domingo, 20 de dezembro de 2015

Afastar Dilma agora seria golpe

Afastar Dilma agora seria golpe, diz autor de ação contra Collor em 92 - 20/12/2015 - Poder - Folha de S.Paulo



Afastar Dilma agora seria golpe, diz autor de ação contra Collor em 92





FERNANDA MENA











"É golpe porque é contrário à Constituição." É assim que Dalmo de Abreu
Dallari, decano jurista e professor emérito da Faculdade de Direito da
USP, se refere ao pedido de impeachment atualmente em trâmite na Câmara
dos Deputados. "Impeachment sem fundamento jurídico é um golpe porque é
uma violência", acrescenta.





Prestes a completar 84 anos, o professor explica a decisão do Supremo
Tribunal Federal de anular a votação secreta na Câmara e reiterar o
poder do Senado no rito do impeachment e evoca a Constituição de 1988 a
cada argumento que dá contrário ao pedido assinado por Hélio Bicudo e
Miguel Reale Jr., dois colegas que rascunharam com ele o pedido de
impedimento do ex-presidente Fernando Collor de Mello em 1992. "Eu não
sou a favor de Dilma. Sou a favor da Constituição."





Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.




*
Folha - O Sr. foi um dos juristas que redigiu o pedido de impeachment
do ex-presidente Fernando Collor de Mello. O uso deste instrumento era
legítimo com Collor, mas não o é com Dilma?






Dalmo Dallari - A questão da legitimidade não é pelo impeachment
em si mesmo, mas pela sua fundamentação. Naquela ocasião, em relação ao
Collor, foram feitas acusações muito precisas. Foram indicados elementos
muito concretos que configuravam crime de responsabilidade. E isso não
aconteceu até agora em relação à presidente Dilma Rousseff. Por isso
essa acusação de agora é ilegítima. Ela não tem fundamentação jurídica.





Que tipo de fundamentação existia à época e não existe hoje?





Contra Collor, houve acusações com muita comprovação de desvio de
recursos públicos em benefício pessoal ou de amigos. Foram indicados
atos praticados pelo presidente e determinações dele que configuravam
crime de responsabilidade, ou seja, eram flagrantemente contrários à
lei. E este é o ponto fundamental, que dava fundamentação jurídica e,
portanto, legitimidade ao pedido.





No caso presente, o que há são, primeiro, afirmações que mais do que
evidentemente não servem de fundamento. Por exemplo, dizer que Dilma
Rousseff, quando presidente da Petrobras, se omitiu. Primeiro que a
Constituição exige "atos" presidenciais. Ora, omissão é a ausência de
atos. Segundo, a Constituição exige para impeachment que esses atos
tenham sido praticados agora, no mandato como presidente.





E não há a mínima acusação de que ela tenha desviado recursos
financeiros em proveito próprio ou de alguém ou para aplicação ilegal,
contrária à lei orçamentária.





As pedaladas fiscais não foram atos presidenciais?





Aquilo que se convencionou chamar de pedaladas, que estão comprovadas,
ditas e afirmadas, o próprio [ex-presidente] Fernando Henrique Cardoso
praticou muito também. A pedalada é um artifício contábil e não um
desvio de recursos financeiros para objetivo ilegal. É um retardamento
na transposição de recursos de um fundo para outro fundo público. Mas
isso não configura nenhum dos crimes de responsabilidade previstos na
lei 1.079 de 1950, que trata do impeachment.





Falta este enquadramento legal que poderia dar legitimidade a um
processo. Por isso não há o mínimo fundamento jurídico para o processo
de impeachment.





Outros juristas que estiveram ao seu lado no impeachment de Collor agora defendem o impeachment de Dilma...





Existem várias razões para isso. Uma delas é um ressentimento pessoal. E
aí eu vou mencionar o meu caríssimo amigo, que eu respeito e admiro
muito, Hélio Bicudo. Ele tem toda uma história magnífica de defesa do
direito. Mas ele se filiou ao PT e teve a pretensão de ser embaixador
brasileiro na Suíça, possivelmente porque é em Genebra que está o centro
de direitos humanos da ONU. Essa história é de amplo conhecimento: ele
ficou absolutamente indignado porque havia manifestado indiretamente
essa ideia, mas não foi recebido pelo presidente Lula para externar essa
vontade. Isso provocou um forte ressentimento.





Não sei por qual motivo o presidente Lula não o recebeu. Hélio Bicudo é
uma figura respeitável. E isso foi decisivo: ele se tornou um
antipetista absolutamente obsessivo.





Agora, o caso de Miguel Reale Jr. é mais evidente: ele é filiado ao
PSDB, de modo que a posição dele é, antes de tudo, política e não
jurídica.





Então, isso explica porque pessoas da área jurídica são favoráveis ao
impeachment mesmo não havendo consistência jurídica para isso.





O Sr. redigiu pedido de impeachment contra FHC em 2001 por negociar
emendas para bloquear uma CPI. O mesmo argumento não poderia ser usado
contra Dilma?






Quem acha isso demonstra absoluta falta de conhecimento jurídico e não
tem nenhuma ideia de que o direito se aplica aos fatos segundo as
circunstâncias. Então a mesma regra jurídica poderá ser invocada mas
aplicada ou não dependendo do conjunto de fatos e de circunstâncias.





Por isso, a própria jurisprudência do STF muda, às vezes oscila. Porque
em relação um determinado preceito jurídico, mas considerando o conjunto
de circunstâncias, o ministro muda a posição. Por isso a jurisprudência
é variável. Isso não significa que os ministros tenham abandonado os
critérios jurídicos absolutamente.





Eu não lembro agora de pormenores da situação contra FHC, mas
possivelmente havia comprovação de fatos que caracterizavam uma agressão
ao direito.





Acentuo muito isso: não tenho vinculação com nenhum dos partidos existentes no Brasil.





Se se acusar amanhã a presidente Dilma dando os fundamentos válidos e
consistentes para sustentar que ela praticou crimes de responsabilidade,
eu serei a favor do impeachment e da punição.





Eu não sou a favor da presidente Dilma, eu sou a favor da Constituição.





O jurista René Dotti diz que há precedente no STF para o pedido de impeachment com base em ações do mandato anterior.





Isso eu acho que é contra o artigo 86 da Constituição, que diz
expressamente que o presidente só pode ser responsabilizado por atos
praticados no exercício do presente mandato.





Mas e o que ela fez como presidente no mandato anterior?





Também não é fundamento jurídico para impeachment. Tem de ser no atual mandato.





Só que a constituição é anterior à reeleição.





Mas a Constituição fala em atos praticados na vigência do seu mandato.
Isso exclui o mandato anterior. Cada mandato tem absoluta autonomia e,
por isso, um tempo certo de duração. Não importa que uma mesma pessoa
receba dois mandatos. Um não é uma prorrogação do anterior. É um novo
mandato eleito.





Isso não parece mais um exercício de retórica?





Não. Senão, nós poderíamos ir buscar lá atrás atos do ex-presidente
Fernando Henrique para declarar, agora, que tudo o que ele fez a partir
de então é nulo porque já teria praticado um crime.





Quando a Constituição diz "o presidente, na vigência do mandato", não há
dúvida: é o presidente atual na vigência do mandato atual que ele está
exercendo.





A falta de governabilidade é argumento para impeachment?





Esse é um argumento político que varia quando alguém é a favor do
governo ou contra ele. Não é um argumento jurídico; portanto, é
ilegítimo.





*Como o Sr. avalia o julgamento do STF sobre o rito do impeachment





Fiquei feliz pela maneira como o julgamento foi conduzido e com suas
conclusões. Ficou evidente que a maioria dos ministros está consciente
de seu papel de guarda da Constituição.





Em termos de conteúdo, foi importante a abordagem feita no tocante ao artifício usado pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, para a votação secreta.
Ela não é prevista na lei, mas foi utilizada como forma de esconder os
seus aliados ou os seus dependentes. Seria uma forma de ocultar do povo
qual foi a condição de cada deputado, e isso daria uma cobertura para
negociatas, grande especialidade do presidente da Câmara. A decisão do
Supremo repeliu isso.





Outro dado que, a meu ver, é de fundamental importância e que estava
sendo esquecido de propósito ou ignorado –porque, infelizmente, muitos
brasileiros que atuam no direito, inclusive alguns professores, não
conhecem a Constituição– é que há uma diferença essencial entre o papel
da Câmara de Deputados e o papel do Senado num processo de impeachment. A
Constituição é muito clara quando diz que compete à Câmara autorizar o
processo pura e simplesmente. Autorizar não é determinar ou ordenar. E
isso estava sendo mal interpretado. Alguns podem não ter lido direito a
Constituição, mas outros estavam maliciosamente fazendo a aplicação dos
preceitos porque lhes era conveniente.





