia.

É
sob esse pano de fundo que a ‘des-emancipação’ toca as trombetas do
apocalipse social no Brasil, cujo Estado foi assaltado pelos mordomos
dos mercados.


A marcha dos acontecimentos não mente.

A estratégia de ‘des-emancipação’ não se satisfará em extorquir uma década de ganhos reais de poder de compra dos salários.

A
faxina requerida é tão virulenta que convoca o árduo trabalho do
escovão repressivo e do detergente ideológico para dissolver qualquer
traço de resistência indevidamente alojado em estruturas de produção,
consumo, serviços, meio ambiente e participação política.


As sirenes da história anunciam confrontos intensos no front da liberdade e da economia.

A eleição de 2018 pode ser a derrubada da Bastilha.

Mas
para isso as forças progressistas terão que se convencer, de uma vez
por todas –e convencer parte da classe média--  que direitos clássicos
das revoluções burguesas do século XVIII, hoje, só tem viabilidade
amarrados a uma poderosa alavanca de organizações sociais, que
subordinem a força criativa dos mercados aos projetos, metas e direitos
pactuados pela democracia.


Revolução francesa no Brasil é igual a Lula comitês de base.

Ou isso, ou a restauração em curso.

Com a violência  neoliberal ungida em Imperador do Brasil.

Snowden descreve descoberta de supostas ferramentas de espionagem da CIA como 'grande preocupação' - Carta Maior

Snowden descreve descoberta de supostas ferramentas de espionagem da CIA como 'grande preocupação' - Carta Maior



Snowden descreve descoberta de supostas ferramentas de espionagem da CIA como 'grande preocupação'

'Aquela smart TV da Samsung? A CIA pode ligar o microfone e
ouvir tudo o que você fala', WikiLeaks





Nika Knight, Common Dreams




getty





O
WikiLeaks, na terça-feira, divulgou uma coleção de documentos da CIA
chamados pela expert em segurança, Jessalyn Radack, como “na mesma
categoria, os maiores vazamentos de informações confidenciais pelos
denunciantes Chelsea Manning e Edward Snowden”.


 

De
fato, o próprio Snowden descreveu o vazamento como “realmente, uma
grande preocupação” no Twitter. “Parece autêntico” adicionou o
denunciante da Agência de Segurança Nacional (NSA). O New York Times
também descreveu a autenticidade dos documentos como “provável”.


 

O Times ainda descreveu as revelações bombásticas incluídas nos documentos vazados:

 

 
       Dentre outras revelações que, se confirmadas, abalariam o mundo
da tecnologia, o vazamento do Wikileaks disse que a CIA e serviços de
inteligência aliados conseguiram ultrapassar as criptografias em
serviços de mensagens populares como o Signal e WhatsApp, e o Telegram.
De acordo com a declaração do Wikileaks, hackers do governo podem
invadir Androids e coletar “áudio e tráfego de mensagens antes da
criptografia ser aplicada”.


 

A
divulgação de terça-feira dos documentos é a primeira parte de uma
série, escreveu o WikiLeaks em declaração à imprensa. Essa primeira
parcela, entitulada “Ano Zero”, contém “8,761 documentos e arquivos de
uma rede isolada de alta segurança situada dentro do Centro da CIA de
Cyber Inteligência em Langley, Virgínia”, de acordo com o WikiLeaks.


 

“O
arquivo parece ter circulado entre hackers do antigo governo dos EUA e
empreiteiros de maneira não autorizada, tendo um deles fornecido porções
do arquivo ao WikiLeaks”, escreve a organização de transparência,
notando que isso significa que o arsenal cibernético da CIA já foi
possivelmente compartilhado amplamente e de forma insegura.







 

O
WikiLeaks explica que “o ‘Ano Zero’ introduz o escopo e a direção do
programa global de espionagem da CIA, seu arsenal de malware e dezenas
de façanhas dia-zero armadas contra uma gama de produtos de companhias
dos EUA e da Europa como os iPhones da Apple, Androids da Google e
Windowns da Microsoft e até as TVs da Samsung, que podem ser
transformadas em microfones escondidos”.


 

De
fato, os documentos parecem confirmar os alertas de experts de
segurança e defensores da privacidade sobre os perigos das chamadas
tecnologias “smart”.


 

E
Snowden nota que os documentos demonstram que o governo dos EUA parece
estar pagando companhias de tecnologia para assegurar que seus produtos
permaneçam inseguros. “Uma imprudência indescritível”, ele tuitou:


 

“Os
relatos da CIA mostram a USG desenvolvendo vulnerabilidades em produtos
norte-americanos, e depois, intencionalmente, mantendo esses buracos
abertos. De uma imprudência indescritível.”


 

Ao
descrever o escopo do arquivo, o WikiLeaks detalha os poderes de
invasão da CIA – poderes que a própria CIA parece não ter mais controle,
de acordo com o vazamento:


 

 
         Desde 2001, a CIA ganhou proeminência política e orçamentária
na NSA. A CIA se encontrou construindo não somente sua famosa frota de
drones, mas também um tipo diferente de força secreta, global – sua
própria frota de hackers. A divisão de hackers da agência a liberou de
ter que revelar suas operações controversas à NSA (sua principal rival
burocrática) de modo a tirar vantagem das capacidade de hacking da NSA.


 

 
         No final de 2016, a divisão de hackers da CIA, que está sob o
comando do Centro de Cyber Inteligência (CCI), tinha mais de 5000
usuários registrados e havia produzido mais de mil sistemas de invasão,
vírus, trojans e outros malwares “armados”. Tal é a escala do
empreendimento da CIA que, em 2016, seus hackers utilizavam mais códigos
do que os necessários para rodar o Facebook. A CIA havia criado sua
“própria NSA” com menos responsabilidades e sem responder publicamente à
questão sobre se seria justificável esse gasto orçamentário massivo
para duplicar as capacidades da agência rival.


 

“Em
uma declaração para o WikiLeaks”, a organização adiciona, “a fonte
detalha questões políticas que, segundo eles, precisam urgentemente ser
debatidas em público, incluindo se as habilidades de invasão da CIA
excedem seus poderes e o problema do esquecimento do público em relação à
agência. A fonte deseja iniciar  um debate público sobre a segurança,
criação, uso, proliferação e controle democrático das armas
cibernéticas”.


 

“Uma
vez que uma única ‘arma’ cibernética é ‘solta’, pode se espalhar ao
redor do mundo em segundos, para ser usada por estados rivais, pela
máfia cibernética e hackers adolescentes”, nota o WikiLeaks.

Jornalista da Folha descobre que MBL dissemina mentiras

Jornalista da Folha descobre que MBL dissemina mentiras - O Cafezinho

O  premiado jornalista Gilberto Dimenstein descobriu que umas das
fontes mais prolixas de notícias falsas, na internet brasileira, é o
MBL, o “movimento social” patrocinado pelo PSDB.


Bom saber.


Faltou talvez Dimenstein admitir que o exemplo foi dado pela grande
imprensa, como Folha, onde ele mesmo trabalha, que publicou certa feita
uma ficha falsa de Dilma Rousseff. Pega na mentira, a Folha saiu-se com
um clássico da pós-verdade
(e acho que, na época, ainda nem se usava muito esse termo): “a
autenticidade [do documento]  não pode ser assegurada, bem como não pode
ser descartada”.


Estou dando apenas um exemplo: a tradição de pós-verdade da mídia corporativa, hoje, é uma rotina diária.


Naturalmente, a mídia é muito mais competente, em produção de mentiras, do que o MBL e sites como o “Jornalivre”.


Outra coisa interessante: Dimenstein também parece ter esquecido que a
Folha, onde ele trabalha, passou todo o período de construção do golpe
tratando o MBL como um movimento social muito importante. O jornalista
não quis ligar os pontos: que o mesmo MBL, tão importante para dar ao
impeachment um colorido de “movimento de rua”, sempre abusou da mentira
para confundir o debate público.


O Fernando Holiday, que Dimenstein descobriu agora ser um mentiroso
contumaz, inaugurou diversas ações genuinamente fascistas na Câmara de
Vereadores de São Paulo, como invadir reuniões alheias, apenas para
provocar, tentando obter alguns segundos de vídeo que lhe permitisse
produzir um simulacro de realidade. (simulacro de realidade é também
conhecido popularmente como “mentira”).


