sábado, 14 de junho de 2014

Lições do “Ei, Dilma, vai tomar...”

Lições do “Ei, Dilma, vai tomar...” — CartaCapital

Lições do “Ei, Dilma, vai tomar...”

Que lições Dilma vai levar da humilhação mundial que
sofreu na abertura da Copa? Continuará priorizando os que a agrediram ou
quebrará alguns ovos?





por Lino Bocchini







publicado
13/06/2014 11:21,



última modificação
13/06/2014 15:31













Todo mundo viu. Literalmente todo O mundo. Centenas
de milhões assistiram ao vivo um estádio com 62 mil pessoas gritar: “Ei,
Dilma, vai tomar no cu!”. Desculpem escrever o palavrão, mas é
necessário mostrar a gravidade do que ocorreu. Dilma também viu e ouviu,
várias vezes. Na transmissão da Globo o coro invadiu o áudio pelo menos
três vezes.


Em um evento como o desta quinta 12, vaias a mandatários são comuns,
quase a praxe. O que aconteceu em São Paulo na abertura da Copa do
Mundo, contudo, foi além. Não foi uma vaia, como na abertura da Copa das
Confederações, em Brasília. Foi uma monumental grosseria made in
Brazil. Uma falta de educação abissal e carregada de simbolismo. A
plateia que pagou até R$ 990 para estar ali xingando Dilma, e os mais
ricos e famosos não pagaram nada. Zero. Estavam, como por exemplo
Angélica e Luciano Huck, na área VIP.


E o que Dilma achou disso, o que pensou antes de dormir?


Difícil saber como Dilma registrou essa agressão, mas espero que tire uma lição do que presenciou em Itaquera.


Não faz o menor sentido continuar governando prioritariamente
para essas pessoas. E não é uma questão de “gratidão”, nada disso. Dilma
é, claro, a presidenta de todos os brasileiros. Mas não se justifica o
número de concessões e agrados que ela se obriga a fazer para poderosos
em geral, sejam eles do agronegócio, evangélicos fundamentalistas,
banqueiros ou donos de redes de televisão.



Para chegar ao poder e conseguir governar, Lula fez tais
concessões –que já existiam desde sempre, diga-se. Escolheu um grande
empresário para a vice, aliou-se a partidos conservadores, discursou
várias vezes para os donos do dinheiro prometendo não ameaçar seu
poderio –como de fato não o fez. Naquele momento histórico, entretanto,
essa atitude era estratégica, defensável até. Não é mais.



O quadro é outro, o país é outro. Ninguém mais, a não ser os
delirantes que enxergam sombras de Chávez e Fidel embaixo da cama, acha
que o PT vai colocar sem-tetos em seu apartamento ou implantar uma
ditadura comunista no Brasil.



No dito popular, "sem quebrar ovos não se faz uma omelete".
Alguns argumentarão: “mas no Brasil isso é impossível, as estruturas
estão aí há séculos, não dá para mudar tudo de uma vez”. Concordo. Tudo é
muita coisa, e de uma vez é muito rápido. Mas entre o chavismo e os
Estados Unidos há muitas possibilidades. Temos que criar nosso próprio
modelo. E aí não tem jeito: Dilma tem que quebrar alguns ovos. E se não
dá para quebrar a caixa inteira, pelo menos alguns têm que ir para a
frigideira. Por exemplo:



Reforma política profunda, minando o próprio sistema que a faz refém de picaretas históricos por um par de minutos na TV;


Taxação de grandes fortunas, começando pelas astronômicas e inaceitáveis heranças que perpetuam a desigualdade no país;


Reforma agrária real, abandonando o incômodo posto de governo que menos assentou famílias;


Democratização real da comunicação, revendo concessões públicas e alocando melhor as verbas publicitárias governamentais;


Direitos humanos de verdade, encarando de forma contundente o racismo, a homofobia e o machismo;


E por aí vai, o número de “ovos” a ser quebrado no Brasil dava
para fazer uma omelete para o País todo. “Ah, mas não vai dar para fazer
tudo isso”, dirão alguns. É óbvio que não será possível fazer tudo o
que realmente tem de ser feito em nosso país de uma vez e ao mesmo
tempo. Mas para valer a pena um segundo mandato, ou Dilma encara de
frente esses desafios ou seguirá governando para estes que a xingaram de
forma grotesca na abertura da Copa.



O que você escolhe, Dilma?

Nenhum comentário:

Postar um comentário