Se essa autorização não é uma ordem ou uma determinação, existe um
segundo momento no Senado. Diz a Constituição que compete exclusivamente
ao Senado o julgamento do processo de impeachment. Então, nessa
competência para julgar está incluída a competência desde logo que não
existe qualquer fundamento e que a proposta deve ser arquivada.





Sem impeachment, não corremos o risco de passar três anos em convulsão social e econômica?





Estou convencido de que a onda do impeachment está chegando ao final. A
partir de março do ano que vem estará tudo voltando ao normal. Temos uma
ordem constitucional democrática muito consistente. A Constituição é
essencialmente democrática e foi feita pelo povo.





Como é que o sr. avalia a postura do vice neste momento de trâmite do impeachment?





Eu acho que, infelizmente, e ele também é meu velho amigo, há uma
vinculação política. E neste caso, mais grave ainda, porque ele seria o
sucessor de Dilma, então, ele tem interesse pessoal no afastamento da
presidente. Ele tem deixado muito evidente este interesse.





E há um aspecto quase terrorista que já foi levantado. A questão de que
Michel Temer, por atos cometidos quando substituiu a Dilma, também
ficaria sujeito a afastamento. Aí o que é que resulta: que a Presidência
do Brasil será entregue a Eduardo Cunha (risos). Deveriam pensar melhor
neste absurdo.





O que eu tenho verificado é que tanto PMDB quanto PSDB já estão em
campanha eleitoral. Muito do que eles dizem contra a Dilma vem daí: de
sua pretensão de surgir como salvador da pátria.





Nenhum deles propôs um plano de governo detalhado. E é isso o que deveriam fazer agora. Quem sabe eu mesmo não me convenceria?





O pedido do procurador-geral, Rodrigo Janot, de afastamento do presidente da Câmara tem fundamento jurídico?





Verifiquei e o Janot agiu rigorosamente dentro da lei. É papel do
Ministério Público e ele fundamentou seu pedido de maneira que existe
sim base jurídica para atendimento da proposta. O Ministério Público
ganhou uma nova força com a Constituição de 1988, e ele é, de certo
modo, um advogado do povo. Sempre que esteja ou ameaçado ou agredido o
interesse público, é ele que deve agir porque tem essa atribuição.





Está bem evidente por todos os elementos a que já foram dados
publicidade que Eduardo Cunha tem agido contrariamente à lei. Mas
escancaradamente contra a lei. Então, não há dúvida de que existe muito
fundamento para essa iniciativa.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Veja explica por que protege PSDB e Azeredo

Veja explica por que protege PSDB e Azeredo | Brasil 24/7









247 –
Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Com esse argumento, a
revista Veja tenta explicar por que blinda, em suas páginas, políticos
do PSDB e o ex-presidente nacional do partido, Eduardo Azeredo, que, na
semana passada, foi condenado a vinte anos de prisão por supostamente
arquitetar o chamado "mensalão tucano".



Em editorial publicado pelo diretor
Eurípedes Alcântara, Veja sustenta que é necessário ter "senso de
proporção". Por isso, Veja dedicou apenas uma página ao caso – ao
contrário das dezenas de capas que publicou em relação ao chamado
"mensalão petista".



Para a revista, o caso tucano foi
pequeno, quando comparado ao petista, e nem deveria ser chamado de
mensalão, uma vez que os depósitos feitos para políticos que se aliaram a
Azeredo, na disputa pelo governo de Minas, em 1998, ocorreram apenas
uma vez. Por isso, segundo Veja, nunca existiu um "mensalão tucano".



É um argumento falacioso porque,
também no caso do PT, os depósitos ocorreram uma única vez, para pagar
dívidas de campanha. Ao contrário do discurso midiático, jamais houve
mensalão (como pagamentos mensais) e o próprio criador do termo, o
ex-deputado Roberto Jefferson, disse se tratar de uma figura retórica.
Portanto, se não houve mensalão tucano, também não houve mensalão
petista.



Outro argumento furado que Veja usa
em defesa de Azeredo é o fato de sua condenação ter ocorrido em primeira
instância, cabendo, portanto, recursos. A revista não lembra que
Azeredo renunciou ao mandato de deputado federal para escapar do Supremo
Tribunal Federal e que a corte desmembrou o caso tucano, reconhecendo
implicitamente ter sido um erro julgar réus sem direito ao foro
privilegiado (como José Genoino, por exemplo) diretamente no STF.



Com sua única página dedicada ao
caso e o editorial de Eurípedes, Veja apenas comprovou o que todos
sempre souberam: a revista é um aparelho ideológico do PSDB.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Cinco lições sobre a vida e o Direito, por ministro Barroso

Cinco lições sobre a vida e o Direito, por ministro Barroso - Migalhas Quentes

 


Patrono da turma de 2014 da faculdade de Direito da UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro, o ministro Luís Roberto Barroso, do STF, proferiu emocionante discurso com reflexões essenciais relacionadas à vida e ao Direito.

Confira a íntegra do texto.
__________


A vida e o Direito: breve manual de instruções
I. Introdução
Eu
poderia gastar um longo tempo descrevendo todos os sentimentos bons que
vieram ao meu espírito ao ser escolhido patrono de uma turma
extraordinária como a de vocês. Mas nós somos – vocês e eu – militantes
da revolução da brevidade. Acreditamos na utopia de que em algum lugar
do futuro juristas falarão menos, escreverão menos e não serão tão
apaixonados pela própria voz.
Por
isso, em lugar de muitas palavras, basta que vejam o brilho dos meus
olhos e sintam a emoção genuína da minha voz. E ninguém terá dúvida da
felicidade imensa que me proporcionaram. Celebramos esta noite, nessa
despedida provisória, o pacto que unirá nossas vidas para sempre, selado
pelos valores que compartilhamos.
É
lugar comum dizer-se que a vida vem sem manual de instruções. Porém,
não resisti à tentação – mais que isso, à ilimitada pretensão – de sanar
essa omissão. Relevem a insensatez. Ela é fruto do meu afeto. Por
certo, ninguém vive a vida dos outros. Cada um descobre, ao longo do
caminho, as suas próprias verdades. Vai aqui, ainda assim, no curto
espaço de tempo que me impus, um guia breve com ideias essenciais
ligadas à vida e ao Direito.
II. A regra nº 1
No
nosso primeiro dia de aula eu lhes narrei o multicitado "caso do
arremesso de anão". Como se lembrarão, em uma localidade próxima a
Paris, uma casa noturna realizava um evento, um torneio no qual os
participantes procuravam atirar um anão, um deficiente físico de baixa
altura, à maior distância possível. O vencedor levava o grande prêmio da
noite. Compreensivelmente horrorizado com a prática, o Prefeito
Municipal interditou a atividade.

Após recursos, idas e vindas, o
Conselho de Estado francês confirmou a proibição. Na ocasião,
dizia-lhes eu, o Conselho afirmou que se aquele pobre homem abria mão de
sua dignidade humana, deixando-se arremessar como se fora um objeto e
não um sujeito de direitos, cabia ao Estado intervir para restabelecer a
sua dignidade perdida. Em meio ao assentimento geral, eu observava que a
história não havia terminado ainda.
E
em seguida, contava que o anão recorrera em todas as instâncias
possíveis, chegando até mesmo à Comissão de Direitos Humanos da ONU,
procurando reverter a proibição. Sustentava ele que não se sentia – o
trocadilho é inevitável – diminuído com aquela prática. Pelo contrário.
Pela
primeira vez em toda a sua vida ele se sentia realizado. Tinha um
emprego, amigos, ganhava salário e gorjetas, e nunca fora tão feliz. A
decisão do Conselho o obrigava a voltar para o mundo onde vivia
esquecido e invisível.
Após eu
narrar a segunda parte da história, todos nos sentíamos divididos em
relação a qual seria a solução correta. E ali, naquele primeiro
encontro, nós estabelecemos que para quem escolhia viver no mundo do
Direito esta era a regra nº 1: nunca forme uma opinião sem antes ouvir
os dois lados.
III. A regra nº 2
Nós
vivemos em um mundo complexo e plural. Como bem ilustra o nosso exemplo
anterior, cada um é feliz à sua maneira. A vida pode ser vista de
múltiplos pontos de observação. Narro-lhes uma história que li
recentemente e que considero uma boa alegoria. Dois amigos estão
sentados em um bar no Alaska, tomando uma cerveja. Começam, como
previsível, conversando sobre mulheres. Depois falam de esportes
diversos. E na medida em que a cerveja acumulava, passam a falar sobre
religião. Um deles é ateu. O outro é um homem religioso. Passam a
discutir sobre a existência de Deus. O ateu fala: "Não é que eu nunca
tenha tentado acreditar, não. Eu tentei. Ainda recentemente. Eu havia me
perdido em uma tempestade de neve em um lugar ermo, comecei a congelar,
percebi que ia morrer ali. Aí, me ajoelhei no chão e disse, bem alto:
Deus, se você existe, me tire dessa situação, salve a minha vida".
Diante de tal depoimento, o religioso disse: “Bom, mas você foi salvo,
você está aqui, deveria ter passado a acreditar". E o ateu responde:
"Nada disso! Deus não deu nem sinal. A sorte que eu tive é que vinha
passando um casal de esquimós. Eles me resgataram, me aqueceram e me
mostraram o caminho de volta. É a eles que eu devo a minha vida".
Note-se que não há aqui qualquer dúvida quanto aos fatos, apenas sobre
como interpretá-los.
Quem está
certo? Onde está a verdade? Na frase feliz da escritora Anais Nin, “nós
não vemos as coisas como elas são, nós as vemos como nós somos”. Para
viver uma vida boa, uma vida completa, cada um deve procurar o bem, o
correto e o justo. Mas sem presunção ou arrogância. Sem desconsiderar o
outro.