Ao final do texto, o jornalista ainda comete uma pequena – quase
inocente – sabujice, mas que também é típica de nossos tempos de
intolerância política: diz que essa “canalhice” acontece à esquerda e à
direita. A observação me fez imaginar um jornalista, após descobrir que o
monstro da Noruega que assassinou dezenas de jovens era próximo de
organizações de extrema-direita, terminasse sua reportagem ressaltando
que essa “canalhice acontece à direita e à esquerda”.


***





No Comunique-se

Minha descoberta sobre notícias falsas – por Gilberto Dimenstein


Um dos temas mais importantes – talvez o mais importante – das mídias
hoje é a disseminação de notícias falsas pelas redes sociais. Algumas
das melhores cabeças do mundo estão buscando soluções. O que se tem de
concreto é o seguinte: o jornalismo está em alta justamente por ter como
missão (muitas vezes não consegue) buscar um mínimo de precisão.


Quero compartilhar aqui minha investigação – e certamente vai ajudar
os mecanismos de combate à falsidade. Dirigentes do MBL (talvez por
serem muito jovens e não saberem que eu, como repórter, ganhei os
principais prêmios dentro e fora do Brasil por minhas reportagens
investigativas) começaram a disseminar contra mim notícias obviamente
mentirosas. Deixei correr para descobrir as pistas, sabendo que, por
inexperiência, rastros seriam deixados.


Vi, então, que um dos disseminadores das mentiras é o líder do MBL,
Fernando Holiday. Numa conversa telefônica (gravada), ele me revelou que
o texto não era dele. Mas “concordava”. Perguntei-lhe, então, já que
ele tinha tanta certeza, qual era sua fonte de informação. Revelou:
Jornalivre.


Bastava ele dizer para mim: “peço desculpas, fui induzido a erro”.
Tudo teria acabado aí. Não: com mais ferocidade, ele gravou um vídeo
reafirmando todas as acusações. Achei estranho. Como estudante de
Direito, ele deveria desconfiar de sua fragilidade numa ação de
indenização por danos morais. Essa ferocidade aguçou minhas
desconfianças.


Pode-se acusar Holiday de qualquer coisa. Menos de burro. Ele tem, no
seu universo, uma trajetória de sucesso: venceu as barreiras criadas
por ser pobre, negro e gay. Nesse ponto, admito, eu até o admiro. E,
sinceramente, apesar de ele ter ideias muito diferente das minhas,
também aprecio quem se dispõe a lançar debates contra a corrente – acho
que esse tipo de provocação ajuda uma reflexão coletiva.


Por que ele insistiria em manter falsidades que daria para desmontar
em 30 segundos? Ele escreveu, por exemplo, que eu tenho um “boteco” na
Vila Madalena. Fiz um desafio nas redes sociais que chamou a atenção de
centenas de milhares de pessoas: quem provar que eu tenho esse tal
“boteco” pode ficar com o imóvel. Gerou então uma caça à comprovação.


Sabia que, ao fazer o desafio, rastros seriam deixados pelos
responsáveis dessa engrenagem de fake news para provar que seria mesmo
um “boteco”. Perfis falsos começaram a surgir usando o mesmo estilo de
escrita de pessoas que eu já conhecia.


Comecei a investigar o Jornalivre que, recentemente, saiu numa lista
de sites falsos. O site não é registrado no Brasil. Até aí, ok. Não tem
expediente. Nem contato. Fui mais longe e colhi fortes indícios de que a
fonte original é um publicitário de uma grande agência de publicidade
brasileira, banido desta página por ser um hater. Descobri comunicação,
via redes sociais, entre esse publicitário e dirigentes do MBL. Quando
tiver as provas materiais, darei o nome. Vocês vão ficar surpresos em
saber que alguém assim ocupa um cargo tão importante numa agência tão
importante.


Como um site que não tem expediente – ou seja, um responsável – pode
ser fonte confiável? Ainda mais para um homem público? Assim se vê a
trilha. Monta-se um site falso, impossível de responsabilizar alguém – e
uma rede dissemina.


Aviso: essa canalhice digital ocorre à esquerda e à direita.

Temer apagou dados da transposição

Dilma diz que Temer apagou dados da transposição de forma "irresponsável e criminosa" - Viomundo - O que você não vê na mídia



Dilma diz que Temer apagou dados da transposição de forma “irresponsável e criminosa”

09 de março de 2017 às 12h28






Captura de Tela 2017-03-09 às 12.26.02


Os tucanos são notórios picaretas: Serra inventou uma espécie de
“aqueduto” no Nordeste durante sua campanha, Aécio detonou a
transposição fora de contexto e o Alckmin foi faturar deixando para
trás, no rio Tietê,  mentiras que mesmo os paulistas conseguem enxergar.
Já o usurpador tentou apagar a memória!



A INTEGRAÇÃO DO SÃO FRANCISCO É OBRA DE LULA E DILMA


da assessoria de Dilma Rousseff


Mais importante obra de infraestrutura realizada no Nordeste em toda a
história da República, o projeto de integração do São Francisco
finalmente começa a levar água às regiões mais carentes do semiárido
brasileiro. Mas, diferentemente do que tenta fazer crer jornalistas da
imprensa nacional, e mesmo o ilegítimo governo de Michel Temer, a obra
jamais esteve paralisada durante a gestão de Dilma Rousseff. Foi
iniciada no governo Lula, ainda em 2007, e teve quase sua totalidade
construída e concluída no governo da ex-presidenta.


Esse projeto, sonhado ainda nos tempos de Dom Pedro 2º, desprezado
por Fernando Henrique Cardoso, e que só saiu do papel nos governos do
PT, vai garantir água a 12 milhões de habitantes que vivem em 390
municípios dos estados de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do
Norte. No total, o projeto tem 477 km de extensão, organizados em dois
eixos de transferência de água: Norte e Leste. A obra engloba a
construção de nove estações de bombeamento, 27 reservatórios, quatro
túneis, 13 aquedutos, nove subestações de energia e 270 km de linhas
transmissão.


A oposição de outrora comemora como se fosse um feito do governo
Temer a chegada da água no sertão, noticiada no final de semana.
Mentira. O projeto só não foi entregue por Dilma porque os setores mais
atrasados da política brasileira, aliados às parcelas mais indignas da
imprensa nacional e as velhas oligarquias, além de conservadores e
políticos oportunistas – do PSDB e DEM e muitos do PMDB – arquitetaram e
promoveram o Golpe de 2016. De maneira anti-democrática, esses setores
retiraram do governo a presidenta eleita por 54,5 milhões de votos em
2014, usando como pretexto um impeachment baseado em inexistente crime
de responsabilidade.


Em 6 de maio do ano passado, antes, portanto, do seu afastamento da
Presidência, Dilma visitou o Reservatório Terra Nova e a Estação de
Bombeamento (EBI-2), do Eixo Norte, em Cabrobó (PE). Os jornais cobriram
de maneira tímida a visita. A opção, claro, foi sobre o que Dilma disse
em seu discurso sobre o processo de impeachment, cuja comissão acabava
de ser instalada pelo Senado Federal. A cobertura pode ser conferida na
Folha, no G1 ou, por exemplo, no Jornal do Commercio, de Pernambuco.


OS FATOS E NÚMEROS


Com investimento previsto de R$ 9,6 bilhões do Orçamento da União, o
projeto de integração do São Francisco teve, até abril de 2016, R$ 7,95
bilhões executados com dinheiro do Orçamento da União. Isso significa
que nada menos do que 86,3% da obra estavam concluídos até abril do ano
passado, quando havia 10,3 mil trabalhadores nos canteiros das obras.


Captura de Tela 2017-03-09 às 12.15.26


Eixo Norte do Projeto de Integração do São Francisco.
Dados atualizados até abril de 2016. (Fonte: Ministério da Integração
Nacional)



Com 260 km de canais, o Eixo Norte do projeto (quadro acima) teve
87,7% de execução concluídos até abril de 2016. Em Pernambuco, os
municípios diretamente beneficiados foram Cabrobó, Mirandiba,
Parnamirim, Salgueiro, Terra Nova e Verdejante. No Ceará, as cidades
beneficiadas foram Barro, Brejo Santo, Jati, Mauriti e Penaforte. Na
Paraíba, Cachoeira dos Índios, Cajazeiras, Monte Horebe e São José de
Piranhas. E, finalmente, na Bahia, os municípios de Abaré e Curaçá.


