quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Na Prática a Teoria é Outra

Na Prática a Teoria é Outra: "NPTO.
Eba! Degenerou em Bate-Boca!!! 124

O grande mestre Amiano Marcelino não gostou da minha serro-futurologia. Deve ter feito isso por amizade, para me dispensar de discutir com uma cavalgadura que apareceu aqui na caixa de comentários dizendo que salário mínimo não tem impacto nas contas públicas. Agora posso discutir com ele, Amiano Marcelino, que é inteligentão.

Como demonstrarei a seguir, entretanto, Amiano está errado: minha futurologia é bem boa, coisa fina mesmo, uma parada supimpa. A idéia central é que, na campanha, Serra se aproximou da direita errada e da esquerda errada ao mesmo tempo, e não vai ser fácil se desvencilhar disso se ganhar.

Leiam o texto do Amiano, realmente vale a pena. Vou dividir minha resposta em tópicos:

1) O quão válido é um exercício de futurologia?

São indispensáveis. Argumentos sobre preferências sempre implicam contrafactuais: se eu voto na Dilma, é porque faço uma futurologia com ela ganhando, outra com o Serra ganhando, e julgo o primeiro cenário mais favoravelmente que o segundo. A projeção de cenários futuros é condição indispensável à escolha racional.

2) Ghandi vs. Bush:

Gandhi é Marina, Bush é Serra,banco a analogia até o fim enquanto o Serra não pedir desculpas pela campanha que vem fazendo: seu improvável governo seria um governo de direita sem responsabilidade econômica e com tonalidades religiosas, e, a julgar pelos seus comentários sobre o Mercosul, com pouca disposição para diplomacia. O Serra é mais inteligente que o Bush, é claro, mas para compensar isso chamaram o Índio. E é muito mais moderado que o Bush, é claro, mas, para compensar isso, casou. Tudo tem um custo, e se Serra resolveu fazer campanha como Republicano americano, tem que aguentar ser comparado ao Bush.

E dizer isso é ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIO. Porque não se pode deixar o PSDB tentar posar de moderno e pós-graduado se a sua campanha é feita com base em spam religioso. Ou você é Fernando Henrique Cardoso ou você Jânio Quadros. O Jânio até venceu o FHC, mas quem manteve a respeitabilidade foi o tucano, e o FHC conseguiu completar dois mandatos de presidente a mais que o Jânio. José Serra fez sua escolha, ganhou uns pontos nas pesquisas, que agora pague o preço com sua reputação.

O PT está fazendo campanha dizendo que o governo Serra seria um novo governo FHC. Já fiz vários elogios ao governo FHC, mas o Serra não está, absolutamente, se construindo como um novo FHC. Tal como o César Maia, ele não soube manobrar pela direita e sair razoavelmente incólume (como o FHC até que soube, dentro de certos limites). Entrou sem freio, ultrapassou a Veja, e hoje seu programa é isso aí que vocês vêem.

Se ele, com esse perfil, for eleito porque a Marina forçou o segundo turno com uma agenda inteiramente diferente, os formadores de opinião brasileiros terão fracassado em seu dever de esclarecer os debates, por pura covardia intelectual.

3) A Dilma também faz alianças à direita

É claro que fez, e eu defendo que faça. Mas o Serra já está mais à direita da Dilma no começo da conversa, e seus aliados são mais conservadores, indiscutivelmente; logo, o governo do Serra seria, mesmo, muito à direita de um governo Dilma. Muita gente vai achar isso bom, mas não é para eles que eu estou escrevendo.

O que é claro é que Dilma está se movendo para o centro, Serra está se movendo para os extremos. O mesmo movimento, nos dois, tem significado muito diferente: a analogia da campanha dos spams seria a Dilma botar o MST para coordenar a campanha.

4) O Serra daria emprego aos DEMsempregados, o PT daria emprego ao PMDB

Indiscutivelmente verdade. Meu argumento sobre aliados só quer dizer que, se o eleitor da Marina estiver pensando em votar no Serra para não ter um governo corrupto, fará besteira, porque os dois seriam, na interpretação mais favorável ao Serra, igualmente corruptos.

5) Políticas populistas do Serra em economia

Eu não o acuso de propô-las, eu constato que ele o fez: ele está on the record prometendo o mínimo de 600 pratas, dobrar o BF e acrescentar 13º ao programa. Em outra entrevista, Serra deixou claro que não se trata de uma promessa, mas de um anúncio.

Sim, o Malan (que o Serra odiava com todas suas forças) usava esse argumento de quebrar a previdência para qualquer aumento, mas aí é fazer as contas e ver se é o caso. Todo mundo que olhou a sério para esse número disse que se fizer essa brincadeira, as contas públicas estão ferradas. Note-se, sobre isso, o silêncio sepulcral dos economistas do PSDB, que, quando eram governo, se opunham a aumentos muito, muito menores.

6)Dá para dar um olé nesses apoiadores de agora?

Acho que o Amiano não entendeu um ponto do meu texto: eu não acho que se o Serra dispensar os religiosos depois da eleição haverá uma crise, eu acho que se ele refugar nas propostas populistas é que haverá crise. O cara começa o primeiro mandato como o Sarney depois da eleição de 86. Imagina o que será, na mão de qualquer sindicatozinho miserável que seja, o Serra dizendo que tinha prometido 600 mas não vai dar pra dar 600.

E, sobre os religiosos: não tenha dúvida de que, se pintar no Congresso tema com polêmica religiosa, a turma do spam vai cobrar sua conta, e o Serra vai pagar, e vai ter que pagar mais que a Dilma vai ter que pagar pelos apoios que começa a receber agora: porque os religiosos vão poder dizer, no caso do Serra, que ele só teve alguma chance graças a ele. A Dilma, bem ou mal, já tinha 47%.