Aqui a nossa regra nº 2: a verdade não tem dono.
IV. A regra nº 3
Uma
vez, um sultão poderoso sonhou que havia perdido todos os dentes.
Intrigado, mandou chamar um sábio que o ajudasse a interpretar o sonho. O
sábio fez um ar sombrio e exclamou: "Uma desgraça, Majestade. Os dentes
perdidos significam que Vossa Alteza irá assistir a morte de todos os
seus parentes". Extremamente contrariado, o Sultão mandou aplicar cem
chibatadas no sábio agourento. Em seguida, mandou chamar outro sábio.
Este, ao ouvir o sonho, falou com voz excitada: "Vejo uma grande
felicidade, Majestade. Vossa Alteza irá viver mais do que todos os seus
parentes". Exultante com a revelação, o Sultão mandou pagar ao sábio cem
moedas de ouro. Um cortesão que assistira a ambas as cenas vira-se para
o segundo sábio e lhe diz: "Não consigo entender. Sua resposta foi
exatamente igual à do primeiro sábio. O outro foi castigado e você foi
premiado". Ao que o segundo sábio respondeu: "a diferença não está no
que eu falei, mas em como falei".
Pois
assim é. Na vida, não basta ter razão: é preciso saber levar. É
possível embrulhar os nossos pontos de vista em papel áspero e com
espinhos, revelando indiferença aos sentimentos alheios. Mas, sem
qualquer sacrifício do seu conteúdo, é possível, também, embalá-los em
papel suave, que revele consideração pelo outro.

Esta a nossa regra nº 3: o modo como se fala faz toda a diferença.

V. A regra nº 4Nós
vivemos tempos difíceis. É impossível esconder a sensação de que há
espaços na vida brasileira em que o mal venceu. Domínios em que não
parecem fazer sentido noções como patriotismo, idealismo ou respeito ao
próximo. Mas a história da humanidade demonstra o contrário. O processo
civilizatório segue o seu curso como um rio subterrâneo, impulsionado
pela energia positiva que vem desde o início dos tempos. Uma história
que nos trouxe de um mundo primitivo de aspereza e brutalidade à era dos
direitos humanos. É o bem que vence no final. Se não acabou bem, é
porque não chegou ao fim. O fato de acontecerem tantas coisas tristes e
erradas não nos dispensa de procurarmos agir com integridade e correção.
Estes não são valores instrumentais, mas fins em si mesmos. São
requisitos para uma vida boa. Portanto, independentemente do que estiver
acontecendo à sua volta, faça o melhor papel que puder. A virtude não
precisa de plateia, de aplauso ou de reconhecimento. A virtude é a sua
própria recompensa.
Eis a nossa regra nº 4: seja bom e correto mesmo quando ninguém estiver olhando.
VI. A regra nº 5

Em
uma de suas fábulas, Esopo conta a história de um galo que após intensa
disputa derrotou o oponente, tornando-se o rei do galinheiro. O galo
vencido, dignamente, preparou-se para deixar o terreiro. O vencedor,
vaidoso, subiu ao ponto mais alto do telhado e pôs-se a cantar aos
ventos a sua vitória. Chamou a atenção de uma águia, que arrebatou-o em
vôo rasante, pondo fim ao seu triunfo e à sua vida. E, assim, o galo
aparentemente vencido reinou discretamente, por muito tempo. A moral
dessa história, como próprio das fábulas, é bem simples: devemos ser
altivos na derrota e humildes na vitória. Humildade não significa pedir
licença para viver a própria vida, mas tão-somente abster-se de se
exibir e de ostentar. Ao lado da humildade, há outra virtude que eleva o
espírito e traz felicidade: é a gratidão. Mas atenção, a gratidão é
presa fácil do tempo: tem memória curta (Benjamin Constant) e envelhece
depressa (Aristóteles). Portanto, nessa matéria, sejam rápidos no
gatilho. Agradecer, de coração, enriquece quem oferece e quem recebe.
Em
quase todos os meus discursos de formatura, desde que a vida começou a
me oferecer este presente, eu incluo a passagem que se segue, e que é
pertinente aqui. "As coisas não caem do céu. É preciso ir buscá-las.
Correr atrás, mergulhar fundo, voar alto. Muitas vezes, será necessário
voltar ao ponto de partida e começar tudo de novo. As coisas, eu repito,
não caem do céu. Mas quando, após haverem empenhado cérebro, nervos e
coração, chegarem à vitória final, saboreiem o sucesso gota a gota. Sem
medo, sem culpa e em paz. É uma delícia. Sem esquecer, no entanto, que
ninguém é bom demais. Que ninguém é bom sozinho. E que, no fundo no
fundo, por paradoxal que pareça, as coisas caem mesmo é do céu, e é
preciso agradecer".
Esta a nossa regra nº 5: ninguém é bom demais, ninguém é bom sozinho e é preciso agradecer.
VII. Conclusão
Eis então as cláusulas do nosso pacto, nosso pequeno manual de instruções:


1. Nunca forme uma opinião sem ouvir os dois lados;
2. A verdade não tem dono;
3. O modo como se fala faz toda a diferença;
4. Seja bom e correto mesmo quando ninguém estiver olhando;

5. Ninguém é bom demais, ninguém é bom sozinho e é preciso agradecer.
Aqui
nos despedimos. Quando meu filho caçula tinha 15 anos e foi passar um
semestre em um colégio interno fora, como parte do seu aprendizado de
vida, eu dei a ele alguns conselhos. Pai gosta de dar conselho. E como
vocês são meus filhos espirituais, peço licença aos pais de vocês para
repassá-los textualmente, a cada um, com toda a energia positiva do meu
afeto:
(i) Fique vivo;
(ii) Fique inteiro;
(iii) Seja bom-caráter;
(iv) Seja educado; e
(v) Aproveite a vida, com alegria e leveza.
Vão
em paz. Sejam abençoados. Façam o mundo melhor. E lembrem-se da
advertência inspirada de Disraeli: "A vida é muito curta para ser
pequena".

Juíza lista mentiras de Azeredo em sentença sobre o mensalão tucano

Juíza lista mentiras de Azeredo em sentença sobre o mensalão tucano | Brasil 24/7









Minas 247 - A
juíza da 9ª Vara Criminal de Belo Horizonte Marisa Pinheiro Costa Lage,
que condenou o ex-governador de Minas Gerais Eduardo Azeredo (PSDB)a 20
anos e 10 meses de prisão pela sua participação em um esquema de desvio
de recursos de estatais mineiras, no que ficou conhecido como escândalo
do mensalão tucano, listou uma série de mentiras que teriam sido ditos
pelo tucano em seus depoimentos à Justiça. Segundo a juíza, ficou
comprovada "mesmo que somente após um trabalho extremamente árduo de
retirar, das entranhas do processo, o detalhe, a contradição, a
mentira". Azeredo disse ao Estadão que a magistrada não teria lido os
argumento da sua defesa e que irá recorrer da sentença.


Dentre os diversos pontos citados pela juíza, ela ressalta que
Azeredo destacou não ter conhecimento do uso de caixa 2 em sua campanha
eleitoral e que não acompanhava diretamente as atividades do seu comitê
por estar exercendo a função de governador do Estado. Segundo a
magistrada, "em todas as oportunidades que teve para se manifestar nos
autos, o acusado (Eduardo Azeredo) mentiu, objetivando, de todas as
formas, confundir o julgador e se esquivar de sua responsabilidade
penal".