Captura de Tela 2017-03-09 às 12.15.39

Eixo Leste do Projeto de Integração do São Francisco. Dados
atualizados até abril de 2016. (Fonte: Ministério da Integração
Nacional)



Já o Eixo Leste, com 217 km de canais, teve até abril do ano passado
84,4% de suas obras executadas. Em Pernambuco, os municípios diretamente
beneficiados foram Betânia, Custódia, Floresta, Petrolândia e Sertânia.
Na Paraíba, a cidade de Monteiro foi a beneficiada pelas águas.


Estes são os fatos. Tais números podem ser conferidos no sumário executivo (anexo),
que estava disponível no site do Ministério da Integração Nacional até
maio do ano passado, antes de ser apagado, de maneira irresponsável e
criminosa, pelo governo ilegítimo de Michel Temer.

Um processo para condenar sem provas

Batochio: Como no Brasil de hoje se "monta" um processo para condenar sem provas - Viomundo - O que você não vê na mídia



Batochio: Como no Brasil de hoje se “monta” um processo para condenar sem provas

09 de março de 2017 às 12h45

 











Direito de defesa em processo politizado


“Quand les délateurs sont récompensés,

on ne manque plus de culpables”

Malesherbes




por José Roberto Batochio*, no Estadão


A sentença, segundo elementar princípio da Teoria Geral do Processo e
dogma do processo penal civilizado, é o epílogo, o desfecho de toda
ação judicial. Trata-se da síntese resultante da necessária conflagração
dialética entre a tese acusatória e a antítese defensiva, estruturadas à
vista da prova recolhida nos autos.


A partir da notícia da ocorrência de uma infração penal realizam-se
investigações, empreendem-se diligências, ouvem-se indiciados e
testemunhas, oferecem-se denúncias, apresentam-se contraposições
defensivas, colhem-se provas perante o juiz da causa, postulam-se
condenações e absolvições e somente então têm lugar as decisões que
rechaçam a imputação ou punem os acusados. Esse democrático e secular
ritual sofre radical inversão, ou, como diz o povo, “é virado de
ponta-cabeça” nos processos impregnados de fatores político-partidários
ou disputas ideológicas.


Nesses as fases procedimentais, com exceção da defesa, movem-se no
sentido inverso, é dizer, de trás para a frente. É a preconcebida
condenação, e não a isenta apuração de um fato delituoso, que motiva,
orienta e subordina toda a sinergia processual. O inquérito policial é
dirigido não como uma apuração imparcial, mas como um encomendado e
irrevogável libelo incriminador de mão única, que só conduz a um e
inexorável resultado: a condenação ardentemente desejada.


Se constitui truísmo reafirmar que a sentença deve encerrar a
essência da verdade real dos fatos garimpados na instrução com o escopo
de formar o convencimento final do julgador, a apuração que isso precede
deve seguir o paradigma do método investigativo, ou seja, um imparcial
construto factual para a demonstração da materialidade e dos indícios de
autoria do delito. Os fatos têm de ser historicamente reconstituídos à
luz de evidências documentais, periciais, testemunhos, confissões, etc.,
vedada a prova ilícita. Mas, no “auto de fé” que constitui o processo
político, tal script é dramatúrgico: a regra é a de que nem é preciso
haver delito.


Para forjá-lo certos roteiristas (uma espécie de societas punitionis)
cuidam de inserir, como num filme ou romance histórico, achegas
ficcionais. As “provas condenatórias” são costuradas com a linha
imaginária do desejo (wishful thinking). Basta um anódino grão fático
para construírem seu castelo de areia (sem trocadilhos). Na sua falta,
recorrem à arte divinatória, com argumentos de dedução retórica do tipo
“talvez”, “só pode ser”, “tudo indica”, “disseram que disseram”. Aliás,
adivinhar tem sido um dom paranormal a mais exigido dos advogados desta
quadra brasileira, pois muitas vezes os inquéritos são secretos e o
investigado nem sabe de que é suspeito.


O processo desfigurado por paixões políticas é cediço nos regimes de
exceção, nas autocracias, mas pode vicejar na ambivalência das
conjunturas em que o Estado de Direito esteja vincado pela hipertrofia
da supremacia partidária, ideológica, ou pela intolerância de maiorias
sobre minorias. A causa política do mais forte subjuga o direito do mais
fraco. Urdem-se maliciosas tessituras normativas e, sobretudo,
praticam-se heterodoxias procedimentais para, em cumplicidade
autoritária, perseguir oponentes indesejáveis.


Mas, tal como a mulher de César, o disfuncional processo precisa
manter as aparências. O réu tem sempre direito de defesa, desde que
manejado para tentar provar a sua inocência – embora seja uma platitude
nas Cortes assinalar que o ônus da prova é do acusador. À acusação tudo
se permite, mas à defesa negam-se testemunhas, reperguntas, recursos,
diligências e perícias. Seu principal papel é apenas legitimar o
“julgamento”. Afinal, Alfred Dreyfus na França, em 1894, Sacco e
Vanzetti nos Estados Unidos, em 1927, e os bolcheviques perseguidos nos
Processos de Moscou, em 1936, tiveram defesa “ampla”… Mas seus
advogados, como todos os que oficiam em processos de conteúdo político,
realizaram o suplício de Sísifo, carregando paciente e incansavelmente
no lombo as evidências da inocência que a sentença pré-escrita teimava
sempre em lançar novamente morro abaixo…


À parte a caracterização política do processo, a ser feita fora dos
autos, a missão do advogado é realizar a defesa técnica de seu
constituinte. Seu breviário é a lei, sua oração é a lei, sua fé é a lei.
Às curvaturas do rito procedimental cabe-lhe esgrimir a retidão da
norma legal. O paradoxo é que em tais casos essa é a mais fácil e a mais
difícil de todas as lidas.


O defensor já entra em desvantagem por ver a presunção de inocência
substituída pela certeza preconcebida da culpa. Maneja a luz contra a
treva, o fato contra a ficção, a realidade contra a fantasia, mas pena
para demonstrar que ovo não tem pelo, jabuti não sobe em árvore, cavalo
não tem chifre – embora tais deformidades ilustrem certas peças de
acusação… É uma libertária porfia levada a efeito em estado de absoluta
solidão.


Advogado que compõe a banca de defesa do ex-presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, encurralado por seis processos políticos (com direito a
media trial e power point em horário nobre), empenhamo-nos em realizar
sua defesa técnica, em todas as instâncias, na esperança de que a
cascata persecutória dê lugar à fonte cristalina onde se possa saciar a
sede de justiça. A convicção que nos move é a manifestada pelo poeta
inglês John Milton, em 1644, na Areopagítica: “Deixemos que a verdade e a
falsidade se batam. Quem jamais viu a verdade levar a pior num combate
franco e livre?”.


*Advogado criminalista, ex-deputado federal pelo PDT-SP e ex-presidente do conselho federal da OAB

Depois de acusação

Depois de acusação em Curitiba, defesa de Lula usa fotos para sugerir que Moro é tucano - Viomundo - O que você não vê na mídia



Depois de acusação em Curitiba, defesa de Lula usa fotos para sugerir que Moro é tucano

10 de março de 2017 às 18h34






Tucano


As fotos mostram Moro com os tucanos Aécio Neves, Geraldo
Alckmin, João Dória, Adriana Vandoni (secretária de Estado de Mato
Grosso), Pedro Taques, Fernando Capez e Ascânio Seleme.



do Facebook do ex-presidente Lula


Hoje, o juiz Sergio Moro acusou a defesa de Lula de fazer “propaganda política” durante audiência em Curitiba.


Tudo porque os advogados do ex-presidente perguntaram às testemunhas
se Lula agia em nome dos interesses do Brasil durante seu mandato.


Mas as perguntas fazem todo sentido, afinal, o Ministério Público,
usando sua grande habilidade em fazer Power Points, acusou o
ex-presidente de se aproveitar do cargo para obter benefícios pessoais.


