quinta-feira, 7 de outubro de 2010

mundo-abrigo

mundo-abrigo: "De volta - Sobre o 'Espião de Dilma'
Por
Flávia Cera
em setembro 12, 2010 6:24 PM | Permalink | Comentários (10)
Para Idelber Avelar e seu Biscoito que não se cansam de lutar

Há dias tenho pensando em voltar. Tinha jurado para mim mesma que não escreveria sobre política. Mas o que posso fazer diante de uma matéria repulsiva que tenta, pela milésima vez, banalizar a ditadura brasileira e colocar no mesmo patamar torturadores e torturados?

Mas não vou falar aqui do vínculo da Folha com a Ditadura no passado. Vou falar do vínculo da Folha com a Ditadura no presente; sobre a perpetuação da barbárie promovida por um jornal e pelos seus jornalistas; sobre esse absurdo de matéria publicada com o espião da Dilma, que leva esse mesmo nome, sem pudor nem respeito: 'Espião de Dilma'. A Folha largou mão dos eufemismos e imprime em suas páginas, com visível comoção dos que fizeram a matéria, a naturalização do horror.

E tudo começa com a comparação mais esdrúxula que já li na minha vida:

'Filha de imigrante, líder de grupos de resistência à ditadura, ministra e candidata a presidente, Dilma Rousseff pode dizer que foi longe.'

'Não se pode dizer o mesmo de Sílvio Carriço Ribeiro, 69, ex-agente da chamada 'comunidade de informações' na ditadura (1964-1985) e ex-coronel da Brigada Militar: continua morando perto da casa em que Dilma viveu, na Vila Assunção, na zona sul de Porto Alegre, região onde mantinha campana para investigar a 'subversiva'.'

Não, não se pode, e nem jamais poderia, dizer o mesmo do espião da ditadura. Não se pode dizer o mesmo de uma pessoa cuja crítica máxima que consegue fazer de Dilma Rousseff, e que ganha os negritos do resumo da matéria, é que ela 'nasceu para mandar, não para ser mandada' e que alimenta a mesma angústia da Folha: 'Lula vai se enganar com ela'.

A perversão é tanta que conseguem intitular a segunda parte da matéria como 'Lobo', referindo-se a super-elaborada impressão do espião da ditadura de que Dilma não passa de um 'lobo em pele de cordeiro'. O ex-coronel, refere-se a Folha ao espião (porque é preciso manter a autoridade e o respeito com seus ex-chefes), afirma com todo o seu histórico de ter mandado para a prisão e tortura sabe-se lá quantos, que pessoas como Dilma são amargas e duras. Sim, ex-coronel, amarga e dura como era a realidade da qual o senhor foi cúmplice e que até hoje defende.

A falta de qualquer sensibilidade da Folha que endossa uma opinião dessas é indescritível (sem contar o episódio, que é de conhecimento de todos, da Ditabranda). Tudo bem que a Folha queira parar a Dilma, é legítimo que um jornal se oponha. Não é legítimo que ele invente coisas, mas disso ainda podemos fazer piada como o achincalhamento realizado com o #dilmafactsbyfolha no twitter (que Idelber arremata aqui). Mas com a ditadura, só a Folha consegue fazer piada. Nesse sentido, a Folha será, para sempre, insuperável. E, infelizmente, o jornal do futuro, como ela se anuncia porque não dá para imaginar outro futuro para o Brasil enquanto a ditadura não for revista.

É imperdoável que a Lei da Anistia não tenha sido revista (e, para maior desespero, Serra, Marina e Dilma foram contra a revisão). O mínimo que se ganharia com isso seria coibir e levar ao mais alto constrangimento uma matéria como essa do 'Espião da Dilma'. Como isso não acontece (porque 'todo mundo é igual', porque todos foram anistiados) abre-se espaço para a Folha igualar o inigualável: colocar mais de 20 anos depois do fim da Ditadura, a opinião de um espião como fonte de revelações sobre a personalidade da candidata a presidência que foi presa e torturada pelo regime. É o cúmulo do absurdo, mas é a violência mais atroz que se pode cometer.

E, na verdade, eu nem precisaria escrever esse post, porque a banalização do mal está nas palavras do espião publicadas na Folha como última tentativa de nomear Dilma como terrorista: 'atual candidata a presidente nega que tenha atuado diretamente nessas ações, mas são correntes afirmações de que ela tinha conhecimento, ordenou ou planejou várias delas. 'Você determinar ou saber quem fez uma coisa dessas não diminui sua responsabilidade. A responsabilidade é até maior', declara Ribeiro.' Ninguém precisa ter lido Hannah Arendt para entender o que esse monstrinho está falando. Enquanto essa afirmação deveria ser anunciada com todos os auto-falantes do mundo na orelha do espião, na orelha dessa corja da Folha, e de todos aqueles que torturaram, espionaram, mataram, é ele, o ex-coronel espião da Dilma, quem fala com a voz soberana de quem detém a verdade, responsabilizando os outros enquanto deveria ser responsabilizado.

Terão os que pensam que bater na Folha é chutar cachorro morto. Pode ser mesmo. Mas eu, na minha singela insignificância, não queria deixar de revidar o chute no estômago que levei hoje ao ler essa matéria. Eu nasci quando a ditadura já se desfazia, mas fico 'dura e amarga' quando evocam o período banalizando a barbárie, naturalizando os crimes cometidos, querendo nos submeter a esse horror que sempre retorna com esse jornal desprezível, mas ativo e lido no Brasil, que é a Folha de S. Paulo.

Para terminar, um desvio: a psicanálise diz que é sempre o analisando que dá a resposta. Pois foi isso que encontrei nessa sintomática retomada de 'filme premiado em nova campanha na TV' na própria Folha. Deixo-lhes com ele e com a frase que se encaixa à prática dessa merda de jornal: 'É possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade'. Não existe melhor definição para essa matéria: a perpetuação do passado mais sombrio com o sorriso safado e perverso de quem constrói o presente.

– Enviado usando a Barra de Ferramentas Google"

Nenhum comentário:

Postar um comentário