Na justificativa da condenação, ela destaca que Azeredo "Mentiu sobre
as relações pessoais que possuía com os demais envolvidos, tentando
fazer parecer que eram superficiais", "Mentiu ao afirmar que não se
envolvia na campanha e de nada sabia sobre questões financeiras, o que
restou comprovado por meio das declarações e depoimentos dos
colaboradores de campanha, demonstrando, inclusive, que o acusado
realizou reuniões com lideranças políticas", pontuou.


A juíza também cita que o ex-governador tucano "mentiu ao afirmar que
Claudio Mourão (que foi o tesoureiro da campanha de Azeredo em 1998)
fora o único responsável por toda a questão financeira da campanha, o
que restou esclarecido pelas contradições no próprio interrogatório do
acusado e pelos depoimentos das testemunhas referidas anteriormente".


Na sentença, a juíza também desmonta a afirmação de Azeredo de que
não sabia detalhes sobre a contratação do publicitário Duda Mendonça.
"Mentiu sobre a contratação de Duda Mendonça, afirmando ser o único
político envolvido na campanha que não sabia dos valores que seriam
pagos a ele, o que restou comprovado pelos depoimentos/declarações de
depoimentos e de testemunhas, que o contradisseram: Clésio Soares de
Andrade (candidato a vice de Azeredo em 1998), Walfrido dos Mares Guia,
além dos documentos juntados por Marcos Valério Fernandes de Souza aos
autos", pontuou.


Em outro treco da sentença de 125 páginas, a juíza Marisa Pinheiro
Costa Lage também assegura que Azeredo teria mentido "sobre a
participação de Marcos Valérios e a SMP&B na campanha eleitoral à
reeleição de 1998, diante das declarações de Clésio Andrade, Marcos
Valério, Cláudio Mourão, Denise Landim, Leopoldo José de Oliveira, José
Vicente Fonseca e Alezandre Rogério Martins da Silva".
"Mentiu sobre
os patrocínios determinados pelo Governo do Estado às empresas estatais
Copasa, Comig e Bemge, restando claro que foi o acusado Eduardo Azeredo
quem os determinou para financiar sua campanha, diante de todas as
provas relatadas no item respectivo", relata em outro trecho do
documento.


Mais à frente, ela diz que as mentiras de Azeredo foram feitas de
maneira "despudorada". "Mentiu sobre o pagamento das dívidas de Cláudio
Mourão e Marcos Valério, sendo que, nesse caso, a mentira foi tão
despudorada que prescindível depoimento de testemunha. A análise das
próprias declarações do acusado já seria suficiente para demonstrar o
tamanho da inverdade". A referência se deve a cobrança de uma dívida de
campanha no valor de R$ 700 mil feita por Mourão em 2002. A dívida foi
paga com um cheque assinado por Marcos Valério.


"Enfim, aliados a todos os depoimentos, declarações e documentos que,
por si sós, foram capazes de demonstrar o caminho de mentiras em que se
enveredou o acusado Eduardo Azeredo, encontram-se as declarações de
Clésio Andrade, que afirmou que todas as decisões da campanha eram
tomadas por Eduardo Azeredo, Walfrido dos Mares Guia, Cláudio Mourão,
Álvaro Azeredo e João Heraldo, as quais, associadas às declarações e
depoimentos das testemunhas Nilton Monteiro, Vera Lúcia Mourão e Carlos
Henrique Martins Teixeira, são uníssonas em afirmar que o acusado tinha
conhecimento de toda trama envolvida em sua campanha eleitoral,
tornando-se essa, portanto, a única versão possível e plausível para os
fatos dos autos", afirma a magistrada.

O álbum de fotografias do golpe

O álbum de fotografias do golpe - 18/12/2015 - Vladimir Safatle - Colunistas - Folha de S.Paulo












O álbum de fotografias do golpe











Quem ainda tinha dúvidas a respeito do Brasil estar diante de um golpe
travestido de impeachment viu, nesta última semana, uma série de
acontecimentos reveladores. Eles demonstram claramente como, no vazio do
fim da Nova República, seus antigos atores procuram alguma sobrevida,
nem que seja tomando o Palácio do Planalto de assalto.





Depois de anos operando nas sombras, o vice-presidente conspirador
resolveu transformar seu partido-ônibus, ou seja, esse mesmo partido em
que apertando sempre cabia mais um, em uma máquina monofônica organizada
para garantir que ele será, enfim, alçado à Presidência da República
nos próximos meses. Como o sr. Temer sabe que esta é a única e última
oportunidade da sua vida para sair das sombras em que o destino lhe
colocou, ele resolveu deixar às claras sua aliança com o sr. Cunha.
Vimos então, nesta semana, movimentos inacreditáveis para um partido
acostumado à inércia: seu líder da Câmara "moderado" foi deposto, suas
portas foram fechadas para o ingresso de políticos mais alinhados ao
governo que ele quer derrubar. O próximo passo será, ao que tudo indica,
selar a ruptura em janeiro.





Então, como que por acaso, logo depois de descobrirmos que o sr.
Delcídio do Amaral operou fartamente esquemas de corrupção quando
participava da Petrobras no governo FHC, o PSDB, liderado pelo próprio
ex-presidente em seu momento Carlos Lacerda, declarou estar unido para o
golpe. Não, desculpe-me, na verdade não se trata de um golpe, mas de um
impeachment motivado principalmente pela indignação contra a corrupção
que assola este país na última década. De fato, ninguém melhor para
liderar tal indignação do que o partido de Geraldo Alstom Alckmin, de
Marconi Carlos Cachoeira Perillo, partido já comandado por pessoas do
quilate de Eduardo Azeredo, recém condenado a 20 anos de prisão por
idealizar o mensalão. Mensalão que, segundo o próprio Azeredo em
entrevista para esta Folha em 2007, abasteceu as contas de campanha...
De quem? Sim, dele mesmo, do líder da indignação moral nacional: o sr.
Fernando Henrique Cardoso.





Mas, como se diz nos dias que correm, o impeachment é um instrumento que
precisa do povo na rua. E lá se foi o povo manifestar no domingo para
dar a consagração final à moralização nacional. Lá estava também o
trânsfuga do último "Toy Story", o Superpato da Fiesp e de seu
presidente vitalício, que não deixou de anunciar a esperada adesão dos
empresários paulistas, ou do que restou deles, ao golpe. Só que, vejam
só vocês, a manifestação pró-golpe foi menor do que a manifestação
daqueles que a ele se opõem, realizada na última quarta-feira (16). Ou
seja, o argumento do "clamor das ruas" não vai muito longe, será
necessário inventar outro. Nada estranho, já que julgar o governo Dilma
uma das maiores catástrofes da história recente do país não implica,
necessariamente, achar que tudo se ajeitará se tirarmos a personagem da
linha de frente para conservar e aclamar os velhos operadores de sempre.





Para terminar, no mesmo dia em que o STF decidiu conservar o sr. Cunha à
frente do processo de impeachment, a Procuradoria Geral da República
pediu seu afastamento do cargo de deputado por tentar, como nos bons
tempos de gângsteres, intimidar e constranger testemunhas no caso
Petrobras.





É certo que este álbum de fotografias inacreditável de um golpe primário
mostra muito mais do que a inanidade da oposição e a inépcia do
governo. Ele mostra que as saídas para a crise não estão dadas nos
marcos postos pela crise atual. Se o governo conseguir sobreviver a este
golpe, será difícil imaginar o que restará depois. Este é um governo
sem rumo, governo de uma "conciliação" que nunca houve, vítima de suas
próprias escolhas. Ele continuará sem rumo e sitiado. Se, por sua vez, a
oposição der o golpe, este será só o começo de uma das mais profundas
crises institucionais e sociais que o país conhecerá. No poder, estará a
mais crassa casta oligárquica à frente de um governo ilegítimo, com
poderes policiais e repressivos reforçados.





O que se coloca a nós é a tarefa enorme de pensar saídas a partir do
reconhecimento da verdadeira extensão dos problemas e do esgotamento das
práticas de governo da nossa república.





Como costumamos dizer em psicanálise, a primeira condição para sair do problema é reconhecer seu verdadeiro tamanho.



quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Voto desconcertante de Fachin frustra o Planalto

Voto desconcertante de Fachin frustra o Planalto













Quando
pensamos que a crise política chegou atingiu seu clímax, ela consegue se
agravar mais. Agora, ela vai mesmo testar os limites da democracia
brasileira. A quarta-feira foi boa para oposição, que pode ter o
processo de impeachment legitimado e ainda se livrar de Eduardo Cunha.
Foi ruim para o governo, que perdeu toda as apostas jurídicas no STF. E
foi péssima para o Brasil, que sofreu mais um rebaixamento de rating  e tem um ministro da Fazenda que parece estar no cargo apenas para não piorar as coisas.