Mas talvez o mais curioso seja o fato de que uma acusação dessas tenha vindo de Moro.


Afinal, o juiz parece ser muito entendido em se tratando “propaganda política”. As imagens não deixam dúvidas.

domingo, 5 de março de 2017

Deus não morreu. Ele tornou-se Dinheiro". Entrevista com Giorgio Agamben

Instituto Humanitas Unisinos - IHU - "Deus não morreu. Ele tornou-se Dinheiro". Entrevista com Giorgio 

Agamben


"O capitalismo é uma religião, e a mais feroz, implacável e
irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção
nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o
trabalho e cujo objeto é o dinheiro", afirma Giorgio Agamben, em entrevista concedida a Peppe Salvà e publicada por Ragusa News, 16-08-2012.


Giorgio Agamben é um dos maiores filósofos vivos. Amigo de Pasolini e de Heidegger, Giorgio Agamben foi definido pelo Times e por Le Monde
como uma das dez mais importantes cabeças pensantes do mundo. Pelo
segundo ano consecutivo ele transcorreu um longo período de férias em Scicli, na Sicília, Itália, onde concedeu a entrevista.


Segundo ele, "a nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo
de governamentalidade que se define como democrática, mas que nada tem a
ver com o que este termo significava em Atenas".
Assim, "a tarefa que nos espera consiste em pensar integralmente, de
cabo a cabo,  aquilo que até agora havíamos definido com a expressão, de
resto pouco clara em si mesma, “vida política”, afima Agamben.


A tradução é de Selvino  J. Assmann, professor de Filosofia do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC.


Eis a entrevista.


O governo Monti invoca a crise e o estado de necessidade, e
parece ser a única saída tanto da catástrofe  financeira quanto das
formas indecentes que o poder havia assumido na Itáli. A convocação de
Monti era a única saída, ou poderia, pelo contrário, servir de pretexto
para impor uma séria limitação às liberdades democráticas?

“Crise”
e “economia” atualmente não são usadas como conceitos, mas como
palavras de ordem, que servem para impor e para fazer com que se aceitem
medidas e restrições que as pessoas não têm motivo algum para aceitar.
”Crise” hoje em dia significa simplesmente “você deve obedecer!”. Creio
que seja evidente para todos que a chamada “crise” já dura decênios e
nada mais é senão o modo normal como funciona o capitalismo em nosso
tempo. E se trata de um funcionamento que nada tem de racional.


Para entendermos o que está acontecendo, é preciso tomar ao pé da letra a idéia de Walter Benjamin,
segundo o qual o capitalismo é, realmente, uma religião, e a mais
feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não
conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja
liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro.  Deus não morreu, ele
se tornou Dinheiro.  O Banco – com os seus cinzentos funcionários e
especialistas - assumiu  o lugar da Igreja e dos seus padres e,
governando o crédito (até mesmo o crédito dos Estados, que docilmente
abdicaram de sua soberania ), manipula e gere a fé – a escassa, incerta
confiança – que o nosso tempo ainda traz consigo. Além disso, o fato de o
capitalismo ser hoje uma religião, nada o mostra melhor do que o titulo
de um grande jornal nacional (italiano) de alguns dias atrás: “salvar o
euro a qualquer preço”. Isso mesmo, “salvar” é um termo religioso, mas o
que significa “a qualquer preço”? Até ao preço de “sacrificar” vidas
humanas? Só numa perspectiva religiosa (ou melhor, pseudo-religiosa)
podem ser feitas afirmações tão evidentemente absurdas e desumanas.


A crise econômica que ameaça levar consigo parte dos Estados
europeus pode ser vista como condição de crise de toda a modernidade?



A crise atravessada pela Europa não é apenas um problema econômico,
como se gostaria que fosse vista, mas é antes de mais nada uma crise da
relação com o passado. O conhecimento do passado é o único caminho de
acesso ao presente. É procurando compreender o presente que os seres
humanos – pelo menos nós, europeus – são obrigados a interrogar o
passado.  Eu disse “nós, europeus”, pois me parece que, se admitirmos
que a palavra “Europa” tenha um sentido,  ele, como hoje aparece  como
evidente, não pode ser nem político, nem religioso e menos ainda
econômico,  mas talvez consista nisso, no fato de que  o homem europeu –
à diferença, por exemplo, dos asiáticos e dos americanos, para quem a
história  e o passado tem um significado completamente diferente – pode
ter acesso à sua verdade unicamente através de um confronto com o
passado, unicamente fazendo as contas com a sua história.


O passado não é, pois, apenas um patrimônio de bens e de tradições,
de memórias e de saberes, mas também e sobretudo um componente
antropológico essencial do homem europeu, que só pode ter acesso ao
presente olhando, de cada vez, para o que ele foi.  Daí nasce a relação
especial que os países europeus (a Itália, ou melhor, a Sicília,
sob este ponto de vista é exemplar)  têm com relação às suas cidades,
às suas obras de arte, à sua paisagem: não se trata de conservar bens
mais ou menos preciosos, entretanto exteriores e disponíveis; trata-se,
isso sim,  da própria realidade da Europa, da sua indisponível
sobrevivência. Neste sentido, ao destruírem, com o cimento, com  as
autopistas e a Alta Velocidade, a paisagem italiana, os especuladores
não nos privam apenas de um bem, mas destroem a nossa própria
identidade. A própria expressão “bens culturais” é enganadora, pois
sugere que se trata de bens entre outros bens, que podem ser desfrutados
economicamente e talvez vendidos, como se fosse possível liquidar e por
à venda a própria identidade.


Há muitos anos, um filósofo que também era um alto funcionário da Europa nascente, Alexandre Kojève, afirmava que o homo sapiens
havia chegado  ao fim de sua história e já não tinha nada diante de si a
não ser duas possibilidades: o acesso a uma animalidade pós-histórica
(encarnado pela american way of life) ou o esnobismo (encarnado
pelos japoneses, que continuavam a celebrar as suas cerimônias do chá,
esvaziadas, porém, de qualquer significado histórico). Entre uma América do Norte integralmente re-animalizada e um Japão que só se mantém humano ao preço de renunciar a todo conteúdo histórico, a Europa poderia
oferecer a alternativa de uma cultura que continua sendo humana e
vital, mesmo depois do fim da história, porque é capaz de confrontar-se
com a sua própria história na sua totalidade e capaz de alcançar, a
partir deste confronto, uma nova vida.

A sua obra mais
conhecida, Homo Sacer, pergunta pela relação entre poder político e vida
nua, e evidencia as dificuldades presentes nos dois termos. Qual é o
ponto de mediação possível entre os dois pólos?



Minhas investigações mostraram que o poder soberano se fundamenta,
desde a sua origem, na separação entre vida nua  (a vida biológica, que,
na Grécia, encontrava seu lugar na casa) e vida
politicamente qualificada (que tinha seu lugar na cidade). A vida nua
foi excluída da política e, ao mesmo tempo,  foi incluída e capturada
através da sua exclusão. Neste sentido, a vida nua é o fundamento
negativo do poder.  Tal separação atinge sua forma extrema na
biopolítica moderna, na qual o cuidado e a decisão sobre a vida nua se
tornam aquilo que está em jogo na política.  O que aconteceu nos estados
totalitários do século XX reside no fato de que é o poder (também na
forma  da ciência) que decide, em última análise, sobre o que é uma vida
humana e sobre o que ela não é. Contra isso, se trata de pensar numa
política das formas de vida, a saber, de uma vida que nunca seja
separável da sua forma, que jamais seja vida nua.

O
mal-estar, para usar um eufemismo, com que  o ser humano comum se põe
frente  ao mundo da política tem a ver especificamente com a  condição
italiana ou é de algum modo inevitável? 