E não me venham com palhaçada dizendo que Dilma também se curvou à demagogia. Quem abriu essa porta foi o Serra, o irresponsável que agora a feche.

7) Temer

É indiscutivelmente superior ao Índio, se tivermos um governo Temer é ruim, se tivermos um governo Índio é o fim. Nada a discutir aqui. Quando era um grande nome da aliança de FHC, aliás, Temer era universalmente laudado como um dos grandes da República por toda a imprensa.

Em resumo: não concedo, até agora, em ponto nenhum. Meu cenário permanece aí.

Repito, alguém pode dizer, Serra é muito melhor que isso, inclusive começou a campanha de forma muito mais inclusiva. O PSDB tem muito mais a oferecer do que isso, como visto durante os oito anos de governo FHC. Sim, mas não é assim que a nova aliança serrista se conduziu, não é assim que ele se construiu como candidato. Digam o que quiserem do FHC, alguém imagina o cara fazendo essa campanha que o Serra está fazendo? O que já teve foi campanha assim contra ele. Aliás, alguém consegue imaginar o Serra de seis meses atrás fazendo o que está fazendo agora?

Chequem aí o arquivo, duvido que vocês vejam petista mais pronto a elogiar o PSDB do que eu. Mas não é esse PSDB aí dessa campanha que eu elogio, não. Quero ver esse Serra aí ser aceito naquelas reuniões da Terceira Via em Florença depois de perguntar pra todo mundo lá se eles leram o último livro do pastor Silas Malafaia. Esse PSDB não é o da Social-Democracia Brasileira, é o Partido Serrista da Direita Burra. Aécio vai ter trabalho pra limpar isso, supondo que seus planos não sejam definitivamente abortados por uma vitória de Serra.

E tem que discutir o que seria um governo Serra, sim, porque a imprensa não está fazendo isso: a maior demonstração de viés da eleição no primeiro turno foi a quase ausência de críticas ao Serra, mais que as críticas à Dilma (a maioria delas, legítimas): parecia que ele era uma espécie de consciência moral abstrata concorrendo contra a Dilma, que sempre era quem tinha que se defender. Não é: é um político que já governou muita coisa, teve seus problemas (e seus méritos), tem muitos, muitos críticos no mundo da política e entre ex-aliados, e deve ser discutido como tal.

Todos os jornais fizeram editoriais contra a inflexão religiosa, mas sempre na linha “é uma pena que a campanha…”. A campanha é o caralho, caros editorialistas. É uma pena que o Serra. O responsável pela queda do nível do debate na campanha tem endereço conhecido, na rua do careca (onde eu também moro), esquina com avenida do hipocondríaco (também perto de onde eu moro). Serra, repito, perguntou se Dilma acreditava em Deus logo no começo do último debate. Depois que se cruza essa linha, não é fácil voltar.

Do jeito que a coisa está sendo apresentada, a eleição parece ser o seguinte: você acha ou não acha que Dilma é perfeita? Se não acha, vote Serra. Não vai acontecer nada, juro. Não é como se, daí, o Serra fosse ser presidente no lugar da Dilma. Imagina. Você só vai ter dado o recado de que a Dilma precisa melhorar, o que, no longo prazo, só vai ajudá-la, certo? Todo mundo pode melhorar.

Isso é obviamente mentira. Se o sujeito votar no Serra, ele faz o Serra virar presidente da república, você vai derrotar o projeto a favor do qual você votou quando fez o PT ter a maior bancada da Câmara, quando elegeu governistas pelo Brasil afora. A campanha da oposição tenta fazer parecer que votar no Serra, como votar na Marina, é dar um toque na Dilma. Não é: é derrotar os números do Lula com os sermões do Silas Malafaia.

Agora, quanto debate teve no Brasil, esse ano, a respeito desse cenário? Tudo bem que isso não recebesse atenção quando o Serra estava caminhando para ficar atrás do Eymael, mas uma combinação de resultados improváveis o colocou no segundo turno, e agora alguém tem que prestar atenção nisso.

A melhor resposta ao meu cenário é oferecer um cenário mais plausível. Mas para se opor à minha futurologia é necessário (a) provar que as medidas econômicas propostas pelo Serra não teriam efeitos desastrosos, (b) provar que sua candidatura não está dando uma guinada à direita, enquanto Dilma dá uma guinada para o centro, (c) provar que as alianças de Dilma são mais corruptas que as de Serra. Bonus points para quem refutar a idéia de que Marina é mais próxima de Dilma do que de Serra. O que, pela régua do Serra, é verdade. Já mostrei um vídeo aqui pra vocês? Ah, já? Mal aí.

Se alguém mais montar um cenário, que leve em conta os pontos acima, vai dar uma boa discussão, como já foi essa proporcionada pelo sempre alerta Amiano Marcelino, que eu já recomendei pra vocês? Ah, já? Beleza. Depois tem um vídeo aí que eu quero que vocês vejam.

PS: Enquanto isso, Serra, ao melhor estilo Olavo de Carvalho, vai colocando mais gente na conspiração contra ele. Depois da Márcia Peltier, da Miriam Leitão, do cara lá da Folha, o Valor Econômico. Pois é. Teoria do Foro de São Paulo meets PIG.

PSTU: Por outro lado, a única coisa que me agradaria se o Serra ganhasse é que uma porrada de sem-vergonhas do PT e dos partidos aliados mudariam de lado. Já iriam tarde. E, sem dúvida nenhuma, seriam aceitos do outro lado com festa, talvez incorporados ao PPS, talvez atores na próxima propaganda sobre confisco da poupança, quem sabe ungidos no culto do Malafaia como a verdadeira esquerda.

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