O voto proferido pelo ministro Luiz
Fachin sobre as regras do processo de impeachment deixou a oposição
eufórica e os governistas perplexos. Afinal, se o ministro achava que
estava tudo certo no rito imposto por Eduardo Cunha, nem precisava ter
concedido a liminar que suspendeu a instalação da comissão especial. Só
há uma explicação, como disse o cientista político Fernando Abrucio,
para seu voto desconcertante em algumas questões: “acredito que no fundo
a preocupação dele foi reduzir a ingerência do Supremo para garantir a
independência entre os poderes”. 



A convalidação da votação secreta
para a escolha dos integrantes da comissão especial foi o que mais
chocou os políticos, especialmente os senadores, como disse ao 247 o
senador Otto Alencar (PSD-BA):  “O ministro Luiz Edson Fachin, no caso
da votação do Senado para relaxar ou manter a prisão do senador Delcídio
do Amaral,  decidiu por votação aberta. Agora, ao manifestar o seu
voto, na ação que questiona as regras para processar a presidente Dilma
Rousseff, decidiu pela votação secreta. No meu ponto de vista são
situações praticamente idênticas mas as decisões foram diferentes”.



Pode mesmo o ministro ter adotado
posições distintas e contraditórias, neste caso,  movido pela
preocupação com os limites do sistema. Mas, se antes de o
procurador-geral Rodrigo Janot pedir o afastamento de Eduardo Cunha do
mandato de deputado federal e da presidência da Câmara, eram fortes as
previsões de que a maioria dos ministros seguiria o voto do relator,  a
nova variável pode influenciar hoje a continuidade do julgamento, pelo
menos em alguns pontos relacionados com os procedimentos ditados por
Cunha.



Ainda esta semana, segundo fontes do
STF, o plenário do tribunal examinará o pedido de Janot, sobre o qual o
ministro Teori, relator da Lava Jato, não decidirá sozinho. O caso é
grave demais e cria um precedente nunca havido de intervenção do
Judiciário no Legislativo, apesar da força dos argumentos apresentados
por Janot em seu pedido de medida cautelar ao STF.



E hoje, os mesmos ministros que em
breve vão decidir pelo afastamento ou não de Cunha, que representaria um
perigo para a ordem pública e as investigações em curso, dirão se
consideram corretas, como Fachin, todas as  medidas ditada por ele no
processo de impeachment. Mais objetivamente, como sancionar os ritos de
Cunha e depois afastá-lo da Câmara por abuso do mandato e do cargo em
interesse próprio, ao ponto de acolher o pedido de impeachment em
retaliação ao PT por ter anunciado que votaria contra ele no Conselho de
Ética?  Por mais cartesianos que sejam, os ministros do STF têm pela
frente este dilema. Se ele não é jurídico, é pelo menos moral.



Ao decidirem sobre Eduardo Cunha, os
ministros pensarão na independência entre os poderes mas vão se lembrar
também de que, caso o TSE venha a cassar a chapa Dilma-Temer, uma
possibilidade que também existe, o sucessor será justamente Eduardo
Cunha, se continuar sendo presidente da Câmara. Esta não é uma
consideração jurídica mas deve ser política e moral.



Ao final da longa quarta-feira em
que aconteceu tudo isso - o novo rebaixamento do Brasil (após mais uma
trapalhada orçamentária do Governo), o voto desconcertante de Fachin e o
tardio pedido de afastamento de Eduardo Cunha por Janot – o presidente
do Senado Renan Calheiros informou que haverá recesso sim. Alegou que é
preciso “baixar a temperatura política”, embora alguns tenham visto
nisso uma primeira reação à Operação Catilinária da Lava Jato, que o
poupou mas atingiu seu entorno.  O Governo não consegue poupar nem Lula
mas os peemedebista estão sempre achando ou fingindo achar que são
perseguidos por ordem palaciana. Como se o Planalto tivesse algum poder
sobre a República dos juízes, procuradores e delegados de Curitiba, que
de fato regem a dinâmica da crise. Fato é que haverá haverá recesso e
isso significa que tudo ficará para fevereiro. O Congresso fechará as
postas, o STF também e ficaremos todos entregues às reações do mercado a
este  nó político que não se desata.  Termino com a mesma previsão de
ontem. Vem aí o verão da incerteza. E não só o verão pois nada indica um
desfecho antes de março/abril.

sábado, 28 de novembro de 2015

Prisões: promiscuidade entre público e privado dilapida patrimônio público

Prisões: promiscuidade entre público e privado dilapida patrimônio público



Prisões: promiscuidade entre público e privado dilapida patrimônio público

Mário Magalhães
Por Angeli, na “Folha'', 26.11.2015


A
impunidade é combustível indispensável à expansão da corrupção,
modalidade criminosa que exige quem dê e quem receba, o corruptor e o
corrupto. Quando bandidos acabam na cadeia, emite-se um aviso: quem
reeditar práticas semelhantes se arrisca a ter idêntico destino. Se
prevalece a impunidade, o combustível da gatunagem ganha aditivo.

Faz
bem ao Brasil que o senador petista Delcídio do Amaral tenha ido para o
xilindró e que o banqueiro amigo de tantos partidos André Esteves lhe
faça companhia. É saudável que o STF tenha respondido com altivez às
provas e que, no caso do líder do governo no Senado, a maioria dos seus
pares tenha autorizado a prisão, nos termos da lei.

Por mais óbvio
que seja a muita gente, para outros passa despercebido quem é a maior
vítima da corrupção. É o patrimônio público, bem coletivo dos cidadãos,
mais caro ainda aos que dependem do Estado para sobreviver. Num exemplo:
se há quem tenha dinheiro para pagar o colégio privado da gurizada,
parcela expressiva dos brasileiros depende de estabelecimentos públicos
de ensino; a corrupção retira do Estado condições de manter escolas e
oferecer educação de qualidade _no contraste com o desempenho das
particulares, amplia-se o desnível de oportunidades. (Sem falar que os
ricos costumam preferir faculdades públicas, bancadas por todos, em
especial os mais pobres.)

A promiscuidade entre o segmento público
e o privado serve ao segundo. Não que não devam existir parcerias,
pactos, vínculos que promovam vantagens lá e cá. O setor público
melhorando a vida das pessoas. O privado auferindo lucro legítimo.
Relações não promíscuas. O problema é quando o público é prejudicado,
favorecendo o privado, rompendo o equilíbrio na balança de interesses.
Pior ainda, quando o patrimônio público é dilapidado em proveito de
companhias e bolsos particulares.

A Petrobras é exemplar. Sua
constituição foi uma batalha cívica de décadas, vencida contra
petrolíferas privadas nacionais e sobretudo estrangeiras. Sabotagem
nunca faltou contra a Petrobras. Por um bom tempo, opuseram-se opiniões
distintas sobre o monopólio estatal do petróleo, hoje erradicado.

A
partir de determinada quadra, uniram-se para pilhar a Petrobras aqueles
que alardeavam a privatização e os que discursavam em alto brados
contra ela. Associaram-se para roubar. Na prática, para privatizar,
transferindo ilegalmente patrimônio público para mãos de larápios.

Que
independência tem um governante ou legislador cuja campanha é
financiada por empreiteiras, estaleiros e bancos, como o BTG Pactual de
Esteves? Assim como não existe almoço gratuito, “doação de campanha'' é
história da carochinha. As empresas não doam, elas investem. O que o
administrador público e o legislador têm a oferecer em troca, a não ser
abrir mão de interesses públicos, privilegiando os de conglomerados
privados? Podem falar em “contribuição'' em nome de valores da
cidadania, de veleidades sociais, do pragmatismo de o país ir bem, para
as empresas avançarem. Não creio. Basta observar a atuação dos
beneficiários das “doações'', a quem eles servem, por que causas
batalham. Por que a Vale foi tão bem tratada depois da tragédia
criminosa de Mariana?

A promiscuidade é a antessala do crime.

O
senador do PT é o mesmo sujeito nomeado diretor da Petrobras no governo
FHC. O banqueiro seu camarada destinou milhões de reais às campanhas de
Dilma Rousseff e Aécio Neves em 2014. E um trocado ao caixa 1 de
Delcídio _sem contar eventuais pixulecos por baixo do pano.

A verborragia radicalíssima no choque entre vultos da politicalha brasileira disfarça comportamentos parecidos.

Nada
foi tão constrangedor ontem como assistir aos senadores, aos menos de
PT, PSDB e PMDB se humilhando ao elogiar Delcídio do Amaral. O que
temem? A convicção de que lugar de ladrão é na cadeia?