Acredito que
atualmente estamos frente a um fenômeno novo que vai além do desencanto e
da desconfiança recíproca entre os cidadãos e o poder e tem a ver com o
planeta inteiro. O que está acontecendo é uma transformação radical das
categorias com que estávamos acostumados a pensar a política. A nova
ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governamentalidade
que se define como democrática, mas que nada tem a ver com o que este
termo significava em Atenas. E que este modelo seja, do
ponto de vista do poder, mais  econômico e funcional é provado pelo
fato de que foi adotado também por aqueles regimes que até poucos anos
atrás eram ditaduras. É mais simples manipular a opinião das pessoas
através da mídia e da televisão do que dever impor em cada oportunidade
as próprias decisões com a violência.  As formas da política por nós
conhecidas – o Estado nacional, a soberania, a participação democrática,
os partidos políticos, o direito internacional – já chegaram ao fim da
sua história. Elas continuam vivas como formas vazias, mas a política
tem hoje a forma de uma “economia”, a saber, de um governo das coisas e
dos seres humanos. A tarefa que nos espera consiste, portanto, em pensar
integralmente, de cabo a cabo,  aquilo que até agora havíamos definido
com a expressão, de resto pouco clara em si mesma, “vida política”.

O
estado de exceção, que o senhor vinculou ao conceito de soberania, hoje
em dia parece assumir o caráter de normalidade, mas os cidadãos ficam
perdidos perante a incerteza na qual vivem cotidianamente. É possível
atenuar esta sensação?


Vivemos há decênios num estado de
exceção que se tornou regra, exatamente assim como acontece na
economia  em que a crise se tornou a condição normal. O estado de
exceção – que deveria sempre ser limitado no tempo – é, pelo contrário, o
modelo normal de governo, e isso precisamente nos estados que se dizem
democráticos.  Poucos  sabem que as normas introduzidas, em matéria de
segurança, depois do 11 de setembro (na Itália já se
havia começado a partir dos anos de chumbo) são piores do que aquelas
que vigoravam sob o fascismo. E os crimes contra a humanidade cometidos
durante o nazismo foram possibilitados exatamente pelo fato de Hitler,
logo depois que assumiu o poder, ter proclamado um estado de exceção
que nunca foi revogado. E certamente ele não dispunha das possibilidades
de controle (dados biométricos, videocâmaras, celulares, cartões de
crédito) próprias dos estados contemporâneos. Poder-se-ia afirmar hoje
que o Estado considera todo cidadão um terrorista virtual. Isso não pode
senão piorar e tornar impossível  aquela participação na política que
deveria definir a democracia. Uma cidade cujas praças e cujas estradas
são controladas por videocâmaras não é mais um lugar público: é uma
prisão.

A  grande autoridade que muitos atribuem a
estudiosos que, como o senhor, investigam a natureza do poder político
poderá trazer-nos esperanças de que, dizendo-o de forma banal,  o futuro
será melhor do que o presente?

Otimismo e pessimismo não são categorias úteis para pensar. Como escrevia Marx em carta a Ruge: ”a situação desesperada da época em que vivo me enche de esperança”.

Podemos
fazer-lhe uma pergunta sobre a lectio que o senhor deu em Scicli? Houve
quem lesse a conclusão que se refere a Piero Guccione como se fosse uma
homenagem devida a uma amizade enraizada no tempo, enquanto outros
viram nela uma indicação  de como sair do xequemate no qual a arte
contemporânea está envolvida.

Trata-se de uma homenagem a Piero Guccione e a Scicli,
pequena cidade em que moram alguns dos mais importantes pintores vivos.
A situação da arte hoje em dia é talvez o lugar exemplar para
compreendermos a crise na relação com o passado, de que acabamos de
falar. O único lugar em que o passado pode viver é o presente, e se o
presente não sente mais o próprio passado como vivo, o museu e a arte,
que daquele passado é a figura eminente, se tornam lugares
problemáticos. Em uma sociedade  que já não sabe o que fazer do seu
passado, a arte se encontra premida entre a Cila do museu e a Caribdis da
mercadorização. E muitas vezes, como acontece nos templos do absurdo
que são os museus de arte contemporânea,  as duas coisas coincidem.


Duchamp talvez tenha sido o primeiro a dar-se conta do beco sem saída em que a arte se meteu. O que faz Duchamp quando inventa o ready-made
Ele toma um objeto de uso qualquer, por exemplo, um vaso sanitário, e,
introduzindo-o num museu, o força a apresentar-se como obra de arte. 
Naturalmente - a não ser o breve instante que dura o efeito do
estranhamento e da surpresa – na realidade nada alcança  aqui a
presença: nem a obra, pois se trata de um  objeto de uso qualquer,
produzido industrialmente, nem a operação artística, porque não há de
forma alguma uma poiesis, produção – e nem sequer o artista,
porque aquele que assina com um irônico nome falso o vaso sanitário não
age como artista, mas, se muito, como filósofo ou crítico, ou, conforme
gostava de dizer Duchamp, como “alguém que respira”, um simples ser vivo.


Em todo caso, certamente ele não queria produzir uma obra de arte,
mas desobstruir o caminhar da arte, fechada entre o museu e a
mercadorização.  Vocês sabem: o que de fato aconteceu é que um conluio, 
infelizmente ainda ativo, de hábeis especuladores e de “vivos”
transformou o ready-made em obra de arte. E a chamada arte contemporânea nada mais faz do que repetir o gesto de Duchamp,
enchendo com  não-obras e performances a museus, que são meros
organismos do mercado, destinados a acelerar a circulação de
mercadorias, que, assim como o dinheiro, já alcançaram o estado de
liquidez e querem ainda valer como obras. Esta é a contradição da arte
contemporânea: abolir a obra e ao mesmo tempo estipular seu preço.

Construtoras na Lava Jato

Construtoras na Lava Jato adotam práticas surgidas pós-Watergate para voltar ao mercado - Notícias - Política



Construtoras na Lava Jato adotam práticas surgidas pós-Watergate para voltar ao mercado

Guilherme Azevedo
Do UOL, em São Paulo
As grandes construtoras brasileiras envolvidas nos casos de corrupção investigados e revelados pela Operação Lava Jato
estão se apoiando num conjunto de práticas anticorrupção implementado
em decorrência do caso Watergate, nos Estados Unidos, a fim de recuperar
a imagem e a viabilidade econômica de seus negócios. Hoje, enquanto não
são finalizados acordos nas esferas administrativa e criminal, elas
encontram dificuldades de participar de novas concorrências e de se
financiar, por exemplo.

Uma palavra em inglês resume o
posicionamento dessas empresas: "compliance", que significa atuar em
conformidade com as normas. Essa disposição a práticas éticas de gestão
foi formalizada em 1977, nos Estados Unidos, dentro da lei geral
denominada FCPA (Foreign Corrupt Practices Act, que em inglês significa
Lei sobre Práticas de Corrupção no Exterior). A legislação foi gestada
em reação ao maior escândalo de corrupção da história norte-americana,
que provocou a renúncia do então presidente da República, Richard Nixon,
em 1974.

Esse conteúdo foi incorporado em grande medida à lei brasileira anticorrupção,
a lei 12.846, de 2013, em vigor desde 29 de janeiro de 2014, que prevê a
responsabilização objetiva de empresas que praticam atos lesivos contra
a administração pública nacional ou estrangeira.

Um dos
mecanismos de reparação previstos é o acordo de leniência, que as
grandes construtoras envolvidas na Lava Jato negociam com órgãos
públicos, assumindo crimes e se comprometendo a não mais cometê-los,
condição para voltar a negociar com o poder público. Entre as
recomendações, está a adoção de programas de compliance.




O que é compliance?

Manter políticas de conformidade (compliance) significa, na prática, a
criação de estrutura própria dedicada a isso e a adoção de uma série de
procedimentos para disciplinar relacionamentos e gerenciar riscos de
corrupção.

Um programa de compliance tem, normalmente, uma
diretoria com equipe teoricamente independente; um comitê de ética;
códigos de ética e conduta; processo formalizado para seleção de
fornecedores; e canais de atendimento geridos por auditorias
independentes, para a realização de denúncias.

As denúncias são
recebidas com o compromisso de manter os denunciantes anônimos, evitando
possíveis retaliações. A equipe de compliance tem então a missão de
apurar a procedência ou não da acusação e, em caso positivo, aplicar
sanções, que vão da advertência à demissão do profissional acusado.