Até quando esperar? — CartaCapital

Até quando esperar? — CartaCapital



Economia

Crescimento

Até quando esperar?

Três anos de escalada dos juros e um semestre de recessão abalam a defesa da atual política econômica






por Luiz Gonzaga Belluzzo e Gabriel Galípolo







publicado
27/11/2015 14h04,



última modificação
28/11/2015 00h37














De 2013 para cá, a Selic, taxa básica, quase dobrou, sem conter a inflação
Em artigo
publicado em outubro deste ano, Orsola Costantini, economista sênior do
Institute for New Economic Thinking, nos oferece uma exegese do conceito
de orçamento ciclicamente ajustado, palmilhando o tortuoso caminho da
proclamada e não comprovada “evolução” do pensamento econômico. 
Um dos economistas mais influentes da Escola de Estocolmo,
Gunnar Myrdal, foi pioneiro em propor regras que permitiam ao governo
equilibrar seu orçamento durante todo o ciclo econômico, em vez de
considerá-lo ano a ano.
Na época, a preocupação era estabelecer uma política fiscal capaz
de suavizar as flutuações econômicas, apoiada na ideia de que o governo
deve proporcionar estímulos fiscais durante o período de retração e,
simetricamente, implementar medidas restritivas durante a expansão,
contendo pressões inflacionárias e garantindo uma transição suave da
parte descendente do ciclo. 
Apesar de a ideia
assemelhar-se à proposta posterior de Keynes para um orçamento de
capital, Myrdal, em 1930, via o investimento público como uma linha de
defesa contra flutuações cíclicas, a ser ativada tão somente quando as
circunstâncias assim determinarem. Recomendava, portanto, intervenções
pontuais de curto prazo.
Dados-Recessão
A ideia de Keynes, por contraposição, é
formulada no capítulo XXIV da Teoria Geral como um projeto de longo
prazo. Na proposta keynesiana, a “socialização do investimento” junta-se
ao sistema tributário progressivo, à eutanásia do rentista e ao
controle do movimento internacional de capitais para prevenir a
instabilidade inerente à economia capitalista. Entre outras coisas,
Keynes pretendia neutralizar os desvarios da finança nacional e
internacional. Sua proposta jamais foi implementada, nem sequer
ensaiada.
Contudo, o debate acerca dos instrumentos para a suavização dos ciclos econômicos, tendo como meta o pleno emprego
a ser alcançado pela socialização do investimento, foi substituído por
um positivismo tardio, que nega a possibilidade de políticas públicas
exercerem efeitos de longo prazo no nível de emprego.
A “hipótese das expectativas racionais”
aliou-se aos modelos de equilíbrio geral, deterministas ou estocásticos,
para deslocar o debate. A incerteza que afetava as decisões
empresariais no capitalismo de Keynes cede lugar à “otimização” dos
indivíduos racionais que conhecem a estrutura da economia, bem como sua
trajetória provável. Esse super-homem não se deixa enganar por
“truques nominais” da política monetária e da política fiscal. A
política econômica para reduzir o desemprego só resultaria em maiores
taxas de inflação e necessidade de maiores impostos no futuro. Segundo o
“teorema da equivalência ricardiana”, o agente racional sabe que o
déficit fiscal de hoje será corrigido “estruturalmente” por mais
impostos amanhã.  
A força e o sucesso dessa
teoria repousam em um conjunto de pressupostos simples: os indivíduos
baseiam suas decisões em expectativas racionais; os mercados são bem
organizados e o sistema de preços, rígidos ou flexíveis, funciona para
alocar eficientemente os recursos; as flutuações da economia em torno de
sua trajetória de equilíbrio decorrem de “choques exógenos”, como
mudanças tecnológicas ou na preferência dos consumidores; os mecanismos
automáticos de ajuste operarão forte e rapidamente; a demanda de moeda é
estável, porque a função reserva de valor que suscita a demanda
especulativa sumiu do mapa; por isso, os ativos financeiros e reais são
altamente intercambiáveis; o consumo depende do valor descontado de
todas as receitas futuras e não da receita corrente; o tropismo em
direção à teoria quantitativa da moeda arquitetou a Nairu (taxa de
desemprego não aceleradora da inflação), concebida para mimetizar o
conceito de taxa natural de desemprego, como advertência aos perigos de
estímulos “pelo lado da demanda”.
A economia tenderia automaticamente ao
equilíbrio a longo prazo, graças à operação das “forças naturais” do
mercado. A austeridade monetária e fiscal é reivindicada como panaceia
destinada a restaurar rapidamente as “condições econômicas normais”.
Isso significa o seguinte: uma vez desvendado o hiato do produto para
definir o produto potencial, emerge a “realidade” escondida sob o véu
dos valores nominais. 
 
 A pedra angular das
estimativas do hiato do produto é a confiança na inflação como
indicador principal dos desvios do produto potencial. Em trabalho
recente do Bank of International Settlements sobre o tema,
Borio, Disyatat e Juselius mostram a tautologia dos cálculos do hiato
do produto: se há fortes tensões inflacionárias, a economia está sendo
pressionada a crescer acima do produto potencial. Se há deflação, está
crescendo abaixo. 
Borio constata que a verificação empírica
dos modelos amparados nessa hipótese apresenta um dilema: ou os
resultados não são economicamente plausíveis ou a hipótese supracitada
da correlação entre inflação e desemprego é irrelevante para o cálculo
do produto. Gentilmente, Borio et al estão dizendo que o
tratamento do hiato do produto está irremediavelmente comprometido com o
vício da tautologia. Os resultados estão contidos nos supostos. Resta à
política econômica satisfazer as expectativas dos agentes racionais,
sinalizando que vai tomar as decisões necessárias para que todos
acreditem na recondução da economia à trilha do “produto natural de
equilíbrio”. E assim estamos de volta ao Nirvana da “economia da
oferta”. 
Resultados
Essas bugigangas encontram guarida nos
argumentos para justificar as elevadas taxas de juros praticadas no
Brasil, sob a lógica de que uma das principais funções do modelo de
metas da inflação é exercida pelo canal das expectativas. Juros
inferiores seriam uma sinalização de renúncia ao comprometimento de
fazer o IPCA convergir para a meta. A deterioração das expectativas
teria impacto na inflação de 2016 e 2017.
De 2013 para cá, a Selic praticamente
dobrou, com um acréscimo de 7 pontos, mas a política monetária vem
apresentando pouco sucesso em trazer a inflação para a meta; entre março
de 2013 e outubro de 2015, o IPCA subiu 19,97%, depois de um choque de
tarifas destinado a alinhar os preços relativos. O argumento de que a
política monetária leva tempo para fazer efeito e o diagnóstico de
inflação de demanda sucumbem ao peso de 33 meses de escalada dos juros e
dois trimestres de recessão.
A mesma lógica patrocina a esperança que
afirma o ajuste fiscal como condição suficiente para a retomada do
crescimento. Comparando o período entre janeiro e setembro de 2014 e
2015, o ajuste fiscal proporcionou uma redução de 4% das despesas
totais, 5,5% nas transferências e 41% dos investimentos do PAC. No
entanto, o déficit primário previsto para o fim de 2015 é quase três
vezes maior do que em 2014 (de 0,37% para 0,9% do PIB).
Partindo das condições estáticas
de equilíbrio, os modelos de expectativas racionais desconsideram a
dinâmica concreta da economia monetária da produção. Na hipótese
keynesiana, as antecipações que sustentam as decisões dos empresários a
respeito dos rendimentos do seu estoque de capital existente ou do
investimento em nova capacidade são tomadas em condições de incerteza
radical. Seria um prodígio se empresários e consumidores antecipassem
o “reequilíbrio” das condições de crescimento depois de um choque de
preços dos insumos universais, choque de juros, subida da inflação e
contração dos gastos públicos. Auguramos que se materializem os efeitos
da bem-vinda desvalorização cambial. 
Qualquer sujeito racional mobilizaria seu
ceticismo quanto ao diagnóstico inicial e faria uma revisão da
prescrição. Expectativas alienadas da experiência reduzem-se a dogmas
irracionais: a pretexto de praticar “ciência”, escapam ao pragmatismo da
arte da política econômica

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Prisão de Delcídio expõe o risco da delação "genérica"

Prisão de Delcídio expõe o risco da delação "genérica" e a eficácia do "Rhum Creosotado" - TIJOLAÇO



Prisão de Delcídio expõe o risco da delação “genérica” e a eficácia do “Rhum Creosotado”

rhum


Repare o leitor que não houve – e nem poderia haver, tamanha a
imundície – um pio de protesto ante a prisão do Senador Delcídio Amaral.


E não pode haver, porque é inequívoca a prova de que não apenas ele
estava praticando um crime como perpetrando outro, o de dar fuga a
Nestor Cerveró.


Abstenho-me de comentar o nojo da situação porque mantenho este blog limpo.


Curioso é que as provas não foram obtidas pela Polícia Federal nem
pelos guapos rapazes do Ministério Público, mas pelo filho de Cerveró,
animado pelo legítimo direito de – já que estamos numa feira judicial –
de negociar (veja como o termo é adequado) a delação premiada do pai.


E ponto, terminam aí as virtudes do episódio.


Começam, então, os episódios, características e, pior, as projeções lógicas que traz com ele, tão ou mais repugnantes.


A primeira delas é a tristíssima constatação que o senso de Justiça
do Supremo Tribunal Federal só é como deveria ser para todos quando
 ofendida a honra de seus integrantes.


Se o senhor – já antecipo a perda iminente do título de Senador –
Delcídio Amaral tivesse dito que “já conversou” comigo ou com o prezado
leitor e a querida leitora sobre como livrar Cerveró, estaríamos nós,
inapelavelmente, execrados nas páginas dos jornais como cúmplices.


Sem dó nem piedade.


Aliás, estariam assim os senhores Ministros do STF se a gravação
tivesse, antes de chegar ao conhecimento do Supremo, sido entregue ao Superior Tribunal da Veja.
Ou, talvez, tenha chegado – tal é a cumplicidade que se formou entre
ela e a República do Paraná e os tenha salvo, coitados, pelo “Rhum
Creosotado” da citação ao Ministro Gilmar Mendes, o qual, claro, não vem
ao caso.


Ninguém irá imaginar se “ser conversado” é prática no STF ou se, como Esteves, o banqueiro Daniel Dantas “conversou” com alguém.


Com toda a razão – e sobretudo, com todos os meios – Suas Excelências
puderam dar fim, desde o início, a qualquer especulação, sem prova,
sobre sua honra e honestidade.


Mas, a esta altura, manifestarem-se indignados pelo vazamento de
informações da Lava-Jato é, convenhamos, reafirmar a refrescância da
pimenta em olhos alheios.


Daí vem a segunda inevitável reflexão.


A delação premiada de Cerveró, está evidente, foi negociada com uma
ratoeira para pegar Delcídio – e, de quebra, o banqueiro André Esteves,
que apesar de eleitor de Aécio e pagador de suas despesas pessoais , virou petista de carteirinha na mídia – e o episódio de ontem terá desdobramentos.


Quanto valerá agora o único caminho da defesa de Delcídio Amaral e de André Esteves, uma nova delação premiada?


Devo estimular a imaginação dos leitores sobre o que ela conteria?


E preciso perguntar se a credibilidade do “conversei com o Lula”
 teria seria a mesma que se teve  ante o “conversei com o Teori” ou o
“conversei com o Tóffoli” ou ainda o “vou pedir ao Temer para conversar
com o Gilmar”.


A espiral de delações, que empresta credibilidade a tudo o
que dizem homens desesperados diante da evidência de suas falcatruas,
turbinada por um Ministério Público e uma Polícia que têm alvos
pré-determinados e uma imprensa histericamente partidarizada
inevitavelmente conduz a isso.


Agora imagine se, para completar a “cruzada moral”, sob o apoio da
indignação moral de todos com o papel dos roedores que caíram na
ratoeira, os ratos passam a guinchar suas delações, para fruir de tudo,
embora com as anilhas eletrônicas do laboratório do Dr. Moro  presas às
patinhas?


Ah, sim, porque queijo guardado eles têm e muito.


Deu-se assim o resultado da ausência da política e da polêmica.


Quando ela passa a um plano inferior, sobram os Esteves, os Delcídios, os Cunha.


Os que “viabilizam”.


E, quando podem ser lenha para fazer arder uma política progressista,
nacionalista e inclusiva, são solenemente lançados ao fogo por seus
pares. Diga-se, não sem “méritos” para isso, embora sejam apenas uns
entre muitos que se beneficiam do inverso desta política.


O Supremo fez o que muita gente neste país desaprendeu a fazer: exerceu seu poder.


Quem não faz isso, cai.


A menos que o ilustre passageiro seja salvo por algum Rhum Creosotado.

O "japonês bonzinho"

Não ponha todas as fichas dos vazamentos no "japonês bonzinho" - TIJOLAÇO |



Não ponha todas as fichas dos vazamentos no “japonês bonzinho”

redherring


A Folha anuncia que a Polícia Federal no Paraná instaurou ontem “um inquérito para apurar quem vazou a minuta da delação premiada do ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró“, que teria ido parar nas mãos do banqueiro André Esteves.


Já há um suspeito, obvio, para o vazamento: o agente Newton Hidenoi Ishii, citado na conversa gravada pelo filho de Cerveró:


BERNARDO: os caras não tinham uma escuta em cima da.. da cela?
DELCÍDIO: Alguém pegou isso aí e deve ter reproduzido. Agora quem fez isso é que a gente não sabe.
EDSON: É o japonês. Se for alguém é o japonês.
DIOGO: É o japonês bonzinho.
DELCÍDIO: O japonês bonzinho?
EDSON: É. Ele vende as informações para as revistas.
BERNARDO: É, é.
E, adiante, citam nominalmente Ishii.


Fácil, não é? Fácil demais, porém.


Primeiro, porque o nome de Newton Ishii circula na internet como o
possível vazador de informações pelo menos desde julho deste ano, desde
que a Época publicou reportagem
sobre ele e seu passado (leia adiante), sem que houvesse qualquer
manifestação concreta de que se pudesse considerá-lo suspeito disso o
que, claro, levaria a seu afastamento, ao menos informal, da operação.


Uma semana antes, havia sido escalado pela PF para uma palestra
a jornalistas sobre os riscos – não se sabe de onde veio isso- de que
“snipers” poderiam estar espreitando os homens que Moro mandava prender
para executá-los, sabe-se lá, a tiro de fuzil. Como as operações eram do
conhecimento, em tese, apenas da PF, do MP e do Gabinete do Dr. Sérgio
Moro, seria interessante saber de onde vem esta suspeita e porque, ao
menos para as teleobjetivas dos fotógrafos, os acusados estiveram sempre
“na mira”.


Ishii, no entanto, continua chefiando as operações da PF e e
participando, como se vê insistentemente nas fotografias, das prisões
mais “atraentes” para a mídia.


Segundo, porque Ishii é chefe de Operações da PF e os acordos de
delação premiada são negociados com os membros do Ministério Público.
Como são, legalmente, sigilosos até que sejam homologados pelo juiz, não
se compreende que haja, durante as conversas, agentes policiais
presentes. Mesmo que, por absurdo, houvesse policiais federais
presentes, estes seriam delegados, não agentes. E Newton Ishii é simples
agente e agente que deveria, ao menos, despertar prudência por seus
antecedentes.


Porque  Ishii já  foi preso e demitido da Polícia por acusação de
contrabando, na Operação Sucuri, realizada lá mesmo no Paraná, em 2003.
Demitido pelo Processo Administrativo Disciplinar n.
007/006-NUDIS/COR/SR/DPF/PR, só  muito tempo depois foi reintegrado, por
ordem judicial, por irregularidades processuais em sua demissão. A
União recorreu e apenas em 2012 esta reintegração foi confirmada pelo STJ.


O “japonês bonzinho”, portanto, seja ou não o vazador que “vende
informações para as revistas”, é o suspeito ideal. Visível e com um
passado suspeito. E, pela mesma razão, para ser a própria expressão
inglesa do red herring, a pista falsa, porque ilude o olfato dos cães farejadores.


Não obstante Delcídio Amaral ser um rato, é preciso saber as
circunstâncias em que lhe armaram a ratoeira e se houve nisso “mãos de
gato”. Por mais que o desempenho naturalíssimo do autor das gravações,
que não denota medo ou mesmo qualquer temor de ser descoberto possa ser
explicado por Bernardo ser ator profissional (o
que não é razão para desqualificar sua ação)  há muitos anos,
há situações que são de enredo de filme de espionagem, como a de atrair a
atenção para um chaveiro-gravador desativado preso à sua mochila – e
devidamente percebida e guardada num armário – que não excluem a
possibilidade de as gravações não terem sido feitas sem a orientação de
quem costuma profissionalmente fazê-las.


O fácil, muitas vezes, é o caminho da ilusão.


A plutocracia na política nacional

Andre Esteves simboliza o poder da plutocracia na política nacional. Por Paulo Nogueira



Andre Esteves simboliza o poder da plutocracia na política nacional. 