Para pesquisador, Lava Jato não pegou tudo o que é antiético

Nas grandes empresas de construção pesada citadas na Lava Jato,
como a Odebrecht e a Queiroz Galvão, a implementação de políticas de
conformidade se transformou numa espécie de resposta formal à sociedade
(governos, clientes, sócios, acionistas, Justiça) de que será diferente
daqui por diante. Se é jogo de cena, só o tempo poderá dizer.


Quem é do mercado acredita que seja para valer. "Vai emergir um novo
mercado de construção de grandes obras no Brasil. Muitos já tinham
políticas de compliance e de ética, mas agora é real", afirma Petrônio
Lerche, diretor do Sinicon (Sindicato Nacional da Indústria da
Construção Pesada), entidade representativa das grandes da construção,
como Odebrecht, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão.


Marcos Melo, professor de finanças do Ibmec do Distrito Federal e
especialista no mercado de infraestrutura, frisa que o ambiente
empresarial do setor está se tornando "mais claro" com as políticas de
conformidade adotadas. "Se a companhia for eficiente, vai bem; se não
for, vai mal. É melhor assim. Há um desejo geral de que as coisas fiquem
mais límpidas e transparentes. Apesar de todo o problema [provocado
pelas investigações], um ambiente mais claro favorece a todos."


No SindusconSP (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de
São Paulo), que representa as pequenas e médias empresas paulistas de
construção, uma série de ações, nos dois últimos anos, tem estimulado
seus associados a implantar políticas mais rígidas de controle ético. "É
o legado que fica [da Operação Lava Jato]. Em muitas empresas as normas
já existiam informalmente, mas agora tudo ficou formalizado", diz o
presidente da entidade, José Romeu Ferraz Neto.

"Esse movimento
dessas empresas atualmente parece mais um mecanismo para tentar fornecer
ao público e a investidores a aparência de novas práticas
institucionais do que de fato uma mudança radical de postura", diz o
historiador Pedro Campos, da Universidade Federal Rural do Rio de
Janeiro e autor do livro "Estranhas Catedrais: As Empreiteiras
Brasileiras e a Ditadura Civil-Militar", em que esmiúça as relações
promíscuas entre governos militares e empreiteiros com o golpe e o
regime posterior a 1964.

"É importante salientar que o uso de
artefatos ilegais e todo um conjunto de procedimentos antiéticos por
parte dessas e outras empresas não se resume ao que vem sendo
investigado pela Operação Lava Jato", ressalta Campos.

Segundo o
pesquisador, boa parte das empreiteiras brasileiras possui práticas de
cartel que remetem a períodos de muitas décadas atrás, sendo a própria
regra de um jogo que tem sempre os mesmos vencedores. "Algumas dessas
empresas estiveram envolvidas na organização do golpe de Estado de 1964.
Elas foram intensamente beneficiadas pela ditadura, com políticas como
reserva de mercado, direcionamento do orçamento para as suas atividades,
realização das obras faraônicas no período, além de isenções fiscais e
financiamentos facilitados a juros baixos."





Para Luiz Marcatti, diretor
da MESA, consultoria especializada em governança corporativa que tem
auxiliado uma das grandes denunciadas na Lava Jato, a incorporação
efetiva de melhores práticas vai depender da sinceridade e da
intensidade do engajamento do "andar de cima": "Essa mudança terá maior
chance de êxito quanto mais forte for o exemplo dado pelos acionistas e
pela alta administração das empresas. Só assim as mudanças poderão criar
raízes profundas", afirma o consultor.

"A pressão por lucros
sempre haverá, mas precisa ser mantida viva a consciência de uma atuação
que alcance lucros que tragam sustentabilidade e longevidade às
empresas, o que só é possível atuando dentro da lei."

Construtoras criaram departamentos e formalizaram práticas

Nas grandes construtoras, o movimento recente de compromisso com a
ética, contra a corrupção, se iniciou mais ou menos no fim de 2013,
impulsionado pela promulgação da lei anticorrupção brasileira, ganhou
corpo em 2014 e se efetivou formalmente nos anos de 2015 e 2016,
pressionado pela Lava Jato, com a criação de departamentos e diretores
para a área e sistematização de documentos e práticas.

O UOL conversou
diretamente com quatro dessas grandes empresas, Odebrecht, Camargo
Corrêa, Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão, em tratativas com órgãos
competentes no âmbito da Lava Jato, e quem está no comando assegura que a
mudança veio para ficar. Essas empresas dizem ter hoje os componentes
exigidos das políticas de compliance em vigor.

Entre outras
medidas, a área de compliance da Queiroz Galvão mapeou, para cada
público de interesse da empresa (governos, fornecedores, clientes etc.),
os potenciais riscos a que a companhia poderia estar exposta e para
cada um tomou uma ação e promoveu melhorias, implementou políticas e fez
treinamentos. 
 
Na construtora Andrade
Gutierrez, desde 2014 foi lançado o código de ética e conduta da
companhia e a norma de relacionamento específico com o poder público,
instituída a diretoria específica para a área de conformidade e criado
um comitê de ética, além de reformulados os processos de contratação de
fornecedores e de gestão de pagamentos.
 
A
Camargo Corrêa aponta o ano de 2015 como aquele em que ampliou sua
política de compliance --foi quando se deu o que eles veem como
fortalecimento das políticas e canais de conformidade. Foi também em
2015 que a Odebrecht viu seu marco interno de virada nas políticas de
conformidade da empresa. É nesse ano que são criados e implementados,
por exemplo, o conselho de administração do negócio de construção
especificamente, com integrantes independentes; o comitê de conformidade
(compliance), com um diretor para a área; e novos processos
operacionais específicos para a seleção de terceiros e para o
recebimento de brindes e presentes pelos colaboradores. 

Mercado de construção vira alvo de empresas estrangeiras

Flagrado em atos de corrupção, mercado de construção vira alvo de empresas estrangeiras - Notícias - Política



Flagrado em atos de corrupção, mercado de construção vira alvo de empresas estrangeiras

Guilherme Azevedo
Do UOL, em São Paulo
O quadro de corrupção no segmento de construção pesada do Brasil, revelado e combatido pela Operação Lava Jato, poderá transferir o mercado nacional de grandes obras de infraestrutura para empresas estrangeiras.


Investigadas na Justiça e pressionadas financeiramente por causa de
sanções administrativas e criminais, as grandes empreiteiras nacionais
de construção, como Odebrecht, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão e
Camargo Corrêa, deixam um vazio no mercado. Empresas chinesas de
construção já assumiram obras e serviços, principalmente no segmento de
energia, e começaram aquisições de companhias nacionais.

A
ampliação da presença estrangeira é recebida com atenção por entidades
brasileiras da construção e da engenharia e analistas independentes
procurados pelo UOL. Para eles, o combate ao método que
incorporou sistemicamente propinas a políticos e caixa dois, sendo
agora desvendado pela Lava Jato, investigação com foco em contratos de
obras e serviços da Petrobras e desdobramentos para outras estatais, já
mostra consequências no segmento de construção pesada.

Apogeu e queda de um império

É uma situação complicada para as grandes empresas da construção
pesada, que, em 2013, experimentavam o seu grande momento desde a
redemocratização do país. Ainda não havia a Lava Jato e o primeiro
delator de desvios de recursos da Petrobras, o ex-diretor de
Abastecimento Paulo Roberto Costa, somente revelaria como funcionava o
esquema em agosto de 2014, envolvendo propinas pagas a políticos e a
diretores da estatal, financiamento de campanhas políticas via caixa
dois e formação de cartel.

Essas empreiteiras faziam obras
milionárias, ou bilionárias, nos 12 estádios para a Copa do Mundo de
2014, com execuções viárias nos entornos deles; construções de grandes
plantas energéticas, como as usinas hidrelétricas de Belo Monte, no
Pará, e de Santo Antônio e Jirau, em Rondônia; remodelação do centro
histórico do Rio, já dentro da proposta da Rio-2016; entre outros
projetos de infraestrutura.

Somente as reformas e as construções
dos estádios da Copa custaram, ao final, R$ 8,3 bilhões, segundo o
Ministério do Esporte, quando os custos tinham sido estimados pelo
governo em R$ 2,2 bilhões, em 2007, e em R$ 3,67 bilhões, em 2009
--variação de mais de 270% do valor inicial estimado.

O emprego
na construção pesada (excluindo o segmento de construção civil de
residências e edificações) batia recorde: em dezembro de 2013,
empregava, formalmente, 1,059 milhão de trabalhadores, praticamente o
dobro de 2006, quando 562 mil atuavam formalmente nos canteiros do país,
segundo dados do Ministério do Trabalho. Procuravam-se mais
engenheiros, disputados já nas faculdades pelos novos projetos que saíam
do papel.

Hoje o cenário virou de ponta-cabeça. Alguns dos
principais dirigentes das construtoras, empresários até então
intocáveis, enfrentam processos judiciais, foram condenados e até
presos, como Marcelo Odebrecht, da Odebrecht, e Léo Pinheiro, da OAS.


Pressionadas, as grandes empresas da construção pesada estão
reconhecendo condutas ilegais e buscando acordos para poder voltar ao
mercado.




Com obras paradas, o desemprego na área cresceu. Em dezembro de 2016,
estavam formalmente na construção pesada 686 mil trabalhadores, uma
queda de 35% em relação ao nível de emprego de dezembro de 2013. Até
novembro do ano passado, foram demitidos 46.100 engenheiros e
contratados 27.828, um saldo negativo de 18.272 vagas formais.

ONG Contas Abertas vê "saudável oxigenação" do mercado

"Em relação à construção da infraestrutura, o que está em curso é a
destruição da nossa capacidade gerencial, administrativa e tecnológica
acumulada ao longo de mais de seis décadas. Está se arrasando a
capacidade da engenharia brasileira. É um retrocesso inimaginável", diz
Pedro Celestino, presidente do Clube de Engenharia, com sede no Rio de
Janeiro, a mais antiga associação de engenheiros do Brasil, com 136 anos
de atividade.

No sindicato nacional que reúne e representa os
grandes nomes da construção pesada, o Sinicon (Sindicato Nacional da
Indústria da Construção Pesada), também há preocupação. "Uma empresa
demora 30, 40 anos para conseguir fazer obras de grande capacidade.
Temos de preservar isso. É preciso punir com rigor merecido as pessoas
[envolvidas em desvios], mas não quebrar as empresas. A sede punitiva é
positiva, mas não a custo de liquidar tudo", afirma Petrônio Lerche,
diretor do Sinicon.

É verdade, sim, que outras empresas [de construção] vão ocupar espaços, mas não todos

Petrônio Lerche, diretor do Sinicon


Discorda Gil Castello Branco, economista e secretário-geral da ONG
Contas Abertas, que fiscaliza as contas de governos em todos os níveis e
assume a visão da sociedade civil: "A opinião dos empresários
cartelizados não é a opinião do segmento como um todo".

Segundo
ele, há outras empresas de construção querendo ingressar no mercado de
grandes obras públicas e "só não puderam porque as empresas do cartel
não permitiram". Por isso, defende que o governo incentive o crescimento
das pequenas e médias empresas da construção. "É saudável, vai oxigenar
o mercado." E também recuperaria, diz, o senso de realidade perdido dos
preços dos projetos de infraestrutura.

É que historicamente as
grandes obras públicas foram direcionadas, já nas especificações e
exigências inscritas nos processos de licitação, para as mãos das
grandes empresas da construção, com capacidade reconhecida de gerenciar
projetos de complexidade alta, obter recursos e se financiar.


Além disso, conforme revelado pela Lava Jato e reconhecido pelas
próprias grandes construtoras, havia acertos de preços e rateios de
obras entre essas empresas, definindo, assim, antecipadamente quem
ganharia certa concorrência ou de que forma o projeto seria dividido. A
formação desse cartel impedia o ingresso de outros competidores,
incluindo estrangeiros, e produzia valores de obras superfaturados, que
não correspondiam à realidade dos projetos.

Por um
reposicionamento do mercado de construção pesada mais ou menos como o
delineado pela Contas Abertas também trabalha o SindusconSP (Sindicato
da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo), entidade que
reúne as pequenas e médias empresas da construção paulista, segmento
afetado muito mais pela crise econômica do que pela Lava Jato.


Segundo José Romeu Ferraz Neto, o presidente da entidade, a ideia é
fazer com que seus associados possam participar dos certames dos grandes
projetos. O SindusconSP defende a abertura desse mercado às pequenas e
médias via loteamento ou fatiamento maior das obras dos grandes
empreendimentos na hora de licitar. "Mas isso ainda não aconteceu",
lamenta Ferraz Neto.




"Tem que punir mesmo, e duro, mas sabendo separar as coisas"

Paulo Resende, coordenador do núcleo de estudos de logística,
suprimentos e infraestrutura da Fundação Dom Cabral, afirma que a
engenharia brasileira é referência internacional na execução de grandes
obras de construção civil, experiência adquirida a partir dos grandes
projetos de infraestrutura dos anos de 1960 e 1970, como a usina
hidrelétrica de Itaipu, localizada no rio Paraná, na divisa entre Brasil
e Paraguai, e a ponte Rio-Niterói, sobre a baía de Guanabara.


Para o analista da Dom Cabral, o escândalo de corrupção trazido à tona
exige de toda a população uma nova consciência daqui por diante, mais
equilibrada: "A sociedade precisa procurar amadurecer a ideia de separar
o joio do trigo. É o nosso grande desafio. Se conseguirmos, teremos
aprendido a lidar com qualquer outro escândalo. Não abrindo mão da
punição nunca, porque tem que punir mesmo, e duro, mas sabendo separar
as coisas".

É também de preservação da "banda boa" das grandes
construtoras a posição de Marcos Melo, professor de finanças do Ibmec do
Distrito Federal e especialista no mercado de infraestrutura, que
valoriza o saber produzido por elas.

"(As grandes construtoras)
movimentam uma diversidade muito grande de recursos e pessoas e detêm
tecnologias e conhecimentos únicos. A quantidade de técnicas
desenvolvidas pela Odebrecht, por exemplo, é muito grande. Quando a
empresa se desfaz, isso se perde, porque as pessoas só são capazes de
levar uma parte disso", afirma Melo.

O professor sublinha que
foi um longo processo para a formação e amadurecimento dessas empresas e
sua queda não acontece sem consequências duras. "Em quanto tempo outras
empresas vão poder ocupar esse lugar?", pergunta.

Não se cria uma capacitação gerencial, tecnológica e financeira da noite para o dia. Isso é que nós estamos jogando fora

Pedro Celestino, do Clube de Engenharia


"Que essas empresas [envolvidas] prosseguissem, com faturamento menor, e
tivessem a possibilidade de se reinventar. Com mais governança
corporativa, com políticas de compliance [de conformidade, com regras
disciplinadoras e éticas mais rígidas] mais estruturadas", afirma Paulo
Resende, da Fundação Dom Cabral.

Para Gil Castello Branco, da
Contas Abertas, o momento agora é de as grandes construtoras da Lava
Jato fazerem o "dever de casa". Inclui, diz, a venda de ativos e
participações adquiridos em diversos setores da economia com facilidades
proporcionadas pela corrupção, como garantias de obras e de
financiamentos públicos e privados. "A casa delas caiu e devem agora se
ater ao tamanho real de uma construtora e competir no mundo real,
porque, todos esperamos, a fantasia do cartel acabou."




Abertura aos estrangeiros?

Mas, se a crise geral das grandes da construção pesada se aprofundar
ainda mais, levando até a pedidos de falência, o que vai acontecer?
Interromperá o desenvolvimento da própria engenharia brasileira como um
todo? Produzirá um vazio de serviços a ser ocupado provavelmente por
grandes construtoras estrangeiras, além das que hoje têm participação
relativa no Brasil, normalmente associadas ao capital nacional?


Para Paulo Resende, da Dom Cabral, o "vazio de oferta", somado à
participação menor do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico
e Social) como investidor em infraestrutura, estabelece o "jogo do
mercado". "O que acontece é que isso abre caminho para as grandes
empresas internacionais, e as consequências disso nós não sabemos."


Segundo Resende, o ideal seria que esse ingresso se desse numa fase de
crescimento acelerado do Brasil, em que as empresas de engenharia
estrangeiras entrassem no mercado para auxiliar as nacionais, mesmo que
em consórcio. Mas, no cenário adverso, como se delineia agora, haveria o
preenchimento, não a sociedade ou a complementaridade. "Uma vez que se
ocupa o espaço, cria-se uma barreira de entrada para as brasileiras
dentro do seu próprio país", diz.
 