 Paulo Nogueira

O que acontece quando a plutocracia toma de assalto a democracia?


Bem, os episódios das últimas horas contam tudo.



O banqueiro Andre Esteves simboliza os estragos que o dinheiro sem freios e limites promove na cena política.


André Esteves, do BTG Pactual, deu 9,5 milhões de reais para a campanha de Dilma e 7,5 milhões para a de Aécio.


Para Eduardo Cunha, ele deu 500 mil reais. Quer dizer: deu entre aspas. Ninguém dinheiro, sobretudo nos montantes de Esteves.


Seu banco só deu menos dinheiro na campanha de 2014, entre os gigantes do sistema financeiro, que o Bradesco.


O dinheiro não destrói tudo, naturalmente. Pode construir coisas boas, na verdade.


Mas o dinheiro simplesmente destruiu as bases da política brasileira.


O dinheiro compra até o amor verdadeiro, disse, numa frase célebre,
Nelson Rodrigues. Na política brasileira, como se viu com Esteves,
compra até uma delação confinada, supostamente, a um pequeno núcleo da
Lava Jato.


Plutocratas como Andre Esteves são os responsáveis pelo pior Congresso que o dinheiro poderia comprar.


A obra magna deles foi Cunha, um mestre na arrecadação de dinheiro
que acabou financiando campanhas para outros candidatos socialmente
deletérios como ele próprio.


São, ou eram, seus paus mandados, na expressão consagrada de delatores que temiam até por sua vida ao falar em Cunha.


Controlando-os pelo dinheiro, Cunha chegou à presidência da Câmara e,
com seus métodos brutais, impôs uma pauta que representa a essência do
atraso.


Como esquecer a votação para suprimir direitos trabalhistas pela terceirização?


Como esquecer as gambiarras para preservar aquilo que o fez ser o que é ou foi, o financiamento privado das campanhas?


E no entanto nada, rigorosamente nada é tão importante para o combate
à corrupção quanto o fim da farra do dinheiro privado nas eleições.


A plutocracia não dinheiro. Ela investe. São
coisas bem diferentes. O papel dos candidatos bancados pelos plutocratas
é defender os interesses de um ínfimo grupo privilegiado.


Para um país cuja marca é a desigualdade social, é uma tragédia.


Você dá ares de legitimidade, através do Congresso, a um processo de pilhagem sobre os brasileiros mais humildes.


Onde estão os congressistas mais combativos pelos direitos sociais,
como Jean Wyllys? Não por acaso, no PSOL, o único partido que rejeita
dinheiro da plutocracia.


Pelas circunstâncias, Andre Esteves é o rosto da ocupação do Congresso pelo dinheiro.


É preciso promover, com urgência, uma desocupação.


E o primeiro e imprescindível passo é controlar, rigidamente, o dinheiro por trás das campanhas.

Carta aberta à ministra Carmen Lúcia, do STF | Brasil 24/7

Carta aberta à ministra Carmen Lúcia, do STF | Brasil 24/7



Dom Orvandil








Carta aberta à ministra Carmen Lúcia, do STF









Prezada Ministra Carmem Lúcia


Nosso País acordou estupefato com a prisão de um senador da
República. Por outro lado, alivio-me com a prisão de um banqueiro, um
dos mais ricos do Brasil.


Não guardo intimidade com o pensamento do Senador Delcídio do Amaral
em virtude de suas origens políticas, ligadas à privatizações e ao
nefasto neoliberalismo. Porém, sua prisão nos coloca sob espanto pelo
colorido de arbitrariedade em face da imunidade parlamentar de que gozam
os eleitos pelo povo para ocupar cadeira na mais alta casa legislativa.


Perdoe-me, ministra Carmem, por me dirigir a senhora sem o traquejo
jurídico próprio dos advogados, já que não sou um e sem a formalidade de
um tribunal, já que não pertenço a nenhum.


Aqui tenho o objetivo de questioná-la pelo que disse na 2ª turma do
STF ao justificar seu voto na decisão do ministro Teori Zavascki ao
ordenar a prisão do Senador Delcídio do Amaral e do Banqueiro André
Esteves.


É de se esperar que os homens e as mulheres eleitos e eleitas sejam
honestos, honestas, probos e probas nas suas atividades parlamentares,
embora alguns afrontem e desrespeitem a sensibilidade social e a
cidadania, como é o caso do Senador Ronaldo Caiado, que frequentemente
usa camiseta amarela com os sinais de 9 dedos, em deboche a deficiência
física do ex-presidente Luiz Inácio Luiz da Silva, sem que seja
incomodado em momento algum por esse preconceito e crime.


Nesta carta singela desejo lhe dizer que me senti ofendido e
desrespeitado como cidadão com seu discurso ao justificar seu voto a
favor da prisão de Delcídio do Amaral, nesta manhã.


A senhora disse que antes nos fizeram acreditar que a esperança
venceu o medo. É evidente que a senhora se referiu à campanha eleitoral e
eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sem citá-lo.


E vencemos mesmo, ministra Carmem. Milhões de brasileiros fomos
ameaçados com o estouro do dólar, com a fuga dos empresários que
investiriam em outros Países abandonando o Brasil ao desemprego e à
pobreza. Uma atriz da TV Globo apareceu em noticiários e na propaganda
eleitoral do PSDB fazendo caras teatrais de assustada e dizendo: "ai,
estou com medo". Pois vencemos essa tentativa. Os milhões de votos
investidos em Lula transcenderam fronteiras partidárias para afirmar
nossa esperança contra as ameaças rasteiras e desonestas. Vencemos o
medo, com muita esperança. O Brasil se sentiu recompensado com essa
vitória. A senhora sabe!


Como cidadão e como povo me sinto ofendido e agredido em minha
esperança e em minha fé com essa sua fala, para mim irônica e sem
nenhuma relação com o mensalão da mídia, com muitos casos dúbios e
influenciados pela opinião publicada.


A senhora carregou sobre a ironia sem nexo ao afirmar que "agora o escárnio venceu o cinismo".


Qual a relação do possível crime do Senador Delcídio do Amaral, nem
investigado totalmente e, muito menos julgado e condenado, com a vitória
da esperança em 2002?


A senhora quer nos envolver em todos os possíveis crimes de Delcídio?
A senhora falou pensando em investigação e condenação do ex-presidente
Lula, o candidato a respeito de quem se usou o slogan "a esperança
venceu o medo"? A senhora já sabe, mesmo sem julgamento, que o Senador
Delcídio do Amaral é criminoso, até mesmo antes da manifestação da casa
onde ele é parlamentar?


Na fundamentação de seu voto a favor da prisão do aludido senador a senhora asseverou que " agora o escárnio venceu o cinismo".


Pergunto se o seu voto não se referia a um senador? Se se referia ao
Senador Delcídio do Amaral qual a relação da ironia com os votos de
milhões de brasileiros que tiveram esperança de mudar aquela realidade
triste de desemprego, de miséria e de pobreza em 2002?


A senhora ameaçou quem ao afirmar posteriormente que "criminosos não
passarão sobre a justiça", alertando a todos do mundo da corrupção?


Perdão, ministra, mas a minha ofensa também vem do fato de a senhora
misturar ironicamente fatos e valores sem nenhuma relação, sendo que a
esperança realmente venceu o medo e sempre vencerá as vilanias da classe
dominante, principalmente da rapinagem dos poderosos internacionais,
que atuam por meio de jagunços nacionais.


Pior, a sua referência de falso senso de oportunidade choca por
estabelecer nexos irreais entre um senador atual, preso acusado de
atrapalhar investigações, com toda a força da esperança de um povo.


Choca mais o fato de a senhora não fazer nenhuma menção ao banqueiro
André Esteves, dono do Banco BTG Pactual, também preso como suspeito de
fazer uma operação polêmica na área internacional da Petrobras, ao
comprar poços de petróleo na África, sendo ele um dos homens mais ricos
do Brasil, um País pobre e, mesmo assim, de esperanças que vencem os
medos.


A senhora não disse nada sobre André Esteves foi pelo fato de ele ser
banqueiro e rico? Haveria na senhora algum senso de seletividade, como o
há na mídia que reforçou com grande destaque as suas palavras?


Enfim, perdoe-me pela ousadia de exercer o direito de questionar, de
me indignar contra as seletividades e contra o deboche em relação ao
povo que tem esperança, apesar do medo que diuturnamente lhe impingem.


• Abraços críticos e fraternos na luta pela justiça e pela paz sociais.

Dom Orvandil, OSF: bispo cabano, farrapo e republicano, presidente da
Ibrapaz, bispo da Diocese Brasil Central e professor universitário,
trabalhando duro sem explorar ninguém