Marcos Melo,
do Ibmec-DF, identifica que já há uma movimentação notável das grandes
empresas de infraestrutura estrangeiras no Brasil, que pode incluir a
própria compra de construtoras brasileiras, e isso seria natural.


Há quem veja com bons olhos o aumento da participação de estrangeiros
na construção nacional: "Não vejo prejuízo, porque as estrangeiras
contratam mão de obra brasileira e trazem novas tecnologias",
exemplifica Gil Castello Branco, da Contas Abertas.

"Nada indica
que as construtoras estrangeiras são menos corruptas que as nacionais.
Pelo contrário, situações como o contrato envolvendo a holandesa SBM com
a Petrobras [questionado judicialmente] e o cartel do metrô de São
Paulo [que incluiu as estrangeiras Siemens, Alstom e Bombardier, entre
outras] evidenciam como firmas de fora também são alvos de investigações
por ter cometido aparentemente atos ilegais", afirma o historiador
Pedro Campos, professor de história da Universidade Federal Rural do Rio
de Janeiro e autor do livro "Estranhas Catedrais: As Empreiteiras
Brasileiras e a Ditadura Civil-Militar", em que investiga as relações
históricas das grandes construtoras com governos.

'verdade alternativa'

É 'verdade alternativa' fingir que só Temer é inocente no caso Odebrecht - 05/03/2017 - Clóvis Rossi - Colunistas - Folha de S.Paulo



É 'verdade alternativa' fingir que só Temer é inocente no caso Odebrecht











O então presidente do PMDB, um certo Michel Temer, admite publicamente ter pedido contribuição de campanha a Marcelo Odebrecht, presidente de uma empreiteira atolada no maior esquema de corrupção jamais revelado neste país.





A empreiteira, como era inevitável, aceitou contribuir, conforme vazou, com abundância de detalhes.





Temer defende-se dizendo que a "contribuição" foi legal, devidamente
declarada e não parte de um esquema de propina e/ou caixa 2.





Dá para acreditar? Claro que não, se se considerar nota oficial da
Odebrecht, em que ela "reconhece que participou de práticas impróprias
em sua atividade empresarial. (...) Foi um grande erro, uma violação dos
nossos próprios princípios, uma agressão a valores consagrados de
honestidade e ética".





Mais: afirma também que o sistema partidário-eleitoral do Brasil é "ilegal e ilegítimo".





Só mesmo o mais rematado tolo acreditaria que, com todos os outros
políticos, a empreiteira cometeu uma agressão à honestidade e à ética,
mas não com Temer, certo?





No entanto, a maior parte do mundo político e empresarial se finge de
tolo rematado, assobia e olha para o lado, em vez de armar o escândalo
correspondente à revelação pública de uma inaceitável promiscuidade
entre uma autoridade e uma empresa privada que faz negócios com o
governo.





Nem mesmo o PT grita com a força com que gritou quando surgiram as
primeiras suspeitas a respeito de Fernando Collor de Mello. Não tem
moral para se fingir indignado porque lambuzou-se ferozmente com a mesma
promiscuidade.





É, de resto, situação idêntica à do PSDB e de um mundo de outros
partidos. Afinal, como lembrou a Transparência Brasil para o "The New
York Times", 60% dos congressistas brasileiros enfrentam sérias
acusações, como suborno, fraude eleitoral, desmatamento ilegal e até
sequestro e homicídio.





É inevitável concluir que "o sistema político-partidário está
apodrecido", como disse tempos atrás o procurador Carlos Fernando Santos
Lima, que é um dos investigadores da Lava Jato.





Era natural, embora lamentável, que surgissem vozes cavernárias pedindo
um regime militar, como se na ditadura a corrupção tivesse sido
eliminada.





O grande nó da República é que, se a política está podre, a solução
sempre estará na política, até que alguém invente algum modelo melhor de
intermediação entre Estado e sociedade.





O que é inadmissível é o silêncio sobre as ligações do presidente da República e de todo o seu círculo íntimo com escândalos.





É de um cinismo intolerável o raciocínio que se ouve em certos círculos
no sentido de "deixa o Temer p'ra lá, afinal ele mudou as expectativas e
está fazendo ou tentando fazer as reformas".





Por enquanto, aliás, as expectativas que mudaram foram as do tal de
mercado, assim como "reformas" é a palavra-muleta à qual se recorre
sempre quando há uma crise qualquer.





A grande reforma, na verdade, é a do sistema político, que, de resto,
está em crise em boa parte do mundo. Essa, convenhamos, ninguém sabe bem
como fazer, o que só acrescenta sombras ao nó em que vive a República.

EREMILDO, O IDIOTA - Elio Gaspari - Colunistas - Folha de S.Paulo


EREMILDO, O IDIOTA





Eremildo é um idiota e entendeu tudo:





Todos os capilés de empreiteiras dados ao PT eram produto da corrupção,
de propinas e da promiscuidade que os comissários mantinham com as
empresas.





Todos os capilés dados a políticos de todos os outros partidos que
estavam no poder em seus Estados, ou mesmo no governo federal petista,
eram legítimas doações de campanha.

Transposição de águas está em curso

Transposição de águas está em curso, falta transpor a intolerância - 05/03/2017 - Elio Gaspari - Colunistas - Folha de S.Paulo



Transposição de águas está em curso, falta transpor a intolerância

Lalo de Almeida/ Folhapress





Durante o consulado petista, Lula encantou-se com a ideia de
transposição das águas do rio São Francisco e transformou-a numa das
joias de sua coroa. A obra demorou dez anos e custou o dobro do que se
previa, salpicada por mordidas de empreiteiras. Apesar de tudo isso, uma
parte do projeto está ficando pronta. As coisas boas também acontecem.





Desde janeiro, as águas do São Francisco saem do lago da barragem de
Itaparica, em Pernambuco, percorrem 222 quilômetros pelo chamado Eixo
Leste e entram na Paraíba. Na próxima quinta-feira (9), elas chegarão ao
açude de Poções, no município de Monteiro, de onde descerão por
gravidade para o reservatório de Boqueirão, que abastece Campina Grande e
outras 18 cidades.





Ao contrário do que diziam os adversários do projeto, a transposição das
águas do São Francisco não foi "a Transamazônica do Lula". A ideia foi
vista com um certo preconceito regional e uma greve de fome de um bispo
transformou em problema algo que era solução. No capítulo dos grandes
projetos petistas, o do trem-bala, que ligaria o Rio a São Paulo apanhou
muito menos que o da transposição. Com uma diferença: a velha ideia das
águas do São Francisco era boa e deu certo. Felizmente, o trem-bala
ficou no papel.





Os quilômetros de canais que atravessam o semiárido estarão para Lula
assim como Brasília está para Juscelino Kubitschek. (Também vai para a
conta do estilo petista de operar, a transposição de R$ 200 milhões para
o bolso de maganos metidos na obra do Eixo Leste.)





Em janeiro passado, quando inaugurou uma estação de bombeamento no
município de Floresta, em Pernambuco, o presidente Michel Temer pareceu
generoso: "Quero render homenagens aos governos anteriores que tiveram a
ideia, desde 15 anos atrás, de fazer a transposição". Deu também uma
aula de ciência política: "Aqui no Brasil é assim, quando você faz uma
obra o sujeito esquece quem começou".





Temer esqueceu o nome de Lula e fez uma conta astuciosa. O primeiro
projeto de transposição de águas do São Francisco para terras do
semiárido é de 1847. Há "15 anos" (portanto, em 2002, durante o governo
de Fernando Henrique Cardoso), continuava-se no mundo dos debates e dos
projetos centenários. Quem transpôs a ideia para a vida real, arrostando
anos de críticas, foi a jararaca petista. Temer tem o mérito de estar
concluindo uma obra que estava encalhada no final do governo de Dilma
Rousseff. Tendo seu quinhão no êxito, não deve fazer com Lula o que ele
fez com Fernando Henrique, jamais reconhecendo o valor da moeda estável
que lhe entregou em 2003.